Pelos anos cinquenta não era fácil a vida no centro do País; no campo era difícil – havia pouco dinheiro para pagar as jornas, a propriedade muito dividida era amanhada pelos proprietários e filhos e os trabalhos especiais (ceifas, mondas, malhas, azeitona, podas ou vindimas) eram sazonais e, por vezes, comunitárias.
Para se conseguir um lugarzito como factor da CP, guarda freios ou condutor na Carris, servente ou pedreiro, nas obras de Lisboa, e guarda na GNR ou PSP, era preciso bons empenhos, de alguém bem colocado, a troco de um bom cabrito ou de uns garrafões do bom azeite da região.
Numa dessas voltas da vida, o ti Manel Bento dirigiu-se a casa do doutor Martins – onde era jornaleiro, tal como fora seu pai –, para lhe pedir que arranjasse qualquer coisa para o filho Mário, que daí a dias seria licenciado da tropa e não tinha muita compleição física para cavar com ele no campo ou nos poços e minas.
Muito bem recebido pela Senhora, que chamou logo uma criada para guardar o recheio da cestinha do ti Manel Bento, constituído por um frasco de mel, um galo capão, ainda vivo, e duas garrafas de azeite. E, enquanto a criada não voltava com a cestita já vazia, lá foi assegurando ao jornaleiro, conhecido da casa havia muitos anos, que o seu compadre de Lisboa alguma coisa haveria de arranjar – recomendaria o rapaz para a GNR.
Foi assim que, daí a seis meses, depois de feita a preparação, o Mário Bento foi colocado, como guarda, no posto da GNR, da vila.
Na primeira patrulha que fez, passou pela sua aldeia, onde levantou vários autos – coisas comezinhas, como entulho deitado nos caminhos, caiação de casa sem licença, poço sem vedação e carroça mal arrumada, foram objecto da atenção do guarda Mário, que, passeando a sua farda nova, tomou a iniciativa de autuar o próprio pai, por uma transgressão de somenos importância.
O ti’Manel Bento, foi ao posto da GNR e ignorando a presença do filho quando por ele passou, dirigiu-se ao graduado de serviço – o sr. Cabo –, a quem apresentou a autuação e se prontificou a pagar a multa. Ao mesmo tempo tirou da algibeira das calças uma bolsita de trapos, onde guardava o dinheiro e, pegando nos vinte escudos, correspondentes à coima, entregou-os. Aceitou o recibo e saiu.
A coisa serenou: não havia que censurar o filho por cumprir o seu dever. Todavia, na cabeça do ti’ Manel continuava a interrogação sobre o que quereria o filho mostrar, com aquela atitude. Não encontrava resposta e custava-lhe mais conter-se, quando ouvia os comentários de vizinhos e amigos sobre o zelo do filho.
A mágoa no coração custou mais a passar; indo para lá do casamento do filho e baptizado dos netos, onde o ti’ Manel fingiu que não mais se lembrava da mágoa que sentiu, quando se viu autuado pelo seu próprio filho, no primeiro trabalho que fez na guarda.
Muitos anos depois, pelo Natal, o ti’ Manel chamou os seis filhos e, à volta do alguidar das filhós, de uma pratada de tremoços, uma bacia de azeitonas retalhadas, pão e queijo, regados com vinho da casa, todos comeram e beberam, à vontade.
Antes de partirem para suas casas, o velho pai puxou da mesma bolsita de pano que usara no posto da GNR, trinta e três anos antes, e tirando cinco notas de quinhentos escudos – quantia que nesse tempo correspondia a mais de dois meses de jornas –, deu uma a cada filho, menos ao Mário, ainda guarda da GNR.
Disse que queria deixar as coisas equilibradas; que aquelas notas não eram mais, nem menos, que os vinte mil réis que tinha pago de multa, trinta e três anos atrás, valorizados a um juro normal de dez por cento ao ano. Não havia mais nada a dizer e só queria acrescentar que já podia morrer descansado.
Cada um desapareceu para seu lado, rapidamente, só o Mário, junto do pai, o abraçou, sentidamente e em silêncio total. Não se sentiu injustiçado – recordou-se de qualquer coisa que lera, sobre a “pena de Talião”.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Don Pepe & Doña Maria
A festa de Alcaravela, que, em cada ano, tinha lugar num fim-de-semana de Agosto, era um dos pontos altos na vida da aldeia, sobretudo entre as gentes mais jovens.
De cariz, genuinamente, popular, tinha início no sábado, com os encontros entre familiares e amigos. Continuava, com uma forte "alvorada", de foguetes e morteiros, ao pôr-do-sol e, depois, à chegada do conjunto musical que, se revezava com o acordeonista, começava o baile.
No domingo, durante a manhã, percorriam-se as ruas, ao som da banda de Sardoal, fazendo o peditório, para a igreja. Seguia-se a missa, na igreja matriz de Santa Clara, apinhada de gente.
Terminada a procissão, que se seguia à missa, fazia-se o leilão das fogaças e comiam-se as merendas, para o que cada grupo de romeiros escolhia uma sombra.
Da Serra ia sempre uma grande comitiva: uns com destino à missa e procissão, outros para encontrar familiares e amigos, beberem uns copos e falarem de negócios. Os mais jovens esperavam, com impaciência, a animação e o baile, que durariam toda a noite.
Os rapazes compravam os bilhetes para as séries de três danças, tomavam lugar junto ao estrado e logo que se iniciava a música convidavam, por sinais, ou de viva voz, as raparigas que mais lhes interessavam.
Quando se notava insistência na escolha de um par, os outros afastavam-se, discretamente.
Nas mesas, à volta do "dancing", as mães, tias, mirones e raparigas não convidadas, nessa dança, seguiam, atentamente, tudo o que se passava e iam coscuvilhando.
Os homens bebiam cervejas e copos de vinho, enquanto conversavam com os amigos.
Alta madrugada, organizavam-se os grupos, de regresso às aldeias: os "moços soltos", os "casalinhos apalavrados" e os que aproveitavam a calada da noite para "pedidos de namoro".
Num dos regressos das festas de Alcaravela, um par de namorados – a Maria do Cimo da Eira e o Zé, da Tojeira –, afastaram-se do grupo, para irem à vontade.
No Vale das Onegas, os rapazes deram pela falta do “casalinho”, mas não ligaram ao assunto; a terra havia de dá-los. Porém, à chegada à Serra, não apareceram.
De manhã, espalhou-se a notícia na aldeia: a Maria do Cimo da Eira não voltara para casa.
Vieram, mais tarde, notícias da Tojeira que confirmavam a falta do Zé.
Ao fim de uma semana, o padrasto da rapariga comunicou na GNR o desaparecimento da enteada, que tinha sido vista, pela última vez, no regresso das festas de Alcaravela, na companhia do namorado, um rapaz da Tojeira, que também estava desaparecido.
Passaram anos sem sinais dos desaparecidos. Acabaram por cair no esquecimento.
Vinte e cinco anos depois, apareceu, na festa de Alcaravela, um casal de meia-idade, num imponente automóvel de matrícula estrangeira e sinais ostensivos de luxo: anéis, pulseiras, relógios, cordões, brincos e correntes de ouro.
Todos olhavam, deslumbrados e interrogavam-se: Quem serão? De onde virão? O que os traz até aqui?
Por entre a agitação e falatório, um irmão da Maria do Cimo da Eira olhou a estrangeira de frente e exclamou: Por onde tens andado, Maria?!... Afinal, és tu e estás viva!... Dá cá um abraço, mulher!...
Espalhou-se a notícia, juntou-se o povo e todos afirmavam ter já desconfiado que se tratava do Zé da Tojeira e da Maria do Cimo da Eira; os desaparecidos de há vinte e cinco anos.
Os forasteiros, entre beijos e abraços, explicaram que acabavam de chegar, da Argentina, onde estavam há mais de vinte e três anos. Lá, no outro lado do Mundo, Don Pepe & Doña Maria – como eram conhecidos –, tinham mais terra que toda a freguesia de Alcaravela, mais de três mil cabeças de gado e uma "finca" nos arredores de Córdoba, no centro do país.
Nunca tiveram filhos e resolveram vir agora a Portugal, agradecer a Santa Clara, de Alcaravela, e ao Senhor dos Aflitos, da Serra, que muito lhes valeram, nas horas mais difíceis.
Nos dois meses de férias, que repartiram entre as aldeias da sua naturalidade e diversos passeios pelo país, fizeram bem a muita gente.
Regressaram à Argentina sem falar no seu desaparecimento. Levaram dois sobrinhos que iriam preparar para lhes suceder na administração da firma de Import & Export, Pepe & Maria , S.A., nos arredores de Córdoba, na Argentina.
Antes de partir, deram meios e instruções ao irmão da Maria do Cimo da Eira para que mandasse construir uma imponente vivenda, na Serra, onde pensavam voltar para passar o resto dos seus dias.
