sábado, 6 de setembro de 2014

Festival dos pássaros - 1ª parte

  

(1ª parte)

Para o melro Augusto, o ano não foi mau. 

Arranjou uma boa companheira, fizeram ninho nos balceiros do lagar velho, a vistas do Sanguinhal, e criaram os três filhos. 

O Outono ia de feição - bom ano de novidades, uvas com fartura de rabisco, boas frutas e bastante água na ribeira, pelo que não faltaram hortas regadas e boa provisão de bichos para toda a passarada. 

As oliveiras já pintavam e o frio ainda não era demasiado. 

Conseguiu descobrir, a tempo, uma armadilha debaixo das videiras do chão do Moleiro, disputou com um rouxinol, nas laranjeiras do Cabecinho Agudo, as eleições para Encarregado-Geral e foi escolhido para Chefe dos Pássaros, no vale da Ribeira da Renda e brejos circundantes.

No fim de Verão demarcou, como área de repouso e abrigo, a chapada de estevas que vai do açude da Renda até às primeiras hortas do Lavadouro. 

Era uma zona soalheira, nos baixos da encosta da Lomba, ali à meia barreira, onde nem os pinheiros vingavam, tal era a densidade de estevas e tojos. 

O maior perigo vinha das raposas que tinham criado junto da represa que escorre para a azenha, mais ou menos a meio da mancha de estevas que formava o território do melro Augusto. 

Mas eram tantos os ratos que procuravam restos de grão, junto do moinho, que os bichos maiores nem precisavam procurar os pássaros para andarem gordos e saciados.

O melro Augusto pernoitava, descansava e vigiava a sua zona sobre um tufo de balças, num pinheiro anão, com as carrascas cobertas de musgo e as carumas quase inexistentes substituídas por ninhos de processionária. 

Pouco maior que as estevas, era, no entanto, o local de atalaia do Encarregado da Zona e dos seus ajudantes mais chegados. 

A sede do Governo dos pássaros.

Não longe dali, numa espécie de palanque, entre um montículo de terra e pedras - mais pedras que terra - e um pequeno penedo, com grutas e subterrâneos, como convinha, um anfiteatro natural servia de local de reuniões e recepções. 

Era ali que o melro Augusto despachava o expediente, recebia os recém-chegados e organizava a guarda avançada que se estendia pelos cimos da chapada de estevas e pelos baixos, logo a seguir à levada que ladeava as hortas, desde o açude ao Lavadouro, nuns bons trezentos metros.

No outro lado da ribeira, por toda a sua esquerda, desde os primeiros pinheiros das Barreirinhas, ao plano dos Brejinhos, espraiando-se pelos Brejos e cabeço do Lavadouro, à entrada do Vale das Lousinhas, todo um conjunto de vigilância e alerta reportava para o comando qualquer entrada estranha, ou simples tentativa de intrusão, na zona de influência daquela comunidade, sob a responsabilidade do melro Augusto.

E tudo corria tão bem que, naquele ano em que o melro fora escolhido para Encarregado-Geral, não houve nenhuma baixa na comunidade. 

Até, no tempo dos taralhões, os garotos se afastavam dos pinchos da zona, pois a passarada de lá não caía nas costelas. 

Apenas algum intruso que acidentalmente tivesse penetrado na zona, poderia ter sido vítima das armadilhas que, ocasionalmente, algum caçador por ali tivesse armado.

Nos terrenos do melro Augusto, os principiantes eram ensinados a movimentar-se nas estevas, eram adestrados na arte de fugir aos predadores que pudessem encontrar: fossem cobras e outros répteis, gatos-bravos ou não, raposas e cães. 

Também os milhanos e alguns outros perigos eram evitados e havia esconderijos preparados para emergências.

A fama do melro Augusto já se estendera por todo o vale, desde o cabeço do Manglório e o Vale Dianteiro onde tinha começo a ribeira da Serra, até para lá da Amieira Cova onde se entrava nas áreas da Saramaga e outras terras da Alcaravela. 

Por todos os vales que escorriam para o leito da ribeira também já se falava da mestria, sabedoria e eficiência do melro Augusto.

Naturalmente, gerou-se um movimento para que na próxima Assembleia de Zonas fosse proposta a candidatura do melro Augusto. 

Era um facto sem precedentes, pois os gaios, as rolas, os pica-peixes, os emplumados papa-figos e até milhanos e peneireiros, eram, segundo os costumes, os pássaros escolhidos para Encarregados de área. 

Os cucos não tinham voz, nem voto.

Agora, porém, chegava-se mesmo a avançar com a ideia de uma chefia alargada a toda a zona da ribeira da Serra e vales adjacentes, numa área de grande diversidade e importância. 

Seria um Encarregado-Geral-Principal, com assento no Grande Conselho Avícola, Membro do Conselho Supremo de Ornitologia, com o pelouro das aves migratórias. 

O melro Augusto recebeu muitos emissários e observadores. 

Foi objecto de muitas sondagens acerca da sua disponibilidade, e sempre humilde e generoso com os que o visitavam e elogiavam, nunca baixou a guarda, mandando sempre vigiar e acompanhar os que partiam e deixando no ar o seu maior desejo: servir os seus irmãos, protegendo-os e zelando pelo bem-estar colectivo e não desleixando os cuidados com todos os que espreitavam por uma oportunidade para virem ali fazer qualquer desgraça. 

