quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sinfonia inacabada


O canteirito, no cimo da testada, é uma nesga de terra com pouco mais de metro e meio de largura por uns vinte de comprimento. 

Ali, junto da levada, não podia queixar-se da falta de água, até ao dia em que ela deixou de ser um camalhão de terra e o cômoro foi substituído por cimento, tijolos e pedras. 

A meio da hortita ia dar a ponte de tábuas de madeira, com uns oitenta centímetros de largura, assentes num lado sobre a calha de cimento, que levava a água e no outro sobre um barrote de eucalipto. 

O valado, no topo da ponte conduzia à levada e dali, para a direita ficava o açude e para a esquerda a casita da azenha. 

A ponte era de pé-posto; a besta ficava no palheiro, poucos metros antes da ribeira. 

Não tinha guardas, nem corrimão e em períodos de taró mais intenso, era escorregadia e perigosa. 

Porém, não consta que, de lá, tenha caído alguém. 

No cimo do canteirito acabavam-se as hortas, até ao açude, uns vinte metros a montante, para norte. 

A levada deixava de ser de alvenaria e passava a um simples rego entre o cômoro e a encosta do monte, que dali subia, para poente, até ao cume da lomba, povoada de estevas e pinheiros. 

Entestado entre as paredes das hortas do Ti’Abílio Lindo, pelo poente, e do Ti’Manuel Rosa, a nascente, o açude da Pleissa era formado por uma fiada de quatro ou cinco grandes calhaus – que deviam estar ali “desde que o mundo é mundo, para os homens”, como me dizia o meu avô quando queria ir longe, no tempo –. A segurá-los, leivas de terra, barro, raízes de carriços, gramas e outras aquáticas. 

Não eram raras as queixas dos meeiros quanto à má qualidade do açude, sobretudo em anos de maior canícula. 

Faziam-se reparos na represa, remendava-se a levada, dava-se caça às eirós que furavam as leivas e os cômoros. Por último, substituiu-se a manilha do bueiro, e acabou por ficar a contento de todos. 

Na pequena veiguita, antes da azenha, criavam-se os mimos da casa: os alfobres de cebolinho, de couves (galega, sete-semanas, tronchuda, repolho, couve-flor, couve-nabo, coração de boi), de alfaces, almeirões, tomates e pimentos. 

Não faltava o canteiro da salsa, o rego da hortelã e a belga de coentros, cenouras e espinafres. 

No tempo do feijão verde, três ou quatro leiras de outros tantos regos, semeados a intervalos de quinze dias, davam vagens por um período ininterrupto de três meses, no Verão. 

Estavam lá, também, abaceladas as vides escolhidas para fazer o bacelo e para os garfos das enxertias da vinha. 

Embora o calor nunca apertasse muito, ali junto da ribeira, no pino do Verão fazia-se sentir, de tal forma que era preciso regar, dia-sim, dia-não. 

As regas já quase se não fazem, pois aqueles canteirinhos, então tratados como jardins, têm, agora, mais ervas e menos desvelos. 

Porém, o chilrear dos pássaros, o roçar do vento nas ramagens, o rumorejar das águas e até o som desafinado das cigarras, continuam a compor a mais bela sinfonia que nos foi dado ouvir. 

…No açude, continua a poisar a arvéloa, agitando a cauda, com tal leveza, qual a batuta de maestro… 

A sinfonia continua … 

E, caro leitor, considere-se convidado. O traje é informal…

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Convite



Disponha-se o leitor a esquecer as agruras da vida, a deixar o stress bem longe, a abstrair-se do barulho da cidade e, a pouco e pouco, ouvir toda a Natureza a tocar, só para si, a mais bela das sinfonias que já imaginou. 

Se gosta de ler, leve um clássico e misture o idílio com a leitura. Acabará por sentir-se onde nunca foi, nem nunca esteve. 

A paz invadi-lo-á. 

Sente-se, na pequena ponte de madeira, sobre o ribeirito, com os pés pendentes para a corrente de água que, uns dois metros abaixo, segue o seu caminho, rumorejando no talvegue do riacho. 

Contemple o leito, atapetado em tons de verde; nas margens, as torgas e balças que amarinham pelas paredes das hortas, até ao topo. Junto das poças de água e dos pequenos pegos, onde nadam peixitos e outros anfíbios, crescem carriços e juncos. 

As amoras negras, das balças, e as flores de variadas cores das trepadeiras, completam a primeira moldura, no mínimo feérica. 

No cimo das paredes, na orla das hortas, filas de videiras, entrecortadas por figueiras, oliveiras, macieiras, marmeleiros e tufos de plantas indeterminadas, têm, como continuação natural, os milheirais e outras culturas da época, que nos meses de Verão enchem as hortas de frescura, junto das ribeiras. 

Pelo lado esquerdo, a levada estende-se até ao açude que, àquela hora da manhã, completamente cheio de água, em completa quietude, reflecte o azul do céu, dando um contexto tridimensional de todo o cenário. 

O sol, que no mês de Agosto se levanta bem cedo, tem certa dificuldade em afastar a neblina matinal – a maresia que desfazendo-se em gotas, deixa tudo a pingar de orvalho -, ergue-se já e faz-se anunciar pelos primeiros raios que, penetrando por entre os pinheiros, vão projectar-se no monte, em frente. 

Para lá do açude, na curva da ribeira, erguem-se os cabecinhos, de um e outro lado, completando a moldura. 

A nascente e poente, partindo da linha de água, elevam-se as encostas, até onde não vemos o cume e tudo está coberto, para lá do bordo das hortitas, de pinheiros, mato e outros arbustos. 

