quarta-feira, 30 de julho de 2014

O "Jerolminho"


A calma e quietude do Monte dos Ciprestes foi agitada por um burburinho e estranho corrupio das três, ou quatro, mulheres que, nessa tarde, ali estavam.

Quando viram o ganhão, que cuidava dos porcos, sair do celeiro, com qualquer coisa embrulhada numa saca, chamando pelo Ti’Chico, em altos gritos, e entrando na casa do capataz Manel Canhoto, gerou-se uma autêntica roda-viva.

As mulheres não pararam mais e, cada uma por seu lado, haviam de dar fé de tudo o que se passasse. 

E foi assim que todos presenciaram o estranho achado que o porqueiro transportava para fora do celeiro:

A chorar, a bons pulmões, estava ali, nuzinho como nascera pouco tempo antes, um menino, abrindo a boquita e movendo a cabeça, procurando um peito para mamar. 

Olharam uns para os outros e foi a Zefa que saíu em passo apertado, na direcção da casa do maioral, chamando pela Amélia que tinha uma criança de leite e podia, por isso, valer ao anjinho que dava sinais de fome e frio.

Veio também a Ti’Rita Ramalheta, comadre de serviço nos partos lá do Monte. 

Tratou da criança, lavando-a, verificando o aperto do baraço que atava o cordão do umbigo e vestindo-lhe o casaquito que a Amélia acabava de trazer. 

Embrulhou o anjinho no xaile, que trazia nos ombros e deu-o à Amélia para que lhe desse o peito.

Veio, finalmente, o sossego; logo interrompido pelas perguntas do Ti’Manel Canhoto que, olhando em redor, encarou o ganhão dos porcos e quis saber as circunstâncias de tão estranho achado.

Muito simples, Ti’Manel; ouvi chorar lá para os fundos do celeiro e quando cheguei ao pé do monte das sacas de fava, vi esta encomendinha e trouxe-a. 

Ainda olhei à volta, espreitei para todos os lados, escutei, perguntei se estava alguém e, nada.

E, algum dos presentes conhece o dono, ou dona, destes trapos que embrulham a criança? Perguntou, ainda, o Ti’Manel. 

Porém, ninguém se acusou e, já na presença da mulher, Ti’Florinda, foram todos mandados para o trabalho, ficando a criança aos cuidados do capataz e da Amélia, que lhe daria mama.

Pelo fim da tarde, veio o senhor feitor, que se deslocara à vila, tratar de negócios. 

Ao ser posto ao corrente do sucedido, chamou a sua casa o capataz 
e o ganhão e perguntou se sabiam quem poderia ser o pai, ou mãe da criança, ou se faziam alguma ideia por onde haviam de tentar descobrir.

Os dois disseram não saber de nada. 

O feitor mandou-os em paz e disse ao ganhão que recomendasse à sua Florinda que tratasse bem do achado. 

Quanto à criança, caberia às autoridades dizer que destino teria.

Queria tudo legal e havia, agora, que descobrir quem abandonava assim um inocentezinho.

O Feitor deu voltas à cabeça e não chegou a qualquer conclusão. 

Fez perguntas a todos e, inclusivamente, ofereceu e mandou oferecer, uma choruda recompensa a quem fosse capaz de indicar pai, ou mãe, que tivessem abandonado o infeliz. 

Deu garantias de perdão a quem se acusasse e confessasse o seu acto, mas, nada.

Por sua conta, o feitor seguiu várias pistas: 

Os ciganos que por ali acamparam, uns pares de semanas, desapareceram naquela manhã. Porém nenhuma cigana foi vista de barriga e as feições do menino não apontavam nesse sentido. 

A notícia da recompensa prometida pelo feitor, foi espalhada pelos ciganos e nunca ninguém foi reclamar nada.

Uma mulher, desconhecida nas redondezas, com uma barriga suspeita, mas não aparentando gravidez, foi vista perto do Monte e desapareceu, dois dias antes. 

Veio notícia de outro Monte próximo que essa mulher, procurou trabalho e foi aceite lá.

Uma pastora, de meia-idade, que andou metida com o Chico das cabras, parecia mais gorda nos últimos tempos que por ali andou. Despediu-se e desapareceu. 

Havia uns quinze dias que ninguém dera fé dela e o próprio Chico, apertado pelo feitor, não se desmanchou e jurou que ela tinha ido com um ambulante da feira, que lhe prometeu mundos e fundos e a levou com ele. 

E, que soubesse, a pastora não estava prenha, nem nunca estivera, depois que a conhecera. Mas como desapareceu sem deixar rasto…

Das mulheres do Monte, nenhuma apresentava barriga que justificasse parir, ou estar de esperanças, pelo que o Feitor, senhor Jerónimo, olhando a mulher, Emília do Ó, bem nos olhos, disse-lhe, ao serão: 

Parece-me que não se vai desfazer o mistério; ninguém sabe nada, ou se sabe não quer dizer, porque se alguém soubesse e quisesse, já teria vindo reclamar os quinze contos de réis que prometi a quem desfaça a meada. 

Mas o infeliz, não há-de crescer sem pai e mãe e temos aqui ocasião de aceitar do Destino o que a Natureza nunca nos quis dar. Se estiveres de acordo… 

Oh! Homem, mas eu não penso noutra coisa desde que foi encontrada a criança. Até já fiz promessas se não se descobrir quem abandonou o menino. É claro que será “Jerolme”, como o pai e terá a mãe Emília do Ó. 

Fala às autoridades e mete o dr. Angelino a mexer já os papéis para que tudo seja legal. Terá de ser baptizado quanto antes, não vá o diabo tecê-las.

A conselho do dr. Angelino, foi feito o registo do menino a quem foi dado o nome de Jerónimo do Ó Ventinhas Pé-Curto. 

Quanto ao local e data do nascimento, bem como filiação, o feitor deixou tudo aos cuidados do Advogado e Conservador, para que o menino passasse a ser, oficialmente, seu filho e da sua mulher Emília. 

E assim foi feito, em meados de Maio de trinta e dois, no Registo de Portel.

O “Jerolme” do Ó, cresceu, fez-se uma criança forte e saudável, distinguiu-se na escola como um dos melhores alunos do prof. Américo, aprendeu a andar a cavalo ainda menino e, querido de todos no Monde dos Ciprestes. 

