quarta-feira, 26 de junho de 2013

Padre ABREU


O Abreu fazia vinte anos e fora, recentemente, às “sortes”, a Mação, tendo ficado “apurado para todo o serviço militar”, como então se dizia.

Andava muito triste, o que, na voz do povo, se devia à morte prematura da mãe, com doença não determinada, ou, pelo menos, não revelada, ao comum das pessoas. Mas a tristeza era outra.

Acompanhava os irmãos mais velhos, João e Benjamim, na missa dos domingos, na freguesia. Ia, também, o mais novito, o “António”, com dez anos, esperto e ladino, filho do pai e da madrasta. 

Pela cabeça do Abreu passava um turbilhão de ideias. 

Também era notória uma postura meditativa, uma marcada auto-análise e introspecção, invulgares em rapazes daqueles meios, daquelas idades e com a sua instrução – fizera a 4ª classe, sendo aprovado, com distinção –.

Um dia, o padre João Pereira, filhote do lugarejo e pároco numa pequena freguesia para os lados de Porto de Mós, veio à aldeia e cruzou-se com o rapazote, de que alguém lhe tinha já falado. 

O Abreu, recentemente apurado, nas sortes, ia, dentro de dias, partir para a ceifa, na companha do Ti’Chico “Manajeiro”, da Serra.

Na conversa que teve com o padre Pereira, o Abreu mostrou grande vontade de saber coisas sobre a vida de sacerdócio. 

Nas três perguntas que fez, a primeira é uma simples diversão: gostaria de saber qual a origem do nome da aldeia Queixoperra –; a segunda e terceira versavam o casamento dos padres.

O padre Pereira, cuja sensibilidade, embora embotada por muitos anos de meio rural, era de uma perspicácia evidente, percebeu que, das três perguntas, só a resposta à última tinha importância para o Abreu. 

Respondeu, evasivamente, sobre o nome da aldeia – cuja origem é incerta e nebulosa – e pouco adiantou sobre o casamento dos padres; mera questão de disciplina, instituída há séculos.

Já no que diz respeito à facilidade, ou dificuldade, de ser padre, o caso é mais complicado; talvez uma passagem dos evangelhos te ajude a compreender o que há para dizer: “aos desígnios do Senhor, nada é impossível”. 

A interpretação desta afirmação contém as respostas que procuras.

Só há uma única condição: a tua vontade e o teu querer têm de ser inabaláveis; o resto, não terá importância. 

Tens de ter muita confiança; tens a vida para viver.

Daí a dias, o Ti’Bento e o Luís Mendes foram a casa do Abreu avisá-lo que no dia seguinte, antes do romper da manhã, estariam de partida, para se juntar, na Saramaga à companha do Ti’Chico “Manajeiro”, da Serra e seguirem todos, para a estação de Abrantes, de onde seguiriam, no comboio, para a ceifa. 

Iria começar mais um dos duros trabalhos que, para o Abreu, seria dos últimos.

O Ti’Chico “Manajeiro” ufanava-se, anos mais tarde, de ter tido nas suas companhas da ceifa, doutores, oficiais da tropa, negociantes de fama e riqueza, brasileiros e até um padre, que de vez em quando, o ia visitar lá na Serra, onde o “manajeiro” passava os últimos dias do entardecer da vida, e, segundo as suas palavras, tinha muitos amigos, por quem pedia, à Senhora da Fátima.

E recordava o rapazote que levou, três anos, na companha: o Abreu, do compadre Francisco, da Queixoperra, que na malhada mostrava um ar de alheamento e distância e um certo quê de mistério. 

Os outros camaradas, reparavam, mas não comentavam muito, pois o Abreu não incomodava ninguém e desempenhava, a contento, todas as tarefas de que era incumbido. Era dos últimos a adormecer e nunca o fazia sem que rezasse as suas orações e se quedasse em meditações.

Nas festas e bailaricos, teve um ou outro “flirt” com raparigas, mas não passou daí e, quanto a respeito, não há nada a apontar-lhe.

Um dia, regressava da horta, onde estivera toda a manhã, junto com os irmãos, a arrancar as batatas e, ao passar à porta da taberna do ti Zé Maria, foi-lhe dito que já lá estavam os editais e que ele iria assentar praça em Abrantes, daí a quinze dias.

Operou-se, no rapaz, uma modificação profunda. 

Andava mais alegre, cantarolava, dava-se a conversas; parecia outro.

No dia três de Maio – festa da Santa Cruz –, foi, junto com os outros dois mancebos da freguesia, buscar as guias à Câmara de Mação e, no dia seguinte, foram apresentar-se em Abrantes, onde durante quase três meses fez a recruta e depois a especialidade, tendo sido escolhido para a escola de cabos. 

O Capitão, comandante da Companhia, casado com uma das senhoras da família Moura Neves, precisava de um “impedido” e, saiba-se lá porquê, escolheu o cabo Abreu, que passou a frequentar a casa do “patrão”, onde ajudava nas compras, lavava o automóvel, tratava do cavalo e se ocupava de outros afazeres da casa. 

A senhora dona Aninhas, mulher do Capitão Geraldes, gostou do militar que o marido escolhera, muito prestável e solícito, preocupado e amigo de ajudar, muito pontual e sério nas contas. 

No entanto, por vezes ficava triste, pensativo, vago e distante, o que levou a Senhora a perguntar se estava ofendido com alguma coisa, ou se tinha alguma coisa que ela pudesse ajudar a resolver.

Ai, minha Senhora, tanto e tão pouca coisa. 

Corou e quase se lhe embargou a voz, mas não podia perder a oportunidade e acrescentou: sou filho e neto, de gente pobre e humilde; pobre, de bens materiais, mas temente a Deus e muito honrada. Com fé nestes princípios, há oito ou dez anos o meu maior desejo é ser padre. 

Ser padre, Senhora Dona Aninhas, é o meu desejo. 

Homem, mas isso... venha comigo. Você, Mariana, vá tratar da lida da cozinha, que se fazem horas do almoço. 

Ah! o Abreu almoça cá, connosco.

Chegados à sala, a Senhora perguntou, secamente: tem, então, a certeza que é padre que quer ser? 

Certeza absoluta, minha Senhora. Só que, por mais que pense, não vejo como; até nem sei porque incomodei a Senhora com tais despropósitos. 

Que me desculpe, a Senhora, que tão boa tem sido para mim.

Não, meu bom homem, bateu à porta certa; aos desígnios do Senhor... 

Sem ouvir o resto da frase, fez-se luz na mente do rapaz; eram as palavras do evangelho, que o padre Pereira lhe tinha dito... 

A Senhora continuou, explicando que havia fortes ligações da sua “casa” com o Seminário de Portalegre e o dos Olivais, em Lisboa. 

