segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O penedo da Lameira



Ainda o sol, vindo dos lados do Casalinho, depois de contornar o cabeço do Pião, não banhava o povoado, já o “príncipe” espreitava os primeiros raios, especado no alto da portela da Casinha, ali no cimo dos Brejos. 

Um pouco mais atrás, o Ti’Luís Mestre – moleiro desde que se conhecia e dono de uma das azenhas do ribeiro da Louriceira – seguia o “fadista”, ajoujado sob a carga de taleigos de farinha, com passo lento e cadenciado. 

A aldeia, estendida no sopé de um pequeno relevo – de que herdou o nome, impróprio, de Serra – tinha acordado, há muito. Eram sinais disso, o cantar dos galos, o ladrar dos cães e o barulho de um ou outro chocalho das cabeças de gado que já se dirigiam às hortas. 

O moleiro, que visitava a aldeia todas as semanas, tinha os seus fregueses. Até o “fadista” guiava o dono, parando junto às portas onde ia trocar o taleigo de farinha pelo saco de cereal, que levava para o moinho, trazendo a farinha, depois de moída e maquiada, na semana seguinte. 

Naquele ritual, enquanto parava às portas, o “fadista” ia lançando a boca às verduras, ou outras coisas comestíveis que apanhasse à mão, o que muitas vezes lhe valia uma arrochada no lombo, não tanto como castigo, pelo abuso, mas como sinal de arranque para a próxima paragem. 

O “príncipe”, que todo o caminho se entretivera a correr, a parar de repente, a ir ao dono, a fugir para fora do caminho, perseguindo as lagartixas que passavam ao seu alcance, sentava-se, sobre as patas traseiras, enquanto atendiam os fregueses. 

Não se incomodava com a comida, pois, normalmente, não tinha fome. Os ratos, ratazanas e similares, que pululavam lá nas azenhas, chegavam e sobravam para lhe encher a barriga. 

Daí que os seus maiores inimigos fossem os gatos, que pintavam no terreno, à procura de “caça”. 

O Ti’Luís Mestre, sexagenário baixote e atarracado, vestia, invariavelmente, calças de saragoça, camisa de flanela e um blusão, tipo jaqueta, justo na cintura. 

Calçava botas de cabedal, ensebadas e cobria-se com uma boina escura e esbranquiçada pela farinha. Até as sobrancelhas denunciavam a profissão do moleiro, que, raramente se separava da bengala com que acariciava o lombo do “fadista” e lhe servia de amparo e companhia, nas caminhadas. 

A maquia dos taleigos chegava para lhe dar uma vidinha sem sobressaltos e para criar os quatro filhos que estavam em casa, com a mãe – a Ti’Luísa, uma santa. 

A personalidade e o feitio do moleiro tinham-se adaptado ao ritmo da azenha; dormia, com o barulho das mós, acordava, com o silêncio das paragens. 

Uma manhã, de fins de inverno, ao deitar o nariz fora do casebre, onde funcionava a azenha e onde tinha o catre em que, tal como seus antepassados, estendia os ossos, enquanto o engenho marchava, viu tudo branco – havia, nos campos, uma coisa que nunca vira –. 

Imediatamente lhe veio à ideia que em tempos ouvira falar na neve, que cobre as terras altas e é formada por água gelada, que cai assim do céu. 

Saiu do tugúrio, assobiou ao “príncipe”, que parecia louco, a correr de um lado para o outro e a meter o focinho na neve branca e fofinha. 

Deu uns passos em redor do engenho. A água do ribeirito continuava a correr e tudo marchava, em perfeita ordem e harmonia. 

Nesse dia fazia a volta da Serra, pois era terça-feira e não era dia de Entrudo, nem de Natal – únicas excepções para essa viagem semanal –. 

Ao chegar quase ao cimo do vale, junto ao penedo da Lameira, olhou para o cabeço do Loureiro, nos altos da encosta em frente e viu tudo branco. 

Que delícia, o brilho do sol reflectido pela neve!... 

Parou uns momentos e fez alto ao “fadista”, voltando-se para ele, como que a convidá-lo a admirar aquela paisagem, nunca antes vista e, provavelmente, poucas vezes se repetiria. 

Inopinadamente, um sobressalto agitou o burrito, que soprou, violentamente, pelas narinas; ali perto, o cãozito, andava num frenesim nada habitual – nunca se lhe vira tal agitação –. 

Homem e animais estavam no centro de qualquer coisa; participavam em qualquer cena desconhecida a que a neve dava moldura especial e o espírito calmo e pachorrento do Ti’Luís Mestre não percebia. 

Sentia que o burrito estava hirto e o cãozito todo eriçado, fixados na fresta do penedo. 

Olhou, instintivamente, na mesma direcção, depois de, em milésimos de segundo, lembrar as moiras encantadas, as luzes referidas pelos mais alucinados com a zurrapa que bebiam na tasca do Sebastião e até imaginou a bandeira que, segundo a tradição, ali foi colocada, pelas tropas de Napoleão, marcando o centro de Portugal. 

De repente, acordou, desceu à terra, agitou os pés, sobre a neve, e, junto dos seus companheiros, olhou... esfregou os olhos, para se certificar que não sonhava, e viu uma loba, maior que os maiores cães que já vira, saindo da fenda do penedo, abandonando o covil, acompanhada por três filhotes. 

Depois, dirigiu-se para o mato, sem denotar grande nervosismo, e desapareceu. 

Estava feita luz na cabeça do Ti’Luís Mestre; não lhe falassem de barulhos de moiras encantadas, de luzes na escuridão, ou bailados e reuniões de bruxas... 

No penedo havia sim um covil de lobos, cujos ruídos eram normais e que ao saírem, durante a noite, projectam a luz dos olhos para quem os vê. 

Foi sem receio que continuou a passar no local, pois ao ser interpelado, o ti’Luís limitava-se a galhofar: 

Tenho medo do “bicho homem”, que me pode fazer mal; dos outros, dos verdadeiros bichos, nunca tive medo, porque tenho a certeza que sempre me tratarão como eu os trato: nunca me farão mal.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Lagar cooperativo


A oliveira, se bem que árvore secundária na zona, ocupava, nos meados do século passado, lugar importante na arboricultura e pesava muito na economia daquelas terras do centro do País. 

O azeite “chave dourada”, da região de Mação, era afamado, desde que, em tempos passados, segundo cronistas locais, chegou à mesa do Rei. 

Os olivais, lenta mas continuadamente, iam sendo substituídos pelos pinhais, tal como anos antes, no início do século XX, tinham ocupado os soutos de castanheiros, que, ao tempo, estavam, praticamente, extintos. 

