segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Filantropo

Estava ali para cima de metade das pessoas da terra. Uns na roda que cercava o pobre homem, outros espalhando-se pelas sombras das oliveiras e videiras da beira da estrada e um último magote encostado à empena da casa da Associação.

A canícula apertava e todos iam limpando a cara com os tradicionais lenços encarnados que era uso trazerem à volta do pescoço. Também, junto da fonte, a escassos trinta metros, alguns esperavam a sua vez para se dessedentarem debaixo da bica. A hora da sesta estava a chegar ao fim e não havia maneira de chegar a autoridade e também a empregada do posto de socorros para fazer uma primeira análise e tratar a ferida na cara do Chico Coxo, que continuava esparramado no meio da poeira do caminho, já com uma razoável poça de sangue junto da cara.

Ao lado, a “arma do crime”, constituída por uma lousinha, de arestas cortantes e tamanho apropriado ao lançamento com uma das mãos.

No chão, meio de bruços e em cabelo, de mãos estendidas, olhos semi-cerrados e um ar de mais terror que outra coisa, estava o Chico Coxo, parecendo olhar para um rasgão nas calças e sinal de sangue também no joelho direito. A crescente vozearia daquela gente ali junta metia muito medo ao Chico, cuja capacidade de discernimento era poucochinha, como se diz no povo. Desde nascença sempre fora apoucado, mas nunca tinha feito mal fosse a quem fosse. Por isso já as opiniões começavam a pender claramente para a defesa do pobre homem, contra alguns, poucos aliás, exaltados que o apelidavam de malandro, que melhor fora se se deitasse ao trabalho, em vez de se meter, constantemente, em trapaças.

Ali por perto, num vaivém sem grandes passadas e cada vez mais sorumbático à medida que o tempo ia passando, o Ti Zé da Abelha, autor da pedrada que prostrou o Chico, ia ouvindo, sem proferir palavra, mesmo os que lhe criticavam a acção, alegando que não se atira assim uma pedra por mais grave que possa ter sido a ofensa.

Depois, logo vinha outro que achava muito bem que alguém ensinasse o madraço a não se meter com as outras pessoas, a respeitar toda a gente e a não provocar distúrbios na terra. Não demorou que várias vozes se levantassem em defesa do Chico, dizendo que nunca fez mal a uma mosca, nunca desrespeitou fosse quem fosse e até já tinha sido muito útil quando avisou sobre incêndios, ou de outra vez em que o Manel da Carlota ficou debaixo do carro, lá na ladeira das Vagens. Os ânimos iam-se exaltando e parece que ainda ninguém saberia o motivo da pedrada que atingira em cheio o pobre homem.

Já com uma assembleia mais reduzida, chegou finalmente o “jeep” da Guarda Republicana, de onde desceram o Cabo Maçarico e um guarda que vinha a guiar e acompanhou o superior com um bloco na mão e uma esferográfica. Chegados junto do Chico, disse-lhe o Cabo da Guarda: Conheces-me? Tens medo de mim? Podes levantar-te?

O Chico como que acabou por se sentir, finalmente, protegido. Esboçou um trejeito de sorriso e levantou-se, dizendo que sabia bem que era a guarda e que não tinha medo, porque não tinha feito mal a ninguém. Foi então que apontou o dedo ao Ti Zé da Abelha, enquanto encolhia os ombros, quando o guarda perguntou quem lhe fez aquilo na cabeça e porquê?

Foi a vez de perguntar ao acusado se tinha sido ele a atirar a pedra e porque o fizera, ferindo com gravidade, que poderia mesmo ter sido muito maior, aquele pobre homem que a Guarda conhecia bem e nunca teve nada a apontar-lhe.

O Ti Zé confirmou o arremesso da pedra, porque apanhou o tratante a sair de sua casa, certamente com o intuito de roubar alguma coisa ou meter-se com alguém que por lá estivesse. Só o apanhou a saltar o muro da tapada, mas vinha atrás dele desde casa. E rematou: Olhe, atirei o que encontrei mais à mão. Não queria feri-lo, nem fazer-lhe mal, mas calhei a acertar-lhe, o que se há-de fazer!...É tratá-lo.

Os guardas olharam um para o outro e disse o Cabo: uma vez que há feridos, e que o acusado confessa e se mostra arrependido, vamos apenas…

Foi a vez de se pronunciar o sr. Amílcar, um homem que ali casara na aldeia e era muito ouvido e respeitado na terra. Constava que antes de ter feito fortuna lá pelas Áfricas – razão porque lhe chamavam o brasileiro –, estudara. Começou por pedir licença para falar com o Chico, com quem costumava ter longas conversas e perguntou-lhe o que tinha feito e porque lhe tinham atirado a pedra?

O homem levantou os olhos e, num à vontade fora do habitual, respondeu:

Senhor brasileiro, eu vinha na estrada e deu-me muita vontade de arrear a calça. Saltei o muro da tapada do Ti Zé para me abaixar lá atrás dele. Quando vinha outra vez para a estrada, olhe!... E apontava para a testa ensanguentada ao mesmo tempo que se dirigia ao Cabo da guarda e ao brasileiro, chamando-os ao pé do muro da tapada para lhes mostrar a prova que estava lá atrás, bem visível.

O “brasileiro” quando viu o guarda e o Cabo pegarem outra vez no bloco para tomarem notas, voltou-se para trás e acrescentou: Deixem o pobre do Chico em sossego, pois ele tem mais juízo que muitos que aqui estão, vai para três horas. Qualquer dia ainda acusam o pobre de filantropo, ou coisa que o valha, e logo os senhores virão a correr para se voltarem sobre este ou outro desgraçado. E, com um sorriso e muito boas tardes, afastou-se.

O Cabo da guarda voltando-se para os circunstantes, mandou-os embora e, quanto ao senhor brasileiro, resmungou em voz baixa: Lá por andar por onde andou, ou ter estudado o que estudou, não fez mais que perturbar o desenvolvimento normal das diligências; Melhor fora que se metesse na sua vida e deixasse os outros cumprir o seu dever.

Meteu-se no “jeep” e deu ordem ao guarda Matias para arrancar. Já fora da povoação, em plena estrada, foi o guarda que quebrou o silêncio:

Oh! Chefe, o brasileiro não será parvo de todo e, logo me pareceu, quando o vi chegar-se, com aquele nariz empinado, que não a ia fazer boa. Sempre me saiu cá um farsante!... Mas… antes que mal procure, o que queria ele dizer com aquela de… espere lá a ver se lembro…filantropo?

Aquilo, guarda Matias, são palavrões só para despistar. Tenho a certeza de que nem ele mesmo saberá o que querem dizer. Mas, pensa bem: Então não fomos lá para investigar uma agressão?