Já rapazote e depois estudante de Veterinária, em Lisboa, nunca deixou de passar férias no Monte. 

Conhecia todos os trabalhadores e nunca deixava de salvar, quando era saudado.

Acabou por casar com a herdeira do Monte dos Ciprestes e sempre ali teve casa, mesmo depois de ter de mandar os cinco filhos, com a mãe, para Lisboa, onde podiam continuar os estudos.

Durante toda a vida, o Chico das cabras nunca deixou faltar em casa do senhor feitor, os bons cabritos, os melhores queijos e o melhor leite das redondezas, como ele não se cansava de dizer. 

Várias vezes acompanhou o sr. dr. Veterinário nas vacinações do gado e seguiu, sempre, com orgulho e comoção as cavalgadas e torneios em que participava o menino Jerolminho, depois sr. doutor.

Até que um dia…chegou a notícia de que nos fundos do figueiral, nos confins da herdade de baixo, o Chico das cabras se pendurara numa corda. 

O senhor feitor, sentiu um baque no coração e, já de avançada idade, pediu que o levassem ao local, pois queria ver e analisar o ocorrido, antes de avisar o dr. Jerónimo, já médico veterinário, pai dos seus netos e dono das herdades do Monte dos Ciprestes.

Mandou parar a charrete e apeou-se, junto do enforcado. 

Abriu-lhe uma das mãos e retirou um papel pardo, enrolado, que meteu no bolso do colete. 

Reparou que a outra mão do morto apontava para o chão, onde pôde observar os contornos de uma campa. 

Baixou a cabeça, respeitosamente, e mandou que depois de seguidos os preceitos legais, uma vez que o Chico não podia ser enterrado em terra benzida, do cemitério, por ter posto fim à vida, devia ser enterrado ali, debaixo daquela figueira.

Depois, já em casa, leu o papel que alguém escreveu ao Chico das cabras: 

Agradeço ao senhor “Jerolme” e sua defunta mulher, tudo o que fizeram pelo nosso menino; meu, porque o fiz e vosso porque o criaram, estimaram como filho e fizeram homem. 

Peço perdão pelas juras falsas que lhe fiz quando me perguntou se sabia alguma coisa sobre a pastora dos patos – a mãe do nosso menino - que morreu ao parir e está enterrada aqui debaixo desta figueira. 

O último favor é que me mande enterrar aqui junto da pastora e nunca revele ao nosso menino quem foram os pais que o geraram. 

Ele, um dia, há-de encontrar-nos, para nos perdoar. 





segunda-feira, 21 de julho de 2014

O barqueiro "Lérias"





O António da Costa, mais - e quase só - conhecido pelo "Lérias", tal como seu pai e avô já tinham sido, nasceu e cresceu nas margens do Tejo, entre os Engarnais e o Pego, nuns casebres, onde vivia com os seus e não longe do seu barco que transportou de tudo, desde pessoas a animais, passando por todo o género de artigos, entre as duas margens do grande rio Tejo.

Desde que se conhecia, há perto de sessenta anos, sempre fora barqueiro e, a qualquer hora do dia ou da noite, chovesse ou trovejasse, não se lembrava de alguma vez ter recusado um frete a qualquer pessoa que lho pedisse. 

Bastavam dois assobios para que, nos minutos seguintes, aparecesse o ''Lérias'', muitas vezes ainda a apertar as ceroulas, que depois aforraria, e, logo a seguir, desamarrasse o barco e o trouxesse para junto do pequeno cais de pedras. 

Limpava a água que estivesse no chão, carregava mercadorias e animais e ajudava pessoas a acomodar-se a bordo. 

Pegava, depois, nos remos, ou na vara, com que dirigia e empurrava o barco, avançava contra a corrente até tomar o ponto de onde mais facilmente chegaria ao outro lado, cerca de quatro minutos depois.

Ajudava a descarregar. Sentava-se no poial que seus antepassados ali tinham preparado, acabava de fumar a cigarrada e iniciava a viagem de regresso. 

Não havia horas; estava sempre de serviço; dois assobios e começava o trabalho, de acordo com o local onde estivesse o cliente que chamava.

O único vício que se lhe conhecia e que não fazia qualquer esforço para abandonar, era o tabaquito. 

Não se lembrava de alguma vez ter ido ao lado do Pego, buscar ou levar alguém, sem fazer um paivante, sentado no poial de pedras, antes de iniciar o regresso. 

Dizia, com a laracha que caracterizava as suas saídas, que quando levasse alguém sem a sua cigarrada, esse, nunca mais lhe daria trabalho. 

E, muito sério, acrescentava: "palavras do meu avô que Deus tem".

Uma das melhores prendas que se podiam oferecer ao "Lérias" era uma onça de tabaco "Superior", mas sem livro de mortalhas; essas vinham de Espanha. 

Desde que usava aquelas mortalhas, nunca a tosse o apoquentou, dizia ele.

Cada pitilho, formado por uma pitada de tabaco, tirado da onça com uma pinça feita pelo polegar e indicador da mão direita, enrolada na mortalha espanhola, e colada com o cuspo da ponta da língua, dava para três ou quatro fumaças. 

Vício de boca, pois nunca engoli o fumo, como o ''Lérias''repetia, vezes sem conta.

Até no dia em que fui levar a "patroa", já em trabalho de parto, para ser conduzida ao hospital, enquanto a aconchegavam no barco, preparei a cigarrada e puxei-lhe fogo. 

Talvez por isso, o meu filho, a quem pus o nome "Tejo", acabou por me nascer para lá do meio do rio.

Histórias!. ..

E lá vinham as prosas que umas vezes entretinham, outras distraiam e, até cansariam alguns fregueses. 

O "Lérias" contava as histórias conforme a cara dos passageiros, mas também sabia ouvir e apreciava uma boa passagem; minava-se por galgas bem metidas. 

Deliciava-se com a inocência de certas pessoas, mas nunca faltava ao respeito a ninguém e dentro do seu barco, onde era capitão e autoridade suprema, como ele orgulhosamente se intitulava, não permitia espertezas saloias, nem desrespeito pelos mais humildes.