Nos anos quarenta e cinquenta havia, ainda, muitos lagares de azeite, dispersos nas margens das ribeiras, em locais de difíceis acessos. 

Muitos estavam em vias de abandono, porque apertava o rigor das normas de higiene e os métodos ancestrais começavam a ser substituídos por força motriz. 

Na Serra, tínhamos restos de um lagar, na ribeira e, dentro do povo, ainda havia uma casa, ao fundo da Carreira, a que se chamava a atafona, por ter sido lagar, noutros tempos. 

Para moer a azeitona da terra, recorria-se aos lagares das redondezas: do Ti’Manel da Cruz, na Queixoperra, da Amieira Cova, às vistas da Saramaga, da Aboboreira, junto ao ramal do Vale da Figueira e de Penhascoso, para os lados do Pedrógão. 

Fui a todos eles, com meu pai. Era vulgar moer-se, em cada ano, em dois ou três lagares, consoante a proximidade dos locais de recolha da azeitona, que, em nossa casa, estavam dispersos, desde o Carocho, entre a Queixoperra e Penhascoso, às hortas da Ribeira, entre a Serra e a Saramaga. 

Cada época íamos várias vezes, ao lagar: começava-se por combinar os serviços e conhecer a tulha que nos era distribuída, depois levava-se a azeitona, ia buscar-se o azeite e o bagaço e, participava-se na tiborna que encerrava a safra. 

Comia-se uma boa couvada com bacalhau, temperada com azeite seleccionado para amostra da produção desse ano. 

O azeite era, generosamente, derramado nos pratos dos convidados, sobre as couves e o bacalhau, com uma medida de folha, de um ou dois litros. 

Tenho, ainda, na memória, aquele gosto de azeite novo. 

Foi neste contexto que um dia, depois da ceia, o meu avô e meu pai saíram, dizendo que iam a uma reunião por causa dum lagar. 

Não era muito frequente e os que ficámos fomos para a lareira, como de costume. 

Pouco tempo depois, ao voltarem, confirmaram que tinha sido formada uma “comprativa” para fazer um lagar e que, das cem acções, a nossa casa ficou com três – uma para cada neto, segundo as palavras do meu avô –. 

Assim, como assim, só a facilidade de levar a azeitona e trazer azeite e bagaço, valiam os três contos de réis que se aplicavam; mas havia de vir de lá alguma coisa que compensasse. E, o mais importante, como frisava o meu avô: Nestas coisas, não se deve ficar de fora. É um melhoramento na terra. 

Fui ao dicionário, quando cheguei, dias depois, a Mação, ver que raio de coisa seria aquela de “comprativa”. Lá consegui saber que se tratava de uma cooperativa e percebi, em essência, como funcionaria o lagar, que afinal seria feito com o dinheiro de todos os associados e não de um único dono. 

De resto em tudo era idêntico aos lagares tradicionais, excepto na força motriz a utilizar e nos equipamentos; uma e outros, modernos e avançados para os tempos que corriam: motor a diesel e prensa hidráulica. 

A construção decorreu a tempo de fazer a próxima safra, por sinal um ano de boa produção e boa funda da azeitona. Muito azeite e de boa qualidade, ajudaram a entusiasmar toda a aldeia e o lagar moeu, praticamente toda a azeitona da terra e ainda alguma de fora. 

Muito trabalho, bons resultados de maquia e, dado que ainda não havia despesas de manutenção, bom rendimento do dinheiro das quotas de cada cooperante. 

Muitos manifestaram arrependimento de não terem entrado de início e quando tentaram comprar quotas, não encontraram vendedores. 

Durante vinte ou trinta anos tudo correu bem; depois, com a degradação dos equipamentos, as despesas aumentaram, a quantidade de azeitona diminuiu e as exigências legais quanto a qualidade, asseio, meios técnicos e controlo de produção tornaram o número de associados cada vez mais pequeno. 

Veio a ser só de três sócios que acabaram por se desentender, puxando cada um para seu lado. Tinha-se acabado a “comprativa”. 

Acabou, por falta de quem dirigisse. 

As imposições legais, tratando estas pequenas unidades como sociedades industriais de grande porte, deram a machadada final numa coisa que foi tão bonita e conseguiu vingar, quando, ainda em tempos do Estado Novo, não era muito apoiada e acarinhada qualquer iniciativa de natureza cooperativa. Era um nome que pouco entusiasmava as autoridades. 

Não sei como foram os últimos tempos do lagar da Serra. Penso, no entanto, que acabou propriedade de um só dono e que só excepcionalmente laborou, nos últimos anos, deixando de dar lucros. 

Mas, o maior prejuízo foi para a Terra, em vez de um serviço ao pé da porta, os moradores voltaram a ter de deslocar-se até aos lagares de outras terras próximas. 

A resina e o azeite foram duas das grandes fontes de subsistência daquelas pequenas terras de província. 

Não posso ouvir dizer, numa altura em que tanto se fala de desemprego e problemas sociais, que já não é rentável explorar aquelas matérias-primas, com a desculpa de que é mais barato comprar fora que produzir. 

E acabo meditando nas palavras do meu avô. 

Nunca consegui saber a resposta, ou a frase completa que ele tantas vezes quis dizer-me: adeus mundo, cada vez… Na expressão do meu avô, seria, de certeza, melhor… 

É que sempre o vi como um homem muito prudente, seguro de si, ponderado e crente. 

Mas também ousado, ambicioso e confiante. E confiava, acima de tudo, na força de vontade e na capacidade humana. Um verdadeiro optimista. 

Um homem não muito grande, mas um grande homem, o avô Zé Lourinho.


terça-feira, 24 de julho de 2012

As batatas da Ribeira

Enquanto esperava pela água, de pé sobre o camalhão da levada, entre a nossa horta e a da “Ti’Lexendra”, o meu pai contemplava aquelas leiras de batatas, que não teriam nada parecido nas redondezas mais chegadas. 

Desde que se conhecia já “semeara” muitas arrobas de batatas, de muitas variedades, em muitas terras diferentes, mas novidade como aquela, era a primeira vez que via. 

Os três chãos da Cabeça Gorda – nome de família da nossa horta da Ribeira - estavam, naquele ano, todos “semeados” de batatas: os dois da borda da ribeira com batatas do segundo ano de produção, na nossa casa, e o chão de cima, o maior, com três sacas de “arran-banner”, importadas da Holanda. 

Era este chão de cima que enchia os olhos de quem passava, ou até ia de propósito ver semelhante maravilha: um verdadeiro matagal, todo parelho, em altura de plena floração, de cor branca – rosada. 