É claro chefe, foi para isso que nos chamaram e foi por isso que lá fomos! Exactamente uma agressão.

Então a palavra do brasileirote só pode querer dizer agredido e nada mais. Mas olha que gostei da tua observação e da maneira como topaste logo os trejeitos do artista que, quem sabe, começou por se abeirar de nós para agredir o nosso trabalho. É isso mesmo, afinal ele é capaz de ser um grandessíssimo, um verdadeiro filantropo.

E, à guisa de descargo de consciência, voltou-se para o guarda e segredou-lhe:

Olha Matias a continuares com esse espírito fino e essa tua inteligência, podes chegar longe, cá na guarda.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Os bolinhos do Augusto

Os dias frios, dos princípios de Novembro, não tinham ainda trazido a chuva, que batera bem nos meados de Outubro, mas parara, dois ou três dias antes dos Santos.

O “verão de S. Martinho” veio mais cedo e a manhã em que os meninos da terra iriam, de casa em casa, pedir os bolinhos, apareceu soalheira e agradável.

Todos os anos, desde tempos imemoriais, no primeiro de Novembro, dia de Todos-os-Santos, as crianças da aldeia, entre os quatro ou cinco anos e os dez ou onze, percorriam todas as casas da terra, dizendo a velha lengalenga:

“Tia, bolinhos, bolinhos, em louvor de todos os santinhos” e recolhiam, numa bolsa de trapos, o que cada um lhes dava.

O Zézito estava no colégio havia menos de um mês e, aproveitando o feriado, que naquele ano calhou numa segunda-feira, foi para casa, já com a ideia de aproveitar, pela última vez, uma das ocasiões que mais prazer lhe davam: o pedido de bolinhos no dia de Todos-os-Santos.

Tinha já feito os dez anos e iria dar a volta, com o irmão que iria fazer oito e a irmã, que acabara de fazer seis.

O senhor prior avisou, na missa, que, por ser dia de Todos-os-Santos, as crianças da aldeia passariam a pedir os bolinhos, em todas as casas e esperava que, mantendo essa tão bonita tradição, todos colaborassem, como pudessem, “pelas almas dos que Deus já Lá tinha”, cuja memória se comemorava no dia seguinte, com missas rezadas lá na capela, ao nascer do sol e mais tarde na capela do cemitério, em Penhascoso.

Mal o padre disse “ite missa est”, todos os garotos correram a buscar as bolsas de trapos que tinham deixado atrás da porta de casa e, qual bando de pardalitos, invadiram os caminhos da aldeia, correndo para os pontos onde cada um ia começar a volta, pedindo os bolinhos.

O Zézito, mandou esperar os irmãos, para falar ao pai quando voltasse da igreja.

O Augustito que com ele fizera, no último verão, o exame da quarta classe, tinha torcido um pé, quando guardava o gado, e estava em casa, sem poder andar.

O que ele queria era pedir ao pai se podia passar por casa do amigo, para levar a bolsa dele e pedir os bolinhos por ele, uma vez que estava doente.

Quanto os pais viram que os três filhos estavam à porta – a casa era mesmo em frente da capela – foram ver o que se passava e o Zézito explicou a sua ideia e perguntou se estava correcta e se poderia fazer isso.

A resposta não se fez esperar: Claro!... Está muito bem pensado. Vai lá buscar a bolsa e passa por aqui a apanhar a tua e levar os teus irmãos.

A casa do Augusto ficava nas traseiras da capela pelo que o Zézito não tardou a aparecer, correndo, com a bolsita do amigo na mão.

Pegou na dele e prometeu aos pais que iria explicar, em todas as casas, porque levava duas bolsas.

As voltas correram pelo melhor. Toda a gente louvou a atitude, bonita e generosa, de auxiliar um amigo e nenhuma casa se recusou a dar os bolinhos do Augusto.

Uns perguntavam se as coisas corriam bem no colégio, outros diziam que afinal se aprendiam lá coisas boas e até alguns lembravam as brigas que o Zézito e o Augusto costumavam travar, por dá-cá-aquela-palha.

O Zézito, orgulhoso e ufano do sentimento que a sua atitude despertou na aldeia, no final das voltas deixou a sua bolsa em casa e foi junto do amigo entregar-lhe o resultado do peditório e explicar-lhe o que cada casa tinha dado, igualzinho para os dois: as romãs da tia Judite, as passas da tia Nazaré, as maçãs riscadinhas da tia Maria Marques, as capeludas – espécie de papo-secos de pão de trigo – da tia Ermelinda Capaceta, as talassas da tia Capaceta do Casal, as ervilhanas da tia Avelina e os tostões da tia Conceição Grande. Muitas casas deram tremoços, bolos
próprios do dia – com muita erva-doce e diversas peças de fruta.

Porém, duas casas deram bolinhos diferentes: As madrinhas do Zézito, tia Maria Alvega e a do Augusto, tia Deolinda Marques, distinguiram os afilhados – deram bolos especiais.

A tia Deolinda disse que já tinha pensado mandar o filho levar os bolinhos ao afilhado Augusto, mas achava muito bem que fosse o Zézito a lavar-lhos, dizendo que era das atitudes mais bonitas que já tinha visto em toda a sua vida.

Durante uns tempos foi muito falado o gesto, na terra, chegando o senhor prior, durante a missa, a referir e exaltar a atitude da criança que se lembrou do amigo doente e fez o peditório para ele.

Fez questão de acrescentar que estava informado que ninguém lhe encomendara o sermão, saindo a ideia da cabeça do garoto.

Os pais do Zézito, eram bastante comedidos nessas coisas e pouco mais manifestaram que o gosto que tinham tido e o orgulho que sentiram quando ouviram o senhor prior louvar, do púlpito abaixo, a atitude do filho.

Fizeram as recomendações do costume: que não se envaidecesse e fizesse tudo o que pudesse para compensar os sacrifícios que faziam para o trazer no colégio, onde esperavam que viesse a fazer-se homem de carácter e chegar onde eles não tinham podido.

Mas o mais enternecido era, no entanto, o avô do Zézito: homem de poucas palavras e muitas virtudes; de poucas letras e grande filosofia; de pouca vaidade mas muito sentimento.

Dizia, para os mais chegados, como recados para a aldeia: Se Deus quiser irá longe; mostrará a esta gente que os tempos são outros, que os valores deles são diferentes dos nossos e ainda todos se orgulharão dele e muitos hão-de seguir-lhe o exemplo.