Muitos anos mais tarde, foi encontrado, nas ruínas da casa, um caderno de duas linhas, com uma série impressionante de nomes de localidades, de diversos países, contas de transportes e até uma caixa, de lata, com um rolo de notas de dólares e pesos argentinos, que havia ali ficado por esquecimento.
Os apontamentos acabaram por desaparecer e as notas extraviaram-se, pois, um pedreiro, que trabalhava em Lisboa, levou-as para tentar cambiá-las no Banco de Portugal e não deu mais conta delas.
Exibiu um recibo, dizendo que se tratava de notas sem curso legal e já sem qualquer valor.
Ninguém mais se interessou pelo caso, não passando, hoje, de uma história que todos vão esquecendo.
De cariz, genuinamente, popular, tinha início no sábado, com os encontros entre familiares e amigos. Continuava, com uma forte "alvorada", de foguetes e morteiros, ao pôr-do-sol e, depois, à chegada do conjunto musical que, se revezava com o acordeonista, começava o baile.
No domingo, durante a manhã, percorriam-se as ruas, ao som da banda de Sardoal, fazendo o peditório, para a igreja. Seguia-se a missa, na igreja matriz de Santa Clara, apinhada de gente.
Terminada a procissão, que se seguia à missa, fazia-se o leilão das fogaças e comiam-se as merendas, para o que cada grupo de romeiros escolhia uma sombra.
Da Serra ia sempre uma grande comitiva: uns com destino à missa e procissão, outros para encontrar familiares e amigos, beberem uns copos e falarem de negócios. Os mais jovens esperavam, com impaciência, a animação e o baile, que durariam toda a noite.
Os rapazes compravam os bilhetes para as séries de três danças, tomavam lugar junto ao estrado e logo que se iniciava a música convidavam, por sinais, ou de viva voz, as raparigas que mais lhes interessavam.
Quando se notava insistência na escolha de um par, os outros afastavam-se, discretamente.
Nas mesas, à volta do "dancing", as mães, tias, mirones e raparigas não convidadas, nessa dança, seguiam, atentamente, tudo o que se passava e iam coscuvilhando.
Os homens bebiam cervejas e copos de vinho, enquanto conversavam com os amigos.
Alta madrugada, organizavam-se os grupos, de regresso às aldeias: os "moços soltos", os "casalinhos apalavrados" e os que aproveitavam a calada da noite para "pedidos de namoro".
Num dos regressos das festas de Alcaravela, um par de namorados – a Maria do Cimo da Eira e o Zé, da Tojeira –, afastaram-se do grupo, para irem à vontade.
No Vale das Onegas, os rapazes deram pela falta do “casalinho”, mas não ligaram ao assunto; a terra havia de dá-los. Porém, à chegada à Serra, não apareceram.
De manhã, espalhou-se a notícia na aldeia: a Maria do Cimo da Eira não voltara para casa.
Vieram, mais tarde, notícias da Tojeira que confirmavam a falta do Zé.
Ao fim de uma semana, o padrasto da rapariga comunicou na GNR o desaparecimento da enteada, que tinha sido vista, pela última vez, no regresso das festas de Alcaravela, na companhia do namorado, um rapaz da Tojeira, que também estava desaparecido.
Passaram anos sem sinais dos desaparecidos. Acabaram por cair no esquecimento.
Vinte e cinco anos depois, apareceu, na festa de Alcaravela, um casal de meia-idade, num imponente automóvel de matrícula estrangeira e sinais ostensivos de luxo: anéis, pulseiras, relógios, cordões, brincos e correntes de ouro.
Todos olhavam, deslumbrados e interrogavam-se: Quem serão? De onde virão? O que os traz até aqui?
Por entre a agitação e falatório, um irmão da Maria do Cimo da Eira olhou a estrangeira de frente e exclamou: Por onde tens andado, Maria?!... Afinal, és tu e estás viva!... Dá cá um abraço, mulher!...
Espalhou-se a notícia, juntou-se o povo e todos afirmavam ter já desconfiado que se tratava do Zé da Tojeira e da Maria do Cimo da Eira; os desaparecidos de há vinte e cinco anos.
Os forasteiros, entre beijos e abraços, explicaram que acabavam de chegar, da Argentina, onde estavam há mais de vinte e três anos. Lá, no outro lado do Mundo, Don Pepe & Doña Maria – como eram conhecidos –, tinham mais terra que toda a freguesia de Alcaravela, mais de três mil cabeças de gado e uma "finca" nos arredores de Córdoba, no centro do país.
Nunca tiveram filhos e resolveram vir agora a Portugal, agradecer a Santa Clara, de Alcaravela, e ao Senhor dos Aflitos, da Serra, que muito lhes valeram, nas horas mais difíceis.
Nos dois meses de férias, que repartiram entre as aldeias da sua naturalidade e diversos passeios pelo país, fizeram bem a muita gente.
Regressaram à Argentina sem falar no seu desaparecimento. Levaram dois sobrinhos que iriam preparar para lhes suceder na administração da firma de Import & Export, Pepe & Maria , S.A., nos arredores de Córdoba, na Argentina.
Antes de partir, deram meios e instruções ao irmão da Maria do Cimo da Eira para que mandasse construir uma imponente vivenda, na Serra, onde pensavam voltar para passar o resto dos seus dias.
Muitos anos mais tarde, foi encontrado, nas ruínas da casa, um caderno de duas linhas, com uma série impressionante de nomes de localidades, de diversos países, contas de transportes e até uma caixa, de lata, com um rolo de notas de dólares e pesos argentinos, que havia ali ficado por esquecimento.
Os apontamentos acabaram por desaparecer e as notas extraviaram-se, pois, um pedreiro, que trabalhava em Lisboa, levou-as para tentar cambiá-las no Banco de Portugal e não deu mais conta delas.
Exibiu um recibo, dizendo que se tratava de notas sem curso legal e já sem qualquer valor.
Ninguém mais se interessou pelo caso, não passando, hoje, de uma história que todos vão esquecendo.
terça-feira, 21 de julho de 2009
O mestre-escola
Nos meados do século passado, a figura de Professor Primário, como a de Padre e as autoridades da terra e do concelho, estavam acima dos outros mortais.
Havia respeito total, absoluto e incondicional e quando os pais iam levar os filhos, pela primeira vez, à escola, recomendavam e pediam: Senhor Professor ou, o mais vulgar, Senhora Professora, chegue-lhe, se precisar! Nunca lhe doam as mãos, pois só se perdem as que caem no chão! Faça dele um homem – ou uma mulher – que nós saberemos agradecer-lhe!
Em casa da Professora não faltava nada; era um corrupio a levar os mimos e as primícias das colheitas, passando pelos queijos, ovos e consumos do dia a dia, até ao pão, acabado de cozer.
Uma vez por mês, ia à vila, receber os seiscentos mil réis de ordenado de Regente do Posto Escolar, ou o conto e duzentos, de Professor e aproveitava para dar um jeito no cabelo, visitar uma ou outra loja de roupas e sapatos e nunca regressava à aldeia sem passar pela farmácia, onde deixava uma parte dos seus parcos proventos, em troca dos comprimidos para as dores de cabeça, flatulência, vesícula, dores reumáticas.
Para uso próprio e para dispensar aos aflitos, na aldeia.
Visitava, normalmente, o Senhor Delegado Escolar e o Senhor Vigário, com quem combinava a participação nas cerimónias religiosas e de quem recebia orientação e documentação para promover as vocações, organizar os peditórios para a Paróquia, os Seminários e as Missões. Organizava-se, também, a Cruzada e a Catequese.
Nas aldeias, a Professora passava o dia na escola; ia a casa, para tomar as refeições, ensinar a coser e bordar as raparigas casadoiras e ler uns livritos da Biblioteca.
As aulas, na Escola, ou Posto Escolar, com duas ou três dezenas de alunos, das quatro classes – iam das nove às dezoito horas – decorriam na mais rígida ordem e disciplina e, por vezes, os mais adiantados ensinavam os mais novos a fazer contas, estudar a tabuada, ou ler no livro de leituras.
No fim de cada ano, os alunos dos Postos Escolares, iam prestar provas de passagem de classe à escola mais próxima, ou fazer exame da quarta classe à sede do concelho, onde, não raras vezes, eram aprovados com distinção.
É da mais elementar justiça reconhecer o trabalho destas senhoras – havia muito poucos Regentes Escolares do sexo masculino – que ensinaram até onde tinham aprendido e desenvolveram em muitas crianças, por essas aldeias fora, hábitos de trabalho e estudo, a par de uma formação moral baseada em sólidos princípios de cidadania e amor pelo próximo, que serviram de orientação a muito boa gente.
É de lamentar que a reorganização social, que tantos benefícios trouxe, tenha enjeitado muitas dessas bases, sem acautelar o culto do civismo, do amor e respeito pelo semelhante, do valor da pessoa, no seu todo, e das instituições que a servem.
