segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Ti’Artur


Ao tempo, o Ti’Artur tinha trinta e poucos anos e morava no Carvoeiro, onde sempre viveu, até que, prematuramente, traído pelo fígado, se foi embora, ainda que vivendo mais que os anos que por cá andou.

Casou com a Ti’Conceição, que namorou e conseguiu trazer dos lados de Proença, duma aldeia chamada Galisteu. 

Regente escolar, deixou tudo para se dedicar ao marido e filhos, que começaram a surgir logo após o casamento. 

Primeiro uma menina, a seguir o Manelito, que ainda estou a ver, muito ranhoso e choroso, atrás da mãe, que se desdobrava a tratar dele e a aviar os fregueses da loja, nos baixos da casa, onde moravam e davam dormida ao motorista da camioneta da carreira e outros passantes.

Homem de sete ofícios e amigo de toda a gente, podia amedrontar quem o não conhecesse. 

Estava farto de perseguições de polícias e fiscais, que seguiam de perto o contrabando, em que se ocupava o Ti’Artur. 

Por trás de um imponente bigode, escondia-se um coração de enorme grandeza. 

No primeiro o Ti’Artur tinha muito orgulho, no segundo, como aliás no resto do corpo, nem pensava. 

E acabou por pagar muito caro por essa segunda atitude.

Com o seu ar de “ciganão”, negociava em tudo. 

Não escondia de ninguém a sua atracção por tudo que cheirasse a risco e a aventura. 

Tinha enorme prazer em vender “à socapa” cortes de bombazina, garrafas de Domecq, perfumes Tabu e cartas espanholas. 

Também nunca faltavam caramelos de “nuestros hermanos”. 

Gozava mais que lucrava com essas actividades.

Era o taxista da terra e nunca recusava um serviço, salvo se estivesse ausente, ou tivesse abusado da bebida e já se encontrasse no seu “estado normal”. 

Tinha respeito pelos clientes – bêbedo, não conduzia o táxi –, mas nunca se coibia de andar de mota, quer estivesse sóbrio, quer bem carregado.

A “Triumph” era um dos seus encantos. Era uma das coisas que mais estimava, que lhe dava um gosto indescritível. 

Fazia gala de percorrer a estrada, desde o Vale de Santiago até à Sanguinheira, nos fins de tarde, com escape quase livre, camisa aberta e satisfação estampada no rosto. 

Toda a gente abria caminho, à mota do Artur.

Nas várias férias que passei no Carvoeiro, tive o privilégio de ser mais um dos amigos do Ti’Artur, como eu, carinhosamente, lhe chamava; ao que ele retribuía, apresentando-me como o “sobrinho Zeca”. 

Demos muitos passeios, na mota, e nunca tivemos percalços, de maior. 

Com companhia, era cauteloso; para além de ser um excelente condutor.

A casa do velho Cavaco, onde eu ficava aboletado, era próxima da loja e um pouco ao lado da estação dos correios, onde a Zita – hóspede da casa do Ti’Artur – era encarregada. 

O meu tempo dividia-se, entre a loja e os correios.

A respeito dos dois pólos de atracção dos meus dias, o velho Cavaco, que ganhara a vida de terra em terra, como capador, tinha as suas prosas e dava as suas recomendações: 

Vais para casa do Artur namorar a filha do “Zaranza da Feteira”; é das coisas mais bonitas que por aí se encontram, mas tanto quanto sei, é dois ou três anos mais velha e sabe muito mais que tu – todo o cuidado é pouco!... 

O Artur é um homem bom, muito habilidoso nos negócios, mas com a pinga, perde-se!... Isso é mau, além de que perde o respeito por si próprio e até pelos que lhe são mais chegados: mulher e filhos.

Vai com ele para onde quiseres; és bem formado e estou seguro que nada de mal te poderá acontecer. 

Porém, não andes com ele bêbedo em cima daquela mota e evita pegar em qualquer coisa de menos legal, que tenha em casa. 

Sempre fez gala de brincar com guardas e fiscais, mas um dia queima-se – e pode chamuscar alguém –.

Na altura pareceram-me duros e até injustos, os conselhos do Ti’Cavaco; todavia, à distância dos anos e dos factos, é com o maior carinho e gratidão que relembro cada palavra, de sabedoria, dum velho amigo. 

Nunca me arrependi de ser amigo do Ti’Artur e das muitas horas de prosa que tive com a Maria Luísa, dos correios – a Zita –, mas nada posso criticar nas recomendações do meu velho hospedeiro.

Nos meses de Agosto, o Carvoeiro era um autêntico entreposto de muitas e variadas gentes, pois tinha gente emigrada em todos os pontos do mundo: no Brasil, Venezuela, América, África do Sul, Congo Belga, colónias e Europa. 