Foi, pois, neste contexto que num dia de meados de Outubro, em pleno Outono, já com chuva e frio, mas ainda com sol reluzente, chegou ao esteval do melro Augusto, um pisco desgarrado, sozinho, e perguntando pelo Encarregado de quem tinha ouvido os maiores elogios, desde que cruzara os últimos grandes montes antes do mar.

Levado à presença do melro Augusto, ficou encantado com a simplicidade do Encarregado, com a forma como foi recebido e, desde logo, convidado para, nos próximos dias, se encontrar com o chefe para falarem sobre a longa viagem que fizera desde a sua terra até ali. 

E, se fosse caso disso, apresentar as suas petições de permanência, como parecia ser seu desejo.

(Continua na próxima publicação)

sábado, 30 de agosto de 2014

O Sei-que-sei



Naquele verão, em todo o Carvalhal, não vingava couve, ou outro mimo, que se visse. 

Dos eucaliptos do Cortiço ao Chão de Burro, passando pelas bordas do Vale das Lebres, todo o Marco e Várzea da Bicha, até à Passada e Portela dos Carreiros, não havia horta que não fosse visitada por coelhos e lebres. 

A canícula, a falta de folhas tenras e a abundância de criação daquele ano, eram propícias à maior praga de que havia memória por aquelas bandas.

Os espantalhos, sebes e caniçadas; as armadilhas, esperas e ferros; bem como a guarda nocturna nas barracas de colmo que davam à charneca um ar de acampamento primitivo, serviam apenas para afugentar ou dizimar uma pequeníssima parte da praga devoradora.

Junto à nossa vinha, que ocupava uma courela, desde o talvegue ressequido do que no Inverno era um ribeiro, até ao pinhal do Vale das Lebres, estendia-se, pelo meio-dia, a vinha e horta do ti’Adriano Pereira, da Queixoperra. 

Entre as videiras e o pousio da seara, uma tira de horta, em que verdejavam: o feijão verde, as nabiças, couves de repolho e sete semanas e dois regos de alfaces, cenouras e cheiros. 

Tudo regado, dia-sim-dia-não, pela água de um poço de uns três a quatro metros, por meio de uma velha picota, que, por ser das poucas das redondezas, servia de pouso a corvos, gralhas e outra passarada.

O Jerónimo, filho mais velho do tio Adriano, andaria, ao tempo, na casa dos quarenta anos e era apoucado, principalmente quando lhe convinha. 

Tinha, todavia, hábitos e costumes estranhos ao comum dos mortais: nunca apertava os atacadores das botas, o estado normal era bêbedo, nunca se calava e proferia todo o tipo de impropérios contra tudo e contra todos. 

Não faltava a feiras e mercados, especialmente de Mação, onde o alvo predilecto das suas investidas eram os elementos da Guarda Nacional Republicana, que normalmente o arrecadavam umas horas, libertando-o com o sol ainda alto, com a bebedeira quase curtida e quando ainda tinha tempo para chegar, com dia, ao Carvalhal, à barraca da horta, onde pernoitava a maior parte dos dias. 

Saía do posto da GNR e atravessava a vila até à taberna do Perdiz, ou à do ti’ Alexandre, onde, de companhia com o sobejamente conhecido Cabo Emídio, voltava a enfeitar-se, acabando por tomar a estrada até ao Coadouro, meter pelo atalho que deixava à esquerda Penhascoso, até ao tanque do Clarinha e, depois de descer a ladeira do Cortiço, seguia pelo caminhito do ti’ Lameira até ao seu destino – a barraca de colmo, na horta do Carvalhal –.

Durante todo o tempo não se calava, repetindo a cada quatro ou cinco palavras a expressão ´´eu-sei-que-sei``, quer tivesse alguém a ouvi-lo, quer falasse sozinho, estivesse no centro da praça de Mação, caminhando na estrada, ou na horta do Carvalhal. 

Enquanto durasse a influência da pinga nunca se lhe acabavam as histórias, nem se esgotavam os alvos das suas críticas. 

Gastava horas em solilóquio, no silêncio da noite, na barraca de colmo, investindo contra tudo e todos, repetindo sempre o mote: ´´eu-sei-que-sei``.

Num desses monólogos, criticava tudo e todos, insurgia-se contra a nova moda das batidas às raposas, de que tanto se orgulhavam os caçadores da sua aldeia. 

Dizia que já tinham o que mereciam, uma praga de lebres, coelhos e outros animais que acabavam por derreter tudo o que havia nas hortas. 

Acabava, invariavelmente, acariciando a espingarda e dizendo que aquela nunca daria um tiro em batidas.

A mãe Natureza é sábia e anda muito bem regulada: os grandes comem os mais pequenos, que por sua vez se alimentam de outros menores; mas também esses grandes encontram outros maiores. 

Sempre assim foi e há-de ser e quando o bicho homem se mete, só estraga!… só estraga!… e repetia, até à exaustão: só estraga!... só estraga!… só estraga!… 

Assim como a Guarda que leva a gente preso até a vila ficar vazia. 

Depois, não nos quer lá para nada e manda-nos embora… esquece-se que ainda estão abertas as tabernas. 

Não ganha nada e só arranja mais inimigos… como eu e o cabo que pagamos, o que não devemos e nunca havemos de ter as contas em dia com estes malandros que melhor faziam se fossem atrás dos ladrões e dos bandidos. 

Andam atrás de quem lhes diz as verdades?!... Não ganham nada.

