quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O negócio do Vale


A par dos casamentos, das matanças e das malhas, os negócios eram pontos altos na vida calma e rotineira das famílias rurais, nos meados do séc. XX.

Os casamentos, normalmente realizados aos sábados, pelo fim da tarde, antecediam as bodas, que constavam de três dias de comida e bebida, para dezenas de convidados, entre familiares e amigos.

As bodas eram feitas, em separado, na casa dos pais de cada um dos noivos. Em cada um dos lados abancavam os respectivos convidados e os noivos iam, alternadamente, a um e outro lado.

Geralmente jantavam em casa dos pais do noivo no dia do casamento e iam almoçar, no dia seguinte, a casa dos pais da noiva.

Depois do jantar a totalidade dos convidados, o resto do povo, sobretudo os solteiros e os mais jovens, bem como a rapaziada de aldeias vizinhas, confluíam para o local do descante, onde um acordeonista, escolhido a preceito, abrilhantaria o baile, que só acabaria alta madrugada de domingo.

Mas, pela tarde adiante, recomeçaria, até alta madrugada e, igualmente, na noite de segunda-feira.

Em cada descante começaram a desenhar-se muitas outras bodas.

A matança dos porcos - quase todas as casas matavam mais de um animal – que foram sendo alimentados com os restos das viandas da panela e com a farinha do milho cultivado nas hortas, era uma festa mais restrita.

Convidavam-se os filhos já casados, os irmãos e família e os compadres, para ajudarem aos preparativos e nos serviços da matança, que tinha lugar, normalmente, numa segunda-feira, e na desmancha que acontecia no dia seguinte.

Antes do acto em si, já estava preparado o banco de castanho ou azinho, formado por uma grande prancha, com quatro pés, também de madeira, o alguidar para recolher o sangue, os molhos de carquejas para queimar sobre a pele, o chambaril para enfiar nos tendões das patas de trás e suportar o porco, pendurado de um barrote da despensa, para escorrer e secar, até ao dia seguinte.

Antes, após a passagem com carquejas a arder e raspagem e limpeza da pele, abria-se o porco e retiravam-se as vísceras, separando-se, de seguida, as tripas para os tabuleiros de madeira, que, à cabeça das mulheres, eram conduzidos para a ribeira, onde, com água corrente e sumo de laranja, eram lavadas e preparadas para nelas serem cheias as morcelas, os chouriços, as mouras, os paios, as paiolas e os buchos.

A primeira coisa a encher eram as morcelas de assar, apontadas de sal, bem apuradinhas de cominhos, eram assadas, na lareira, ao serão do dia da matança.
Pelas duas da tarde, na hora oficial, como se dizia, jantava-se. Um farto cozido à portuguesa, já com umas abas de toucinho novo, couves e batatas da horta, e enchidos ainda do ano anterior.

Vinho da casa e pão de trigo cozido no forno de lenha. A cozedura do pão tinha lugar na quinta, ou sexta-feira, sendo os pães guardados na arca do cereal, embrulhados em pano de linho.

Como é gratificante recordar todos estes rituais e iguarias e saborear todos aqueles aromas e sabores que mais de meio século não foi capaz de apagar na nossa memória! Com mais de meio mundo percorrido, é formidável a força das pequenas grandes coisas que nos aconteceram, naturalmente, e acabaram por deixar marcas tão indeléveis que hão-de resistir a tudo e todas as sensações posteriores, por mais fortes que tenham sido.

A malha tinha, também, o seu quê de peculiar, pela envolvência de preparos e pelo que implicava de esforço humano, ou até, em boa verdade, sobre-humano.

Desde a sementeira, monda, ceifa, transporte para a eira, marcação de vez para fazer a malha, combinação com os malhadores e demais gente auxiliar, tudo o que tinha de conjugar-se constituía um ritual, sempre repetido e novo a cada ano, que transformava o dia da malha numa festa, marcante da vida rural.

Os negócios eram outro dos acontecimentos de maior relevância na vida das famílias, nos longínquos anos cinquenta. Quer se tratasse de vender, quer fosse uma aquisição para o património da casa, era ponto de honra dos homens daqueles tempos.

E não eram necessários contratos nem escrituras para substituir a palavra.
Nunca mais esqueci a máxima do meu avô: os homens inventaram o papel selado quando aprenderam a mentir; aqui para nós ainda não é preciso e mesmo as testemunhas são também dispensadas quando há honra que chegue. Pode beber-se um copo, para selar, ou comemorar, ou o que se queira; mas homem que é homem não volta com a palavra atrás. 

