sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O mestre-escola


Nos meados do século passado, a figura de Professor Primário, como a de Padre e as Autoridades da terra e do concelho, estavam acima dos outros mortais. 

Havia respeito total, absoluto e incondicional e quando os pais iam levar os filhos, pela primeira vez, à escola, recomendavam e pediam: 

Senhor Professor ou, o mais vulgar, Senhora Professora, chegue-lhe, se precisar!

Nunca lhe doam as mãos, pois só se perdem as que caem no chão!

Faça dele um homem – ou uma mulher – que nós saberemos agradecer-lhe!

Em casa da Professora não faltava nada; era um corrupio a levar os mimos e as primícias das colheitas, passando pelos queijos, ovos e consumos do dia-a-dia, até ao pão, acabado de cozer.

Uma vez por mês, ia à vila, receber os seiscentos mil réis de ordenado de Regente do Posto Escolar, ou o conto e duzentos, de Professor e aproveitava para dar um jeito no cabelo.

Visitava uma ou outra loja de roupas e sapatos e nunca regressava à aldeia sem passar pela farmácia, onde deixava uma parte dos seus parcos proventos, em troca dos comprimidos para as dores de cabeça, flatulência, vesícula, dores reumáticas. 


Trazia para uso próprio e para dispensar aos aflitos, na aldeia.

Visitava, normalmente, o Senhor Delegado Escolar e o Senhor Vigário, com quem combinava a participação nas cerimónias religiosas e de quem recebia orientação e documentação para promover as vocações, organizar os peditórios para a Paróquia, os Seminários e as Missões. 

Organizava-se, também, a Cruzada e a Catequese.

Nas aldeias, a Professora passava o dia na escola; ia a casa, para tomar as refeições, ensinava as raparigas casadoiras a coser e bordar e lia uns livritos da Biblioteca. 

Tinham uma certa dificuldade em arranjar namoros. Até porque a Lei impunha restrições aos candidatos a marido de Professora.

As aulas, na Escola, ou Posto Escolar, com duas ou três dezenas de alunos, das quatro classes – iam das nove às dezoito horas – decorriam na mais rígida ordem e disciplina e, por vezes, os mais adiantados ensinavam os mais novos a fazer contas, estudar a tabuada, ou ler no livro de leituras. 

No fim de cada ano, os alunos dos Postos Escolares, iam prestar provas de passagem de classe à Escola mais próxima, ou fazer exame da quarta classe à sede do concelho, onde, não raras vezes, eram aprovados com distinção.

É da mais elementar justiça reconhecer o trabalho destas senhoras – havia muito poucos Regentes Escolares do sexo masculino – que ensinaram até onde tinham aprendido e desenvolveram em muitas crianças, por essas aldeias fora, hábitos de trabalho e estudo, a par de uma formação moral baseada em sólidos princípios de cidadania e amor pelo próximo, que serviram de orientação a muito boa gente.

É de lamentar que a reorganização social, que tantos benefícios trouxe, tenha enjeitado muitas das bases, sem acautelar o civismo, o amor e respeito pelo semelhante, o valor da pessoa, no seu todo, e as instituições que a servem. 

Por mim, não quero esquecer as primeiras Regentes Escolares, que tive por professoras; elas ensinaram-me muitas coisas que me tenho recusado a abandonar e continuo a seguir, como capítulos do mais belo tratado que um homem pode escrever – a vida –. 

Foram elas, que me motivaram a ser Professor. 

Embora tenha, mais tarde, abandonado a profissão, sempre me orgulhei de dar um carácter didáctico ao meu trabalho e nunca me esquivei a ensinar aos outros, até onde pude e soube!...

Tenho sempre presentes os meus alunos, os muitos amigos... e todos quantos se iniciaram comigo, nas artes das Vendas e das Técnicas de Marketing, em que tenho desenvolvido a minha actividade profissional.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A tabuleta dos 35 padres



O Jerónimo nasceu nas barbas da Serra, e ali se criou, entre barrocos e giestas, até que, aos onze anos, depois de fazer, com distinção, o exame do 2º grau, foi para o Seminário do Fundão.

