sexta-feira, 23 de abril de 2010

O escritor

O António é barra na redacção e conto ou décima que ouça não mais se lhe passa da memória.

Todavia aprendeu a ler com alguma dificuldade e quanto a contas e problemas, estamos falados: é o cabo dos trabalhos. Desenha com bastante dificuldade, na História e na Geografia, vai indo.

Estou em crer que mais um anito de escola não havia de lhe fazer mal nenhum. Assim, como assim, não tem grande corpo, é novo e tem muito tempo de ir aprender o ofício com o pai.

Foi com estas palavras que, por alturas da Páscoa, a senhora Professora fez o ponto da situação à mãe do Tonho dos Gatos, filho do caldeireiro da terra e, na boca da mãe, Ti’Engrácia, a mais fina das criaturas que Deus ao Mundo deitou e, sem sombra de dúvidas, o mais esperto dos alunos da escola.

Chegou a casa pior que uma fera: Então não queres lá ver, homem!? Disse-me que o nosso moço é fino, que escreve que nem um artista, mas que acha que ele deve fazer mais um ano de escola. Isso é que era bom! Pois se é dos melhores que vá a exame e logo se verá! Se calhar não lhe leva tanto como os outros; nem todos podem ser ricos e ter mimos para a paparicar a toda a hora.

O caldeireiro Eduardo, homem comedido e sensato, abanou a cabeça e não dando muita importância ao caso, desviou a conversa para assuntos do trabalho, dizendo que havia ali obra para entregar, pronta desde o princípio da semana e era melhor que ela fosse fazer isso. Ou não lhe fazia falta o dinheiro dos trabalhos? Quanto ao Tónio e à Professora, deixa por minha conta que eu trato de tudo; para a semana vou lá falar com a dona Elvira; não é assim que se chama a Professora? Veremos o que é melhor para o rapaz!

Pois é homem, já estou mesmo a ver!... Todos de enfiam o carapuço!... Acreditas em toda a gente!... Estou mesmo a ver que ainda o cachopo há-de querer ir assentar praça e não ter feito o exame. Então se todos os outros estão capazes par ir a exame, porque diabo não há-de estar o nosso? Então ele é menos que os outros, ou quê? Podes ir lá falar com a Professora, mas vê se não te deixas enrolar, como é teu costume!

O caldeireiro encolheu os ombros, sentou-se junto da mesa onde tinha os trabalhos, puxou o maço de “Provisórios”do bolso pequeno da jaqueta, acendeu um cigarro e recomeçou a trabalhar.

Mas, num salto o caldeireiro, voltou-se para a mulher, abriu-lhe muito os olhos e gritou-lhe: Querem lá ver o raio da mulher!? Não sabe dizer duas coisas, é burra todos os dias e parece que agora é ela que veste calças, cá em casa! Cala-te minha estúpida, pois se calhar nem percebeste direito o que a Senhora Professora te disse. Achas que ela tem algum interesse em não passar os alunos? Achas que qualquer artista tem algum gozo em não ver bem compensado e pago o seu trabalho? Cala-te que eu lá irei tratar do caso.

Passados dias, já depois das férias da Páscoa, o caldeireiro foi um dia lá à Horta Velha, a casa da Senhora Professora e pediu à rapariga que anunciasse o pai do António Pires que gostaria de ter uma conversa, com a Senhora, sobre o menino. Se achasse que ele devia ir à escola, que fizesse o favor de dizer.

Convidado a entrar, descobriu-se e sentou-se à mesa onde já estava a Professora, que, logo lhe perguntou se se passava alguma coisa com o menino, pois, nesse dia não tinha ido à escola e todos disseram que não o tinham visto.

Não minha senhora, o meu filho está bem e só faltou à escola porque a mãe foi comprar-me uns materiais para a arte e ele acompanhou-a. Que nos desculpe, pois devíamos tê-la mandado avisar. O que me traz cá é aquela conversa que teve com a minha mulher sobre os estudos do rapaz. É que nem sei se ela entendeu bem o que a Senhora lhe disse e, como todos queremos o melhor para o menino, gostaria de deixar tudo em pratos limpos.

Olhe senhor Eduardo – é este o seu nome? Não é? -, o seu pequeno é muito bom na Redacção e escreve com poucos erros no ditado; nas contas e nos problemas tem bastante dificuldade. Na História e Geografia vai-se safando e a desenhar também não é lá grande coisa. Mas ainda faltam quase três meses para o exame e até lá ainda muita água vai correr por baixo das pontes, apesar de caminharmos para o Verão. Neste tempo ainda há-de melhorar muito e até é muito natural que possa ir fazer um bom exame.

Mas… Tenho andado a pensar no António e daí ter dito a sua mulher que quem sabe se não seria melhor andar mais um ano na escola. Tinha possibilidade de aperfeiçoar-se, ia acompanhando e aprendendo a arte consigo e no fim do ano fazia um bonito exame, ficando melhor preparado e sem custos de maior. Além disso, este ano é dos mais novos da aula e, no próximo ano, metade dos da 4ª classe serão mais velhos que ele. Mas, o meu interesse é passar os alunos; o professor não gosta de deixar alguém sem ir a exame; com o António é diferente: sinto muito orgulho em ver como escreve, parece um pequeno escritor. E, se estiverem de acordo, não via qualquer grande problema em não o propor a exame. Principalmente porque estou convencida que era bom para ele e ele acabaria por se sentir muito bem entre os mais novos – não devemos esquecer-nos que sempre foi o mais novo da sua classe.

Parecem-me, Senhora Professora, que as suas ideias são muito simpáticas e estou perfeitamente disposto, quando chegar a altura, a deixar o destino do moço nas suas mãos. Entretanto, até lá, o assunto fica entre nós, pois mesmo à minha Engrácia vou dizer-lhe que ainda falta muito tempo para os exames e a Senhora Professora fará, de acordo com a nossa opinião, o que for melhor.

O tempo passou a correr, os pais do António foram os dois chamados à escola para esclarecerem, com a Professora, se queriam deixar o filho na escola, durante mais um ano, isto é, repetir a quarta classe. E, convencidos, os três de que essa solução seria a melhor para o António, assim se fez. Na proposta de alunos para exame da quarta classe não figurava o António Pires.

No ano seguinte, com dez anos e meio, apresentou-se a exame um rapaz, de nome António Pires, com uma caligrafia impecável, um ditado sem erros e uma redacção formidável, sobre uma história a gosto do aluno, um desenho mediano e uma conta e prova real certas, embora o problema não estivesse completo. Porém, na prova oral, a desenvoltura na fala e a facilidade de expressão levaram o júri a dar-lhe “Distinção” e, uma das Senhoras Professoras a pedir todos os dados do rapaz, pois queria falar com os pais sobre uma hipótese de o mandar estudar para o Seminário, como um dos protegidos da Casa Robalo que todos os anos custeava dois novos alunos, até chegarem a padres, em Portalegre.

E, passados doze anos, o caldeireiro Eduardo Pires, a Dona Engrácia da Conceição e a Senhora Professora do António – que ele sempre fez questão de assim chamar -, eram os três Convidados de Honra na missa nova do Senhor Padre António Pires.