Ao ouvi-los, na loja do Ti’Artur, sentia um enorme gosto e imensa curiosidade, escutando as histórias de cada um – aventuras e desventuras, sucessos e azares, verdades e mentiras. 

Verdadeiras histórias de gente simples, tão do meu agrado e, feitos os descontos inerentes, carregadas de sabedoria.

O Ti’Artur reparou no interesse e sofreguidão com que eu escutava e perguntava tudo o que dissesse respeito ao longínquo, as considerações que fazia, baseado nos estudos da Geografia e a maneira como aguentava conversas com quem eu nunca vira, sobre ambientes onde nunca estivera.

Um dia convidou-me para uma pescaria, nuns pegos da ribeira do Aziral, no termo de Envendos, a vistas das terras de Proença. 

Iríamos de mota até à Venda Nova e dali em diante, seguiríamos, a corta mato, até à ribeira. 

Saíamos ao romper da manhã e íamos encontrar o resto do grupo, ao nascer do sol.

Conhecia apenas o Ti’Artur; fiquei a conhecer umas trinta e tantas pessoas, que faziam a sua vida em doze países diferentes. 

Devo ter feito milhares de perguntas, posso ter sido muito maçador, não cheguei a lançar o anzol à água, mas comi muito peixe frito, grelhado e em caldeirada.

Ao anoitecer, voltámos até junto da mota e, quando chegámos ao Carvoeiro, o Ti’Artur pôs-se na minha frente, e disse-me: Zeca vê que hoje, ao contrário do habitual, não estou bêbedo. 

Queria, melhor, fazia todo o empenho em arranjar uma coisa que lhe causasse o maior prazer. 

Sei que gosta muito dos convívios, como o de hoje, e fiquei encantado com a maneira como se comportou no meio de tanta gente, de tão diferentes meios e com tantas coisas difíceis de aturar e, para mim, muito difíceis de localizar. 

Agora quero ir consigo, junto do velho Cavaco, dar-lhe nota da maneira como o Zeca se tornou na atracção do convívio, o que muito me honrou; para além de poder mostrar-lhe que não estou sempre bêbedo.

Depois dessas férias, abracei o Ti’Artur três ou quatro vezes; normalmente fazíamo-lo em silêncio e com grande cumplicidade. 

Tive um choque enorme, quando soube que foi traído pelo fígado, embora não fosse, para mim, grande surpresa. 

Não voltei ao Carvoeiro; passei por lá, mas não entrei na casa dele.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Os “travancas”

O “Ti’Manel Balejo” descia da aldeia até às azenhas do Vale do Corisco a qualquer hora do dia, ou da noite, durante todo o ano. 

Medo era palavra que nunca conhecera, segunda a sua própria expressão.

Pouco mais fazia do que moer o pão da aldeia e beber copos de vinho, nas tabernas. 

Não tinha, nem nunca procurara, fregueses de fora da terra, e ainda repartia o serviço com três moleiros que vinham buscar os taleigos dos fregueses; farinha mais fina, para uns bolos, ou uns caldos, para as filhós do Natal, para um casamento ou baptizado, não saía das mós das azenhas dele.

A alcunha vinha-lhe dos antepassados e aplicava-se só a três dos oito irmãos – nunca conseguimos apurar nada relacionado com tal designação –. 

O sobrenome e apelido, verdadeiros, eram Marques Morcego. Pela quantidade de vezes que dizia para o macho: anda lá, alma do diabo!... era conhecido pelo... "alma do diabo"!...

O animal, que transportava os taleigos, era, nas palavras do dono, mais manso e menos bruto que ele.

 As raparigas, e muitas mulheres casadas, não passavam, junto do moleiro, sem uma chalaça:

Cortaste o cabelo para ficares mais bonita?!... “Atão” porque não ficaste?!... Tens dois filhos?!... “Atão” o teu “home” não é capaz de te fazer mais?!... E assim por diante, neste género de prosas, muitas vezes bastante inconvenientes.

Até já tinha experimentado, no focinho, as costas de muitas mãos, como comentavam as mulheres mais ousadas, na fonte, ou na lavagem da roupa.

Um dia, na taberna da terra, juntou-se com um caldeireiro que passava muitas vezes pela aldeia e, no meio de uns copos, entraram de chalaça. 

Na conversa, o moleiro atirou ao Manel da Rosa: 

Olha lá, não passaste ali na ladeira das Taliscas, a caminho de Alcaravela, na noite de anteontem?!... 

Eu não, Ti’Manel Balejo, não sou como os morcegos, nem como os moleiros; a essas horas estou na malhada, com a minha Rosa, a fazer o que não encomendo aos outros.

Pois olha que passaram, bem na minha frente, uns “travancas” que faziam uma restolhada dos diabos, cheiravam mal que tresandavam, ladravam como cães e iam com uma pressa maior que a que levam os condenados para o Inferno. 

