segunda-feira, 1 de abril de 2013

Vidas



Durante toda a semana, foi grande o alvoroço em casa do “Ti’Zé do Casal”. 

O pão não foi cozido à segunda-feira, como habitualmente, mas na quinta-feira e de trigo, em vez de milho.

Mataram-se algumas peças de criação: um galo e um chibito de leite. 

Lavaram-se, a preceito, dois garrafões e encheram-se do azeite da melhor talha, e, igualmente, duas garrafas de vinho abafado e outras tantas de mel, encomendado ao João Cuco, que era quem melhor e mais asseado conseguia apresentá-lo na Terra. 

Ao cair da noite, estava tudo arrumado em dois cestos de verga e uma pequena trouxa, com roupa. 

Restava deixar passar o tempo até chegar a hora de arrancar para Alferrarede e apanhar o comboio, com destino a Lisboa. 

Mal rompia a manhã, foi o Ti’Zé pensar os animais. 

Depois, passou pela tapada, atrás da casa e baixou-se, na horta, para as necessidades. 

Em casa, pôs os dois cestos atados com um cordel, à guisa de alforges, sobre o ombro e, com a trouxa no braço, fez-se ao caminho. 

Nas três horas que demoraria até à estação, quantos pensamentos, projectos, lamentações, rezas e, vá-se lá saber que mais, passariam pela cabeça do Ti’Zé. 

O que importava era poder ver, mais uma vez, uma das duas filhas, na casa dos quinze anitos e, ia para dois, internada no hospital de Dª Estefânia, em Lisboa. 

Lá nada lhe faltava, nem sequer educação, pensava o desvelado pai, uma vez que a prima Deolinda a ia visitar, regularmente, e não deixava que nada lhe faltasse. 

Se pudesse, tinha a certeza, até a saúde lhe levaria... 

Atravessou três ou quatro povoados, onde pouco mais que os cães davam pela sua passagem – não gostava de sair atrasado – e cruzou essas aldeias ainda alta madrugada. 

Pouco subira o sol no horizonte e já chegava à estação. 

Comprou bilhete e sentou-se num banco, onde ainda esteve uma boa hora. 

Com a primeira etapa vencida, apanhou o comboio e num dos bancos da terceira classe, arrumou os cabazes e a trouxa por cima, e foi olhando para os campos, em redor do rio grande, onde manadas de cavalos e gado diverso, pastavam naquela manhã, ensolarada de fins de Março. 

Pela altura do sol devia ser meio-dia, quando desceu na estação do Rossio, em Lisboa. 

Voltou a pôr os cabazes a tiracolo e a trouxa ao ombro e dirigiu-se para a saída, onde não foi difícil descobrir o filho da prima – o Rui –, que já o aguardava. 

Os cumprimentos da ordem, as recomendações da família, a pergunta pela saúde da menina e lá seguiram no eléctrico do Conde Barão, para casa da prima Deolinda. 

Ao chegar, a prima acabava de voltar da venda que tinha na Praça da Ribeira Nova, de onde trouxera uma imponente cabeça de pescada que seria cozida, com batatas e hortaliça para o almoço. 

Cumprimentaram-se os primos todos e quanto à saúde da pequena Conceição, não eram boas as notícias, pois não tinham sido muito bons os resultados dos medicamentos aplicados. 

E olhe que do melhor e mais moderno que há, pode o primo ter a certeza!... 

Oh! Prima Deolinda, nunca nos passaria pela cabeça que assim não fosse. Sabemos que se a saúde se comprasse, não eu, que não tenho posses para tal, mas a prima que gosta tanto da nossa menina, já teria resolvido tudo!... 

...Mas, Deus lá tem os seus destinos e que ao menos tudo seja por desconto dos nossos pecados. 

O que a prima tem feito nunca lho poderemos pagar. 

Deixe lá primo. A menina está bem tratada, aprende muito bem a fazer costura e renda, gostam muito dela e até vão ter pena quando lhe derem alta. 

Ainda vão tentar mais uns medicamentos novos e outras coisas, mas só Deus pode salvá-la, ao que me dizem as médicas. 

Graças a Deus não sofre muito e é muito bem tratada, disso tenho a certeza absoluta – tenho lá as minhas recomendações. 

Deus há-de lembrar-se de si e de tudo o que faz por aquela infeliz, que sem a prima já estaria morta ou, sem aquela perna... e, com uma lágrima ao canto do olho, acrescentou, com embargo na voz: 

Trouxe aí uma coisita que gostaria que fosse arrumada, pois já foi morta ontem. 

Vamos já tratar disso. Depois almoçamos e vamos ao hospital; ela desconfia que neste fim-de-semana tem a melhor surpresa da vida – a sua visita, primo –. 

Foi um tanto pesado o tempo do almoço e a viagem até ao hospital. 

Depois foi a própria garota que revelando todos os conhecimentos e boas-maneiras que adquirira já em Lisboa, animou o pai, contando-lhe coisas, perguntando pelas pessoas da terra e se queria ir até ao Jardim Zoológico, para lhe contar tudo, pois quando saísse do hospital haveriam de passar por lá. 

As quase duas horas de visita foram penosas: imaginar a menina coxa no resto da vida, sem uma perna, sempre doente, sem os cuidados a que já se habituara, tudo diferente, tudo... que martírio, ter de pensar em tudo aquilo. 

Vidas!...

sábado, 23 de março de 2013

O porquinho doente


Todos os anos, pela mesma altura, passavam, na aldeia, os porqueiros. 

Traziam quinze ou vinte leitõezitos, que mostravam no terreiro entre as tabernas, mantendo-os todos juntos, com umas mãos-cheias de grãos de milho, que lhes iam atirando. 

Os compradores iam chegando e ficavam-se a observar os animais: se eram mais ou menos mexidos, se tinham orelha caída ou arrebitada, focinho agudo ou não, qual a cor, tipo de pêlo, desenho das patas, comprimento, altura, lançamento, etc. 

Depois de feita a escolha, se alguma coisa agradava, faziam sinal ao porqueiro e discutiam o preço – ao tempo, anos cinquenta, cada bacorinho rondava a nota e meia, duas notas, ou seja, cento e cinquenta, duzentos mil réis -. 