Por mim, não quero esquecer as primeiras Regentes Escolares, que tive por professoras; elas ensinaram-me muitas coisas que me tenho recusado a abandonar e continuo a seguir, como capítulos do mais belo tratado que um homem pode escrever – a vida –.
Foram elas, que me motivaram a ser Professor.
Embora tenha, mais tarde, abandonado a profissão, sempre me orgulhei de dar um carácter didáctico ao meu trabalho e nunca me esquivei a ensinar aos outros, até onde pude e soube!...
Tenho sempre presentes os meus alunos, os muitos amigos... e todos quantos se iniciaram comigo, nas artes das Vendas e das Técnicas de Marketing, em que tenho desenvolvido a minha actividade profissional.
Havia respeito total, absoluto e incondicional e quando os pais iam levar os filhos, pela primeira vez, à escola, recomendavam e pediam: Senhor Professor ou, o mais vulgar, Senhora Professora, chegue-lhe, se precisar! Nunca lhe doam as mãos, pois só se perdem as que caem no chão! Faça dele um homem – ou uma mulher – que nós saberemos agradecer-lhe!
Em casa da Professora não faltava nada; era um corrupio a levar os mimos e as primícias das colheitas, passando pelos queijos, ovos e consumos do dia a dia, até ao pão, acabado de cozer.
Uma vez por mês, ia à vila, receber os seiscentos mil réis de ordenado de Regente do Posto Escolar, ou o conto e duzentos, de Professor e aproveitava para dar um jeito no cabelo, visitar uma ou outra loja de roupas e sapatos e nunca regressava à aldeia sem passar pela farmácia, onde deixava uma parte dos seus parcos proventos, em troca dos comprimidos para as dores de cabeça, flatulência, vesícula, dores reumáticas.
Para uso próprio e para dispensar aos aflitos, na aldeia.
Visitava, normalmente, o Senhor Delegado Escolar e o Senhor Vigário, com quem combinava a participação nas cerimónias religiosas e de quem recebia orientação e documentação para promover as vocações, organizar os peditórios para a Paróquia, os Seminários e as Missões. Organizava-se, também, a Cruzada e a Catequese.
Nas aldeias, a Professora passava o dia na escola; ia a casa, para tomar as refeições, ensinar a coser e bordar as raparigas casadoiras e ler uns livritos da Biblioteca.
As aulas, na Escola, ou Posto Escolar, com duas ou três dezenas de alunos, das quatro classes – iam das nove às dezoito horas – decorriam na mais rígida ordem e disciplina e, por vezes, os mais adiantados ensinavam os mais novos a fazer contas, estudar a tabuada, ou ler no livro de leituras.
No fim de cada ano, os alunos dos Postos Escolares, iam prestar provas de passagem de classe à escola mais próxima, ou fazer exame da quarta classe à sede do concelho, onde, não raras vezes, eram aprovados com distinção.
É da mais elementar justiça reconhecer o trabalho destas senhoras – havia muito poucos Regentes Escolares do sexo masculino – que ensinaram até onde tinham aprendido e desenvolveram em muitas crianças, por essas aldeias fora, hábitos de trabalho e estudo, a par de uma formação moral baseada em sólidos princípios de cidadania e amor pelo próximo, que serviram de orientação a muito boa gente.
É de lamentar que a reorganização social, que tantos benefícios trouxe, tenha enjeitado muitas dessas bases, sem acautelar o culto do civismo, do amor e respeito pelo semelhante, do valor da pessoa, no seu todo, e das instituições que a servem.
Por mim, não quero esquecer as primeiras Regentes Escolares, que tive por professoras; elas ensinaram-me muitas coisas que me tenho recusado a abandonar e continuo a seguir, como capítulos do mais belo tratado que um homem pode escrever – a vida –.
Foram elas, que me motivaram a ser Professor.
Embora tenha, mais tarde, abandonado a profissão, sempre me orgulhei de dar um carácter didáctico ao meu trabalho e nunca me esquivei a ensinar aos outros, até onde pude e soube!...
Tenho sempre presentes os meus alunos, os muitos amigos... e todos quantos se iniciaram comigo, nas artes das Vendas e das Técnicas de Marketing, em que tenho desenvolvido a minha actividade profissional.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
A Senhora Professora
O “Manuel do Vale” tinha uma força de mãos verdadeiramente anormal; coisa a que lançasse a fateixa, não largava mais.
Era o único homem da aldeia com tez encarniçada, tipo “viking”, com olhos claros – muito claros mesmo – e mais sardas que o habitual nos sardentos.
Na escola nunca foi brilhante; era o bombo da festa, onde a Dª Benilde descarregava as iras – e tantas elas eram: por ser solteirona e sempre mal amada, por ser feia e juntar a isso alguma falta de cuidado na aparência e na própria higiene pessoal, por viver isolada do Mundo e da Sociedade e pelos achaques que a aproximação dos quarenta anos lhe causavam.
Depois do exame o Manel cresceu e fez-se homem, mas nunca esqueceu os puxões de orelhas, as varadas quando estava no quadro preto a fazer as contas, as reguadas com que era mimado quando não acertava os problemas, ou tinha mais de três erros no ditado e as orelhadas quando não sabia as capitais dos países, ou o cognome dos nossos reis.
Um parente do Manel, que embarcara para as Africas, havia mais de vinte anos, antes, portanto, de a Dª Benilde ir para a aldeia, viria de férias e, segundo fez constar, para procurar noiva e casar-se.
O cenário, de aparência muito simples, pôs em alvoroço a cabeça do Manel, que, de si para si, ia pensando: o meu primo quer casar-se e uma das primeiras hipóteses vai ser a Professora. Eu queria muito que ele me levasse com ele, no regresso ao Congo. Será que irei conseguir esquecer tudo o que aquela bruxa me fez passar durante os cinco anos em que foi minha professora? E como será ela como minha prima e mulher do meu futuro patrão? Que tipo de sentimentos terá ela, agora, por mim?
Nos últimos dez anos – o Manel estava então com vinte e quatro –, apenas uma, ou duas vezes, falara com a Dª Benilde e continuavam bem presentes as “simpatias” com que o “mimara”, em cinco anos de escola. Mas o que lá vai, lá vai, e se não fosse ela, se calhar, nunca teria sido o homem que era! Havia de ser o que Deus quisesse, pensava o Manel!...
A notícia sobre a vinda próxima do Artur foi-se espalhando na aldeia e havia muita gente interessada no bom partido que se aproximava.
A Professora não era excepção; embora se mostrasse alheia e desinteressada, foi-se inteirando de tudo: quem era o Artur? Que idade tinha? Que namoradas tinha tido na terra, ou nas redondezas? Que pessoas podiam ter mais influência sobre ele?
Ao chegar aqui, às influências, as informações iam todas para a mãe do Manel do Vale, que fora seu aluno e pouco lhe falava. Ouviu dizer que o rapaz, já homem, pensava ir com o primo, para as Africas.
A ti Maria Albertina não tinha a mesma impressão que o filho Manel, acerca da Professora; eras um grande calaceiro e foi ela que te obrigou a estudar e te deu as bases que fizeram de ti o homem que hoje és. Se não fossem os cuidados da Sra. Professora, nem o exame tinhas feito; se te deu, nesse corpo, fez o que eu lhe pedi, não te partiu nada e só se perderam as que caíram no chão. E repetia, vezes sem conta, esta ladainha, que o Manel já sabia de cor.
Quanto ao sobrinho Artur, a melhor solução seria mesmo a Professora, pensava, secretamente a tia Maria Albertina.
Começou por espalhar, devagarinho, a ideia de que o homem, na casa dos quarenta e cinco anos quererá uma senhora educada, sem namorados conhecidos e respeitadora. E, sempre que lhe parecia que a ideia poderia chegar até ao sobrinho, ia falando na Senhora Professora.
Uma senhora, perto dos cinquenta, talvez já não dê filhos. O Artur deverá ser levado a aceitar isso, como uma vantagem. Essa ideia batia forte na cabeça da tia Maria Albertina e tinha o seu fundamento: se o seu Manel fosse com o primo e a Professora e o casal já não tivesse filhos, podia ser que…, quem sabe se viria a herdar a fortuna do primo, ou a substituí-lo nos negócios, para que ele pudesse gozar melhor a vida.
A primeira coisa a fazer era aproximar o filho da Professora, para que pudesse facilitar a vida do primo, quando ele chegasse.
Mandou o filho falar, oficialmente, sobre a vinda do primo e matava, assim, dois coelhos com uma só cajadada: aproximava o filho de uma pessoa que poderia ser decisiva na escolha que o sobrinho Artur fizesse, quanto ao rapaz a levar com ele, para África, e dava a entender à Professora que contasse com ela para facilitar as coisas, quanto às tendências do sobrinho e à sua decisão, na escolha de noiva.