Os outros dois, com plantas mais fracotas, também não estavam mal, mas aquelas é que mereciam uma bela fotografia, como dizia meu pai. 

Se a produção fosse em proporção do que estava à vista, teríamos ali para cima de cento e cinquenta sacas de batatas – à roda de seis toneladas –. 

Aquele orgulho silencioso merecia mais atenção; o meu pai, como a maioria das gentes humildes do campo, tinham muito orgulho no que faziam de bom e reviam-se na obra que produziam, independentemente da quantidade e da escala em que labutavam. 

Comprar uma nova horta, receber mais um tostão pelas sangrias dos pinheiros, apresentar um porco desenxovalhado, caiar a testada da casa a rigor, e outras pequenas coisas, eram o orgulho da gente simples das nossas aldeias. 

As grandes coisas não eram para eles. 

Fiquei a saber que aquele chão, depois de lavrado, enterrou mais de quatrocentas paveias de rama dos pinheiros da courela próxima – Pontão –, trazidas por umas cinquenta viagens da carroça da mula. 

Carregadas e descarregadas pelos braços de dois Amorins – meu pai e o “Ti’Amorim Maia” que ajudou a enterrá-las e a pegar-lhes fogo. 

Depois de bem queimada a terra, foram espalhados uns oitenta cestos de esterco, que iam dando cabo do pescoço e das cruzes da tua mãe – dizia o meu pai, carinhosamente. 

Adubo, nem vê-lo. Estas, não têm uma gota e o consumo de casa será todo daqui. As dos chãos de baixo, podem vender-se, se aparecer comprador. 

A propósito, outro dia disseste-me que as batatas não se semeiam; plantam-se. Bem, nisso não quero meter-me, mas então por que raio é que o Governo deixa escrever nas sacas com estas batatas, batata de semente. 

Há aqui qualquer coisa que não se compreende lá muito bem. Olha aqui: sabes que já aprendi as letras e pelo menos isto está ao meu alcance: ba-ta-ta de se-men-te, não é verdade? 

Tem toda a razão; certamente quem autorizou a escrever isso não reparou. Mas não fique com dúvidas, porque as batatas são plantadas e não semeadas. Se continuar a dizer como sempre disse, não comete grande erro, pois a mais não será obrigado. 

Porém, quando ouvir uma pessoa com estudos dizer que as batatas se semeiam, tire as suas conclusões e saiba que se um dia falar com alguém a quem queira mostrar que sabe, deve dizer, andei a plantar as batatas e não a semear as batatas. 

Mas onde íamos nós? 

Ah, depois de plantadas as batatas, tiveram uma semana de tempo húmido mas sem chuva; o suficiente para grelarem e começarem a deitar raízes e, nessa altura vieram umas pingas que chegaram bem para a primeira rega. Tudo corria de feição. 

E, desde então, tem sido um louvar a Deus; isto pode ver-se. 

Quando começou a rebentar a flor, apareceram aí muitos escaravelhos e uma outra praga ameaçadora. 

Fui a casa, fiz uma calda de sulfato de cobre e com três pulverizadores dei-lhe uma primeira passagem. 

Uma grande parte da bicharada, raspou-se, mas ainda lá ficaram muitos. 

Mais três pulverizadores e foi remédio santo; na rama nem um só se via, mas muitos dos piratas esconderam-se na terra e podiam voltar a atacar. 

Estávamos na semana da Paixão e a lua-cheia trouxe duas valentes chuvadas, atrás duma trovoada de respeito. 

Vim logo aqui e o que vi: A bicharada que tinha descido à terra foi morta pela calda que a água da chuva arrastou das folhas e ficou tudo limpinho. O sulfato tratou deles – deu cabo do canastro à praga toda –. 

Só me parece que afinal “plantei” as batatas muito ralas e, se calhar, vão ficar muito grossas. 

Têm menos venda, mas como estas devem ser quase todas para gastos de casa, não tem muita importância. 

Tenho ainda de separar uma ou duas dúzias de saquitos para semente; para casa e para vender, pois isto que está aqui vai valer dinheiro; oh se vai!... 

Nesta altura da conversa já estava quase terminada a rega; meu pai acabava de cortar a água para a quarta das cinco belgas. Mais um quarto de hora e também se acabava a água do açude; os chãos de baixo seriam regados dois dias depois, quando a água voltasse a ser nossa – em partilha de sete dias, tínhamos três –. 

Saídos dali, passámos na azenha a ver se já tinha terminado o pão que tinha ficado a moer e a caminho de casa, ainda pude ver a fila de eucaliptos que meu pai plantou ao longo do caminho aberto pela CM na nossa da Lomba. 

Mais um bom trabalho que, passados anos, depois de evitar a erosão das terras do aterro, viria a render uns bons milhares de escudos, pela venda da madeira. 

Um dia, chamaram-me da alfaiataria do senhor Manuel Diogo, na rua de S. Pedro, em Mação: 

Pelo telefone, meu pai disse-me, orgulhoso: a horta deu 160 sacos de batatas!... Até domingo, se Deus quiser; na próxima semana já vais comer destas belas batatas. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Lameiro dos Barroquinhos




O Lameiro dos Barroquinhos, na encosta avesseira que sobe do Noeme até ao Monte Margarida, era dos lugares mais aprazíveis de todos os assentos daquela margem direita da ribeira que vai correndo para o Côa. 

Virado a norte, frente ao Rochoso que acomodado no pequeno morro do Calvário, era todas as manhãs acordado pelo silvo do trama que, vindo de Vilar Formoso, se detinha no apeadeiro para apanhar as pessoas que se dirigiam à cidade da Guarda. 

Acompanhado do Zé Lines, passei por lá horas esquecidas; umas vezes vendo despontar o sol, sobre a Senhora do Monte, depois de rasgar a maresia que nos finais de Agosto se entretinha a dar um último retoque nas castanhas do Abrunhal. 

Faltavam apenas dois meses para o São Martinho e a novidade ainda não estava bem composta. 

Na Rasinha, já se divisava o caminho velho da Cerdeira, por entre as vedações dos lameiros onde os vivos, pachorrentamente, tosavam as ervas. 

Pouco depois dos primeiros raios de sol, já a buzina do padeiro de Almeida percorria as ruas da aldeia e aviava as freguesas antes de irem para a missa. 

Também nos dias em que os ventos não sopravam, ou estavam de feição, chegavam as badaladas dos chocalhos e os balidos das crias atrás das mães, sugando o leite fresco da primeira refeição da manhã. 