Constam da sua bibliografia catorze livros, desde hábitos e costumes das gentes da nossa terra a ensaios sobre teologia, dialéctica e oratória, destacando-se as cartas e sermões que, ao longo da sua carreira, foi escrevendo.

Uma curiosidade: os catorze livros, todos com a sobrecarga de “exemplar nº 1, dedicado e oferecido à Senhora Professora do António, com a maior gratidão do Mundo e um pedido de Bênção especial e longos anos de vida”, foram oferecidos à Biblioteca do Seminário Maior, num pequeno armário de madeira feito pelo pai do António. A Senhora Professora faleceu depois dos pais do Padre António, após receber o 10º livro, deixando escrito que a caixa com os livros deveria ser entregue ao autor para que a enviasse ao seu destino – Biblioteca do Seminário Maior.

E, num pequeno memorial, a Professora escreveu: Quero lembrar ao maior escritor que conheci que outros, muito grandes, nem sempre foram os maiores. Na Grécia, Sófocles - o grande mestre da tragédia – perdeu um concurso de obras trágicas. No Brasil, Guimarães Rosa – um dos maiores escritores de contos de língua portuguesa -, não venceu um concurso de contos. Em Portugal, Fernando Pessoa – um dos génios da nossa poesia – perdeu, um dia, um concurso de poesia. E, para finalizar, na Escola da Serra, o Padre António – o maior autor que conheci – perdeu um ano, repetindo a 4ª classe.

Que nos perdoe tão maravilhoso prejuízo.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Filantropo

Juntou-se ali para cima de metade do povo. Uns na roda que cercava o pobre homem, outros espalhando-se pelas sombras das oliveiras e videiras da beira da estrada e um último magote encostado à empena da casa da Associação.

A canícula apertava e todos iam limpando a cara com os tradicionais lenços encarnados que era uso trazerem à volta do pescoço. Também, junto da fonte, a escassos trinta metros, alguns esperavam a sua vez para se dessedentarem debaixo da bica. A hora da sesta estava a chegar ao fim e não havia maneira de chegar a autoridade e também a empregada do posto de socorros para fazer uma primeira análise e tratar a ferida na cara do Chico Coxo, que continuava esparramado no meio da poeira do caminho, já com uma razoável poça de sangue junto da cara.

Ao lado, a “arma do crime”, constituída por uma lousinha, de arestas cortantes e tamanho apropriado ao lançamento com uma das mãos.

No chão, meio de bruços e em cabelo, de mãos estendidas, olhos semi-cerrados e um ar de mais terror que outra coisa, estava o Chico Coxo, parecendo olhar para um rasgão nas calças e sinal de sangue também no joelho direito.

A crescente vozearia daquela gente, ali junta, metia muito medo ao Chico, cuja capacidade de discernimento era poucochinha, como se diz no povo. Desde nascença sempre fora apoucado, mas nunca tinha feito mal fosse a quem fosse. Por isso já as opiniões começavam a pender claramente para a defesa do pobre homem, contra alguns, poucos aliás, exaltados, que o apelidavam de malandro, que melhor fora se se deitasse ao trabalho, em vez de se meter, constantemente, em trapaças.

Ali por perto, num vaivém sem grandes passadas e cada vez mais sorumbático à medida que o tempo ia passando, o Ti’Zé da Abelha, autor da pedrada que prostrou o Chico, ia ouvindo, sem proferir palavra, mesmo os que lhe criticavam a
acção, alegando que não se atira assim uma pedra daquelas, por mais grave que tenha sido a ofensa. Pode matar-se uma pessoa.

Mas, logo vinha outro que achava muito bem que alguém ensinasse o madraço a não se meter com as outras pessoas, a respeitar toda a gente e a não provocar distúrbios na terra.

Porém, logo se soltaram as vozes em defesa do Chico, dizendo que nunca fez mal a uma mosca, nunca desrespeitou fosse quem fosse e até já tinha sido muito útil quando avisou sobre incêndios, ou na outra vez em que o Manel da Carlota ficou debaixo do carro, lá na ladeira das Vagens.

Os ânimos iam-se exaltando e parece que ainda ninguém saberia o motivo da pedrada que atingira em cheio o pobre homem.

Já com uma assembleia mais reduzida, chegou finalmente o jipe da Guarda Republicana, de onde desceram o Cabo Maçarico e um guarda que vinha a guiar e acompanhou o superior com um bloco na mão e uma esferográfica. Chegados junto do Chico, disse-lhe o Cabo da Guarda:

Conheces-me? Tens medo de mim? Podes levantar-te?

O Chico como que acabou por se sentir, finalmente, protegido. Esboçou um trejeito de sorriso e levantou-se, dizendo que sabia bem que era a Guarda e que não tinha medo, porque não tinha feito mal a ninguém. Foi então que apontou o dedo ao Ti’Zé da Abelha, enquanto encolhia os ombros, quando o Guarda perguntou quem lhe fez aquilo na cabeça e porquê?

Foi a vez de perguntar ao acusado se tinha sido ele a atirar a pedra e porque o fizera, ferindo com gravidade, que poderia mesmo ter sido muito maior, aquele pobre homem que a Guarda conhecia bem e nunca teve nada a apontar-lhe.

O Ti’Zé confirmou o arremesso da pedra, porque apanhou o tratante a sair de sua casa, certamente com o intuito de roubar alguma coisa, ou meter-se com alguém que por lá estivesse. Só o apanhou a saltar o muro da tapada, mas vinha atrás dele desde casa. E rematou: Olhe, atirei o que encontrei mais à mão. Não queria feri-lo,
nem fazer-lhe mal, mas calhei a acertar-lhe, o que se há-de fazer!... É tratá-lo.

Os Guardas olharam um para o outro e disse o Cabo: uma vez que há feridos, e que o acusado confessa e se mostra arrependido, vamos apenas…

Foi a vez de se pronunciar o sr. Amílcar, um homem que ali casara na aldeia e era muito ouvido e respeitado na terra. Constava que antes de ter feito fortuna lá pelas Áfricas – razão porque lhe chamavam o “brasileiro” –, estudara. Começou por pedir licença para falar com o Chico, com quem costumava ter longas conversas e perguntou-lhe o que tinha feito e porque lhe tinham atirado a pedra?

O homem levantou os olhos e, num à vontade fora do habitual, respondeu:

Senhor brasileiro, eu vinha na estrada e deu-me muita vontade de arrear a calça. Saltei o muro da tapada do Ti’Zé para me ir abaixar lá atrás dele. Quando vinha
outra vez para a estrada!... Olhe!... E apontava para a testa ensanguentada ao mesmo tempo que se dirigia ao Cabo da guarda e ao “brasileiro”, chamando-os ao pé do muro da tapada para lhes mostrar a prova que estava lá atrás, bem visível.

O “brasileiro” quando viu o guarda e o Cabo pegarem outra vez no bloco para tomarem notas, voltou-se para trás e acrescentou: Deixem o pobre do Chico em sossego, pois ele tem mais juízo que muitos que aqui estão, vai para três horas. Qualquer dia ainda acusam o pobre de filantropo, ou coisa que o valha, e logo os senhores virão a correr para se voltarem sobre este ou outro desgraçado. E, com um sorriso e muito boas tardes, afastou-se.