Isso não o desgostou, todavia jamais perceberia bem, porquê.


Levava nos pés o par de botas que calçara, pela primeira vez, no dia do exame.

No enxoval, que o acompanhava, iam algumas peças de roupa nova e muitas outras, feitas com aproveitamentos das fatiotas dos irmãos mais velhos.


Deixava para trás o que nunca esqueceria: a guarda do gado, a apanha das batatas e das castanhas e os outros servicitos, com que ajudava a mãe, Narcisa do Vale, mulher piedosa e temente a Deus, que conseguia gerir, como ninguém, os parcos proventos, resultantes da venda dos ovos de meia dúzia de galinhas e dos queijos de meia dúzia de ovelhas.

Dali tirava os tostões com que mercava, na “venda”, os quilitos de mercearia, as barras de sabão macaco, para a barrela da roupa, e uns metros de cotim ou de chita, com que fazia calças para os homens e saias, ou blusas, para ela.

O pai, homem de poucas palavras, trabalhava no campo, dando jornais às casas mais remediadas e cuidava de uma pequena leira, junto da ribeira, de onde vinham as batatas e os mimos da casa. 

Ali e em dois pequenos lameiros alimentava as cabeças de gado e uma vaquita que iam dando leite, para fazer uns queijos e no fim do ano umas crias para vender na feira do gado.


O irmão mais velho, já servente de pedreiro, andava a iniciar-se na arte e o outro, com mais dois anos que o Jerónimo, malhava ferro, no ferreiro da aldeia, que era exímio a calçar uma ferramenta, ou a tratar os cascos e ferrar uma besta.

Viria a ser o ferrador da terra; ofício com que ganharia bem, a vida.


No Seminário teve, desde o primeiro dia – que recordou sempre com muita saudade, como fazia questão de repetir –, um comportamento exemplar.

Estabeleceu três metas, em planos diferentes: educação, instrução e formação.

Estava disposto a ir o mais longe possível em cada um destes objectivos.


Bebeu, com a maior avidez, todos os princípios e boas-maneiras que caracterizam um homem de sociedade; estudou e aprendeu quanto pôde e as suas notas eram das melhores: “barra” em Matemática e Latim, muito interessado em História e Geografia e com alguma dificuldade na Língua Materna e Retórica.

No plano da formação pode dizer-se que, ao fim de cinco anos de Seminário, estava um homem – compenetrado das suas obrigações e dedicado a todos os que o contactavam.


Em férias, na aldeia, era respeitado e acarinhado por todos, que diziam estar ali um futuro padre; não como muitos que nem sempre põem os interesses dos semelhantes acima dos seus, mas o verdadeiro exemplo de pessoa bem formada e talhada para aquilo que se propunha.

Não passou despercebido à Maria Luísa, moçoila um ano mais velha, que desde os bancos da escola o olhava de maneira especial e diferente das outras colegas.

Lembrava o rosto cândido e sereno, que mostrava sinais de barba, embora mantivesse muita serenidade e paz de espírito.

Mas não o via padre...


Nunca se soube bem porquê, nem por que forças, encontraram-se, num dia de Verão, à tardinha, junto à fonte. 

Anos mais tarde, a Maria Luísa viria a confidenciar que se fazia encontrada, mas tinha sempre a sensação que o Jerónimo não estava para aí virado, nem entendia os seus propósitos.

Cruzaram olhares, trocaram duas ou três palavras de circunstância e separaram-se; mas ficaram, ambos, com uma mesma certeza: nem a moçoila ficaria solteira, nem o seminarista havia de ser padre.


Como dois vulcões, em plena erupção, separaram-se no final das férias, indo o rapaz para o quinto ano, no Seminário, e a menina para a Escola do Magistério.

Passado um ano, de grandes e penosas lutas interiores, o Jerónimo completava o quinto ano e anunciava ao Vice-reitor que não transitaria para o Seminário Maior, pois já informara o seu director espiritual que não seria ordenado padre.


A Maria Luísa ia para o segundo ano e concluiria o curso no final do ano.