Todos os anos tinha chegado ao fim um seminarista amigo, mas, havia três anos não se tinha ordenado ninguém da “casa”. Daí a nove ou dez anos, se Deus quisesse, haviam de ter um padre. Assim o Abreu quisesse…

A partir daquele dia, nem a Dona Aninhas, nem o Abreu conseguiram dormir direito, de felicidade. 

Uma semana depois já a Senhora anunciava, na presença do marido, que estava tudo tratado: nos meados de Setembro, o cabo Abreu seria licenciado, na qualidade de amparo de família. 

Na semana seguinte faria um retiro no Seminário de Portalegre e na última semana do mês, um outro retiro, no Seminário dos Olivais, em Lisboa. 

A Senhora queria ouvir opiniões e saber o que melhor se ajustaria ao seu novo protegido; isto se o Abreu não visse qualquer inconveniente. 

Resposta pronta e elucidativa: Mas é isso que eu quero, minha Senhora. A minha consumição é não ter meios nem maneiras de consegui-lo. Somos pobres e todos os braços são poucos para a labuta lá em casa. E sobra tão pouco!...

No início de Outubro, tudo começou no Seminário de Alcains, onde, num ano, o Abreu, fez segundo e parte do quinto ano. 

No ano seguinte, em Portalegre, completou os preparatórios e no terceiro ano completou estudos gerais, indo logo a seguir iniciar a Teologia, que o levaria, passados cinco anos, a cantar Missa Nova, por pedido da Senhora, no Seminário dos Olivais.

Numa visita à aldeia depois de estar no Seminário de Alcains e após ter passado pelos seus pais adoptivos, como sempre fez questão de dizer, encontrou-se com o padre João Pereira. 

Abraçaram-se e o seminarista Abreu apenas balbuciou as palavras que escolheu para lema de toda a sua vida: “Aos desígnios do Senhor nada é impossível”. 

Paroquiou uns anos em Martinchel; no termo de Abrantes – de onde podia visitar a família adoptiva e confortar, na doença, a Senhora Dona Aninhas. 

Transferiu-se depois, por interferências e empenhos da Senhora, para São Facundo, freguesia também perto de Abrantes, onde o velho senhor Moura Neves, saudoso pai da Senhora, tinha a maioria das suas terras.

Lá viveu, muitos e bons anos o Padre Abreu. 

De vez em quando, ia à Queixoperra, para rever as suas origens e, sobretudo, para matar saudades da sua infância. 

Nessas viagens, dava um salto à Serra, para ver o “Manajeiro”.

Morreu, em paz, quase a completar noventa anos, sem deixar quaisquer bens materiais. 

Do seu espólio constam apenas dez ou doze nomes, de outros tantos padres, que, por sua iniciação e orientação, serviram, tal como ele, a Igreja.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Zé Cristo


O clã dos “Cristos” metia respeito: o Manel, na casa dos vinte e oito anos, o João, com menos dois, o Chico, recém vindo da tropa, cujo tempo passara, na maior parte, no forte da Graça, em Elvas, e o ganapo – o Zé – a atingir os dezoito anos, dentro de dias. 

Todos iam acima do metro e oitenta.

Não havia festa, ou descante, onde os quatro irmãos não aparecessem, com ar provocador e, por vezes, munidos dos respectivos paus – que punham sobre as omoplatas, formando uma cruz, com os braços –. 

Daí derivava, ao que se pensa, a alcunha que ostentavam, vinda já dos seus antepassados e que não ligava ao apelido da família: Alexandre.

Os paus constituíam um verdadeiro adereço; eram vulgaríssimos, na época. 

Tratava-se de uma vergôntea de marmeleiro, bem seleccionada e seca longe do sol, com uns dois côvados, ou uma vara – o côvado media 66 cm e a vara 11 decímetros –. 

Conhecemos apenas duas utilidades a estes paus, que qualquer homem que se prezasse exibia nas feiras e mercados: para conduzir o gado, ou para se apoiar. 

Uma outra utilidade – como padrão – era pouco aplicada.

As zaragatas eram, de facto, o terreno mais vulgar para o uso do pau. 

Nas aglomerações e festanças, dos meios rurais, disputava-se o jogo do pau, mas o verdadeiro uso do mesmo era no costado de um qualquer adversário, quando o ensejo tal proporcionasse. 

Todavia este e outros costumes foram-se extinguindo, devido à proliferação da GNR e firmeza de Regedores e Cabos de Ordens, nome por que na região eram designados os Juízes de Paz.

Os magotes de rapazes, que andavam de aldeia em aldeia, nos bailes, descantes e festas, deixavam os paus escondidos de forma que pudessem dispor deles, em poucos minutos, se necessário fosse. 

Nos torneios de jogo de pau disputavam-se prémios e honrarias, de que qualquer homem se prezava.

Ouvia-se contar, aos mais velhos, que no descante do casamento da mãe do Ti’Chico “Manajeiro”, houve uma zaragata, provocada pelos rapazes de Alcaravela, em que foram partidas mais de vinte cabeças e imobilizados mais de uma dúzia de braços. 

Talvez, por isso, “o Manajeiro”, era o maior amigo da ordem e do respeito.

Quase todos os “Cristos” tinham já passado pelas companhas do Ti’Chico; esse ano ia o Zé Cristo, como aprendiz do terceiro ano. 

Passaria à condição de camarada no final da safra e, no ano seguinte, teria já todas as condições de “oficial”, nomeadamente soldada por inteiro e direito a prémios. 

Os aprendizes recebiam, por norma, duas décimas, no primeiro ano; 3 décimas, no segundo e três quartas, no terceiro ano. 

No quarto ano, ou não eram mais chamados para as companhas, ou eram-no, na qualidade de camaradas.

O Zé Cristo era teso, caladão e ligeiramente vesgo – chamavam-lhe “zanaga”-. 

Era o mais alto da companha e em largura de ombros, não havia quem se lhe comparasse. 

Falava pouco, mas, em contrapartida, comia por três ou quatro. 

A trabalhar, uma máquina; os moços, que seguiam no seu encalço, viam-se e desejavam-se para atar os molhos e fazer os rolheiros, atrás dele.

Um dia, um dos moços, o Benvindo, chamou-lhe “caga-molhos”, pois não conseguia manter limpa a área de corte do Zé Cristo. 

Tanto bastou para que o Zé pousasse a foice e, pegando pelo atilho das calças elevasse o garoto bem alto, no cimo do longo braço e parecendo mostrar um troféu a toda a companha. 

Depois, pô-lo, cuidadosamente, no chão, tornou a pegar na foice e começaram a amontoar-se, atrás dele as gavelas ceifadas.