À retaguarda, o vale abre-se, pelos brejos, em direcção à aldeia, de onde vem o ladrar dos cães, o balido dos rebanhos e o chiar dos rodados das carroças. 

Mas, já tão fora de cena que nem sequer é ruído de fundo. 

Nas proximidades da ponte toma posição a carricita e a megengra, que junto com a toutinegra e o cata-piolhos, fazem pela vida, em silêncio, e levam para os filhos, ainda pouco experientes, o que vão apanhando. 

Mais além, sobre a esquerda baixa, os melros ensaiam os primeiros acordes, no que são seguidos pelas felosas e verdilhões; ao centro, os rouxinóis, que estiveram calados sob as videiras e na laranjeira, atiram os trinados melodiosos e sublimes, qual naipe de violinos. Da direita, vêm os tentilhões e as milheiras, seguidos pelos verdilhões, ferreiros e rabos-vermelhos. Mais atrás, o trinado dos pintassilgos e, em fundo, um pouco mais longe, a cotovia vem completar o naipe, em completa harmonia e angélica sintonia. 

Sobre a represa do açude, a arvéloa, qual maestro, agita a cauda, imperturbável à passagem do pica-peixe e, sob o olhar atento do peneireiro, dirige aquela orquestra sinfónica, onde dos graves aos agudos, dos metais à percussão, não falta nada. 

Dos altos, o solo de um gaio e uma pega sobrepõe-se às batidas cadenciadas do pica-pau que vinha dando o ritmo e anuncia a passagem do “molto vivace” para o “moderato”. 

As rolas, nos pinheiros, num arrulhar doce, introduzem o “pianíssimo”, serenando as crias, despertas pelo wagneriano gaio. 

As cigarras, embora não sendo pássaros, ascendem da surdina, em crescendo, e, no momento mais quente, quebram a quietude. 

São secundadas pelos restantes naipes da orquestra e, num final apoteótico, dão lugar ao sol que irradia calma e força e convida os intérpretes a um merecido intervalo. 

Os sons, as cores e os odores, inundam os ares de frescura e, conjugando-se com a aragem, transformam-se num cenário natural de perfeita harmonia, cuja dimensão e beleza, apenas dependem dos olhos, dos ouvidos … e da sua sensibilidade, caro leitor!...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Tonho das Inguias



O António Freixo, mais conhecido por Tonho das Inguias, era temente a Deus e cumpridor dos seus deveres de cristão. 

Casado, pai e já avô, honrara sempre os seus compromissos e, ali onde o viam, era um caçador de se lhe tirar o chapéu. 

Não só pela sua boa pontaria, como pelo conhecimento dos sítios, hábitos e costumes da caça, era conhecido em toda aquela faixa do cimo da Cova da Beira, já a puxar para a Guarda. 

Um dia, regando um chão de batatas, na horta do Pedrógão, a caminho da Bendada, aproveitava para vigiar o vivo que tasquinhava no lameiro de cima, encostada ao baldio. 

Era tempo de caça e tinha a espingarda encostada a um carvalho, à entrada da horta. Naquele cair de tarde reinava o sossego e calma. 

De repente, surgiu de trás de umas pedras um caçador, que depois de dar a salvação, disse ser de Quarta-Feira e ter chumbado uma perdiz, pouco depois de Dirão da Rua, na encosta da Sortelha. 

Pela direcção que tomou era bem possível que tivesse vindo cair para aquelas bandas. 

O Tonho gostava de chalaças, mas fazer-lhe o ninho atrás da orelha era coisa para que não estava pelos ajustes. Era dos poucos casos em que reagia mal. 

Todavia, enchendo-se de calma, dispôs-se a gozar o pratinho e, o mais lentamente que pôde, disse: 

Ora bem, vamos lá a ver!... Atão vomecê diz que é de Quarta-feira e andava a caçar perto da Sortelha. Do lado de lá, ou na encosta das Águas?... 

E, sem esperar pela resposta, continuou: E, na sua opinião, quantos chumbos e em que parte do corpo, meteu na avezinha?... 

Não deve ter sido grave o ferimento para achar que poderia ter vindo até aqui!... Quanto tempo demorou vomecê a chegar cá?...

De duas a três horas, calculo!... E cães não traz?... Ou cansaram-se da longa jornada e ficaram a descansar?!... 

Ah!... Agora se me alembra que há aí uns três quartos de hora, pousou uma diaba além naquele barroco cimeiro e olhe que trazia tal velocidade que arrastou o pedregulho mais de cinco metros pela minha adentro. 

Veja vomecê, uma coisa que está ali, desde que o mundo é mundo!... Ele sempre há coisas, amigo!... 

Olhe, ou está para lá aninhada, ou morreu no embate, ou levantou outra vez e, Vale do Zêzere acima, já a estas horas passou de Valhelhas, a caminho de Manteigas!... 

Se arrancar já, e for ligeirinho, estará lá antes de manhã!... E como qualquer caçador que se preza a reclamar o que lhe pertence. 

O caçador andou a rondar a pedra enorme que o Tonho lhe ensinara e, com nova salvação partiu dali, em direcção ao sol-posto, sem nunca mais ser visto. 

O Tonho andou incomodado, pois não voltou a ver a criatura. Como não desse por qualquer notícia de morte ou desaparecimento, acabou por ir-se desculpando, mas, na Quaresma, a consciência pesou-lhe e foi ao padre António, de Caria, confessar-se. 

Estava arrependido de ter mandado para o desconhecido um caçador, que, embora mais mentiroso que ele, o obrigou a faltar à verdade. 

