quinta-feira, 11 de julho de 2013

O palheiro da Renda



O palheiro – construção rudimentar, formada por quatro paredes de pedra e barro, tecto de telha vã de duas águas, porta de tábuas de pinho, presa por dois gonzos e uma fechadura do ferreiro da terra -, ainda estava, há poucos anos, em razoável estado de conservação.

Todavia, o incêndio que por ali passou em meados dos anos 90 transformou o palheiro num monte de cinzas e telhas, deixando de pé as paredes, para, mais tarde, as estevas e as balças acabarem por desfigurar o local, que está, praticamente, irreconhecível.

O palheiro da Renda, com uma dúzia de metros quadrados de área, era usado para guarda de fenos e pastagens, especialmente como local de arrecadação de emergência, quando as trovoadas de Maio não davam tempo para levar mais longe o ferrejo que secava ao sol.

A chave, guardada num requebro da parede, do lado direito da porta, era usada apenas por quem sabia do seu esconderijo e, presumindo-se, por isso, autorizado pelos seus donos.

O lugar não era, propriamente, um local de passagem, pelo que só as pessoas conhecedoras, ou intencionadas, por ali se desviavam e faziam uso do palheiro.

Um dos hóspedes habituais do local era o guarda-rios que, ou por não lhe apetecer montar a bicicleta pasteleira e ir para casa, nos confins de Alcaravela, ou por não sentir já o equilíbrio suficiente, ia até ao palheiro, curtir a bebedeira e passar a noite. 

Para mais que, como dizia, sendo o local do palheiro a uns escassos vinte metros da ribeira, ficava no local de trabalho.


Sempre foi insuspeito o uso dado ao palheiro pelo guarda-rios; só na cabeça do moleiro que passava nas redondezas para ir para a azenha do Ferrugento, ali ao fundo do Cabecinho Agudo, se arquitectou uma maneira de pregar um cagaço, depois de lhe ter contado histórias sobre o local, na taberna.

Um dia, ao pôr-do-sol, o moleiro viu o guarda-rios ficar na taberna, quando se dirigia para a azenha. 

Pelo caminho, atrás do macho carregado de taleigos, foi arquitectando o susto que pregaria ao guarda-rios no palheiro.

E passou aos factos:


Foi à azenha, pôs tudo a trabalhar, encheu a tremonha de grão, regulou a água, fechou o cãozito, para que o não seguisse, pensou o macho e esperou que baixasse o escuro para ir rondar o palheiro e acagaçar o guarda-rios.

O silêncio pesava sobre o escuro de breu e apenas um ou outro pirilampo cruzava o ar e interrompia o ladrar longínquo dos cães, lá ao cimo, na aldeia.

De uma fresta da porta do palheiro saía um ténue clarão; sinal de que o lugar já estava habitado.

Aproximou-se, espreitou, mas não conseguiu ver nada.


Ouviu vozes surdas e imperceptíveis, apercebendo-se, de imediato, que o guarda-rios não estava só.

Foi por trás, onde o palheiro era mais baixo, devido
ao desnível do terreno, arredou, muito lentamente uma telha e olhou para dentro do palheiro, onde ardia, junto à porta, uma fogueira muito suave, de cujo lume se espalhava uma luz ténue que deu para ver dois corpos, sobre uma manta, aberta sobre um molho de palha.

Guarda-rios e companheira estavam muito juntos; o moleiro, apenas olhou mais uma vez, depois de fechar os olhos, e, com milhares de ideias na cabeça, retirou-se e dirigiu-se, cabisbaixo e acabrunhado, para a azenha.

Sentou-se, com a cabeça entre as mãos e meditou…


Nas muitas vezes que havia provocado o guarda-rios, caçoando do seu aspecto e lembrando-lhe que há testos para todas as panelas e ele ainda encontraria o dele; que afinal dentro do género dele até havia muito pior, e coisas do género.

Agora sentia-se incomodado com a calma e bonomia com que o guarda-rios ouvia todos os impropérios do moleiro e acabava por sorrir, como se nada fosse com ele.

Percebia, agora, o gozo que deviam dar ao guarda-rios as palavras com que pensava achincalhá-lo.


Vieram-lhe à mente todas as vezes que olhou para aquela figura insignificante, com um olho sempre vesgo e meio cerrado, uma perna arrastada e meio cambado de ombros, os trejeitos da boca e, não raro, uma baba ao canto do queixo.

Não sentia pena dele; considerava-o infeliz e nada fazia para o aliviar e, todavia, parecia que nada incomodavam o guarda-rios tais impropérios.

Agora entendia, agora sentia o ricochete de tudo o que lhe dissera.


Sem se dar pelo passar das horas, olhou o céu e reparou que a moagem estava quase no fim.

Era preciso tratar do macho e abrir o cão que continuava
fechado, preparar tudo e partir para casa; onde, certamente, a mulher, já consolada pelo guarda-rios, tinha tido tempo de voltar e esperava, na cama.

A vida continuou e nem o moleiro, nem o guarda-rios, nem a mulher, alguma vez denotaram qualquer atitude estranha, quando se falavam, ao cruzar-se, na aldeia, ou na taberna.

O moleiro resolveu não deixar a mulher só, quando pressentia o guarda-rios por perto; a mulher e o guarda-rios, provavelmente, atribuíram ao acaso a falta de oportunidades para se encontrarem.

Só um pequeno papel, rabiscado pelo moleiro e misturado num rolo de documentos escondidos num buraco da azenha e encontrado anos depois da morte do moleiro, deu conta dos remorsos do seu autor e permitiu imaginar o cenário descrito.