A verdade é que na horta do ´´sei-que-sei`` não entravam as lebres nem os coelhos e eram bem apetitosos os mimos que lá verdejavam.

sábado, 23 de agosto de 2014

As bruxas


O Ti’António Lindo morava no “Casal”, ao canto do pequeno adro da capela, no andar de cima de uma casita, estreita e comprida, com uma varandita de pedra, de uns dois metros por um e guardas de um palmo de altura.

Nos baixos da casa, a loja albergava as galinhas, duas cabritas e uma ovelha, que a Ti’Carolina levava, todos os dias, até ao Casalinho. 

Ali, na melhor das poucas hortas da família, uma mina, razoavelmente fornecida de água, dava para regar diariamente e era, por isso, um oásis naquela encosta sul da serra.

Homem de muitas prosas e poucas obras, como dizia o meu avô, o Ti’António Lindo, descia pela pequena escada de pedra – uns quatro degraus – e ao fundo da rua, junto à casa do irmão Abílio, virava à direita para ficar em frente da porta de meu avô, onde se sentava no poial de pedra, coberto pela sombra, na hora da sesta.

Tinha percorrido, de casa até ali, uns sessenta metros. 

Encostado ao cajadito, que sempre o acompanhava e lhe servia de amparo, dava a salvação e sentava-se no poial, de onde emitia e captava as últimas novidades e bilhardices, à boa maneira das comadres. 

Eram as novidades da terra e arredores.

Numa dessas prosas, que eu muitas vezes espicaçava, contou-me o Ti’António Lindo a história das “bruxas do Lavadouro”, sítio junto à nossa horta do mesmo nome, situada na ribeira, no local onde o talvegue aperta e uma fiada de três poldras, bastante polidas e desgastadas pelos milhares de pés e patas que por ali passaram, fazem a ligação entre os dois lados da ribeira. 

Na maior parte do ano passa-se a pé enxuto, mas no inverno, tem de se ir dar a volta à ponte, uns cem metros, mais abaixo, a jusante.

Logo abaixo das poldras, dum e do outro lado, estendem-se as pedras da lavagem, na orla dos lameiros, onde as mulheres estendem a roupa a corar ao sol. 

Também ali, nas golas da corrente, se lavam as tripas dos porcos, em tempo de matanças.

Sobranceira às pedras da passagem, uma boiça, de silvas e tojos, ocupa um pequeno patamar, um metro acima do nível da água. 

Era ali, segundo as palavras do Ti’António Lindo, o local onde as “bruxas”passavam.

O “diabo” sentava-se do lado de lá das pedras de passagem, naquele altinho, onde agora só há mato e balças, e assistia à passagem das bruxas da Serra, que se dirigiam para Alcaravela; era ali que fazia a contagem e via a habilidade de cada uma, para ter a certeza que seriam capazes de percorrer, em cada noite, sete vilas acasteladas, e chegarem a tempo ao baile.

Como as pedras estão muito puídas e gastas e as bruxas têm pés de cabra, muitas escorregavam e aleijavam-se; o mafarrico, sentado no seu trono, sem elas o verem, é claro, fartava-se de rir e assistia à desistência das que tinham de voltar logo para trás. 

Se reparares bem, anda aí uma com uma anca meio desconjuntada e outra com uma perna partida!...

Depois da passagem, numa grande restolhada seguiam caminho fora. 

Nos cruzamentos dançavam em volta do diabo, que seguia na cambada, sem nunca se mostrar, nem ser visto pelas “bruxas”.

Percorridas as sete vilas acasteladas, tinham de se juntar, antes do bater da meia-noite, no terreiro do Chão da Guedelha, além nos altos do cabeço Barreiro, para o bailado final e a grande festa ao Diabo.

Dali desapareciam todas, como por encanto, e iam meter-se na cama, ao lado dos homens, que nem deviam chegar a dar pela falta delas. 

Só que um dia o João Verdugo, gozado na taberna por nem sequer dar pela falta da mulher e já com um grão na asa muito bem aviado, deu pela falta da mulher na cama. 

Pôs-se à coca e quando ela voltava de uma necessidade, pois estava com um desarranjo de barriga, desatou à bordoada e deu-lhe, de tal maneira, que a pobre foi parar ao endireita com umas costelas partidas e nódoas negras pelo corpo todo. 

No dia seguinte gabava-se da tareia que dera na coitada.

Quando, daí em diante, lhe falavam em bruxas, limitava-se a dizer que a dele estava curada e, tão depressa, não voltaria a sair.

A rematar, o Ti’António Lindo sorria e dizia-me: 

Não acredites nisto, ouviste!... 

São patranhas que a gente conta; respeitamo-las; mas não acreditamos nelas. 

Além de que são coisas de mulheres...

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O lenço a dizer adeus!…


Havia muito tempo que não assistia aos festejos anuais da minha aldeia. 

Ou porque a data coincidisse com compromissos sociais e obrigações familiares, ou porque outros eventos me desviassem, os anos foram-se passando e eu não ia às festas.

Até que neste ano da graça de 2014, se conjugaram as coisas e, com muita saudade e prazer fui rever as pessoas e lugares que constituíram o meu primeiro mundo e ainda ocupam um lugar cativo nas minhas memórias de infância.

Os anos passaram, os acontecimentos rolaram e, para além das Histórias de Gente Simples que vão conseguindo abafar o meu desejo de estar por perto daqueles caminhos, daquelas gentes e daqueles costumes, pouco vai ficando.