É que, senhor padre, eu informei-o que a perdiz tinha empurrado o barroco maior, da minha do Pedrógão, uns cinco metros. E, na verdade, o penedo só se deslocou um palmo, bem medido!... 

O padre, fez-lhe o sinal da cruz sobre a cabeça e deu-lhe como penitência: 

Agora, vais arranjar amigos e repor o barroco no sítio onde sempre esteve. Se Deus o deixou ali não vamos ser nós a mudá-lo. 

Mas, se chegares lá e o barroco já estiver no lugar, descansa. Estás absolvido.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Chuva de prata



Toda a garotada da aldeia gostava de ouvir as histórias do velho Vicente Pisco, que morava num casebre, ao fundo da cabana onde o Ti’ Zé Coroado fazia cestos de verga. 

Na nossa linguagem não havia números para dizer a idade do velhote; era velho e mais nada.

Naquele ano, à volta de mil novecentos e cinquenta, não havia escola no Posto da Serra e a garotada distribuiu-se pelas aldeias mais próximas; eu tinha a sorte de ter avós na Queixoperra e fui para lá, fazer a segunda classe. 

Pouco mais me lembro, para além de que aquele ano foi muito bonito: gostei muito da Professora, dos colegas e, sobretudo, de ver muitas coisas que não havia na minha terra. 

Havia muitas peras, muitas casas com juntas de bois, muitos caçadores e duas coisas que, de tal modo me cativaram as papilas gustativas, que ainda consigo lembrar-lhes o sabor, na íntegra: os queijos da minha avó e as passas de figos brancos, da figueira da Amarela. 

No Pito Cerro tínhamos laranjas muito doces, na horta do Ribeiro, cenouras – coisa que na Serra nunca tinha visto –, na Matagosa, água muito fresquinha e no Ougueiro, ao fundo do Pito de Horta, alhos, cebolas e alfaces e uma nora. 

Uma coisa me incomodava: dado o elevado número de caçadores, havia muitos cães e eu tinha medo deles. 

Era um consolo subir e descer a azinhaga da Bica, quando ia a recados à loja do Ti’Zé Maia, ou do Ti’Silvestre: subia e descia sem encontrar um único cão. 

Morava no casal, junto das casas da gente mais velha da terra e, da varandita do meu avô, via entrar e sair o Ti’Vicente Pisco. 

Diga-se que Vicente era um nome vulgar na Queixoperra e não havia nenhum na Serra. 

Aqui está mais uma novidade, para mim, entre muitas outras que me enriquecerem, de tal modo, que ainda hoje guardo um carinho especial pelos usos e costumes da terra e pelas suas gentes. 

Ouvi, com outros miúdos, muitas histórias do velhote. Retenho-as, na sua grande maioria, na memória. Há, porém, uma que várias vezes se adianta e sobrepõe às outras: a do dia da chuva de prata. 

Contava, sentado no degrau da sua porta, o Ti’Vicente Pisco: 

Há dias para tudo; uns melhores, outros piores e muitos, nem bons nem maus. 

Há dias que só vêm uma vez: só temos um dia para nascer e só outro para morrer. 

Um dos meus segredos é saber quais são esses dias: para nascer é o primeiro e para morrer é o último, da vida de cada um. 

E olhem que já tem vindo aqui à minha porta o dia de morrer, mas eu, nesse dia, vou-me embora para longe, para as Fontainhas, ou para a Lameira Cimeira. É por isso que sou o mais velho da aldeia. 

Há dias que nos ficam na lembrança e outros que teimam em não nos sair dela, embora gostássemos de os esquecer. Há dias bons e dias maus – vocês conhecem o Ti’Manel Dias, das Barreirinhas? E que vos parece? 

É claro, é mau. Assobia aos cães quando vocês lhe passam à porta!... 

Nós, lá íamos abanando a cabeça, até que o João do Ribeiro, ou o Heitor – outro nome que também não havia na Serra –, lançavam o desafio: Oh Ti’Vicente, e é verdade que há um dia que chove prata?!... 

Completamente verdade. 

Foi-me dito pelo meu avô e olhem que era homem que nunca mentia!... Ele andou toda a vida para encontrar esse dia e, se calhar, foi numa altura em que tinha ido a alguma feira, ou quando andou na tropa. Acabou por não o descobrir. 

Eu, aqui há uns anos, acordei com o chão coberto de branco. Vesti as calças, a correr, e fui à tapada para apanhar a prata, mas ainda não era o dia de chover prata; era, apenas, uma das poucas vezes que caiu neve cá na nossa terra. 

Palavra de Vicente Pisco: podem estar descansados que quando estiver para chegar o dia da chuva de prata, mando avisar todos – não quero que ninguém fique sem poder guardar um bem tão raro. 

Olhámos uns para os outros, muito crédulos, e fomos embora!...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Três moinhos




Ainda hoje, os mais antigos dizem "Três de paus", quando se referem à nossa terra e ao nome que quiseram, um dia, pôr-lhe, mas acabou por não vingar, sendo vencidos os que votaram Três moinhos, e vencedores os que disseram o nome actual de Serra. 

Assim ouvi contar ao Ti'Tonho Lindo que todas as tardes vinha despertar da sesta no poial junta da casa de meus avós, no Casal, ali quase em frente da porta da igreja e a uns trinta metros da casa dele. 

Posto o caso ao meu avô, acabei por ficar convencido que aquilo não passava de mais uma das histórias inventadas por alguém que não tinha mais que fazer e passava parte da vida a trazer mais que levava, sem ter o mínimo cuidado de averiguar, uma pontinha que fosse, sobre a verdade do que dizia. 