Nunca, da boca dos três intervenientes, saiu qualquer palavra sobre o assunto.

terça-feira, 2 de julho de 2013

O “minhoto”




Tinha altura abaixo de mediana, cabelos muito pretos e fartos, ombros anormalmente largos e rosto comprido, de que sobressaía o nariz, muito afiado.

Os olhos, muito negros e de expressão mais melancólica que triste, brilhavam por cima de uma barba negra e farta, mal cuidada e confundindo-se com a cabeleira.

O mais notório, todavia, era o tamanho dos pés – grandes e largos, com sinais de há muito não conhecerem calçado e encardidos pela sujidade acumulada –.

Caminhava com passo curto e apressado e não se misturava com os outros pedintes.


Vinha à aldeia todos os meses, visitando todas as casas como esmolante e, com algum laconismo, apelava à caridade alheia.

Terminada a volta, sentava-se na taberna e ia descarregando, da esmoleira para cima da balança, os nacos de pão, as batatas e cebolas, uma ou outra peça de fruta e uns pedaços de toucinho.
 

O azeite era pago à parte e, se aparecia algum enchido, diferente de farinheira, era retirado do conjunto da venda.  
O Ti Manel, taberneiro e merceeiro, pagava tudo ao mesmo preço: quase sem olhar para a balança, abria a gaveta do dinheiro e retirava duas ou três moedas, que dariam para duas ou três “metades” de vinho.

E ia logo enchendo o copo que, ainda antes de ser lavado, havia de servir para a segunda e terceira doses.
 
Aí pelas duas horas, havia sempre uma ou outra alma caridosa que vinha trazer a melhor esmola: uma malga de caldo quente.
 

Depois disso “o minhoto” falava, ralhava consigo próprio, interrogava-se e acabava por cair em sonolência, até que, pouco depois do pôr-do-sol, se recolhia à “malhada”.

No outro dia, ao romper do sol, já andava a dar a volta noutra aldeia.
 
Dizia-se, desta personagem enigmática, que tinha sido homem de letras, transtornado por algo, muitos anos antes.

Teria à volta de sessenta anos – para mais – e, quando sóbrio, o que era raro, ainda acertava no que dizia e discorria, com os estudantes da terra, sobre Geografia, História e Ciências; deixava escapar conhecimentos de francês, espanhol e inglês, até que...

Calava-se, de repente, quando se apercebia que estava a falar de mais.

Corriam mais de uma dúzia de histórias sobre a “biografia do minhoto”: que era casado e tinha filhos; que a mulher o tentara envenenar e expulsara de casa; que uma fraqueza das ideias o fizera “variar” e abandonar tudo; que era senhor de meios de fortuna, mas preferia a vida de ermitão e pedinte, etc.

A verdade, porém, é que ninguém ousava interpelá-lo, sobre a sua identidade ou vida.

Se era apanhado pela guarda, fazia-se de parvo e apoucado e, ainda antes que conspurcasse e infestasse os calabouços, era posto em liberdade.

Quando não reagia violentamente a uma ou outra pergunta, respondia: sou o minhoto, não tenho terra, nem família, nem sei mais nada a meu respeito... ponto final e acabou-se a conversa!...


Um dia, já com os copos, outro mendigo ameaçou-o de dizer tudo a respeito dele.

Conheço-te, bem sabes, a ti e a tua família; não és do Minho...

Não disse mais nada, pois uma paulada bem assente, imobilizou e calou de vez o atrevido pedinte.

Quanto ao minhoto, com o pau na mão e a tremer de medo, escapuliu-se, sem dizer ai nem ui.


Presente ao cabo-de-ordens da aldeia, o minhoto, manso como um cordeiro, entregou o cajado e aguardou.

Depois de passar o raspanete do costume, o ti Manel Mendes, mandou “o minhoto” em paz e avisou que não se metessem com ele, pois em mais de vinte ou trinta anos que passava pela aldeia, nunca provocara desacatos.


Daí em diante, todos os que tentassem, ou simplesmente ameaçassem, identificá-lo, eram avisados que não deveriam fazê-lo, uma vez que, a partir daí, tudo poderia acontecer-lhes... ponto final!....

Não gostava que falassem da vida dele e tinha esse direito, acrescentava o cabo-de-ordens.

Correram os anos e “o minhoto” foi passando, tal como tantos outros mendigos, pela aldeia.

Um dia, porém, chegou a notícia:

O “pobre”, a que sempre chamaram “o minhoto”, morreu, lá para os lados do Codes.

O nome verdadeiro – José de Sousa – foi encontrado entre os trastes que guardava no sarrão das esmolas.


Foi professor e viveu bem, numa aldeia dos contrafortes da Serra da Estrela.

Esteve emigrado, na Europa e ganhou muito dinheiro na candonga e no volfrâmio.

Foi atraiçoado pela mulher, conluiada com um sócio dele, acabando os dois por desaparecer, misteriosamente.


Trabalhou nas minas da Panasqueira, tendo desaparecido após uma pequena
derrocada numa das galerias.

Não mais foi referenciado e, não se sabe bem porquê, não consta que tivesse sido procurado.


Serão dignos de crédito estes elementos referentes “ao minhoto”, ou continuarão a ser peças de uma existência obscura, que nunca conheceremos e que o próprio guardou, até ao fim dos seus dias?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Padre ABREU


O Abreu fazia vinte anos e fora, recentemente, às “sortes”, a Mação, tendo ficado “apurado para todo o serviço militar”, como então se dizia.

Andava muito triste, o que, na voz do povo, se devia à morte prematura da mãe, com doença não determinada, ou, pelo menos, não revelada, ao comum das pessoas. Mas a tristeza era outra.

Acompanhava os irmãos mais velhos, João e Benjamim, na missa dos domingos, na freguesia. Ia, também, o mais novito, o “António”, com dez anos, esperto e ladino, filho do pai e da madrasta. 