Mais ao longe, lá para a folha da Senhora do Monte, um "Serra da Estrela", guardião do rebanho dos Moitas, atroava os ares com o ladrar profundo e medonho; provavelmente provocado pelo cheiro deixado por algum lobo que por ali se tivesse cruzado durante a noite. 

Dos assentos da Sapateira, até aos barrocos que, emoldurando as Fontainhas, parecem querer guardar a aldeia pelo lado norte, já se regavam as águas das represas e se colhiam uns mimos que iriam dar o tom verde ao caldo, nas panelas com o almoço. 

Pelo lado sul, junto aos lameiros do Enchido divisavam-se os vivos que esperavam avidamente para meter o dente nas ervas tenras. 

Junto ao apeadeiro movimentavam-se os passageiros que aguardavam o trama, depois de ouvir o apito, uns minutos antes, à saída da estação da Cerdeira. 

Os caçadores de taralhões – o professor e o amigo Zé Lines -, há duas horas que percorriam as redondezas da ribeira, espalhando, por baixo das árvores, as costelas, com as formigas de asas bem presas nos agudieiros e brilhando ao sol para atrair os passaritos à sua última refeição. 

Descansavam então, com uns metros de sol acima do horizonte, esperando que a passarada acordasse e se agitasse em procura da bicharada que iria satisfazer o apetite matinal e, para alguns, seria o encontro com as costelas – na aldeia chamadas costilos – e o fim de vida. 

Uma meia hora depois, dirigir-se-iam para o princípio da área de caça e começariam a primeira caçada, visitando todas as costelas para retirar as presas e repor as agúdias que morreram, ou foram comidas sem provocar o disparo da armadilha. 

Tinham então lugar as conversas do costume. O professor era curioso e o amigo muito solícito. O Zé Lines ia dando as novidades e regando as dentadas nas sandes de pão espanhol e chouriço com a garrafita de tinto, que o amigo nunca esquecia. 

Depois, ansiosos, começavam na tapada do moinho da ribeira e, durante perto de uma hora, visitavam todas as árvores onde estavam as armadilhas. 

Finda a caçada, seriam retiradas duas dúzias taralhões e deixadas, outra vez armadas, as oitenta e quatro costelas, que, duas horas depois, seriam de novo visitadas e levantadas. 

No intervalo entre as voltas pelas armadilhas, como já era costume, quedavam-se ali pelo lameiro dos Barroquinhos, sentados no cômoro da levada que distribuía a água por aquele e pelos outros lameiros daquela folha. 

Satisfazendo a curiosidade do professor sobre as artes do contrabando, o Zé Lines não se cansava de contar histórias, metendo as galgas e as fantasias habituais. 

O professor ouvia com toda a atenção e tomava notas num cadernito que trazia sempre consigo. 

Nesse dia, pelo fim da tarde, o grupo do Ti’Cabano da Parada tinha “faina”, pelo que, logo depois do pôr-do-sol, todos os “maquinados” deviam juntar-se no sítio número três e aguardar ordens. 

O Zé Lines sabia ler. Em garoto frequentou a escola lá na terra e completou a quarta classe. Era, pois, com recado escrito que, às vezes, o Lines era convocado e encarregado de passar palavra a um ou outro camarada da terra. 

No meio dos episódios do costume e com os piropos que iam mimoseando os guardas-republicanos, da aldeia e os guardas-fiscais de outras localidades, o Zé Lines tirou um papel do bolso das calças e estendeu-mo, dizendo: sei que o senhor professor é de confiança e então leia lá esse recado que recebi a noite passada. 

Mas, olhe que isto que estou a fazer só pode ser feito a alguém em quem temos tanta confiança como em nós próprios. 

Se precisar de ajuda eu ensino-lhe o que aí está escrito. Essa maneira de falar é a que os contrabandistas usam entre si e também para despistar os guardas, os carabineiros e os espiões. 

Dizia o papel: 

Amatriz, meia choina, maquinamos totios cangra coime do mercho chingados e assuquidos. Reta francha. Árgio o galhal cada vinte chulos artife chaira e briol chingato. Tramposa, grilo e naifa e terá fuganta tratar esgueirantes. Todo chingato não maquina e cada terá dois tratos. Terá argio o galhas trinta. 2 sacos de paivos e paquete de galletas. Fachos adicam altra ruta. Todos chegatos ergue pinante e diz a Tonio Petesgo: icho, intervo. Maquinamos, chefe é rei. 

Algumas palavras não estavam muito perceptíveis e a tradução que se segue poderá não ser rigorosa, mas o sentido é o seguinte: 

Amanhã, à meia-noite, todos prontos e preparados, junto da casa do padre, comidos e bebidos. Espanha. Cada um receberá vinte em dinheiro, pão, carne e vinho. Manta, assobio e navalha e terá pistola para tratar os intrusos. Quem estiver bêbedo não está pronto, cada um terá duas cargas. Receberá trinta escudos em dinheiro, dois pacotes de cigarros e um de bolachas. Os guardas serão chamados por outros caminhos. Todo o que chega levanta o braço p’ró Tónio Petesgo: cheguei pronto. Prontos, chefe é rei. 

O calão português, usado pelos contrabandistas ao longo das fronteiras variava de região para região e às vezes de chefe para chefe de grupo; porém a maioria dos carregadores conhecia o linguajar e sabia disfarçar mesmo que houvesse infiltrados nos grupos. 

Era vulgar haver ex-guardas no contrabando e alguns, no activo, para descobrirem rotas, grupos, fornecedores e tudo o que se relacionasse com contrabando. Se descobertos eram, não raro, eliminados à naifada. 

Depois de muitas explicações e as minhas tomadas de notas, acabei por saber que o "contrabandês", era resultado duma mistura de calão português, espanhol e francês, com palavras da gíria das regiões onde era praticado. 

Era um linguajar oral, pois a esmagadora maioria dos interessados era analfabeta. 

Foi usado, largamente, até aos anos sessenta do século passado; a partir de então, meios de transporte e comunicação alteraram as práticas dos contrabandistas e o trabalho de transporte de cargas acabou por se extinguir. 

Restaram algumas pessoas que iam e vinham de comboio, às quitandas junto da raia comprar pão, bolachas, caramelos e alpercatas para vender nos povoados onde moravam. 

Todo o contrabandista tinha orgulho no trabalho que fazia, pois no seu conceito não estava a fazer nada de errado. 

Fazer contrabando não é pecado nem indigno – não faz mal a ninguém e dá de comer a muita gente -, dizia o Zé Lines, pesaroso, porque rareava, cada vez mais, a chamada para mais umas cargas. 

E acrescentava: “Roubar é que não!...Toque-le!...”. 