Chega aí, encostado ao pauzito que nunca larga e, depois de dar a salvação, senta-se. 

Despeja o saco, dando as últimas da terra e de fora, entremeando as novidades com a imaginação. Depois levanta-se, e com o habitual "fiquem-se com Deus", lá vai, carreiro da vinha abaixo, até à casa do filho Augusto, lá na Figueira Regal, onde volta a sentar-se, no poial ao lado da porta virada para a ladeira do Pichelim. Dali parte para a horta do Casalinho. 

Um vale de cães, naquela barreira da encosta do Cabeço Pião, quase no Chão de Burro, lá junto do pinhal. Uma solina onde, no Verão, só verdeja alguma coisa a poder da água da mina, pois, a toda a roda pouco mais se vê que restolhos. 

Como não tem nada para a ribeira, acabou agarrado ali, onde com a água da mina, vai tendo uns mimos para ele e os filhos que não ligam às terras, fazendo as suas vidas por fora; um, nos negócios da resina, algures para os lados de Domingos da Vinha e o outro, na compra de madeiras para a firma do meu velho amigo Aparício, de Alferrarede. 

Na meia hora entre a Figueira Regal e a horta do Casalinho, parará sempre que encontrar alguém, que lhe dê conversa. 

Chegado à horta, senta-se à sombra de uma oliveira e vai olhando para as duas cabritas e a ovelha que a mulher para lá leva todos os dias e prende, no pequeno baldio, onde vão comendo o pouco que apanham. 

Entretanto a Ti'Carolina rega a água da mina, colhe umas folhas de couve, ou outras hortaliças e, no final da tarde, voltam os dois para casa, aqui no Casal, depois de passar por casa do Augusto, lá na Figueira Regal. 

Isto repete-se todos os dias em que o tempo o permite; nunca foi homem para grandes trabalhos. 

Em novo teve uns pequenos negócios, mas nunca se lhe viu grande luzimento no que conseguiu arranjar. Já para "vender landum", como diz o teu pai, está ali para as curvas. Pela língua, ninguém o prende e “coisa que se lhe segrede, não passa do distrito", dizia, igualmente, o meu pai. 

Se alguém quiser que qualquer coisa se saiba em todo o povo, é dizê-la, ainda que em segredo, ao Ti'Tonho Lindo. 

Mas a garotada gostava de ouvi-lo e fazer-lhe perguntas. Era, ao tempo, dos homens mais velhos da terra e o meu avô acrescentava que sempre o conheceu velho e, de certeza, também cansado. Quando nos via à volta dele, aproximava-se e depois de tomar nota das conversas, saía, quase sempre, a rir. 

Voltemos, então, ao nome da nossa Terra: 

Segundo o Ti'Tonho Lindo, houve, em tempos onde só a memória de várias gerações poderia chegar, três moinhos de vento, cá na Serra. Um na Rompida, além sobre o nascente, que ainda se conserva a trabalhar; outro no outeiro que sempre foi conhecido pelo moinho, ali sobre o meio-dia, para lá da Chã; e um terceiro, pelo norte, além no cimo da serra, na Maxieira, onde não há vestígios, nem sinais de qualquer moinho, a não ser o nome daquele local. 

Vistos dos baixos do Cabeço Barreiro, junto à Portela da Casinha, a possível localização dos três moinhos, faz lembrar uma flor com três pétalas, semelhantes ao sinal do naipe de "paus", das cartas de jogar. Foi esta ideia que esteve na origem do nome que quiseram pôr a esta nossa terra, antes de se chamar Serra. 

Diz-se até, fazendo fé nas palavras do Ti'Tonho Lindo, que um dos moleiros era agigantado; o do moinho sobre o outeiro para lá da Chã. E que juntava ao avantajado corpo um génio terrível, pelo que ninguém se queria meter com ele e, muito menos opor-se-lhe. 

Da sua folha de serviço constavam diversas mortes e desaparecimentos, relatam as lendas à volta do nome deste lendário moleiro. Também o fim dele está envolto em misteriosa e incerta causa. 

Conta-se, como na generalidade das histórias e lendas, que quatro cavaleiros daqueles que pertencem lá ao convento de Cristo, passaram, cá na Serra, a caminho de Belver, e decidiram subir até junto do moinho para observar toda a zona a nascente, para onde pensavam dirigir-se. 

Como não encontraram ninguém, foram entrando e verificaram que o moinho estava a trabalhar. 

Chamaram pelo moleiro, deram uma vista pelas cercanias do moinho e ao ver tão grande armazém de pão, resultante das maquias, resolveram esperar pelo moleiro para o intimarem a entregar metade para a Ordem. 

Surgindo como que do nada, o moleiro não deu parte de fraco e convidou dois dos cavaleiros a pernoitar no moinho, dizendo que os outros podiam seguir viagem e passar pelos outros moinhos para também lá cobrarem a dízima. 

Os cavaleiros aceitaram e combinaram que, no dia seguinte se encontrariam no centro da aldeia, ainda antes de nascer o sol, debaixo do plátano, mesmo em frente da porta da capela. 

Entretanto os dois que ficaram lá no moinho, viram, de repente, aparecer uma figura desconforme, com braços maiores que os de qualquer ser humano, completamente coberto de pelos e movimentando-se como um macaco enorme. 

Pouco depois fechou-se a porta do moinho, com um grande estrondo, desapareceu a claridade e as pedras começaram a girar com tal velocidade que ao roçarem uma na outra faiscavam por todo o moinho. 