O Cabo da guarda voltando-se para os circunstantes, mandou-os embora e, quanto ao senhor “brasileiro”, resmungou em voz baixa: Lá por andar por onde andou, ou ter estudado o que estudou, não fez mais que perturbar o desenvolvimento normal das diligências; Melhor fora que se metesse na sua vida e deixasse os outros cumprir o seu dever.

Meteu-se no jipe e deu ordem ao Guarda Matias para arrancar. Já fora da povoação, em plena estrada, foi o guarda que quebrou o silêncio:

Oh! Chefe, o “brasileiro” não será parvo de todo e, logo me pareceu, quando o vi chegar-se, com aquele narizinho empinado, que não a ia fazer boa. Sempre me saiu cá um farsante!... Mas… antes que mal procure, o que queria ele dizer com aquela de… espere lá a ver se lembro…filantropo?

Aquilo, guarda Matias, são palavrões só para despistar. Tenho a certeza de que nem ele mesmo saberá o que querem dizer. Mas, pensa bem: Então não fomos lá para investigar uma agressão?

É claro chefe, foi por isso que chamaram e lá fomos! Exactamente uma agressão.

Então a palavra do brasileirote só pode querer dizer agredido e nada mais. Quando chegarmos ao Posto hei-de ver num livro que lá temos e onde estão as palavras todas da nossa língua portuguesa.

Mas olha que gostei da tua observação e da maneira como topaste logo os trejeitos do artista que, quem sabe, começou por se abeirar de nós para perturbar o nosso trabalho e baralhar a nossa investigação.

É isso mesmo, afinal ele é capaz de ser um grandessíssimo filantropo. Veio ali para agredir o normal desenvolvimento das diligências da Autoridade.

E, à guisa de descargo de consciência, voltou-se para o guarda e segredou-lhe:

Olha Matias a continuares com esse espírito fino e essa tua inteligência, podes chegar longe, cá na Guarda!...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Chão dos gaios

Três gaios e duas pegas disputavam a primazia na hortita do chão das oliveiras e logo que se aproximava alguém estranho, refugiavam-se nos eucaliptos e nas mimosas que da barreira do baldio pendiam sobre a horta, onde andavam a comer e a beber, e tinham uma tira, ao longo do valado, por sua conta.

O Ti’Recas andava consumido com todo aquele rosário de desgraças: ou os gaios e as pegas comiam tudo, ou as árvores que os acoitavam não deixavam vingar nada em quase meia horta. Alguém que por ali passasse tinha de ouvir todo o rol de acusações do velho Recas – era uma desgraça, logo na melhor horta da casa -.

Era tal o desânimo que tudo lhe passava pela cabeça: Chamar alguém, que tivesse uma boa arma e boa pontaria e dar cabo daquela passarada; Convencer o “Trocas”, tido como o melhor gaioleiro das redondezas, a caçar gaios e pegas para vender como aves de estimação; armar, ele próprio, costelas, boízes, ou outros estratagemas, para dar cabo daqueles demónios, cujos prejuízos ia contabilizando enquanto regava a água do açude, nos dias em que lhe pertencia, por partilha.

Da última vez que contou, os pássaros já tinham comido quatro maçarocas completas e começado mais duas; um prejuízo dos diabos, dizia o Ti’Recas, enquanto no meio do milho ia dando cabo dos rebentos dos eucaliptos e das acácias que iam invadindo a propriedade toda. Por mais esterco que para ali carrejasse não havia novidade que vingasse, uma vez que as raízes chupavam todo o chorume e humidade.

Um dia em que aproveitando a boa sombra das árvores, que tanto detestava, fazia a sesta, passou por ali o Ti’Tonho da Azenha que, antecipando-se às lamúrias do compadre Recas, foi dizendo:

Salve-o Deus, compadre. Ainda bem que tem aqui esta sombra tão agradável – não conheço, em toda a nossa ribeira, uma frondosidade assim; bem hajam tais árvores que, infelizmente acabam por lhe comer o chão quase todo, mas…

Ora aí está, salta de lá o Ti’Recas; por um lado esta peste que estende raízes até quase ao outro lado da horta e, por outro, a danada da passarada, que parece não ter milho em mais lado nenhum, fazem a escarpelada sem ser preciso levar o milho para a eira. E uma horta que podia dar milho para comer e vender, nem chega para uma ou duas cozeduras de pão. Mas, compadre, uns e outros vão ver como elas lhe mordem; tenho cá uns planos que darão cabo dos pássaros e sem dar fim às árvores, vão acabar com a mama do bom estrume e água duas vezes por semana.

O Ti’Tonho que sempre gostara de meter a sua colherada, não deixando de juntar veneno, disse que quanto aos pássaros pensava que se arranjasse uns moinhos a fazer barulho e uns bons espantalhos, com uns trastes velhos que acabasse de despir e tivesse o cuidado de não lavar, pois, até chover, teriam fedor suficiente para afugentar vivo que por ali passasse, e muito menos parasse para comer.

Apanhado desprevenido, o Ti’Recas nem pestanejou, mas quanto o compadre se despediu e seguiu ribeira abaixo, começou a digerir as palavras que lhe ouvira: essa do moinho a fazer barulho até está certa, mas a história dos espantalhos com a minha roupa e sem ser lavada… Quem julga o estardalho que é? Se calhar lava-se todos os dias e veste roupa lavada!... Vai ver, quando por cá passar, um fantoche, mas com o retrato dele desenhado no papel da cara – já quando andávamos na mestra ele me dizia que eu tinha muito jeito para fazer bonecos; pois chegou a hora de aplicar a minha habilidade e dar-lhe o troco dos trastes sem ser lavados, e fedendo, lá pendurados.

Quanto às “mais belas árvores de toda a ribeira”, também não há-de perder pela demora: vou mesmo avançar com o meu plano! E é para já, pois gostaria de apanhar as raízes quando estiverem na força do viço, para não me escaparem nenhumas. Em casa arranjou um novelo de baraços que esticou de ponta a ponta da horta, junto à barreira do terreno baldio e começou a cavar uma vala de uns setenta centímetros de largura, espalhando a terra, pelo lado da horta. Continuou a cavar e ao cabo de quase dois meses de trabalho, tinha cortado milhares de raízes que se dirigiam para a horta e a vala estava já mais funda que a altura dele. Já encontrava poucas raízes pelo que acabou por dar a vala como terminada.

Mas veio-lhe uma ideia genial à cabeça: Porque não revestia a vala com paredes – até tinha pedra suficiente ali ao lado – e depois, uns dois ou três palmos abaixo do nível da horta, fazia uma canalização com lajes e ganhava um bom bocado de horta. Pelo cano onde podia andar de pé ia examinando e cortando qualquer raiz que tentasse atravessá-lo e ir buscar chorume ou água à horta. E, se as árvores acabassem por secar, ainda tinha melhor lugar para dormir a sesta: não há fresco que se compare ao que vou ter dentro do túnel! E, com uma porta aqui à entrada até serve de arrecadação.

Com o tempo, as árvores começaram a não comer da horta, a novidade começou a vingar melhor quase até acima do túnel e, os gaios e as pegas acabaram por ser enganados pelo Ti’Recas que escondido no túnel, com acesso por um buraco para baixo de um pé de milho, conseguia disfarçar laços e pegar os três gaios e outras tantas pegas, que fizeram uns bons caldos, para vingar todas as inquietações que haviam originado ao velho Recas.