Desapareceram, para os lados de Alcaravela. Lembrei-me de ti!....

Olhe, Ti’Manel, sempre ouvi dizer que essas almas penadas são, normalmente de alguém que tem de prestar contas pelo que tirou aos fregueses.

Uns têm que amassar o pão ao Diabo, outros, têm de visitar sete vilas acasteladas, por noite, e outros, encarnam bichos malcheirosos e muito mal recebidos pelos cães das aldeias.

Pode crer que nunca vi nada dessas coisas, nem acredito nelas, mas se o povo o diz, quem sou eu para não o aceitar.

Fazes bem, homem. 

Olha que se o meu macho falasse, poderia dizer que não é homem, nem animal manso, que aceita um diabo daqueles no corpo; aquilo é coisa do outro mundo, que nos deixa sem pinga de sangue, desaparece, tal como apareceu, e pronto!

Olhe, Ti’Manel, os cães do Luís Matos e os do seu sobrinho, Joaquim, apareceram, ontem, junto de casa, logo pela manhã, todos mordidos e arranhados?!... 

E o Augusto Macedo ao chegar à horta do Valdeira, deparou-se com um cenário dos diabos: o milho todo arrasado, a terra toda remexida e a própria represa furada! 

Não lhe foi muito difícil verificar que havia muitas pegadas de javardos e de cães e que ali houve luta da grossa. 

Pelas pegadas e estado das plantas, via-se, perfeitamente, que os estragos já datavam de algumas horas atrás!

Aquilo, Ti’Manel, era um tropel de cães, javardos e crias, que andavam todos engalfinhados e o lume que deixavam no ar, mais não era que o luzir dos olhos em plena escuridão. 

Certamente o seu macho teve menos medo que “vomecê” e, também estava menos bêbedo, o que o terá ajudado a compreender que a luta a que assistia, não era dele. 

A si, na altura, só lhe cheirou mal; ao macho foi o fedor que o ajudou a perceber o que se passava.

Bem, desta vez és capaz de ter razão. 

Mas olha que uma noite, entraram-me pela porta da azenha, numa restolhada medonha: havia mesmo gritos e ais, no meio de grande alarido. 

Pouco depois era lume por todo o lado e até conseguiram travar as pedras e pararem os engenhos, ao mesmo tempo que faziam desaparecer todo o cereal da maceira. 

Coisa dos demónios; como tal nunca tinha visto e, de repente, tudo ficou calmo e voltou ao normal.

Oh! Ti’Manel Balejo, sou caldeireiro e também me engrosso, às vezes. 

Mas olhe que nunca me esqueci de encher a tremonha da azenha de grão, porque não tenho azenha, nem tenho grão. 

Porém, não é o seu caso, Ti’Manel. 

Nessa noite, bebeu uns golitos a mais da pinga da cabaça; encostou-se, no catre, sem encher a maceira de grão e acordou estremunhado, com as pedras a roçarem uma na outra, sem grão de permeio, a alta velocidade e faiscando, por todos os cantos e lados... teve sorte em não se lhe ter incendiado a manta com que se cobre.... 

Os “travancas”, estão, há muitos anos, na sua cabeça.

 Nas histórias da sua infância.

Já agora, o Ti’Manel pague lá mais um copito e tenha cuidado quando descer hoje a ladeira das Taliscas; choveu e o barro apegadiço está muito escorregadio, pelo que deve ter cuidado com o macho, não o carregando muito. 

Passe pelas brasas, antes de se fazer ao caminho, pois se já tiver a coisa curtida, não vai encontrar travancas, nem bruxas, nem lobisomens, ou almas do outro mundo. 

Faça o caminho, devagar, assobiando, acompanhado pelo seu Jeremias, que nada mais quer que caçar um ou outro coelho, mais desprevenido, ou alguma ratazana, lá nos contornos da azenha.

No outro dia, procurou o caldeireiro, para lhe agradecer os sonhos que tinha tido, no catre e dizer-lhe que os copitos do dia anterior foram bem empregados. 

Mas o caldeireiro já partira, errando, de aldeia em aldeia e bebendo aqui com uns, além com outros!...

Seguiu a sua vida…

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O mestre-escola


Nos meados do século passado, a figura de Professor Primário, como a de Padre e as Autoridades da terra e do concelho, estavam acima dos outros mortais. 

Havia respeito total, absoluto e incondicional e quando os pais iam levar os filhos, pela primeira vez, à escola, recomendavam e pediam: 

Senhor Professor ou, o mais vulgar, Senhora Professora, chegue-lhe, se precisar!

Nunca lhe doam as mãos, pois só se perdem as que caem no chão!