Sorrateiramente, como era seu hábito, o Ti’Chico, fez sinal ao Manel Carolo, em cujo grupo estava o Zé Cristo, e afastou-se da frente de corte, para que o Lopes e o Duque, camaradas que iam ao lado do rapaz, normalizassem a situação.

Uns minutos depois, fitou o Zé Cristo nos olhos – que nessa altura ficaram mais vesgos e baixos – e apenas disse: é a primeira e a última vez que, nesta companha, alguém falta ao respeito; se voltas a fazer alguma das tuas, racho-te!... 

Aqui, somos todos homens, e no que ao respeito diz respeito, até os moços o têm de ter. 

Este caso foi edificante. 

Muito ao modo como o Ti’Chico costumava actuar; batia pouco, mas, quando o fazia, era inexorável e altamente eficaz. 

No resto dos dias da companha não houve mais qualquer altercação. E voltaram todos mais amigos que quando partiram.

No fim da companha, o manajeiro reuniu os chefes de grupo e disse o que pensava fazer com as soldadas. 

Tudo esteve de acordo. 

O Ti’Chico dividiu a totalidade do dinheiro em 40 partes e atribuiu uma a cada um dos trinta oficiais. 

As dez que ficaram – as dos aprendizes –, eram para os cortes, cujas quantias iriam fazer os prémios para compensar o mérito de cada um. 

Nessa altura tomou a palavra e chamou o Zé Cristo, entregando-lhe uma maquia igual à dos camaradas, dizendo que mostrou corpo, disciplina e trabalho como os melhores, e que a justiça deve sempre ser praticada. 

Ninguém se opôs.

Foi a primeira vez, nas memórias das companhas, que um aprendiz foi promovido em pleno campo de trabalho. 

Pela justiça da decisão, o Ti’Chico “Manajeiro”, como sempre ficou conhecido e será lembrado, ainda hoje, é apontado como exemplo de capacidade de liderança e espírito de justiça.

Quanto ao Zé Cristo, aceitou as palavras sábias do “mestre” e não consta que alguma vez mais se tenha envolvido em desavenças.

domingo, 9 de junho de 2013

A ceifa no Alentejo

Ceifa no Alentejo - aguarela de 1917

O “monte” da Herdade do Castanho, situava-se numa pequena elevação dos terrenos a sul da Ribeira dos Tourões, que pertenciam ao Senhor Lavrador, numa extensão de mais de catorze léguas, segundo as palavras do capataz.

O Ti’Chico “Manajeiro” conhecia a chapada que, partindo da ribeira, subia até ao “monte”. Uma extensão de mil metros, por uns oitocentos de largura, cobertos de “pão”, que havia de ser calcorreada, centímetro a centímetro, pelos homens da companha que acabava de chegar.

Havia uma pequena “folha” de cevada e o resto era um extenso trigal, bem apresentado e que, graças a Deus, não tinha acamado. 

Podiam contar-se, pelos dedos, da mão, os sobreiros e azinheiras, ou outras árvores, que pudessem dar sombra, ou ajudar a diminuir a secura daqueles campos, cobertos de “pão”.

Embora a inclinação não fosse grande, a chapada era ligeiramente inclinada e avesseira pelo que tinha que ser muito bem definido o sentido do corte; a descer, o trabalho é mais cansativo e menos rendoso e de través, o equilíbrio dificulta o bom andamento. Se possível, também a direcção do sol deve ficar pela esquerda dos ceifeiros – pormenores importantes, que os manajeiros aprenderam, com a vida -.

A ribeira, sem água corrente, apenas tem um ou outro pego que servirá para tomar banho nalguns fins de dia, o que, aliás, foi motivo de grandes recomendações por parte do manajeiro. 

Há que não ir sozinho, nunca depois de comer e evitar sítios escondidos ou isolados. 

Todavia, naquele ano, não seria grande o perigo, dada a escassez de água, mesmo nos pegos. 

Eram agradáveis, sim, os tufos de juncos e os salgueiros e freixos que rodeavam o talvegue. 

Alguns traziam, ramos e junco para o acampamento, ou para espalhar pela malhada, a servir de colchão.

No chavascal que ladeava a chapada, pelo sul, havia todo um emaranhado de silvas, tojos e arbustos – sinais evidentes de que por baixo andam águas –. 

Ali se acoitavam diversos tipos de pássaros, zelando pelos ninhos mais serôdios, ou pelos filhotes mais atrasados e também lá tomavam refúgio os predadores, a caça e outros pequenos animais que fazem das searas a sua despensa – ratos, coelhos, musaranhos, ouriços, répteis, etc. –.

Depois da primeira noite na malhada, ou sob a copa de um sobreiro, ao romper da madrugada, começaram as movimentações: idas e vindas para a latrina, para os tanques onde se lavava a cara e mais o que se quisesse e para a malhada, onde se arrumavam os parcos pertences de cada um, de modo que, antes que a estrela boieira se afundasse no horizonte, todos tivessem engolido as sopas de café e estivessem junto do manajeiro, para seguirem até ao corte.

Um pintor teria feito ali um magnífico quadro: o manajeiro, à frente, seguido dos ganhões e dos moços; uns e outros com os chapéus de palha de abas largas, na cabeça, camisas abertas e foices em punho e, na mão esquerda, as dedeiras de cana. 

Os rostos de alguns, ainda leitosos, iam, em poucos dias, tisnar-se e tomar um bronze natural.

O Ti’Chico olhou em redor e, como incentivo curto, mas muito a propósito, disse apenas: Vamos ao trabalho, com a graça de Deus!... Força, rapazes!... E benzeu-se.

Os mais velhos, conhecedores, de ginjeira, daquelas andanças, seguiam calados; os mais novatos e os debutantes, satisfaziam a sua curiosidade, não sabendo bem o que os esperava e extasiando-se com tanto pão junto – cenários novos e que jamais tinham imaginado –.

Já no fundo da chapada, junto à ribeira, o Ti’Chico “Manajeiro” chamou os das pontas de corte – o Chico Coxo e o Zé Taliscas – e mandou-os tomar posições, distantes um do outro, cento e cinquenta passos – seria essa a largura de corte –. 

Entre eles distribuíram-se os restantes camaradas e moços, mantendo-se os grupos que tinham sido formados no dia anterior.

Cada chefe de grupo sabia, perfeitamente, o que tinha que fazer, para que a frente de corte se mantivesse sempre em linha e os trabalhos seguissem a bom ritmo. 

Era aqui que entravam as ajudas e compensações e é nesta tarefa que o trabalho do manajeiro é fundamental; incentivando os mais atrapalhados e coordenando os mais ousados, de modo que o grupo se mova sempre como uma mola, projectando-se de trás para diante.