Uma das lajes acabou por ceder e o buraco não voltou a ser aberto; mas também, nessa altura, já não era preciso o túnel. O filho do Ti’Recas, ao tomar conta da horta, começou por limpar o baldio e, depois de cortar todas as mimosas e arrancar as raízes para que se extinguisse o mais possível a espécie, passou aos dois eucaliptos e cortou-os!... O Ti’Recas, na casa dos noventa e muitos, foi pela última vez ao chão dos gaios e cada machadada nos troncos das árvores não lhe doeram menos que facadas. Pensava ele, de si para si, com as suas recordações:

E eu que cheguei a praguejar contra aquelas duas árvores; dois dos primeiros eucaliptos que se plantaram nas redondezas e, inclusivamente, foram objecto da visita de muita gente, que nunca tinha visto semelhante espécie… Foi meu avô que trouxe as duas plantazitas duma feira da Ponte, embrulhadas numa saca molhada. Nunca soube que estava tão ligado a elas… Dava um braço, ou outra coisa qualquer, para…nunca vi nada na minha vida que mais impressão me causasse… aquelas árvores pelo ar abaixo a estatelarem-se no chão… mas não se curvaram, caíram direitinhas… Caíram direitinhas… Caíram direitinhas… Caíram direitinhas…

Até ao resto dos seus dias, era ouvir o Ti’Recas: Caíram direitinhas… Caíram direitinhas… Caíram direitinhas…

quinta-feira, 18 de março de 2010

O exame

Invariavelmente, entre as duas e meia e as três menos um quarto, sentava-se nas escadinhas de acesso ao terraço do Mercado do Chão do Loureiro, olhava, pausadamente, para as janelas da Escola Nº10, da Costa do Castelo, e, aí pelos cinco minutos para as três, continuava a descer a Calçada Marquês de Tancos, passava ao lado da igreja de S. Cristóvão, descia as escadinhas até à Rua da Madalena e, antes do Poço do Borratém, atravessava a rua e entrava nas escadas dos Armazéns Alfredo Pires Forra, onde trabalhava, na distribuição.

Este homem, na casa dos quarenta anos, de nome Gilberto Ferreira da Costa, era filhote de pai galego e mãe portuguesa, morava no Largo dos Lóios e trazia dois filhos lá na Escola nº10. A mulher, Maria Rosa, trabalhava na copa de um restaurante da Rua Barros Queirós e, como tinha horários mais compatíveis, era ela que mantinha os contactos com a escola, no que respeitava aos filhos.

O director era novo, na idade, na profissão e na escola e tinha substituído um colega que ocupara aquele cargo por dois ou três anos, e sucedera a um velho director que estivera no cargo duas ou três décadas. Havia uma auréola à volta da figura de director da escola, que agora poderia ser de alguma forma esbatida, pelo que muita gente ficou na expectativa de ver o que faria um jovem professor, naquele lugar.

Quanto à identificação do mirone, que todos os dias ficava ali a olhar as janelas, veio a saber-se que o homem era pai de dois alunos de lá, pois na aula de uma das professoras, os alunos viam o homem sentado nas escadas e começavam sempre a dizer: “Carlos Alberto, está além o teu pai!”.

Sobre o homem, propriamente dito, também o director foi abordado pelo Sr. Dias, pessoa muito conceituada ali na zona, membro habitual da Junta de Freguesia e
dono da capelista onde a escola se abastecia de pequenas coisas e muitos alunos
compravam livros, cadernos e outro material escolar. A cantina da escola era obra de uma Associação de Benemerência de que o Sr. Dias era vogal da direcção. Daí os contactos frequentes entre o Sr. Dias e o Director da Escola, pelo que, pode dizer-se, passou a ser uma das poucas pessoas das relações do referido Director.

O senhor Dias, era um beirão de pequena estatura, anafado, de trato simples e muito boas maneiras. Muito querido e estimado no meio. Dizia ele, com muita tristeza nos olhos, que ali, às portas da Mouraria e de muita miséria, havia muitas crianças que tinham de se levantar, pegar nos quatro tostões que estavam ao pé da enxerga e, no maior dos silêncios, sair, passar na padaria a comprar uma carcaça, lavar a cara no chafariz público e dirigir-se para a escola. É que se tinham o azar de acordar a mãe, que, por acaso, tivesse ido dormir a casa, acabavam por chegar à escola cheios de hematomas, ainda a chorar. Não calcula, senhor Director a pena que tenho de muitos destes meninos, que aos sete e oito anos têm de acordar e fazer pela vida, como gente crescida. Ficam ansiosos pela sopa da nossa cantina e veja o que comem!... Alguns pouco mais comem até à noite!...

Vinha depois o senhor cónego do Coleginho, quase no Benformoso e pároco de S. Cristóvão, onde passava a maior parte do tempo. Padre na casa dos setenta, homem muito experimentado e vivido, com largas décadas de África e muitas histórias gravadas na memória; se não estivessem gravadas, conseguiria esquecê-las, assim estão permanentemente presentes, para desconto dos meus pecados. Mas, digo-lhes meus senhores – falando para o vogal da Associação e para o Director da Escola –, comparado com esta miséria social daqui, andei sempre por oásis, para não dizer, pelos arredores do Paraíso.

O extracto social daqueles bairros velhos, donde provinham os alunos da Escola Masculina Nº10, que ocupava todo o piso superior do palácio dos Marqueses de Tancos, com entrada pelo nº 27 da Costa do Castelo, baseava-se em gente humilde que ganhava a vida como varinas, ardinas, vendedeiras ambulantes e com banca nas
praças, moços de fretes, engraxadores, empregados na restauração etc. – gente humilde mas honrada e respeitadora –. Havia, depois, muitas mulheres, em quartos alugados, com filhos de pais incógnitos, vivendo, segundo as palavras dos próprios garotos: “A minha mãe trabalha nas leitarias; entra muito tarde e trabalha até que os clientes querem; às vezes ganha bem e outras, os clientes ainda lhe batem; quando o meu tio vai lá a casa vou dormir em casa da minha vizinha”.

Era assim o ambiente naquela área que compreendia a encosta entre o Castelo de S. Jorge e a Praça da Figueira, desde a Mouraria, passando ali por S. Mamede ao Caldas, parte de Alfama e Castelo, propriamente dito.

Numa das conversas habituais o sr. Dias abordou o problema dos Cursos de Adultos que habitualmente iam fazer exames lá na Escola Nº 10. Sabe sr. Director devo pô-lo ao corrente do que se diz, para que não venha um dia a ter surpresas. É, tenho a certeza absoluta, uma injustiça atribuir aos seus antecessores, actos menos honestos no que se refere a pagamentos para aprovarem alunos em exames de adultos, mas se são as próprias escolas e explicadores que passam a ideia, esta gente acaba por ficar aterrada quando pensa em fazer o exame. Diz-se, sr. Director, que para Carnide, onde por vezes algumas escolas daqui da zona levam os alunos a fazer exame, ainda é onde se conseguem melhores condições – qualquer coisa como quatro ou cinco contos, mais quase outro conto para a carta de exame –. O sr. perdoar-me-á, mas achei por bem dizer-lhe isto; é o que se espalha nas escolas particulares das Escadinhas, da Madalena, de Santa Cruz ao Castelo, etc.

