quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Galamas

Num beco dum recanto da Praça do Quevedo, quase paredes-meias com a passagem de nível, do centro da cidade de Setúbal, viveu toda a vida a Ti’Guilhermina, levantando e baixando bandeiras, à passagem dos comboios.

Por companhia certa tinha o filho; acidentalmente o Galamas pernoitava também nas modestas instalações da guarda da CP. Nunca se casaram mas eram, de facto, como agora se diz, um casal. Tinham um moço – o Carlos –.

O Galamas vivia de expedientes: ia ao mar quando o chamavam, embarcava na campanha do bacalhau, fazia estiva no porto e, sem que ninguém soubesse dele, ausentava-se meses a fio, acabando por voltar, roto, faminto e bêbedo.

O moço, finório, aprendeu tudo o que as docas ensinam.

Empurrado pela mãe, seguia os pescadores que transportavam as canastras do peixe para a lota e, com outros ganapos, disputava as sardinhas e carapaus que iam caiando ao chão.

Do que conseguia apanhar dependia a fartura ou míngua que tinha em casa para ir comendo.

O garoto foi crescendo ao Deus dará: criado sem pai e a mãe sempre dependente da passagem dos comboios.

Vivia-se, por ali, em total desgoverno.

A escola foi coisa que nunca o cativou, com bastante pena da professora: à parte uma voz fanhosa, tinha uma boa memória, escrevia com facilidade e na matemática era mesmo bom.

Ainda menino começou a fumar as beatas e a escorropichar os restos dos copos de vinho, na taberna do Ti’Ambrósio, duas ruas atrás da sua casa.

O velho dava-lhe umas côdeas de pão, sopas de vinho, sardinhas assadas e, todos os dias, sopa fresca.

Em troca o moço fazia os recados e, sempre que podia, pedia à porta da igreja.

Acabava por passar dias seguidos sem aparecer à mãe que já nem o procurava.

Depois de uns anos desaparecido da cidade, em que entretanto morreu a Ti’Guilhermina, o Galamas apareceu, um dia, lá pelos casebres do Quevedo e por ali se foi demorando.

Tábua aqui e acolá; mais chapa e porta remendada e, pelo menos, deixou de chover lá dentro.

Embebedava-se todos os dias na tasca do Ti’Ambrósio e ouvia, os ralhetes do velhote com a maior das paciências deste mundo, como dizia.

Um dia, o Ti’Ambrósio, chamou o Galamas e disse-lhe, com ar solene e como que fazendo-lhe o seu testamento:

Olha homem, nem para ti és bom; podias hoje ser dono desta casa, mas nunca tiveste cabeça.

Embebedas-te todos os dias e já nem te lembras que ainda tens aqui vinte paus no livro dos calotes.

Bem Ti’Ambrósio, vamos lá a pôr os pontos nos is:

O senhor tem sido, para mim, aquilo que realmente me parece que é, mas vamos esquecer isso.

Não é verdade que me embebedo todos os dias; como podia isso ser se nem tenho tempo de curtir a que apanhei já nem me lembro quando.

Quanto aos vinte paus que o senhor diz que tenho aí, esteja descansado, quando precisar deles venho cá buscá-los.

E, voltando costas, seguiu, rua abaixo, em direcção ao porto, para não mais ser visto em Setúbal.

Até que uns dez anos depois, morreu o velho taberneiro e corridos os trâmites legais, foi considerado herdeiro do negócio, da casa e de outros bens móveis e imóveis do velho Ambrósio.

Rezava o edital, afixado, em Setúbal:

Procura-se e convoca-se Carlos António Galamas, residente em parte incerta, perfilhado por Ambrósio de Matos Marcelino e considerado seu herdeiro universal.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O moinho da Maxieira

No alto da Horta Velha, encimando o Vale de Incenso e coroando a chapada do Pardieiro, emerge, de um pequeno planalto, um maciço rochoso que serviu de base a um moinho de vento, há muitos anos desaparecido, sem deixar rasto ou vestígios.