Pela cabeça do Abreu passava um turbilhão de ideias. 

Também era notória uma postura meditativa, uma marcada auto-análise e introspecção, invulgares em rapazes daqueles meios, daquelas idades e com a sua instrução – fizera a 4ª classe, sendo aprovado, com distinção –.

Um dia, o padre João Pereira, filhote do lugarejo e pároco numa pequena freguesia para os lados de Porto de Mós, veio à aldeia e cruzou-se com o rapazote, de que alguém lhe tinha já falado. 

O Abreu, recentemente apurado, nas sortes, ia, dentro de dias, partir para a ceifa, na companha do Ti’Chico “Manajeiro”, da Serra.

Na conversa que teve com o padre Pereira, o Abreu mostrou grande vontade de saber coisas sobre a vida de sacerdócio. 

Nas três perguntas que fez, a primeira é uma simples diversão: gostaria de saber qual a origem do nome da aldeia Queixoperra –; a segunda e terceira versavam o casamento dos padres.

O padre Pereira, cuja sensibilidade, embora embotada por muitos anos de meio rural, era de uma perspicácia evidente, percebeu que, das três perguntas, só a resposta à última tinha importância para o Abreu. 

Respondeu, evasivamente, sobre o nome da aldeia – cuja origem é incerta e nebulosa – e pouco adiantou sobre o casamento dos padres; mera questão de disciplina, instituída há séculos.

Já no que diz respeito à facilidade, ou dificuldade, de ser padre, o caso é mais complicado; talvez uma passagem dos evangelhos te ajude a compreender o que há para dizer: “aos desígnios do Senhor, nada é impossível”. 

A interpretação desta afirmação contém as respostas que procuras.

Só há uma única condição: a tua vontade e o teu querer têm de ser inabaláveis; o resto, não terá importância. 

Tens de ter muita confiança; tens a vida para viver.

Daí a dias, o Ti’Bento e o Luís Mendes foram a casa do Abreu avisá-lo que no dia seguinte, antes do romper da manhã, estariam de partida, para se juntar, na Saramaga à companha do Ti’Chico “Manajeiro”, da Serra e seguirem todos, para a estação de Abrantes, de onde seguiriam, no comboio, para a ceifa. 

Iria começar mais um dos duros trabalhos que, para o Abreu, seria dos últimos.

O Ti’Chico “Manajeiro” ufanava-se, anos mais tarde, de ter tido nas suas companhas da ceifa, doutores, oficiais da tropa, negociantes de fama e riqueza, brasileiros e até um padre, que de vez em quando, o ia visitar lá na Serra, onde o “manajeiro” passava os últimos dias do entardecer da vida, e, segundo as suas palavras, tinha muitos amigos, por quem pedia, à Senhora da Fátima.

E recordava o rapazote que levou, três anos, na companha: o Abreu, do compadre Francisco, da Queixoperra, que na malhada mostrava um ar de alheamento e distância e um certo quê de mistério. 

Os outros camaradas, reparavam, mas não comentavam muito, pois o Abreu não incomodava ninguém e desempenhava, a contento, todas as tarefas de que era incumbido. Era dos últimos a adormecer e nunca o fazia sem que rezasse as suas orações e se quedasse em meditações.

Nas festas e bailaricos, teve um ou outro “flirt” com raparigas, mas não passou daí e, quanto a respeito, não há nada a apontar-lhe.

Um dia, regressava da horta, onde estivera toda a manhã, junto com os irmãos, a arrancar as batatas e, ao passar à porta da taberna do ti Zé Maria, foi-lhe dito que já lá estavam os editais e que ele iria assentar praça em Abrantes, daí a quinze dias.

Operou-se, no rapaz, uma modificação profunda. 

Andava mais alegre, cantarolava, dava-se a conversas; parecia outro.

No dia três de Maio – festa da Santa Cruz –, foi, junto com os outros dois mancebos da freguesia, buscar as guias à Câmara de Mação e, no dia seguinte, foram apresentar-se em Abrantes, onde durante quase três meses fez a recruta e depois a especialidade, tendo sido escolhido para a escola de cabos. 

O Capitão, comandante da Companhia, casado com uma das senhoras da família Moura Neves, precisava de um “impedido” e, saiba-se lá porquê, escolheu o cabo Abreu, que passou a frequentar a casa do “patrão”, onde ajudava nas compras, lavava o automóvel, tratava do cavalo e se ocupava de outros afazeres da casa. 

A senhora dona Aninhas, mulher do Capitão Geraldes, gostou do militar que o marido escolhera, muito prestável e solícito, preocupado e amigo de ajudar, muito pontual e sério nas contas. 

No entanto, por vezes ficava triste, pensativo, vago e distante, o que levou a Senhora a perguntar se estava ofendido com alguma coisa, ou se tinha alguma coisa que ela pudesse ajudar a resolver.

Ai, minha Senhora, tanto e tão pouca coisa. 

Corou e quase se lhe embargou a voz, mas não podia perder a oportunidade e acrescentou: sou filho e neto, de gente pobre e humilde; pobre, de bens materiais, mas temente a Deus e muito honrada. Com fé nestes princípios, há oito ou dez anos o meu maior desejo é ser padre. 

Ser padre, Senhora Dona Aninhas, é o meu desejo. 

Homem, mas isso... venha comigo. Você, Mariana, vá tratar da lida da cozinha, que se fazem horas do almoço. 

Ah! o Abreu almoça cá, connosco.

Chegados à sala, a Senhora perguntou, secamente: tem, então, a certeza que é padre que quer ser? 

Certeza absoluta, minha Senhora. Só que, por mais que pense, não vejo como; até nem sei porque incomodei a Senhora com tais despropósitos. 