E, aquele homenzinho que todos os dias pode ver ali sentado em frente das suas janelas, é uma dessas vítimas; veio ter comigo a tirar nabos da púcara, tentando saber como irá o sr. trabalhar. Disse-me, inclusivamente que a escola ainda não tinha decidido qual o lugar para ir fazer exame, porque não tinham conseguido informações certas acerca de preços e serviços. E, se não é indiscrição, que lhe disse o sr. Dias, perguntou o Director?

A entrada do sr. cónego Mendes ajudou o sr. Dias, que pareceu aliviado por poder não responder à pergunta do Director. Mas a insistência do Professor, depois de introduzir o padre no assunto, ruborizou, levemente, as faces do capelista que, disse o que pensava: Saibam sr. Director e sr. Cónego, como já lhes disse, não acredito em bruxas…mas que as há, há!... Não conheço o sr. Director, mas tudo farei para o ajudar se estiver no sentido que me parece estar e pelo qual tenho sempre pautado a minha vida e digo-o, na presença do sr. Cónego e meu confessor. E o sr. Cónego, que pensa sobre o assunto, se não levar a mal perguntar-lhe? Faço minhas as palavras do amigo e sr. Dias; pode contar connosco, se quiser a nossa ajuda. E, do pouco que conheço de si, parece-me que vamos todos na mesma e boa direcção.

O Director não pensava abrir o jogo, mas não quis forçar o capelista a adiantar uma resposta a dar ao homenzinho das escadas. A época da entrega dos papéis para as candidaturas a exame aproximava-se, era interessante que na Escola houvesse candidatos suficientes para pelo menos um júri e era necessário atrair inscrições, sem alertar os intermediários que deviam continuar na incerteza. Foi, pois, nessa ponderação que se dirigiu ao padre e ao capelista, fazendo deles emissários e reservando-se, assim, perante as “escolas e explicadores”:

Primeira premissa: nunca cobrei, nem permiti que se cobrasse qualquer verba em exames de adultos. Como devem calcular, pela minha idade, não tenho grande experiência nestas andanças. Todavia, presentemente, a haver número suficiente de candidatos, formar-se-á um ou mais júris de exames de adultos, na nossa Escola. Dadas as minhas funções de Secretário de Zona Escolar e Director da Escola, serei Presidente de Júri. Aqui para nós e sem sair daqui, não permitirei que seja cobrado um único tostão a qualquer candidato a exame, pelo facto de ter ficado aprovado, ou para que lhe seja passado o diploma de exame e respectiva certidão. Uma coisa é, porém fundamental: as escolas não devem fazer a mínima ideia do que vai passar-se, mas, no primeiro dia das provas fica já convidado o sr. Cónego a fazer-se
aparecido lá pela escola e assistir a uma pequena palestra que farei aos alunos, elucidando-os dos direitos que têm a possuir o diploma e da certeza absoluta que ninguém do júri irá receber nada, de ninguém, para que alguém passe no exame.

Até lá, devemos informar os candidatos que o exame deve ser feito na escola da área de residência, que nunca devem dizer, nas escolas, ou aos explicadores, se pagam ou não pagam para ser aprovados e terem o diploma. Que vão sempre deixando para depois dos exames. Todos terão o diploma pelo preço do impresso e do papel selado que irão comprar ao capelista ao fundo da calçada. É muito importante que as escolas e os agiotas sejam apanhados de surpresa. Parece-me que eu não irei falar nada, mas especialmente o sr. Dias, pode, através da Junta de Freguesia, avisar que os candidatos a exame de Adultos devem inscrever-se na Escola da sua residência; são os candidatos que se auto propõem – lá na Escola ajudamos os candidatos. E informá-los de como devem agir perante as escolas, os explicadores e outras pessoas que lhes peçam, seja o que for.

O Sr. Dias, o sr. Cónego e o Director da Escola fizeram, com a maior das discrições, o trabalho de sapa como tinha sido acordado e, conseguiu-se um grupo de vinte e dois candidatos a exame da quarta classe – Adultos.

No primeiro dia de provas, vinte e um de Junho de um dos anos sessenta, apresentaram-se os três membros do Júri – O Director da Escola, na qualidade de presidente, e duas Sras. Professoras, como vogais –. Apareceram na Escola um dos Adjuntos do Director do Distrito Escolar – previamente convidado pelo Director da Escola e Presidente do Júri – e o sr. Cónego Mendes, que na sua qualidade de capelão escolar estava de visita à Escola e, a pedido do Presidente do Júri, se juntou aos presentes e cumprimentou e desejou felicidades aos candidatos.

O Director apenas disse: estão aqui vinte e um candidatos, pois falta um, e esperamos que saibam todos o mínimo para poderem passar no exame. O Júri
ajudará quanto puder, tendo em consideração a vossa situação e podem estar seguros que não têm que pagar nada a ninguém, nem para passar, nem para terem o diploma. Logo que terminem o exame e as pautas sejam afixadas, lá fora, os candidatos aprovados podem descer a rampa, entrar na capelista do sr. Dias e comprar um diploma e o respectivo selo e meia folha de papel selado para a certidão. Ficará tudo aí por vinte escudos. Depois, sou eu, não como presidente do Júri, mas como Secretário de Zona que passo os diplomas e as certidões e o meu trabalho é pago pelo Estado e não por vós. Obrigado aos visitantes pela honra que nos deram com a vossa presença e vamos trabalhar; agora com a porta fechada. Ponham, por favor, o bilhete de identidade em cima da carteira.

Acompanhadas as visitas até à saída da escola, o director voltou à sala, distribuiu o papel e pediu a uma das vogais que lesse o texto do ditado, explicando algumas palavras que iam sendo escritas no quadro. No final, perguntou se estavam todos calmos e se podia ser começado o ditado. Durante a prova os professores foram passando por todos os examinandos e pelo canto do olho, verificando se havia casos graves. Havia um ou dois excessos de erros, mas cada examinando pôde, no final, ressalvar alguma palavra que quisesse. Numa palavra em cuja dicção a Sra. Professora teria sido pouco clara, fizeram-se as ressalvas e só dois erraram.

Na Redacção pediu-se uma pequena história sobre casos da vida profissional de cada um e antes de passar a limpo deu-se uma vista de olhos.

Os Problemas foram lidos e explicados até parecer que estavam perfeitamente ao alcance da maioria dos candidatos e as Contas foram igualmente supervisionadas antes de passadas para as provas.

Corrigidas as provas escritas, foram afixadas as pautas e os resultados não foram tão desanimadores como muitos poderiam esperar: Dezoito candidatos aprovados na prova escrita, iriam fazer provas orais nos dois dias seguintes: nove em cada dia.

Avisava-se, no fim do edital que as provas orais eram públicas, até à limitação da sala e as cartas de exame e certidões dos candidatos aprovados poderiam ser pedidas imediatamente após a saída das pautas, em cada dia, bastando entregar na Secretaria da Escola o impresso para o diploma e o respectivo selo e a meia folha de papel selado para a certidão. Não havia mais nada a pagar, pois o serviço não tinha emolumentos.