O Ti’Chico, direito no meio da linha, mandou o Manel Carolo levantar a mão esquerda para que todos vissem as “dentadas da foice” nas dedeiras. 

A seguir, levantou os olhos ao céu e benzeu-se, exclamando: avante camaradas!...

Todos se curvaram e não tardou que começassem a ver-se, no restolho, os molhos de trigo. 

Logo a seguir os moços foram ensinados, pelo manajeiro, a formar os rolheiros, pondo os molhos na forma mais correcta: o “pão” é posto com a troça para fora, formando um círculo, com as espigas para o meio. 

Os rolheiros tem a largura aproximada de metro e meio e os molhos de cada camada são colocados, alternadamente, para que fiquem travados e o mais justo possível, de forma a evitar entrada de roedores e más influências de ventos, chuvas e orvalhadas. 

Um rolheiro deve ter a altura máxima do peito de um homem. 

Quando os rebanhos vierem ao rabisco, ou as varas de porcos se espalharem no restolho, o zagal tem de estar seguro que não farão mossa, nos rolheiros de trigo.

Pelas dez e meia da manhã – segundo a mediana do Ti’Chico – chega o manteeiro e os moços aguadeiros, para distribuírem um quarto de pão de trigo e um bom naco de queijo, ou um pedaço de toucinho, segundo o gosto e preferência de cada um, e darem os corchos de água que cada camarada quiser. 

Aproveita-se para enrolar um paivante e, uma meia hora depois do “alto”, comida a bucha e saciada a sede, é dada a voz de “ao trabalho, camaradas!...” e todos pegam na foice e retomam a labuta.

Com o sol a pino – meio-dia solar, que os ganhões mais experimentados calculam pelo tamanho da própria sombra – é altura de jantar. 

O manajeiro dá “alto ao trabalho” e todos param, colocando a foice no chão e tirando as dedeiras. 

Juntam-se ao chefe e seguem-no até à malhada, onde os espera o gaspacho, o cozido de grão, o ensopado de borrego, o guisado, os feijões cozidos ou guisados com algum tempero, conforme os dias da semana. 

Ao lado do caldeiro da comida está um cesto de pão, cozido ainda há pouco e suficiente para que todos comam, à vontade.

Oito grupos de homens, cercando outros tantos barranhões, e cada um com a sua própria “ferramenta”, constituída por colher, garfo e navalha, saciam a fome e sede – uma das galas do Senhor Lavrador da Herdade do Castanho é que todos comam até querer –. 

Todavia, uma das maiores bênçãos do jantar é a sombra da malhada e as duas horas de sesta que se lhe seguem. 

Lá mais para diante é, também, a altura desejada nas companhas: a entrega do correio.

Finda a sesta, ouve-se o grito de “ao trabalho” e todos se juntam para, atrás do manajeiro, se dirigirem ao corte e retomarem a tarefa que os espera. 

O ritual repete-se todos os dias, durante a ceifa.

Quando a sombra começa a alongar-se – por volta das cinco horas – é dado o “alto para a merenda” e repete-se, sem grandes cambiantes, o que se passou ao almoço. 

Daí até ao fim do dia de trabalho, vai o sol cair no horizonte e uma meia hora depois de desaparecido o astro-rei é dado o “alto ao trabalho”.

Regressados à malhada, espera-se pela ceia, que será em tudo semelhante ao jantar, e pelas nove horas da noite, os chefes de grupo certificam-se de que tudo está em ordem e faz-se silêncio e escuridão, para que todos possam repousar.

O Ti’Chico, reza as suas orações e recolhe-se ao seu reservado.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ti’Chico “Manajeiro”


Naquele ano choveu até tarde; já Abril ia bastante alto e caíam, com alguma regularidade, bátegas de água, de se lhe tirar o chapéu. Gozavam os lameiros, os riachos e as nascentes, assim como a mata e o mato. Os juncos da ribeira nunca estiveram tão farfalhudos.

As vinhas, já bem compostas, sofriam com o “chove-que-faz-sol”, pois, nestas alturas, não há enxofre e sulfato de cobre que espantem o oídio e o míldio, que darão cabo de uma boa parte da safra da vindima.

O Ti’Chico pensava noutra; olhava para o céu, de manhã, quando se levantava e deixava-se levar, voando com o pensamento, por essas terras alentejanas, farejando nas chapadas de seara, do termo de Barbacena, onde havia de ir, com a sua companha, ceifar todo aquele trigo, aveia e cevada, na herdade do “Castanho”, lá para os lados de Santa Eulália, no Alentejo Alto.

Interrogava-se sobre o que sucederia a tanta palha; cada centímetro que o “pão” acamasse era mais uma dificuldade para os “ganhões” do seu rancho.

As pontas da “linha de corte” estavam bem seguras; o Chico Coxo dum lado e o Zé Taliscas do outro – homens de “dar mantulho”, a quem o trabalho não metia medo –. Mas... o resto?

Logo ao lado do Taliscas ia um outro “camarada” que sabia de “dobras” e, além de terror dos “manteeiros”, raramente endireitava as costas para enrolar um “paivante” de mortalha espanhola e, diabo de homem, nem precisava de beber.

Os “moços”, num total de cinco do 1º ano, três do segundo e dois do terceiro, eram a dúvida maior se o “pão” estivesse muito acamado e... chovera tanto!...

Os cuidados com os atilhos e a organização dos “rolheiros” teriam de ser redobrados; o “pão” tinha de ser junto e atado sem humidade. Os molhos eram mais pesados, porque o trigo cresceu muito e o peso ia sobrecarregar os braços. 

Pensava o Ti’Chico: reforça-se a “bóia”, fazem-se mais uns “altos”, dão-se uns gritos de estímulo e tudo vai correr bem. Ao cabo dos 40 dias da companha vou recompensar todos os camaradas e até os moços; o senhor Lavrador vai ajudar – vou pedir-lhe mais dois contos de réis e darei mais dez tostões, por dia, a cada “camarada” e uma lembrança aos “moços”.

Depois planeou a estratégia para formar a companha, que, desde os tempos do seu pai e avô, sempre deitara brado, nas freguesias da redondeza.

Na saída da missa, do último domingo, apareceu um outro manajeiro, de fora da terra, a fazer negaças a alguns camaradas do Ti’Chico e, nestas coisas, mais vale prevenir que... acordar tarde. 

Espalhou-se a notícia que o Lavrador de Barbacena chamara já o Ti’Chico e que ele até conseguira um dinheirinho extra para aquele ano; estava, pois, tudo seguro e todos confiavam no seu manajeiro, de sempre, que fora encarregado de pais, irmãos e filhos de muitos.