Sem que ninguém da aldeia desse por nada durante a noite, ao romper da manhã foram vistos pelo moleiro do moinho detrás da Chã, dois cavaleiros pendurados no plátano do largo da igreja e os seus cavalos comendo, vagarosamente uns molhos de feno junto ao tronco da árvore. 

O velhote gritou por socorro, juntou-se gente e logo ali começou a correr a versão de que os quatro cavaleiros se tinham envolvido numa luta e dois mataram os colegas e penduraram-nos na árvore. 

Acabaram todos a olhar uns para os outros, esperando que fossem encontrados os outros dois cavaleiros que ninguém afirmava ter visto, depois de verem na tarde do dia anterior um grupo de quatro a subir para o moinho. 

O moleiro afirmava que no dia antes tinha estado todo o dia no moinho e atendera dois cavaleiros que lhe disseram que vinham cobrar a dízima e passariam no dia seguinte, pois ainda tinham de ir aos outros dois moinhos. E seguiram caminho, ficando o moleiro a trabalhar, normalmente. 

Quando saiu, de manhã cedo, para ir fazer a volta da Aboboreira, passou ali e viu aquela cena. Ainda tinha o burrito carregado de taleigos. 

Acabaram por vir os cavaleiros que tinham ido aos outros moinhos e tinham ficado a dormir num barracão perto da Rompida. Ao depararem-se com os colegas pendurados no plátano aceitaram que se teriam desentendido e um deles, depois de matar o colega resolveu pôr fim à vida. 

Recomendaram que fossem enterrados, levaram os cavalos e desapareceram sem deixar rasto, nem levarem qualquer saco de grão ou farinha dos dízimos por que pareciam ter vindo. 

Todos falaram nas artes do moleiro. 

Nunca ninguém lhe referiu o nome nem fez qualquer referência a família. 

O certo é que nunca ninguém quis morar lá naquele lugar.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Duas vidas



Pouco mais de cinquenta metros, depois de atravessar a ponte da Ribeira, deixava-se o caminho, de carro, do Sanguinhal e mal se entrava no carreiro do lagar, descia-se uns dois ou três metros e, com todo o cuidado, a escada até à levada que ligava o açude, ao Sanguinhal do Lagar e, também atravessava a ribeira, aproveitando um tapume antigo, para apanhar a levada que seguiria, margem esquerda abaixo, até à Cabeça Gorda e à Caldeirinha. 

Tinha muitos meeiros aquele açude da ribeira, que, noutros tempos, em alturas de não regas e caudal mais abundante, movimentava o lagar de azeitona, ao tempo, em ruínas e, assim, condenando a Serra a não mais ter outro lagar, durante várias décadas. E, quando veio um novo engenho, a força da água da ribeira foi trocada pela de um potente motor de explosão. 

O açude era montado e melhorado todos os verões e uma das tarefas era a caça às irós, a fim de diminuir, ao mínimo possível, os danos que elas causavam na represa. 

Era um local especial para a fauna aquática, uma vez que, quando cheia, a foz da represa dava até aos lavadouros da ponte, onde não se acabavam as lavadeiras e a dispersão de restos de comida e dos detritos das lavagens.

Tempos em que não havia detergentes e, pelos vistos o sabão azul da barrela não atacava os peixes; antes os atraía e engordava. 

Na primeira hortita, logo à entrada do bueiro que abre para a levada da margem direita, os mimos do Ti’Manel Rosa mal conseguiam erguer a cabeça debaixo do pessegueiro de pêssegos amarelos, assoberbado por uma latada que se estendia até sobre a nossa figueira, situada mesmo junto da estrema das duas leiras. 

Quer uma quer outra das árvores traziam as raízes nas águas da ribeira; de lá subiam as balças e a vegetação dos freixos e trepadeiras, procurando mostrar-se, por cima daquele tecto de verdura, à luz e calor do sol. 

Afinal a vida nascia de baixo e de cima: da água e do sol. As hortas, naquele recanto de frescura, estavam, pois, entre as duas vidas. 

No espaço entre o pessegueiro e as videiras que vinham da horta do Ti’Manel Rosa e a nossa figueira de belos figos pretos, abeberados, de capa rota e bojo úbere, não havia qualquer cana de milho; estava, invariavelmente, dum e outro lado da estrema, povoado de couves-galegas, que, embora com falta de luz do sol, cresciam muito mimosas e tenras. 

Havia, por ali, sinais de coelhos que, depois de saciados com a verdura apetitosa, aproveitavam o local para fazer ali o touril. 

O local tinha duas finalidades, durante os meus tempos de férias: espaço de leitura, e lugar de descanso, nas manhãs de Agosto, quando tinha a redondeza pejada de costelas, armadas aos taralhões. Comi ali muitos figos, pêssegos e cachos de uma videirita do nosso lado, salvo erro, da casta “fernão pires”. 

Um conjunto de três pedras, colocadas, discretamente, pelo meu pai, e dispostas de tal forma que muito se assemelhavam a um sofá, dava mais comodidade que qualquer outro lugar na nossa casa. 

Um forro de junco fresco, cortado na ribeira, dois metros mais abaixo, e ali estava um verdadeiro trono, digno de reis e príncipes que, às vezes, para ali eram trazidos pelos enredos dos livros que ia lendo. 

Sentado, virado à ribeira, não via nem era visto por quem passava no caminho. Via, no entanto, alguns metros de levada na margem esquerda e o leito da ribeira, formado por uma mistura de tufos de junco, pedras branquinhas e água a correr, de gola em gola, sussurrando músicas tão do agrado de cardumes de peixes minúsculos que povoavam as poças da ribeira. Na força do calor, viam-se mais pedras bulideiras, polidas pelas águas de inverno, que charcas de águas quase paradas. 