É por isso que eu, às vezes, na horta, penso que gostava que fosses advogado, mas, por mim, não te governavas; talvez professor me calhasse melhor: deve ser bonito ensinar uma criatura a ser alguém; mostrar-lhe aquilo que deve perseguir na vida e, o que é mais importante e nós nunca tivemos, dar-lhe ferramentas para fazer a obra: livros, lápis e canetas, em vez de enxadões, picaretas e marrões.

Um negócio era um ritual fantástico: ou porque se tivesse alguma coisa para vender e se esperasse, com isso, um lucro e beneficio, ou, sendo comprador, se tinha oportunidade de bem valorizar o que tanto trabalho tinha dado a juntar – o dinheiro -.

A relação com o dinheiro era completamente diferente da actual; por diversas razões: dinheiro era sinal de poder, sossego e desafogo de vida e, até sensação de respeito e subserviência pelos que o não tinham. 

Havia muito pouco dinheiro a circular: interessava um certo controlo sobre o hermetismo social, o peso das superstições, o desconhecimento do mundo e da civilização.

O conceito de quanto mais estúpidos e ignorantes melhor os dominamos, atribuído a quem encarnava o atraso e o obscurantismo, estava arreigado na sociedade.

Muitas famílias tinham as arcas cheias de milho e feijão, os sobrados e as lojas cobertas de batatas e não lhes faltava mel, azeite e vinho nos tonéis, mas não havia quem comprasse, nem quem vendesse e acabavam por se nivelar com aqueles que viviam do pouco que podiam ganhar, implorando as jornas que ninguém pagava e muito menos a preço compensador. 

O que resultava deste estado de coisas? Os mais abastados iam acumulando pecúlio, paulatinamente, mas em constância, pois não gastavam.

Todos os anos, ou porque tivessem alguma coisa no meio das suas courelas, ou porque o preço fosse muito tentador, ou porque dinheiro parado, apesar de pouco, era perigo de roubo, de fogo, de desvalorização, iam comprando mais uma leira, uma vinha, uma courela.

Terra, sempre terra, que deixava de pertencer aqueles que menos tinham. Isto apegava os filhos à terra, enterrava os que dela viviam, diminuía os horizontes.

Foi, num dia em que meu avô foi visitado por um homenzito da Aboboreira, oferecendo uma hortita, com abundância de água, boa de mimos da casa e com uma courelita de pinheiros, que o ouvi dizer-me: estás a ver, o teu pai nem cá está e eu não costumo fazer nada sem o consultar, mas pelo que o homem conta, aquilo é dado. E, se não for para nós, será para outro. Só os pinheiros que tem em riba valem metade daquilo que o homem pede ...

Cinco contos de réis é o que lhe posso oferecer, se tudo for como me disse. Amanhã, ao nascer do sol, o meu genro, estará lá no local, com um conto de réis de sinal e se for como você disse, compramos a hortita. Não precisamos dela, não temos nada para aqueles lados, mas não quero deixar de agradecer-lhe as passadas até nossa casa. A escritura poderá ser quando quiser e na altura receberá o resto. Pense bem, mas os sete contos que pede, não lhe vamos dar! 

Fale depois com o meu Amorim, sabe quem é, não sabe?

Sei, perfeitamente e vomecês também me conhecem; lá a vizinha de baixo, a sua comadre Joaquina Estrega, deu-me as melhores referências a vosso respeito. E o seu nome, Ti Zé Lourinho, chega para honrar o que me acaba de dizer.

Se resolver qualquer coisa, em contrário, passo palavra antes do pôr-do-sol; se nada disser, até à noite, lá me encontrarei com o seu genro, amanhã, de manhã. E espero que ele vá mais animado que o que me disseram as suas palavras.

Lá na Aboboreira não temos palavra de rei; espero que cá na Serra seja da mesma maneira. Então até amanhã, Ti’Zé; isto fica entre nós, entendidos! Até mais ver e obrigado por tudo.

Na manhã seguinte lá estava o meu pai, antes de nascer o sol.

Pelas indicações conseguiu localizar, facilmente, a propriedade e ficou admirado com o que viu: uma boa nascente de água, na represa, umas duas dúzias de pinheiros sangrados, atravessada pelo caminho que liga Aboboreira à estrada nacional e uma hortita bem tratada. Podia avançar até aos seis contos, conforme combinado com meu avô, mas era preciso negociar. E, por isso, ali estava. 