Os “moços” eram como que o fiel da balança; tanto no que se refere a desempenho como no que ajudavam – porque recebiam menos – a compor o quinhão dos camaradas. E com dez moços a companha estava muito bem equilibrada, ainda que alguns já fossem meios camaradas.

Dos trinta e nove pensados pelo Ti’Chico, trinta e sete já tinham apertado a mão. Faltava o “Gaitinhas” e o “Manel Carolo”. Era seguro que não se tinham comprometido com mais ninguém, mas os filhos a chamar, lá de Lisboa – para as obras do hospital grande -, poderiam fazer mossa. Havia que resolver o problema.

No domingo seguinte toda a gente já dizia que o Ti’Chico, que nunca os deixara ficar mal, tinha sabido negociar bem a companha: além de mais uns contos de réis, havia uns litros de gravanços e feijão preto, para distribuir por todos; é manajeiro para nos defender – ouvia-se no adro da igreja.

O “Gaitinhas” e o “Manel Carolo”, estavam de prosa, à saída da missa, num canto do adro. Sem saberem como, aparece o Ti’Chico, de mão estendida, dizendo que já os tinha procurado, mas era agora altura de se acertarem as coisas. E acrescentou, – como raposa velha, que todos reconheciam – se assim entenderem!...

Não restavam muito mais companhas ao Ti’Chico. Homem na casa dos sessenta, a quem o estômago e os ossos não ajudavam muito, deveria dar o lugar a outro, como ele já dizia há anos. A este respeito, falava-se à boca pequena no seu sobrinho – o “Truta” –, que tinha esperanças de vir a suceder ao tio. 

A maioria, porém, se não a totalidade dos habituais camaradas, iam pensando e confiavam que o Ti’Chico nomeasse o Manel Carolo, homem sanhudo e rijo, de poucas falas e riso raro, amigo do seu amigo. Forte como um touro e dócil como uma pomba, era, há mais de vinte anos, o “eixo da companha” e, ali onde o viam, tinha levado ao colo muitos aprendizes e até homens feitos, que estivessem em maus dias.

Na Terra era homem de poucos haveres, mas muito orientado e que raramente aceitava jornas; “trabalho no que é meu, e ajudo no que é dos outros, quando me pedem”. A ganhar, só na ceifa e numa ou outra “azeitona”. 

Os dois filhos e a filha, casados, trabalhavam fora. Ao que constava, o avô não se cansava de incentivar os filhos para que mandassem estudar os netos, não interessava o quê, desde que viessem a ser mais que pais e avô.

As razões do Carolo não ter vindo ainda a si, conforme confessou ao Ti’Chico, eram as inquietudes da vida e aquele cismar na volta a dar aos seus netos, todos a acabar a escola primária. Mas, cerrando os dentes, estendeu o braço e apertou, com força e sentimento, a mão do Ti’Chico. 

Imediatamente, e sem dizer palavra, o Gaitinhas fez o mesmo. Depois, baixou os olhos e confirmou o garoto mais novo, como aprendiz do 1º ano. 

Estava composto o naipe de 40 trabalhadores, mais o manajeiro, que havia de partir para terras do Alentejo, nos primeiros dias de Junho.

Em Maio, o Ti’Chico foi a Fátima. Rezou e meditou na vida, pedindo por seus familiares e seus homens e aconselhando-se muito com Nossa Senhora, de quem era profundo devoto. Desde a aparição não faltara a um único 13 de Maio, em Fátima. Ia também, às vezes, em Outubro, com a mulher e filhos.

Antes de partir, entrou numa loja e comprou quarenta e cinco terços, que mandou benzer a um padre que estava de serviço.

Como estava combinado, no último domingo de Maio, juntou-se toda a companha na eira do Ti’Chico, lá no cimo do Casal. 

Foram chegando todos, havia conversas de ocasião e o cenário constava de um cesto de pão alvo - de trigo -, cozido no dia antes, um presunto inteiro pendurado, um grande prato de queijos, um barranhão de azeitonas e uma cambalhota de chouriços. Sem faltar, é claro, um pipo de uns trinta litros de vinho tinto. Faca, cada um usava a sua navalha e os quatro ou cinco copos iam passando de boca em boca, sendo por vezes enxaguados na água do alguidar, junto da mesa.

O Ti’Chico agradeceu a todos e foi rápido nas palavras, dizendo que esperava a melhor companha de sempre – uma vez que seria a última que fazia –. Fez-se silêncio profundo e, por entre olhares, esperaram todos, mais palavras do manajeiro, que apenas acrescentou:

Todos sabem que a companha está viva, é a melhor das redondezas e assim tem de continuar a ser. Precisa de um novo manajeiro, que este ano ainda irá comigo, mas na próxima, será o vosso chefe. 

Quero só acrescentar que, sem desmerecer todos os presentes, o camarada que me parece mais capaz que vos orientar, chefiar e defender é o Manel Carolo. Não se esqueçam que é altura de alguém dizer alguma coisa, se alguma coisa houver para dizer; pois, a partir de agora, tudo o que fizerem será para ajudar o novo manajeiro, tal como sempre fizeram comigo.

Os poucos segundos de total e absoluto silêncio foram interrompidos pelo Gaitinhas – tido como o maior crítico do Carolo – que levantou o braço e, dirigindo-se ao Ti’Chico, apenas disse: “sempre assim foi e há-de ser, o que o senhor fizer, ninguém o há-de desfazer!” E estendeu a mão ao Manel Carolo.

Voltou o silêncio, e, sem que ninguém tomasse a palavra, todos foram comendo bem e bebendo melhor. 

O Ti’Chico foi passando por todos, petiscando com este, beberricando com aquele, até que ao chegar ao “Chancas” lhe perguntou o que achava do novo manajeiro. 

A resposta foi curta e eloquente: há-de ser tão bom como o senhor, que me fez “homem” a mim e aos meus dois filhos, aqui presentes. É fixe, é um grande camarada e pode contar com a rapaziada!...

O Ti’Chico encerrou o encontro com dizeres de circunstância, agradecendo a todos e dando os parabéns ao seu sucessor, que seria confirmado pelo senhor lavrador, na próxima ceifa, como o Manajeiro da herdade do Castanho. 

Foram correndo os dias, até que, na madrugada de 4 de Junho, um domingo, todos compareceram, ao romper da madrugada, no adro da igreja, onde duas carroças carregaram a “copa” de todos os camaradas e rapazes para a levarem até à estação de Abrantes, onde apanhariam o comboio para Santa Eulália. 

Atrás das carroças caminhava a companha, em magotes que falavam de tudo, sem quase nada dizerem. Durante quarenta dias, seria como se o mundo não existisse, até que voltariam para as mulheres, namoradas e pais, depois do dever cumprido.