Esse local, ainda hoje se chama moinho da Maxieira.

Do alto do moinho, que servia também de habitação ao moleiro Ricardo, desfrutava-se um panorama imponente: na linha do horizonte, os cumes da serra dos Bandos a nascente, as terras de Vila de Rei a norte e poente e o vale do Tejo a sul, com o morro e a cidade de Abrantes a sobressair dos nateiros ribeirinhos e a marcar o início das planuras do Alto Alentejo.

O morro, demarcando a linha de águas entre a Serra e a Aboboreira, terá servido de atalaia e posto de vigia, recebendo e transmitindo, para Abrantes, os sinais luminosos, indicativos da aproximação de tropas hostis, em marcha sobre o vale do Tejo, a caminho de Lisboa.

Também os Templários terão usado o local para ligações, à vista, entre o Alentejo e Tomar, através da ligação com a serra da Melriça, centro geodésico de Portugal.

No sopé, a sul e oeste do pequeno maciço, havia um souto que dava as melhores castanhas da região.

Entre os castanheiros florescia uma pequena horta, regada por uma represa que recolhia as águas de uma nascente que aflorava poucos metros abaixo da porta do moinho.

Entre a horta e o moinho, havia um palheiro, residência do velho burrito, e uns cortelhos, para a cabrita e o porco.

Completava o cenário o velho moleiro, de nome Ricardo, como o pai e avô, e de que mais nada se conhece.

As pedras do moinho da Maxieira, onde hoje está um talefe dos serviços de cadastro geodésico, desapareceram; toda a gente se empenhou em recolher e guardar algumas relíquias do local.

Diz a lenda que casa onde fosse colocada uma simples pedra do velho moinho não ardia, não seria assaltada, nem nela entraria mau-olhado ou quebranto. Também os animais da família seriam protegidos de maleitas e doenças.

Ao tio Ricardo, que não se sabe ao certo quem foi, nem de onde era filhote – todas as aldeias, em redor, reclamam a sua naturalidade -, são atribuídos dotes de santidade e a sua memória foi, muitas vezes, invocada como milagrosa, segundo referência dos mais velhos, quando relembram as palavras de outros mais velhos.

A fama dos poderes do velho moleiro Ricardo, da farinha moída no seu moinho, das águas da sua represa e das castanhas do castanheiro em cuja sombra o moleiro dormia a sesta e o sono de muitas noites, persistiram muito para cá do desaparecimento de todo o cenário.

A procura das pedras do moinho, de rebentos de sobreiro para plantar e de tudo que se referisse ao local, acabou por não deixar pedra sobre pedra e originar as mais variadas lendas e crendices.

Garantem os mais velhos que nunca se soube, ao certo, onde foi enterrado o velho Ricardo; há até quem sugira, embora cheio de receio, que nunca houve Ricardo, nem moinho na Maxieira. Porém, os exageros não ajudam, em nada, a chegar à verdade, nem é esse o nosso objectivo.

Por respeito e por tudo o que mais se admita, todos preferem calar-se; ninguém quer ficar sujeito ao que de mal lhe possa acontecer e, como é costume, no povo, não se acredita nem deixa de se acreditar – respeita-se a tradição –.

Todavia sempre se aumentam ou diminuem os tons das histórias, que, de boca em boca, passam, transversalmente, de geração em geração.

Mas olhe que é verdade que já muitos foram os que se viram em aflições, com lobos, visões e coisas esquisitas, bem como com doenças e complicações e se apegaram ao velho Ricardo, que Deus haja. Passaram, imediatamente, por cima de tudo.

Foram estas as últimas palavras que ouvi, bastantes anos atrás, sobre o assunto.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Os lobos do Ti’Balejo

O Luís era o segundo de cinco irmãos e duas irmãs, nascidos e criados lá na Serra.