Foi, assim, que o Manel subiu um dia até ao cimo do casal, à casa das oliveiras da vinha, onde habitava a senhora Professora.
Era fim de tarde e a chegada dos dois, foi quase coincidente. A Senhora acabava de descer da escola, situada uns cinquenta metros acima.
Depois de um breve cumprimento, expresso num simples olá Manuel!... Então como estás e que fazes na vida, homem?!... Não há quem te veja?!... Mas, vamos entrando...; lá dentro estamos melhor e mais à vontade!...
Obrigado, senhora Professora; estou bem e faço pela vida, que graças ao que a senhora me ensinou e me fez aprender, me vai correndo menos-mal. E seguiu atrás da senhora, que via agora com olhos diferentes dos de há dez anos.
Reparou na figura da bela mulher, que certamente agradaria ao primo Artur.
Dirigiram-se à sala de costura, onde muitos fins de tarde o Manel tinha estado, de castigo, a recitar os rios e as cidades, a conjugar os verbos e a escrever as palavras que errara no ditado, cem vezes cada uma.
Mas, isso ia longe… e, ambos estavam agora absortos por outros pensamentos:
A Professora tinha diante de si o homem que imaginara, dez anos atrás – másculo, cerrado de barba, olho muito claro, avantajado de estatura e envergonhado, como noutros tempos. Mantinha o ar exótico, mais delicioso e misterioso que bonito, mas um homem … e que homem!...
O Manel olhava a mulher, madura, de formas perfeitas, cabelos apanhados, com uma saia um pouco acima do joelho… a Senhora que sempre vira como Professora, era agora olhada como mulher.
Foi o Manel que quebrou o silêncio, dizendo: Tenho um primo, chamado Artur, que foi para o Congo, há muitos anos. Mandou dizer que virá a Portugal, rever a família, procurar noiva, casar, e escolher um parente para levar, como ajudante, nos negócios.
Nos três ou quatro meses que estará, por cá, de férias, quer resolver tudo isso. Achámos, que a Senhora gostaria de saber, pois é alguém à altura de falar com o meu primo e que poderá ajudá-lo naquilo que ele necessitar; esperamos que ele fique hospedado em nossa casa.
Pois bem, Manel, agradece a tua mãe as atenções e cuidados e diz-lhe que podem contar comigo para tudo o que eu possa fazer, para ajudar a tornar o mais agradável possível a estadia do teu primo, cá na terra e na vossa casa, como é vosso desejo.
Quanto a ti, homem, gostei muito de te ver. Não quero que te vás embora sem me prometeres que me vais dando notícias e que me vens ver, mais vezes. Dá cumprimentos a tua mãe e agradece-lhe.
O Manel saiu e foi descendo, sem pressas, o caminho que bordejava as oliveiras. A Professora, espreitando por uma frincha da janela, despia, com os olhos, o homem que se afastava, enquanto, com a imaginação, se extasiava, vendo o homem másculo, de ombros largos, cabelos um tudo-nada ruivos, olhos muito claros, barba cerrada, boca sensual, mãos fortes, mas anormalmente delicadas, para uma pessoa do campo, e....
Sem dar pelo desaparecimento do Manel, na curva do caminho, ao pé da fonte, deixou-se cair no canapé, onde passava grande parte do seu tempo e até dormitava, por vezes, antes de ir para a cama.
Foi tacteando o seu próprio corpo que se sentiu ruborizada, quando uma onda de calor, avassaladora, vinda do mais íntimo de si e parecendo que o sangue lhe fervia nas veias, a invadiu, completamente.
Nunca sentira nada assim. Porém, num ápice, todo o corpo, do mais ínfimo e íntimo, ao mais volumoso e saliente, ficava duro, alvoroçava-se, contorcia-se e, como que vindo de um vulcão, cujo epicentro ela localizava, perfeitamente, sentiu um jorro de lava, incandescente, queimar-lhe as entranhas, para, logo em seguida, lhe provocar uma calma e serenidade, certamente raras, no comum dos mortais.
Inundada por uma maravilhosa paz interior, adormeceu, profundamente. Durante os sonhos, voltou a ser menina, viu-se a entrar na igreja e a realizar sonhos que andavam já arredados dos seus projectos mais vulgares.
Quatro meses depois, na altura das vindimas, a Senhora Professora, Dª Benilde, embarcava com o marido Artur Marques Lopes, “o Brasileiro”, com destino ao Congo Belga.
Levavam muita bagagem e acompanhava-os o primo Manuel Marques Mendes, o Manel do Vale.
Havemos de encontrá-los, uns anos mais tarde, no Congo... mas isso é outra história.
Era o único homem da aldeia com tez encarniçada, tipo “viking”, com olhos claros – muito claros mesmo – e mais sardas que o habitual nos sardentos.
Na escola nunca foi brilhante; era o bombo da festa, onde a Dª Benilde descarregava as iras – e tantas elas eram: por ser solteirona e sempre mal amada, por ser feia e juntar a isso alguma falta de cuidado na aparência e na própria higiene pessoal, por viver isolada do Mundo e da Sociedade e pelos achaques que a aproximação dos quarenta anos lhe causavam.
Depois do exame o Manel cresceu e fez-se homem, mas nunca esqueceu os puxões de orelhas, as varadas quando estava no quadro preto a fazer as contas, as reguadas com que era mimado quando não acertava os problemas, ou tinha mais de três erros no ditado e as orelhadas quando não sabia as capitais dos países, ou o cognome dos nossos reis.
Um parente do Manel, que embarcara para as Africas, havia mais de vinte anos, antes, portanto, de a Dª Benilde ir para a aldeia, viria de férias e, segundo fez constar, para procurar noiva e casar-se.
O cenário, de aparência muito simples, pôs em alvoroço a cabeça do Manel, que, de si para si, ia pensando: o meu primo quer casar-se e uma das primeiras hipóteses vai ser a Professora. Eu queria muito que ele me levasse com ele, no regresso ao Congo. Será que irei conseguir esquecer tudo o que aquela bruxa me fez passar durante os cinco anos em que foi minha professora? E como será ela como minha prima e mulher do meu futuro patrão? Que tipo de sentimentos terá ela, agora, por mim?
Nos últimos dez anos – o Manel estava então com vinte e quatro –, apenas uma, ou duas vezes, falara com a Dª Benilde e continuavam bem presentes as “simpatias” com que o “mimara”, em cinco anos de escola. Mas o que lá vai, lá vai, e se não fosse ela, se calhar, nunca teria sido o homem que era! Havia de ser o que Deus quisesse, pensava o Manel!...
A notícia sobre a vinda próxima do Artur foi-se espalhando na aldeia e havia muita gente interessada no bom partido que se aproximava.
A Professora não era excepção; embora se mostrasse alheia e desinteressada, foi-se inteirando de tudo: quem era o Artur? Que idade tinha? Que namoradas tinha tido na terra, ou nas redondezas? Que pessoas podiam ter mais influência sobre ele?
Ao chegar aqui, às influências, as informações iam todas para a mãe do Manel do Vale, que fora seu aluno e pouco lhe falava. Ouviu dizer que o rapaz, já homem, pensava ir com o primo, para as Africas.
A ti Maria Albertina não tinha a mesma impressão que o filho Manel, acerca da Professora; eras um grande calaceiro e foi ela que te obrigou a estudar e te deu as bases que fizeram de ti o homem que hoje és. Se não fossem os cuidados da Sra. Professora, nem o exame tinhas feito; se te deu, nesse corpo, fez o que eu lhe pedi, não te partiu nada e só se perderam as que caíram no chão. E repetia, vezes sem conta, esta ladainha, que o Manel já sabia de cor.
Quanto ao sobrinho Artur, a melhor solução seria mesmo a Professora, pensava, secretamente a tia Maria Albertina.
Começou por espalhar, devagarinho, a ideia de que o homem, na casa dos quarenta e cinco anos quererá uma senhora educada, sem namorados conhecidos e respeitadora. E, sempre que lhe parecia que a ideia poderia chegar até ao sobrinho, ia falando na Senhora Professora.
Uma senhora, perto dos cinquenta, talvez já não dê filhos. O Artur deverá ser levado a aceitar isso, como uma vantagem. Essa ideia batia forte na cabeça da tia Maria Albertina e tinha o seu fundamento: se o seu Manel fosse com o primo e a Professora e o casal já não tivesse filhos, podia ser que…, quem sabe se viria a herdar a fortuna do primo, ou a substituí-lo nos negócios, para que ele pudesse gozar melhor a vida.
A primeira coisa a fazer era aproximar o filho da Professora, para que pudesse facilitar a vida do primo, quando ele chegasse.