Já dentro do comboio – para alguns a primeira vez que tal viam – ouviam-se as chalaças do costume; Dizia-se aos moços que deviam conservar uma pedra na boca, para dar sorte e para o comboio não sair do caminho, e para terem atenção quando viesse o revisor, pois queria os bilhetes na testa de cada um, etc., etc.

O Ti’Chico certificou-se de que tudo estava em ordem, sentou-se no banco, junto à janela e foi olhando os campos, vendo o “pão” e convencendo-se que não estava tão acamado como chegara a recear. Sem mais palavras, passou as duas horas até Santa Eulália em meditação, certamente já com saudades.

À chegada a Santa Eulália, gritou-se para apear a companha do Ti’Chico, transferiu-se a copa e acomodou-se o pessoal nas carroças que os carreiros tinham alinhado, no pequeno largo, junto da estação. 

Depois dirigiram-se à malhada da herdade do Castanho, no termo de Barbacena, onde havia de ser a morada da companha nos próximos quarenta dias.

Nesse primeiro dia, depois da ceia, o Ti’Chico entregou um terço a cada um, orientou a oração, habitual entre os “ratinhos”, no fim das refeições – os alentejanos não tinham esse costume –, e despediu-se, com “uma noite descansada para todos”.

sábado, 25 de maio de 2013

Um deus menor


Era ali, tendo as pedras como assento e o tronco como recosto, que me sentava nos dias quentes das férias de Verão. 

Teria os meus dezassete ou dezoito anos. 

Estavam em avaliação e análise os grandes rumos de uma, ou várias vidas. 

Decorriam os primeiros anos da década de sessenta, do século passado e frequentava a Escola do Magistério de Lisboa. 

Convergiam, em catadupa, várias ideias, sobre o curso, o pós-curso, a namorada, a pós-namorada, os estudos complementares, o serviço militar, o destino dos meus irmãos, tudo confluía para um grande grupo de assuntos cuja pendência ocupava muitos momentos de retiro e ponderação. 

Decisões muito pesadas para um adolescente, sempre controladas e geridas, acabaram por gerar o homem frio e calculista, rigoroso e ponderado sempre que grandes decisões e opções se lhe depararam. 

E, na sombra daquele sobreiro, terão sido lançadas muitas bases de uma personalidade e um carácter definidor da pessoa que talvez tenha sido homem mais cedo que muitos jovens do seu tempo.

Desde os primeiros exames, na Escola da freguesia, do concelho, ou do distrito – Liceu Nacional de Santarém -, sempre correu tudo bem; começava a habituar-me aos lugares nos pódios. 

Com objectivos definidos e superados, ia-se rasgando o horizonte estáctico, daquele lugar sobranceiro a todo o vale, divergente das aberturas que os livros iam fazendo naquele espírito ávido de coisas novas.

O sobreiro, último reduto de uma espécie em vias de extinção na zona, olhava para os pinheiros, os eucaliptos e a maior parte das árvores da horta e suportava a copa, sobre o tronco rugoso e ajoujado mais pelos anos que pelo peso. 

Afinal a vida que aí vinha, seria um pouco assim: o berço não fora de ouro, mas de outros matérias menos nobres, porém mais resistentes.

Humilde, estéril e sem préstimo, pois nem bolotas dava e a cortiça que deveria ser aproveitada cada nove anos, há décadas que nunca fora retirada. 

Tinha orgulho na sua folhagem, de um verde-claro-cinzento, resistente todo o ano, embora sem uma densidade que formasse uma sombra contínua e acolhedora. 

Não seria, pois, um primor de aparência; era, todavia, duro de lenho, sóbrio de seiva e parco de consumos. 

Invejava, claro, o limoeiro e as laranjeiras a quem davam, regularmente de beber e com o chão, em redor, coberto de tenra milhã e uns canteiritos de alfaces tenras e de um verde limpinho e convidativo. 

Apetecia-lhe, nos dias de maior canícula, descer até aos vimes que, saindo do valado da represa, erguiam as hastes muitos metros acima e eram continuamente visitadas pelas libelinhas, balceiras e rouxinóis que por ali atiravam as suas cantigas ao desafio. 

E, as mais altas das hortas, duas pereiras que lá crescer, cresceram, mas peras nunca ofereceram a ninguém. 

As videiras, sobre as paredes de todos os chãos, bordejavam as filas de milho e os canteiros de tomates e pepinos, até ao fundo das cebolas, dos melões e das melancias que estavam na última belga da horta do meio. 

No inverno, eram uma tristeza de vides nuas, mas no verão eram uma fartura de cachos amarelinhos, ou pretos, sempre cortejados por bandos de passarada que dali levavam os bagos logo que começavam a pintar.

Nestas cogitações restava ao sobreiro um consolo; O local altaneiro, o pequeno descampado como terreiro privativo, o privilégio de vista e controlo de toda a vida nas hortas e o seu exotismo no meio de tanta verdura e frescura, traziam alguma alegria a uma vida solitária e de poucos préstimos. 

Assim como um deus menor, já envelhecido, no meio de toda aquela opulência e força de vida das hortas onde não falta a água nem o calor do sol nas tardes tórridas de Verão. 

Mas continuava a acreditar e cultivar outros atributos. E estava seguro que resistiria a qualquer média tempestade que, pela certa derrubaria a maioria das vizinhas mais folhosas e mimosas.

Até os próprios pássaros lhe passavam ao lado. 

Raramente algum passante, certamente desconhecedor do local, ou confundido com a ramagem, por ali pousava. 

Ah! Salvo os cata-piolhos que se entretinham a picar as rugosidades da cortiça, bastarda e quase lisa, em busca de algum parasita que por ali vegetasse. 

Mesmo as abelhas, que nas flores das laranjeiras e limoeiro, nas flores dos camalhões e valados, nos espigos de nabos, couves e cebolas e, de um modo geral, nas flores de todas as árvores, se atarefavam na recolha do pólen, não viam qualquer motivo para utilizar o sobreiro. 

Salvo uma vez, ainda na Primavera, em que um enxame, voando em turbilhão, ali ficou pendurado num ramo até que o dono velho do sobreiro, trouxe um tubo grande de outro qualquer sobreiro e, com assobios e pancadinhas, deu guarida à abelha-mestra e a toda a corte que logo se apressou a segui-la. 

Foi um dia agitado e lindo que ocupou lugar destacado na memória do velho sobreiro,finalmente eleito para qualquer coisa.

Mas, farto de carpir mágoas, chegava todos os anos a sua altura; o menino, quiçá já homenzinho, havia de aparecer por lá e encostar-se ao seu velho amigo, confiando-lhe as suas intimidades, apreciando-lhe a sombra e até limpando o pequenino terreiro privativo, à sua volta. 