Contava ele, então:

Um belo dia, tinha no cais a senhora professora dos Casais e um conhecido doutor advogado, de Abrantes, para serem transportados para o outro lado. 

Depois do paivante da ordem, ajudei a senhora a subir e a acomodar-se no barco; o doutor sentou-se em frente da professora.

Não sei porquê, naquele dia não me estava a apetecer fazer jus ao meu nome - lérias - e mais cabisbaixo que o costume, lá ia manejando remos e vara, sem me meter com ninguém.

Nisto, o espevitado do doutor, com ares de sabichão, atirou, à queima-roupa:

Oh! "Lérias", você sabe alguma coisa de leis?

Eu, senhor doutor advogado, como houvera de saber! Nunca as estudei, nem, precisei delas para nada!...

Não é isso, homem! É que você acabou por perder metade da sua vida!...

Eu, encolhi os ombros e continuei a remar. 

Mas a seguir, dando uma de finória, disse-me a professora:

Oh, senhor "Lérias", você nunca foi à escola, pois não?

É verdade, senhora professora! 

Desde que me conheço a minha escola é esta: o rio, o meu barco, o meu serviço e a minha família. De resto ...

Então não sabe ler nem escrever!?

Pois não, minha senhora! Mas, graças a Deus, o meu barco não deixa de andar por falta disso!...

A verdade é que perdeu, sem proveito, metade da sua vida!...

Aí por alturas do meio do rio, onde a água faz uma pequena gola e corre mais forte, penso que por terem feito uma descarga na barragem, veio uma onda, maior que o normal, e o barco virou-se, caindo os passageiros para a água, ficando agarrados a uns juncos, não longe do barco.

Ao ver a professora e o advogado, esbracejando no meio da água, perguntei: 

Vocês sabem nadar?

Não! Responderam os dois; Tire-nos daqui, homem de Deus, senão ainda morremos para aqui afogados!

Aí, cá o "Lérias", percebendo que o perigo era nulo e tudo não passaria de roupa molhada e um pequeno susto, voltou-se para "ambos os dois"e disse:

Que pena, acabariam perdendo a vida os dois, por nunca terem aprendido a nadar! 

Isto, se aqui o morto que nada conhece de leis, nem nunca aprendeu a ler e escrever, não ressuscitasse para vos salvar!

E, já de novo dentro do barco, ao chegar ao local de descida, ainda o "Lérias", que aqui vêm e a terra há-de comer, acrescentou:

Cada um é para o que nasce e tem, no seu campo, tanto ou mais valor que qualquer outro terá no seu meio. 

Não se deve discriminar ninguém. Saber mais ou saber menos, não deve servir para diminuir ninguém. 

E, lembro-me dos ensinamentos do meu avô:

Os que mais sabem, são, na maior parte das vezes, os que menos dizem. Pelo contrário, o fala-barato, que nunca se cala, fá-lo para esconder o que não sabe.

A humildade é muito bonita e eu gosto de vê-la praticar: não aos simples como eu, mas aos que julgam ser o que não são e acabam caindo do andor.

O meu avô falava em heróis e santos com pés de barro... mas confesso que dessas histórias já não me lembro bem!...

E também não interessam aos senhores que sabem muito mais do que eu.

Vão com Deus e desculpem lá o mau jeito!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O"cornel" Isidoro

 Era finório, o Isidoro! 

Não havia, nas redondezas, quem se lhe comparasse a imitar um casal de perdizes, na altura do acasalamento, ou uma lebre, nas ocasiões do cio. 

Apanhava pássaros, à mão, e pescava sem rede nem anzol. 

Órfão de mãe e sem pai conhecido, vivia com o avô, nos casebres das azenhas da ribeira do Verdigal, já a caminho de Mouriscas.

Era companhia desejada por todos os caçadores. 

A bater mato e a descobrir tocas, ninguém o batia e a seguir pistas, tinha mais faro que qualquer cão bem dotado. 

Sempre que podia fugia ao avô e aparecia, depois, com três ou quatro peças de caça, ou um junco, da ribeira, cheio de peixes.

Nascido e criado lá nos casebres das azenhas do avô, nunca soube fazer muito mais que abrir e fechar águas, remendar buracos nos açudes e cômoros das levadas, ligar e desligar rodízios e, embora pouco sabendo de contas, fazia, rigorosamente, as maquias dos taleigos. 

Tinha uma sensibilidade muito especial, segundo as palavras do avô, para picar as pedras das azenhas. 

Desde pequeno que o rapaz tratava das pedras da farinha triga e todas as freguesas gabavam a farinha moída por elas.

Completava o grupo um velho burrito - o cornel -, que distribuía os taleigos de farinha e transportava, no retorno à azenha, as sacas de grão para moer. 

Fazia cinco voltas por semana, habitualmente acompanhado pelo Isidoro, pois o velho Severino raras vezes saía dos limites dos moinhos. 

Eram, assim, poucos os dias em que o cornel não tinha de alombar com os taleigos e, escarrapachado sobre eles, o matulão do dono novo, que em termos de mimos era muito mais pródigo que o velho moleiro. 

A cacheira trabalhava muito mais, o tempo para ir tosando umas ervas era encurtado e, se o dono se lembrasse de ir até à ribeira pescar ou nadar, acabava por ficar carregado, preso a um pinheiro, muitas vezes ao sol, até que o soltassem para continuar caminho, até ao seu destino. 

Sorte de burro, pensaria resignado o cornel, na esperança que, um dia, a vida pudesse mudar. 

Às vezes suspirava pelo patrão velho, mas que havia de fazer!...

O cornel era manso como as pedras do chão, dizia o velho Severino. 

Porém era melhor guardar-lhe a traseira; pois se pressentisse algo ao seu alcance, por trás da rabada, mesmo carregado, levantava as  patas traseiras e lá vai disto: coice que acertasse era para fazer mossa! 

Mas, para mim, que me lembre, nunca levantou uma pata, sentenciava o velho moleiro.

A lei entre moço e cornel era bem clara: se se portasse às direitas, como lhe dizia o dono, comia, bebia água, levava uma ou outra cacheirada, mas muito raramente e tudo ia correndo bem. 

Se se armasse em vivo, se levantasse as patas para o dono, se mostrasse os dentes, ou se tentasse despejar a carga, era bordoada que fervia, sem dó nem piedade, ficando muitas vezes as marcas bem à vista, na cabeça, especialmente junto dos olhos.