Palavras proféticas do ti’Zé Lourinho, um dos homens de maior visão que a aldeia gerou e merece ser lembrado nos quarenta anos da sua morte:

DESCANSE EM PAZ, AVÔ ZÉ LOURINHO. Abril de 2008.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O burro dos ciganos

O Jaime nasceu no olival da Barca do Pego e, na companhia do clã, passava, na nossa aldeia, várias vezes por ano, ficando, quando calhava, algumas semanas.

Trazia a carroça com a garotada e a mulher e acomodava-se, no cabanal da rua da carreira, junto da atafona.

Estava no centro do povo, aproveitava o espaço para ir tosquiando as bestas que apareciam, dava dois dedos de conversa a quem passava e tinha a taberna à mão de semear.

Conhecia e era conhecido de toda a gente. Em pequeno ainda chegou a frequentar a escola local. Era como se fosse filho da terra e, dum modo geral, muito querido e estimado. Porém, nunca aceitou trabalhos no campo, fora das suas artes de tosquiador, ferrador, latoeiro e caldeireiro. Trazia, habitualmente, uns burritos e uma ou outra besta, presos atrás da carroça, para venda e troca.

A mulher e os filhos angariavam, de porta em porta, o sustento da família e, segundo palavras do Jaime, a Serra era terra onde se recebia mais do que o que se comia. Outras havia em que até a água era dada de má vontade, a crer nas afirmações do cigano.

Mas nessas nem apetecia poisar; fazia-se o serviço que havia, o mais rápido possível e … “ala moço, que se faz tarde”!...

Uma ocasião, teve de entrar numa demanda. Foi acusado, no tribunal de Mação, pelo Ti’ Chico Manco, de o ter enganado, vendendo-lhe uma besta velha e cansada, que nem dava para ir à horta, e, de cavalaria, nem com a albarda podia. Foram estas as queixas contra o sr. Jaime cigano, mais conhecido por Jaime Tarita, que a GNR teve dificuldade em notificar.

Foram ouvidas várias testemunhas de defesa. Eis um dos depoimentos:

É claro que a costela de cigano está lá – disse o Ti’ Abílio, ao tempo Cabo de Ordens –. É finório nos negócios, mas aldrabão nunca foi, mais que qualquer um de nós.

Posso afiançar, ao Senhor Doutor Juiz, que o Jaime não enganou o Chico Manco – Francisco Alves Mendes, melhor dizendo –, pois, eu próprio presenciei o negócio, assim como muitos outros, lá na taberna da Serra. Vendeu-lhe uma besta por duas notas. Acha o Senhor Doutor Juiz que, por esse dinheiro, lhe podia dar um cavalo de corrida!?... Será que o aldrabão é o Jaime!?...

Interrogado, o Jaime apenas disse que a besta do negócio sempre esteve à vista de toda a gente e se tivesse que meter gato por lebre não seria na Serra.

Acabei por ir em paz e com a caderneta limpinha como, orgulhosamente, se gabava o Jaime Tarita, quando lhe falavam no tribunal.

Numa das passagens pela terra, o Jaime cruzou-se com uma trupe de ciganos, desconhecidos por ali, mas que o Jaime conhecia, de ginjeira.

Passavam a vida a vender gado barato, não eram de confiança, parecia que tinham cola nos dedos e, pior ainda, eram como os espanhóis: tinham os olhos na ponta dos dedos. Estes foram os avisos feitos na taberna, destinados a precaver quem com eles quisesse fazer algum negócio, ou permitisse que se aproximassem.

À saída da missa, no largo das tabernas, juntou-se gente.

Os ciganos tinham um burro, muito bem apresentado, com pouca idade, bom de cavalaria e manso como as pedras da calçada. Não havia dúvida que valia tanto como o do Jaime e estavam a pedir vinte e quatro notas, enquanto o outro não desamarrava das quarenta.

O Jaime não conseguiu aproximar-se da pechincha, mas, mesmo à distância, pôde ver
que o animal não via do olho esquerdo – os ciganos tinham-no à rédea curta e estavam sempre nesse lado do animal –.

O Jaime viu ainda, embora a albarda nunca fosse tirada, que havia sinais de cicatrizes por cima dos quartos traseiros e numa das patas estavam sobrepostas duas ferraduras.

O comprador mais entusiasmado era o Ti’Jorge Moleiro que não gostava do Jaime nem usava os seus serviços.

Gabava-se de saber tosquiar melhor que o Jaime e que ainda o Jaime não era nado já ela mexia em bestas. Daí a razão do Jaime se afastar do novelo de gente que presenciava o negócio, como convinha aos ciganos, e se refugiar na taberna a beber um copo e, de conversa com clientes seus de longa data, foi enumerando as razões por que o burro dos ciganos era tão barato.

Feito o trato e passadas as notas, os ciganos desapareceram como que por encanto e, todo vaidoso da sua aquisição, entrava na tasca o Ti Jorge, para comemorar o bom negócio que acabava de fazer.

Atirou, assim como que em ar de desafio:

Ó Jaime, não queres dar quarenta notas pelo belo animal que acabo de comprar?!... Com albarda e tudo, ainda te tiro cinco notas. Eu ganho bom dinheiro e tu ficas com uma estampa de burro.

Olhe Ti Jorge, caro ou barato, vendo o que é meu, sirvo os meus clientes e, pode estar certo que não vendo gado cego, descomposto de quartos traseiros, com costelas partidas, ou coisa pior, e com duas ferraduras na mesma pata. Deus lhe dê mais saúde que a do animal que acaba de comprar.

É que quando eu nasci já o Ti’Jorge mexia em bestas, mas estes dois olhos que a terra me há-de comer, vêem melhor os defeitos dos burros e as manhas dos ciganos que o Ti’Jorge alguma vez há-de enxergar.

E, voltando-se para a assistência que entretanto se ia juntando, disse, com calma e serenidade: quando alguém quiser uma besta mais ou menos brava, mas sem maleita e defeito físico grave, pode pedir o meu conselho, ou comprar os meus animais – não levo nada por isso, desde que esses amigos não saibam mais do que eu e peçam, por isso, a minha ajuda...

Nesta altura já muitos iam dizendo, em surdina, mas perfeitamente audível na assistência: mas que diabo quer o Jaime dizer quando se refere a animais sem maleita e defeito físico grave?...

Até o Ti’Jorge, começava a cair em si e a interrogar-se sobre o que quereria o cigano dizer. Mas não daria, ainda, parte de fraco e, para rematar, pediu mais uns copos para os circunstantes. Porém, logo que os ânimos serenaram, saiu, sorrateiramente, e dirigiu-se ao palheiro onde tinha guardado o animal.

Qual não foi o seu espanto quando viu o burrito deitado, mostrando uma enorme cicatriz na região lombar, levantando-se com dificuldade, com uma perna a claudicar e mostrando, de facto, cegueira num olho.