Cada livro que as sombras contemplavam, cada carta que o amigo escrevia e cada meditação que lhe fosse confiada, eram mais que um prémio, eram a verdadeira força para continuar a viver e a guardar aquele lugar, para oferecer nas férias, o melhor lugar do vale, ao amigo de sempre.

As cartas lidas ali junto do confidente, as meditações, planos e projectos arquitectados junto daquele deus menor, as canções trauteadas e as largas horas de observações dos pássaros, das poucas nuvens que passavam, as verificações das alterações que se tinham verificado nas paisagens, e o simples olhar para coisa nenhuma, eram, ao fim de contas, uma das fontes da seiva que animava aquele sobreiro solitário e entristecido na maior parte dos seus dias, durante a maior fatia de todo o ano.

Na altura dos taralhões, lá pelas manhãs pardas e tomadas pelas maresias de Agosto, todas as caçadas começavam e acabavam ali.

O local tinha vista sobre todos os sítios em que eram armadas as costelas, desde poucos metros abaixo da base até junto das hortas da ribeira e abas da Lomba. 

Dali se detectava qualquer movimento dentro da área e se controlava qualquer acção estranha sobre as armadilhas. 

Depois o arame dos troféus,  com os passaritos pendurados pelos bicos, fazendo inveja aos passantes ocasionais, davam alegria e ânimo para os longos dias de solidão.

Passava, junto do sobreiro, o caminho que as mulheres tomavam, com os cântaros à cabeça em direcção à mina, para se abastecerem da melhor e mais fresca água das redondezas. 

As casas mais chegadas, desde a Chã à Barroca das Couves e Portela da Casinha, iam ali buscar a água para beber. 

Também muitos passantes no caminho, alguns metros acima, faziam um desvio para se regalarem com a frescura das águas daquela mina, feita a pá e pico, pelo grande artista, Ti João do Cerro, que nunca caiu nas graças do sobreiro, porque, enquanto ali trabalhou, nunca puxou à sua sombra, para dormir a sesta, preferindo sempre os eucaliptos e pinheiros do lado poente da horta. 

Entretanto chegaram os tempos em que até o amigo seguro começou a faltar. 

Como tristemente confidenciou o velho sobreiro, os planos que as cartas lidas e relidas, vindas lá das terras altas, acabaram por se concretizar e os tempos de paragem pela aldeia começaram a rarear. 

Ainda por lá ficou uns anos, pois a provecta idade e o isolamento não foram capazes de abatê-lo. 

Mas…

Até os deuses se vergam à passagem dos elementos da Natureza: a água ainda que fazendo a erosão da barreira onde um caminho acabou por isolar a velha árvore, não foi capaz de a destruir, mas o fogo que por ali passou, num dia de má memória, tudo derrotou.

Até aquele deus menor, com saudades e confidências.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Manel Jerico



O Manel era “Jerico” desde que nascera, uns cinquenta anos antes; herdou a alcunha do pai, que a fora buscar ao avô. 

Todavia, nada mais impróprio que tal nome – era fino como o retrós e estava para nascer quem lhe fizesse o ninho atrás da orelha –. 

Gabava-se de que ninguém lhe pusera, cuspinho na testa. 

Passava os dias carrejando: umas batatas, no tempo delas; uns molho de ferrejo ou feno, para sustento do vivo no Inverno; as bilhas do leite que, diariamente, era ordenhado às vacas que viviam no lameiro, todo o ano. 

A carroça da casa, de rodado baixo, com a ferragem já gasta pelo uso, era puxada pelo burrito cinzento, atrelado entre os dois varais. 

O “Bandarra” estava ao serviço da família desde sempre e, esse sim, “jerico” de espécie, não era menos finório que o dono. 

Raramente era lembrado das suas obrigações, por uma ou outra arrochada no lombo. Comia do que havia e era seco de carnes. 

O “Manel Jerico” frequentara a escola, em pequeno, fazendo o exame da quarta classe, aos 11 anos; ao mesmo tempo guardava o rebanho comunitário, nos dias da família, ajudava os pais nas lides de amanho das leiras, lá para os lados da ribeira e minava-se por fisgar um pássaro, ou achar os ninhos, no tempo deles. 

Nas sortes ficou livre; era fraquito de estatura. 

Nesse mesmo ano juntou-se, pela primeira vez, aos homens que levavam “cargas” para Espanha. 

Teve sorte, pois a carga era leve e, nem a nossa Guarda, nem os Carabineiros, deram trabalho nessa vez. 

Mas não terá gostado da experiência, pois não voltou a responder às chamadas. 

Talvez a cicatriz do “Aranha”, o olho cego do “Faroleiro”e o braço cambado do “Pirata”, fossem troféus que lhe metessem medo e lhe retirassem a coragem, necessária na vida de contrabandista. 

Os cinco mil réis de cada carga, eram correspondentes a duas jornas, mas não compensavam os perigos, no entender do “Jerico”. 

Talvez por isso tenha guardado a moeda, que ganhou na viagem que fez com a saca às costas, durante muitos e bons anos. 

Num São João em que passaram na terra uns caldeireiros, O Manel pegou-se, de olho, com uma moçoila do clã e teve o azar de ser “caçado” a sair de trás de uns barrocos, com ela. 

Por mais juras que fizesse, que não lhe havia tocado, foi em frente da ponta de uma naifa que se comprometeu a casar. 

Apareceram os filhos, uns atrás dos outros, do primeiro ao oitavo. 

Todos varões e de boa compleição física, ajudavam nos trabalhos da lavoura. 

Na escola, não havia quem se lhes adiantasse; todos fizeram o exame e dois deles frequentaram o Seminário, vindo a ser Missionários, no Brasil e na África. 

A Amélia, mãe cuidadosa, trabalhava, na terra, como qualquer homem: manejava o enxadão, ou a rabiça do arado, com grande perícia e poder físico. 

O Manel andou por “franças e araganças” e fez de tudo um pouco: da construção de estradas à arte de trolha, de mineiro a garimpeiro de volfrâmio, de almocreve a feirante e de pastor a ganhão. 

Apanhou o “pó” das minas, uma pedra comeu-lhe as cabeças de dois dedos, uma paulada, de um marchante de gado, deixou-lhe uma clavícula torta. 

Claudicava da perna esquerda, talvez por causa do reumático, mas o pobre fígado era a maior vítima das fomes e bebedeiras, que foram o seu único alimento durante muitos e muitos dias. 

Nunca nada lhe luziu nas mãos. 

Se não fosse a Amélia, pobres crianças… comentava-se pela aldeia. 