Até as freguesas diziam: Ah! Isidoro, que se um dia o cornel te puder ser bom, vais pagá-las todas juntas! Podias tratar um pouco melhor o pobre animal! Mas espera-lhe pela pancada e talvez ainda venhas a ver a falta que te faz se um dia o não tiveres!

Ora, o burro é ele e quando se arma em esperto tem de saber por onde elas lhe doem, respondia, quando estava para aí virado, o Isidoro.

Um dia de fins de inverno, depois de semanas de chuva, com os caminhos para os engenhos cheios de lama e algumas barreiras caídas, impedindo a passagem nas zonas mais estreitas, o Isidoro, a pé, atrás do animal, reparou que tinha carregado de mais para as condições do caminho, mas que aguentasse e, lá ia desfechando umas cacheiradas sobre o lombo do cornel.

Numa passagem mais estreita do caminho, ao desviar-se de umas pedras caídas, o animal colocou uma pata em falso e caiu para um barranco, espalhando os taleigos e não conseguindo libertar-se a ponto de sair do buraco. 

Os puxões pela arreata e as ajudas do rapaz, foram insuficientes para fazer voltar o cornel ao caminho. 

Mais não restou ao Isidoro que ir chamar o avô a ver o que poderiam fazer, para salvar taleigos e burro.

Chegados ao local, encontraram os taleigos todos espalhados pelo chão, restos da albarda e do cabresto, mas do burro, nem sinais. 

Procuraram nas imediações, seguiram pistas de pegadas, olharam em redor, até onde podiam alcançar e nada. 

Foram até ao povo e perguntaram a quem encontraram e tudo em vão. 

Ninguém dera pelo burro nem vira quaisquer sinais dele. 

Regressaram às azenhas, ainda com alguma esperança de que o animal se tivesse libertado e puxasse à malhada, mas não havia mais nada a fazer senão ir pedir uma besta emprestada, recolher os taleigos e começar na distribuição, até que o tempo se encarregasse de fazer aparecer o cornel, ou alguém desse notícias dele. 

Foram passando os tempos; o Ti'Severino comprou outro burro a que acabou por pôr o nome de "major" até que fizesse o tempo suficiente para ser cornel se merecesse ser promovido. 

O avô mandou o Isidoro às feiras de gados das redondezas, acercar-se e revistar acampamentos de ciganos, e chamando, disfarçadamente, o nome "cornel" quando passava por algum burro, mas tudo tempo perdido. 

Do burrito, nem novas, nem mandados.

Até que um dia, um pedinte que passava habitualmente pela aldeia, e sabia do desaparecimento do burrito, foi procurar o moleiro e disse-lhe que na feira de Santa Cita, a muitos quilómetros dali, lá para os lados de Tomar, ouviu um cigano a vender um burro, que disse ter encontrado para os lados de Alcaravela, sem arreios nem cabresto, mas manso como as pedras do chão. 

Não sabia como se chamava mas só o venderia a quem fosse de terras de sentido contrário, como medida de segurança. 

O que queria era negociá-lo para bem longe e tinha pressa no negócio, pelo que aceitava vinte notas e não se falava mais nisso. 

Jurava, à fé de quem era, que o burro não fora roubado.

Numa feira de Abrantes, o Isidoro, já homem e dono dos engenhos - o velho avô já o tinha deixado -, viu um burrito e, de repente, alguma coisa lhe fez lembrar o cornel. 

Só que o achava mais novo; mas os ciganos fazem do velho novo e também o contrário, quando lhes convém e foi chamar um parente para o ajudar nos entretantos de um possível negócio. 

Começaram por qualidades, defeitos, força, idade, enfim tudo o normal para avaliar uma besta. 

Quando o Manel lhe garantiu que o burro tinha entre doze e quinze anos, o Isidoro que pouco conhecia de números e contas pensou: 

Então se tem entre doze e quinze e o cornel desapareceu vai para cinco e já tinha mais de vinte e cinco em nossa casa, não é possível que seja ele.

Ao perceber aqueles pensamentos do parente, o Manel disse-lhe: mesmo que encontrasses agora o teu burro não te serviria para nada: se estiver vivo há-de ter mais de trinta e cinco anos - para que quererias um animal tão velho; para teres, daqui a alguns dias, o trabalho de enterrá-lo?

O que te dói, sei eu: tratava-lo mal, mas ainda foi o melhor que tiveste e como castigo nunca conseguiste livrar-te das culpas do seu desaparecimento. 

Deixa lá que com o tempo tudo passa e hás-de deixar de pensar no pobre burro.

Das três alcunhas que mimoseavam o moleiro, uma só o incomodava e tirava do sério, sempre que lhe chegava aos ouvidos: "cornel Isidoro". 

Muitas das mágoas que afogava nas tabernas das terras por onde ia entregando os taleigos eram mais penosas quando alguém lhe tocava no assunto. 

Acabou por ser encontrado, sem vida, sobre o catre onde passava as noites, com os restos do cabresto do velho burrito, à cabeceira.

domingo, 29 de junho de 2014

S. Barnabé


O Ti’Cavaco saía, alta madrugada, montado no macho, estrada de Almodôvar a baixo e, antes de entrar na vila, desviava à direita, embrenhando-se nos contrafortes da Serra do Caldeirão, à procura de mel, aguardente de medronho e o mais que aparecesse.

Passava entre as barragens de Monte dos Clérigos e Boavista, até às nascentes do rio Mira, do Arade e da Ribeira de Choupana, que também ali começam.

Entre as aldeias de Cansados e Felizes, circundava, pelo norte, as alturas da serra, onde está o talefe dos 577 metros, e tomava o caminho para S. Barnabé, onde chegava por volta do meio-dia.

Ia direito a casa do Ti’Chico da Azenha, em procura da melhor medronheira que alguma vez lhe passou pelo estreito. 

Com ele havia de ganhar uns bons dinheiros, mas o que mais lhe interessava era ter o melhor para dispensar aos clientes e amigos especiais. 

Passados quase quarenta anos tenho ainda, na minha casa, umas duas garrafas desse néctar, adquirido a cinco mil réis o litro, ou vinte e dois escudos e cinquenta centavos os cinco litros. 