Naqueles tempos, levar, ou trazer uma carga, através da fronteira entre Espanha e Portugal, rendia à roda de vinte escudos, coisa que um homem ganhava durante uma semana a trabalhar no campo. E, mesmo a este preço, havia mais gente que trabalho, nas regiões fronteiriças do interior. 

O Zé Lines contava as peripécias que tinha passado atrás das grades da cadeia de Vitigudino e da água com azedas e nabos cozidos, que davam lá aos presos. 

Olhe, senhor professor, nunca vi porcos como os espanhóis; tratam a gente como bichos. 

Para cá da linha, os “fuscos” nunca me puseram as mãos em cima. 

Só uma vez que trazia dois carregos tive de deixar um, para fugir ao “facho” que me perseguia, quando o achei em jeitos de puxar da “fuganta”. 

E fui centos de vezes a “Reta Francha”, com carregos de “alampio, paivos, adoçante, escarchantes, moca, pernantes, chaira e coisas que a gente nem sabia o que era”. 

Nas “becas” não se falava, claro. 

Havia, sempre, alguém que estava disposto a “adicar aos fachos” e, muitas vezes, iam disfarçar e prender os “jerigos”para a companha passar, à vontade, noutro local. 

Sempre fomos mais espertos que os “fachos” que não tinham “murchoila”que se visse. Era como nós dizíamos:

“Se prestassem para alguma coisa não iam para “fuscos”. 

Às vezes estávamos dois a “chingar na beca e quando víamos – os adicadores a cuscar – fazíamos cenas todas ao contrário, para depois ir aos nossos levar a ordem de avançar, em segurança. 

Nas “tainas e festas”, os “fachos” e os chefes comiam e bebiam connosco, nas horas em que os grupos passavam. 

Havia alguns “fuscos” que tinham sido expulsos, ou deixado a guarda, de livre vontade e, mais tarde, andaram nos carregos. 

Mas só depois de muito experimentados é que os chefes os levavam e, ainda assim, alguns acabaram na ponta de uma naifa, quando traíram a companha. 

Eu andei, quase sempre, durante mais de vinte e cinco anos, com o Ti´Cabano da Parada. O grupo tinha entre dez e doze homens, além do chefe. Só duas ou três vezes perdemos cargas. 

Era rijo o Ti’Cabano e sabia deitar a mão a um camarada que estivesse em apertos. Vi-o, muitas vezes, apertar o pescoço aos “fachos”. 

Lembro-me duma ocasião em que tivemos que ir mais longe. Foram três noites de viagem – uma, em Portugal e duas, Espanha dentro -. 

As cargas, pesadas, eram, ao que nos disseram, muito valiosas. Pensámos nós que se tratasse de açúcar, com outro nome que lhe davam: sacalina, ou lá o que fosse. 

O certo é que quase todos levavam duas cargas, no começo da viagem. 

O Ti’Cabano, como chefe, ia de reserva e não tomou carga, no início. Ficou com as mãos livres para apalpar o pescoço a algum guarda, ou carabineiro e dar ajuda a algum camarada em apertos. 

As vinte cargas iam todas distribuídas: oito levavam duas cargas, cada um e os outros quatro, uma carga. 

Os camaradas com duas cargas iam dois a dois, intervalados por um camarada com carga singela. 

O Ti´Cabano viajava, constantemente, ao longo da coluna, de trás para a frente e da frente para trás. 

Sobre a madrugada do segundo dia, ainda dentro de Espanha, foi dado o sinal de “fuscos na zona” e, de um momento para o outro fez-se a dispersão combinada e até as melgas se ouviam. 

Estivemos ali mais de duas horas quedos e mudos, a ser devorados por melgas e mosquitos, até que veio o sinal de avançar e acabámos por não saber o que se tinha passado. 

Só anos mais tarde, um dos camaradas, antes de se finar, acabou por confessar que tinha dado alarme falso, porque ia já à beira de cair ao chão de cansaço. 

Disse que o chefe sempre soube, mas nunca deu com a língua nos dentes, porque era homem muito direito e soube defender o camarada em dificuldades. 

Pedia, por isso, a todos que ajudassem e respeitassem o chefe. 

Sabe, senhor professor, era um regime de contrato de sangue. 

Seriamos capazes de dar a vida uns pelos outros e até havia alguns na companha que mal conhecíamos. 

Mas, a confiança no chefe era tal que, nesses casos, dizíamos: se o chefe os traz é porque confia neles e ai deles se algum dia virem o chefe das avessas. 

Contava-se, à boca pequena, que o chefe descobriu, um dia, um “facho” infiltrado no grupo. 

Ao contrário do que seria de esperar, não se deu por achado. Até que uma noite de inverno, numa travessia da Côa, lhe tomou a carga e o afogou, isto é, deixou afogar-se, uma vez que quando fingia puxá-lo da água, o empurrava para a corrente, até que desapareceu. 

O chefe, lamentando a perda da má rês, pegou na carga dele e mandou avançar. 

Tempos duros, próprios de homens de barba rija. 

Tempos saudosos, apesar de tudo. 

Dizia o Zé Lines, melancolicamente.

domingo, 1 de julho de 2012

Serra- -O princípio do tempo




O Vale das Lousinhas, entre a Chã e o Lavadouro, não passava de um pequeno brejo, com meia dúzia de chãozitos, em socalcos, nos lados da amostra de ribeiro, geralmente seco, onde cresciam as únicas canas que conhecia na área da minha aldeia – Serra-. 

Porém, com a sua pequenez e insignificância, era um dos meus locais preferidos nos dias de férias, quando o calor assentava, para me resguardar, para fazer tempo entre as caçadas das costelas que armava aos taralhões e para fazer as leituras dos meus livros. 

Na parte mais a nascente havia restos de uma pequena depressão, que fazia lembrar os fundos de uma charca de água ou a confluência de vários regatos e nascentes que ali se juntariam em épocas de chuvas. 

Havia pequenas solapas, que chegariam a um metro de profundidade, com os tetos de terra e lousinhas presas por raízes entrelaçadas e pedras em forma de lajes bastante leves. 

Eram as minhas cabanas que além de me servirem de abrigos se transformaram em locais de escavações e pesquisas arqueológicas. 

Encontrei lá pedras aguçadas, desenhos de restos de plantas e animais gravados nas pedras – fósseis – e bocados de cacos de barro, muito enegrecidos e espalhados. 

Andei por lá duas ou três férias, depois estive uns tempos sem lá ir e mais tarde o local era uma bouça de estevas e balças onde coelhos e talvez raposas tivessem os seus covis. 