Que me desculpe, a Senhora, que tão boa tem sido para mim.

Não, meu bom homem, bateu à porta certa; aos desígnios do Senhor... 

Sem ouvir o resto da frase, fez-se luz na mente do rapaz; eram as palavras do evangelho, que o padre Pereira lhe tinha dito... 

A Senhora continuou, explicando que havia fortes ligações da sua “casa” com o Seminário de Portalegre e o dos Olivais, em Lisboa. 

Todos os anos tinha chegado ao fim um seminarista amigo, mas, havia três anos não se tinha ordenado ninguém da “casa”. Daí a nove ou dez anos, se Deus quisesse, haviam de ter um padre. Assim o Abreu quisesse…

A partir daquele dia, nem a Dona Aninhas, nem o Abreu conseguiram dormir direito, de felicidade. 

Uma semana depois já a Senhora anunciava, na presença do marido, que estava tudo tratado: nos meados de Setembro, o cabo Abreu seria licenciado, na qualidade de amparo de família. 

Na semana seguinte faria um retiro no Seminário de Portalegre e na última semana do mês, um outro retiro, no Seminário dos Olivais, em Lisboa. 

A Senhora queria ouvir opiniões e saber o que melhor se ajustaria ao seu novo protegido; isto se o Abreu não visse qualquer inconveniente. 

Resposta pronta e elucidativa: Mas é isso que eu quero, minha Senhora. A minha consumição é não ter meios nem maneiras de consegui-lo. Somos pobres e todos os braços são poucos para a labuta lá em casa. E sobra tão pouco!...

No início de Outubro, tudo começou no Seminário de Alcains, onde, num ano, o Abreu, fez segundo e parte do quinto ano. 

No ano seguinte, em Portalegre, completou os preparatórios e no terceiro ano completou estudos gerais, indo logo a seguir iniciar a Teologia, que o levaria, passados cinco anos, a cantar Missa Nova, por pedido da Senhora, no Seminário dos Olivais.

Numa visita à aldeia depois de estar no Seminário de Alcains e após ter passado pelos seus pais adoptivos, como sempre fez questão de dizer, encontrou-se com o padre João Pereira. 

Abraçaram-se e o seminarista Abreu apenas balbuciou as palavras que escolheu para lema de toda a sua vida: “Aos desígnios do Senhor nada é impossível”. 

Paroquiou uns anos em Martinchel; no termo de Abrantes – de onde podia visitar a família adoptiva e confortar, na doença, a Senhora Dona Aninhas. 

Transferiu-se depois, por interferências e empenhos da Senhora, para São Facundo, freguesia também perto de Abrantes, onde o velho senhor Moura Neves, saudoso pai da Senhora, tinha a maioria das suas terras.

Lá viveu, muitos e bons anos o Padre Abreu. 

De vez em quando, ia à Queixoperra, para rever as suas origens e, sobretudo, para matar saudades da sua infância. 

Nessas viagens, dava um salto à Serra, para ver o “Manajeiro”.

Morreu, em paz, quase a completar noventa anos, sem deixar quaisquer bens materiais. 

Do seu espólio constam apenas dez ou doze nomes, de outros tantos padres, que, por sua iniciação e orientação, serviram, tal como ele, a Igreja.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Zé Cristo


O clã dos “Cristos” metia respeito: o Manel, na casa dos vinte e oito anos, o João, com menos dois, o Chico, recém vindo da tropa, cujo tempo passara, na maior parte, no forte da Graça, em Elvas, e o ganapo – o Zé – a atingir os dezoito anos, dentro de dias. 

Todos iam acima do metro e oitenta.

Não havia festa, ou descante, onde os quatro irmãos não aparecessem, com ar provocador e, por vezes, munidos dos respectivos paus – que punham sobre as omoplatas, formando uma cruz, com os braços –. 

Daí derivava, ao que se pensa, a alcunha que ostentavam, vinda já dos seus antepassados e que não ligava ao apelido da família: Alexandre.

Os paus constituíam um verdadeiro adereço; eram vulgaríssimos, na época. 

Tratava-se de uma vergôntea de marmeleiro, bem seleccionada e seca longe do sol, com uns dois côvados, ou uma vara – o côvado media 66 cm e a vara 11 decímetros –. 

Conhecemos apenas duas utilidades a estes paus, que qualquer homem que se prezasse exibia nas feiras e mercados: para conduzir o gado, ou para se apoiar. 

Uma outra utilidade – como padrão – era pouco aplicada.

As zaragatas eram, de facto, o terreno mais vulgar para o uso do pau. 

Nas aglomerações e festanças, dos meios rurais, disputava-se o jogo do pau, mas o verdadeiro uso do mesmo era no costado de um qualquer adversário, quando o ensejo tal proporcionasse. 

Todavia este e outros costumes foram-se extinguindo, devido à proliferação da GNR e firmeza de Regedores e Cabos de Ordens, nome por que na região eram designados os Juízes de Paz.

Os magotes de rapazes, que andavam de aldeia em aldeia, nos bailes, descantes e festas, deixavam os paus escondidos de forma que pudessem dispor deles, em poucos minutos, se necessário fosse. 

Nos torneios de jogo de pau disputavam-se prémios e honrarias, de que qualquer homem se prezava.

Ouvia-se contar, aos mais velhos, que no descante do casamento da mãe do Ti’Chico “Manajeiro”, houve uma zaragata, provocada pelos rapazes de Alcaravela, em que foram partidas mais de vinte cabeças e imobilizados mais de uma dúzia de braços. 

Talvez, por isso, “o Manajeiro”, era o maior amigo da ordem e do respeito.