Vociferou e saiu do palheiro proferindo as maiores barbaridades e impropérios contra os ciganos que, tinham dado “às de vila Diogo” e desaparecido, como que por encanto.

Recolheu-se a casa e menos de oito dias passados, já com o burro enterrado e mais umas três notas gastas com o veterinário, atreveu-se a entrar na taberna, avisando que não lhe falassem mais de burros, nem de ciganos.

Todavia, fazia a justiça de dizer que, quanto a ciganos, só o Jaime merecia ser bem recebido; era o terceiro negócio que fechava com ciganos e sempre fora enganado.

De futuro, só comprarei bestas ao Jaime, ou com o seu conselho. Logo que por cá apareça, há-de ter um bom jantarinho de carne, como pedido das minhas desculpas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O Tonho Rosa

Amante da água, minava-se por chapinhar nas levadas das regas, no Verão, e nas valetas dos caminhos, no tempo das chuvas.

Sempre descalço, as calças pelo meio da barriga das pernas e amarradas na cintura por um cordel, tapava o tronco com o que restava de uma camisa e por cima farrapos de um velho casaco de serrobeco amarelado. Na cabeça, a carapuça de sempre; melhor dizendo, os restos de um barrete preto que apanhou algures e não voltou a tirar da cabeça.

Era o filho mais novo de uma irmandade de quatro rapazes e três raparigas, e o único com fraqueza de cabeça e poucochinho – como dizia a mãe, quando lhe notava uma grande tristeza no olhar e o via ficar quieto até que o importunassem.

Desde pequeno que manifestou atrasos: custou-lhe a falar e nunca o fez perfeitamente – emitia uns sons, perceptíveis para quem estava habituado, mas indecifráveis para os estranhos –.

Nunca aprendeu a ler nem escrever, não fazia com a perfeição mínima qualquer trabalho, não dava conta de um recado e seguia sempre à frente, ou atrás, dos pais e irmãos, quando ia para as hortas.

Convivia bem com qualquer animal e afastava-se das pessoas: já tinha apanhado coices de bestas, mordidelas de cães, arranhadelas de gatos, socos e pontapés dos irmãos e de outros garotos e continuava sem medo de nada.

As feridas cicatrizavam com muita facilidade e, embora deixasse cortar o cabelo, nunca ninguém foi capaz de lhe cortar as unhas das mãos, já que as dos pés andavam gastas pelas pedras e serviam de protecção natural.

A muito custo lá o levaram às sortes; No entanto entrou primeiro que todos os outros e foi logo dispensado; era evidente a sua indisponibilidade para o serviço militar, na opinião do médico que o viu e mandou em paz e isento de taxa militar.

Assim vivia lá na Terra; esperando, sentado na beira das hortas, enquanto irmãos e
pais trabalhavam, até que chegasse a hora das refeições.

Comia sempre com as mãos e era muito amigo de pão e fruta, de toda a espécie, que tanto colhia nas árvores das hortas da família, como nas que estivessem mais à mão. Gostava muito de queijo e mamava nas cabras, à mistura com os cabritos.

Tinha boa saúde, se bem que fraca compleição física.

Aí pelos treze ou catorze anos notaram-lhe as primeiras perturbações que a mãe chamava “acidentes”. Entrava em transe, esbugalhava os olhos, espumava pela boca, rangia os dentes e contorcia-se espojado no chão. Sinais evidentes de epilepsia, que o acompanhou por toda a vida. Quando lhe davam os “acidentes”, era esperar que passassem, deixá-lo tranquilizar e descansar. Nada mais, como dizia a mãe, conformada com a desgraça.

Houve uma altura em que deram pela falta do Tonho; teria ele á volta de vinte e cinco anos.

Procuraram por todos os recantos em volta da aldeia e nem sinais do moço.

Chegaram mesmo a procurar em poços e nos pegos da ribeira, dada a atracção que ele sentia pela água.

Ao fim de uma semana, participaram o desaparecimento na Guarda Republicana do concelho, mas nem uma fotografia havia e os sinais comunicados eram comuns a muitos pedintes que ao tempo enxameavam pelas aldeias.

Um mês passado e nem sinais de morte, ou vida, do rapaz. Num raio de muitos quilómetros todas as Terras fizeram buscas, em vão.

Quase três meses passados, sobre a madrugada, o pai do Tonho saiu à tapada para as necessidades e, encontra o moço sentado nas guardas da eira.

Estava acordado, com a cabeça entre as mãos e olhando para o pai, cheio de medo, esperando a sova que pensava lhe iria cair em cima.

Metia dó ver aquele homem feito, tal e qual um animalzinho indefeso, à espera de um pontapé, dizia, comovido até às lágrimas, o Ti Adriano Marques, que acrescentava: Chamei-o, encostei-o a mim, acarinhei-o e perguntei-lhe: onde te meteste, Tonho? Tens fome? Anda, vai para o palheiro dormir, que amanhã dizes-me tudo, está bem? Nunca mais vou esquecer a cara do rapaz, como um menino, quando percebeu que lhe dava carinho e não porrada.

A todas as perguntas encolheu os ombros e parecia não perceber o que lhe perguntavam, porque não mostrava lembrar-se de nada.

Estive a dormir lá na pedra do meio dos pinheiros; não fiz mal a ninguém, não vi ninguém e andei por muito longe, dentro de uma camioneta de pinheiros. E mais não disse.

Passados muitos meses, um dia no largo da taberna, apareceu um pedinte, nunca antes visto por ali e que tinha acabado de dar a volta ao povo.

Interrogado, por uns homens que ali estavam, sobre a sua proveniência, porque nunca por ali tinha aparecido e outros assuntos de circunstância, acabaram bebendo um copo e em conversa fiada. Nisto…

Chega à porta da taberna o Tonho Rosa e mal fitou o pedinte, desatou numa corrida, só parando lá em casa, escondido no palheiro onde dormia, habitualmente.

O esmolante parecia ter visto um fantasma; fechou os olhos, abanou a cabeça, como que procurando acordar dum sonho e perguntou: conhecem aquele homem que aqui esteve há momentos? É que andou comigo e mais uns colegas meus, lá pela ribeira da Isna, nas terras de Oleiros e encostas do Moradal. Nunca pediu, acompanhava-nos, como que maravilhado, e ia comendo o que lhe dávamos.

Ele tem uns ataques de vez em quando, não tem? Só sei que disse que se chama Tonho e que foi posto fora de casa pelos pais.

Até que um dia, estávamos todos bêbedos, na malhada, adormecemos e, de manhã o Tonho tinha desaparecido, sem levar nada e sem deixar rasto. Até que hoje…

Pois não restam dúvidas sobre as suas palavras; o rapaz é filhote daqui, nunca fez mal a ninguém, mas é apoucado e tem “acidentes”, de vez em quando. De facto, aqui há meses esteve desaparecido uns tempos e nunca conseguimos saber onde esteve, ou por onde andou.