Pago o combinado e selado o negócio na taberna, era pegar nos porquitos e conduzi-los à sua nova e última morada; da pocilga onde se tinha posto mato e palha nova, sairiam para a matança, daí a menos de um ano. 

Nessa altura, se o masseirão tivesse sido bem fornecido, as doenças não atacassem e o bicho fosse de qualidade, cada um teria entre as oito e as dez arrobas de carne, que iria constituir o sustento da família, durante o ano. 

Mas um dos maiores segredos estava na escolha dos leitõezitos: os brancos e os pretos, têm as carnes mais secas, têm mais madeira, são menos atreitos e mais resistentes a doenças – como dizia o meu pai. 

Talvez por isso, não me recordo de ter visto porcos vermelhos, na pocilga lá de casa. 

A capação e a vacina contra a febre suína africana eram factos decisivos na vida dos bichos, bem como alguns cuidados a ter com o chiqueiro que não devia ser foçado e remexido para que os animais não ingerissem o que não deviam – um arganel a tempo e horas, era fundamental para fazer um bom chambaril, na matança, por alturas dos finais de ano. 

Um dia, apareceu lá em casa, a parente Maria Valenta, perguntando se os nossos porcos estavam bons, pois o seu – que era irmão deles –, estava amodorrado, não puxava para a comida, deitava-se amiúde e estava em ânsias. 

Já tinha ido à tia Maria Capaceta a benzê-lo, contra o mau-olhado; a tia Carolina já o tratara de quebranto, o Barbeiro afiançava que podia ser caso de espinhela caída e ela até já tinha pensado num gatito que morrera lá em casa, com esgana, há menos de um mês. 

Já lhe tinha dado azeite quente, mas o animal não estava bem e só piorara, nos dois últimos dias. 

Para chamar o Veterinário iria gastar mais que o valor do porco, uma vez que não tinha avença, naquele ano. 

O meu pai, lá foi dizendo que lhe parecia que o senhor doutor veterinário é que devia vir ver o animal; mas que até talvez não valesse a pena, pois o bicho estava inchado, deformado e com sinais de aflição fatal. 

O melhor seria preparar as notas para comprar outro, pois que aquele não iria durar muito. 

No caminho para casa, meu pai segredou-me: reparei no porquito, na manada; só comia, se os outros se afastavam, tinha ar macilento e mortiço, o porqueiro fazia menos cinquenta mil réis por ele e foi por isso que ela o comprou. 

Pode ter sido apertado no transporte, ou esmagado ao nascer; não vai durar muito. 

Três dias depois morreu o bacorito e veio a nossa parente pedir ao meu pai que o abrisse para tentar ver se havia alguma coisa de anormal. 

Assim se fez e logo se viu que junto das tripas, do bicho, havia uma bola, com mau aspecto e cheiro esquisito. 

Meu pai disse, de imediato: não precisa ir mais longe para saber que não é caso de mau-olhado, nem espinhela caída, ou esgana de gato. 

Trata-se, pura e simplesmente, como se pode ver, de uma nascida – um tumor -. Vamos queimar o animal, imediatamente, para não contaminar outros, nem a terra. 

Não adianta combater as crenças e o obscurantismo com teorias e ciências. 

Os exemplos, as provas e a demonstração das coisas, são o melhor combate que podemos fazer, contra a ignorância. 

Era como dizia o meu pai: quando estão para comprar querem o mais barato possível, esquecendo que o barato sai, normalmente, caro e também não se lembram de perguntar alguma coisa; depois, quando elas acontecem, torcem a orelha, mas já é tarde demais. 

Cuidam que são mais espertos que os outros…

quarta-feira, 13 de março de 2013

O “herodes”


O “Tó Ruço” herdou, da mãe, um talho, no mercado da vila. 

Nunca foi grande artista, a cortar carnes, mas nisso era bem servido pelo “Manel Garrano”, que trabalhava, para a casa, havia mais de trinta anos. 

O talho da Mariana, o melhor da vila, primava pela qualidade do que fornecia.

Mestre na "renova" do pinhal, o “Tó” afiava o ferro como ninguém e conhecia todas as estremas. 

“Tirava” duas “voltas” e não constava que alguma vez tivesse renovado um pinheiro a mais, ou a menos. 

A vida de resineiro, completava a de marchante, que exercia, para abastecer o talho.

Levantava-se ao romper da manhã e saía, para o campo, ainda a acabar de comer a bucha. 

Voltava a casa para almoçar e, depois do jantar, à volta das duas horas solares, dormia a sesta, todos os dias. 

“Ferrava o galho”, como é costume dizer-se, de hora e meia a duas horas.

O resto do dia era gasto de quinta em quinta, ou de aldeia em aldeia, visitando os currais, na procura do que o “Manel Garrano” lhe pedia, para o consumo normal do talho, ou para encomendas especiais.

A importância de bodas, baptizados e festas, media-se pelo número de reses a que se tirava a samarra.

Nestas actividades era acompanhado pelo fiel “serra da estrela”, que, de seu nome “herodes” e grande como um burro, trazia ao pescoço uma coleira de ferro, com picos afiados, do tamanho dos dedos do dono e dentes de lobos que matara, em anteriores refregas.

Naquele dia dos finais de Maio, chegou recado do “Manel Garrano”, pedindo quatro reses – dois borregos e duas cabritas – para uma festa de uns clientes muito especiais. 

E, como pedidos do “Garrano” eram ordens e interesses a respeitar, o “Tó Ruço” preparou-se para sair: foi ao curral, assobiou ao “herodes” e saíu de casa, com a garrucha de junco na mão e a jaqueta pendurada no ombro. 

Dois ou três passos adiante, já o “herodes” ia, na frente. 

Na ribeira, levantou os olhos e reparou nas nuvens negras que se levantavam para os lados do pôr-do-sol; aqueles castelos tanto podiam provocar alguma trabuzana, como não dar em coisa nenhuma, mas tinha muito respeito pelas trovoadas de Maio. 

As poldras saíam da água menos de um palmo e a força da corrente era considerável; apercebeu-se que a ribeira estava a engrossar; encolheu os ombros e fez-se à vida...

Antes do sol-posto estava na “Quintazinha”, onde o “Tonho” tinha o redil de um pequeno rebanho. 