Embora nada de concreto se tivesse passado, ou sido acertado entre ambos, queriam os dois o mesmo.

Nunca o disseram, sendo, com alguma surpresa, que a menina veio a saber, que o Jerónimo decidira abandonar o Seminário.


Quase a completar dezoito anos, o Jerónimo trabalhou na cidade, como marçano e ajudante de cartório, colaborando, activamente em todos os serviços da paróquia, quer acolitando o vigário, quer organizando cerimónias, mas sempre fiel ao rumo que traçara, antes de tomar a decisão, não muito bem aceite pelos pais, de abandonar a carreira eclesiástica e que consistia em fazer exames de equivalência para transição para o ensino oficial e matricular-se na Escola do Magistério, para vir a ser Professor Primário.

Nas férias da Maria Luísa, dado que o Jerónimo já não tinha férias, apenas por duas ou três vezes se encontraram, lá na aldeia.

Num desses fortuitos encontros o rapaz manifestou os seus intentos de que se conjugassem para que fizessem projectos de vida.

Propunha o namoro que os levasse, quando fosse altura disso, ao altar.


A menina agradeceu, ternamente, a primeira prenda do namorado, dizendo apenas que acabava de ter a maior alegria da sua vida.

Disse apenas uma frase: sempre te amei e seremos muito felizes, tenho a certeza; conta comigo!...


A vida ia correndo, de feição; durante o ano seguinte, o rapaz arranjou emprego na biblioteca pública e teve aulas, dadas, graciosamente, por um professor do liceu, com quem costumava trocar impressões e aconselhar-se.

Candidatou-se, no ano seguinte, aos exames do segundo e quinto anos e, sem surpresa, viria a obter dispensa das provas orais, em ambos.

Fez exame de admissão ao Magistério, vindo a ser, dois anos depois, Professor.


A noiva já trabalhara, numa aldeia não distante da cidade, como Professora Agregada e começou a fazer parte dos planos a aproximação do futuro casal, mas o serviço militar reclamava a presença do Jerónimo.

Esteve em Tavira durante seis longos meses, onde teve a instrução de base e foi promovido a cabo miliciano, transitando em seguida para a sua cidade, onde cumpriria dois anos de serviço. 

Liberto do serviço militar, combinou o casamento, que viria a ser uma cerimónia íntima e simples, na igreja da aldeia.


No Outubro seguinte eram ambos nomeados para escolas da terra, masculina e feminina, onde, ao abrigo da lei dos cônjuges, seriam colocados como Professores Efectivos.

Durante os oito anos seguintes, tiveram cinco rapazes e uma menina que era o desvelo de pais e irmãos; a Maria da Graça, que vinte e cinco anos mais tarde cursaria medicina e viria a ser uma distinta pediatra.

Três dos cinco irmãos foram padres, sem grande interferência do pai, como fazia questão de salientar o velho Professor Jerónimo.

E acrescentava, com muito orgulho: são vinte e sete ex-alunos, só de minha parte, já que da Maria Luísa foram mais oito, que se ordenaram padres.

Morro em paz; tenho a missão cumprida!...


Ao longo de quarenta e cinco anos de serviço, o casal de Professores iniciou a vida e a carreira de centenas de vultos das letras e da sociedade do País.

Para além dos trinta e cinco padres, que, salvo duas justificadas excepções, estiveram nas cerimónias fúnebres dos mestres, deixaram magistrados, médicos e professores, entre uma plêiade de gente grada e, certamente grata, espalhada por quase todos os continentes.

Em sua memória, numa pequena lápide, colocada junto da fonte, lá na aldeia, o povo escreveu: Homenagem aos Professores Jerónimo e Maria Luísa, que nasceram e viveram nesta terra, onde faleceram em 1968.

PS.: A lápide foi depois completada, pelo desvelo e engenho do Presidente da Junta de Freguesia: “e foram “pais” de nada menos de trinta e cinco padres”.

O povo, claro, passou a dizer a “tabuleta dos 35 padres”.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O barrete do Ti’Manel


O ti’Manel Pisco morava lá para o cimo do Casal, junto ao ribeirito que descia da Barroca para a Horta de Casa.