Não se importa que mandemos chamar a família, pois vão querer falar consigo, apenas para ficarem a saber o que tem a dizer-lhes?

Por mim estou às ordens e tenho todo o tempo do mundo para ajudar, se puder ser útil para esclarecer qualquer coisa sobre o rapaz. Tenho muito boa ideia dele.

Veio o Ti’Adriano e acabaram por estar de prosa um bom par de horas. Depois acabou por convidar o pedinte para a ceia e para um encontro com o Tonho, mas teria que primeiro ir preparar as coisas, para o rapaz não desaparecer.

Que ficasse ali, na taberna, que depois mandaria chamá-lo, quando tudo estivesse preparado.

Lá em casa, o Tonho, cabisbaixo e muito tímido, andava por ali, cheio de medo e, quando viu o pai chegar, percebeu que ele lhe queria falar e foi ter com ele. Cabeça no chão, chegou-se ao pai, como que a pedir protecção e ali ficou muito quieto.

Quando o pai lhe levantou a cabeça e a olhar bem fixo para ele lhe disse que já sabia por onde ele tinha andado, com quem tinha acompanhado e ficou muito contente quando soube que sempre se tinha portado bem, não tinha roubado nada e que quando quis voltar para casa, voltou e pronto.

Mas os amigos dele ficaram tristes e preocupados quando viram desaparecer o colega e fartaram-se de procurá-lo sem conseguirem encontrá-lo. Dizem que sempre te trataram bem; É verdade?

E, quando o Tonho acenou com a cabeça que sim, o pai disse-lhe: É que aquele pobre que tu viste lá na taberna do Manel é um desses teus colegas, não é? Então porque fugiste? Não queres conversar com ele? Perguntar pelos outros amigos?

O Tonho, mais confiante e percebendo que afinal o pai, não lhe ia bater, sorriu, o que era raro nele, e abanou a cabeça em sinal de aprovação e contentamento.

O pai fez sinal ao irmão mais velho e disse-lhe que fosse à taberna e trouxesse o pedinte que lá estava, mandando adiantar a ceia pois o pobre cearia com eles e, se estivesse de acordo, dormiria no palheiro, ao pé dos rapazes.

O Tonho ouviu o recado e mais uma vez riu. Estava contente!

Chegou o homem e aproximando-se do Tonho, abraçou-o e disse-lhe: Sabes que a rapaziada tem sentido muito a tua falta, lá por cima. Eu, achei que queria conhecer outras terras e estendi-me até aqui. Não estou arrependido; há aqui gente muito boa e amiga dos pobres.

E a melhor surpresa: encontrei um amigo, não é verdade?!...

O Tonho ia olhando para ele, baixando os olhos, voltando a olhar e parecia estar até a gostar. Mas quando o pedinte lhe perguntou porque se tinha ido embora, agitou-se e abanou a cabeça em sinal de desagrado, balbuciando: senti que ia ter “acidente” e fugi.

Estive escondido numa buraca lá na serra até passarem os sinais e depois meti-me numa camioneta que estava lá e vim ali para a nossa estrada.

Ninguém me fez mal; eu gostava muito da malta, mas agora quero ficar aqui e, olhando para o pai, calou-se. Ficou cabisbaixo e deixou que os outros continuassem a falar.

Só se levantou quando viu que o colega estava a comer pouco para se chegar junto dele e fazer gestos para que comesse muito, pois não queria que ficasse com fome.

Ao outro dia o mendigo seguiu o seu caminho e o Tonho continuou no dia a dia de todos os dias, acompanhando os pais e irmãos para as hortas.

O pedinte voltou a passar mais vezes e sempre ceava lá em casa e dormia no palheiro, com os rapazes.

Com o passar dos anos, a doença do Tonho foi-se agravando, os ataques vinham mais amiúde e provocavam mais incómodos, antes e depois de acontecerem.

Quando os pressentia o Tonho ficava aflito, inquieto e com sinais de ansiedade e sofrimento, até que numa dessas vezes, desatou a fugir e foi-se esconder numa gruta do penedo da ladeira dos brejos.

Quando foram no seu encalço, eram já abundantes os sinais de sangue na entrada da caverna e, lá dentro, estava deformado e com aspecto de grande sofrimento, depois de lutar contra a morte, o cadáver do Tonho Rosa.

O pedinte dos lados lá de cima, como ficou conhecido na terra, continuou a passar e a cear na casa dos pais do Tonho, indo de seguida dormir no palheiro.

Porém, nunca saía de ao pé da mesa sem pedir um Padre-nosso, pela alma daquele inocente que, segundo as suas próprias palavras, Deus já Lá tinha….

domingo, 29 de novembro de 2009

A buraca do Tó

Depois de deixar as Pedrinhas Negras e antes da Passada, estendem-se os alqueives num e noutro lado da Cova do Pereiro.

Em anos bons, como dizia o Ti’João Abelha, crescia ali pastagem para sustentar meio cento de cabeças de gado, mas acrescentava, com alguma ironia: eu, com quase setenta anos, nunca vi um desses anos bons, lá naquele vale de cães.

Terra do demónio que nem tem água boa para beber – se temos sede temos de ir ao outro lado, à represa do Cabeço Seixo. E acrescentava:

O meu avô andou por lá a cavar e, se bem que a pedra não fosse muito dura de roer, nunca encontrou o que procurava – água.

O meu pai tentou fazer lá uma charca para guardar as águas da chuva, mas o terreno é tão roto que nem as águas consegue segurar – trabalho em vão.

Eu plantei uns bons centos de calitros – que os doutores dizem eucaliptos, ou lá o que seja – e não vingaram mais de meio cento, que acabaram por crescer raquíticos, bons para canas de foguetes – foi dinheiro e trabalho deitados à rua.

Terra de lacraus e cobras é o que aquilo é. Segundo se conta há lá “abíboras”e parece que até uma, numa ocasião, lá terá mordido um homem, que acabou por ir desta para melhor – para mim foi para pior, pois nunca ninguém cá voltou para dizer que é melhor –.

Os coelhos e as lebres são do piorio; magros que nem cães e não deixam escarapentar uma folha verde nas hortas em redor. Segundo dizem os caçadores, mesmo chumbados vão sempre morrer longe, com o diabo que os leve.

Parece que nas pedras lá do fundo – um amontoado de lajes, já com montes de terra e árvores por cima -, foram para lá levadas para fazer uma ponte; segundo os mais idosos, uma espécie de “alcaduto” que levaria as águas desde uma represa, feita nas Pedrinhas Negras, até aqueles campos que, com água, poderiam dar de comer a muita gente.