Também, como sempre foi tão ao meu gosto, devo ter ali passado horas esquecidas, a pensar. Recordei muitas vezes aquele local, quando me diziam se não queria reflectir um pouco mais, ao tomar decisões que poderiam parecer precipitadas, mas eram, de facto, resultantes de muita análise e ponderação. 

Sempre fui homem de grande actividade intelectual; parecendo distraído, raramente desligo a máquina. Naquele tempo arquitectava os caminhos da vida. Muito diferente, isso era ponto assente e seguro, da que desfrutava ali, no paraíso. 

Teria de me convencer que lá longe, não sabia ainda onde, outros mundos me desafiavam e era preciso que aproveitasse, ao máximo, os gastos com os estudos, desenvolvendo as capacidades que sentia dentro de mim e continuando sempre, na liderança, ou próximo dela, em todas as situações que a vida me abrisse. 

Sempre pela escada ascendente, deixando a descendente para os abúlicos, os fracos e os incapazes. Sempre na luta leal, nunca baixando os braços. Sempre subindo. 

Então era o estudo; havia que estar sempre no topo. O segredo era, tão só, nunca perder o tino, nunca levantar os pés do chão e ler muito, quer daquilo a que fosse obrigado pelos deveres diários, quer daquilo que pudesse complementar o que se ia, obrigatoriamente, aprendendo; isso passou a ser secundário para os meus objectivos. E os caminhos nunca se me fecharam. 

A definição da vida sentimental pôs-se algum tempo mais tarde. Anos depois e já pelos meandros da vida, com um rumo definido mas ainda incerto, intrigado e sem perceber bem porquê, fiquei com a sensação, na última vez que a vi, que tinha chegado a hora. Havia que assegurar que o objectivo traçado era exequível. 

Porém, não por ali, mas perto do Lis, o convite para um encontro na semana seguinte não podia ser aceite e, depois a retoma do trabalho e a ida para férias, eram factores de desencontro. 

Depois do interregno não podiam voltar as dúvidas e um novo arrefecimento ou novas negas, que eu nunca aceitei como autênticas, podiam por fim aos meus projectos. 

Analisava a minha paciência, caldeada de teimosia, e assente em muita segurança e sorria. Nunca desisti do objectivo final; a força do que tinha que ser foi, afinal, mais forte. Estava por ali o que procurava e segui nas rotas do caminho que defini. 

Anos e anos, a fio, umas vezes mais excitado, outras mais calmo e sereno, nunca fui homem de abandonar o caminho, depois de meditado, ponderado e decidido. Acaba-se, com o tempo, por chegar a duvidar se algo já começou, ou se qualquer coisa irá começar. Porém não faz parte do meu feitio, nem parece enquadrar-se comigo, a desistência e o abandono do rumo traçado e da luta pelos objectivos. 

O tempo, não sendo nada de concreto, pois, na realidade, nem existe mais que o presente: a cada momento, o passado já lá vai e o futuro acaba de chegar. Porém é um grande mestre e, naquelas calmas e cálidas manhãs, ensinou-me a aprender a esperar, não agarrado ao pasado, mas aproveitando o presente para ver o futuro. 

Sabia o que queria e na altura própria veio a recompensa. Tão simples como a confirmação de que afinal podíamos continuar os nossos projectos e era por ali que deveríamos ir. Era a estrada por onde duas vidas seguiriam, lado a lado. 

Num livro de Aristóteles acabei por perceber e, sobretudo interiorizar, que há muito de verdade quando se diz que a água só passa uma vez por baixo da mesma ponte. 

Associei outros dizeres de gente mais simples e, por isso, mais do meu agrado, como aquele em que o poeta Aleixo glosa o vinho que vai para vinagre sem retroceder o caminho. A conclusão de que, só por obra de milagre pode voltar a ser vinho, diz-nos, afinal, que não esperemos milagres, prevenindo-nos para que o vinho não chegue a ser vinagre. 

Esses pensamentos iam todos ter ao mesmo fim; caminho traçado e assumido é caminho seguido. E, no auge de mais um fim de serão, antes de apagar a luz, tudo se resumia à determinação e confiança que a Psicologia me ensinara: os complexos não servem para nada; a sublimação dos mesmos, pode e é, por norma, motor de força e factor de segurança, quer sejam eles, em génese, de inferioridade ou de superioridade. Acabam por caldear a força que nos move e impulsiona. 

O peso e vazio do escuro, que tão bem simbolizavam o nada, ajudaram-me a adormecer, sem perceber o que teria ganho ou perdido e, em tese, se alguma coisa haveria para ganhar, ou perder. A solução era continuar. 

Na próxima vez que nos vimos, esquecidos do vazio atravessado, rapidamente descobrimos o rumo a dois e desde então temos seguido o nosso caminho. 

Valeu a pena a definição caldeada naquelas calmas manhãs de Agosto. De objectivo em objectivo, sempre a pulso e sem afrouxar a corda tudo tem corrido bem e num balanço simples apenas ressalta uma conclusão: 

As duas vidas que num dia longínquo, e como que por acaso, se encontraram e pareciam paralelas, afinal não o eram. Desde cedo se foram aproximando e a convergência inevitável acabou por vencer. 

Valeu e continua a valer a pena.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Noite e Dia


 
Quando releio as "histórias de gente simples" fico com a sensação que, por trás delas, ficaram outras histórias por escrever, que correm o risco de acabar por ficar inéditas.

E, num primeiro impulso, acho incompleto o meu trabalho.