Nos dois dias seguintes foram aprovados todos os candidatos que fizeram as provas orais e no final do segundo dia havia quinze pedidos de diplomas e certidões, pelos examinandos e três pedidos pela escola das Escadinhas. No último dia de provas orais esteve na assistência o sr. Cónego Mendes, o Sr. Dias, o Adjunto do Director Escolar e “professores, explicadores e profissionais das escolas particulares que ali tinham candidatado alunos”.

Tudo acabou em bem, a Escola dez passou a ter poucos alunos propostos através das “escolas” e um número razoável resultante de auto-propostos que iam passando ao lado dos serviços das “ditas escolas”. De salientar um Ofício da Direcção Escolar de Lisboa, louvando o Senhor Secretário da 11ª Zona Escolar de Lisboa, pelo trabalho de divulgação e esclarecimento sobre a gratuidade, e a organização, condução e realização de Exames de Adultos, na Escola Primária Masculina Nº10.

O Ofício esteve afixado nas vitrinas da Escola, pelo menos enquanto o Director lá exerceu funções; o homem das escadas fez exame e pôde pagar a carta de condução; o sr. Dias e o sr. Cónego subiram na consideração das gentes do local.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Filantropo

Estava ali para cima de metade das pessoas da terra. Uns na roda que cercava o pobre homem, outros espalhando-se pelas sombras das oliveiras e videiras da beira da estrada e um último magote encostado à empena da casa da Associação.

A canícula apertava e todos iam limpando a cara com os tradicionais lenços encarnados que era uso trazerem à volta do pescoço. Também, junto da fonte, a escassos trinta metros, alguns esperavam a sua vez para se dessedentarem debaixo da bica. A hora da sesta estava a chegar ao fim e não havia maneira de chegar a autoridade e também a empregada do posto de socorros para fazer uma primeira análise e tratar a ferida na cara do Chico Coxo, que continuava esparramado no meio da poeira do caminho, já com uma razoável poça de sangue junto da cara.

Ao lado, a “arma do crime”, constituída por uma lousinha, de arestas cortantes e tamanho apropriado ao lançamento com uma das mãos.

No chão, meio de bruços e em cabelo, de mãos estendidas, olhos semi-cerrados e um ar de mais terror que outra coisa, estava o Chico Coxo, parecendo olhar para um rasgão nas calças e sinal de sangue também no joelho direito. A crescente vozearia daquela gente ali junta metia muito medo ao Chico, cuja capacidade de discernimento era poucochinha, como se diz no povo. Desde nascença sempre fora apoucado, mas nunca tinha feito mal fosse a quem fosse. Por isso já as opiniões começavam a pender claramente para a defesa do pobre homem, contra alguns, poucos aliás, exaltados que o apelidavam de malandro, que melhor fora se se deitasse ao trabalho, em vez de se meter, constantemente, em trapaças.

Ali por perto, num vaivém sem grandes passadas e cada vez mais sorumbático à medida que o tempo ia passando, o Ti Zé da Abelha, autor da pedrada que prostrou o Chico, ia ouvindo, sem proferir palavra, mesmo os que lhe criticavam a acção, alegando que não se atira assim uma pedra por mais grave que possa ter sido a ofensa.

Depois, logo vinha outro que achava muito bem que alguém ensinasse o madraço a não se meter com as outras pessoas, a respeitar toda a gente e a não provocar distúrbios na terra. Não demorou que várias vozes se levantassem em defesa do Chico, dizendo que nunca fez mal a uma mosca, nunca desrespeitou fosse quem fosse e até já tinha sido muito útil quando avisou sobre incêndios, ou de outra vez em que o Manel da Carlota ficou debaixo do carro, lá na ladeira das Vagens. Os ânimos iam-se exaltando e parece que ainda ninguém saberia o motivo da pedrada que atingira em cheio o pobre homem.

Já com uma assembleia mais reduzida, chegou finalmente o “jeep” da Guarda Republicana, de onde desceram o Cabo Maçarico e um guarda que vinha a guiar e acompanhou o superior com um bloco na mão e uma esferográfica. Chegados junto do Chico, disse-lhe o Cabo da Guarda: Conheces-me? Tens medo de mim? Podes levantar-te?

O Chico como que acabou por se sentir, finalmente, protegido. Esboçou um trejeito de sorriso e levantou-se, dizendo que sabia bem que era a guarda e que não tinha medo, porque não tinha feito mal a ninguém. Foi então que apontou o dedo ao Ti Zé da Abelha, enquanto encolhia os ombros, quando o guarda perguntou quem lhe fez aquilo na cabeça e porquê?

Foi a vez de perguntar ao acusado se tinha sido ele a atirar a pedra e porque o fizera, ferindo com gravidade, que poderia mesmo ter sido muito maior, aquele pobre homem que a Guarda conhecia bem e nunca teve nada a apontar-lhe.

O Ti Zé confirmou o arremesso da pedra, porque apanhou o tratante a sair de sua casa, certamente com o intuito de roubar alguma coisa ou meter-se com alguém que por lá estivesse. Só o apanhou a saltar o muro da tapada, mas vinha atrás dele desde casa. E rematou: Olhe, atirei o que encontrei mais à mão. Não queria feri-lo, nem fazer-lhe mal, mas calhei a acertar-lhe, o que se há-de fazer!...É tratá-lo.

Os guardas olharam um para o outro e disse o Cabo: uma vez que há feridos, e que o acusado confessa e se mostra arrependido, vamos apenas…

Foi a vez de se pronunciar o sr. Amílcar, um homem que ali casara na aldeia e era muito ouvido e respeitado na terra. Constava que antes de ter feito fortuna lá pelas Áfricas – razão porque lhe chamavam o brasileiro –, estudara. Começou por pedir licença para falar com o Chico, com quem costumava ter longas conversas e perguntou-lhe o que tinha feito e porque lhe tinham atirado a pedra?

O homem levantou os olhos e, num à vontade fora do habitual, respondeu:

Senhor brasileiro, eu vinha na estrada e deu-me muita vontade de arrear a calça. Saltei o muro da tapada do Ti Zé para me abaixar lá atrás dele. Quando vinha outra vez para a estrada, olhe!... E apontava para a testa ensanguentada ao mesmo tempo que se dirigia ao Cabo da guarda e ao brasileiro, chamando-os ao pé do muro da tapada para lhes mostrar a prova que estava lá atrás, bem visível.

O “brasileiro” quando viu o guarda e o Cabo pegarem outra vez no bloco para tomarem notas, voltou-se para trás e acrescentou: Deixem o pobre do Chico em sossego, pois ele tem mais juízo que muitos que aqui estão, vai para três horas. Qualquer dia ainda acusam o pobre de filantropo, ou coisa que o valha, e logo os senhores virão a correr para se voltarem sobre este ou outro desgraçado. E, com um sorriso e muito boas tardes, afastou-se.

O Cabo da guarda voltando-se para os circunstantes, mandou-os embora e, quanto ao senhor brasileiro, resmungou em voz baixa: Lá por andar por onde andou, ou ter estudado o que estudou, não fez mais que perturbar o desenvolvimento normal das diligências; Melhor fora que se metesse na sua vida e deixasse os outros cumprir o seu dever.