Na cachoeirita, junto à casa, numa curva do caminho, chegou a lavar-se a roupa e até foi local de lavagem das tripas, por alturas de matanças do porcos.

A Ti’Maria da Barroca, com quem casara, muitos anos antes, sempre fora mulher de pouca saúde e fracas cores.

Cuidava dos dois filhos e guardava duas ou três cabritas e uma ou duas ovelhas, donde provinha o leite que, nas falas do povo, dava os melhores queijos da terra.

A casa de habitação, retirada da rua, num cotovelo do ribeirito, tinha anexos os cómodos do costume: barracão, cabana do carro, palheiro do macho, cerca do gado, pocilga do porco, forno do pão e casa da despensa, onde além das batatas, cebolas, alhos e ramos de louro, se guardava a talha do azeite, os cântaros das azeitonas e alguma fruta e outros mimos da casa, sem esquecer o pote do mel, de que o Ti’Manel era o maior produtor da aldeia.

Uma meia dúzia de galinhas, um capãozito e uma ninhada de pintainhos, tinham o privilégio de vaguear pelo quintal, arranjando assim a maior parte do sustento, completado com algumas hortaliças, restos do caldo, ou uns bagos de milho, em alturas de mais carências na hortita.

Os ovos rendiam cinco ou seis mil réis, por semana, dinheirito esse que constituía o fundo de maneio da Ti’Maria, usado para comprar uma chitas, popelinas, linhas e botões, a um dos tendeiros que semanalmente visitam a aldeia e alguma mercearia, na taberna, onde se vendia de tudo, desde petróleo a açúcar e a cevada moída, que aquecia o estômago, de manhã.

Além do macho, de provecta idade, manso como as pedras da calçada, fazia parte da família um cachorrito, que respondia pelo nome de “farrusco”e raramente abandonava o dono, especialmente quando este estava nas redondezas da casa.

Ao fundo da cabana do carro, situava-se o poço, com mais ou menos metro e meio de diâmetro e não mais de quinze palmos de fundura.

Em volta do poço, um muro redondo, com uns sessenta centímetros de altura e, sobre ele, a armação de ferro, onde trabalhava a roldana em que deslizava a corda que prendia o balde da água.

A uns dois metros do poço, estava a laranjeira.

Nas falas e sentimentos do dono, não havia melhores laranjas, no mundo, que as da sua laranjeira.

Mas vale a pena reproduzir a frase do Ti’Manel que definia o seu sentimento quanto à sua arvorezita:

”Em mais de meio mundo, que já vi, nunca encontrei nada que me satisfizesse mais que uma boa sesta à sombra da minha laranjeira”.


Com a forma de sepultura antropomórfica, escavou o Ti’Manel, uma pequena cova, com um palmo de fundo, exactamente no sentido da sombra da laranjeira, nas horas de maior calmaria.

Encheu a cova com palha de centeio.

Na parte virada a norte, o Ti’Manel teve o cuidado de deixar um ressalto, para servir de cabeceira, onde a palha, cortada, foi colocada de travesso e coberta com um panal da azeitona.

Não há quadro do local, porque nunca nenhum pintor presenciou aquele idílio: o Ti’Manel, deitado à sombra da sua laranjeira e o “farrusco”, dando conta de tudo o que se passasse para além do muro que bordejava o quintal e a casa.

Um dia, numa das habituais passagens pela aldeia, o Manel da Rosa – caldeireiro, “bimbo, lá de cima”, sempre acompanhado pela mulher, que além de angariar trabalho para o companheiro, pedia esmola, às portas – vendo o homem a dormir a sesta, com o cãozito ao lado, impávido e sereno, ficou a imaginar coisas... e aproximou-se do muro, junto do portalito tapado com galhos e ramos de oliveira.

Mas – pernas para que te quero – salta de lá o “farrusco”, direito ao caldeireiro, que não ganhou para o susto e não parou antes da taberna.

O Ti’Manel era um homem grande, de peitaça saliente e braços, anormalmente, compridos.