Pouco depois chegou o vendedor e logo foram direitos ao assunto: meu pai lá foi dizendo que terras tinham até demais e gente para trabalhar seria, ao que parecia, cada vez menos. Os rapazes já estavam no colégio e a menina, se Deus quisesse havia de ir, também. Mas o sogro lá sabia e era ele quem dirigia; estava ali para resolverem o assunto. Já dera por ali uma voltita e se não estivesse enganado nas estremas, estava tudo como dissera ao seu sogro. 

Assim é, senhor Amorim; vendo porque tive aí uma necessidade inesperada, por causa duma enrascada em que me meteram e preciso, urgentemente de algum dinheiro.

Sei que talvez pudesse receber mais alguma coisa, mas preciso negociar com quem tenha poder para me pagar depressa o que me parece ser o caso, segundo me disse o Ti’Zé Lourinho, seu sogro.

Eu peço os sete contos de réis e parece-me que está aqui bem à vista o valor; espero que venha mais animado que as palavras que me disse o seu sogro.

Olhe, senhor António, por mim já não comprava mais nada: os investimentos, agora são outros. Olhe que três filhos a estudar, custam os olhos da cara e o que estamos a oferecer-lhes é bem mais valioso que todas estas courelas até ao cimo do vale.

Seja ou não, foi o caminho que escolhemos para os meus filhos e, quer eu, quer o meu sogro e avô deles, iremos até onde eles forem capazes. Por isso, meu amigo, já está a ver o meu interesse.

Deus ajude pais e avós que tão bem sabem e podem dirigir o futuro dos seus. Mas isto aqui é um bom investimento; daqui a meia dúzia de anos mesmo que corte agora os sangrados, dá corte que vale a meia dúzia de contos da compra. 

Bem, o que está dito, está dito! Pelos cinco contos é nossa!

Espere, Ti’Amorim, vomecês têm palavra de rei? Vá lá, pelos seis e meio!

Por mim ficava onde estamos mas, vá lá, damos mais quinhentos mil réis.

Ti’Amorim, acabemos com isto: racha-se ao meio e pronto. São os seis contos de réis e não se fala mais nisso. Ela já ouviu mais, mas o comprador só podia pagar-me daqui a um ano e, como eu tenho compromissos urgentes, fecho os olhos.

Vou marcar a escritura. Agora dá-me um conto de sinal, pois preciso desse dinheiro dentro de três dias, e o resto será no acto da escritura.

Meu pai, estendeu a mão e disse: fechado! Vamos a casa da comadre Joaquina, para lhe passar o sinal, na frente de testemunhas.

Não Ti’Amorim; trago um papel, assinado também pela minha mulher, Maria Rosa. Só falta pôr o valor da venda. O resto é o combinado, no acto da escritura.

O meu pai, não se desmanchou. Olhou o documento e sem que pudesse lê-lo, pois não sabia fazê-lo, aceitou a palavra do homem e, logo que chegou à Serra foi a casa do compadre Jesuvino, mandar ler o documento, que dizia: António Mendes Moleiro e mulher, Maria Rosa Palhota, casados, moradores em Aboboreira, declaram que vendem ao senhor José Lourinho, da Serra, a sua propriedade no cimo do vale, confrontando a poente e a nascente com Adriano Guilherme dos Reis, pelo valor de seis contos de réis.

Declaram que receberam, de sinal, um conto de réis e o resto será pago no acto da escritura. Aboboreira, 12 de Setembro 1957. Ass.: António Mendes Moleiro e por Joaquim Mendes Passarão, a rogo da Maria Rosa por esta não saber assinar. 

Este papel foi guardado pelo meu avô enquanto foi vivo e, mais tarde, pelo meu pai, como lembrança da última compra de propriedades.

Dali em diante todos os rendimentos da nossa casa foram canalizados para três estudantes que foram na vida até onde seus pais e avós nunca puderam subir, dando-lhes a satisfação de terem feito tudo o que puderam e esquecendo todas as censuras a que foram sujeitos pelos seus amigos daquela aldeia recôndita, onde nasceram e se criaram.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O“drama”no Rochoso



Assisti, na aldeia da minha mulher, na Beira Alta, entre a Guarda e Vilar Formoso, a um espectáculo inédito, para mim, mas com profundas tradições na região e representativo e mobilizador das gentes daquelas paragens. 

Foi anunciado, à boa maneira dos antigos arautos e pregoeiros, um “drama” que teria lugar na sala da casa paroquial, no sábado seguinte, uma hora depois das trindades, logo a seguir à reza do terço na igreja da terra. 