Assobiou, assinalando a sua presença e, como que num eco, veio a resposta do pastor, que se acercava do povoado.

Na passagem do gado, lançou a mão a duas borregas e outras tantas cabritas e separou as quatro cabeças para um cortelho, ali ao lado. 

É disto que preciso, amigo; quantas notas hei-de dar-lhe pelas quatro reses?

Os dedos do marchante agarravam as reses pelo lombo, um pouco à frente dos quadris, junto da alcatra e tanto bastava para verificar a gordura, o peso e até a qualidade do que apalpavam.

O pastor levou a mão à boina, coçou a cabeça e disse, resolutamente: você não é parvo nenhum; acertou no melhor que tenho em casa e não quero crer que haja igual na freguesia. 

Menos de quarenta notas ficam onde estão e olhe que uma dessas já foi rogada, ontem, à noite, e ouviu bom dinheiro. 

Isso é gado desenxovalhado, fazenda de primeira.

O “Tó Ruço” levantou os olhos e encarou o “Tonho”, bem de frente. 

Oh! homem, então você pensa que ando a roubar, ou quê? 

Já pensou a quanto tinha de vender cada quilo para arranjar dinheiro, só para lhe pagar? 

Vá, vamos lá fazer negócio!

O “Tonho”, com o olhar vagamente fixo, disse: trinta e seis notas e não se fala mais nisso; sempre tenho negociado com a vossa casa e o que de cá têm levado, nunca vos deixou ficar mal.

Trinta e duas notas e é negócio arrumado – atirou o marchante – e, metendo a mão no bolso da jaqueta, tirou um maço de notas e começou a contá-las. 

Logo o pastor atalhou e disse que nem pensasse; era ano de bons pastos e, daí a duas ou três semanas, valeriam muito mais, etc., etc.

O “Ruço” meteu as notas no bolso e disse: então você tem palavra de rei, ou quê? 

Racha-se ao meio e pronto! 

O “Tonho” tossiu, torceu-se, voltou a coçar a cabeça e acabou por estender a mão, aceitar as trinta e quatro notas de cem mil réis e guardá-las, no bolso das calças, resmungando… 

Apertaram as mãos; o “Tó Ruço” atou as reses umas às outras e reparou que estava escuro como breu. 

Tocou o gado e a descida para o “Monte” não correu nada mal. 

No povoado, apenas um ou outro cão ladrou ao “herodes” que nem respondeu. 

Entraram na rodeira que desce dali até à ribeira, por um piso de socalcos e profundos trilhos dos rodados das carroças. 

A meio da encosta, tudo corria com normalidade até que, após um relâmpago que alumiou tudo em volta e um trovão forte e prolongado, o gado começou a enlear-se, o cão impacientou-se e fixou o olhar, no caminho, uns metros mais adiante.

O marchante lembrava, mais tarde, que, também ele, ficara sem pinga de sangue, sem saber porquê, até que viu dois lobos, especados, no caminho, de olhos muito luzidios e ar de poucos amigos. 

Segurou a corda das reses, amarrou-a a umas moitas e gritou, para o “herodes”, a senha do costume: a eles, amigo!... a eles, amigo!...

Nessa altura já cão e lobos se tinham envolvido em ataques e defesas. 

Juntou-se à “festa”, de garrucha no ar, aos gritos, e distribuiu bordoadas, tentando amedrontar as feras. 

O “herodes” agia com mestrança e cada dentada que dava fazia moça nos inimigos, até que, sentindo entre os dentes o pescoço de um dos lobos, não mais abriu a boca. 

Sacudiu, com quanta força pôde, enquanto o dono afugentava a outra fera. 

Em poucos minutos, estava ganha mais uma batalha do “herodes” – um morto e um fugitivo.

O “Tó” falando para o “amigo”, de tu para tu, como ele dizia, passou-lhe a mão pela cabeça, felicitando-o pela vitória. 

No dia seguinte eram bem visíveis as marcas que os bicos da coleira do “herodes” tinham feito nas fauces da fera morta – um corpulento lobo macho, por certo parceiro da fêmea, que fugira –

Com o lobo às costas e as reses à corda, desceu até à ribeira. 

Pelas poldras, quase cobertas de água, passou um animal de cada vez. 

O “herodes” não precisou de ajuda; foi o primeiro a fazer-se à corrente e esperou pelo dono, no outro lado, lambendo as feridas, sentado sobre as patas traseiras, ao lado do lobo morto. 

Molhado até aos ossos, o homem, olhou para trás e viu as poldras já todas cobertas de água. 

Amarrou, de novo, as reses, pegou na fera morta e uns minutos depois entrava no pátio de casa.

Gritou à Amélia e filhos para que trouxessem um candeeiro e, ali, diante de todos, estupefactos, apontou para o lobo que jazia no chão. 

Queria que fossem os primeiros a contemplar mais um troféu do “herodes” que se batera como um autêntico herói e, entretanto, já se tinha dirigido à casota, onde roera qualquer coisa e se ajeitara depois das voltas, do costume.

Chamado, saiu, ainda que contrafeito. 

Todos ficaram admirados e trataram, o melhor que puderam, as feridas deixadas pelos lobos.

Espalhou-se a notícia e, no dia seguinte, a fera foi exposta, pendurada no velho plátano do largo da igreja. 

Tinha bem o tamanho de um homem e faltavam-lhe dois dentes, tirados para a coleira do “herodes”. 

Anos mais tarde, o “herodes”, já coxo duma pata traseira, cujo presunto servira de repasto a um outro lobo, morreu atropelado.

Deixou, no seu activo, a morte de nove lobos, para além dos estragos que não chegaram a ser conhecidos, resultado de escaramuças cujos sinais trazia.

Ainda hoje, nas aldeias da região “herodes” é nome de respeito, para pastores e até, segundo crença destes, para os próprios lobos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Duas vidas


Pouco mais de cinquenta metros, depois de atravessar a ponte da Ribeira, deixava-se o caminho, de carro, do Sanguinhal e mal se entrava no carreiro do lagar, descia-se uns dois ou três metros e, com todo o cuidado, a escada até à levada que ligava o açude, ao Sanguinhal do Lagar e, também atravessava a ribeira, aproveitando um tapume antigo, para apanhar a levada que seguiria, margem esquerda abaixo, até à Cabeça Gorda e à Caldeirinha. 