Pela textura da terra e das pedras que escavava, fiquei convencido que se tratava de algumas estruturas de paredes, cheias de terra e daí ter concluído que no local terá havido habitações em tempos muito recuados. 

Provavelmente teria sido ali a origem da povoação que mais tarde viria a mudar-se e a concentrar-se uns quinhentos ou seiscentos metros mais a nordeste, junto do actual ribeiro do Freixo, num núcleo chamado Melhim e perto de outro local um pouco mais elevado, onde teria havido uma vetusta ermida que acabaria por servir de base às antepassadas da capela. 

Entre os dois núcleos (Melhim e Casal) teriam havido disputas de famílias pela posse das terras, vindo a prevalecer o clã do Casal que veio a ocupar a maior parte da área da actual povoação. 

Como base desta suposição está o facto das ligações entre os dois polos não serem diretas; uns quantos metros a sul viria a nascer a ponte do Freixo e outros tantos metros a norte, fixou-se a passagem da Barroca das Couves. 

As famílias mais antigas, até onde a nossa memória e os relatos de três ou quatro gerações nos levaram, terão sido os Moreira, os Pardal, Os Mendes e mais recentemente, mas ainda longe no tempo, os Marques e os Alves. 

Um apelido parece transversal a todos os anteriores: Serra ou Serras, que o meu avô admitia não ser originário dali, mas vindo de forasteiros das “terras lá de cima” que ali se fixaram pelo casamento. 

Ainda segundo a minha principal fonte de informações – o meu avô – em tempos muito remotos o Vale das Lousinhas terá servido de refúgio aos proscritos, castigados e até cemitério da aldeia – é assim como que um local pouco agradável e simpático para as pessoas da terra. 

Terá sido adquirido pelos avoengos do Ti’Manel Rosa que, vindos lá dos lados de Vila de Rei não ligaram muito ao que se dizia na terra sobre o lugar e acabaram por ficar com aquilo quase dado, uma vez que da Terra ninguém o quereria comprar. 

A barroca do Lavadouro, onde temos aqueles dois bocaditos, era, muitos anos atrás, atravessada, pelo meio, pelo ribeirito que corria de cima, do Vale das Lousinhas. 

Não descansaram os nossos, enquanto não mudaram o ribeiro para o poente, pelo meio das estevas abaixo até ao ponto em que, já encanado, o mandaram para a ribeira. Diziam que as águas que vinham do lado de cima da nossa, não prestavam. 

Quando por ali andámos, havia uma nespereira, três ou quatro laranjeiras, videiras por cima das paredes e duas ou três figueiras e macieiras. 

No meio do brejo, nos cômoros secos do ribeiro, tufos de canas que a fazer fé no desenvolvimento que alcançavam, traziam as raízes perto de água. 

Os figos eram bons. Na horta do meio, na figueira abêbra, os figos pretos eram carnudos e davam umas passas maravilhosas que o Ti’Manel Rosa reservava para ajudar o vinho a conseguir o doce suficiente para ferver. 

Não importava ao velhote que os pássaros e os miúdos comessem a outra fruta; os figos daquela figueira é que eram sagrados. 

A arvorezita cujo tronco carcomido era rodeado por duas vergônteas que suportavam os ramos, estava sempre coberta de espantalhos, moinhos de canas e latas e tudo o que o dono supusesse afugentar a passarada. 

Parece que os expedientes não resultavam, porque não se acabavam os pássaros sobre a figueira, debicando nos figos e, nenhum armador de costelas deixaria aquele sítio sem uma armadilha e, raramente, passava uma caçada sem levar dali uma anafada balceira, ou um apetitoso rouxinol. 

A coisa melhor do pequeno valado, ainda segundo as palavras do meu avô, seria a encosta soalheira do poente, para poiso de colmeias. 

Não havia, nas redondezas, colmeias de mais funda e mesmo já dentro do nosso mato, pois a estrema passava uns vinte passos acima da meia encosta, ainda havia colmeias. 

Sempre que havia uma vaga, nos três socalcos em que assentavam outras tantas filas de cortiços, logo alguém ocupava o lugar deixado vago. 

Em tempos passou por ali o lume – creio que no último incêndio dos anos noventa – e de então para cá o mato e as estevas assenhorearam-se daquelas paragens. 

Hoje os carreiros onde pastores e resineiros passavam, não são mais usados, porque não há pastores nem resineiros. Colmeias também desapareceram dos socalcos e, provavelmente também as abelhas terão descoberto novas paragens. 

Descer, por ali, do caminho da Renda para o Lavadouro, será quase impossível, pois estevas, balças e mato, formam um emaranhado impossível de transpor. 

Coisas dos tempos. 

Quem se lembrará hoje dos figos do Vale das Lousinhas, do sabor do melhor mel da região ou da lapa dos achados e lhe atribuirá alguma relação com o começo de uma aldeia vinda do princípio dos tempos? 

Não há descrições conhecidas desta localidade, aninhada ali nos contrafortes de um pequeno monte, cujo nome – Serra - , segundo a lógica, daí derivará, mas que pode não ter tido essa origem, segundo pequenos apontamentos que fomos ouvindo aos nossos avoengos e através deles, às suas memórias. 

Segundo os dados que fomos coligindo, sempre foi terra de mais imigração que de emigração. 

Continua, na boa tradição de hospitalidade, a receber novos moradores, que ali se têm fixado, definitivamente, ou no regime de segunda habitação.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Os maquiadores



Quando a água minguava na ribeira do Verdigal, o Ti’Ricardo aproveitava o vento na portela da Calhameira e moía os cereais dos fregueses, durante todo o ano. 

Já o Ti’Tiauga, o outro moleiro da terra, não podia trabalhar a tempo inteiro, uma vez que a partir de meados da Primavera a água da ribeira mal chegava, como ele dizia, para as rãs e os sapos matarem a sede. 

O “faísca” e o “carocho” eram os burritos que serviam, respectivamente, havia muitos anos, o Ti’Ricardo e o Ti’Tiauga. Só na cor mais clara e na espinha já deformada pelas cargas de taleigos, se distinguia o que conhecia tão bem como o dono, o carreiro até à azenha do Verdigal e os caminhos da Serra, das Lercas e do moinho da Calhameira. 

Na idade, segundo as palavras do meu avô, quando o Tiauga for velho o cunhado Ricardo não há-de ser novo, uma vez que o foi tirar ao quartel de Abrantes, quando assentou praça. Parece que chegou a ser cabo, lá na Artilharia, onde tratava as bestas. 

Nos copos, se bem que não fossem homens de taberna, não enjeitavam o mata-bicho de algum freguês e não ficavam sem convidar quem os obsequiava. 