Eram convidadas todas as pessoas da aldeia e amigos, para assistir ao “drama – Dª Inês de Castro”, representado pelas pessoas da terra e ensaiado pelo senhor Antoninho, como habitualmente. 

Os “dramas” representados na terra, tinham tradição: contavam os mais velhos que desde que se lembravam e segundo o que sempre ouviram, eram muitíssimo antigas aquelas representações lá na aldeia. 

Visavam histórias e cenas do tempo dos Romanos, autos de Gil Vicente e outros autores portugueses, especialmente Almeida Garrett e, quer se tratasse de tragédias, comédias, ou histórias de final feliz, eram sempre “dramas” para o povo. 
Nos tempos mais remotos da memória dos mais idosos, eram, invariavelmente, representados no cabanal do senhor vigário, ao tempo Cónego Domingos, tendo daí passado para a casa das almas, quando deixou de funcionar lá a escola primária e, mais tarde, para a casa paroquial. 

Havia, ainda, vários ensaiadores vivos, embora, nos últimos anos, fosse o senhor Antoninho o mestre de serviço, recebendo, todavia, uma mãozinha, muito útil, da irmã Ritinha que, ao tempo, estava no colégio da Cerdeira. 

Os actores, cujas idades variavam entre a meia dúzia e as muitas dezenas de anos, incluíam estudantes, funcionários, emigrantes, gente da terra e outros de boa vontade, como costumava dizer o ensaiador. 
Os textos eram levados a preceito e passados, à mão, pelo senhor Antoninho que os distribuía aos “actores” a quem dava os seus conselhos e orientações e depois ia corrigindo nos ensaios, de modo que no dia (15 de Agosto) tudo estivesse afinado para que ninguém fizesse figuras tristes. 

Ah!... É bom não esquecer que antes da representação pública e quando tudo já estava mais ou menos apresentável, era feita uma sessão, à porta fechada, para que o senhor Cónego Domingos pudesse aferir o conteúdo dos textos e a moralidade dos desempenhos dos actores, censurando o que, do seu ponto de vista, devia ser retirado e tudo o que ofendesse a moral e os bons costumes. 
Poucas vergonhas, não!... Gritava o senhor Cónego; pelo menos enquanto eu por aqui estiver e for responsável por vós. E tu, Antoninho, vem aqui para ao pé de mim e toma bem nota: 

A Inês e as suas damas de companhia serão representadas por rapazes que, com a tua habilidade não será difícil caracterizar. Não são necessárias cenas que envolvam e impliquem contactos físicos entre as pessoas. Os senhores Conselheiros serão pessoas de bem e, em respeito pela nossa História, não são religiosos, nem nas outras cenas há padres e freiras, que nunca se misturaram naquelas tristes andanças. 

Os filhos de Inês não precisam estar presentes no drama. E agora vê lá o que tens de corrigir e prepara tudo como acabo de te dizer. Verás que não ficarás mal e toda a gente perceberá o drama e não verá imoralidades. 

Bem, o senhor Antoninho nem queria acreditar no que acabava de ouvir: O que o senhor Cónego queria mudava quase todos os actores, alterava muitos papéis que tinham de voltar a ser escritos e acabava por falsear a verdade histórica. 

Ainda pensou em mandar recolher os prospectos que tinha mandado afixar nas aldeias das redondezas, mas também não era com ele dar parte de fraco e optou por meter mãos à obra e fazer as alterações exigidas por quem, afinal de contas, sempre saberia mais que ele. 
Começou pelas personagens: Dª Inês, que estava a ser ensaiada pela Dulce, passaria para o Acácio; D. Pedro continuava a ser representado pelo Ti’ Alberto Martins, as aias também não eram muito importantes e, se fossem rapazes bem vestidos de mulher, também haveriam de guardar as distâncias e evitar as brejeirices que não podiam aparecer no drama. 

Afinal tudo se havia de arranjar e ele passava agora a ter de desempenhar um papel muito importante: convencer que as novas personagens estavam mais conformes com a verdade da História. 

Por isso, as meninas iam ser trocadas. Pareceu-lhe, todavia, que as açafatas mais velhas, que serviam no paço, poderiam ser representadas por mulheres idosas e respeitáveis e, para isso, acabou por ter a anuência do senhor Cónego Domingos. E atirou-se ao trabalho. 
Num dos ensaios em que a Dª Inês apareceu sem ser caracterizada, a irmã Ritinha que tinha vindo ajudar, sorriu-se ao ver o Acácio. Porém, vendo o bom desempenho e enlevo com que o rapaz assumia a personagem, dirigiu-se ao senhor Antoninho e, com um sorriso nos lábios, disse-lhe: 
Deixe lá, tudo há-de correr bem e acabaremos por fazer o que pode não ser o mais correcto, mas, pelo menos, respeitamos a vontade do senhor Cónego. 