Nessa frustração - a palavra é forte de mais - as histórias continuam a apelar à imaginação, a espicaçar a memória e a dar largas às ideias emergentes do turbilhão de negaças, que rodopia no imaginário e na vida das personagens.

Eu sou o primeiro, senhora professora; sou "Feliz" e até nem discordo do nome que me puseram; e não percebo porque se há-de começar com o "Varisto".

Ele deve ser dos últimos, antes dos Xicos e dos Zés, que, aparecem Franciscos e Josés!

Não és o primeiro, não senhor; antes de ti será o Evaristo. É este o nome do teu colega, ainda que muito poucas pessoas da aldeia o reconheçam pelo seu verdadeiro nome.

Assim como o teu; devia ser Félix, mas acabaste por ser registado como Feliz, por engano do senhor Mário, do posto de Registo Civil.

Esta troca de palavras recorda-me uma cena, na sala da escola da aldeia, na minha quarta classe.

A senhora professora chamou para o quadro preto o Evaristo.

Ergue-se, de rompante, o Feliz, que, altivo, se arrogava o direito de precedência dada a ordem alfabética dos nomes próprios.

Não sei porque me terei lembrado disto...

No fim são as recordações, meio apatetadas, que amainam a vertigem do carrossel das dendrites e dão folga aos neurónios, baixando o ritmo das "histórias de gente simples”, que contemplam e dão alma a essas personagens que, como os transístores, ou os chips, de um qualquer aparelho electrónico, desconhecem o seu real valor, mas acabam por ser fundamentais, em sofisticados mecanismos.

As cenas da vida calma e pacata, da gente simples, serão como as cores dum quadro; só criam depois de perderem a sua identidade e interagirem entre si.

É então que a imaginação faz o resto: sublima e dá corpo ao criativo e artístico.

Também nas histórias, cada um pode, depois, ver, sentir e fazer o que quiser. Os padrões, a sensibilidade e os desejos são os de cada um, tal como o direito de gostar ou detestar, aplaudir ou reprovar, conhecer ou ignorar.

Ah! Se os poetas tivessem o privilégio e a oportunidade para explicar todos os enganos, exageros e erros que alguém (críticos, declamadores e simples intérpretes) acabou conectando com as suas palavras!

Ou se os heróis assistissem ao filme dos seus próprios feitos, alcançassem a dimensão e percebessem as análises hiperbólicas dos actos realizados para satisfação das motivações básicas, visando, tão só, a preservação da espécie!

É que há a imaginação que acaba por condicionar todos os tipos de análise; há os entrechos, mesmo nos filmes, que é difícil refazer - não é de ânimo leve que se cenografa o peso da escuridão, a bruma do denso nevoeiro, o barulho da cacimba, o silvar do vento!

Ou, antes de tudo se recolher, o crepitar da lareira. O bruxulear da luz baça da candeia e o pio da coruja na torre da capela.

A força do silêncio é entrecortada pelos mais pequenos ruídos, e mais além, no virtual e intemporal, pelo ladrar dos cães e o miar dos gatos. 

É difícil e complicado recorrer aos efeitos especiais, baseados e construídos a partir das palavras.

As gentes das aldeias não tinham direito a luzes, nem sons, para além dos que a Natureza dispõe; mas também não tinham medo do silêncio; adoravam-no e respeitavam-no.

E esperavam, avidamente, o alvor de cada novo dia, de cada nova manifestação de vida renascida. 

Rejubilavam quando viam que a ordem do mundo não se alterara com a paragem da vida, que as fontes e os ribeiros continuavam a correr, os pássaros voltavam a voar, com os mesmos trinados, e as sementes voltavam a dar vida, às terras.

Numa palavra, depois de pequenas pausas, a vida continuava, porque a ordem e o comando de tudo o que existia, rejuvenescia a cada ano, como sempre acontecera.

Naqueles meados do séc. passado, a noite e o dia nas aldeias eram duas realidades acima de tudo e de todos.

Ainda não tinha chegado a energia eléctrica e por isso, não havia rádio nem televisão.

Não chegavam lá os jornais e além dos livros da escola - quando estava a funcionar algum posto escolar - mais não era preciso.

Nas tabernas, onde se faziam os avios de mercearias e se bebiam uns copos de vinho, jogava-se às cartas, ao burro - feito de um caixote de sabão (ver ilustração), para onde se atiravam os vinténs -, e à malha. 

As conversas restringiam-se a pequenos negócios, à contratação de homens e mulheres para os trabalhos e às tradicionais histórias, lendas e aventuras que povoavam o imaginário, até se gastarem pelo uso, ou serem substituídas por outras.

Os factos e ocorrências do quotidiano não abundavam.

Havia, pois, campo aberto para a proliferação do imaginário, do hiperbólico, do distante e do misterioso.

Em casa, depois de terminados os trabalhos, a família, em volta da mesa, ou à roda da lareira, comia, do barranhão de barro vidrado, as couves com batatas e feijões, o pão de milho, um bocado de sardinha ou um punhado de azeitonas curtidas.

Aos domingos, depois da missa, lá se chegava ao grão-de-bico, com toucinho da salgadeira e algum enchido, normalmente guardado para dias de festa.

O arroz e a massa completavam a dieta frugal desta gente que, embora a pobreza dessa alimentação, aplicava bastantes recursos físicos nos duros trabalhos agrícolas.

Durante os longos serões de inverno, enquanto no caldeirão fervia a vianda dos porcos, ia-se atiçando a fogueira, fiando uma roca de linho, dando uns pontos nas roupas e contando histórias, ou rezando.