Porém, nestes dias, confirmei que as memórias antigas não se apagaram, e quando me acontecia perguntar por alguém que já deixou o mundo dos vivos, localizava os rostos e os traços que deixara de ver muitos anos atrás.

No recinto da Associação, onde foi preparado o altar e celebrada a missa, pude apreciar e admirar todas as pessoas, participando, à sua maneira e surpreendendo-me, até, com a evolução do seu ritmo natural e a evidência da sua fé.

Para uma Assembleia de Gente Simples, com um padrão etário elevado e permeável a análise e consciencialização, soube o celebrante da missa, senhor Padre Amândio, fazer uma homilia muito a propósito, exortando, cada um, ao cultivo da paz interior e ao bem-estar consigo próprio. 

Desse modo todos poderemos viver a vida como ela deve ser vivida; cada um deve ter a sua meta de felicidade e nunca abandonar esse objectivo, na certeza que depois do copo cheio ele não leva mais e aos olhos do Juiz Supremo, todos os copos cheios terão o mesmo valor, independentemente da sua capacidade. 

A “palavra” foi percebida e a Assembleia gostou…

A Organização dos festejos, da responsabilidade da Associação da Serra, mostrou, mais uma vez, um Homem que já cumpriu muitas etapas de vida, tem gasto muitos anos na luta, sem tréguas, visando a excelência, subiu, a pulso, todos os degraus que a vida lhe apresentou, nunca descansou sobre os louros e, acrescentaremos mesmo que até a morte soube vencer. 

Espero, desejo e exorto os meus conterrâneos a prestar-lhe a homenagem que acredito que não deseje, mas estou certo que todos lhe desejam prestar. 

Desafio os mais novos a reverem-se no exemplo de um Homem - o dr. Manuel Serras - que soube provar que Simplicidade nunca será sinónimo de Inferioridade.

Passei, várias vezes, os olhos pela Assembleia, lembrando uma afirmação de um velho amigo que já nos deixou e me dizia: senhor professor, permita-me que o trate como o seu avô José Lourinho gostava que se dissesse. 

É para lhe dizer que isto aqui acabará tudo por acabar: temos para aí viúvas às dúzias, homens com menos de meio cento de anos contam-se pelos dedos e crianças…nada.

Naquele preciso momento fixaram-se-me os olhos numa velhinha, curvada sob as décadas de duras labutas, mas, à boa maneira de outros tempos, com o lenço de merino escuro, atado na cabeça. 

Fomos à conversa e quando me disse que nunca mais esqueceria os tempos que estivera no Fundão, passou as mãos pelo lenço, levantou os olhos e disse que o homem se tinha ido de repente. 

Momentos depois voltou a falar da sua solidão – que Deus nunca lhes deu filhos – e, novamente as mãos a ajeitar o lenço. 

As palavras eram simples, às vezes embargadas, mas o brilho dos olhos e o toque no lenço…

…Um lenço a dizer adeus!...

Não continuámos. Ela pediu para me dar um beijo, de agradecimento por tudo o que fizera por eles, recomendando-os para a casa onde acabaram por ser tão felizes. 

Confesso que não esperava aquela reacção e, apanhado de surpresa, pedi para lhe tirar a foto que ilustra esta pequena História de Gente Simples.

Termino com uma palavra de muito carinho por todos os meus primos que, sabendo da minha presença, se deslocaram da Queixoperra e quiseram estar comigo e a minha mulher Irene. 

Obrigado a todos e Deus dê saúde e prosperidade à família Valente.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O "Jerolminho"


A calma e quietude do Monte dos Ciprestes foi agitada por um burburinho e estranho corrupio das três, ou quatro, mulheres que, nessa tarde, ali estavam.

Quando viram o ganhão, que cuidava dos porcos, sair do celeiro, com qualquer coisa embrulhada numa saca, chamando pelo Ti’Chico, em altos gritos, e entrando na casa do capataz Manel Canhoto, gerou-se uma autêntica roda-viva.

As mulheres não pararam mais e, cada uma por seu lado, haviam de dar fé de tudo o que se passasse. 

E foi assim que todos presenciaram o estranho achado que o porqueiro transportava para fora do celeiro:

A chorar, a bons pulmões, estava ali, nuzinho como nascera pouco tempo antes, um menino, abrindo a boquita e movendo a cabeça, procurando um peito para mamar. 

Olharam uns para os outros e foi a Zefa que saíu em passo apertado, na direcção da casa do maioral, chamando pela Amélia que tinha uma criança de leite e podia, por isso, valer ao anjinho que dava sinais de fome e frio.

Veio também a Ti’Rita Ramalheta, comadre de serviço nos partos lá do Monte. 

Tratou da criança, lavando-a, verificando o aperto do baraço que atava o cordão do umbigo e vestindo-lhe o casaquito que a Amélia acabava de trazer. 

Embrulhou o anjinho no xaile, que trazia nos ombros e deu-o à Amélia para que lhe desse o peito.

Veio, finalmente, o sossego; logo interrompido pelas perguntas do Ti’Manel Canhoto que, olhando em redor, encarou o ganhão dos porcos e quis saber as circunstâncias de tão estranho achado.

Muito simples, Ti’Manel; ouvi chorar lá para os fundos do celeiro e quando cheguei ao pé do monte das sacas de fava, vi esta encomendinha e trouxe-a. 

Ainda olhei à volta, espreitei para todos os lados, escutei, perguntei se estava alguém e, nada.

E, algum dos presentes conhece o dono, ou dona, destes trapos que embrulham a criança? Perguntou, ainda, o Ti’Manel. 