E ali, perto da Terra, seria um verdadeiro maná para tantos precisados de uma horta de mimos.

Outros dizem que aquelas pedras são os restos de um cemitério que, muitos séculos atrás, teria servido a várias aldeias em redor.

A verdade é que nunca ninguém se quis meter com aquilo e até o caminho foi mudado para a meia encosta, de modo a passar mais afastado daquele lugar. Até se diz que se escondem lá coisas esquisitas; eu não acredito nisso e acho que aquilo não passa de um cóio de bicharada de todo o tipo: gatos-bravos, raposas, texugos, ouriços e toda a espécie de cobras e lagartos. Lobos, não me parece que consigam lá entrar, se não também lá se iriam esconder.

Por baixo das lajes de cima, há várias camadas de pedras e por muita que fosse a água das chuvas, ao chegar ali era engolida e desaparecia. Nunca ninguém soube para onde, mas o ribeiro não engrossava com ela.

Eu tenho andado muito por ali e nunca vi vivo a entrar ou sair daquelas pedras; os cães do meu sobrinho têm seguido muita caça e ali, naquelas estevas, perdem-na como por encanto, para não mais a toscarem.

Contava o meu bisavô que, um belo dia, um pastor seguiu um coelho que se foi lá esconder. Viu, perfeitamente o buraco por onde ele entrou e esgueirou-se, atrás dele, para apanhá-lo.

A entrada, entre duas grandes lajes, teria, e ainda tem, é claro, pouco mais de vinte centímetros, mas torce daqui, ajeita dali, e o rapaz lá conseguiu meter a cabeça.

Pensando no que sempre ouvira dizer: que onde passa a cabeça há-de passar o resto do corpo, esgadanhou um bocado mas passou e achou-se dentro de uma espécie de salita, onde caberiam, bem, meia dúzia de homens.

Não havia muita luz, mas o chão estava pejado de caganitas e bostas de todo o tipo e o cheiro era do piorio. Aqui o bisavô metia um aparte: devia cheirar a Tabú, do espanhol, pois comparado com o bafio normal do pastor, seria verdadeiro perfume!...

O Tó Rola, assim se chamava o pastor, olhou para todos os lados, viu luz em várias pequenas frestas, esgravatou com um tanganho que ali apanhou, depois pôs-se à coca a ver se ouvia algum sinal de vida, nalguma direcção, e nada.

Havia buracos para baixo, mas a sua coragem tinha-se acabado ali e agora era pensar em sair e mais nada. Como o buraco por onde tinha entrado era o maior, dirigiu-se para lá e, com as mãos à frente, tentou meter a cabeça.

A certa altura ouviu atrás de si ruídos e pensou que algum laparoto iria a entrar ou a sair. Porém havia que concentrar-se no buraco por onde teria de sair e teve a sensação que a fresta era agora muito mais estreita.

Esgravatou no chão e doeram-lhe as mãos, pois era pedra rija a da soleira do buraco. Voltou-se de costas para melhor ajeitar a cabeça a qualquer buraquinho que existisse, mas nada, não encontrava lugar onde fosse capaz de enfiar a cabeça.

Já suava e começava a ficar, com licença dos senhores, dizia o meu bisavô, à rasca. Lá por fora também não se ouvia vivalma e o sol ia caminhando para o Pontão. Quando lá chegasse era noite.

A estas horas já o Tó Rola pensava em rezar, até que ouviu barulho lá em cima, no caminho e gritou com quanta força tinha: Acudam!... Acudam-me, que morro aqui! Acabou por calar-se, pois não apareceu ninguém.

A horas de recolher o gado, não apareceu o Tó e aí o Ti’Jaime Mendes, onde ele era criado, passou palavra que o pastor não tinha vindo com o gado e que já devia ter chegado, pois andaria por perto, ali na da Cova do Pereiro.

Assobiaram lá nas Pedrinhas Negras e apareceu o “vadio”, cão que sempre acompanhava o Tó e que andava inquieto, agitando o rabo e batendo com a pata no chão – sinal de que estava a chamar, para que o seguissem.

Quando chegaram às vistas da Cova do Pereiro viram o gado amodorrado junto do montinho dos pinheiros e nada do Tó. Mas o vadio agitava-se cada vez mais e a um assobio do Galhibano, veio a resposta do Tó, assobiando também.

Foi só seguir o cão até à boca das pedras e já com uma lanterna começaram a incentivar o moço para que se esforçasse, pois se entrou havia de sair, mas…nada. Não havia maneiras.

Dizia-lhe, de fora, o pai: Faz força, diabo! Mas tu entraste e tens de sair, demónio! A não ser que tenhas comido aí alguma coisa que te tenha enchido a barriga.

Respondia o Tó: tenho a barriga colada às costas, desde o meio-dia que não como nada e já abaixei as calças três vezes, desde que aqui estou.

O Tó voltava a esgueirar-se, esticava as mãos e às tantas já eram dois a puxá-lo e nada.

O Galhibano que tinha sempre de arranjar uma das dele, foi-se ao ribeiro e trouxe uma vergôntea de sabugueiro, tirou-lhe toda a rama, deixando só as folhas da ponta. Deixou a vara escondida na parte de trás das pedras e veio à boca da fresta conferenciar com o Tó:

Bem, só vejo uma maneira de te fazer sair daí, tens de conseguir escorregar. Mas, o azeite da lanterna não chega!... Espera lá, tenho ali no bornal uma coisa que vai servir. E foi-se para trás das pedras. Pediu que se calassem todos e, calmamente, falou para o Tó:

Tenho aqui um verdugo que apanhei esta tarde e que está gorda como um texugo. Vou metê-la por um destes buracos aqui de trás e só a largo quando tu aí a agarrares. Depois bates-lhe com a cabeça aí numa pedra e untas a saída com a banha da cobra…Hás-de sair!...

Não, não!... Berrava o Tó; Uma cobra não!...Não morro apertado nas pedras, mas o coração não vai aguentar-se. Pelas tuas alminha, uma cobra não!...

O Tó suava em bica e quando sentiu as folhas da vara de sabugueiro a subir-lhe pelas pernas acima e a chegar-lhe quase entre as pernas, deu um impulso e, não se sabe como, apareceu fora do buraco.

Estava lá o Galhibano, muito aprumado, com a vara de sabugueiro na mão, qual lança de cavaleiro, que lhe disse, dando-lhe a vara: Guarda o verdugo, pois, com ele, podes safar outro de qualquer enrascadela.