Meteu-se no “jeep” e deu ordem ao guarda Matias para arrancar. Já fora da povoação, em plena estrada, foi o guarda que quebrou o silêncio:

Oh! Chefe, o brasileiro não será parvo de todo e, logo me pareceu, quando o vi chegar-se, com aquele nariz empinado, que não a ia fazer boa. Sempre me saiu cá um farsante!... Mas… antes que mal procure, o que queria ele dizer com aquela de… espere lá a ver se lembro…filantropo?

Aquilo, guarda Matias, são palavrões só para despistar. Tenho a certeza de que nem ele mesmo saberá o que querem dizer. Mas, pensa bem: Então não fomos lá para investigar uma agressão?

É claro chefe, foi para isso que nos chamaram e foi por isso que lá fomos! Exactamente uma agressão.

Então a palavra do brasileirote só pode querer dizer agredido e nada mais. Mas olha que gostei da tua observação e da maneira como topaste logo os trejeitos do artista que, quem sabe, começou por se abeirar de nós para agredir o nosso trabalho. É isso mesmo, afinal ele é capaz de ser um grandessíssimo, um verdadeiro filantropo.

E, à guisa de descargo de consciência, voltou-se para o guarda e segredou-lhe:

Olha Matias a continuares com esse espírito fino e essa tua inteligência, podes chegar longe, cá na guarda.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Os bolinhos do Augusto

Os dias frios, dos princípios de Novembro, não tinham ainda trazido a chuva, que batera bem nos meados de Outubro, mas parara, dois ou três dias antes dos Santos.

O “verão de S. Martinho” veio mais cedo e a manhã em que os meninos da terra iriam, de casa em casa, pedir os bolinhos, apareceu soalheira e agradável.

Todos os anos, desde tempos imemoriais, no primeiro de Novembro, dia de Todos-os-Santos, as crianças da aldeia, entre os quatro ou cinco anos e os dez ou onze, percorriam todas as casas da terra, dizendo a velha lengalenga:

“Tia, bolinhos, bolinhos, em louvor de todos os santinhos” e recolhiam, numa bolsa de trapos, o que cada um lhes dava.

O Zézito estava no colégio havia menos de um mês e, aproveitando o feriado, que naquele ano calhou numa segunda-feira, foi para casa, já com a ideia de aproveitar, pela última vez, uma das ocasiões que mais prazer lhe davam: o pedido de bolinhos no dia de Todos-os-Santos.

Tinha já feito os dez anos e iria dar a volta, com o irmão que iria fazer oito e a irmã, que acabara de fazer seis.

O senhor prior avisou, na missa, que, por ser dia de Todos-os-Santos, as crianças da aldeia passariam a pedir os bolinhos, em todas as casas e esperava que, mantendo essa tão bonita tradição, todos colaborassem, como pudessem, “pelas almas dos que Deus já Lá tinha”, cuja memória se comemorava no dia seguinte, com missas rezadas lá na capela, ao nascer do sol e mais tarde na capela do cemitério, em Penhascoso.

Mal o padre disse “ite missa est”, todos os garotos correram a buscar as bolsas de trapos que tinham deixado atrás da porta de casa e, qual bando de pardalitos, invadiram os caminhos da aldeia, correndo para os pontos onde cada um ia começar a volta, pedindo os bolinhos.

O Zézito, mandou esperar os irmãos, para falar ao pai quando voltasse da igreja.

O Augustito que com ele fizera, no último verão, o exame da quarta classe, tinha torcido um pé, quando guardava o gado, e estava em casa, sem poder andar.

O que ele queria era pedir ao pai se podia passar por casa do amigo, para levar a bolsa dele e pedir os bolinhos por ele, uma vez que estava doente.

Quanto os pais viram que os três filhos estavam à porta – a casa era mesmo em frente da capela – foram ver o que se passava e o Zézito explicou a sua ideia e perguntou se estava correcta e se poderia fazer isso.

A resposta não se fez esperar: Claro!... Está muito bem pensado. Vai lá buscar a bolsa e passa por aqui a apanhar a tua e levar os teus irmãos.

A casa do Augusto ficava nas traseiras da capela pelo que o Zézito não tardou a aparecer, correndo, com a bolsita do amigo na mão.

Pegou na dele e prometeu aos pais que iria explicar, em todas as casas, porque levava duas bolsas.

As voltas correram pelo melhor. Toda a gente louvou a atitude, bonita e generosa, de auxiliar um amigo e nenhuma casa se recusou a dar os bolinhos do Augusto.

Uns perguntavam se as coisas corriam bem no colégio, outros diziam que afinal se aprendiam lá coisas boas e até alguns lembravam as brigas que o Zézito e o Augusto costumavam travar, por dá-cá-aquela-palha.

O Zézito, orgulhoso e ufano do sentimento que a sua atitude despertou na aldeia, no final das voltas deixou a sua bolsa em casa e foi junto do amigo entregar-lhe o resultado do peditório e explicar-lhe o que cada casa tinha dado, igualzinho para os dois: as romãs da tia Judite, as passas da tia Nazaré, as maçãs riscadinhas da tia Maria Marques, as capeludas – espécie de papo-secos de pão de trigo – da tia Ermelinda Capaceta, as talassas da tia Capaceta do Casal, as ervilhanas da tia Avelina e os tostões da tia Conceição Grande. Muitas casas deram tremoços, bolos
próprios do dia – com muita erva-doce e diversas peças de fruta.

Porém, duas casas deram bolinhos diferentes: As madrinhas do Zézito, tia Maria Alvega e a do Augusto, tia Deolinda Marques, distinguiram os afilhados – deram bolos especiais.

A tia Deolinda disse que já tinha pensado mandar o filho levar os bolinhos ao afilhado Augusto, mas achava muito bem que fosse o Zézito a lavar-lhos, dizendo que era das atitudes mais bonitas que já tinha visto em toda a sua vida.

Durante uns tempos foi muito falado o gesto, na terra, chegando o senhor prior, durante a missa, a referir e exaltar a atitude da criança que se lembrou do amigo doente e fez o peditório para ele.

Fez questão de acrescentar que estava informado que ninguém lhe encomendara o sermão, saindo a ideia da cabeça do garoto.

Os pais do Zézito, eram bastante comedidos nessas coisas e pouco mais manifestaram que o gosto que tinham tido e o orgulho que sentiram quando ouviram o senhor prior louvar, do púlpito abaixo, a atitude do filho.

Fizeram as recomendações do costume: que não se envaidecesse e fizesse tudo o que pudesse para compensar os sacrifícios que faziam para o trazer no colégio, onde esperavam que viesse a fazer-se homem de carácter e chegar onde eles não tinham podido.

Mas o mais enternecido era, no entanto, o avô do Zézito: homem de poucas palavras e muitas virtudes; de poucas letras e grande filosofia; de pouca vaidade mas muito sentimento.

Dizia, para os mais chegados, como recados para a aldeia: Se Deus quiser irá longe; mostrará a esta gente que os tempos são outros, que os valores deles são diferentes dos nossos e ainda todos se orgulharão dele e muitos hão-de seguir-lhe o exemplo.

Palavras proféticas do ti’Zé Lourinho, um dos homens de maior visão que a aldeia gerou e merece ser lembrado nos quarenta anos da sua morte:

DESCANSE EM PAZ, AVÔ ZÉ LOURINHO. Abril de 2008.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O burro dos ciganos

O Jaime nasceu no olival da Barca do Pego e, na companhia do clã, passava, na nossa aldeia, várias vezes por ano, ficando, quando calhava, algumas semanas.