Rezava-se antes de começar a comer, depois de comer, pelo serão adiante... É que rezando acabava por se poupar a vista, passar o tempo e alcançar mais algumas indulgências.

Efectivamente a ligação à igreja, das gentes daquelas terras, naqueles tempos, era muito grande. Seria impensável que alguém faltasse à missa, aos domingos, sem uma razão muito forte.

Não vamos tecer muitas considerações sobre a forma como eram doseados os castigos, nos actos do culto, nem referir-nos ao peso e responsabilidade que os padres colocavam sobre as pessoas. 

Todos nos recordamos das "práticas" infindas em que se espalhava o terror, sobre os pecadores e os não cumpridores escrupulosos dos preceitos da igreja.

Os quadros pintados pelos pregadores que no meio do sermão já tinham uma grande parte da assembleia, em lágrimas. E continuavam a proclamar os princípios e as leis da igreja, usando uma linguagem que a maior parte nem compreendia, mas sentia e aceitava.

Pela dramatização do padre, adivinhava-se mais algum castigo de Deus e, como tal, havia que aceitar e obedecer.

Paralelamente, cultivava-se o sentimento dos prémios e dos castigos, como se fosse possível algo mais penalizador do que a vida daquelas gentes.

Mas, os condenados enchiam as crenças do povo: as almas penadas, que não alcançavam a luz e erravam nas longas noites, nestas aldeias onde não havia exposição do Senhor, nem sacrário nas igrejas.

Era o diabo, os espíritos malignos menores e almas do outro mundo que enchiam a mente daquela sociedade rural, condicionada, controlada e dominada pela igreja.

Porém, chegou, um dia a energia eléctrica, abriu-se a estrada, aumentou a emigração externa e sobretudo a interna. Vieram os rádios, abriu a escola, mandaram-se várias crianças para os colégios e seminários. Apareceram as primeiras televisões... 

Lembro-me do primeiro rádio, que funcionava com uma bateria de automóvel e só se ligava para ouvir as cerimónias da Senhora de Fátima, no 13 de Maio.

Era lá em casa do Ti'Soldador, que se juntavam, nesse dia, cantando e rezando, a maior parte das mulheres da terra e alguns homens.

Os tempos mudaram muito. Não só nas aldeias, mas em toda a parte, houve maiores mudanças nas décadas de sessenta, setenta e oitenta, que nos últimos cinco séculos de História.

Ficaram alguns usos e costumes, hábitos e preceitos, que recordamos com respeito e consideramos de vital importância para que possamos hoje perceber que tempos foram aqueles. 

Comparadas com as adversidades daquela longa noite, as piores condições que hoje ainda pesam sobre os extractos mais desfavorecidos da nossa sociedade são, se não paraísos, pelo menos cenários humanos e luxos sociais.

As grandes directivas sociais que presidiam e condicionavam a vida das gentes daqueles tempos: fome, ignorância e medo, que se manifestavam pela subserviência, resignação, respeito e um ror de outros atributos, roçando o indigno e desumano, foram erradicados e deram lugar a um novo sentimento, até aí desconhecido, ou, completamente fora do alcance – LIBERDADE. 

Qualquer homem é, hoje, livre e responsável. Pelo menos à luz dos princípios básicos da Lei suprema do nosso País. Ainda que a realidade...

Porém a memória é curta: e muitos dos que podem certificar a análise que deixamos, quer porque viveram nesses tempos, quer porque isso lhes foi contado, já esqueceram o que lhes interessou e arvoram-se em arautos das conquistas que se fizeram, enquanto se refugiaram no primeiro buraco que encontraram para não se comprometerem. 

Recorrem a amigos, compadres e correligionários, para usarem e abusarem da coisa pública, para se furtarem aos deveres sociais, ou para se locupletarem com benesses e bens da colectividade.

A comunicação social, pouco rigorosa, dependente e asfixiada, navegando à vista e sempre com os olhos postos no mestre - que dá dinheiro, privilégios e audiências -, esqueceu já os tempos em que os editoriais dos Directores valiam o preço dos jornais. 

Hoje há, em cada publicação, dezenas, ou centenas de jornalistas; porém os cidadãos conhecem dois ou três dos mais mediáticos. E, havendo cada vez mais letrados, porque se lêem cada vez menos jornais?

Se os nossos pais e avós cá viessem, corariam de vergonha ao ouvir proclamar nas televisões, ou verem nos jornais, o nome de altos dignitários das públicas instituições, acusados de incompetência, desleixo e favorecimento, de que resultaram prejuízos de muitos recursos da sociedade, sem que nada aconteça a esses figurões.

Ficariam, sobretudo, muito admirados por não verem e ouvirem referir, louvar e homenagear, alguém que trabalhou honradamente e contribuiu para o bem de todos. 

Interrogar-se-iam se já não há respeito e consideração pelos velhos, pelos doentes, pelos que a Pátria usou, quando precisou, e logo esqueceu. 

Não entenderiam a pouca apetência pela política, nem compreenderiam, ainda, muitas outras coisas… 

Estranhariam que a trilogia aprendida na escola – Deus, Pátria, Família – seja, nos tempos que correm, enunciada com falta de respeito, embora, lamentavelmente, com alguma verdade – Adeus, Pátria e Família -. 
Mas isso será o objecto das nossas "histórias de gente simples”, aliás escritas por mero prazer e, despretensiosamente. 

Sempre, porém, dentro dos preceitos da trilogia aprendida na escola – entenda-se Posto Escolar - lá da aldeia onde fizemos a quarta classe, por sinal muito bem feita.