Quase todos os “Cristos” tinham já passado pelas companhas do Ti’Chico; esse ano ia o Zé Cristo, como aprendiz do terceiro ano. 

Passaria à condição de camarada no final da safra e, no ano seguinte, teria já todas as condições de “oficial”, nomeadamente soldada por inteiro e direito a prémios. 

Os aprendizes recebiam, por norma, duas décimas, no primeiro ano; 3 décimas, no segundo e três quartas, no terceiro ano. 

No quarto ano, ou não eram mais chamados para as companhas, ou eram-no, na qualidade de camaradas.

O Zé Cristo era teso, caladão e ligeiramente vesgo – chamavam-lhe “zanaga”-. 

Era o mais alto da companha e em largura de ombros, não havia quem se lhe comparasse. 

Falava pouco, mas, em contrapartida, comia por três ou quatro. 

A trabalhar, uma máquina; os moços, que seguiam no seu encalço, viam-se e desejavam-se para atar os molhos e fazer os rolheiros, atrás dele.

Um dia, um dos moços, o Benvindo, chamou-lhe “caga-molhos”, pois não conseguia manter limpa a área de corte do Zé Cristo. 

Tanto bastou para que o Zé pousasse a foice e, pegando pelo atilho das calças elevasse o garoto bem alto, no cimo do longo braço e parecendo mostrar um troféu a toda a companha. 

Depois, pô-lo, cuidadosamente, no chão, tornou a pegar na foice e começaram a amontoar-se, atrás dele as gavelas ceifadas.

Sorrateiramente, como era seu hábito, o Ti’Chico, fez sinal ao Manel Carolo, em cujo grupo estava o Zé Cristo, e afastou-se da frente de corte, para que o Lopes e o Duque, camaradas que iam ao lado do rapaz, normalizassem a situação.

Uns minutos depois, fitou o Zé Cristo nos olhos – que nessa altura ficaram mais vesgos e baixos – e apenas disse: é a primeira e a última vez que, nesta companha, alguém falta ao respeito; se voltas a fazer alguma das tuas, racho-te!... 

Aqui, somos todos homens, e no que ao respeito diz respeito, até os moços o têm de ter. 

Este caso foi edificante. 

Muito ao modo como o Ti’Chico costumava actuar; batia pouco, mas, quando o fazia, era inexorável e altamente eficaz. 

No resto dos dias da companha não houve mais qualquer altercação. E voltaram todos mais amigos que quando partiram.

No fim da companha, o manajeiro reuniu os chefes de grupo e disse o que pensava fazer com as soldadas. 

Tudo esteve de acordo. 

O Ti’Chico dividiu a totalidade do dinheiro em 40 partes e atribuiu uma a cada um dos trinta oficiais. 

As dez que ficaram – as dos aprendizes –, eram para os cortes, cujas quantias iriam fazer os prémios para compensar o mérito de cada um. 

Nessa altura tomou a palavra e chamou o Zé Cristo, entregando-lhe uma maquia igual à dos camaradas, dizendo que mostrou corpo, disciplina e trabalho como os melhores, e que a justiça deve sempre ser praticada. 

Ninguém se opôs.

Foi a primeira vez, nas memórias das companhas, que um aprendiz foi promovido em pleno campo de trabalho. 

Pela justiça da decisão, o Ti’Chico “Manajeiro”, como sempre ficou conhecido e será lembrado, ainda hoje, é apontado como exemplo de capacidade de liderança e espírito de justiça.

Quanto ao Zé Cristo, aceitou as palavras sábias do “mestre” e não consta que alguma vez mais se tenha envolvido em desavenças.

domingo, 9 de junho de 2013

A ceifa no Alentejo

Ceifa no Alentejo - aguarela de 1917

O “monte” da Herdade do Castanho, situava-se numa pequena elevação dos terrenos a sul da Ribeira dos Tourões, que pertenciam ao Senhor Lavrador, numa extensão de mais de catorze léguas, segundo as palavras do capataz.

O Ti’Chico “Manajeiro” conhecia a chapada que, partindo da ribeira, subia até ao “monte”. Uma extensão de mil metros, por uns oitocentos de largura, cobertos de “pão”, que havia de ser calcorreada, centímetro a centímetro, pelos homens da companha que acabava de chegar.

Havia uma pequena “folha” de cevada e o resto era um extenso trigal, bem apresentado e que, graças a Deus, não tinha acamado. 

Podiam contar-se, pelos dedos, da mão, os sobreiros e azinheiras, ou outras árvores, que pudessem dar sombra, ou ajudar a diminuir a secura daqueles campos, cobertos de “pão”.

Embora a inclinação não fosse grande, a chapada era ligeiramente inclinada e avesseira pelo que tinha que ser muito bem definido o sentido do corte; a descer, o trabalho é mais cansativo e menos rendoso e de través, o equilíbrio dificulta o bom andamento. Se possível, também a direcção do sol deve ficar pela esquerda dos ceifeiros – pormenores importantes, que os manajeiros aprenderam, com a vida -.

A ribeira, sem água corrente, apenas tem um ou outro pego que servirá para tomar banho nalguns fins de dia, o que, aliás, foi motivo de grandes recomendações por parte do manajeiro. 

Há que não ir sozinho, nunca depois de comer e evitar sítios escondidos ou isolados. 

Todavia, naquele ano, não seria grande o perigo, dada a escassez de água, mesmo nos pegos. 

Eram agradáveis, sim, os tufos de juncos e os salgueiros e freixos que rodeavam o talvegue. 

Alguns traziam, ramos e junco para o acampamento, ou para espalhar pela malhada, a servir de colchão.

No chavascal que ladeava a chapada, pelo sul, havia todo um emaranhado de silvas, tojos e arbustos – sinais evidentes de que por baixo andam águas –. 