De estatura mais que meã para o uso na terra, como ele dizia.

Barbeava-se uma vez por semana – aos domingos, antes da missa – e usava calças de cós alto, apertadas com um cordel e, normalmente, tão subidas que deixavam a descoberto as botas de cabedal, com solas de pneu, a que o Manel da Rosa “deitara uns gatos”, na última passagem pela aldeia.

Na cabeça o mesmo barrete de sempre, preto, enterrado até um pouco acima das sobrancelhas, descaído sobre o pescoço e com a borla quase desfeita.

Quando andara por Lisboa, onde dera o corpo ao manifesto, na estiva de navios e a servir nas obras; nas ceifas do Alentejo; nas podas dos laranjais de Setúbal e nos navios, que o levaram aos cantos do Mundo, só tirava o barrete para o pôr, dobrado debaixo da cabeça, servindo de almofada.

Além da igreja, contam-se pelos dedos da mão as alturas em que o Ti’Manel foi visto sem barrete, e representam outros tantos acontecimentos marcantes: o dia do casamento, no casamento dos filhos, uma ou outra vez em que foi padrinho de casamentos, ou de baptizados, de algum familiar.

Nestas ocasiões, usou o chapéu que ainda estava pendurado num prego espetado na parede, por cima da enxerga em que passava as noites.

Quando se deitava, tirava o barrete, dobrava-o, cuidadosamente, e estendia-o, a servir de almofada, quer se deitasse na sua cama, ou na esteira que preparara, debaixo da laranjeira, para dormir a sesta.

Um tal procedimento despertou a curiosidade de muita gente, mas nunca ninguém ousou perguntar-lhe algo, ou tocar-lhe no barrete, que sempre o acompanhava: debaixo da cabeça, quando dormia, sob os joelhos, quando ajoelhava, na missa, ou dobrado, em cima do ombro, quando tinha necessidade de descobrir-se frente a alguém.

Afora essas ocasiões, o barrete pendia da cabeça do seu dono.

O mistério manteve-se por muitos anos: a curiosidade e cobiça de uns, a ganância de outros - familiares mais próximos que imaginavam ali um bom pecúlio -, talvez as intenções que atribuímos ao Manel da Rosa – lançar a mão ao barrete do velho – não fossem tão raras…

Até que um dia, o Ti’Manel não saiu.

No dia seguinte, os vizinhos chamaram e não ouviram resposta. Avisaram um dos filhos, com casa no outro lado da aldeia. Juntou-se o povo, como é normal nestas ocasiões, e entrou-se em casa, onde deram com o Ti’Manel, deitado na cama, com o barrete debaixo da cabeça e a mais tranquila e serena paz, no rosto.

Estava morto.

Os preceitos do costume, o enterro, as partilhas dos parcos tarecos e toda a gente ansiava pela revelação do mistério: o que estava, realmente, no barrete?

O filho mais velho, que herdara do pai alguma serenidade, revelou, finalmente, que no barrete estava um rosário de Fátima, com as contas muito gastas, pelo uso, e um pequeno papel, muito bem dobrado, com a indicação de um buraco da casa, onde seria encontrada uma caixa de lata, de uma marca de bolachas.

O conteúdo da caixa, constituído por algumas notas nacionais e estrangeiras – algumas das quais já sem curso legal – foi dividido entre os irmãos; o rosário foi pendurado junto à imagem de Santo António, na capela do Senhor dos Aflitos, na aldeia, onde se manteve por muitos anos, até que desapareceu....

Quanto às notas de banco que os herdeiros dividiram entre si, pouco valeram, pois nenhum dos beneficiados passou a rico…como comentava, com ironia, o filho mais velho, quando lhe tocavam no assunto.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Pena de talião



Pelos anos cinquenta não era fácil a vida no centro do País; no campo era difícil – havia pouco dinheiro para pagar as jornas, a propriedade muito dividida era amanhada pelos proprietários e filhos e os trabalhos especiais (ceifas, mondas, malhas, azeitona, podas ou vindimas) eram sazonais e, por vezes, comunitários.
 