Faça dele um homem – ou uma mulher – que nós saberemos agradecer-lhe!

Em casa da Professora não faltava nada; era um corrupio a levar os mimos e as primícias das colheitas, passando pelos queijos, ovos e consumos do dia-a-dia, até ao pão, acabado de cozer.

Uma vez por mês, ia à vila, receber os seiscentos mil réis de ordenado de Regente do Posto Escolar, ou o conto e duzentos, de Professor e aproveitava para dar um jeito no cabelo.

Visitava uma ou outra loja de roupas e sapatos e nunca regressava à aldeia sem passar pela farmácia, onde deixava uma parte dos seus parcos proventos, em troca dos comprimidos para as dores de cabeça, flatulência, vesícula, dores reumáticas. 


Trazia para uso próprio e para dispensar aos aflitos, na aldeia.

Visitava, normalmente, o Senhor Delegado Escolar e o Senhor Vigário, com quem combinava a participação nas cerimónias religiosas e de quem recebia orientação e documentação para promover as vocações, organizar os peditórios para a Paróquia, os Seminários e as Missões. 

Organizava-se, também, a Cruzada e a Catequese.

Nas aldeias, a Professora passava o dia na escola; ia a casa, para tomar as refeições, ensinava as raparigas casadoiras a coser e bordar e lia uns livritos da Biblioteca. 

Tinham uma certa dificuldade em arranjar namoros. Até porque a Lei impunha restrições aos candidatos a marido de Professora.

As aulas, na Escola, ou Posto Escolar, com duas ou três dezenas de alunos, das quatro classes – iam das nove às dezoito horas – decorriam na mais rígida ordem e disciplina e, por vezes, os mais adiantados ensinavam os mais novos a fazer contas, estudar a tabuada, ou ler no livro de leituras. 

No fim de cada ano, os alunos dos Postos Escolares, iam prestar provas de passagem de classe à Escola mais próxima, ou fazer exame da quarta classe à sede do concelho, onde, não raras vezes, eram aprovados com distinção.

É da mais elementar justiça reconhecer o trabalho destas senhoras – havia muito poucos Regentes Escolares do sexo masculino – que ensinaram até onde tinham aprendido e desenvolveram em muitas crianças, por essas aldeias fora, hábitos de trabalho e estudo, a par de uma formação moral baseada em sólidos princípios de cidadania e amor pelo próximo, que serviram de orientação a muito boa gente.

É de lamentar que a reorganização social, que tantos benefícios trouxe, tenha enjeitado muitas das bases, sem acautelar o civismo, o amor e respeito pelo semelhante, o valor da pessoa, no seu todo, e as instituições que a servem. 

Por mim, não quero esquecer as primeiras Regentes Escolares, que tive por professoras; elas ensinaram-me muitas coisas que me tenho recusado a abandonar e continuo a seguir, como capítulos do mais belo tratado que um homem pode escrever – a vida –. 

Foram elas, que me motivaram a ser Professor. 

Embora tenha, mais tarde, abandonado a profissão, sempre me orgulhei de dar um carácter didáctico ao meu trabalho e nunca me esquivei a ensinar aos outros, até onde pude e soube!...

Tenho sempre presentes os meus alunos, os muitos amigos... e todos quantos se iniciaram comigo, nas artes das Vendas e das Técnicas de Marketing, em que tenho desenvolvido a minha actividade profissional.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A tabuleta dos 35 padres



O Jerónimo nasceu nas barbas da Serra, e ali se criou, entre barrocos e giestas, até que, aos onze anos, depois de fazer, com distinção, o exame do 2º grau, foi para o Seminário do Fundão.

Isso não o desgostou, todavia jamais perceberia bem, porquê.


Levava nos pés o par de botas que calçara, pela primeira vez, no dia do exame.

No enxoval, que o acompanhava, iam algumas peças de roupa nova e muitas outras, feitas com aproveitamentos das fatiotas dos irmãos mais velhos.


Deixava para trás o que nunca esqueceria: a guarda do gado, a apanha das batatas e das castanhas e os outros servicitos, com que ajudava a mãe, Narcisa do Vale, mulher piedosa e temente a Deus, que conseguia gerir, como ninguém, os parcos proventos, resultantes da venda dos ovos de meia dúzia de galinhas e dos queijos de meia dúzia de ovelhas.

Dali tirava os tostões com que mercava, na “venda”, os quilitos de mercearia, as barras de sabão macaco, para a barrela da roupa, e uns metros de cotim ou de chita, com que fazia calças para os homens e saias, ou blusas, para ela.

O pai, homem de poucas palavras, trabalhava no campo, dando jornais às casas mais remediadas e cuidava de uma pequena leira, junto da ribeira, de onde vinham as batatas e os mimos da casa. 