No Zé Maia, ou no Silvestre, eram muitas vezes acompanhados pelo Pimpão, o outro maquiador, como dizia, pois não faltava a uma safra nos lagares de azeite, onde era mestre. E, estando os três juntos, logo vinham as histórias. 

Nestes encontros, uma coisa os distinguia: O Ti’Ricardo era homem de poucas conversas e menos prosas; O Ti’Tiauga tinha sempre troco preparado para uma chalaça; o Pimpão atacava sempre que podia, ainda que tivesse idade para ser filho dos amigos moleiros. 

Davam-se muito bem uns com os outros: quando sobrava taleigos ao Ti’Tiauga, ia ter com o colega e dava-lhe o serviço. O Pimpão era sobrinho e freguês do Ti’Ricardo. 

O moinho da Calhameira, lá no cimo da Lameira Cimeira, estava ali no limite das terras de Penhascoso; era lá, segundo dizia o moleiro, quando os caixões rodavam meia volta, que os mortos se voltavam para o outeiro de S. José, onde haviam de ir morar para sempre, deixando a sua terra. 

Um dia, contava ele, seguia quase toda a aldeia a acompanhar um dos maiores forretas que se criaram na Queixoperra. 

Ao chegar junto do moinho, já a vistas para a do Isidoro, levantou-se tamanho pojino que pegou nas velas do moinho que rodava lentamente e parecia que ia tudo rebentar: as mós faiscavam uma na outra e só a poder de colher os panos e travar tudo o que pude, a coisa serenou. 

Diz quem viu que o caixão do morto estremeceu; a besta que puxava a carroça, eriçou-se toda e só depois do responso que as pessoas em boa hora rezaram, a coisa lá acalmou e o cortejo fúnebre pôde continuar viagem. 

No fim, entre estouros e rangidos, lembrei-me de rezar o Pai-nosso e, quando terminei e disse Ámen, veio uma calma tão grande que nem havia vento suficiente para rodar as velas. 

Fui à porta do moinho e vi, na portelita, um sujeito aos pinotes, rodeado de sombras que se estendiam pelos ares, e dança animada na poeirada. 

Fiz o sinal da cruz, encomendei o morto que já ia lá à frente, e quando reabri os olhos quase não me lembrava de nada. 

Quando acabou de ouvir a história, o Pimpão perguntou: 

Oh! Ti’Ricardo e o morto não seria algum moleiro? É que as contas dos moleiros são muito boas de fazer em vida, mas muito complicadas de acertar depois de mortos. 

Até se costuma dizer que uma das penas que recebem é andar com uma saca de milho às costas, a correr as casas dos fregueses e deixar uma mão cheia em cada casa, para desconto do que maquiaram a mais. 

Olha lá, oh! Pimpão, não estarás enganado quando te referes aos moleiros?!... 

É que sempre ouvi dizer que os mestres lagareiros, como tu, é que são condenados a encherem as lamparinas do Santíssimo, nas igrejas, com o azeite que maquiaram a mais, aos fregueses dos lagares onde trabalharam. 

E têm de percorrer pelo menos sete igrejas matrizes cada noite, até se acabar o azeite. 

E olha lá homem, os moleiros, se por vezes se podem enganar, é para eles; agora os mestres lagareiros, trabalham para os outros e daí que o Diabo se encarregue dessa gente estúpida que nem para si soube ser boa. 

Deite lá mais uns copos, Ti’Marília, que este diabo quer conversa!...

sábado, 9 de junho de 2012

O Albino da Ribeira



O Albino nasceu paredes-meias e com pequena diferença de tempo do burro “Mateus”, nos cómodos dos engenhos do avô, na ribeira de Eiras. 

Era noite de S. Mateus e seria esse, naturalmente, o nome do garoto; porém o seu aspecto esbranquiçado, os cabelos louros e os olhos azuis, viriam a influir na decisão do avô que lhe pôs o nome de Albino. 

Para o jumento, filho da velha “Ruça”, burra da casa havia mais de vinte anos, reservou o velho moleiro o nome de “Mateus”, com que, não sabemos porquê, não engraçava nada. 

A mãe do rapaz, última filha dos moleiros da ribeira, tomou barriga muito nova – ainda não completara dezassete anos –, segundo sempre disseram, de um malandro que por ali passou e desapareceu, para não mais voltar. 

O parto complicou-se e os cuidados e esforços da “comadre” Maria do Rosário foram insuficientes para salvar a Maria Rosa, ficando o filho aos cuidados dos avós. 

Na verdade, da avó, já que o avô passava a vida por fora, nas voltas pela freguesia, levando e trazendo os taleigos e dando movimento às tabernas por onde passava. 

Voltava, na maior parte dos dias, bem enfeitado, como dizia a “Tia Estrudes”, quando lhe sentia o bafo avinhado e o via a catrafiar, ziguezagueando, atrás da “Ruça”, que, no dizer da velhota, era bem mais finória que ele. 

Das azenhas às primeiras casas do povo era uma subida escorregadia e cheia de curvas, por entre pinhais e medronheiros. Mais ou menos quinze minutos, quer a subir, quer a descer. 

A marcha era regulada pela velha “Ruça”, a mãe do “Mateus”, que subia carregada de farinha e descia carregada de grão, sem alterar a passada, independentemente das cacheiradas do dono, ou da pressa de chegar ao palheiro, onde teria uma gavela de palha, um braçado de camisos de milho e um balde de água. No Verão, duas ou três mãos-cheias de milhã da horta. 

Desde pequeno, o Albino conviveu com os ratos e ratazanas que sempre pululam nos anexos das azenhas, onde dormia, num catre, ao lado dos avós; melhor dizendo, entre os avós e o burro “Mateus” que dividia o cortelho com a “Ruça”. 

Subiram muitas vezes a ladeira até à aldeia, atrás da jumenta, ajoujada sob a carga e com o pequenote, cabriolando pelos lados do caminho e, bastas vezes, parando de pular, agarrado às tetas da mãe para sugar o leite que encontrasse. 

Diga-se, em abono da verdade, que o Albino alternou, com o “Mateus”, nas tetas da “Ruça”. 

E que bem lhe sabia aquele leitinho, quentinho, ao natural, e ligeiramente ácido. Nunca mais esqueceu aquele sabor, segundo dizia!... 

Outro dos grandes amigos do Albino era o “Jagodes”, que lhe dormia aos pés e zelava para que os ratos não se aproximassem; gordos que nem texugos, como dizia o velho moleiro, se não fossem os três gatos, chefiados pelo “Jagodes”, os ratos até já o teriam comido, quando, a sono-solto, caía sobre o catre, encharcado pela pinga e exalando um cheiro que o denunciava a metros de distância. 