Tinha muitos meeiros aquele açude da ribeira, que, noutros tempos, em alturas de não regas e caudal mais abundante, movimentava o lagar de azeitona, ao tempo, em ruínas e, assim, condenando a Serra a não mais ter outro lagar, durante várias décadas. 

E, quando veio um novo engenho, a força da água da ribeira foi trocada pela de um potente motor de explosão. 

O açude era montado e melhorado todos os verões e uma das tarefas era a caça às irós, a fim de diminuir, ao mínimo possível, os danos que elas causavam na represa. 

Era um local especial para a fauna aquática, uma vez que, quando cheia, a foz da represa dava até aos lavadouros da ponte, onde não se acabavam as lavadeiras e a dispersão de restos de comida e dos detritos das lavagens. 

Na primeira hortita, logo à entrada do bueiro que abre para a levada da margem direita, os mimos do Ti’Manel Rosa mal conseguiam erguer a cabeça debaixo do pessegueiro de pêssegos amarelos, assoberbado por uma latada que se estendia até sobre a nossa figueira, situada mesmo junto da estrema das duas leiras. 

Quer uma quer outra das árvores traziam as raízes nas águas da ribeira; de lá subiam as balças e a vegetação dos freixos e trepadeiras, procurando mostrar-se, por cima daquele tecto de verdura, à luz e calor do sol. 

Afinal a vida nascia de baixo e de cima: da água e do sol. As hortas, naquele recanto de frescura, estavam, pois, entre as duas vidas. 

No espaço entre o pessegueiro e as videiras que vinham da horta do Ti’Manel Rosa e a nossa figueira de belos figos pretos, abeberados, de capa rota e bojo úbere, não havia qualquer cana de milho; estava, invariavelmente, dum e outro lado da estrema, povoado de couves-galegas, que, embora com falta de luz do sol, cresciam muito mimosas e tenras. 

Havia, por ali, sinais de coelhos que, depois de saciados com a verdura apetitosa, aproveitavam o local para fazer ali o touril. 

O local tinha duas finalidades, durante os meus tempos de férias: espaço de leitura, e lugar de descanso, nas manhãs de Agosto, quando tinha a redondeza pejada de costelas, armadas aos taralhões. 

Comi ali muitos figos, pêssegos e cachos de uma videirita do nosso lado, salvo erro, da casta “fernão pires”. 

Um conjunto de três pedras, colocadas, discretamente, pelo meu pai, e dispostas de tal forma que muito se assemelhavam a um sofá, dava mais comodidade que qualquer outro lugar na nossa casa. 

Um forro de junco fresco, cortado na ribeira, dois metros mais abaixo, e ali estava um verdadeiro trono, digno de reis e príncipes que, às vezes, para ali eram trazidos pelos enredos dos livros que ia lendo. 

Sentado, virado à ribeira, não via nem era visto por quem passava no caminho. Via, no entanto, alguns metros de levada na margem esquerda e o leito da ribeira, formado por uma mistura de tufos de junco, pedras branquinhas e água a correr, de gola em gola, sussurrando músicas tão do agrado de cardumes de peixes minúsculos que povoavam as poças da ribeira. 

Na força do calor, viam-se mais pedras bulideiras, polidas pelas águas de inverno, que charcas de águas quase paradas. 

Também, como sempre foi tão ao meu gosto, devo ter ali passado horas esquecidas, a pensar. 

Recordei muitas vezes aquele local, quando me diziam se não queria reflectir um pouco mais, ao tomar decisões que poderiam parecer precipitadas, mas eram, de facto, resultantes de muita análise e ponderação. 

Sempre fui homem de grande actividade intelectual; parecendo distraído, raramente desligo a máquina. 

Naquele tempo arquitectava os caminhos da vida. Muito diferente, isso era ponto assente e seguro, da que desfrutava ali, no paraíso. 

Teria de me convencer que lá longe, não sabia ainda onde, outros mundos me desafiavam e era preciso que aproveitasse, ao máximo, os gastos com os estudos, desenvolvendo as capacidades que sentia dentro de mim e continuando sempre, na liderança, ou próximo dela, em todas as situações que a vida me abrisse. 

Sempre pela escada ascendente, deixando a descendente para os abúlicos, os fracos e os incapazes. Sempre na luta leal, nunca baixando os braços. Sempre subindo. 

Então era o estudo; havia que estar sempre no topo. 

O segredo era, tão só, nunca perder o tino, nunca levantar os pés do chão e ler muito, quer daquilo a que fosse obrigado pelos deveres diários, quer daquilo que pudesse complementar o que se ia, obrigatoriamente, aprendendo; isso passou a ser secundário para os meus objectivos. 

E os caminhos nunca se me fecharam. 

A definição da vida sentimental pôs-se algum tempo mais tarde. 

Anos depois e já pelos meandros da vida, com um rumo definido mas ainda incerto, intrigado e sem perceber bem porquê, fiquei com a sensação, na última vez que a vi, que tinha chegado a hora. Havia que assegurar que o objectivo traçado era exequível. 

Porém, não por ali, mas perto do Lis, o convite para um encontro na semana seguinte não podia ser aceite e, depois a retoma do trabalho e a ida para férias, eram factores de desencontro. 

Depois do interregno não podiam voltar as dúvidas e um novo arrefecimento ou novas negas, que eu nunca aceitei como autênticas, podiam por fim aos meus projectos. 

Analisava a minha paciência, caldeada de teimosia, e assente em muita segurança e sorria. Nunca desisti do objectivo final; a força do que tinha que ser foi, afinal, mais forte. Estava por ali o que procurava e segui nas rotas do caminho que defini. 

Anos e anos, a fio, umas vezes mais excitado, outras mais calmo e sereno, nunca fui homem de abandonar o caminho, depois de meditado, ponderado e decidido. 

Acaba-se, com o tempo, por chegar a duvidar se algo já começou, ou se qualquer coisa irá começar. Porém não faz parte do meu feitio, nem parece enquadrar-se comigo, a desistência e o abandono do rumo traçado e da luta pelos objectivos. 