Do Jornal “A Região da Guarda”: A representação do “drama”, na casa paroquial do Rochoso, foi um dos momentos em que a cultura do povo se elevou a tal nível, que temos dificuldade em classificar este espectáculo tão autêntico e genuíno, pois ele, por si só, já conquistou a nota máxima. 

O senhor Antonino foi um homem de grande influência na terra, onde controlava a maior parte do que se passava e ia pautando o pulsar da vida e vivência no povoado. 

Homem de teres e haveres, acumulava a função de guarda-rios com a gestão dos negócios que iam da taberna à recolha e venda do leite da maioria dos proprietários de vacas, e à arrebanha e venda, para Lisboa, de muitas arrobas de batatas produzidas no Rochoso e anexas. 
Homem de fino faro por tudo o que se passasse na terra, conhecia e geria muitos interesses de gentes que a ele recorriam, para um bom conselho ou intermediação numa demanda. Movia influências de paz e concertação entre desavindos; sabia fechar os olhos ao que lhe convinha e ser duro e rigoroso, quando era conveniente. Usava o bom senso e dava-se ao respeito; coisas que muito agradavam às gentes dos meios rurais. 

Era intransigente na defesa dos interesses da família e sempre colocou numa das suas primeiras prioridades a educação e instrução dos quatro filhos. 

Quando foi arrastado para a esfera do genro, difícil de conciliar com a sua experiência e nível de instrução, conduziu-se com habilidade e perícia, usando cautelas e ousadias, retirando os dividendos possíveis para a família, mas preservando o núcleo duro dos interesses e património da casa. 

Navegou à vista e aproveitou o que as circunstâncias lhe permitiram; soube, no entanto, ficar imune a tudo o que interpretou, correctamente, como contrário aos princípios e ofensivo daquilo que considerava sagrado: o seu bom nome e o bem-estar e segurança da família e do seu património. 

Tive o privilégio de conviver com o “padrinho Antoninho” e muito aprender com ele, sobre os usos, costumes, hábitos e maneiras de ser das gentes daquelas terras. Sempre apreciei a sua inteligência prática e objectiva e sempre o vi como indefectível zelador dos seus interesses e dos dos seus. Essas eram as motivações básicas da sua conduta, pondo a família acima de tudo. 

Nos tempos conturbados dos anos setenta e oitenta, esperou, deixou assentar a poeira, tirou os azimutes e pairou. Soube estar por dentro, sem se comprometer e sacudir o pó, sem se enxovalhar. Mais uma vez foi exímio na defesa dos seus familiares e até dos interesses da sua terra. 

Esteve sempre bem com gregos e troianos, nunca se comprometeu abertamente, comungou das mesas de fartura e benesses, mas como as enguias da ribeira, quanto mais escorregadio mais desejado. Parecia movimentar-se, qual actor, num “drama”: pode correr melhor ou pior; o que importa é que na memória das pessoas fique o final e, esse sim, deve ser, invariavelmente, feliz. E fez isso e foi assim sem nunca ter ocupado cargos políticos; movia-se melhor na sombra. 
Mas porque realço desta forma a personagem que ensaiava os dramas? Então o sucesso, ou insucesso, resultam mais do desempenho dos intérpretes ou do trabalho do ensaiador, por natureza débil e difícil? 
Por duas razões: porque me parece justa esta singela homenagem e porque, sem ele, muita coisa que se fez teria ficado por fazer. A maior parte dos textos acabava por ter a sua intervenção, pois sabia suprir as carências académicas com a sua experiência e o sentido censório do senhor Cónego. 

Dizia-me, quando lhe espicaçava a memória e me sentia verdadeiramente interessado em conhecer e compreender as verdadeiras motivações que o levavam a pôr de pé realizações culturais dignas de qualquer compêndio de Cultura e Arte Popular Portuguesas: 

Os maiores dramas, cujo autor (senhor Cónego) dificultava mais o meu trabalho que os escritores que tinham os nomes nos livros, eram os que faziam cabelos brancos. 
Sabe lá, afilhado, o que era aquele senhor Cónego Domingos!.. 
Era capaz de tudo o que possa pensar!... Chamava, do púlpito, os homens que tinham ficado fora da porta da igreja!.. 
Mas, tinha razão nalgumas coisas!... 