Mandou o filho falar, oficialmente, sobre a vinda do primo e matava, assim, dois coelhos com uma só cajadada: aproximava o filho de uma pessoa que poderia ser decisiva na escolha que o sobrinho Artur fizesse, quanto ao rapaz a levar com ele, para África, e dava a entender à Professora que contasse com ela para facilitar as coisas, quanto às tendências do sobrinho e à sua decisão, na escolha de noiva.
Foi, assim, que o Manel subiu um dia até ao cimo do casal, à casa das oliveiras da vinha, onde habitava a senhora Professora.
Era fim de tarde e a chegada dos dois, foi quase coincidente. A Senhora acabava de descer da escola, situada uns cinquenta metros acima.
Depois de um breve cumprimento, expresso num simples olá Manuel!... Então como estás e que fazes na vida, homem?!... Não há quem te veja?!... Mas, vamos entrando...; lá dentro estamos melhor e mais à vontade!...
Obrigado, senhora Professora; estou bem e faço pela vida, que graças ao que a senhora me ensinou e me fez aprender, me vai correndo menos-mal. E seguiu atrás da senhora, que via agora com olhos diferentes dos de há dez anos.
Reparou na figura da bela mulher, que certamente agradaria ao primo Artur.
Dirigiram-se à sala de costura, onde muitos fins de tarde o Manel tinha estado, de castigo, a recitar os rios e as cidades, a conjugar os verbos e a escrever as palavras que errara no ditado, cem vezes cada uma.
Mas, isso ia longe… e, ambos estavam agora absortos por outros pensamentos:
A Professora tinha diante de si o homem que imaginara, dez anos atrás – másculo, cerrado de barba, olho muito claro, avantajado de estatura e envergonhado, como noutros tempos. Mantinha o ar exótico, mais delicioso e misterioso que bonito, mas um homem … e que homem!...
O Manel olhava a mulher, madura, de formas perfeitas, cabelos apanhados, com uma saia um pouco acima do joelho… a Senhora que sempre vira como Professora, era agora olhada como mulher.
Foi o Manel que quebrou o silêncio, dizendo: Tenho um primo, chamado Artur, que foi para o Congo, há muitos anos. Mandou dizer que virá a Portugal, rever a família, procurar noiva, casar, e escolher um parente para levar, como ajudante, nos negócios.
Nos três ou quatro meses que estará, por cá, de férias, quer resolver tudo isso. Achámos, que a Senhora gostaria de saber, pois é alguém à altura de falar com o meu primo e que poderá ajudá-lo naquilo que ele necessitar; esperamos que ele fique hospedado em nossa casa.
Pois bem, Manel, agradece a tua mãe as atenções e cuidados e diz-lhe que podem contar comigo para tudo o que eu possa fazer, para ajudar a tornar o mais agradável possível a estadia do teu primo, cá na terra e na vossa casa, como é vosso desejo.
Quanto a ti, homem, gostei muito de te ver. Não quero que te vás embora sem me prometeres que me vais dando notícias e que me vens ver, mais vezes. Dá cumprimentos a tua mãe e agradece-lhe.
O Manel saiu e foi descendo, sem pressas, o caminho que bordejava as oliveiras. A Professora, espreitando por uma frincha da janela, despia, com os olhos, o homem que se afastava, enquanto, com a imaginação, se extasiava, vendo o homem másculo, de ombros largos, cabelos um tudo-nada ruivos, olhos muito claros, barba cerrada, boca sensual, mãos fortes, mas anormalmente delicadas, para uma pessoa do campo, e....
Sem dar pelo desaparecimento do Manel, na curva do caminho, ao pé da fonte, deixou-se cair no canapé, onde passava grande parte do seu tempo e até dormitava, por vezes, antes de ir para a cama.
Foi tacteando o seu próprio corpo que se sentiu ruborizada, quando uma onda de calor, avassaladora, vinda do mais íntimo de si e parecendo que o sangue lhe fervia nas veias, a invadiu, completamente.
Nunca sentira nada assim. Porém, num ápice, todo o corpo, do mais ínfimo e íntimo, ao mais volumoso e saliente, ficava duro, alvoroçava-se, contorcia-se e, como que vindo de um vulcão, cujo epicentro ela localizava, perfeitamente, sentiu um jorro de lava, incandescente, queimar-lhe as entranhas, para, logo em seguida, lhe provocar uma calma e serenidade, certamente raras, no comum dos mortais.
Inundada por uma maravilhosa paz interior, adormeceu, profundamente. Durante os sonhos, voltou a ser menina, viu-se a entrar na igreja e a realizar sonhos que andavam já arredados dos seus projectos mais vulgares.
Quatro meses depois, na altura das vindimas, a Senhora Professora, Dª Benilde, embarcava com o marido Artur Marques Lopes, “o Brasileiro”, com destino ao Congo Belga.
Levavam muita bagagem e acompanhava-os o primo Manuel Marques Mendes, o Manel do Vale.
Havemos de encontrá-los, uns anos mais tarde, no Congo... mas isso é outra história.
sábado, 27 de junho de 2009
O pobre da cabaça
Passava todos os meses, com o alforge ao ombro, um pau na mão direita e uma cabaça atada, com um nastro muito surrado, ao cordão que lhe servia de cinto e acertava as calças à cintura, muito subida.
Não me lembro de vê-lo calçado e as calças, curtas, deixavam os pés, tornozelos e parte das canelas a descoberto.
A jaqueta, desabotoada, destapava a camisa, bastante mais asseada que a da maioria dos pedintes que transitavam pela terra.
Juntando este asseio, acima da média dos mendigos, ao cabelo curto e lavado e à barba, semanalmente cortada, estávamos na presença de alguém que destoava no seu meio.
As aldeias mais a poente do concelho de Mação, todo o norte das terras de Alcaravela e o termo de Vila de Rei, até ao Codes, eram percorridos, regularmente, pelo Ti’ Tonho, vulgarmente chamado, nos locais em que esmolava, por pobre da cabaça.
Era estimado por uns e ignorado por outros; porém o seu modo de pedir esmola não deixava ninguém indiferente.
Falava mansamente e sabia pôr sentimento no que dizia: invocava, invariavelmente, “as alminhas de quem lá tem”, “para desconto dos seus e nossos pecados”, e, para terminar, um Pai Nosso…
Com estes processos, repetidos anos a fio, era, de certeza, quem arrecadava as melhores esmolas, não se ficando pelo naco de pão, mão cheia de batatas, bocadito de toucinho, ou peça de fruta e passas de figo; recebia alguns enchidos, umas pingas de azeite, para a cabaça, e alguns cobres – desde um a cinco tostões.
Comia, todos os dias, almoço, jantar e ceia, das panelas de determinadas casas, junto das malhadas onde pernoitava.
No alforge, estraçalhado sobre o ombro direito, guardava os víveres que ia recebendo.
Como não cozinhava, quase tudo o que ia recebendo era reduzido a dinheiro, nas tabernas das terras.
Ao lado do bornal, numa pequena carteira de pele preta, muito polida, guardava um ou dois livros e uns papéis, que relia regularmente e de cuja leitura nada referia, mau grado os sinais, evidentes, de satisfação.
Corriam histórias, ditas em surdina, de boca em boca, sobre o pobre da cabaça, a sua vida afectiva, suas origens, percurso social e tudo acabava no conteúdo, desconhecido, dos papéis que guardava no bornal.
Desde professor, caído em desgraça devido à paixão por uma aluna, a juiz expulso por erro grave num julgamento, passando por foragido e refractário ao serviço militar e ex-membro da legião estrangeira, nas guerras de Espanha, tudo era ligado à personagem.
Porém, uma coisa era certa: não havia quem lhe passasse o pé no jogo do pau. Todos os que se lhe tinham oposto acabaram cobertos de bordoadas e não voltaram a desafiá-lo.
Apareceu, um dia, outro pedinte, na taberna do Casal Velho, que, ao encarar o pobre da cabaça, ficou como que fulminado.
Olharam-se os dois e, contracenando com a calma e serenidade do Ti’ Tonho, o desconhecido entrou em transe e tremia, como varas verdes, segundo a expressão de quem assistiu.
Após alguns momentos em silêncio o pobre da cabaça continuou sereno, fitando o homem que tinha na frente; em contrapartida, o outro pedinte parecia querer dizer qualquer coisa sem poder, sucediam-se-lhe, cada vez com mais frequência, os nós na garganta e as convulsões sacudiam-lhe todo o corpo.
Pouco tempo depois, caiu de joelhos e ficou prostrado no sobrado da taberna; estava morto.
Disse ainda quem viu, que o pobre da cabaça, sereno, fleumático e calmo, ajoelhou junto do cadáver, fechou-lhe os olhos convulsionados e esbugalhados, levantou os olhos ao céu e, sem dizer palavra, pareceu fazer uma oração fúnebre, findo o que se retirou para a malhada, despedindo-se dos presentes, com as seguintes palavras: a justiça e misericórdia de Deus são implacáveis e insondáveis – grande Juiz que para castigar não precisa pau, nem pedra.