O tempo, não sendo nada de concreto, pois, na realidade, nem existe mais que o presente: a cada momento, o passado já lá vai e o futuro acaba de chegar. 

Porém é um grande mestre e, naquelas calmas e cálidas manhãs, ensinou-me a aprender a esperar, não agarrado ao passado, mas aproveitando o presente para ver o futuro. 

Sabia o que queria e na altura própria veio a recompensa. Tão simples como a confirmação de que afinal podíamos continuar os nossos projectos e era por ali que deveríamos ir. 

Era a estrada por onde duas vidas seguiriam, lado a lado. 

Num livro de Aristóteles acabei por perceber e, sobretudo interiorizar, que há muito de verdade quando se diz que a água só passa uma vez por baixo da mesma ponte. 

Associei outros dizeres de gente mais simples e, por isso, mais do meu agrado, como aquele em que o poeta Aleixo glosa o vinho que vai para vinagre sem retroceder o caminho. 

A conclusão de que, só por obra de milagre pode voltar a ser vinho, diz-nos, afinal, que não esperemos milagres, prevenindo-nos para que o vinho não chegue a ser vinagre. 

Esses pensamentos iam todos ter ao mesmo fim; caminho traçado e assumido é caminho seguido. 

E, no auge de mais um fim de serão, antes de apagar a luz, tudo se resumia à determinação e confiança que a Psicologia me ensinara: os complexos não servem para nada; a sublimação dos mesmos, pode e é, por norma, motor de força e factor de segurança, quer sejam eles, em génese, de inferioridade ou de superioridade. Acabam por caldear a força que nos move e impulsiona. 

O peso e vazio do escuro, que tão bem simbolizavam o nada, ajudaram-me a adormecer, sem perceber o que teria ganho ou perdido e, em tese, se alguma coisa haveria para ganhar, ou perder. A solução era continuar. 

Na próxima vez que nos vimos, esquecidos do vazio atravessado, rapidamente descobrimos o rumo a dois e desde então temos seguido o nosso caminho. 

Valeu a pena a definição caldeada naquelas calmas manhãs de Agosto. 

De objectivo em objectivo, sempre a pulso e sem afrouxar a corda tudo tem corrido bem e num balanço simples apenas ressalta uma conclusão: 

As duas vidas que num dia longínquo, e como que por acaso, se encontraram e pareciam paralelas, afinal não o eram. 

Desde cedo se foram aproximando e a convergência inevitável acabou por vencer. 

Valeu e continua a valer a pena.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A peçonha



Havia, ao tempo, catorze viúvas no pequeno povoado e todos os idos eram bem mais novos que as respectivas esposas. 



Em contrapartida não morava, na terra, um só viúvo que pudesse ser esperança dalguma das mulheres sós. 

Nas redondezas, não havia nenhum caso semelhante e até havia muita gente de famílias cruzadas, pelo que pela resistência do corpo nada parecia justificar o caso da aldeia dos Barreiros, nos contrafortes da serra dos Medos, junto à ribeira Seca. 

Os bailes da terra acabavam muitas vezes por ficar quase desertos, pois os rapazes da terra iam para fora e os das aldeias vizinhas não pensavam casar por lá, uma vez que toda a gente pensava que não valia a pena arriscar uma viuvez certa. 

Alguém, de fora, mais letrado e examinado, levou um dia o caso até ao padre da terra e questionou o que se poderia fazer para esclarecer a estranheza que incomodava toda a gente. 

Por este caminhar, senhor cura, daqui a dias ninguém mais casará nesta terra, ou virá casar cá; Serão coisas do mafarrico? 

Não seria melhor fazer uma sessão de benzeduras e práticas para correr com o chifrudo e deixar esta gente em paz? Que mal terão eles feito, saberá o senhor dizer? 

Ora homem, são coincidências; pois que haveria de ser? Calhou a ser assim, mas com certeza, tudo voltará ao normal e acabaremos por esquecer tudo isto. 

Para o senhor que não é casado, está tudo certo; Porém, senhor padre eu não estava tão descansado: 

Um dos viúvos vivia amancebado, outro nunca se chegou a casar e segundo as últimas informações, nos últimos anos morreram na terra três homens solteiros e sem mulher, porém todos se ajeitavam, às escondidas e com mulheres casadas, da aldeia. 

Aquelas, ainda que viúvas, são especiais, pois despacharam o homem e o amante – viúvas a dobrar, quero eu dizer. 

E olhe que também se diz que nunca nenhum homem que, pela surra se ajeitou com qualquer mulher daquela terra viveu muitos anos, depois dos casos. 

Ouve cá, Francisco, parece que me trazes qualquer coisa em que ainda não tinha reflectido bem. Afinal o assunto é mais complicado que parece assim à primeira vista e pode envolver mais gente que se supõe. 

Hei-de ver o que consigo saber em confissão, não para fazer uso, é claro, mas para poder estabelecer algumas práticas que ajudem a reduzir os casos ou, pelo menos, a sossegar os homens. 

O padre saiu dali a pensar se não teria chegado a hora de tomar medidas drásticas e quando lhe faltava o sono, ao longo dos serões, magicava, com os seus botões: com a lista das viúvas na mão, começava a dizer o primeiro nome: Florinda da Quelha, e acrescentava: Ah! Pois!... Rosa Amélia, sim também!... Ti’Lúcia do Adro… Ana da Chica… Estrudes… Maria da Graça… Lurdes… Rosalina, do barbeiro que Deus tem… Efigénia… Bernarda… Maria Amélia…Ermelinda… Conceição e Engrácia…Ah! Esta não!... Pois, não há qualquer relação de causa efeito. 

Bem, talvez um pouco mais aliviado, deitou-se e adormeceu. 

Mas sonhos esquisitos e suores frios, despertaram-no a meu da noite e… Mas o homem da Engrácia morreu esmagado debaixo duma carroça, quando carrejava o centeio para a eira!... 

Os das outras, todos se finaram, se bem que alguns na flor dos anos, mas todos sem doenças graves…

Será que, ao contrário do que pensam, ainda um dia acabam por ficar, outra vez, todas viúvas ao mesmo tempo?... 