Nos fundos do cortelho, para lá das bestas, estava a cabra e a borrega, de lã mais negra que o carvão e coberta de surro viscoso; dizia dela o moleiro que nunca emprenhou, porque não havia carneiro que se lhe chegasse. 

A cabrita, sim; dava um ou dois chibitos por ano e era boa leiteira – havia sempre queijos para gastos de casa e nunca faltou leite para o Albino, que ora mamava nela, ora se satisfazia na “Ruça”, onde alternava com o “Mateus”. 

Não o ensinei a ler e escrever – também não sei e nem preciso –, mas é muito homem para se governar e safar-se das enrascadas que a vida nos prega. 

Não há bicho que lhe meta medo e convive com toda a Natureza; quer de noite, quer de dia, não há vivo que o apoquente. 

Sabe picar as pedras dos engenhos, maquia os taleigos a preceito, regula as águas nos rodízios, apalpa a farinha tão bem como eu, semeia e orienta a horta, onde há fartura de tudo em cada ocasião, caça e pesca mais que suficiente para toda a família e, maleitas a sério, nunca entraram com ele. 

Foi desta maneira que comentou a notícia do apuramento para o serviço militar: O meu neto é um homem como qualquer outro; bem dizendo, mais capaz que muitos. Porque havia de ficar livre? E, se querem saber, acho que lhe vai custar um bocadinho, sobretudo a aceitar a disciplina, mas vai fazer-lhe muito bem e, se Deus permitir, naqueles dois anos, vai fazer-se mais homem, tirar os exames, aprender um ofício e conhecer gente da alta. 

O Albino teve sempre botas deixadas pelos primos, mas pelava-se mesmo era para andar descalço; era vê-lo na ribeira, saltando de pedra em pedra, nadando como um peixe, pescando à mão e extasiando-se com o sol, qual roupa a corar. 

Subia às árvores com a destreza dum trepador e, no tempo dos ninhos, empanturrava-se de ovos de melro e de outros pássaros mais pequenos. 

O principal contratempo quando se apresentou, em Abrantes, no quartel da tropa, era o calçado que não se lhe ajeitava aos pés. Pediu botas grandes e sentia-se todo orgulhoso com a farda que lhe distribuíram. 

Não acertaram os que pensavam que iria haver problemas de higiene, disciplina, sociabilidade: era arguto e perspicaz, bastava-lhe ouvir as coisas uma vez, foi o primeiro a montar e desmontar as armas da instrução, no manejo de arma e na ordem unida era dos mais acertados. 

Fazia com gosto e aprumo os exercícios físicos da instrução, era perfeito nos trabalhos de faxina e, no dizer do instrutor, se soubesse umas letras, tê-lo-ia escolhido para cabo. 

Acabou por ficar soldado raso, mas muito distante dos básicos que por lá abundavam. 

Inscreveu-se na educação de adultos e, nos dois anos fez o primeiro e o segundo grau. 

Foi ajudante de quarteleiro, até ser escolhido por um capitão para seu impedido e, de tal forma desempenhou o serviço a mando do “patrão”, que mereceu, no final, um louvor e uma carta de recomendação para qualquer serviço que exigisse empenho, habilidade manual, honestidade e disponibilidade total. 

Esta carta acompanhou sempre o Albino que a exibia, orgulhosamente, pela vida fora. 

O mundo dá muitas voltas e, bastantes anos mais tarde, encontramos o Albino, nas feiras e mercados das redondezas, sempre perto das tabernas e, normalmente, perdido de bêbedo, ou acabando a noite numa qualquer lapa da serra dos Bandos, farejado pelos lobos – que nunca se atreveram a tocar-lhe –, ou aparecendo em casa, tarde e a más horas, para ir visitar os fregueses. 

Deixava muitas vezes a mulher e os quatro filhos, entregues aos trabalhos dos engenhos e subia pelas serras, antes do romper da madrugada, para ver nascer o sol, sobre as serras do Carvoeiro e Envendos, observar a passarada e outros animais que acordava, a miúdo, com os seus assobios, chamando os cães que andavam em trabalho de sustento e, não raro, lhe traziam lebres ou coelhos, surpreendidos na cama. 

Passava noites palmilhando montes e vales, mesmo perfeitamente sóbrio. 

Sempre que se encontrava com alguém, combinava: antes do nascer do sol. E nunca se atrasava. 

Já pelo cair da noite não tinha grande apreço; das inúmeras vezes que pernoitou ao Deus dará, não estava, por certo, sóbrio. 

Das suas andanças guardou memória de inúmeros encontros: uns reais, com pessoas noctívagas como ele, com animais de pequeno e grande porte, desconhecidos da maioria das pessoas e a quem eram atribuídas qualidades irreais e fantasiosas; outros fantasmagóricos, dando azo a uma imaginação prodigiosa. 

Falava de coisas que ninguém conhecia; e, pelos vistos, nem ele. 

Quando lhe puxavam pela língua, nas tabernas de Mação, abertas até mais tarde, ou de outras terras que cruzava nas suas deambulações, nunca mais acabava de relatar cenas, umas absolutamente arrepiantes e outras revestidas de tal ingenuidade que acabavam por dar que pensar. 

Foi assim que, numa tarde, de um dia de feira dos Santos, na taberna do Armelim, frente à igreja da Misericórdia, o Albino começou a contar: 

…Um belo dia, passava da meia-noite, reuniram-se, no cimo dos Brejos, os representantes dos lobos do nosso concelho e dos vizinhos. O chefe era um velho, conhecido de todos, que já por diversas vezes tinha sido ferido pelos zagalotes dos caçadores, mas sempre se tinha safado. 

Eu conheço bem muitos desses amigos, sobretudo aqui os dos Bandos e sem me esconder pude, durante várias horas ouvir todos os planos para ataque a rebanhos, os planos de vigilância de caçadores e batidas organizadas e ajuda a irmãos feridos. E olhem que gostei de ouvir!... 

Bem não vou entrar em mais pormenores porque nunca vou trair os que em mim confiam e quero ser sempre amigos dos lobos que, segundo tenho visto, são mais fixes que a maioria dos homens que não se entendem e puxam cada um para seu lado. 

Lembram-se do Senhor Doutor Samuel? 

Podem crer que foi muitas vezes escoltado por lobos amigos e só morreu porque os seus amigos não tiveram meios para salvá-lo quanto o encontraram caído do cavalo. 

Depois, como que ausente, repetia, até se cansar: 

Só morrem os bons! Só morrem os bons! Só morrem os bons! Só morrem os bons! Só morrem os bons! ………