Ali se acoitavam diversos tipos de pássaros, zelando pelos ninhos mais serôdios, ou pelos filhotes mais atrasados e também lá tomavam refúgio os predadores, a caça e outros pequenos animais que fazem das searas a sua despensa – ratos, coelhos, musaranhos, ouriços, répteis, etc. –.

Depois da primeira noite na malhada, ou sob a copa de um sobreiro, ao romper da madrugada, começaram as movimentações: idas e vindas para a latrina, para os tanques onde se lavava a cara e mais o que se quisesse e para a malhada, onde se arrumavam os parcos pertences de cada um, de modo que, antes que a estrela boieira se afundasse no horizonte, todos tivessem engolido as sopas de café e estivessem junto do manajeiro, para seguirem até ao corte.

Um pintor teria feito ali um magnífico quadro: o manajeiro, à frente, seguido dos ganhões e dos moços; uns e outros com os chapéus de palha de abas largas, na cabeça, camisas abertas e foices em punho e, na mão esquerda, as dedeiras de cana. 

Os rostos de alguns, ainda leitosos, iam, em poucos dias, tisnar-se e tomar um bronze natural.

O Ti’Chico olhou em redor e, como incentivo curto, mas muito a propósito, disse apenas: Vamos ao trabalho, com a graça de Deus!... Força, rapazes!... E benzeu-se.

Os mais velhos, conhecedores, de ginjeira, daquelas andanças, seguiam calados; os mais novatos e os debutantes, satisfaziam a sua curiosidade, não sabendo bem o que os esperava e extasiando-se com tanto pão junto – cenários novos e que jamais tinham imaginado –.

Já no fundo da chapada, junto à ribeira, o Ti’Chico “Manajeiro” chamou os das pontas de corte – o Chico Coxo e o Zé Taliscas – e mandou-os tomar posições, distantes um do outro, cento e cinquenta passos – seria essa a largura de corte –. 

Entre eles distribuíram-se os restantes camaradas e moços, mantendo-se os grupos que tinham sido formados no dia anterior.

Cada chefe de grupo sabia, perfeitamente, o que tinha que fazer, para que a frente de corte se mantivesse sempre em linha e os trabalhos seguissem a bom ritmo. 

Era aqui que entravam as ajudas e compensações e é nesta tarefa que o trabalho do manajeiro é fundamental; incentivando os mais atrapalhados e coordenando os mais ousados, de modo que o grupo se mova sempre como uma mola, projectando-se de trás para diante.

O Ti’Chico, direito no meio da linha, mandou o Manel Carolo levantar a mão esquerda para que todos vissem as “dentadas da foice” nas dedeiras. 

A seguir, levantou os olhos ao céu e benzeu-se, exclamando: avante camaradas!...

Todos se curvaram e não tardou que começassem a ver-se, no restolho, os molhos de trigo. 

Logo a seguir os moços foram ensinados, pelo manajeiro, a formar os rolheiros, pondo os molhos na forma mais correcta: o “pão” é posto com a troça para fora, formando um círculo, com as espigas para o meio. 

Os rolheiros tem a largura aproximada de metro e meio e os molhos de cada camada são colocados, alternadamente, para que fiquem travados e o mais justo possível, de forma a evitar entrada de roedores e más influências de ventos, chuvas e orvalhadas. 

Um rolheiro deve ter a altura máxima do peito de um homem. 

Quando os rebanhos vierem ao rabisco, ou as varas de porcos se espalharem no restolho, o zagal tem de estar seguro que não farão mossa, nos rolheiros de trigo.

Pelas dez e meia da manhã – segundo a mediana do Ti’Chico – chega o manteeiro e os moços aguadeiros, para distribuírem um quarto de pão de trigo e um bom naco de queijo, ou um pedaço de toucinho, segundo o gosto e preferência de cada um, e darem os corchos de água que cada camarada quiser. 

Aproveita-se para enrolar um paivante e, uma meia hora depois do “alto”, comida a bucha e saciada a sede, é dada a voz de “ao trabalho, camaradas!...” e todos pegam na foice e retomam a labuta.

Com o sol a pino – meio-dia solar, que os ganhões mais experimentados calculam pelo tamanho da própria sombra – é altura de jantar. 

O manajeiro dá “alto ao trabalho” e todos param, colocando a foice no chão e tirando as dedeiras. 

Juntam-se ao chefe e seguem-no até à malhada, onde os espera o gaspacho, o cozido de grão, o ensopado de borrego, o guisado, os feijões cozidos ou guisados com algum tempero, conforme os dias da semana. 

Ao lado do caldeiro da comida está um cesto de pão, cozido ainda há pouco e suficiente para que todos comam, à vontade.

Oito grupos de homens, cercando outros tantos barranhões, e cada um com a sua própria “ferramenta”, constituída por colher, garfo e navalha, saciam a fome e sede – uma das galas do Senhor Lavrador da Herdade do Castanho é que todos comam até querer –. 

Todavia, uma das maiores bênçãos do jantar é a sombra da malhada e as duas horas de sesta que se lhe seguem. 

Lá mais para diante é, também, a altura desejada nas companhas: a entrega do correio.

Finda a sesta, ouve-se o grito de “ao trabalho” e todos se juntam para, atrás do manajeiro, se dirigirem ao corte e retomarem a tarefa que os espera. 

O ritual repete-se todos os dias, durante a ceifa.

Quando a sombra começa a alongar-se – por volta das cinco horas – é dado o “alto para a merenda” e repete-se, sem grandes cambiantes, o que se passou ao almoço. 

Daí até ao fim do dia de trabalho, vai o sol cair no horizonte e uma meia hora depois de desaparecido o astro-rei é dado o “alto ao trabalho”.