O mais velho, o Manel, moleiro toda a vida e amigo de mandar as suas pachouvadas; nunca foi capaz de se impor aos três ou quatro moleiros, de fora, que semanalmente batiam a aldeia, ainda que dispusesse de um moinho de vento, duas azenhas e, mais tarde, uma moagem mecânica.

O segundo na escala de idades, o Luís, foi toda a vida marchante; mas, do que ele gostava mesmo era de vinho, embora, com copos ou sem eles, fizesse, na mesma, os negócios.

Seguia-se o José, na terra conhecido por José Matias e fora dela pelo Moucho, sem dúvida, um dos homens mais influentes nas transformações que a aldeia sofreu, nos meados do século passado.

O Augusto vinha a seguir e foi sempre ganhando uns dinheirinhos nos negócios da resina e dos pinheiros para madeira.

O benjamim, o Narciso, foi sempre uma figura apagada, bastante míope, sem nunca ter tido filhos. Viveu e desempenhou um papel interessante como encarregado de animais e hortas do Seminário do Fundão, onde, com a mulher, ainda hoje são lembrados e muito queridos.

Das raparigas, a Maria, a mais velha casou para a Queixoperra e foi mãe de um dos primeiros licenciados da aldeia.

A Emília desempenhou, sem nada a referir, o papel de esposa e mãe, lá na Serra, no Melhim, junto dos pais, que ainda recordo, vagamente.

Num pequeno casebre, paredes meias com as casas de dois filhos, a Emília e o Augusto, depois de passar o ribeiro do Freixo, a caminho da Chã, sentado numa tripeça e com uns óculos muito redondinhos, estava, invariavelmente, o Ti João do Melhim, pai da família, a ler não sei o que, nem onde, mas…a ler.

E, não se julgue que esta afirmação é descabida. Sê-lo-ia, por ventura, se não se tratasse da primeira vez que vi óculos e uma pessoa a ler.

Nos meus quatro ou cinco anos, interrogava-me: para que serviam as rodas de arame que o velho tinha em riba do nariz.

É meu propósito contar, hoje, uma pequena história que ouvi ao Ti’Luís, o segundo na escala dos irmãos, a respeito das suas idas frequentes para as terras da área de Vila de Rei, passando pela Louriceira, de onde regressava, sempre bêbedo e a desoras e, normalmente, sem perder o gado comprado.

Tinha um bom anjo da guarda que, a brincar, se dizia que eram os lobos.

Ele, ainda sério, ou já bem aviado, contava, então:

Um dia, os lobos de Vila de Rei, quiseram reunir-se com os de Mação, para discutirem quem governava aqui na nossa zona.

Quando os de lá falaram na Lousa, logo os de cá responderam que nem pensassem: que escolha a vossa; a terra onde o vento berra e a fome pousa?!...

Pois que seja na Alcaravela, disseram os nossos.

Que é lá isso, amigos: lá nem homem sério, nem mulher bela; bebem por qualquer púcaro e comem de qualquer panela.

Foram nomeando as terras umas atrás das outras e nunca chegavam a acordo, até que eu ia a passar e disse aos lobos:

“Deixem-me falar com o povo da Serra e arranjaremos tudo. Penso que podemos arranjar um sítio neutro, onde um esteja no Mação, outro no Sardoal e outro, em Vila de Rei. Ainda assim um terá um ajudante no Penhascoso, outro em Alcaravela e outro no Milreu. A testemunha pode estar na Aboboreira. Todos em território seguro e uns em frente dos outros. Até lá, quero guarda de honra…”

Ainda não voltaram a procurar-me, para dizerem o que decidiram!...

Continuam a fazer-me guarda de honra.

Devem andar a discutir!...

sexta-feira, 20 de março de 2009

O ´´Sei-que-sei``

Naquele verão, em todo o Carvalhal, não vingava couve, ou outro mimo, que se visse.