Para se conseguir um lugarzito como factor da CP, guarda freios ou condutor na Carris, servente ou pedreiro nas obras de Lisboa, e guarda na GNR ou PSP, era preciso bons empenhos, de alguém bem colocado, a troco de um bom cabrito, ou de uns garrafões do bom azeite da região.

Numa dessas voltas da vida, o ti’Manel Bento dirigiu-se a casa do doutor Martins – onde era jornaleiro, tal como fora seu pai –, para lhe pedir que arranjasse qualquer coisa para o filho Mário, que daí a dias seria licenciado da tropa e não tinha muita compleição física para cavar com ele no campo, ou nos poços e minas.


Foi muito bem recebido pela Senhora, que chamou logo uma criada para guardar o recheio da cestinha do Ti’Manel Bento, constituído por um frasco de mel, um galo capão, ainda vivo, e duas garrafas de azeite. 


E, enquanto a criada não voltava com a cestita já vazia, lá foi assegurando ao jornaleiro, conhecido da
casa havia muitos anos, que o seu compadre de Lisboa alguma coisa haveria de arranjar – recomendaria o rapaz para a GNR.

Foi assim que, daí a seis meses, depois de feita a preparação, o Mário Bento foi colocado, como guarda, no posto da GNR, da vila.


Na primeira patrulha, passou pela sua aldeia, onde levantou vários autos – multas por: entulho deitado nos caminhos, caiação de casa sem licença, poço sem vedação e carroça mal arrumada, foram objecto da atenção do guarda Mário, que, passeando a sua farda nova, tomou a iniciativa de autuar o próprio pai, por uma transgressão de somenos importância.


O Ti’Manel Bento, foi ao posto da GNR e ignorando a presença do filho quando por ele passou, dirigiu-se ao graduado de serviço – o sr. cabo -, a quem apresentou a autuação e se prontificou a pagar a multa.

Ao mesmo tempo tirou da algibeira das calças uma bolsita de trapos, onde guardava o dinheiro e, pegando nos vinte escudos, correspondentes à coima, entregou-os. 


Aceitou o recibo, guardou-o, muito bem guardado, e saiu.
 

A coisa serenou: não havia que censurar o filho por cumprir o seu dever.

Todavia, na cabeça do Ti’Manel continuava a interrogação sobre o que quereria o filho mostrar, com aquela atitude.

Não encontrava resposta e dificilmente se continha, quando ouvia os comentários de vizinhos e amigos sobre o zelo do filho, chegando ao desplante de ir multar o pai, por um poço abandonado.


A mágoa no coração custou mais a passar; indo para lá do casamento do filho e baptizado dos netos, onde o Ti’Manel fingiu que não mais se lembrava da
mágoa que sentiu, quando se viu autuado pelo seu próprio filho, no primeiro trabalho que fez na guarda.

Muitos anos depois, pelo Natal, o Ti’Manel chamou os seis filhos e, à volta do alguidar das filhós, de uma pratada de tremoços, uma bacia de azeitonas retalhadas, pão e queijo, regados com vinho da casa, todos comeram e beberam, à vontade.


Antes de partirem para suas casas, o velho pai puxou da mesma bolsita de pano que usara no posto da GNR, trinta e três anos antes, e tirando cinco notas de quinhentos escudos – quantia que ao tempo correspondia a mais de dois meses de jornas –, deu uma a cada filho, menos ao Mário, ainda guarda da GNR.


Disse que queria deixar as coisas equilibradas; que aquelas notas não eram mais, nem menos, que os vinte mil réis que tinha pago de multa, trinta e três anos atrás, valorizados a um juro normal de dez por cento ao ano.

Não havia mais nada a dizer e só queria acrescentar que já podia morrer descansado.


Cada um desapareceu para seu lado, rapidamente, só o Mário, junto do pai, o abraçou, sentidamente e em silêncio total.


Não se sentiu injustiçado – recordou-se de qualquer coisa que lera, sobre a “pena de talião”- e despedindo-se do velho pai, foi à sua vida..




















 






segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Escola da Ti’Amélia



Passava na aldeia, pelos Santos e por alturas da Páscoa. 