Ali e em dois pequenos lameiros alimentava as cabeças de gado e uma vaquita que iam dando leite, para fazer uns queijos e no fim do ano umas crias para vender na feira do gado.


O irmão mais velho, já servente de pedreiro, andava a iniciar-se na arte e o outro, com mais dois anos que o Jerónimo, malhava ferro, no ferreiro da aldeia, que era exímio a calçar uma ferramenta, ou a tratar os cascos e ferrar uma besta.

Viria a ser o ferrador da terra; ofício com que ganharia bem, a vida.


No Seminário teve, desde o primeiro dia – que recordou sempre com muita saudade, como fazia questão de repetir –, um comportamento exemplar.

Estabeleceu três metas, em planos diferentes: educação, instrução e formação.

Estava disposto a ir o mais longe possível em cada um destes objectivos.


Bebeu, com a maior avidez, todos os princípios e boas-maneiras que caracterizam um homem de sociedade; estudou e aprendeu quanto pôde e as suas notas eram das melhores: “barra” em Matemática e Latim, muito interessado em História e Geografia e com alguma dificuldade na Língua Materna e Retórica.

No plano da formação pode dizer-se que, ao fim de cinco anos de Seminário, estava um homem – compenetrado das suas obrigações e dedicado a todos os que o contactavam.


Em férias, na aldeia, era respeitado e acarinhado por todos, que diziam estar ali um futuro padre; não como muitos que nem sempre põem os interesses dos semelhantes acima dos seus, mas o verdadeiro exemplo de pessoa bem formada e talhada para aquilo que se propunha.

Não passou despercebido à Maria Luísa, moçoila um ano mais velha, que desde os bancos da escola o olhava de maneira especial e diferente das outras colegas.

Lembrava o rosto cândido e sereno, que mostrava sinais de barba, embora mantivesse muita serenidade e paz de espírito.

Mas não o via padre...


Nunca se soube bem porquê, nem por que forças, encontraram-se, num dia de Verão, à tardinha, junto à fonte. 

Anos mais tarde, a Maria Luísa viria a confidenciar que se fazia encontrada, mas tinha sempre a sensação que o Jerónimo não estava para aí virado, nem entendia os seus propósitos.

Cruzaram olhares, trocaram duas ou três palavras de circunstância e separaram-se; mas ficaram, ambos, com uma mesma certeza: nem a moçoila ficaria solteira, nem o seminarista havia de ser padre.


Como dois vulcões, em plena erupção, separaram-se no final das férias, indo o rapaz para o quinto ano, no Seminário, e a menina para a Escola do Magistério.

Passado um ano, de grandes e penosas lutas interiores, o Jerónimo completava o quinto ano e anunciava ao Vice-reitor que não transitaria para o Seminário Maior, pois já informara o seu director espiritual que não seria ordenado padre.


A Maria Luísa ia para o segundo ano e concluiria o curso no final do ano.

Embora nada de concreto se tivesse passado, ou sido acertado entre ambos, queriam os dois o mesmo.

Nunca o disseram, sendo, com alguma surpresa, que a menina veio a saber, que o Jerónimo decidira abandonar o Seminário.


Quase a completar dezoito anos, o Jerónimo trabalhou na cidade, como marçano e ajudante de cartório, colaborando, activamente em todos os serviços da paróquia, quer acolitando o vigário, quer organizando cerimónias, mas sempre fiel ao rumo que traçara, antes de tomar a decisão, não muito bem aceite pelos pais, de abandonar a carreira eclesiástica e que consistia em fazer exames de equivalência para transição para o ensino oficial e matricular-se na Escola do Magistério, para vir a ser Professor Primário.

Nas férias da Maria Luísa, dado que o Jerónimo já não tinha férias, apenas por duas ou três vezes se encontraram, lá na aldeia.

Num desses fortuitos encontros o rapaz manifestou os seus intentos de que se conjugassem para que fizessem projectos de vida.

Propunha o namoro que os levasse, quando fosse altura disso, ao altar.


A menina agradeceu, ternamente, a primeira prenda do namorado, dizendo apenas que acabava de ter a maior alegria da sua vida.

Disse apenas uma frase: sempre te amei e seremos muito felizes, tenho a certeza; conta comigo!...


A vida ia correndo, de feição; durante o ano seguinte, o rapaz arranjou emprego na biblioteca pública e teve aulas, dadas, graciosamente, por um professor do liceu, com quem costumava trocar impressões e aconselhar-se.

Candidatou-se, no ano seguinte, aos exames do segundo e quinto anos e, sem surpresa, viria a obter dispensa das provas orais, em ambos.

Fez exame de admissão ao Magistério, vindo a ser, dois anos depois, Professor.