Deus lhe tenha a alma!... 
Bem-haja pelo que me ajudou e ensinou!...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A eira dos sonhos


A eira dos sonhos


Um pequeno alto, liso e plano – restos de uma eira, que o povo deixara de usar havia muito tempo -, com o chão de lajes unidas por tapetes de margaridas, brancas e amarelas, a que é vulgar chamar-se pampilhos, com uma cercadura de roseiras bravas, onde se apanhavam flores para secar e guardar para as “mezinhas”. 

Com a porta virada a nascente e a maior parte das telhas, ou retiradas, ou partidas, pouco restava da casita que servira para guardar os feijões, grãos-de-bico, chícharos, ervilhas, favas e até milho, que ali se malharam e secaram. 

Do outro lado, a nascente, portanto, havia ainda restos de marmeleiros, já cobertos de balças, e duas romãzeiras, que faziam os encantos e delícias da menina. 

Ah! E pelo norte, ainda se podia ver o rego da represa, já sem uso, mas demarcando o início da courela de pinheiros que por ali se estendia até aos altos do monte, onde a menina nunca subira. 

Dali, porque se via até um pouco mais longe que da rua de baixo, onde estavam as casas quase todas, via-se todo o caminho da fonte, por onde as mulheres crescidas passavam com os cântaros e os asados, debaixo do braço, quando iam para cima, com eles vazios, e bem direitos e equilibrados, sobre as rodilhas de trapos, no alto da cabeça, quando voltavam, para casa, com eles cheios, até os pousarem na cantareira, ao canto da cozinha. 

Ainda que exposto aos ventos e sem outras guardas, estava ali o castelo da menina, a sua fortaleza, o seu reduto, o centro do seu mundo. Nasceram ali, sem conhecerem destino, nem termo, muitos dos sonhos, inquietações e dúvidas da menina que por ali cresceu, amadureceu e um dia abalou. 



Que maravilha! Aqueles milhões de gotinhas de água, que confluíam na bica da fonte, vindas de todos os recantos do mundo - sim, porque a água é sempre a mesma; não se perde nem se cria, só não fica, nunca, parada -!... 

A menina pensou então, para onde seguiriam todas aquelas irmãzinhas que se tinham juntado ali na fonte e estavam, agora, prisioneiras dentro dos cântaros. 

Mas, que interessava isso; podiam ser bebidas por justos ou pecadores, por homens ou por animais, por plantas e até pela própria terra. Porém, haviam todas de voltar a ser livres e seguir o seu destino, até, talvez, quem saberia, voltariam a uma outra bica de outra qualquer fonte. 

Mas voltou a inquietar-se: seria possível que alguma daquelas gotinhas já por ali tivesse passado e reconhecesse o local? E que diferenças teria encontrado? Seria bonito saber-se. Pelo menos valeria a pena imaginar!... E a menina meditava, voava, voltava e nem dava pelo passar do tempo…Ainda no viço e vigor da vida, nunca se cansava, nem desiludia, a imaginar coisas e a sonhar. 

Quando voltava a fixar-se nos pinheiros da portela em frente, lá para os lados do rio grande, que começa perto dali, ainda tão pequenino, lembrava-se do que sentiram aquelas gotas prisioneiras, ao ver as irmãs correrem livres e felizes na corrente do ribeirito? E, depois, ao entrarem no mar, com aquele sal todo? Como iriam sobreviver naquela tão grande multidão?!... 

Quedou-se, depois, à ilharga de um pequeno alegrete, onde resistiam os restos de uma velha roseira mansa, com cinco botões floridos e extasiou-se com o cheiro suave e autêntico daquela maravilha da Natureza. 

E o rosa, tão natural e belo, daquelas pétalas a começar a despontar?! Seria justo colhê-las? Seria melhor deixá-las morrer ali, onde nasceram, sem nunca conhecerem uma carícia, um carinho, uma ternura?! 

Apanhou uma pedrita do chão e olhou-a, cuidadosamente. Tinha muitas cores e brilhos muito intensos quando reflectia a luz do sol. Era formada por uma infinidade de partículas, semelhantes a areias pequeninas, que alguma força enorme teria juntado umas às outras. 

E porque se teriam juntado aquelas partículas e não outras? E quantas mais já se teriam desagregado e partido, levadas pelos ventos, pelas águas, pela acção de homens ou máquinas, por algum passarito?! 