Dos eucaliptos do Cortiço ao Chão de Burro, passando pelas bordas do Vale das Lebres, todo o Marco e Várzea da Bicha, até à Passada e Portela dos Carreiros, não havia horta que não fosse visitada por coelhos e lebres.

A canícula, a falta de folhas tenras e a abundância de criação daquele ano, eram propícias à maior praga de que havia memória por aquelas bandas.

Os espantalhos, sebes e caniçadas; as armadilhas, esperas e ferros; bem como a guarda nocturna nas barracas de colmo que davam à charneca um ar de acampamento primitivo, serviam apenas para afugentar ou dizimar uma pequeníssima parte da praga devoradora.

Junto à nossa vinha, que ocupava uma courela, desde o talvegue ressequido do que no Inverno era um ribeiro, até ao pinhal do Vale das Lebres, estendia-se, pelo lado do meio dia, a vinha e hortinha do tio Adriano Pereira, da Queixoperra.

Entre as videiras e o pousio da seara, uma tira de horta, em que verdejava o feijão verde, as nabiças, couves de repolho e sete semanas e dois regos de alfaces, cenouras e cheiros.

Tudo regado, dia-sim-dia-não, pela água de um poço de uns três a quatro metros, por meio de uma velha picota, que, por ser das poucas das redondezas, servia de pouso a corvos, gralhas e outra passarada.

O Jerónimo, filho mais velho do tio Adriano, andaria, ao tempo, na casa dos quarenta anos e era apoucado, principalmente quando lhe convinha.

Tinha, todavia, hábitos e costumes estranhos ao comum dos mortais: nunca apertava os atacadores das botas, o estado normal era bêbedo, nunca se calava e proferia todo o tipo de impropérios contra tudo e contra todos.

Não faltava a feiras e mercados, especialmente de Mação, onde o alvo predilecto das suas investidas eram os elementos da Guarda Nacional Republicana, que normalmente o arrecadavam umas horas, libertando-o com o sol ainda alto, com a bebedeira quase curtida e quando ainda tinha tempo para chegar, com dia, ao Carvalhal, à barraca da horta, onde pernoitava a maior parte dos dias.

Saía do posto da GNR e atravessava a vila até à taberna do Perdiz, ou à do tio Alexandre, onde, de companhia com o sobejamente conhecido Cabo Emídio, voltava a enfeitar-se, acabando por tomar a estrada até ao Coadouro, meter pelo atalho que deixava à esquerda Penhascoso, até ao tanque do Clarinha e, depois de descer a ladeira do Cortiço, seguia pelo caminhito do tio Lameira até ao seu destino – a barraca de colmo, na horta do Carvalhal –.

Durante todo o tempo não se calava, repetindo a cada quatro ou cinco palavras a expressão ´´eu-sei-que-sei``, quer tivesse alguém a ouvi-lo, quer falasse sozinho, estivesse no centro da praça de Mação, caminhando na estrada, ou na horta do Carvalhal.

Enquanto durasse a influência da pinga nunca se lhe acabavam as histórias, nem se esgotavam os alvos das suas críticas.

Gastava horas em solilóquio, no silêncio da noite, na barraca de colmo, investindo contra tudo e contra todos, repetindo regularmente o mote: ´´eu-sei-que-sei``.

Num desses monólogos, criticava tudo e todos, insurgia-se contra a nova moda das batidas às raposas, de que tanto se orgulhavam os caçadores da sua aldeia.

Dizia que já tinham o que mereciam, uma praga de lebres, coelhos e outros animais que acabavam por derreter tudo o que havia nas hortas.

Acabava, invariavelmente, acariciando a espingarda e dizendo que aquela nunca daria um tiro em batidas.

A mãe Natureza é sábia e anda muito bem regulada: os grandes comem os mais pequenos, que por sua vez se alimentam de outros menores; mas também esses grandes encontram outros maiores.

Sempre assim foi e há-de ser e quando o bicho homem se mete, só estraga… só estraga… e repetia, até à exaustão: só estraga!...

Assim como a Guarda que leva a gente preso até a vila ficar vazia.