Porém, ninguém se acusou e, já na presença da mulher, Ti’Florinda, foram todos mandados para o trabalho, ficando a criança aos cuidados do capataz e da Amélia, que lhe daria mama.

Pelo fim da tarde, veio o senhor feitor, que se deslocara à vila, tratar de negócios. 

Ao ser posto ao corrente do sucedido, chamou a sua casa o capataz 
e o ganhão e perguntou se sabiam quem poderia ser o pai, ou mãe da criança, ou se faziam alguma ideia por onde haviam de tentar descobrir.

Os dois disseram não saber de nada. 

O feitor mandou-os em paz e disse ao ganhão que recomendasse à sua Florinda que tratasse bem do achado. 

Quanto à criança, caberia às autoridades dizer que destino teria.

Queria tudo legal e havia, agora, que descobrir quem abandonava assim um inocentezinho.

O Feitor deu voltas à cabeça e não chegou a qualquer conclusão. 

Fez perguntas a todos e, inclusivamente, ofereceu e mandou oferecer, uma choruda recompensa a quem fosse capaz de indicar pai, ou mãe, que tivessem abandonado o infeliz. 

Deu garantias de perdão a quem se acusasse e confessasse o seu acto, mas, nada.

Por sua conta, o feitor seguiu várias pistas: 

Os ciganos que por ali acamparam, uns pares de semanas, desapareceram naquela manhã. Porém nenhuma cigana foi vista de barriga e as feições do menino não apontavam nesse sentido. 

A notícia da recompensa prometida pelo feitor, foi espalhada pelos ciganos e nunca ninguém foi reclamar nada.

Uma mulher, desconhecida nas redondezas, com uma barriga suspeita, mas não aparentando gravidez, foi vista perto do Monte e desapareceu, dois dias antes. 

Veio notícia de outro Monte próximo que essa mulher, procurou trabalho e foi aceite lá.

Uma pastora, de meia-idade, que andou metida com o Chico das cabras, parecia mais gorda nos últimos tempos que por ali andou. Despediu-se e desapareceu. 

Havia uns quinze dias que ninguém dera fé dela e o próprio Chico, apertado pelo feitor, não se desmanchou e jurou que ela tinha ido com um ambulante da feira, que lhe prometeu mundos e fundos e a levou com ele. 

E, que soubesse, a pastora não estava prenha, nem nunca estivera, depois que a conhecera. Mas como desapareceu sem deixar rasto…

Das mulheres do Monte, nenhuma apresentava barriga que justificasse parir, ou estar de esperanças, pelo que o Feitor, senhor Jerónimo, olhando a mulher, Emília do Ó, bem nos olhos, disse-lhe, ao serão: 

Parece-me que não se vai desfazer o mistério; ninguém sabe nada, ou se sabe não quer dizer, porque se alguém soubesse e quisesse, já teria vindo reclamar os quinze contos de réis que prometi a quem desfaça a meada. 

Mas o infeliz, não há-de crescer sem pai e mãe e temos aqui ocasião de aceitar do Destino o que a Natureza nunca nos quis dar. Se estiveres de acordo… 

Oh! Homem, mas eu não penso noutra coisa desde que foi encontrada a criança. Até já fiz promessas se não se descobrir quem abandonou o menino. É claro que será “Jerolme”, como o pai e terá a mãe Emília do Ó. 

Fala às autoridades e mete o dr. Angelino a mexer já os papéis para que tudo seja legal. Terá de ser baptizado quanto antes, não vá o diabo tecê-las.

A conselho do dr. Angelino, foi feito o registo do menino a quem foi dado o nome de Jerónimo do Ó Ventinhas Pé-Curto. 

Quanto ao local e data do nascimento, bem como filiação, o feitor deixou tudo aos cuidados do Advogado e Conservador, para que o menino passasse a ser, oficialmente, seu filho e da sua mulher Emília. 

E assim foi feito, em meados de Maio de trinta e dois, no Registo de Portel.

O “Jerolme” do Ó, cresceu, fez-se uma criança forte e saudável, distinguiu-se na escola como um dos melhores alunos do prof. Américo, aprendeu a andar a cavalo ainda menino e, querido de todos no Monde dos Ciprestes. 

Já rapazote e depois estudante de Veterinária, em Lisboa, nunca deixou de passar férias no Monte. 

Conhecia todos os trabalhadores e nunca deixava de salvar, quando era saudado.

Acabou por casar com a herdeira do Monte dos Ciprestes e sempre ali teve casa, mesmo depois de ter de mandar os cinco filhos, com a mãe, para Lisboa, onde podiam continuar os estudos.

Durante toda a vida, o Chico das cabras nunca deixou faltar em casa do senhor feitor, os bons cabritos, os melhores queijos e o melhor leite das redondezas, como ele não se cansava de dizer. 

Várias vezes acompanhou o sr. dr. Veterinário nas vacinações do gado e seguiu, sempre, com orgulho e comoção as cavalgadas e torneios em que participava o menino Jerolminho, depois sr. doutor.

Até que um dia…chegou a notícia de que nos fundos do figueiral, nos confins da herdade de baixo, o Chico das cabras se pendurara numa corda. 

O senhor feitor, sentiu um baque no coração e, já de avançada idade, pediu que o levassem ao local, pois queria ver e analisar o ocorrido, antes de avisar o dr. Jerónimo, já médico veterinário, pai dos seus netos e dono das herdades do Monte dos Ciprestes.