Porém as pedras pareceram-lhe diferentes da água; não sabia bem porquê, nem lhe apeteceu aprofundar isso. Eram diferentes e pronto. 

Naquele enlevo da Natureza, deu consigo a olhar-se, a ver-se diferente, a sentir mudanças, a pensar-se e a imaginar muitas coisas. Afinal, também ela era um conjunto de tantas e tão variadas partes e, como ouvira dizer que a maior parte do nosso corpo é formado por água, sentiu-se carcereira de milhões de pequenas gotículas desse líquido. 

Mas estas tinham outra finalidade, eram, afinal, o suporte da vida e da alma. Por ali não avançou, pois ainda não tinha conseguido compreender o que isso era e na Catequese não lhe tinham acabado com as dúvidas. Pelo contrário, tinham-lhe despertado muitas outras questões que, tinha esperança, haviam de vir a ter resposta. 

Nas oliveiras dos fundos da tapada faziam os ninhos muitas espécies de passaritos. 

A menina conhecia os pintassilgos, os tentilhões e as carricitas; aos pardais, porque não cantavam, não dava muita atenção. 

A maior das maravilhas residia na tão grande amálgama de trinados, que, embora diversos, acabavam por produzir efeitos harmoniosos e parecia até que se calavam uns para que outros se fizessem ouvir. 

Numa variedade tão grande de sons, maravilhoso é o maestro que harmoniza toda aquela panóplia, pensava a menina!... E entretinha-se a descobrir acordes e melodias. 

Acabou a pensar que a água, as pedras, as flores e os pássaros eram felizes: podiam viajar pelo mundo, conhecer novas coisas, subir ao cimo das árvores e dos montes, descer às entranhas da terra e percorrer caminhos nunca antes conhecidos. 

E então os passaritos da sua terra que sempre têm solinho, ventos pouco fortes e comidinha com fartura, deviam ser felizes e, por isso, cantavam tão bem, tão afinadinhos e tão contentes!... 

E, ao pensar em tudo o que a rodeava, reparou que a poucos metros dali se erguiam os cumes dos cerros e as curvaturas dos vales, fechando o horizonte. Para baixo, só a água se infiltrava, na terra. E para cima? Ora aí está, pensou ela: para cima não há horizonte, posso ver até ao céu que nada se mete na frente – as nuvens não param; por isso não incomodam -. 

Feliz, nessa cogitação, logo se lembrou do escuro da noite. Tão terrível e potente que conseguia apagar o próprio sol, que tanta força parecia ter quando cobria toda a terra e, mal se aproximava a noite, fugia, não se sabendo para onde, para se esconder, com medo. Iria para outro lado? Não parecia natural, pois que ele está em toda a parte que podemos ver. 

Ao ver todas aquelas coisas a menina sentiu alegria; sentiu-se bem, saboreou a brisa que baixava ao fim da tarde, enlevou-se com as sinfonias dos passaritos, regalou-se com a água pura da fonte, inebriou-se com o cheiro das rosas, deliciou-se com o colorido das flores, saciou-se com os sabores das frutas e das hortaliças da horta. Até o escuro, que todas as noites caía, lhe traziam paz e serenidade para dominarem o medo e a angústia da solidão. 

É preciso experimentar todas estas pequeninas coisas para se sentir verdadeira alegria; os que têm tudo, não conhecem a sensação dos simples quando desfrutam das pequenas coisas e não compreendem a sua alegria. 

É que a alegria é um estado de alma e, comparando a alma a um copo de água, tanto o podem ter os mais simples como os menos simples. A diferença estará no tamanho dos copos: enquanto uns os enchem facilmente, porque os têm mais pequenos, outros necessitarão de mais água, porque têm os copos maiores. Mas, quando ambos estiveram cheios, alcançarão ambos a plenitude. 

A menina lembrava-se, então, da Tia Maximina, quando ela lhe dizia: “para comer, escolhe os figos mais pequenos; a figueira levou menos água e por isso dá os frutos mais doces e saborosos. Os outros, das figueiras que tiveram fartura de tudo, são sensaborões e deslavados. Só são maiores.” 

A menina habituou-se a falar, melhor dizendo a comunicar com as árvores, as flores, as fontes e as outras coisas simples de todos os dias. 

Fez as suas confidências, deixou queixas, pediu conselhos, partilhou mágoas, segredou desejos, saboreou consolos, confiou lágrimas e teve alegrias; nunca, porém, se sentiu traída ou defraudada, embora muitas esperanças nunca alcançassem a realização, algumas paixões não tenham sido sublimadas e muitos caminhos não tenham tido saída. 