Depois, não nos quer lá para nada e manda-nos embora… esquece-se que ainda estão abertas as tabernas.

Não ganha nada e só arranja mais inimigos… como eu e o cabo que pagamos o que não devemos e nunca havemos de ter as contas em dia com estes malandros que melhor faziam se fossem atrás dos ladrões e dos bandidos.

Andam atrás de quem lhes diz as verdades?!...

Não ganham nada.

A verdade é que na horta do ´´sei-que-sei`` não entravam as lebres nem os coelhos e eram bem apetitosos os mimos que lá verdejavam.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O limoeiro dos Brejos

Aquela haste de limoeiro a que ainda restavam as duas folhitas do olho e um bocado da serapilheira que envolvia restos da terra que tinha acompanhado a raiz desde que, para aí um mês antes, aquela planta saíra dos viveiros de Santa Cita, andava aos tombos, na caixa da furgoneta do Ti’André.

Meu pai chegou-se ao vendedor das plantas e apreçou o limoeiro: Então e aquele limoeiro, ou restos dele, quanto me vai custar? Mas olhe que se não vingar, depois terá que substituí-lo por outro. Fica combinado!...

Olhe Ti’Amorim, essa árvore foi-me encomendada na Carregueira e quando o freguês a viu, desfez tanto nela que mais me apeteceu parti-la, ou deitá-la fora. Para aí tem andado aos tombos, o que até me não importa, pois nas seis laranjeiras que lhe vendi já ficou bem pago.

Assim como assim, leve lá o limoeiro e, na primeira vez que lhe comprar os limões dele, descontamos os trinta mil réis que me havia de dar. Agora só paga um copo e, não se atrase a plantá-lo, que tem aí uma boa planta.

Dizia-me, o meu pai:

E foi assim que uma das melhores árvores dos Brejos, cá veio parar. Cumpriu-se o trato, dos trinta mil réis, menos de um ano depois de ter plantado o limoeiro e, já soma contos de réis o valor dos limões vendidos ao Ti’André, para além de gastos de casa, à farta, e serventia de três ou quatro comadres que aí vêm buscar as precisões. É uma árvore soberba; dá fruta todo o ano, sempre sumarenta, mesmo no pino do Verão. Nunca cresceu muito, mas chega o porte que tem.

Sem nada a apoquentá-lo, no centro da horta de cima, a uns três metros da levada e um pouco menos da parede de suporte, pouco ou nada se semeava debaixo dele e não faltavam as regas, sobretudo nas épocas de maior canícula.

A pedra, junto do tronco, tanto era degrau para colher os limões, como me servia de banco, nas longas horas de repouso e de leituras. Li, ali, muitos livros.

Cheguei a ter um radiozito, de pilhas, pendurado numa pernada, para me acompanhar nas leituras, ou no simples lazer e desfrute da natureza, tão pródiga, ali, naqueles tempos.

Aprendi a conhecer o canto dos pássaros, adivinhar os voos dos melros, o bulício das felosas, nas balças das represas, o trinado dos rouxinóis, escondidos nos vimeiros da horta de baixo e cheguei a sentir as toupeiras que naquela sombra sempre humedecida, dali se aproximavam, por baixo dos camalhões, caçando os vermes de que se sustentavam.

À medida que a canícula apertava, mais fresca era a sombra do limoeiro e a água do tanque de cima continuava sempre bem temperada, naturalmente fresca e saborosa. Bebia duas ou três canecas, de folhas de couve, por dia, e via chegar e partir muitos visitantes que desciam do caminho, para ali se irem dessedentar.

Pegavam no caneco da resina, que estava sempre por ali, agitavam a superfície da represa, para afastar as impurezas, enxaguavam a vasilha e serviam-se à vontade.

Quase todos davam a salvação, à chegada, e deixavam uma despedida, à abalada.