Continua, ao fim de todos estes anos, um medronho divinal.

O Ti’Chico colhia o medronho, quando já pendia, muito bem maduro. 

Tinha duas talhas de uns dez almudes cada, onde preparava as infusões. 

A água era cuidadosamente apanhada, de manhã cedo, numa mina distante de tudo e certamente conhecida de muito poucos. 

As raízes das torgas, arrancadas no fim do inverno e secas, à sombra, nos cómodos da burra, eram o combustível ideal para manter constante o calor que aquecia a caldeira do velho alambique de cobre.

O engenho, era formado, além da caldeira, calafetada em pedras e cal, sobre uma fornalha com acesso por uma pequena porta, onde ardia a fogueira que fazia ferver a infusão. 

Do capelo saía o cano, em serpentina, que mergulhado no banho cheio de água fria, condensava os vapores, transformando-os na aguardente de medronho que caía para um cântaro, de barro, de uns vinte litros. 

Cada caldeira dava uns dois cântaros, da boa, e mais um, da mais fraca.

O Ti´Chico descrevia, com detalhe, a forma de trabalhar, mas… os segredos da colheita dos frutos, a recolha da água, o tempo de infusão, a apanha e tratamento das cepas das torgas e a temperatura a que pertencia guardar o néctar de príncipes e reis, como lhe chamava, só uma vez seriam revelados – cada pai passava o segredo ao filho mais velho, com a entrega de um tubo de cana grossa, fechado com uma rolha de cortiça e selado com sangue.

Contava o velhote: 

Um dia, há centos de anos, andando à caça, pelos altos da Serra, o Senhor Rei D. Duarte – aquele que tinha um irmão para lá de Lagos – matou um enorme javali e, tão contente ficou e viu os criados, que decretou que aquele lugar se passasse a chamar Felizes. 

E ainda assim se chama a aldeia.

Levada, por caminhos difíceis, a imponente presa, de tão pesada que era, deixava exaustos todos os serviçais, cujo chefe pediu uma pausa a sua majestade. 

O senhor D. Duarte autorizou a paragem e ordenou que ao local se passasse a chamar Cansados.

Seguindo dali, por um dos mais belos vales do Caldeirão, deu a comitiva com uma azenha, onde apenas vivia um velho moleiro ermitão que, ao ver tão importante figura, lhe ofereceu uma pichorra de medronheira, preparada por ele próprio e acabada de fazer.

El-Rei D. Duarte, sentado ali, naquele banquinho de azinho, encostado ao alambique, aproveitou o calorzinho das brasas de Torga e provou a nossa medronheira, que nunca mais deixou que faltasse nas festas da sua corte.

A esta azenha chamou o meu tetra … não sei quantos … avô, engenho d’El Rei, nome que nunca perdeu.

O santo do dia era Barnabé e, também, esse o nome do meu antepassado que recebeu Sua Majestade, que, ali mesmo, mandou que o lugar se chamasse, para sempre, S. Barnabé.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O gaseado da França


Depois da hora da sesta – que para ele se estendia por todo o ano – descia lá do Cimo de Casal e ia sentar-se no poial da Fonte Velha, aproveitando a sombra da ramagem e fetos, que lhe serviam de cobertura.

De tempos a tempos, levantava-se, chegava-se à bica e, com a mão em concha, bebia uns golos de água. 

Depois, voltava a sentar-se, com a cabeça entre as mãos, mal dando pelas mulheres que chegavam, davam a salvação e saíam com os cântaros cheios, à cabeça. 

Às vezes respondia, aos cumprimentos, já depois de ter ficado sozinho.

Os monólogos ininteligíveis que desenvolvia, eram verdadeiras cenas de representação, não difíceis de perceber, mesmo por quem nunca esteve nas trincheiras, ou nunca foi a uma guerra: quadros de verdadeiro terror, ilustrativos de um quotidiano dos tempos infindáveis, passados na frente de batalha, sob um terror indescritível e o receio constante que chegassem os alemães, ou viesse alguma coisa pelo ar que espalhasse chumbo, ou gases. 

Depois serenava, exausto, e como que em transe, reparava que o sol já lhe dava nos pés – sinal de que a tarde já ia adiantada -.

Levantava-se, ia de novo à bica da fonte, despedia-se, mesmo que estivesse sozinho, e saía, pelo caminho abaixo, até à rua das Oliveiras da Vinha e seguia até chegar às Casolas e atingir o largo das lojas. 

Na maior parte dos dias de semana encontrava o largo ermo e as lojas fechadas. 

Abririam mais junto ao pôr-do-sol, quando as pessoas começassem a voltar das hortas.

Ao canto do largo, debaixo da cabana do ti’António Lindo, sentava-se junto da pedra que os pedintes usavam como mesa de petiscos e os da terra para bater a sueca ou jogar o dominó. 

Esperava que viesse alguém para dar dois dedos de conversa e saber as novidades da terra, que pouco lhe interessariam, mas era o que havia.

À abertura da taberna do ti’Manel era, usualmente um dos primeiros a entrar. 

Bebia o seu pirolito, oferecia a quem estivesse e fazia sala até pouco depois do sol desaparecer. 

Com as despedidas para todos, voltava pela fonte, em sentido contrário, e chegava ao Cimo de Casal ainda com luz do dia.

A prima Cremilde já o esperava, com a tijela de sopa, uma peça de fruta e um pequeno naco de pão. 

Um púcaro de água e quatro comprimidos fechavam a refeição e ainda lusco-fusco já a prima lhe ajeitava a roupa da cama e se despedia, dirigindo-se à cozinha onde arrumava tudo, antes de se recolher ao seu quarto e dormir.

Raramente acendiam a lareira para se aquecerem e, nos dias mais frios duas botijas de água quente criavam o quentinho agradável de que o primo Zé tanto gostava. 

Era a sua única extravagância, coitadinho… acrescentava a velhota Cremilde, solteirona e só no mundo, além do primo a que só não faria mais, se não pudesse.

O meu primo tem de tomar todos os dias, de manhã e à noite, quatro remédios e, se um dia se esquecer, arrisca-se a não mais se lembrar, uma vez que pode não acordar na manhã do outro dia – dizia, muito senhora de si a velha Cremilde -, acrescentando que quer ela, quer ele, só se tinham um ao outro. 