Trazia a carroça com a garotada e a mulher e acomodava-se, no cabanal da rua da carreira, junto da atafona.

Estava no centro do povo, aproveitava o espaço para ir tosquiando as bestas que apareciam, dava dois dedos de conversa a quem passava e tinha a taberna à mão de semear.

Conhecia e era conhecido de toda a gente. Em pequeno ainda chegou a frequentar a escola local. Era como se fosse filho da terra e, dum modo geral, muito querido e estimado. Porém, nunca aceitou trabalhos no campo, fora das suas artes de tosquiador, ferrador, latoeiro e caldeireiro. Trazia, habitualmente, uns burritos e uma ou outra besta, presos atrás da carroça, para venda e troca.

A mulher e os filhos angariavam, de porta em porta, o sustento da família e, segundo palavras do Jaime, a Serra era terra onde se recebia mais do que o que se comia. Outras havia em que até a água era dada de má vontade, a crer nas afirmações do cigano.

Mas nessas nem apetecia poisar; fazia-se o serviço que havia, o mais rápido possível e … “ala moço, que se faz tarde”!...

Uma ocasião, teve de entrar numa demanda. Foi acusado, no tribunal de Mação, pelo Ti’ Chico Manco, de o ter enganado, vendendo-lhe uma besta velha e cansada, que nem dava para ir à horta, e, de cavalaria, nem com a albarda podia. Foram estas as queixas contra o sr. Jaime cigano, mais conhecido por Jaime Tarita, que a GNR teve dificuldade em notificar.

Foram ouvidas várias testemunhas de defesa. Eis um dos depoimentos:

É claro que a costela de cigano está lá – disse o Ti’ Abílio, ao tempo Cabo de Ordens –. É finório nos negócios, mas aldrabão nunca foi, mais que qualquer um de nós.

Posso afiançar, ao Senhor Doutor Juiz, que o Jaime não enganou o Chico Manco – Francisco Alves Mendes, melhor dizendo –, pois, eu próprio presenciei o negócio, assim como muitos outros, lá na taberna da Serra. Vendeu-lhe uma besta por duas notas. Acha o Senhor Doutor Juiz que, por esse dinheiro, lhe podia dar um cavalo de corrida!?... Será que o aldrabão é o Jaime!?...

Interrogado, o Jaime apenas disse que a besta do negócio sempre esteve à vista de toda a gente e se tivesse que meter gato por lebre não seria na Serra.

Acabei por ir em paz e com a caderneta limpinha como, orgulhosamente, se gabava o Jaime Tarita, quando lhe falavam no tribunal.

Numa das passagens pela terra, o Jaime cruzou-se com uma trupe de ciganos, desconhecidos por ali, mas que o Jaime conhecia, de ginjeira.

Passavam a vida a vender gado barato, não eram de confiança, parecia que tinham cola nos dedos e, pior ainda, eram como os espanhóis: tinham os olhos na ponta dos dedos. Estes foram os avisos feitos na taberna, destinados a precaver quem com eles quisesse fazer algum negócio, ou permitisse que se aproximassem.

À saída da missa, no largo das tabernas, juntou-se gente.

Os ciganos tinham um burro, muito bem apresentado, com pouca idade, bom de cavalaria e manso como as pedras da calçada. Não havia dúvida que valia tanto como o do Jaime e estavam a pedir vinte e quatro notas, enquanto o outro não desamarrava das quarenta.

O Jaime não conseguiu aproximar-se da pechincha, mas, mesmo à distância, pôde ver
que o animal não via do olho esquerdo – os ciganos tinham-no à rédea curta e estavam sempre nesse lado do animal –.

O Jaime viu ainda, embora a albarda nunca fosse tirada, que havia sinais de cicatrizes por cima dos quartos traseiros e numa das patas estavam sobrepostas duas ferraduras.

O comprador mais entusiasmado era o Ti’Jorge Moleiro que não gostava do Jaime nem usava os seus serviços.

Gabava-se de saber tosquiar melhor que o Jaime e que ainda o Jaime não era nado já ela mexia em bestas. Daí a razão do Jaime se afastar do novelo de gente que presenciava o negócio, como convinha aos ciganos, e se refugiar na taberna a beber um copo e, de conversa com clientes seus de longa data, foi enumerando as razões por que o burro dos ciganos era tão barato.

Feito o trato e passadas as notas, os ciganos desapareceram como que por encanto e, todo vaidoso da sua aquisição, entrava na tasca o Ti Jorge, para comemorar o bom negócio que acabava de fazer.

Atirou, assim como que em ar de desafio:

Ó Jaime, não queres dar quarenta notas pelo belo animal que acabo de comprar?!... Com albarda e tudo, ainda te tiro cinco notas. Eu ganho bom dinheiro e tu ficas com uma estampa de burro.

Olhe Ti Jorge, caro ou barato, vendo o que é meu, sirvo os meus clientes e, pode estar certo que não vendo gado cego, descomposto de quartos traseiros, com costelas partidas, ou coisa pior, e com duas ferraduras na mesma pata. Deus lhe dê mais saúde que a do animal que acaba de comprar.

É que quando eu nasci já o Ti’Jorge mexia em bestas, mas estes dois olhos que a terra me há-de comer, vêem melhor os defeitos dos burros e as manhas dos ciganos que o Ti’Jorge alguma vez há-de enxergar.

E, voltando-se para a assistência que entretanto se ia juntando, disse, com calma e serenidade: quando alguém quiser uma besta mais ou menos brava, mas sem maleita e defeito físico grave, pode pedir o meu conselho, ou comprar os meus animais – não levo nada por isso, desde que esses amigos não saibam mais do que eu e peçam, por isso, a minha ajuda...

Nesta altura já muitos iam dizendo, em surdina, mas perfeitamente audível na assistência: mas que diabo quer o Jaime dizer quando se refere a animais sem maleita e defeito físico grave?...

Até o Ti’Jorge, começava a cair em si e a interrogar-se sobre o que quereria o cigano dizer. Mas não daria, ainda, parte de fraco e, para rematar, pediu mais uns copos para os circunstantes. Porém, logo que os ânimos serenaram, saiu, sorrateiramente, e dirigiu-se ao palheiro onde tinha guardado o animal.

Qual não foi o seu espanto quando viu o burrito deitado, mostrando uma enorme cicatriz na região lombar, levantando-se com dificuldade, com uma perna a claudicar e mostrando, de facto, cegueira num olho.

Vociferou e saiu do palheiro proferindo as maiores barbaridades e impropérios contra os ciganos que, tinham dado “às de vila Diogo” e desaparecido, como que por encanto.

Recolheu-se a casa e menos de oito dias passados, já com o burro enterrado e mais umas três notas gastas com o veterinário, atreveu-se a entrar na taberna, avisando que não lhe falassem mais de burros, nem de ciganos.

Todavia, fazia a justiça de dizer que, quanto a ciganos, só o Jaime merecia ser bem recebido; era o terceiro negócio que fechava com ciganos e sempre fora enganado.

De futuro, só comprarei bestas ao Jaime, ou com o seu conselho. Logo que por cá apareça, há-de ter um bom jantarinho de carne, como pedido das minhas desculpas.