O sono do padre era cada vez menos, a vontade de comer há muito que se tinha afastado dele e começava a ser complicado gerir as audiências e confissões de tantas viúvas que cada vez mais tinham maiores necessidades de assistência religiosa. 

Pensou em transferência, passou-lhe pela cabeça a resignação e apoquentava-se com uma ideia que começava a martelar-lhe na cabeça: 

Será que, ao contrário do que pensam, ainda um dia acabam por ficar, outra vez, todas viúvas ao mesmo tempo?... 

Benzia-se, castigava-se com leituras prolongadas e meditações profundas, mas… deixar o bem bom é que não lhe passava pela cabeça. 

E, quem, como ele, nada tinha a ver com aquelas viuvezes todas, que nada tinha feito para que tal acontecesse, senão… 

Mais uma noite de pesadelos se aproximava e, embora não matassem, moíam muito! 

Acabou por adoecer e ser substituído por um novo padre. 

Nos primeiros cinco anos na paróquia houve três viúvas e dois viúvos. 

Daí em diante as estatísticas eram perfeitamente normais, com o número de viúvas ligeiramente superior ao de viúvos. 

Porém as viúvas do tempo do padre Alberto nunca revelaram qualquer facto relacionado com a morte dos homens, lamentando todas a falta que, um padre tão bom e tão santo, fazia naquela terra. 

Também o padre Alberto não teria conhecimento de qualquer anormalidade… para ele segundo um escrito vago, encontrado entre os seus papeis, a peçonha de padre existe e poderá ser, inclusive, coisa do Demo. 



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O salto



Os tempos medianos do século passado, especialmente no segundo terço, correspondentes a antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial, pediram ao povo, sobretudo aos de mais fracos recursos, sacrifícios incalculáveis e deixaram marcas físicas e psicológicas, indescritíveis. 

Os países da Europa, desde os que estiveram directamente envolvidos na beligerância, aos que não entraram nos mais mortíferos e exterminadores combates da História, impuseram às suas populações custos inestimáveis e imprevisíveis, quer em vidas, quer em meios.

Portugal, ao tempo governado pelo auto-denominado Estado Novo, fortemente tutelado pelo regime Salazarista, não tendo entrado, directamente, nos mortíferos combates, nem tendo sofrido destruições maciças de equipamentos, usou a sua neutralidade, bastante ambígua, para fortalecer as reservas de ouro nos seus cofres e controlou o desenvolvimento das gentes, quer limitando ao mínimo as liberdades, quer cultivando a política definida pela trilogia de “Deus, Pátria e Família”. 

Finda a Guerra, enquanto por essa Europa se rasgavam novos horizontes, floresciam indústrias, cresciam escolas e universidades, em Portugal continuou a defender-se, até ao último folgo do então já anquilosado ditador, a cultura da casinha, do porquinho e da hortita, para criar os filhos e sobreviver. 

Até que, como seria inevitável, o país foi, inesperadamente, varrido por movimentos de libertação – classificados de terroristas, pelo Governo –, nos diversos territórios ultramarinos. 

Nos começos dos anos sessenta, os nossos jovens foram chamados às fileiras e enviados, “rapidamente e em força”, para os diversos teatros de operações. 

Mas uns quantos que dispunham de meios, conhecimentos ou motivações contrárias, recusaram a chamada e exilaram-se, por esse mundo fora. 

Os partidos, até então amorfos, terminaram a letargia e começaram a desenvolver a sua acção, quer ajudando na fuga dos que queriam escapar-se a uma guerra com que não estavam de acordo, quer começando a cativar a militância da juventude sempre generosa e ávida de novidade e aventura. 

Paralelamente a chamada para os países onde se começava a ganhar bem, onde era desejada a nossa mão-de-obra não qualificada, nomeadamente a França, Alemanha e Luxemburgo, falou cada vez mais alto e, houve regiões onde, no espaço de uma década, a população activa ficou reduzida a pouco mais de metade. 

No regresso das guerras coloniais eram pouco encorajadoras as oportunidades com que se deparavam os ex-militares. 

Restava, na maior parte dos casos a saída para outras terras, outras economias, outro estado de desenvolvimento mais compatível com o mundo novo que a recém iniciada rede de televisão ia espalhando por toda a parte, acabando por mexer com todo o “status quo” anterior. 

Mais uma vez, o que o regime sempre se recusou a admitir e não se preocupou em prevenir, aconteceu. 

Nos finais de Abril de meados dos anos setenta, a pressão do esforço das guerras, o descontentamento dos que tinham que ir ganhar a vida para outras terras e os ideais correntes que, desde Maio de sessenta e oito, em seis anos, portanto, tinham já invadido o país, mas não tinham conseguido vencer a blindagem do palácio de S. Bento, sede do Governo, que mesmo após a morte de Salazar, não deu sinais suficientes de preocupação com a angústia das populações. 

Uma “revolução sui generis” trouxe, finalmente, a nova esperança a muitos portugueses. 

De crise em crise, com percalços resultantes da falta de gente preparada para as tarefas da governação, com o regresso de centenas de milhares de portugueses, das guerras, dos territórios abandonados pelas forças armadas e de alguns que andavam exilados, passaram-se trinta e cinco anos e, qual ciclo menos brilhante, vão-se avolumando os problemas que as parcerias com sociedades mais evoluídas, as carências estruturais de meio século de hermetismo, as aberturas de fronteiras e a elevação dos níveis de instrução, teimam em fazer perpetuar-se por cá. 

Chegámos a níveis de confiança, de auto-estima, de tranquilidade e de bem-estar muito abaixo do que seria justo esperar, ainda há poucos anos. 

No fim dos anos sessenta, por casamento, tornei-me cidadão adoptivo de uma aldeia da Beira Alta, paredes-meias com Espanha, entre a Guarda e Vilar Formoso. 

A minha actividade de Professor, a família e o gosto por aquelas terras e gentes, bastante diferentes das da minha região da Beira Baixa, levaram-me a passar por lá, bastante tempo de férias. 

Passei a gostar daquelas gentes e dos seus costumes. 

No Rochoso, uma aldeia sede de freguesia, do concelho da Guarda, escondida dos ventos do norte e leste por um pequeno maciço granítico, tinham habitação, ao tempo, umas duas centenas de famílias, se bem que talvez metade lá não estivesse todo o ano – ausentes, principalmente em França e Alemanha. 