Questionado por populares, autoridades e outros pedintes, o pobre da cabaça não acrescentou nada. Apenas se remeteu ao silêncio sobre aquele estranho caso.
Todas as testemunhas afirmaram que ninguém tocou no homem, ou lhe disse qualquer coisa.
O cadáver, considerado desconhecido, foi mandado enterrar pela Junta de Freguesia, no cemitério de Alcaravela.
E o mistério… virou lenda.
Não me lembro de vê-lo calçado e as calças, curtas, deixavam os pés, tornozelos e parte das canelas a descoberto.
A jaqueta, desabotoada, destapava a camisa, bastante mais asseada que a da maioria dos pedintes que transitavam pela terra.
Juntando este asseio, acima da média dos mendigos, ao cabelo curto e lavado e à barba, semanalmente cortada, estávamos na presença de alguém que destoava no seu meio.
As aldeias mais a poente do concelho de Mação, todo o norte das terras de Alcaravela e o termo de Vila de Rei, até ao Codes, eram percorridos, regularmente, pelo Ti’ Tonho, vulgarmente chamado, nos locais em que esmolava, por pobre da cabaça.
Era estimado por uns e ignorado por outros; porém o seu modo de pedir esmola não deixava ninguém indiferente.
Falava mansamente e sabia pôr sentimento no que dizia: invocava, invariavelmente, “as alminhas de quem lá tem”, “para desconto dos seus e nossos pecados”, e, para terminar, um Pai Nosso…
Com estes processos, repetidos anos a fio, era, de certeza, quem arrecadava as melhores esmolas, não se ficando pelo naco de pão, mão cheia de batatas, bocadito de toucinho, ou peça de fruta e passas de figo; recebia alguns enchidos, umas pingas de azeite, para a cabaça, e alguns cobres – desde um a cinco tostões.
Comia, todos os dias, almoço, jantar e ceia, das panelas de determinadas casas, junto das malhadas onde pernoitava.
No alforge, estraçalhado sobre o ombro direito, guardava os víveres que ia recebendo.
Como não cozinhava, quase tudo o que ia recebendo era reduzido a dinheiro, nas tabernas das terras.
Ao lado do bornal, numa pequena carteira de pele preta, muito polida, guardava um ou dois livros e uns papéis, que relia regularmente e de cuja leitura nada referia, mau grado os sinais, evidentes, de satisfação.
Corriam histórias, ditas em surdina, de boca em boca, sobre o pobre da cabaça, a sua vida afectiva, suas origens, percurso social e tudo acabava no conteúdo, desconhecido, dos papéis que guardava no bornal.
Desde professor, caído em desgraça devido à paixão por uma aluna, a juiz expulso por erro grave num julgamento, passando por foragido e refractário ao serviço militar e ex-membro da legião estrangeira, nas guerras de Espanha, tudo era ligado à personagem.
Porém, uma coisa era certa: não havia quem lhe passasse o pé no jogo do pau. Todos os que se lhe tinham oposto acabaram cobertos de bordoadas e não voltaram a desafiá-lo.
Apareceu, um dia, outro pedinte, na taberna do Casal Velho, que, ao encarar o pobre da cabaça, ficou como que fulminado.
Olharam-se os dois e, contracenando com a calma e serenidade do Ti’ Tonho, o desconhecido entrou em transe e tremia, como varas verdes, segundo a expressão de quem assistiu.
Após alguns momentos em silêncio o pobre da cabaça continuou sereno, fitando o homem que tinha na frente; em contrapartida, o outro pedinte parecia querer dizer qualquer coisa sem poder, sucediam-se-lhe, cada vez com mais frequência, os nós na garganta e as convulsões sacudiam-lhe todo o corpo.
Pouco tempo depois, caiu de joelhos e ficou prostrado no sobrado da taberna; estava morto.
Disse ainda quem viu, que o pobre da cabaça, sereno, fleumático e calmo, ajoelhou junto do cadáver, fechou-lhe os olhos convulsionados e esbugalhados, levantou os olhos ao céu e, sem dizer palavra, pareceu fazer uma oração fúnebre, findo o que se retirou para a malhada, despedindo-se dos presentes, com as seguintes palavras: a justiça e misericórdia de Deus são implacáveis e insondáveis – grande Juiz que para castigar não precisa pau, nem pedra.
Questionado por populares, autoridades e outros pedintes, o pobre da cabaça não acrescentou nada. Apenas se remeteu ao silêncio sobre aquele estranho caso.
Todas as testemunhas afirmaram que ninguém tocou no homem, ou lhe disse qualquer coisa.
O cadáver, considerado desconhecido, foi mandado enterrar pela Junta de Freguesia, no cemitério de Alcaravela.
E o mistério… virou lenda.
terça-feira, 16 de junho de 2009
O penedo das Taliscas
O penedo das Taliscas, ou penedo rachado, tinha fama de tudo e proveito de nada.
Dominava o alto da Ladeira do Brejo e era formado por um aglomerado de grandes pedras que, se um dia tivessem sido objecto de estudo aprofundado, teriam, pela certa, sido sepultura de remotos antepassados.
E, com um pouco mais de boa vontade, ter-se-iam feito escavações para descobrir os fundamentos de um castro, encimando o vale exuberante e pródigo de verduras e águas potáveis…
Mas o que era, de facto, era um covil de lobos e raposas, no tempo em que uns e outras habitaram a região. Depois, com as desarborizações, as queimas e o retirar de pedras, nem coelhos, ou lebres, por lá andariam. Coisas dos tempos!...
Uns cem metros abaixo do penedo, já perto da ribeira, passava a rodeira, diariamente seguida pelo moleiro, quando se dirigia para a azenha do Vale do Corisco e, em sentido oposto, quando, já sobre a manhã, com os taleigos cheios de farinha, em vez de grão, subia, de regresso ao povoado, até às casas dos fregueses.
Na azenha não se acabava a aguardente, na cabaça, que levava um pouco mais de litro e meio e era comprada como tal, na voz do taberneiro que deixava sempre uma boca, cada vez maior, segunda queixa do moleiro.
Depois, de golo em golo, em menos de uma semana, ia-se a aguardente da cabaça e lá voltava o Ti’Manel a trazê-la, para fazer a recarga e voltar com ela para a azenha.
Não raras vezes, o excesso de pinga, trazia ideias brilhantes ao cérebro do Ti’Manel.
Iluminações essas que depois divulgava, na taberna, quando outras fontes, à base de vinho, espevitavam a criatividade e soltavam a língua do moleiro.
A maior parte já nem ligava ao que o moleiro ia contando.
Então, contava ele, que ainda há uns dias, aquilo, lá em riba, no penedo das Taliscas, foi o diabo: havia lume por todo o lado, berros e gritarias, pedras a rolar umas sobre as outras e, certamente, o Demónio que comandava toda aquela algazarra, largava pachouvadas pela boca fora, de fazer corar o menos santo dos ouvintes.
Até o macho, ajoujado sob a carga, parou, para presenciar aquelas cenas, enquanto o dono aproveitava uma barreirita do caminho, para se aliviar, lançando fora, uma espécie de revolta que lhe ia no estômago.
De repente acalmou-se tudo e só já deu pelo carriço a comer qualquer coisa aos seus pés.
Olhem, foi encolher os ombros, dar uma cacheirada no macho e arrancar ladeira a cima.
Aí, entrou o Ti’Diogo, que havia muitos anos, passava com regularidade na Terra, esmolando e chegando mesmo a dar umas jornas a quem lhe pedisse, antes de seguir o seu caminho para a aldeia seguinte.
Atrás dum copo, atirou ao moleiro:
Mas olhe cá, oh! Ti’Manel, não teria bebido umas goladas a mais, para esvaziar a cabacita e trazê-la para encher?
Não terá sido no dia da trovoada que esteve brava ali para os lados de Alcaravela e os relâmpagos, por trás do penedo, pareciam incendiar tudo?
Não terá mandado parar o macho, para se aliviar e lançar fora?
E o carriço, com a barriga a dar horas, não terá aproveitado o que o dono deitou fora, para comer qualquer coisa?
E, até podia esconder-se, lá no penedo alguma raposa, ou gato bravo que, no contra luar lançassem brilho dos olhos e lhe dessem, a vomeçê, visões?
Eh! Diabos!... O Ti’Diogo é capaz de ter toda a razão, disse o moleiro.
Pensando bem, só vejo essas coisas nos dias em que me distraio e abuso da cabacita.
É capaz de estar certo, homem de Deus, mas olhe que nunca ninguém me tinha explicado essas coisas, com tanta clareza.
E, fazia-me espécie por que raio o macho e o cão paravam sempre ali naquele sítio. Era afinal onde eu mandava, para fazermos um pequeno descanso e retomar forças para o resto do caminho.