Mandou parar a charrete e apeou-se, junto do enforcado. 

Abriu-lhe uma das mãos e retirou um papel pardo, enrolado, que meteu no bolso do colete. 

Reparou que a outra mão do morto apontava para o chão, onde pôde observar os contornos de uma campa. 

Baixou a cabeça, respeitosamente, e mandou que depois de seguidos os preceitos legais, uma vez que o Chico não podia ser enterrado em terra benzida, do cemitério, por ter posto fim à vida, devia ser enterrado ali, debaixo daquela figueira.

Depois, já em casa, leu o papel que alguém escreveu ao Chico das cabras: 

Agradeço ao senhor “Jerolme” e sua defunta mulher, tudo o que fizeram pelo nosso menino; meu, porque o fiz e vosso porque o criaram, estimaram como filho e fizeram homem. 

Peço perdão pelas juras falsas que lhe fiz quando me perguntou se sabia alguma coisa sobre a pastora dos patos – a mãe do nosso menino - que morreu ao parir e está enterrada aqui debaixo desta figueira. 

O último favor é que me mande enterrar aqui junto da pastora e nunca revele ao nosso menino quem foram os pais que o geraram. 

Ele, um dia, há-de encontrar-nos, para nos perdoar. 





segunda-feira, 21 de julho de 2014

O barqueiro "Lérias"





O António da Costa, mais - e quase só - conhecido pelo "Lérias", tal como seu pai e avô já tinham sido, nasceu e cresceu nas margens do Tejo, entre os Engarnais e o Pego, nuns casebres, onde vivia com os seus e não longe do seu barco que transportou de tudo, desde pessoas a animais, passando por todo o género de artigos, entre as duas margens do grande rio Tejo.

Desde que se conhecia, há perto de sessenta anos, sempre fora barqueiro e, a qualquer hora do dia ou da noite, chovesse ou trovejasse, não se lembrava de alguma vez ter recusado um frete a qualquer pessoa que lho pedisse. 

Bastavam dois assobios para que, nos minutos seguintes, aparecesse o ''Lérias'', muitas vezes ainda a apertar as ceroulas, que depois aforraria, e, logo a seguir, desamarrasse o barco e o trouxesse para junto do pequeno cais de pedras. 

Limpava a água que estivesse no chão, carregava mercadorias e animais e ajudava pessoas a acomodar-se a bordo. 

Pegava, depois, nos remos, ou na vara, com que dirigia e empurrava o barco, avançava contra a corrente até tomar o ponto de onde mais facilmente chegaria ao outro lado, cerca de quatro minutos depois.

Ajudava a descarregar. Sentava-se no poial que seus antepassados ali tinham preparado, acabava de fumar a cigarrada e iniciava a viagem de regresso. 

Não havia horas; estava sempre de serviço; dois assobios e começava o trabalho, de acordo com o local onde estivesse o cliente que chamava.

O único vício que se lhe conhecia e que não fazia qualquer esforço para abandonar, era o tabaquito. 

Não se lembrava de alguma vez ter ido ao lado do Pego, buscar ou levar alguém, sem fazer um paivante, sentado no poial de pedras, antes de iniciar o regresso. 

Dizia, com a laracha que caracterizava as suas saídas, que quando levasse alguém sem a sua cigarrada, esse, nunca mais lhe daria trabalho. 

E, muito sério, acrescentava: "palavras do meu avô que Deus tem".

Uma das melhores prendas que se podiam oferecer ao "Lérias" era uma onça de tabaco "Superior", mas sem livro de mortalhas; essas vinham de Espanha. 

Desde que usava aquelas mortalhas, nunca a tosse o apoquentou, dizia ele.

Cada pitilho, formado por uma pitada de tabaco, tirado da onça com uma pinça feita pelo polegar e indicador da mão direita, enrolada na mortalha espanhola, e colada com o cuspo da ponta da língua, dava para três ou quatro fumaças. 

Vício de boca, pois nunca engoli o fumo, como o ''Lérias''repetia, vezes sem conta.

Até no dia em que fui levar a "patroa", já em trabalho de parto, para ser conduzida ao hospital, enquanto a aconchegavam no barco, preparei a cigarrada e puxei-lhe fogo. 

Talvez por isso, o meu filho, a quem pus o nome "Tejo", acabou por me nascer para lá do meio do rio.

Histórias!. ..

E lá vinham as prosas que umas vezes entretinham, outras distraiam e, até cansariam alguns fregueses. 

O "Lérias" contava as histórias conforme a cara dos passageiros, mas também sabia ouvir e apreciava uma boa passagem; minava-se por galgas bem metidas. 

Deliciava-se com a inocência de certas pessoas, mas nunca faltava ao respeito a ninguém e dentro do seu barco, onde era capitão e autoridade suprema, como ele orgulhosamente se intitulava, não permitia espertezas saloias, nem desrespeito pelos mais humildes.

Contava ele, então:

Um belo dia, tinha no cais a senhora professora dos Casais e um conhecido doutor advogado, de Abrantes, para serem transportados para o outro lado. 

Depois do paivante da ordem, ajudei a senhora a subir e a acomodar-se no barco; o doutor sentou-se em frente da professora.

Não sei porquê, naquele dia não me estava a apetecer fazer jus ao meu nome - lérias - e mais cabisbaixo que o costume, lá ia manejando remos e vara, sem me meter com ninguém.