Regressados à malhada, espera-se pela ceia, que será em tudo semelhante ao jantar, e pelas nove horas da noite, os chefes de grupo certificam-se de que tudo está em ordem e faz-se silêncio e escuridão, para que todos possam repousar.

O Ti’Chico, reza as suas orações e recolhe-se ao seu reservado.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ti’Chico “Manajeiro”


Naquele ano choveu até tarde; já Abril ia bastante alto e caíam, com alguma regularidade, bátegas de água, de se lhe tirar o chapéu. Gozavam os lameiros, os riachos e as nascentes, assim como a mata e o mato. Os juncos da ribeira nunca estiveram tão farfalhudos.

As vinhas, já bem compostas, sofriam com o “chove-que-faz-sol”, pois, nestas alturas, não há enxofre e sulfato de cobre que espantem o oídio e o míldio, que darão cabo de uma boa parte da safra da vindima.

O Ti’Chico pensava noutra; olhava para o céu, de manhã, quando se levantava e deixava-se levar, voando com o pensamento, por essas terras alentejanas, farejando nas chapadas de seara, do termo de Barbacena, onde havia de ir, com a sua companha, ceifar todo aquele trigo, aveia e cevada, na herdade do “Castanho”, lá para os lados de Santa Eulália, no Alentejo Alto.

Interrogava-se sobre o que sucederia a tanta palha; cada centímetro que o “pão” acamasse era mais uma dificuldade para os “ganhões” do seu rancho.

As pontas da “linha de corte” estavam bem seguras; o Chico Coxo dum lado e o Zé Taliscas do outro – homens de “dar mantulho”, a quem o trabalho não metia medo –. Mas... o resto?

Logo ao lado do Taliscas ia um outro “camarada” que sabia de “dobras” e, além de terror dos “manteeiros”, raramente endireitava as costas para enrolar um “paivante” de mortalha espanhola e, diabo de homem, nem precisava de beber.

Os “moços”, num total de cinco do 1º ano, três do segundo e dois do terceiro, eram a dúvida maior se o “pão” estivesse muito acamado e... chovera tanto!...

Os cuidados com os atilhos e a organização dos “rolheiros” teriam de ser redobrados; o “pão” tinha de ser junto e atado sem humidade. Os molhos eram mais pesados, porque o trigo cresceu muito e o peso ia sobrecarregar os braços. 

Pensava o Ti’Chico: reforça-se a “bóia”, fazem-se mais uns “altos”, dão-se uns gritos de estímulo e tudo vai correr bem. Ao cabo dos 40 dias da companha vou recompensar todos os camaradas e até os moços; o senhor Lavrador vai ajudar – vou pedir-lhe mais dois contos de réis e darei mais dez tostões, por dia, a cada “camarada” e uma lembrança aos “moços”.

Depois planeou a estratégia para formar a companha, que, desde os tempos do seu pai e avô, sempre deitara brado, nas freguesias da redondeza.

Na saída da missa, do último domingo, apareceu um outro manajeiro, de fora da terra, a fazer negaças a alguns camaradas do Ti’Chico e, nestas coisas, mais vale prevenir que... acordar tarde. 

Espalhou-se a notícia que o Lavrador de Barbacena chamara já o Ti’Chico e que ele até conseguira um dinheirinho extra para aquele ano; estava, pois, tudo seguro e todos confiavam no seu manajeiro, de sempre, que fora encarregado de pais, irmãos e filhos de muitos.

Os “moços” eram como que o fiel da balança; tanto no que se refere a desempenho como no que ajudavam – porque recebiam menos – a compor o quinhão dos camaradas. E com dez moços a companha estava muito bem equilibrada, ainda que alguns já fossem meios camaradas.

Dos trinta e nove pensados pelo Ti’Chico, trinta e sete já tinham apertado a mão. Faltava o “Gaitinhas” e o “Manel Carolo”. Era seguro que não se tinham comprometido com mais ninguém, mas os filhos a chamar, lá de Lisboa – para as obras do hospital grande -, poderiam fazer mossa. Havia que resolver o problema.

No domingo seguinte toda a gente já dizia que o Ti’Chico, que nunca os deixara ficar mal, tinha sabido negociar bem a companha: além de mais uns contos de réis, havia uns litros de gravanços e feijão preto, para distribuir por todos; é manajeiro para nos defender – ouvia-se no adro da igreja.

O “Gaitinhas” e o “Manel Carolo”, estavam de prosa, à saída da missa, num canto do adro. Sem saberem como, aparece o Ti’Chico, de mão estendida, dizendo que já os tinha procurado, mas era agora altura de se acertarem as coisas. E acrescentou, – como raposa velha, que todos reconheciam – se assim entenderem!...

Não restavam muito mais companhas ao Ti’Chico. Homem na casa dos sessenta, a quem o estômago e os ossos não ajudavam muito, deveria dar o lugar a outro, como ele já dizia há anos. A este respeito, falava-se à boca pequena no seu sobrinho – o “Truta” –, que tinha esperanças de vir a suceder ao tio. 

A maioria, porém, se não a totalidade dos habituais camaradas, iam pensando e confiavam que o Ti’Chico nomeasse o Manel Carolo, homem sanhudo e rijo, de poucas falas e riso raro, amigo do seu amigo. Forte como um touro e dócil como uma pomba, era, há mais de vinte anos, o “eixo da companha” e, ali onde o viam, tinha levado ao colo muitos aprendizes e até homens feitos, que estivessem em maus dias.

Na Terra era homem de poucos haveres, mas muito orientado e que raramente aceitava jornas; “trabalho no que é meu, e ajudo no que é dos outros, quando me pedem”. A ganhar, só na ceifa e numa ou outra “azeitona”. 