Chegado ao alto da Portela da Casinha, parava a bicicleta, apeava-se e tocava a buzina, apertando duas, ou três, vezes a pêra de borracha.


Não tardavam a deitar o nariz de fora das janelas e dos postigos, as mulheres que nos fins de manhã ultimavam os trabalhos na cozinha.

Entre elas, a ti’ Maria Rosa conhecia aquele toque melhor que ninguém: o ourives era uma das visitas que mais apreciava; conhecia o senhor Emílio desde que, ainda rapazote, vinha, lá de Cantanhede, ao lado do pai, ajudando no negócio.


Antes de dar a volta, embora fazendo-se anunciar, o ourives dirigia-se à taberna e, sobre o balcão, ou numa mesa metálica ali perto, comia, num prato de esmalte, uma lata de atum com rodelas de cebola – muita cebola –, meio pão de quilo e um queijo fresco, acompanhados de uma “preta”.

Dali, aproveitando a hora de comer e depois, durante a sesta, passava em casa dos clientes, de que uma das principais era a Ti’Maria Rosa que nunca tivera filhos mas um rancho de afilhados, que gostava de obsequiar com medalhinhas, crucifixos, fios e brincos, de ouro e prata.

Para isso, comprava nas duas
passagens do ourives uma ou duas dúzias de peças.

Como dizia a boa mulher: há sempre um baptizado, uns anos, um crisma ou um casamento e é preciso ter qualquer coisa preparada.


Muitas vezes era também solicitado para avaliar algumas peças; apenas, como dizia a Ti’Maria Rosa, por gostar de saber o que tinha em casa.

Pacientemente, o senhor Emílio ia correspondendo aos desejos da freguesa, sabendo que se tratava de concorrência, uma vez que havia ali caso de penhor, ou empréstimo, com garantia em ouro, de alguém mais necessitado – a prestamista da terra –.


Dizia depois o protegido de santo Eloi: temos de ter muito cuidado; mandam avaliar a mesma peça a dois ou três ourives, perguntam a pureza do ouro, qual o preço do grama, se damos algum valor ao feitio, etc.

São pessoas que precisam de ter confiança em nós antes de comprarem.


Falámos algumas vezes com este homem de mala de lata – cheia de placas forradas com veludo preto, onde estavam fixados os objectos que vendia – fechada com cadeado, cuja chave, presa por corrente de prata, guardava no bolso das calças.

Numa dessas conversas veio à baila o caso da Ti’Amélia, uma velhota que vivia num tugúrio, no termo de Mouriscas, sempre só, desde que morreram os pais e um irmão, ceifado pela pneumónica, antes de adulto.

A Ti’Amélia, sempre andrajosamente vestida, vivia isolada do resto do mundo, tratando duas hortitas ao redor da choupana onde vivia.

Ausentava-se apenas para ir esmolar nas aldeias mais próximas e vendia os ovos das galinhas, alguma criação e uns cestos de maçãs.


A única coisa que comprava, que se soubesse, era uma ou outra peça de ouro, costume que herdara dos pais, cujo modo de vida fora bastante semelhante ao dela: pedindo de porta em porta e comprando pequenas peças de ouro.

Quando saía de casa ia descontraída, não revelando qualquer receio de que lhe assaltassem a morada.

Era o melhor dos disfarces, dando a entender que o que tinha – e todos sabiam que devia ter – não estaria ali, no meio daquela miséria.


Um dia, certamente por falta de alimentação, adoeceu, de nada valendo os remédios que o médico lhe receitou, pois nunca chegou a comprá-los.

Em poucos dias morreu.

Não houve grande consternação, nem apareceu ninguém a quem se pudesse assacar as despesas, sendo a Junta de Freguesia, na pessoa do Regedor, que se encarregou das exéquias e do enterro.


Apareceram uns parentes que apenas se encarregaram de revolver o local, em busca de qualquer coisa.

Nada foi encontrado, para além de uma pequena caixa redonda, de lata, com duas pequenas medalhas e um fiozito, sem valor.