Ajudavam-me a passar o tempo e, às vezes, alimentavam uma prosa que sempre gostei muito de ter com aquela gente simples, lá da Serra, ou com alguns forasteiros que também ali saciavam a sede e, às vezes, aproveitavam para levar uma laranjita, um cacho de uvas, dois ou três figos, ou até um limão para chupar, quando não viam ninguém, por perto.

Debaixo daquele limoeiro tive horas de conversa com o meu pai; ouvi muitas histórias do Ti’João do Cerro, nas suas horas de sesta, quando ali trabalhava numa das três minas que abriu na nossa propriedade. Falei com muitas outras pessoas que nem cheguei a saber quem eram, mas que me referenciavam, perfeitamente, como o filho do Ti’Amorim, ou o neto do Ti’ José Lourinho, que andava a estudar, coisa que, ao tempo, era raro, por aquelas terras.

As mais gratas recordações eram as conversas com meu pai, às vezes acompanhado pelo meu avô, quando subiam das hortas da borda da ribeira, para o jantar.

Ali se tratavam muitas coisas da família – desde os meus dez, ou doze anos, passei a ser consultado, regularmente, quando alguma decisão de família, se aproximava –.

Os estudos dos meus irmãos, os preços da resina, as contas do que havia a receber pelas bicas, o cálculo dos juros de alguns pequenos empréstimos, outros assuntos referentes a sementeiras, surribas, tratamento de culturas. Ceifas, malhas, matança dos porcos…

Sentia-me muito orgulhoso da confiança que sempre em mim depositaram e, muitas vezes me interroguei por que me era outorgado aquele estatuto de liderança.

Durante toda a minha vida sempre me senti em frente duma escada, medindo bem os degraus e acumulando força para subi-los, a pulso, paulatina mas seguramente, aproveitando todos os espaços livres para colocar o meu pé… até chegar ao topo, de onde nunca desviei o olhar.

E, graças a eles e a mim, estive na liderança, ou perto dela, na maior parte das situações da minha vida.

A todos os que me foram mais chegados, ou comigo trabalharam, sempre motivei para olharem para cima, com empenho, vontade, lealdade e dedicação: Dizia eu, nas inúmeras sessões de formação que dirigi e orientei, que sempre procuramos quem queira subir acima do degrau onde tem os pés.

Numa dessas voltas da vida, um dia, o fogo passou por lá.

Nessa altura, ainda que muito abandonado e maltratado, já o limoeiro dos brejos e eu andávamos afastados.

Porém, ao chegar junto dele, ou do que dele restava, vi que nem todas as folhas sucumbiram às chamas e, ainda pendiam alguns limões, esperando que eu os fosse ver.

Pela minha parte, acabou, não quero voltar ao pé dele, embora tenha sido um fiel seguidor dos seus ensinamentos e me tenha aproveitado, toda a vida, dos ensinamentos que caldeei na sua sombra.

Mas tenho o meu orgulho e não quero chorar lágrimas por um limoeiro!...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A mina do Souto

Garantiam as vozes mais acreditadas que na mina do Souto, depois das hortas do Passeiro, a dois passos da cerejeira grande, não longe do caminho que da Serra se dirige até à Lameira, estava sentado um homem que, imóvel, fumava uma cigarrada, todas as tardes, antes do pôr do sol.

Homem de idade avançada, com a cabeleira farta e branca, os olhos encovados e o olhar fixo na boca da mina, permanece imóvel, se bem que abra e feche os olhos, de vez em quando.

A conversa que corria, em surdina, de boca em boca, chegou aos ouvidos do padre João, que, calmamente, se manteve tranquilo, esperando que mais vozes lhe trouxessem a notícia.

Quando lhe pareceu adequado falou e, com toda a serenidade do mundo, explicou os factos, tal qual eles se lhe apresentavam e, aproveitando, pedagogicamente, o incidente. Disse:

Começo por lhes dizer que, acompanhado por vários de entre vós, estive a observar a mina do Souto e a única coisa que adiantei, como aliás já esperava, foi beber uma boa barrigada de água e beneficiar da paz e sossego que, felizmente, reinam no local.