Um dia, no mercado da vila, já bem atravessado, meteu a mão ao bolso e acariciou a moeda de cinco mil réis, que ganhara muitos anos antes, no contrabando e de que nunca se separara. 

Dirigiu-se a um cauteleiro e perguntou-lhe que jogo lhe vendia por cinco mil réis. 

Meio bilhete… que pode dar um prémio de duzentos e cinquenta contos de réis. Uma grande fortuna, amiguinho, rematou o cauteleiro. 

Feito o negócio, o Manel guardou as cautelas no bolsito da jaqueta e, durante muitas noites, teve dificuldade em adormecer; não lhe saía da cabeça a ideia do que faria com aquele dinheiro todo. 

Daria um bom prémio à Sra. das Dores, uma casa, uma junta de vacas e uma carroça a cada filho; fatiotas para ele e para a Amélia e… contas e mais contas… não chegava o sono. 

Dois ou três meses depois, já quase esquecido dos seus sonhos, noutro mercado, ouviu apregoar o cauteleiro. 

Meteu, instintivamente a mão no bolsito e encontrou, amarfanhadas, as cautelas que comprara meses antes. 

Chegou-se ao vendedor de sonhos e mostrou, sem grande fé – saiba-se lá porquê – as cautelas, pedindo que as rebatesse, se tivessem prémio. 

O cauteleiro, atónito, branco como a neve que ainda não tinha ido toda embora, leu e releu a lista e olhando o Manel disse, simplesmente: uma grande fortuna, homem! 

Você tem aqui uma grande fortuna: 250 contos de réis, da taluda. 

Agora…terá de ir a um Banco e…. 

O “Manel Jerico” já não ouviu as últimas palavras; tinha caído fulminado aos pés do cauteleiro, de nada valendo os esforços do filho que o acompanhava e de outros populares que entretanto se juntaram. 

Numa pequena pedra, no muro do cemitério da aldeia, ainda se pode ler, o que alguém um dia escreveu: 

Aqui jaz o “Manel Jerico” que sempre foi pobre, mas morreu rico.

sábado, 11 de maio de 2013

A magana



O“Rasga”entrou espavorido pela taberna dentro, deu um murro sobre o balcão e gritou: 

“Ti’Manel”, uma metade!... 

O taberneiro, na sua fleuma habitual, acentuada pelo arrastar da perna esquerda, assomou-se na divisória da cozinha e salvou:

Vem com Deus, homem!... 

Esteja com Deus, “Ti’Manel”!... Acrescentou o “Rasga” em tom completamente diverso do da entrada. 

Parece que viste o demo!... Vem para aí o mundo atrás de ti, ou quê?!... Ainda agora é manhã e já estás nesses preparos?!... 

Deixe-me cá “Ti’Manel”!... Quase nem preguei olho toda a noite, a pensar naquela magana. 

Ao romper da manhã, antes do Sete-estrelo, já eu ia a caminho da ribeira, com o meu “Farrusco” ainda com os olhos mal abertos. 

Chegado ali, no ponto onde a chapada bate com a ribeira, baixei-me atrás duns carriços e esperei… 

Clareou o dia; pássaros, moscas, rãs e outra bicharada da ribeira apareceram aos primeiros raios da aurora, mas, da magana nem sinal. 

E olhe que naquelas duas horas não desviei, nem por um minuto, os olhos daquele carreiro que vai dar ao touril, onde a gaja tem, sem exagero nenhum, uma boa cesta de caganitas. 

Ainda passaram dois laparotes, saltitando e negaceando, na sua inocência. 

Nem lhes liguei e não deixei que o “Farrusco” se agitasse; eu queria era a magana que se regala a tosar-me as couves do canteirito e os outros mimos da horta. Mas garanto-lhe que há-de pagá-las todas juntas… 

O “Tonho da azenha” jura que já a viu umas duas ou três vezes e garante que é animal soberbo, com um metro e meio, para mais, de comprimento e não pesará menos que uma boa chiba, de umas duas arrobas. 

Já gastei, com ela, para cima de quarenta noites e, logo hoje que alguma coisa me dizia que havia de ser o dia certo, apareceu o “Ti’Jaquim”com a água aberta ao romper da manhã. 

A magana, muito senhora do seu nariz, ou tem o dianho por ela ou é finória. Mas há-de cair!... Ou eu não me chame “Rasga”, em memória de meus avós, que Deus haja. 

Também o “Mané das cabras” costuma passar por ali, antes do sol-nado com o gado e os cães e já mais de uma vez me estragou o arranjinho. 

Depois, com aqueles dois cães, que até de ratos fogem… Uns verdadeiros espanta caça!... Uns lorpas, é o que são! … 

Mas não há-de ser mais teimosa que eu e não há-de comer-me as couves todas… Hão-de sobrar algumas, para a acompanhar na panela!... 

Começou a ser assunto de conversas a obsessão do “Rasga”pela lebre da chapada da ribeira. 

Alguns já chacoteavam com ele e perguntavam-lhe quando poderiam ver o troféu. 

De armadilhas com laços, a ferros, tudo passou pela mente do “Rasga” que, no entanto, já tinha decidido que a magana havia de cair com o chumbo do seu fuzil. 

Mas resistiu, heroicamente, a todas as provocações e gozos da rapaziada da terra. 

Até que um dia, pouco depois dos Reis, o “Rasga”entrou na tasca, com um imponente lebrão de um metro de comprimento e quase quinze quilos de peso, ao ombro. Não havia memória de um exemplar assim, nas redondezas. 

Veio gente de aldeias vizinhas e, em dois dias, o “Rasga” contou a história dúzias de vezes, para satisfazer os curiosos. 

Dizia, orgulhosamente: 

Na minha da ribeira, onde a chapada bate com o ribeiro, meia hora antes do nascer do sol, descia a magana, lampeira, para me dar cabo das couves. 

Estacou, onde a rodeira cruza a canada, levantou as orelhas que aqui vêm, e ergueu-se sobre as patas traseiras. 

Nisto, acerto-me com ela e levo a arma à cara. 

Miro-a bem no centro dos quartos dianteiros e zás, catrapaz: puxo os dois gatilhos e lá vai chumbo, quente e grosso. 

A magana, ferida de morte, deu um salto que parecia uma corça, berrou como um boi e foi cair, redonda, na minha veiguita, junto ao bueiro da entrada da levada. 

Corri para ela e levantei-a no ar! 

Com todo o meu respeito, descobri-me, mostrei-a ao “Farrusco” e às couves que ela não voltará a comer-me… 

Nunca terá sido caçada lebre de tal tamanho, nas imediações mais próximas daqui!... 

São caçadores, dos mais entendidos, que o dizem!...