Em nós a família acaba, pois os primos afastados, que temos, nem nos conhecem – nunca sequer vieram ver o José desde que veio de França.

Passados mais de dez anos desde a chegada do tio José, vindo de França, pouco se sabia sobre a vida que levara desde que, cinquenta anos antes, saíra da terra para ir assentar praça em Abrantes, sair dali para Portalegre e ir acabar em França, na Grande Guerra, incorporado no Corpo Expedicionário Português. 

Calculava-se que não tivesse morrido, pois nenhuma informação nesse sentido fora recebida pela família.

Chegou um dia, num carro de praça de Alferrarede, com um pequeno baú e duas malitas. 

Na loja, anunciou quem era e acabou por saber que todos os familiares directos tinham morrido e apenas a Cremilde, sua prima direita, estava viva e morava lá no Cimo de Casal, na casa que fora dos pais do José.

Enquanto alguém foi chamar a prima, não disse practicamente mais nada. 

Conversas de circunstância, cumprimentos deste ou daquele e acabou sabendo que do seu tempo poucos restavam na terra, pois a Cremilde, com mais uns três anos que ele, era das pessoas mais idosas da aldeia.

Chegada a velha Cremilde, seguiram-se abraços e mais abraços até que, seguidos de dois portadores a quem o Tio José pediu que levassem as malas, seguiram para o Cimo de Casal, onde morava a prima e onde iria instalar-se o primo. 

Sabes José, nunca casei, não tenho ninguém e agora que volto a ter o meu primo, não se pensa em mais nada: ficas no quarto onde nasceste e sempre estiveram teus pais e eu no outro, do lado.

Nos dias seguintes, depois de se inteirar do que o primo queria fazer, o que queria comer, que roupas trazia e que cuidados precisavam, falaram sobre coisas da terra e a Cremilde acabou por perceber que o primo via mal, tinha acentuada dificuldade em ouvir e mostrava bastante falta de memória. 

Quanto a saúde soube que tomava todos os dias quatro remédios de manhã e outros tantos à noite, mas só precisaria de ir consultar o médico no próximo mês, pois tinha feito exames poucos dias antes. 

Na altura própria chamaria um carro de praça para ir ao médico que, já lhe tinham recomendado: o dr. Santos Neves, de Abrantes. 

Aproveitaria para ao mesmo tempo ir ao Banco Ultramarino, onde deveria ir uma vez por mês, tratar da sua vida e dinheiros.

O certo é que, por onde andou, aprendeu a ler e escrever, criou modos que a vida até aí lhe não proporcionara e era respeitador e cortês para todos, quando a disposição e lucidez lhe permitiam. 

Em períodos de melancolia e excitação era mais difícil no trato e por isso pediu à prima que lhe desculpasse certos dias de mau humor e nervosismo. 

Eu te saberei recompensar pelos teus cuidados, prima!... Dizia-lhe o José quando se sentia pior.

A prima nunca teve grande curiosidade, nem se meteu nos assuntos do primo, mas espicaçada pelos parentes, foi levada a procurar o esconderijo do velhote e além do malão de madeira que estava debaixo da cama, começou a seguir os passos do primo quando ia baixar-se, para as necessidades, num cortelho, atrás da capoeira das galinhas. 

Um dia ouviu mexer numa caixa lá para trás, mas fazendo uma busca por lá não descobriu nada de anormal. Continuou à coca.

Passados uns tempos, o velho Zé teve um problema respiratório e ficou internado duas semanas no hospital de Abrantes. 

Numa visita da prima, segredou-lhe: Lá atrás das galinhas, por baixo da tábua, onde me vou baixar, há duas pedras que tapam um buraco na parede. 

Afasta uma das pedras, mete a mão no buraco e tira a caixa de folha que lá está. 

Tira seis notas do maço que está lá dentro, volta a fechar a caixa e coloca-a no mesmo sítio. 

Dá-as ao Abílio que me vem ver todas as semanas, pedindo que mas traga, quando cá voltar para me ver. E, bico calado, que eu cá saberei o destino a dar-lhe.

Na próxima vez que foi ao hospital o Abílio deu as seis notas de mil escudos ao velhote e ouviu o seu agradecimento, sem comentários. 

Mas o portador ficou com a pulga atrás da orelha: para que quereria o diabo do velho tanto dinheiro, ali numa cama de hospital? 

Ao tempo, seis contos de réis era muito dinheiro!... 

Quando saiu do hospital, chamou o Chefe e uma enfermeira que sempre o tratou e deu-lhes um conto de réis, para dividirem como entendessem e poderem tomar um café.

Quando a ambulância o trazia para casa, pediu ao motorista que passasse no quartel dos bombeiros, pois queria falar com o Chefe. 

Lá no quartel entregou ao Chefe uma nota de um conto de réis, dizendo: uma pequena prenda para os bombeiros que tão simpáticos têm sido para mim.

Chegado à terra, chamou a Cremilde e disse-lhe: 

Quero que compres uma saia, uma blusa, uma mantilha fina, uns sapatos de pelica, um lenço enramado e outra roupa que precises. Aqui tens dois contos de réis para isso e quero que com eles compres o melhor que encontrares. Se não chegar diz-me!... 

Valha-te Deus, homem, então por isso tudo não darei mais de uns duzentos mil réis; estás a dar-me dinheiro a mais e não te incomodes que também tenho umas pequenas economias. 

Faz o que te digo e guarda o que te sobrar.

Ah! Enquanto aqui estiver não quero que gastes um vintém do teu dinheiro; só tens que dizer-me tudo o que precisas.

Outra coisa: Vais dizer-me quem são as pessoas mais necessitadas da terra, mas que tratem bem mulheres e filhos, não se embebedem todos os dias e sejam amigos de prestar uma ajuda, quando ela for precisa. 

Tens tempo de pensar bem no assunto, pois estamos nos Santos e eu preciso dos nomes dessa gente no Natal. Até lá ninguém pode saber de nada. 

Dá estes dois contos ao Ti’Manel Cravo, para gastos da igreja e para dar ao sr. padre em pagamento de missas, rezadas por nossa intenção. E sabe-me se o sr. padre tem dificuldades e se o Mestre precisa de alguma coisa na casa da escola. 