Nisto, o espevitado do doutor, com ares de sabichão, atirou, à queima-roupa:

Oh! "Lérias", você sabe alguma coisa de leis?

Eu, senhor doutor advogado, como houvera de saber! Nunca as estudei, nem, precisei delas para nada!...

Não é isso, homem! É que você acabou por perder metade da sua vida!...

Eu, encolhi os ombros e continuei a remar. 

Mas a seguir, dando uma de finória, disse-me a professora:

Oh, senhor "Lérias", você nunca foi à escola, pois não?

É verdade, senhora professora! 

Desde que me conheço a minha escola é esta: o rio, o meu barco, o meu serviço e a minha família. De resto ...

Então não sabe ler nem escrever!?

Pois não, minha senhora! Mas, graças a Deus, o meu barco não deixa de andar por falta disso!...

A verdade é que perdeu, sem proveito, metade da sua vida!...

Aí por alturas do meio do rio, onde a água faz uma pequena gola e corre mais forte, penso que por terem feito uma descarga na barragem, veio uma onda, maior que o normal, e o barco virou-se, caindo os passageiros para a água, ficando agarrados a uns juncos, não longe do barco.

Ao ver a professora e o advogado, esbracejando no meio da água, perguntei: 

Vocês sabem nadar?

Não! Responderam os dois; Tire-nos daqui, homem de Deus, senão ainda morremos para aqui afogados!

Aí, cá o "Lérias", percebendo que o perigo era nulo e tudo não passaria de roupa molhada e um pequeno susto, voltou-se para "ambos os dois"e disse:

Que pena, acabariam perdendo a vida os dois, por nunca terem aprendido a nadar! 

Isto, se aqui o morto que nada conhece de leis, nem nunca aprendeu a ler e escrever, não ressuscitasse para vos salvar!

E, já de novo dentro do barco, ao chegar ao local de descida, ainda o "Lérias", que aqui vêm e a terra há-de comer, acrescentou:

Cada um é para o que nasce e tem, no seu campo, tanto ou mais valor que qualquer outro terá no seu meio. 

Não se deve discriminar ninguém. Saber mais ou saber menos, não deve servir para diminuir ninguém. 

E, lembro-me dos ensinamentos do meu avô:

Os que mais sabem, são, na maior parte das vezes, os que menos dizem. Pelo contrário, o fala-barato, que nunca se cala, fá-lo para esconder o que não sabe.

A humildade é muito bonita e eu gosto de vê-la praticar: não aos simples como eu, mas aos que julgam ser o que não são e acabam caindo do andor.

O meu avô falava em heróis e santos com pés de barro... mas confesso que dessas histórias já não me lembro bem!...

E também não interessam aos senhores que sabem muito mais do que eu.

Vão com Deus e desculpem lá o mau jeito!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O"cornel" Isidoro

 Era finório, o Isidoro! 

Não havia, nas redondezas, quem se lhe comparasse a imitar um casal de perdizes, na altura do acasalamento, ou uma lebre, nas ocasiões do cio. 

Apanhava pássaros, à mão, e pescava sem rede nem anzol. 

Órfão de mãe e sem pai conhecido, vivia com o avô, nos casebres das azenhas da ribeira do Verdigal, já a caminho de Mouriscas.

Era companhia desejada por todos os caçadores. 

A bater mato e a descobrir tocas, ninguém o batia e a seguir pistas, tinha mais faro que qualquer cão bem dotado. 

Sempre que podia fugia ao avô e aparecia, depois, com três ou quatro peças de caça, ou um junco, da ribeira, cheio de peixes.

Nascido e criado lá nos casebres das azenhas do avô, nunca soube fazer muito mais que abrir e fechar águas, remendar buracos nos açudes e cômoros das levadas, ligar e desligar rodízios e, embora pouco sabendo de contas, fazia, rigorosamente, as maquias dos taleigos. 

Tinha uma sensibilidade muito especial, segundo as palavras do avô, para picar as pedras das azenhas. 

Desde pequeno que o rapaz tratava das pedras da farinha triga e todas as freguesas gabavam a farinha moída por elas.

Completava o grupo um velho burrito - o cornel -, que distribuía os taleigos de farinha e transportava, no retorno à azenha, as sacas de grão para moer. 

Fazia cinco voltas por semana, habitualmente acompanhado pelo Isidoro, pois o velho Severino raras vezes saía dos limites dos moinhos. 

Eram, assim, poucos os dias em que o cornel não tinha de alombar com os taleigos e, escarrapachado sobre eles, o matulão do dono novo, que em termos de mimos era muito mais pródigo que o velho moleiro. 

A cacheira trabalhava muito mais, o tempo para ir tosando umas ervas era encurtado e, se o dono se lembrasse de ir até à ribeira pescar ou nadar, acabava por ficar carregado, preso a um pinheiro, muitas vezes ao sol, até que o soltassem para continuar caminho, até ao seu destino. 

Sorte de burro, pensaria resignado o cornel, na esperança que, um dia, a vida pudesse mudar. 

Às vezes suspirava pelo patrão velho, mas que havia de fazer!...

O cornel era manso como as pedras do chão, dizia o velho Severino. 

Porém era melhor guardar-lhe a traseira; pois se pressentisse algo ao seu alcance, por trás da rabada, mesmo carregado, levantava as  patas traseiras e lá vai disto: coice que acertasse era para fazer mossa! 

Mas, para mim, que me lembre, nunca levantou uma pata, sentenciava o velho moleiro.