A noiva já trabalhara, numa aldeia não distante da cidade, como Professora Agregada e começou a fazer parte dos planos a aproximação do futuro casal, mas o serviço militar reclamava a presença do Jerónimo.

Esteve em Tavira durante seis longos meses, onde teve a instrução de base e foi promovido a cabo miliciano, transitando em seguida para a sua cidade, onde cumpriria dois anos de serviço. 

Liberto do serviço militar, combinou o casamento, que viria a ser uma cerimónia íntima e simples, na igreja da aldeia.


No Outubro seguinte eram ambos nomeados para escolas da terra, masculina e feminina, onde, ao abrigo da lei dos cônjuges, seriam colocados como Professores Efectivos.

Durante os oito anos seguintes, tiveram cinco rapazes e uma menina que era o desvelo de pais e irmãos; a Maria da Graça, que vinte e cinco anos mais tarde cursaria medicina e viria a ser uma distinta pediatra.

Três dos cinco irmãos foram padres, sem grande interferência do pai, como fazia questão de salientar o velho Professor Jerónimo.

E acrescentava, com muito orgulho: são vinte e sete ex-alunos, só de minha parte, já que da Maria Luísa foram mais oito, que se ordenaram padres.

Morro em paz; tenho a missão cumprida!...


Ao longo de quarenta e cinco anos de serviço, o casal de Professores iniciou a vida e a carreira de centenas de vultos das letras e da sociedade do País.

Para além dos trinta e cinco padres, que, salvo duas justificadas excepções, estiveram nas cerimónias fúnebres dos mestres, deixaram magistrados, médicos e professores, entre uma plêiade de gente grada e, certamente grata, espalhada por quase todos os continentes.

Em sua memória, numa pequena lápide, colocada junto da fonte, lá na aldeia, o povo escreveu: Homenagem aos Professores Jerónimo e Maria Luísa, que nasceram e viveram nesta terra, onde faleceram em 1968.

PS.: A lápide foi depois completada, pelo desvelo e engenho do Presidente da Junta de Freguesia: “e foram “pais” de nada menos de trinta e cinco padres”.

O povo, claro, passou a dizer a “tabuleta dos 35 padres”.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O barrete do Ti’Manel


O ti’Manel Pisco morava lá para o cimo do Casal, junto ao ribeirito que descia da Barroca para a Horta de Casa.

Na cachoeirita, junto à casa, numa curva do caminho, chegou a lavar-se a roupa e até foi local de lavagem das tripas, por alturas de matanças do porcos.

A Ti’Maria da Barroca, com quem casara, muitos anos antes, sempre fora mulher de pouca saúde e fracas cores.

Cuidava dos dois filhos e guardava duas ou três cabritas e uma ou duas ovelhas, donde provinha o leite que, nas falas do povo, dava os melhores queijos da terra.

A casa de habitação, retirada da rua, num cotovelo do ribeirito, tinha anexos os cómodos do costume: barracão, cabana do carro, palheiro do macho, cerca do gado, pocilga do porco, forno do pão e casa da despensa, onde além das batatas, cebolas, alhos e ramos de louro, se guardava a talha do azeite, os cântaros das azeitonas e alguma fruta e outros mimos da casa, sem esquecer o pote do mel, de que o Ti’Manel era o maior produtor da aldeia.

Uma meia dúzia de galinhas, um capãozito e uma ninhada de pintainhos, tinham o privilégio de vaguear pelo quintal, arranjando assim a maior parte do sustento, completado com algumas hortaliças, restos do caldo, ou uns bagos de milho, em alturas de mais carências na hortita.

Os ovos rendiam cinco ou seis mil réis, por semana, dinheirito esse que constituía o fundo de maneio da Ti’Maria, usado para comprar uma chitas, popelinas, linhas e botões, a um dos tendeiros que semanalmente visitam a aldeia e alguma mercearia, na taberna, onde se vendia de tudo, desde petróleo a açúcar e a cevada moída, que aquecia o estômago, de manhã.

Além do macho, de provecta idade, manso como as pedras da calçada, fazia parte da família um cachorrito, que respondia pelo nome de “farrusco”e raramente abandonava o dono, especialmente quando este estava nas redondezas da casa.

Ao fundo da cabana do carro, situava-se o poço, com mais ou menos metro e meio de diâmetro e não mais de quinze palmos de fundura.

Em volta do poço, um muro redondo, com uns sessenta centímetros de altura e, sobre ele, a armação de ferro, onde trabalhava a roldana em que deslizava a corda que prendia o balde da água.

A uns dois metros do poço, estava a laranjeira.

Nas falas e sentimentos do dono, não havia melhores laranjas, no mundo, que as da sua laranjeira.

Mas vale a pena reproduzir a frase do Ti’Manel que definia o seu sentimento quanto à sua arvorezita:

”Em mais de meio mundo, que já vi, nunca encontrei nada que me satisfizesse mais que uma boa sesta à sombra da minha laranjeira”.