Providencia, também, para que esteja sempre preparada a roupa que hei-de levar, na última viagem até ao Outeiro de S. Pedro, lá no Penhascoso.

Se eu for antes de ti, tudo o que tenho é para ti. Se for depois, eu saberei distribui-lo. 

Até lá, é conveniente que todos pensem que tenho só a reforma e que me lembrem, depois, como… O GASEADO DA FRANÇA…

domingo, 15 de junho de 2014

Festa do Sr. dos Aflitos


Durante uns quarenta anos não se fizeram as festas do Sr. dos Aflitos lá na Serra. 

Em meados dos anos setenta foi retomada a tradição e as festas voltaram a ter lugar, anualmente, no mês de Agosto.

Antigamente os festejos eram essencialmente religiosos: havia sessões preparatórias na capela, ensaiavam-se alguns cânticos, faziam-se as confissões de quem desejasse, enfeitava-se a capela, preparavam-se todos os andores, vestes, guiões e paramentos e organizava-se a recepção ao Santíssimo Sacramento que vinha da freguesia uma vez que na capela não havia sacrário.

Nos tempos modernos verificam-se, como de costume alfaias e paramentos, mas também a iluminação eléctrica e sonora e expõe-se o Santíssimo, pois na capela já está, permanentemente, a hóstia consagrada.

A par das cerimónias religiosas a parte civil das festas sofreu profundas alterações: nos dias que correm realizam-se os tradicionais bailaricos, manifestações artísticas, cívicas e culturais, sem esquecer fornecimentos de comes e bebes e venda de lugares para assistência aos saraus, bailaricos e actuações das atracções artísticas, sejam elas artistas de renome, conjuntos musicais, ou actividades folclóricas.

As comissões de festas são responsáveis pela “mise-en-scène” de toda uma máquina que além de defender o nome da Terra, faz todos os possíveis por superar as expectativas do povo. 

Todos querem fazer melhor que os antecessores e no final apresentar maiores proveitos que revertem a favor das obras ou da manutenção da igreja. 

Há três coisas que pesam muito em qualquer comissão: o fogo, a música e o arraial. 

Do fogo esperam-se alvoradas fortes, nos três dias das festas, abertura e fecho da procissão, animação da venda de fogaças e oferendas e uma boa sessão de fogo-preso no auge do arraial do dia principal. 

Na música, além da Banda Filarmónica que percorre as ruas da terra, durante o peditório, no domingo de manhã e acompanha a procissão à tarde, há uma aparelhagem sonora que difunde música, com muitos decibéis e abrilhanta o baile com discos de música de dança, quando não estão em acção os conjuntos musicais contratados, ou, muito ao gosto de todos, um acordeonista de renome. 

Quanto ao arraial há que organizar as movimentações de pessoas e viaturas, os locais de estacionamento, a procissão, o leilão das fogaças e a organização dentro do recinto – balcões de comes e bebes, mesas para assistência, funcionamento e entradas no dancing, representações cénicas, organização de concursos e actividades lúdicas, competições, jogos tradicionais, etc..

A agitação na aldeia que durante décadas se resumiu aos casamentos e respectivos descantes, bailaricos nas tardes e serões de domingos, malhas e matanças, voltou a ter o seu ponto alto nas festas do Senhor dos Aflitos.

Graças à criação e desempenho, a todos os títulos louvável, da Associação Recreativa e Cultural, tem-se tornado factor de relevância a organização do Presépio Vivo da Serra, já premiado, localmente e fonte de atracção regional.

As direcções presididas por um conterrâneo com provas dadas no campo Cultural e Desportivo do Grupo do BES, em Lisboa e o aporte de gente que se tem estabelecido na aldeia, têm elevado o nome da Serra ao nível das melhores aldeias do concelho de Mação. 

Bem-hajam todos os que roubam ao seu sossego e tempos livres as horas precisas para pôr de pé uma obra que, em poucas décadas atingiu os níveis que todos lhe reconhecem. 

Será injusto referir apenas um nome, mas tenho a certeza que a humildade do Manel, é suficientemente grande para que todos os que têm, como ele, dado o melhor do seu tempo e esforço em benefício da Associação, nela se sintam representados.

O Dr. Manuel de Jesus Serras é uma força da natureza. 

Não teve, como nós, berço de ouro. Nunca foi a lado nenhum pelo nome ou apelidos. Não se deixou vencer nas batalhas que travou contra a morte. Nunca recuou perante os degraus que a vida lhe apresentou e, com firmeza e determinação, subiu-os a pulso. 

Nunca ficou no meio, foi até lá ao cimo. 

É um homem que honra a nossa Terra e que todos devem ajudar, acompanhar e tomar como exemplo. 

Com um abraço e desculpas por alguma inconfidência, pedimos a Deus que lhe dê saúde e tudo do melhor que é justo reservar para HOMENS BONS…

domingo, 8 de junho de 2014

Histórias de Verão


Comam nêsperas, laranjas e morangos!... 

Ah! As laranjas já estão secas, mas ainda são bem boas; as ameixas e os figos lampos são melhores. 

Os cachos e as maçãs camoesas é que devem ser poupados, pois são a base do vinho, quando chegar a altura dele!...

Assim falava, meio a gritar, meio em surdina, o Ti’ Zé, lá do chão de cima, debaixo da laranjeira torta, regando a tancada da manhã, nas leiras de feijão de vages, até aos pés da “doce-lima”, no canto da horta da macieira de pero doce. 

E, como não obteve resposta, continuou o monólogo: 

“Diabos cubram de raios e coriscos os amaldiçoados dos melros que vão vindimando os cachos mais amarelinhos e luzidios das parreiras do cimo das paredes!... 

Ainda nem os cães e gatos lhes pegam e já esses demónios não encontram mais nada que comer...

Comam amoras que não faltam nas balças!

E continuava: 

Abençoados cata-piolhos e carricitas que por aí voam e, coitados, nem biquito têm para conseguir comer as uvas... 

Depois, elevando a voz, quase gritava para os moços que sentados na erva ao fundo da horta iam preparando as costelas para armar aos taralhões: 

“Olhem, por cada um desses estupores pretos, de bico amarelo, que nunca se cansam de comer cachos, hei-de dar-vos um prémio... 