Todavia, deste lugar sagrado, quero tecer alguns comentários, pois está em causa a dignidade e respeito que devemos aos nossos mortos e, em caso algum, podemos tecer acusações e cair em falso testemunho.

Que descansem em paz!...

O Ti´Chico da Ladeira, que ainda conheci e, reconheço, não terá sido um exemplo de virtudes, fez das suas, como toda a gente sabe e alguns sofreram na pele.

Ao longo da estrada da Lameira ele e o seu bando não ajudaram ninguém e prejudicaram muita gente, sem, todavia, atentar contra vidas e molestar fisicamente.

Além de pequenos furtos e acções de amedrontamento, nunca exerceram violência gratuita sobre nenhum dos presentes, ao que julgo saber.

Deus é Pai e, como tal, profundamente tolerante. Nós, mortais, muitas vezes levianamente, acusamos esta ou aquela alma de sofrer o castigo de Deus e não contentes com o juízo, ditamos a sentença: penar na terra e expiar as faltas cometidas até poder entrar no reino dos céus.

Até, neste caso, condenamos o pobre Chico a estar ali dentro de uma mina.

É bem simples o que se observa na mina e são absolutamente naturais todas as reacções de cada um dos que afirmam ter visto isto, ou aquilo.

Ao fim da tarde, entra mais luz do sol pela boca da mina.

Esta luz, reflectida pela água, como se de um espelho se tratasse, dirige-se para dentro da mina.

A poucos metros de entrada, há várias raízes que na busca de água pendem do tecto e dos lados da mina.

Essas raízes tomam feitios caprichosos e projectam sombras, parecendo verdadeiras formas reais.

Por algumas dessas raízes escorrem fios de água, que ao cabo de muitos anos formam corpos sólidos, esbranquiçados ou avermelhados, permanentemente húmidos.

Quando um raio de sol, reflectido pela água da represa, acerta numa dessas estalactites ou estalagmites – estes são os nomes dessas formas calcárias que se formam –, parecem olhos a brilhar que, de repente, ou porque a água se moveu, ou porque o raio de sol foi interrompido, se apagam.

Nada mais que isto se passa na mina; podem beber descansados e aproveitem para ver com muita atenção tudo o que acabo de lhes descrever.

Mesmo quem nunca estudou estes efeitos dos fenómenos da Natureza pode compreendê-los se usar a inteligência e sobretudo souber ver com atenção o que tem diante dos olhos.

Vamos rezar para que as almas necessitadas, e não apenas a do Ti´Chico, alcancem a graça de Deus e descansem em paz.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O colégio

As primeiras décadas do século XX deixaram o País num estado de desenvolvimento muito longe do aceitável; não tivemos guerra dentro das nossas fronteiras mas sofremos as incidências dos grandes conflitos mundiais e demorámos demasiado tempo a livrar-nos das sequelas e das chagas sociais deles resultantes.

O nosso concelho, bem no centro de Portugal, era atravessado por duas estradas de macadame, que a certa altura se juntavam numa só, em forma de ípsilon.

Delas irradiavam os caminhos municipais, normalmente de terra batida e com as rodeiras, profundas, das rodas das carroças.

No verão montanhas de poeira e no Inverno charcos e lama, em abundância.

O sistema de ensino público era garantido, até à quarta classe, por escasso número de escolas, complementado com postos escolares que acabavam por cobrir quase todas as aldeias e mesmo lugarejos.

Porém as motivações para estudar eram praticamente nulas.

Nas aldeias raramente se via um automóvel, salvo o do médico, padre ou veterinário e os caminhos impediam, completamente, na época das chuvas, o acesso a muitas localidades.

Passavam as camionetas para retirar a madeira e a resina, mas carro ligeiro, que se aventurasse, era certo e sabido que teria que ser rebocado de algum atoleiro.