Nos meses de Agosto a população ultrapassava o triplo dos residentes habituais. 

Nos tempos que por ali passei, apercebi-me que as principais actividades dos lá residentes, gravitavam entre o levar “a salto” novos trabalhadores para os países da Europa, ou levar e trazer “a salto” o contrabando que, em toda a raia, atingia níveis elevadíssimos e era fonte de subsistência para muitos passadores, que davam o corpo ao manifesto e faziam engordar os verdadeiros contrabandistas. 

Desse modo, “o salto”, era das poucas actividades rentáveis, além do dinamismo que ia resultando do fluxo de dinheiro que chegava regularmente enviado por emigrantes, sobretudo de França. 

Famílias inteiras, desde crianças a velhos, procuraram meios de sustento e dinheiro que na sua terra escasseavam. 

A minha curiosidade, confiança e amizade com contrabandistas e passadores, forneceram-me inúmeras histórias daquela gente simples, tão do meu gosto, e enriqueceram-me com tão aperfeiçoada e elaborada técnica de dissimulação e poder de análise e observação de uma actividade que penso terá existido desde que o mundo é mundo e cujo fim não se prevê. 

Só que os homens, verdadeiros burros de carga, foram trocados por automóveis, camiões, lanchas rápidas e aviões.

Sem entrar no relato das peripécias e jogos do gato e do rato, entre guardas e contrabandistas, pode escrever-se um verdadeiro tratado sobre o conjunto de preceitos que preparam uma acção de transporte de mercadorias através da fronteira. 

Adiante-se que no contrabando, está sempre presente um pacto de sangue: o contrabandista presa a dignidade, a palavra, a audácia e o cumprimento da missão acima de tudo. Não rouba e faz gala da sua dignidade e competência. 

Quase todos terão sido presos, nos calabouços do lado de lá, ou já na nossa terra, mas têm um único comentário: fui preso “n” vezes, mas por roubar…”toque-le”, como me dizia, sempre o Zé Lines. 

Continuo a honrar a memória daquele meu amigo, acreditando em tudo o que me dizia. Vi que o código de honra daqueles homens era o seu bem supremo e, pela sua defesa eram capazes de quase tudo. 

Assisti a encenações de alibis para fugir às acusações de Guardas lá da terra e fiquei convencido do poder de imaginação e da capacidade de dissimulação daquelas gentes. 

Esconder uma carga ou uma pessoa é uma arte e quer contrabandistas quer passadores cultivavam-na até à perfeição, tornando-se exímios artistas...

Naqueles tempos, atravessar a fronteira com uma carga de vinte e cinco quilos representava um encaixe de vinte escudos; perder a carga ou ser apanhado pela Guarda era uma dupla humilhação: deixar de receber a paga, manchar a sua dignidade de contrabandista e muitas vezes deixar de ser convidado para novos trabalhos. Tudo isso aguçava o engenho. 

Já na outra actividade de passador de trabalhadores clandestinos, desde as nossas terras até França, ou Alemanha, os níveis de dignidade eram muito menores. 

A sabotagem, as guerras entre passadores e simples engajadores e o abandono antes do final do serviço eram frequentes. 

Os empréstimos de dinheiros e a cobrança de juros usurários eram o pão-nosso de cada dia. 

Enquanto entre os contrabandistas poucos crimes foram cometidos durante rixas ou deslealdades de “chibos”e “bufos” , acabaram na ponta de muitas navalhas, ou debaixo de agressões fatais, bastantes passadores de emigrantes.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A pensão da dona Prazeres





Por cima dos armazéns de tapetes e alcatifados da CUF, num prédio antes da R. de Santa Justa, subindo de S. Nicolau para a Praça da Figueira, abria-se a porta nº 150, da R. dos Douradores; e pela escada larga e pouco iluminada, mesmo em pleno dia, subia-se até ao quinto andar, direito, onde se situava a pensão da dona Prazeres. 

A “família” era formada pelos sete hóspedes com dormida, tratamento de roupa, banho semanal, jantar e pequeno-almoço; seis comensais para almoço; duas criadas; a patroa e o sr. Cardoso, contramestre numa alfaiataria da rua de S. Nicolau, especializada em fardamentos de gala, para os três ramos das forças armadas. 

Este sr. Cardoso, era o homem da casa, desde que Estefânia Prazeres deixara o ti’Manel Rocha, artista calceteiro dos belos passeios da Lisboa desse tempo, e escolhera este snob, empertigado e exemplar de todos os ricos atributos do verdadeiro “chulo”, que ostentava o relógio com pulseira de ouro, o trancelim no colete de fantasia e uma grande “cachucho” no dedo, junto da aliança e, no mindinho da mão direita, um anel com brasão, comprado num qualquer antiquário e empenhado por alguém que, mais necessitado de dinheiro que de pergaminhos, se desfizera da nobreza. 

Escrevemos dona Prazeres, com letra minúscula, embora tenhamos a certeza que o sr. Cardoso já não poderá ler estas linhas e, se pudesse, já não teria aquela arrogância que o caracterizava, do alto dos seus cinquenta e muitos, naqueles anos sessenta do séc. passado, para exigir tal tratamento para “sua mulher”. 

Caso contrário, em defesa da sua “dama”, era capaz de armar escândalo de todo o tamanho, se não exigir que, por faltar ao respeito, fosse dispensado lá de casa. 

A dona Prazeres que, vinda dos lados de Penalva do Castelo, serviu casas de muito boas famílias, casou com o ti’Manel Rocha, de quem não teve filhos, talvez com dúvidas na sua paternidade, e conseguiu, um dia, ficar com aquela casa de hóspedes de uma velha patroa, que se finou, num dia de Todos-os-Santos e nunca mais deixou de lhe merecer uma mão cheia de flores no cemitério do Alto se S. João, e uma missa em S. Nicolau, em cada ano que passava. Chamava-lhe madrinha. 

Até que numa bela ocasião, como ela orgulhosamente contava, encontrou “o seu homem”, muito fino e de muito boas famílias, mas sozinho. 

Resolveram fazer vida a dois; que, nem ela nem o seu homem precisavam nada daquilo, mas, gostos são gostos e o destino assim o quisera. 