Quando me contaram esta história ainda o local, que ninguém sabe o que esconde e só a outra História poderá desvendar, se chamava: A Buraca do Tó.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

“Séc’ló Notícias”

Completaram-se os nove anos entre as tiragens de cortiça na Herdade do Meio e na da Carvalheira de Cima.

Cento e cinquenta hectares de sobro do melhor, que acabavam de produzir quase dez mil arrobas de cortiça que, vendida a um industrial do Montijo, valeu a bonita soma de quase vinte mil contos – uma grande fortuna, na época, que foi entregue ao senhor Lavrador Lopes Guerreiro, em notas do Banco de Portugal e um cheque visado, no dia em que as camionetas começaram a carregar para o Montijo e para duas fábricas do Norte.

O senhor Lavrador meteu as notas e o cheque numa bolsa de pano que guardou na casa forte.

Uma construção de cimento armado, à prova de fogo, de tamanho descomunal e encastrada sobre uma sapata construída num poço aberto no chão, com frestas, cujas ranhuras inclinadas em várias direcções mediam menos de dois centímetros e eram protegidas, por dentro, por uma rede de malha fina.

A cavidade útil, um cubo de dois metros de lado, era acedida por uma porta encomendada a uma casa especializada de Paris, por um tio do Senhor Lavrador.

Classificada de alta segurança, era resistente ao fogo, tinha uma estrutura de amortecimento de explosões e dada a situação do celeiro não havia possibilidade de se inundar.

Abria para dentro e tinha um dispositivo comandado do interior, que com um simples toque escancarava a porta.

Pelo exterior, dois dispositivos de segredo e uma tranca camuflada e secreta, completavam o fecho do bunker.

Nesta casa forte estavam valores em dinheiro, sempre em quantidade avultada, pois o senhor Lavrador não queria estar descalço, como dizia a miúdo, jóias da família, documentos importantes, armas, correspondência pessoal e de importância familiar, etc.

Havia sempre fósforos, velas de sebo, um garrafão de água e uma manta dobrada, ao lado de uma pequena mesa e uma cadeira onde o se sentava o senhor Lavrador, quando tratava o que precisava.

Os segredos, das fechaduras e das trancas, eram conhecidos por sete pessoas, divididos em três grupos.

Essas pessoas agiam individualmente e do conjunto das acções dos três, resultava a abertura da casa forte.:

O Senhor Lavrador conhecia o segredo das trancas e os códigos das duas fechaduras, isto é, podia abrir e fechar, sozinho, a casa forte.

O filho mais velho, doutor Manuel, veterinário no concelho de Beja, conhecia o segredo da fechadura de cima; o feitor, André Cotovia, sabia abrir a de baixo e o maioral do gado sabia desactivar as trancas, mas nunca podiam estar os três junto da casa forte, a não ser quando o último dos três activava o seu segredo e chamava os outros dois, para que o mais velho rodasse o volante de ferro que abria a porta.

Outro grupo, idêntico a este, era formado pelo doutor Pedro, filho mais novo do Senhor Lavrador, que administrava as cinco herdades da casa e vivia lá no Monte da Herdade dos Bons Ares, que conhecia o segredo da fechadura de cima, pelo contabilista que sabia o da fechadura de baixo e pelo capataz, Agostinho Gancho, que sabia destravar as trancas.

No Notário havia um envelope lacrado com cada um dos três segredos.

Quando morria o titular, ou deixava de trabalhar na casa, o respectivo segredo era confiado ao novo confrade, sob juramento, pelo notário, na presença do senhor Lavrador.

Assim, a casa forte só poderia ser aberta pelo senhor Lavrador, por cada um dos grupos de três elementos, ou pelo notário que guardava as cartas lacradas, que só poderiam ser abertas e usadas, em caso de qualquer emergência.

No Natal de cada ano, os titulares das cartas com o segredo da casa forte e o notário recebiam, num envelope, uma recompensa do Senhor Lavrador.

Não conheciam as broas uns dos outros, mas todos se dirigiam ao Banco, nos primeiros dias do ano, para depositarem o prémio que tinham recebido do patrão.

Alguns dias depois do recebimento dos valores da cortiça, o Senhor Lavrador chamou o André Cotovia e o Agostinho Gancho, feitor e capataz da Herdade dos Bons Ares e homens da sua inteira confiança, para que apanhassem o comboio, em Beja, e fossem a Lisboa, ao Banco Ultramarino, levar o dinheiro da cortiça.

Deviam ir com os olhos bem abertos, sempre um em frente do outro, guardando a retaguarda do parceiro.

Depois de deixarem o comboio, no Barreiro, era só atravessar no barco e, no outro lado, em Lisboa, atravessavam aquele grande largo que tem um homem em riba dum cavalo, metiam na rua que tem um arco e logo viam uma grande casa com as letras Banco Ultramarino.

Há-de dirigir-se a vocês um porteiro fardado que vos dirá bons dias!

O André responderá: bons dias!... Vamos falar ao Senhor Mendes; trazemos esta encomenda para ele! E nesta altura mostras-lhe a bolsa.

No cimo dumas escadas estará um senhor de óculos que vos cumprimentará: olá senhor André!...Como está o meu amigo, o Senhor Lavrador Lopes Guerreiro? Mandou uma lembrança para mim? Vamos ali ao meu gabinete.

E lá dentro, dás o cheque e o dinheiro da bolsa ao senhor e esperas até que ele te dê um papel que guardas na algibeira.

Agradeces e despedes-te e já podem ir a uma taberna qualquer, comer bem e beber melhor.

Depois, apanham o comboio da tarde e, em Beja, há-de estar alguém para vos trazer para cima.

No banco o director, senhor Mendes, tinha avisado a portaria para mandar subir os dois homens com uma bolsa de trapos na mão. Quando tudo estivesse concluído o banqueiro telefonaria ao Lavrador e os homens seguiriam o seu destino.

Por volta do meio-dia toca o telefone no Monte e o senhor Lavrador ouve do outro lado o feitor André a dizer que tinha havido um contratempo e, como medida de segurança, não foram ao Banco.

Tinham a bolsa do dinheiro bem guardada e voltavam no comboio das duas, para que já tinham bilhete.

Agradecia que mandasse buscá-los, a Beja, lá pelas cinco horas. Depois esclareceria tudo; agora era melhor não adiantar mais nada, pois não sabia se estavam a segui-los.

O Lavrador comunicou ao banqueiro, seu amigo, que tinha havido um percalço com os emissários, mas os valores estavam em segurança e quando conhecesse todo o enredo da história lhe daria notícias.

Quando os dois homens chegaram à herdade foram entregar ao patrão a bolsa que nem tinham chegado a abrir e que o feitor ainda levava espalmada entre a camisola interior e a camisa, donde não chegou a sair.