Oh! Manel, deita lá mais uns copos, que o raio do homem bem os merece. Foi até hoje a única pessoa capaz de me abrir os olhos e explicar-me tudo.
E, não se esqueça, Ti’Diogo, de passar lá pela azenha, quando andar por aquelas bandas.
Poderemos subir lá a riba, ao penedo e, pela certa, junto a algum covil de coelhos, encontraremos as caganitas e pouco mais.
Apareça, homem!... Lá o espero!.....
Dominava o alto da Ladeira do Brejo e era formado por um aglomerado de grandes pedras que, se um dia tivessem sido objecto de estudo aprofundado, teriam, pela certa, sido sepultura de remotos antepassados.
E, com um pouco mais de boa vontade, ter-se-iam feito escavações para descobrir os fundamentos de um castro, encimando o vale exuberante e pródigo de verduras e águas potáveis…
Mas o que era, de facto, era um covil de lobos e raposas, no tempo em que uns e outras habitaram a região. Depois, com as desarborizações, as queimas e o retirar de pedras, nem coelhos, ou lebres, por lá andariam. Coisas dos tempos!...
Uns cem metros abaixo do penedo, já perto da ribeira, passava a rodeira, diariamente seguida pelo moleiro, quando se dirigia para a azenha do Vale do Corisco e, em sentido oposto, quando, já sobre a manhã, com os taleigos cheios de farinha, em vez de grão, subia, de regresso ao povoado, até às casas dos fregueses.
Na azenha não se acabava a aguardente, na cabaça, que levava um pouco mais de litro e meio e era comprada como tal, na voz do taberneiro que deixava sempre uma boca, cada vez maior, segunda queixa do moleiro.
Depois, de golo em golo, em menos de uma semana, ia-se a aguardente da cabaça e lá voltava o Ti’Manel a trazê-la, para fazer a recarga e voltar com ela para a azenha.
Não raras vezes, o excesso de pinga, trazia ideias brilhantes ao cérebro do Ti’Manel.
Iluminações essas que depois divulgava, na taberna, quando outras fontes, à base de vinho, espevitavam a criatividade e soltavam a língua do moleiro.
A maior parte já nem ligava ao que o moleiro ia contando.
Então, contava ele, que ainda há uns dias, aquilo, lá em riba, no penedo das Taliscas, foi o diabo: havia lume por todo o lado, berros e gritarias, pedras a rolar umas sobre as outras e, certamente, o Demónio que comandava toda aquela algazarra, largava pachouvadas pela boca fora, de fazer corar o menos santo dos ouvintes.
Até o macho, ajoujado sob a carga, parou, para presenciar aquelas cenas, enquanto o dono aproveitava uma barreirita do caminho, para se aliviar, lançando fora, uma espécie de revolta que lhe ia no estômago.
De repente acalmou-se tudo e só já deu pelo carriço a comer qualquer coisa aos seus pés.
Olhem, foi encolher os ombros, dar uma cacheirada no macho e arrancar ladeira a cima.
Aí, entrou o Ti’Diogo, que havia muitos anos, passava com regularidade na Terra, esmolando e chegando mesmo a dar umas jornas a quem lhe pedisse, antes de seguir o seu caminho para a aldeia seguinte.
Atrás dum copo, atirou ao moleiro:
Mas olhe cá, oh! Ti’Manel, não teria bebido umas goladas a mais, para esvaziar a cabacita e trazê-la para encher?
Não terá sido no dia da trovoada que esteve brava ali para os lados de Alcaravela e os relâmpagos, por trás do penedo, pareciam incendiar tudo?
Não terá mandado parar o macho, para se aliviar e lançar fora?
E o carriço, com a barriga a dar horas, não terá aproveitado o que o dono deitou fora, para comer qualquer coisa?
E, até podia esconder-se, lá no penedo alguma raposa, ou gato bravo que, no contra luar lançassem brilho dos olhos e lhe dessem, a vomeçê, visões?
Eh! Diabos!... O Ti’Diogo é capaz de ter toda a razão, disse o moleiro.
Pensando bem, só vejo essas coisas nos dias em que me distraio e abuso da cabacita.
É capaz de estar certo, homem de Deus, mas olhe que nunca ninguém me tinha explicado essas coisas, com tanta clareza.
E, fazia-me espécie por que raio o macho e o cão paravam sempre ali naquele sítio. Era afinal onde eu mandava, para fazermos um pequeno descanso e retomar forças para o resto do caminho.
Oh! Manel, deita lá mais uns copos, que o raio do homem bem os merece. Foi até hoje a única pessoa capaz de me abrir os olhos e explicar-me tudo.
E, não se esqueça, Ti’Diogo, de passar lá pela azenha, quando andar por aquelas bandas.
Poderemos subir lá a riba, ao penedo e, pela certa, junto a algum covil de coelhos, encontraremos as caganitas e pouco mais.
Apareça, homem!... Lá o espero!.....
quinta-feira, 4 de junho de 2009
O Ti’Artur
Ao tempo, o ti’Artur era homem de trinta e poucos anos e vivia no Carvoeiro, onde sempre viveu, até que, prematuramente, traído pelo fígado, se foi embora.
Casou com a ti'Conceição, que namorou e conseguiu trazer dos lados de Proença, duma aldeia chamada Galisteu.
A regente escolar, deixou tudo para se dedicar ao marido e filhos, que começaram a surgir logo após o casamento.
Primeiro uma menina, a seguir o Manelito, que ainda estou a ver, muito ranhoso e choroso, atrás da mãe, que se desdobrava a tratar dele e a aviar os fregueses da loja, nos baixos da casa.
Homem de sete ofícios e amigo de toda a gente, podia amedrontar quem o não conhecesse.
Estava farto de perseguições de polícias e fiscais, que seguiam de perto o contrabando, em que se ocupava o ti’Artur.
Por trás de um imponente bigode, escondia-se um coração de enorme grandeza. No primeiro o ti’Artur tinha muito orgulho, no segundo, como aliás no resto do corpo, nem pensava.
Com o seu ar de “ciganão”, negociava em tudo. Não escondia de ninguém a sua atracção por tudo que cheirasse a risco e a aventura. Tinha enorme prazer em vender “à socapa” cortes de bombazina, garrafas de Domecq, perfumes Tabu e cartas espanholas. Também nunca faltavam caramelos de “nuestros hermanos”.
Era o taxista da terra e nunca recusava um serviço, salvo se estivesse ausente, ou tivesse abusado da bebida e já se encontrasse no seu “estado normal”. Tinha respeito pelos clientes – bêbedo, não conduzia o táxi -, mas nunca se coibia de andar de mota.
A “Triumph” era um dos seus encantos. Era uma das coisas que mais estimava. Fazia gala de percorrer a estrada, desde o Vale de Santiago até à Sanguinheira, quase todos os fins de tarde, com escape quase livre, camisa aberta e satisfação estampada no rosto.
Toda a gente abria caminho, à mota do Artur.
Nas várias férias que passei no Carvoeiro, tive o privilégio de ser mais um dos amigos do ti’Artur, como eu carinhosamente lhe chamava; ao que ele retribuía, apresentando-me como o “sobrinho Zeca”.
Demos muitos passeios, na mota, e nunca tivemos percalços, de maior. Com companhia, era cauteloso; para além de ser um excelente condutor.
A casa do velho Cavaco, onde eu ficava aboletado, era próxima da loja e um pouco ao lado da estação dos correios, onde a Zita – hóspede da casa do ti’Artur - era encarregada. O meu tempo dividia-se, entre a loja e os correios.
A respeito dos dois pólos de atracção dos meus dias, o velho Cavaco, que ganhara a vida de terra em terra, como capador, tinha as suas prosas e dava as suas recomendações:
Vais para casa do Artur namorar a filha do “Zaranza da Feteira”; é das coisas mais bonitas que por aí se encontram, mas tanto quanto sei, é dois ou três anos mais velha e sabe muito mais que tu - todo o cuidado é pouco!...
O Artur é um homem bom, muito habilidoso nos negócios, mas com a pinga, perde-se!...Isso é mau, além de que perde o respeito por si próprio e até pelos que lhe são mais chegados: mulher e filhos.
Vai com ele para onde quiseres; és bem formado e estou seguro que nada de mal te poderá acontecer. Porém, não andes com ele bêbedo em cima daquela mota e evita pegar em qualquer coisa de menos legal, que tenha em casa.
Sempre fez gala de brincar com os guardas e os fiscais, mas há-de queimar-se um dia – e nessa altura arrastará alguém -.
Na altura pareceram-me duros e até injustos, os conselhos do Ti’Cavaco; todavia, à distância dos anos e dos factos, é com o maior carinho e gratidão que relembro cada palavra, de sabedoria, dum velho amigo.