As bestas, com cangalhas, alforges ou carroças, eram, na prática, os mais fiáveis e comuns meios de comunicação.

O telefone e a electricidade eram bens raros.

A água corria nas fontes, de bica ou de mergulho e era muito generalizado o recurso aos poços de cada um.

Estas circunstâncias, acrescidas da falta de dinheiro em circulação, facilitavam a filosofia oficial do Governo que defendia a agricultura de subsistência, a instrução básica como suficiente para a generalidade dos homens, já que às mulheres se reservava o papel de mãe de família, sem necessidade de alfabetização, sem direito a voto e sem necessidade de trabalhar fora do lar.

Os trabalhos do campo, uns lugares na tropa, forças de polícia, empregados públicos dos graus inferiores e serventia, quer nas obras públicas, quer nas casas dos senhores, eram o destino de quem tinha padrinhos ou parentes a quem se ofereciam as primícias das colheitas, os cabritos, garrafões de azeite e presuntos.

Mesmo as casas abastadas das aldeias, com as arcas a abarrotar de cereais, as pipas cheias de vinho, as talhas repletas de azeite e de mel, não tinham dinheiro, nem informação, para quebrar a inércia.

Só os mais lúcidos, os que tinham quem os incentivasse, oferecendo-se para receber nas cidades os filhos de algum parente que quisesse seguir estudos, mandavam os filhos estudar.

Estas perspectivas não eram nada animadoras para a juventude dos anos quarenta e cinquenta; os liceus mais próximos ficavam nas sedes de distritos – Santarém, Leiria, Portalegre e Castelo Branco -, as escolas técnicas ainda não tinham aparecido e os poucos colégios eram distantes e caros.

Restava o recurso aos Seminários, quer diocesanos, quer das Ordens Religiosas e não esqueçamos a grande ajuda que deram a muita gente que sem esse recurso, nunca teria acesso à instrução e educação.

Foi nessa altura que apareceram os colégios particulares e com eles a grande democratização do ensino; quase todas as aldeias do concelho mandaram os primeiros estudantes para Mação, Sardoal, Mouriscas e Abrantes, entre outras localidades.

Porém, passados poucos anos, quando essa plêiade de jovens deveria continuar os estudos para níveis superiores, rebentam as guerrilhas nos territórios ultramarinos.

Ora a maioria dos jovens das classes mais baixas não dispunha de meios nem de influências para se safar das comissões no ultramar.

Por norma educados em ambientes conservadores, aderentes aos princípios do respeito pela família, pela hierarquia social e do culto pela Pátria, não fugiram às suas obrigações e pagaram-no bem caro.

Muitos interromperam cursos para não mais os terminar, outros morreram ou ficaram marcados pelas mais diversas deficiências e vidas com um rumo e expectativa social não raro foram orientadas para caminhos diferentes.

Não me parece pertinente a emissão de juízes de valor sobre a vida profissional do homem que veio para a nossa terra e nela fundou o colégio – o Prof. Anastácio Nogueira Lalanda –.

Sou um dos indefectíveis defensores da sua acção, em prol da juventude do meu tempo e relevo, facilmente, alguns métodos e meios que usava, quando os comparo com os benefícios que a sua acção trouxe a centenas de jovens, condenados à nascença a uma condição social anquilosante.

Em seis anos, nunca experimentei o peso físico e psicológico da régua ou das mãos do senhor Lalanda.

Mais tarde, já professor, falei várias vezes com o senhor Lalanda e confesso que são grandes, enormes mesmo, os créditos que lhe atribuo e socialmente notáveis as acções que desenvolveu na ajuda a muita gente.

Para mim, a sua figura destaca-se, claramente, como uma das mais marcantes do nosso concelho, no último século.

Homens desta estirpe, que cultivaram e desenvolveram a nossa matéria-prima mais valiosa –as pessoas –, merecem ter o seu nome perpetuado e a sua figura presente em qualquer lugar destacado do concelho.