E, enlevada, perguntava se estava a gostar dos charutos, pois o sr. Barata, da casa Havanesa, mandou-os com muitas reservas, porque “a marca que fumava habitualmente tinha-se esgotado e, por uns dias, fazia todo o gosto em oferecer, ao senhor, aquela caixa, para, também, saber a sua opinião”. 

Com a maior das afectações e o snobismo que o caracterizava, o sr. Cardoso disse que mandasse a criada dizer que “o senhor, por uma vez sem exemplo, aceitava a substituição, mas esperava que fizesse tudo, para conseguir os habituais charutos”. 

Durante cerca de um ano lá na casa de hóspedes, nunca vimos sair o “casal”; pois o sr. Cardoso saía todas as noites, para um cabaret ali atrás do teatro Dona Maria e, ao cair da meia-noite, mandava chamar um táxi para percorrer os menos de duzentos metros que o separavam de casa. 

Com os hóspedes, era muito reservado, e apenas os professores e os irmãos Galvão, Joaquim e Carlitos, lhe mereciam alguma atenção. 

O hóspede mais antigo da casa era o Fernando, que respondia pela alcunha de Pimentel e trabalhava, como empregado de balcão, num armazém de tecidos junto do cinema Lis, ali aos Anjos. 

Homem na casa dos trinta e muitos, natural do Porto, era dos que mais sabia sobre o senhor; seria o único que conhecera o Ti’Manel Rocha, a rondar a casa, antes de se aboletar lá António Santos Cardoso, chegado com uma malita de roupa e, como ele gostava de dizer, “sem ter onde cair morto e comendo que nem um alarve, para compensar fomes antigas; … quem o viu e quem o vê; por certo já se esqueceu que ainda lhe cheguei a emprestar, duas ou três vezes, vinte paus!...” 

Naqueles tempos, eu o meu colega, prof. Agrela, o Fernando e o Américo, do quarto ao lado e o Nogueira, empregado na mercearia fina, Casa Tavares, ao lado da Confeitaria Nacional, na praça da Figueira, percorríamos muitas vezes os cafés da Baixa, as Ginjinhas e os Eduardinhos, as tascas da rua das Pretas, a taberna do Zé da viúva e acabávamos por ver quase todos os filmes dos seis ou sete cinemas das redondezas. 

Também os bilhares do Martinho, do Paladium, dos cafés da rua da Prata e da rua 1º de Dezembro, entre outros – e eram tantos os lugares de convívio na Baixa daquele tempo –, eram lugares de passagem e permanência obrigatória. 

Por fim, também as mesas daqueles cafés – dos que deixavam estudar, já se vê –, serviram de local de preparação de exames para liceus e faculdades; um dos recursos quando o dinheiro não abundava e juntávamos o útil ao agradável. 

Depois, por volta da meia-noite, era chegar à esquina de Santa Justa e chamar o “sereno”, que estivesse mais perto. 

Logo ele batia as palmas, com o sinal apropriado para que o colega da nossa zona nos viesse abrir a porta. 

Ali nas imediações de Santa Justa, até S. Nicolau, chegavam a juntar-se seis guardas-nocturnos, que acabavam por nos conhecer a todos. 

Tudo ia decorrendo normalmente lá pela casa de hóspedes quando eu e o outro professor nos despedimos; eu que dali a dois ou três meses ia para Mafra, fazer o curso de Oficiais Milicianos, arranjei um quarto na calç. da Graça; o meu colega ocupou um quarto disponível nas instalações da escola. 

Viemos a saber que houve grande agitação lá pela casa da dona Prazeres, pois o sr. Cardoso tinha chamado a polícia, para revistar tudo e todos, queixando-se que lhe tinham roubado um malão que tinha debaixo da cama, onde dizia guardar avultados valores em dinheiro, peças de ouro, colecção de moedas de prata e ouro. 

Ao todo, avaliava o furto em mais de dois mil contos – uma pequena fortuna para a época. 

Diligências e mais diligências que nem a polícia, nem nenhum dos hóspedes, nem as criadas e muito menos a dona Prazeres levavam a sério; mas todos colaboravam na farsa de que o autor se mostrava muito compenetrado. 

Não era segredo para ninguém que uma tal Lolita, bailarina e “décor-residente” no “Passapoga”, passava os serões com o sr. Cardoso, no cabaret junto do teatro, aumentando, em cada dia a conta do “seu querido Cardoso”. 

Das nove à meia-noite, tinham mesa reservada e garrafa de champanhe à disposição; depois a “estampa” ia ganhar a vida, no trabalho, e o “velho” ia para casa, deixando a conta cada vez mais carregada. 

Quando as coisas deram para o torto, isto é, a mesada da Prazeres, junto ao ordenado de contramestre da alfaiataria, começaram a não satisfazer as necessidades da companhia do cabaret, começaram a ser regulares as visitas do sr. Cardoso às casas de prego, para arranjar mais dinheiro de suporte para “os pedidos” da espanhola. 

Ora sem nada a entrar e com as saídas regulares, não duraram muito tempo as reservas do amante e, sem dinheiro, não havia mais amor. 

Restava a encenação do furto para justificar a sublimação dos valores que, com tanto gosto e a princípio ingenuidade, a boa dona Prazeres lhe tinha confiado. 

Quando a espanhola deixou de passar lá no cabaret, o “benfeitor” começou a passar os serões em casa, mais conversador com os hóspedes, mais solícito para a patroa e saindo, de vez em quando, para ir ao teatro ou ao cinema com a mulher e, muitas vezes, passando pelos cafés a ler o jornal e tomar a bica como qualquer vulgar cidadão. 

Até levava a dona Prazeres ao café! Dizia-me, espantado, o Fernando, que continuou na casa mais uns bons anos e acabou por ser o decifrador de todos os “investimentos” do Cardoso. 

Soube, ainda, que mais tarde a dona Prazeres não resistiu à sua angina de peito, ficando o sr. Cardoso, já velho e reformado, a viver o resto dos dias numa modesta casa de hóspedes, que o Fernando “Pimentel” lhe arranjou, lá para os lados dos Anjos, junto da loja onde continuava a trabalhar.