Uns bons meses depois, o Regedor – Ti’Chico Alberto – aproveitando a passagem do ourives pela terra, mandou-o chamar a casa, para ter com ele um particular.

Convidou-o a entrar, ofereceu-lhe um cálice de vinho abafado e foi direito ao assunto: O senhor e antes de si seu pai, visitaram muitas vezes a cabana onde morava a velhota Amélia, lá para os lados da ribeira.


Depois da sua morte, nada se descobriu sobre o mistério do paradeiro do ouro que ela ia comprando e que, ao que se saiba, não dava a ninguém.

Deixe-me esclarecer que o que for encontrado, se alguma coisa for encontrada, reverterá a
favor da Junta de Freguesia – uma vez que se há alguém com direitos, devia ter aparecido para o enterro –.

Convidado a ajudar, o ourives acompanhou o Regedor até ao local onde várias vezes se tinha encontrado com a velhota e feito alguns negócios.

Parecia que tinha havido ali um trabalho de escavações e pesquisas arqueológicas; estava tudo revolvido.

Todavia o ourives foi dizendo que a velhota vinha da cozinha, ou ia para lá, quando fazia negócios com ele, quer se tratasse de ir buscar dinheiro, quer fosse guardar o que acabara de comprar.


Pois vamos ver que diabo podemos encontrar lá, senhor Emílio.

E foram até junto do local onde se fazia a fogueira e se guardava a lenha.

Olharam para todos os lados, bateram em todas as paredes que ainda estavam de pé e, nada....


Casualmente, junto de uns restos de cinza, ao bater numa das lajes, o ti Chico sentiu sinal de oco e voltou a insistir, chamando a atenção do ourives, que se baixou para ouvir.

Afastada a lenha, o Regedor passou os dedos ao redor da pedra e sentiu, num dos lados de trás, uma ranhura, onde pôde meter a mão.


Como que por encanto, a laje arredou-se e, por baixo, num buraco de mais de dois palmos de fundo, estava qualquer coisa envolvida num pano sujo.

O Regedor agarrou o achado e tirou-o para fora do buraco.

Ao abrir o pano, deparou-se com uma caixa rectangular, de lata, com mais de um palmo de lado.

Abriu-a e nem queria acreditar no que os seus olhos contemplavam.


Olhou para o ourives e... atónitos, nem acreditavam no que estavam a ver: centenas de objectos de ouro e prata, alguns deles muito antigos.

Meteram tudo numa bolsa de trapos e foram à taberna pesar o achado – o ourives não tinha balança para tão grande quantidade –: sete quilos e cento e cinquenta gramas.

Portanto, mais de sete quilos de ouro.


O ourives fez as contas de cabeça e disse para o Regedor: uma pequena fortuna, senhor Francisco; aí uns duzentos e cinquenta contos – o grama era a trinta escudos, mas para aquele ouro conseguia-se um pouco mais por cada grama.

Durante três dias o senhor Emílio foi hóspede do Regedor, passando o tempo a analisar e descrever todos os objectos e avaliando-os.

No final, disse: há aqui peças de muito valor; se bem que o que conta é o peso do ouro; há peças com mais de cento e cinquenta anos, o que quer dizer que a “colecção” é obra de várias gerações; eu, até hoje, nunca vi nada igual, ou sequer parecido.

Terá de consultar uma casa especializada, para avaliar tudo isto; se quiser indico-lhe duas, ou três casas – antiquários do Porto, ou fabricantes de Gondomar –.


Com o produto da venda do espólio da Ti’Amélia, que rendeu duzentos e oitenta contos, o Regedor gratificou, generosamente o ourives, e fundou uma Associação de Melhoramentos, na Freguesia, cujas primeiras obras foram: construção da escola primária, arranjo exterior e interior da igreja, obras na casa paroquial, compra de paramentos e imagens para a igreja, arranjos de diversos caminhos, das fontes da Terra e comparticipação na ligação da rede de electricidade.

Nas ruínas da velha escola, hoje cobertas de mato e silvas, ainda se pode ler, numa das pedras da portada: Escola Primária ti’Amélia.