Com a forma de sepultura antropomórfica, escavou o Ti’Manel, uma pequena cova, com um palmo de fundo, exactamente no sentido da sombra da laranjeira, nas horas de maior calmaria.

Encheu a cova com palha de centeio.

Na parte virada a norte, o Ti’Manel teve o cuidado de deixar um ressalto, para servir de cabeceira, onde a palha, cortada, foi colocada de travesso e coberta com um panal da azeitona.

Não há quadro do local, porque nunca nenhum pintor presenciou aquele idílio: o Ti’Manel, deitado à sombra da sua laranjeira e o “farrusco”, dando conta de tudo o que se passasse para além do muro que bordejava o quintal e a casa.

Um dia, numa das habituais passagens pela aldeia, o Manel da Rosa – caldeireiro, “bimbo, lá de cima”, sempre acompanhado pela mulher, que além de angariar trabalho para o companheiro, pedia esmola, às portas – vendo o homem a dormir a sesta, com o cãozito ao lado, impávido e sereno, ficou a imaginar coisas... e aproximou-se do muro, junto do portalito tapado com galhos e ramos de oliveira.

Mas – pernas para que te quero – salta de lá o “farrusco”, direito ao caldeireiro, que não ganhou para o susto e não parou antes da taberna.

O Ti’Manel era um homem grande, de peitaça saliente e braços, anormalmente, compridos.

De estatura mais que meã para o uso na terra, como ele dizia.

Barbeava-se uma vez por semana – aos domingos, antes da missa – e usava calças de cós alto, apertadas com um cordel e, normalmente, tão subidas que deixavam a descoberto as botas de cabedal, com solas de pneu, a que o Manel da Rosa “deitara uns gatos”, na última passagem pela aldeia.

Na cabeça o mesmo barrete de sempre, preto, enterrado até um pouco acima das sobrancelhas, descaído sobre o pescoço e com a borla quase desfeita.

Quando andara por Lisboa, onde dera o corpo ao manifesto, na estiva de navios e a servir nas obras; nas ceifas do Alentejo; nas podas dos laranjais de Setúbal e nos navios, que o levaram aos cantos do Mundo, só tirava o barrete para o pôr, dobrado debaixo da cabeça, servindo de almofada.

Além da igreja, contam-se pelos dedos da mão as alturas em que o Ti’Manel foi visto sem barrete, e representam outros tantos acontecimentos marcantes: o dia do casamento, no casamento dos filhos, uma ou outra vez em que foi padrinho de casamentos, ou de baptizados, de algum familiar.

Nestas ocasiões, usou o chapéu que ainda estava pendurado num prego espetado na parede, por cima da enxerga em que passava as noites.

Quando se deitava, tirava o barrete, dobrava-o, cuidadosamente, e estendia-o, a servir de almofada, quer se deitasse na sua cama, ou na esteira que preparara, debaixo da laranjeira, para dormir a sesta.

Um tal procedimento despertou a curiosidade de muita gente, mas nunca ninguém ousou perguntar-lhe algo, ou tocar-lhe no barrete, que sempre o acompanhava: debaixo da cabeça, quando dormia, sob os joelhos, quando ajoelhava, na missa, ou dobrado, em cima do ombro, quando tinha necessidade de descobrir-se frente a alguém.

Afora essas ocasiões, o barrete pendia da cabeça do seu dono.

O mistério manteve-se por muitos anos: a curiosidade e cobiça de uns, a ganância de outros - familiares mais próximos que imaginavam ali um bom pecúlio -, talvez as intenções que atribuímos ao Manel da Rosa – lançar a mão ao barrete do velho – não fossem tão raras…

Até que um dia, o Ti’Manel não saiu.

No dia seguinte, os vizinhos chamaram e não ouviram resposta. Avisaram um dos filhos, com casa no outro lado da aldeia. Juntou-se o povo, como é normal nestas ocasiões, e entrou-se em casa, onde deram com o Ti’Manel, deitado na cama, com o barrete debaixo da cabeça e a mais tranquila e serena paz, no rosto.

Estava morto.

Os preceitos do costume, o enterro, as partilhas dos parcos tarecos e toda a gente ansiava pela revelação do mistério: o que estava, realmente, no barrete?

O filho mais velho, que herdara do pai alguma serenidade, revelou, finalmente, que no barrete estava um rosário de Fátima, com as contas muito gastas, pelo uso, e um pequeno papel, muito bem dobrado, com a indicação de um buraco da casa, onde seria encontrada uma caixa de lata, de uma marca de bolachas.