Nunca me arrependi de ser amigo do Ti’Artur e das muitas horas de prosa que tive com a Maria Luísa, dos correios – a Zita -, mas nada posso criticar nas recomendações do meu velho hospedeiro.
Nos meses de Agosto, o Carvoeiro era um autêntico entreposto das mais variadas gentes, vindas de todos os pontos do mundo: do Brasil, Venezuela, América, África do Sul, Congo Belga, colónias e países da Europa.
Com enorme gosto e imensa curiosidade, escutava as histórias de cada um – aventuras e desventuras, sucessos e azares, verdades e mentiras-.
O ti’Artur reparou no interesse e sofreguidão com que eu escutava e perguntava tudo o que dissesse respeito ao longínquo, as considerações que fazia, baseado nos estudos da Geografia e a maneira como aguentava conversas com quem eu nunca vira, sobre ambientes onde nunca estivera.
Um dia convidou-me para uma pescaria, nuns pegos da ribeira do Aziral, no termo de Envendos, no limite do concelho de Proença.
Iríamos de mota até à Venda Nova e dali em diante, seguiríamos, a corta mato, até à ribeira. Saíamos ao romper da manhã e íamos encontrar o resto do grupo, ao nascer do sol.
Conhecia apenas o ti’Artur; fiquei a conhecer umas trinta e tantas pessoas, que faziam a sua vida em doze países diferentes.
Devo ter feito milhares de perguntas, posso ter sido muito maçador, não cheguei a lançar o anzol à água, mas comi muito peixe frito, grelhado e em caldeirada.
Ao anoitecer, voltámos até junto da mota e, quando chegámos ao Carvoeiro, o ti’Artur pôs-se na minha frente, e disse-me: Zeca, vê que hoje, ao contrário do habitual, não estou bêbedo.
Queria, melhor, fazia todo o empenho em arranjar uma coisa que lhe causasse o maior prazer. Sei que gosta de convívios, como o de hoje, e fiquei encantado com a maneira como se comportou no meio de tanta gente, de tão diferentes meios e com tantas coisas difíceis de aturar.
Agora quero ir consigo, junto do velho Cavaco, dar-lhe nota da maneira como o Zeca se tornou na atracção do convívio, o que muito me honrou; para além de poder mostrar-lhe que não estou sempre bêbedo.
Depois dessas férias, abracei o ti’Artur três ou quatro vezes; normalmente fazíamo-lo em silêncio e com grande cumplicidade.
Tive um choque enorme, quando soube que foi traído pelo fígado, embora não fosse, para mim, grande surpresa.
Depois da morte do ti’Artur, nunca mais senti interesse em voltar ao Carvoeiro.
Até sempre, velho amigo.
Casou com a ti'Conceição, que namorou e conseguiu trazer dos lados de Proença, duma aldeia chamada Galisteu.
A regente escolar, deixou tudo para se dedicar ao marido e filhos, que começaram a surgir logo após o casamento.
Primeiro uma menina, a seguir o Manelito, que ainda estou a ver, muito ranhoso e choroso, atrás da mãe, que se desdobrava a tratar dele e a aviar os fregueses da loja, nos baixos da casa.
Homem de sete ofícios e amigo de toda a gente, podia amedrontar quem o não conhecesse.
Estava farto de perseguições de polícias e fiscais, que seguiam de perto o contrabando, em que se ocupava o ti’Artur.
Por trás de um imponente bigode, escondia-se um coração de enorme grandeza. No primeiro o ti’Artur tinha muito orgulho, no segundo, como aliás no resto do corpo, nem pensava.
Com o seu ar de “ciganão”, negociava em tudo. Não escondia de ninguém a sua atracção por tudo que cheirasse a risco e a aventura. Tinha enorme prazer em vender “à socapa” cortes de bombazina, garrafas de Domecq, perfumes Tabu e cartas espanholas. Também nunca faltavam caramelos de “nuestros hermanos”.
Era o taxista da terra e nunca recusava um serviço, salvo se estivesse ausente, ou tivesse abusado da bebida e já se encontrasse no seu “estado normal”. Tinha respeito pelos clientes – bêbedo, não conduzia o táxi -, mas nunca se coibia de andar de mota.
A “Triumph” era um dos seus encantos. Era uma das coisas que mais estimava. Fazia gala de percorrer a estrada, desde o Vale de Santiago até à Sanguinheira, quase todos os fins de tarde, com escape quase livre, camisa aberta e satisfação estampada no rosto.
Toda a gente abria caminho, à mota do Artur.
Nas várias férias que passei no Carvoeiro, tive o privilégio de ser mais um dos amigos do ti’Artur, como eu carinhosamente lhe chamava; ao que ele retribuía, apresentando-me como o “sobrinho Zeca”.
Demos muitos passeios, na mota, e nunca tivemos percalços, de maior. Com companhia, era cauteloso; para além de ser um excelente condutor.
A casa do velho Cavaco, onde eu ficava aboletado, era próxima da loja e um pouco ao lado da estação dos correios, onde a Zita – hóspede da casa do ti’Artur - era encarregada. O meu tempo dividia-se, entre a loja e os correios.
A respeito dos dois pólos de atracção dos meus dias, o velho Cavaco, que ganhara a vida de terra em terra, como capador, tinha as suas prosas e dava as suas recomendações:
Vais para casa do Artur namorar a filha do “Zaranza da Feteira”; é das coisas mais bonitas que por aí se encontram, mas tanto quanto sei, é dois ou três anos mais velha e sabe muito mais que tu - todo o cuidado é pouco!...
O Artur é um homem bom, muito habilidoso nos negócios, mas com a pinga, perde-se!...Isso é mau, além de que perde o respeito por si próprio e até pelos que lhe são mais chegados: mulher e filhos.
Vai com ele para onde quiseres; és bem formado e estou seguro que nada de mal te poderá acontecer. Porém, não andes com ele bêbedo em cima daquela mota e evita pegar em qualquer coisa de menos legal, que tenha em casa.
Sempre fez gala de brincar com os guardas e os fiscais, mas há-de queimar-se um dia – e nessa altura arrastará alguém -.
Na altura pareceram-me duros e até injustos, os conselhos do Ti’Cavaco; todavia, à distância dos anos e dos factos, é com o maior carinho e gratidão que relembro cada palavra, de sabedoria, dum velho amigo.
Nunca me arrependi de ser amigo do Ti’Artur e das muitas horas de prosa que tive com a Maria Luísa, dos correios – a Zita -, mas nada posso criticar nas recomendações do meu velho hospedeiro.
Nos meses de Agosto, o Carvoeiro era um autêntico entreposto das mais variadas gentes, vindas de todos os pontos do mundo: do Brasil, Venezuela, América, África do Sul, Congo Belga, colónias e países da Europa.
Com enorme gosto e imensa curiosidade, escutava as histórias de cada um – aventuras e desventuras, sucessos e azares, verdades e mentiras-.
O ti’Artur reparou no interesse e sofreguidão com que eu escutava e perguntava tudo o que dissesse respeito ao longínquo, as considerações que fazia, baseado nos estudos da Geografia e a maneira como aguentava conversas com quem eu nunca vira, sobre ambientes onde nunca estivera.
Um dia convidou-me para uma pescaria, nuns pegos da ribeira do Aziral, no termo de Envendos, no limite do concelho de Proença.
Iríamos de mota até à Venda Nova e dali em diante, seguiríamos, a corta mato, até à ribeira. Saíamos ao romper da manhã e íamos encontrar o resto do grupo, ao nascer do sol.
Conhecia apenas o ti’Artur; fiquei a conhecer umas trinta e tantas pessoas, que faziam a sua vida em doze países diferentes.
Devo ter feito milhares de perguntas, posso ter sido muito maçador, não cheguei a lançar o anzol à água, mas comi muito peixe frito, grelhado e em caldeirada.
Ao anoitecer, voltámos até junto da mota e, quando chegámos ao Carvoeiro, o ti’Artur pôs-se na minha frente, e disse-me: Zeca, vê que hoje, ao contrário do habitual, não estou bêbedo.
Queria, melhor, fazia todo o empenho em arranjar uma coisa que lhe causasse o maior prazer. Sei que gosta de convívios, como o de hoje, e fiquei encantado com a maneira como se comportou no meio de tanta gente, de tão diferentes meios e com tantas coisas difíceis de aturar.
Agora quero ir consigo, junto do velho Cavaco, dar-lhe nota da maneira como o Zeca se tornou na atracção do convívio, o que muito me honrou; para além de poder mostrar-lhe que não estou sempre bêbedo.
Depois dessas férias, abracei o ti’Artur três ou quatro vezes; normalmente fazíamo-lo em silêncio e com grande cumplicidade.
Tive um choque enorme, quando soube que foi traído pelo fígado, embora não fosse, para mim, grande surpresa.
Depois da morte do ti’Artur, nunca mais senti interesse em voltar ao Carvoeiro.
Até sempre, velho amigo.
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