A lei entre moço e cornel era bem clara: se se portasse às direitas, como lhe dizia o dono, comia, bebia água, levava uma ou outra cacheirada, mas muito raramente e tudo ia correndo bem. 

Se se armasse em vivo, se levantasse as patas para o dono, se mostrasse os dentes, ou se tentasse despejar a carga, era bordoada que fervia, sem dó nem piedade, ficando muitas vezes as marcas bem à vista, na cabeça, especialmente junto dos olhos.

Até as freguesas diziam: Ah! Isidoro, que se um dia o cornel te puder ser bom, vais pagá-las todas juntas! Podias tratar um pouco melhor o pobre animal! Mas espera-lhe pela pancada e talvez ainda venhas a ver a falta que te faz se um dia o não tiveres!

Ora, o burro é ele e quando se arma em esperto tem de saber por onde elas lhe doem, respondia, quando estava para aí virado, o Isidoro.

Um dia de fins de inverno, depois de semanas de chuva, com os caminhos para os engenhos cheios de lama e algumas barreiras caídas, impedindo a passagem nas zonas mais estreitas, o Isidoro, a pé, atrás do animal, reparou que tinha carregado de mais para as condições do caminho, mas que aguentasse e, lá ia desfechando umas cacheiradas sobre o lombo do cornel.

Numa passagem mais estreita do caminho, ao desviar-se de umas pedras caídas, o animal colocou uma pata em falso e caiu para um barranco, espalhando os taleigos e não conseguindo libertar-se a ponto de sair do buraco. 

Os puxões pela arreata e as ajudas do rapaz, foram insuficientes para fazer voltar o cornel ao caminho. 

Mais não restou ao Isidoro que ir chamar o avô a ver o que poderiam fazer, para salvar taleigos e burro.

Chegados ao local, encontraram os taleigos todos espalhados pelo chão, restos da albarda e do cabresto, mas do burro, nem sinais. 

Procuraram nas imediações, seguiram pistas de pegadas, olharam em redor, até onde podiam alcançar e nada. 

Foram até ao povo e perguntaram a quem encontraram e tudo em vão. 

Ninguém dera pelo burro nem vira quaisquer sinais dele. 

Regressaram às azenhas, ainda com alguma esperança de que o animal se tivesse libertado e puxasse à malhada, mas não havia mais nada a fazer senão ir pedir uma besta emprestada, recolher os taleigos e começar na distribuição, até que o tempo se encarregasse de fazer aparecer o cornel, ou alguém desse notícias dele. 

Foram passando os tempos; o Ti'Severino comprou outro burro a que acabou por pôr o nome de "major" até que fizesse o tempo suficiente para ser cornel se merecesse ser promovido. 

O avô mandou o Isidoro às feiras de gados das redondezas, acercar-se e revistar acampamentos de ciganos, e chamando, disfarçadamente, o nome "cornel" quando passava por algum burro, mas tudo tempo perdido. 

Do burrito, nem novas, nem mandados.

Até que um dia, um pedinte que passava habitualmente pela aldeia, e sabia do desaparecimento do burrito, foi procurar o moleiro e disse-lhe que na feira de Santa Cita, a muitos quilómetros dali, lá para os lados de Tomar, ouviu um cigano a vender um burro, que disse ter encontrado para os lados de Alcaravela, sem arreios nem cabresto, mas manso como as pedras do chão. 

Não sabia como se chamava mas só o venderia a quem fosse de terras de sentido contrário, como medida de segurança. 

O que queria era negociá-lo para bem longe e tinha pressa no negócio, pelo que aceitava vinte notas e não se falava mais nisso. 

Jurava, à fé de quem era, que o burro não fora roubado.

Numa feira de Abrantes, o Isidoro, já homem e dono dos engenhos - o velho avô já o tinha deixado -, viu um burrito e, de repente, alguma coisa lhe fez lembrar o cornel. 

Só que o achava mais novo; mas os ciganos fazem do velho novo e também o contrário, quando lhes convém e foi chamar um parente para o ajudar nos entretantos de um possível negócio. 

Começaram por qualidades, defeitos, força, idade, enfim tudo o normal para avaliar uma besta. 

Quando o Manel lhe garantiu que o burro tinha entre doze e quinze anos, o Isidoro que pouco conhecia de números e contas pensou: 

Então se tem entre doze e quinze e o cornel desapareceu vai para cinco e já tinha mais de vinte e cinco em nossa casa, não é possível que seja ele.

Ao perceber aqueles pensamentos do parente, o Manel disse-lhe: mesmo que encontrasses agora o teu burro não te serviria para nada: se estiver vivo há-de ter mais de trinta e cinco anos - para que quererias um animal tão velho; para teres, daqui a alguns dias, o trabalho de enterrá-lo?

O que te dói, sei eu: tratava-lo mal, mas ainda foi o melhor que tiveste e como castigo nunca conseguiste livrar-te das culpas do seu desaparecimento. 

Deixa lá que com o tempo tudo passa e hás-de deixar de pensar no pobre burro.

Das três alcunhas que mimoseavam o moleiro, uma só o incomodava e tirava do sério, sempre que lhe chegava aos ouvidos: "cornel Isidoro". 

Muitas das mágoas que afogava nas tabernas das terras por onde ia entregando os taleigos eram mais penosas quando alguém lhe tocava no assunto. 

Acabou por ser encontrado, sem vida, sobre o catre onde passava as noites, com os restos do cabresto do velho burrito, à cabeceira.