O conteúdo da caixa, constituído por algumas notas nacionais e estrangeiras – algumas das quais já sem curso legal – foi dividido entre os irmãos; o rosário foi pendurado junto à imagem de Santo António, na capela do Senhor dos Aflitos, na aldeia, onde se manteve por muitos anos, até que desapareceu....

Quanto às notas de banco que os herdeiros dividiram entre si, pouco valeram, pois nenhum dos beneficiados passou a rico…como comentava, com ironia, o filho mais velho, quando lhe tocavam no assunto.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Pena de talião



Pelos anos cinquenta não era fácil a vida no centro do País; no campo era difícil – havia pouco dinheiro para pagar as jornas, a propriedade muito dividida era amanhada pelos proprietários e filhos e os trabalhos especiais (ceifas, mondas, malhas, azeitona, podas ou vindimas) eram sazonais e, por vezes, comunitários.
 

Para se conseguir um lugarzito como factor da CP, guarda freios ou condutor na Carris, servente ou pedreiro nas obras de Lisboa, e guarda na GNR ou PSP, era preciso bons empenhos, de alguém bem colocado, a troco de um bom cabrito, ou de uns garrafões do bom azeite da região.

Numa dessas voltas da vida, o ti’Manel Bento dirigiu-se a casa do doutor Martins – onde era jornaleiro, tal como fora seu pai –, para lhe pedir que arranjasse qualquer coisa para o filho Mário, que daí a dias seria licenciado da tropa e não tinha muita compleição física para cavar com ele no campo, ou nos poços e minas.


Foi muito bem recebido pela Senhora, que chamou logo uma criada para guardar o recheio da cestinha do Ti’Manel Bento, constituído por um frasco de mel, um galo capão, ainda vivo, e duas garrafas de azeite. 


E, enquanto a criada não voltava com a cestita já vazia, lá foi assegurando ao jornaleiro, conhecido da
casa havia muitos anos, que o seu compadre de Lisboa alguma coisa haveria de arranjar – recomendaria o rapaz para a GNR.

Foi assim que, daí a seis meses, depois de feita a preparação, o Mário Bento foi colocado, como guarda, no posto da GNR, da vila.


Na primeira patrulha, passou pela sua aldeia, onde levantou vários autos – multas por: entulho deitado nos caminhos, caiação de casa sem licença, poço sem vedação e carroça mal arrumada, foram objecto da atenção do guarda Mário, que, passeando a sua farda nova, tomou a iniciativa de autuar o próprio pai, por uma transgressão de somenos importância.


O Ti’Manel Bento, foi ao posto da GNR e ignorando a presença do filho quando por ele passou, dirigiu-se ao graduado de serviço – o sr. cabo -, a quem apresentou a autuação e se prontificou a pagar a multa.

Ao mesmo tempo tirou da algibeira das calças uma bolsita de trapos, onde guardava o dinheiro e, pegando nos vinte escudos, correspondentes à coima, entregou-os. 


Aceitou o recibo, guardou-o, muito bem guardado, e saiu.
 

A coisa serenou: não havia que censurar o filho por cumprir o seu dever.

Todavia, na cabeça do Ti’Manel continuava a interrogação sobre o que quereria o filho mostrar, com aquela atitude.

Não encontrava resposta e dificilmente se continha, quando ouvia os comentários de vizinhos e amigos sobre o zelo do filho, chegando ao desplante de ir multar o pai, por um poço abandonado.


A mágoa no coração custou mais a passar; indo para lá do casamento do filho e baptizado dos netos, onde o Ti’Manel fingiu que não mais se lembrava da
mágoa que sentiu, quando se viu autuado pelo seu próprio filho, no primeiro trabalho que fez na guarda.

Muitos anos depois, pelo Natal, o Ti’Manel chamou os seis filhos e, à volta do alguidar das filhós, de uma pratada de tremoços, uma bacia de azeitonas retalhadas, pão e queijo, regados com vinho da casa, todos comeram e beberam, à vontade.


Antes de partirem para suas casas, o velho pai puxou da mesma bolsita de pano que usara no posto da GNR, trinta e três anos antes, e tirando cinco notas de quinhentos escudos – quantia que ao tempo correspondia a mais de dois meses de jornas –, deu uma a cada filho, menos ao Mário, ainda guarda da GNR.


Disse que queria deixar as coisas equilibradas; que aquelas notas não eram mais, nem menos, que os vinte mil réis que tinha pago de multa, trinta e três anos atrás, valorizados a um juro normal de dez por cento ao ano.

Não havia mais nada a dizer e só queria acrescentar que já podia morrer descansado.


Cada um desapareceu para seu lado, rapidamente, só o Mário, junto do pai, o abraçou, sentidamente e em silêncio total.


Não se sentiu injustiçado – recordou-se de qualquer coisa que lera, sobre a “pena de talião”- e despedindo-se do velho pai, foi à sua vida..