O capataz deu um passo em frente e, calmamente, disse:

É a primeira vez que volto sem as ordens do Senhor Lavrador cumpridas; acho que aqui o Agostinho se pode gabar do mesmo.

Mas, mal pusemos pés em terra, à saída do barco, ouvimos aquela chusma de gajos – com sua licença – a gritar, correndo de um lado para o outro, como que a procurar alguém e entregando uns papéis que tiravam de debaixo do braço, dum bornal que traziam a tiracolo, resolvemos não nos meter em embrulhadas e, discretamente fomos comprar bilhete e viemos no barco de volta.

Sossegámos um pouco, pois parece que nos terão perdido de vista e, no barco não demos por ninguém a seguir-nos e, também na estação parece que não estava ninguém à nossa espera.

Metemo-nos na carruagem, sentámo-nos na frente um do outro e trouxemos para casa a sua encomendinha.

Que nos perdoe o patrão, mas sempre se disse que o seguro morreu de velho.

Aí, algo intrigado ainda, o Lavrador perguntou:

E que dizia essa gente lá na estação dos barcos e nos passeios à volta?

Adiantou-se o Agostinho, respondendo: “Cerquem os da cortiça!... Cerquem os da cortiça!..”

E logo, do lado, outros repetiam: “Cerquem os da cortiça!... Cerquem os da cortiça!”

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O machacaz

Desde que me conheço que ajudo mulheres a parir, gritava a ti’Maria Rita lá do quarto dos fundos, mas esta está a dar-me água pela barba.

Tragam-me mais uma panela de água quente e umas toalhas para ver se a criança dá a volta completa e se se põe a jeito de vir cá para fora.

Enquanto berrava para as ajudantes que, atarantadas e tolhidas de medo, viam a velhota dar palmadas nas “nalgas” da Dionísia que se debatia com o nascimento do seu primeiro filho, a comadre ia aconchegando o ventre da parturiente, atenta a todos os movimentos da criança que parecia estar a orientar-se para a chegada a este mundo.

Abram o raio dessa janela que nos falta o ar aqui dentro.

E tu mulher, enche-te de coragem e morde, com quanta força puderes, essa toalha que tens na boca.

Vai custar mais um bocado, mas nunca nenhum me ficou lá dentro e vais ver a prenda que já começou a mostrar-me a cabeça.

São mais uns dez minutos; vais ver que mais ou menos ao meio-dia vai berrar aí que nem um desalmado; já que pela configuração e tamanho do que já posso ver me arrisco a dizer que é macho.

E assim foi: ainda o relógio não acabara de bater as doze badaladas e já um rapagão berrava com todas as forças, nas mãos da velhota que começava a limpá-lo e se preparava para tratar-lhe do cordão e colocá-lo, na cama, ao lado da mãe.

Parabéns rapariga, tens aqui um belo rapaz.

Mas olha que o machacaz deu-nos bem que fazer: a ti e a mim, que desde que me recordo foi dos mais difíceis. Estava lá bem, o finório. Não lhe faltava nada e sair de lá não parecia agradar-lhe, mas já acabou.

Chico cresceu, avantajado de corpo, meio desajeitado e, aos sete anos, quando entrou na escola, as carteiras da frente, destinadas aos da primeira classe, eram-lhe pequenas.

A Professora mandou sentá-lo na terceira fila e, mesmo assim, ainda era escasso o espaço para as pernas do rapaz.

Com os ombros largos, os braços passando-lhe um pouco abaixo dos joelhos, umas mãos grandes e a cabeça, meio disforme, mas grande e bem coberta de cabelos pretos, o Chico conseguiu fazer o exame da terceira classe, a custo.

Depois começou a guardar as cabras e ovelhas e a ajudar os pais nas lides do campo.

As tentativas de aprender as artes de carpinteiro e pedreiro, não resultaram.

Homem de poucas falas e olhar esquivo, tinha aversão às botas e raramente apertava todos os botões de calças e camisas.

Apurado de instintos, cuidava do que era seu e com a fisga nas mãos, armando costelas e boízes, no tempo delas, ou mesmo à unha, nunca se lhe acabava, em casa, caça, peixes e outros petiscos.

Saía sozinho, a todas as horas do dia e da noite, nunca mostrara medo, fosse do que fosse, e era encontrado onde menos se esperava.

Tinha um tratamento muito familiar com toda a bicharada e se pressentia alguém, no seu caminho, desviava-se para evitar encontros e conversas de que era pouco amigo.

Alguém reparou na expressão da comadre Maria Rita, ao dizer para a Dionísia que o “machacaz” lhes deu bem que fazer e, como nada cai em saco roto, foi-se generalizando a alcunha e quando o rapaz foi às sortes era, para todos, o “Machacaz”.

Ficou livre do serviço.

Um corpanzil daqueles, podia e devia alombar a servir a pátria. Mas, assim não acharam os entendidos e o Chico nada se incomodou, como se não incomodaria se o mandassem ir para algum lado.

Até aí catrapiscava a garota do ti’Cambado, do mesmo ano que ele, magricela, de poucas cores e olhitos azulados, herdados da mãe, que não resistiu ao parto e deixou órfã e viúvo lá na casa da ladeira, onde sempre viveram, só os dois.

A dispensa da tropa veio apressar as coisas e notaram, os mais observadores, que o Machacaz, à medida que se aproximava o casamento, ia mais pela taberna, chegava-se mais às conversas e tomava muita atenção a tudo o que dissesse respeito a relações entre homens e mulheres.

Começou a frequentar mais a missa dos domingos, tratou de tudo e ajudou na construção da casa nova, ao lado dos cómodos da ladeira.

A boda foi discreta e muito farta e, apesar do espírito reservado do Machacaz, todos ficaram admirados com a maneira como tratou todos os convidados e a forma como parecia outro homem.

Vieram três filhos, nos três primeiros anos e, depois, voltou a ser o mesmo Machacaz de sempre; sorumbático, esquivo e isolado.

Algum tempo depois começou a frequentar assiduamente a taberna, a beber até cair e a falar consigo próprio.

Os mais chegados metiam-se com ele. Porém, além de reagir mal, começou a mostrar sinais de agressividade e falta de tolerância, nas brincadeiras.

Um dia, ao ouvir as prosas do Longueiras, saiu abruptamente da taberna, dirigindo-se a casa, com passada aberta e rápida e, entrando no quarto, sorrateiramente, viu, nos fundos da cama, por baixo da coberta, os vultos de quatro pés.

Saiu, caminhou rapidamente até à taberna, onde bebeu, de enfiada, dois ou três copos de vinho.

De repente e inopinadamente, enfrentou os presentes e exclamou:
Estão lá quatro pés, sim senhor, mas dois são do Machacaz!...