Os dois filhos e a filha, casados, trabalhavam fora. Ao que constava, o avô não se cansava de incentivar os filhos para que mandassem estudar os netos, não interessava o quê, desde que viessem a ser mais que pais e avô.

As razões do Carolo não ter vindo ainda a si, conforme confessou ao Ti’Chico, eram as inquietudes da vida e aquele cismar na volta a dar aos seus netos, todos a acabar a escola primária. Mas, cerrando os dentes, estendeu o braço e apertou, com força e sentimento, a mão do Ti’Chico. 

Imediatamente, e sem dizer palavra, o Gaitinhas fez o mesmo. Depois, baixou os olhos e confirmou o garoto mais novo, como aprendiz do 1º ano. 

Estava composto o naipe de 40 trabalhadores, mais o manajeiro, que havia de partir para terras do Alentejo, nos primeiros dias de Junho.

Em Maio, o Ti’Chico foi a Fátima. Rezou e meditou na vida, pedindo por seus familiares e seus homens e aconselhando-se muito com Nossa Senhora, de quem era profundo devoto. Desde a aparição não faltara a um único 13 de Maio, em Fátima. Ia também, às vezes, em Outubro, com a mulher e filhos.

Antes de partir, entrou numa loja e comprou quarenta e cinco terços, que mandou benzer a um padre que estava de serviço.

Como estava combinado, no último domingo de Maio, juntou-se toda a companha na eira do Ti’Chico, lá no cimo do Casal. 

Foram chegando todos, havia conversas de ocasião e o cenário constava de um cesto de pão alvo - de trigo -, cozido no dia antes, um presunto inteiro pendurado, um grande prato de queijos, um barranhão de azeitonas e uma cambalhota de chouriços. Sem faltar, é claro, um pipo de uns trinta litros de vinho tinto. Faca, cada um usava a sua navalha e os quatro ou cinco copos iam passando de boca em boca, sendo por vezes enxaguados na água do alguidar, junto da mesa.

O Ti’Chico agradeceu a todos e foi rápido nas palavras, dizendo que esperava a melhor companha de sempre – uma vez que seria a última que fazia –. Fez-se silêncio profundo e, por entre olhares, esperaram todos, mais palavras do manajeiro, que apenas acrescentou:

Todos sabem que a companha está viva, é a melhor das redondezas e assim tem de continuar a ser. Precisa de um novo manajeiro, que este ano ainda irá comigo, mas na próxima, será o vosso chefe. 

Quero só acrescentar que, sem desmerecer todos os presentes, o camarada que me parece mais capaz que vos orientar, chefiar e defender é o Manel Carolo. Não se esqueçam que é altura de alguém dizer alguma coisa, se alguma coisa houver para dizer; pois, a partir de agora, tudo o que fizerem será para ajudar o novo manajeiro, tal como sempre fizeram comigo.

Os poucos segundos de total e absoluto silêncio foram interrompidos pelo Gaitinhas – tido como o maior crítico do Carolo – que levantou o braço e, dirigindo-se ao Ti’Chico, apenas disse: “sempre assim foi e há-de ser, o que o senhor fizer, ninguém o há-de desfazer!” E estendeu a mão ao Manel Carolo.

Voltou o silêncio, e, sem que ninguém tomasse a palavra, todos foram comendo bem e bebendo melhor. 

O Ti’Chico foi passando por todos, petiscando com este, beberricando com aquele, até que ao chegar ao “Chancas” lhe perguntou o que achava do novo manajeiro. 

A resposta foi curta e eloquente: há-de ser tão bom como o senhor, que me fez “homem” a mim e aos meus dois filhos, aqui presentes. É fixe, é um grande camarada e pode contar com a rapaziada!...

O Ti’Chico encerrou o encontro com dizeres de circunstância, agradecendo a todos e dando os parabéns ao seu sucessor, que seria confirmado pelo senhor lavrador, na próxima ceifa, como o Manajeiro da herdade do Castanho. 

Foram correndo os dias, até que, na madrugada de 4 de Junho, um domingo, todos compareceram, ao romper da madrugada, no adro da igreja, onde duas carroças carregaram a “copa” de todos os camaradas e rapazes para a levarem até à estação de Abrantes, onde apanhariam o comboio para Santa Eulália. 

Atrás das carroças caminhava a companha, em magotes que falavam de tudo, sem quase nada dizerem. Durante quarenta dias, seria como se o mundo não existisse, até que voltariam para as mulheres, namoradas e pais, depois do dever cumprido.

Já dentro do comboio – para alguns a primeira vez que tal viam – ouviam-se as chalaças do costume; Dizia-se aos moços que deviam conservar uma pedra na boca, para dar sorte e para o comboio não sair do caminho, e para terem atenção quando viesse o revisor, pois queria os bilhetes na testa de cada um, etc., etc.

O Ti’Chico certificou-se de que tudo estava em ordem, sentou-se no banco, junto à janela e foi olhando os campos, vendo o “pão” e convencendo-se que não estava tão acamado como chegara a recear. Sem mais palavras, passou as duas horas até Santa Eulália em meditação, certamente já com saudades.

À chegada a Santa Eulália, gritou-se para apear a companha do Ti’Chico, transferiu-se a copa e acomodou-se o pessoal nas carroças que os carreiros tinham alinhado, no pequeno largo, junto da estação. 

Depois dirigiram-se à malhada da herdade do Castanho, no termo de Barbacena, onde havia de ser a morada da companha nos próximos quarenta dias.

Nesse primeiro dia, depois da ceia, o Ti’Chico entregou um terço a cada um, orientou a oração, habitual entre os “ratinhos”, no fim das refeições – os alentejanos não tinham esse costume –, e despediu-se, com “uma noite descansada para todos”.