Essa raça do demo, bem podia ir para outro lado, mas das nossas paredes veem o vale todo e quando levantam voo até têm de poupar as forças, chegando lá abaixo à ribeira quase sem dar às asas. 

Nem cantar sabem, os malditos”. 

E continuava: 

“No último inverno, quando além do rabisco das videiras e das azeitonas quase não tinham que comer, armei umas boízes além nas estevas da ribeira e ainda filei dois belos melros de bico amarelo. 

Tinham a moela cheia de bagos de azeitonas. 

Mas há aí tantos que o prejuízo é o mesmo, com eles ou sem eles.

Vocês é que podem dar-lhes uma avançada; Se, em cada dia, apanharem três ou quatro, cada um, no fim das férias terão mais de duas dúzias de bicos dessa praga. 

O prémio será quatro dúzias de costelas novas, quando for ao mercado e encontrar o Ti’Machado, da Carregueira”. 

Entretanto os rapazes viram os primeiros raios de sol no cabeço em frente, por cima da rama dos pinheiros. 

Em baixo, pelo vale, uma maresia fechada, tapava toda a paisagem e ainda nem os passaritos tinham começado a bulir. 

Mas, antes que o calor do sol desfizesse toda aquela névoa, era preciso ir espalhar as quatro dúzias de costelas, desde o cimo dos Brejos até às hortas da Cabeça Gorda. 

Levariam uma boa hora a armar todo o arsenal e regressar ao ponto de partida, onde esperariam a altura de fazer a primeira caçada. 

O pequeno brejo estava bem emoldurado de pinhal que em conjunto com o arvoredo das hortas e as árvores de fruto, com seus néctares, atraíam todo o tipo de passarada, incluindo os taralhões – alvo da caçada dos rapazes. 

Era uma verdadeira babilónia, aquela luta pela vida: esvoaçavam, chilreavam, saltitavam, debicavam na terra húmida e confluíam para as árvores onde, muitos dos passaritos, fariam o voo final em direcção à agúdia da costela, cujas asas brilhavam ao sol, acabado de chegar. 

De facto, num pequeno rapeiro de terra limpa e ainda fresca, tinha sido colocada, e devidamente camuflada, uma costela de arame, com um agudieiro central que prendia um dos braços e se fecharia sobre o outro logo que accionado o suporte da agúdia. Entre os dois braços curvos ficaria preso, e apertado, o pescoço do passarito, que, muitas vezes, nem chegava a engolir a formiga de asas – agúdia -. 

Na passagem seguinte, tiraram os passaritos que prendiam, pelo bico, no arame pendurado à cintura. 

E, na primeira caçada, nem um único melro figurava entre os vinte pássaros apanhados pelas costelas. 

Puseram novas agúdias nas costelas que armaram, outra vez, no mesmo local. 

Nos intervalos entre as duas ou três caçadas, iam falando com as pessoas que se espalhavam pelas hortas, nas primeiras horas da manhã. 

De vez em quando lá vinha um ralhete porque tinham pisado alguma hortaliça, ou camalhão da rega, ou, muitas vezes, só para meterem conversa connosco, saber como ia a caçada, ou alguma pergunta por alguém que andasse na área da nossa acção. 

Uma das pessoas que andava, habitualmente, na horta do Vale das Lousinhas era o Ti´Manel. 

Era velho, pouco sociável, raramente se misturava num grupo para beber um copo nas tabernas, nada dizia além da salvação e sempre o vimos como o sacristão da igreja. 

Foi casar à Louriceira com a Ti’ Maria Rosa, adoentada e pouco saída de casa. Nunca tiveram filhos. Devia ser o homem que tinha mais colmeias e talvez fosse, também, o que comia mais coelhos bravos. 

Tinha sempre um cãozito e quando ao lusco-fusco saía com a saca às costas, para a Ribeira, ou horta do Cabeço Seixo, ninguém duvidava que levasse os ferros para armar. 

Seria, pois, natural que não apreciasse muito que a garotada vasculhasse as suas hortas, quer armando as costelas, dando avanço nas romãs e diospiros e aproveitando as canas junto do ribeiro para cortar um pífaro, um canudo para agúdias, ou qualquer outro brinquedo. 

Havia poucas canas na terra e embora não usasse as dele, para empar os feijoeiros das vages, o ti’Manel não queria que as cortassem. 

Nos Santos era uma das casas por onde a garotada gostava de começar a volta, pedindo os bolinhos. 

De uma mão cheia de passas, a uma romã, passando por uma maçã, distinguia-se sempre a Ti’Maria Rosa. 

E quando mandava algum garoto fazer-lhe um recado, também dava sempre as passas, o bolinho, ou a romã do costume. Mas uma coisa era certa: poucos se poderiam gabar de ter dado um passo, da porta de casa para dentro. 

É verdade que nunca tendo filhos, eram os mais “padrinhos” da terra e também os mais “presenteiros”. 

Dizia-se que o Ti’Manel tinha achado muitas coisas na horta do Vale das Lousinhas e que numa espécie de escavação que ninguém percebia com que finalidade fora feita e onde ele cavava de vez em quando, até pepitas de ouro já tinha encontrado. 

Também na reparação das paredes da capela teria encontrado uma caixa com um bom punhado de moedas – libras. 

O ourives que quando visitava a terra nunca deixava para trás a casa do ti’Manel Rosa, nunca se descoseu com o que lá vendia ou o que lá lhe era mostrado. Quando se fazia vir o assunto à baila, lá na taberna, onde comia qualquer coisa, dizia: 

“Como todos sabem não nos compete a nós, ourives, revelar o que se passa com os negócios dos nossos fregueses. Não quero dizer que não tenhamos já sido chamados a revelar esconderijos, a avaliar peças, ou a ajudar as autoridades a esclarecer o fruto de determinados roubos que às vezes nos querem vender. 

Como nada disto se passa, nada tenho a dizer.” 



Foi assim, sem surpresas, que após a morte do ti’Manel que sobreviveu uma boa dúzia de anos à mulher, foram encontradas muitas peças de ouro e nada menos que uma dúzia de libras de ouro, numa caixa que estava metida num buraco da casa de fora, por trás da pilheira onde estava o relógio.