Nisso reside a verdadeira felicidade, o consolo dos simples: não valorizar o que visionam, mas o que têm; não usar copos maiores que a sede que têm e bebê-los cheios; não desperdiçar, antes aproveitar, cada momento que a vida lhe entregar. 

Não prescindir do sonho, pois o poeta tem razão: o sonho comanda a vida! 

E nós podemos acrescentar: o sonho, devidamente seguido, é o melhor caminho para alcançar e conquistar aquilo a que temos direito!

sábado, 8 de outubro de 2011

O "engenheiro" Tonho


O "Tonho" anda para pregar alguma.


Sai por aí sozinho, corre tudo o que é vereda e carreiro, com os olhos postos no chão, longe de tudo e de todos; muitas vezes nem à salvação responde e quando, distraidamente, levanta os olhos e encara alguém, cai das nuvens e fica, completamente, a leste.


Achas normal, Manel? E olha que quando um turrão como ele encasquilha uma coisa na cabeça, é preciso ficar de olho aberto, antes que o Diabo as teça.


Coisas na cabeça metes tu, mulher! Deixa lá o moço em paz! Então, sempre soube bem o que queria e agora, que está com um pé nas sortes, tem de voltar a mãezinha do menino a tratá-lo como um garoto.


O rapaz pensa na vida, faz os seus planos e, se calhar, não enxerga, por aqui, ninguém com quem se possa abrir. Ainda vais ter muitas surpresas e olha que, ou muito me engano, ou vão ser bastante agradáveis.


Foi um erro não termos pensado em mandá-lo estudar; é esse o maior remorso que me há-de consumir todos os dias.


Lembras-te do que dizia a professora? Que há muito que não lhe passava uma cabeça melhor que a dele, pelas classes que ia ensinando!


Mas homem, onde íamos nós buscar...


Não, por aí não há desculpas: só temos este e o teu pai tem dinheiro a render.


E também não tem mais netos. Mas, ao que por aí dizem, não há dia nenhum que se deite sem ir olhar e apalpar as notas que tem numa caixa de lata, escondida numa pilheira do quarto, mesmo por trás da cabeceira.


Até as raparigas, com quem gastava sempre dez réis de saliva num piropo, se queixam da distância do Tonho. Mesmo a Leonor, com quem vai falando, diz que não consegue perceber o que ele pensa, mas que tem tudo programado e a volta da vida, será a tropa.


Até já terá pensado em se oferecer como voluntário!


Vê lá tu, homem, se um dia nos dá um desgosto desses!


Não te rales mulher, que ele sabe ao que vai e, se queres saber a minha opinião, nunca lhe darei para trás e não será por mim que deixará de voar tão alto quanto puder.


Peço a Deus que o ajude e ilumine o seu caminho, que tudo o que lhe puder dar, não lho recusarei.


O nosso filho sempre se interessou por tudo o que não conhecia. Gosta de tudo o que mexe. Tem um jeito especial para os animais. Fica a olhar para o céu quando ouve barulho de avião que por aqui passe.


Lembras-te de quando há, por aí, alguma obra? Passa horas esquecidas a ver fazer as paredes, medir e planear os degraus das escadas, fazer as armações dos telhados, acertar portas e janelas ...


A senhora professora sempre disse que tinha uma queda especial por Ciências Naturais, Geografia, Aritmética e Geometria.


E, nos seus desenhos, havia sempre casas, estradas, pontes, barragens, torres e tudo o que metesse formas geométricas e medidas.


Olha mulher, por brincadeira chamam-lhe o "engenheiro", não é verdade?


Pois, Deus dê muita saúde aos que lhe puseram essa alcunha; para terem tempo de lhe chamar "Sr. Engenheiro".


Cá para mim, era a melhor prenda que o nosso filho podia dar-nos: Chegar aqui, um dia, com um diploma de engenheiro!


E, tenho a certeza que isso há-de acontecer e que o nosso filho ainda vai ganhar mais dinheiro, num mês, do que o teu pai juntou em anos de vidas e apertos.


Mas homem, já lhe falaste no assunto e sabes que os que se dizem amigos do meu pai não dão bons conselhos; nunca puderam ir mais além.


Dali não vamos esperar muito e, ainda que tenha medo, gosto de te ouvir e sei que o Tonho sabe que tu pensas isso e ganha mais coragem.


Rezo para que tudo se realize, como tu e ele imaginam ... O nosso menino, engenheiro! Nunca houve outro cá na Terra!...


Saiu da escola há três anos e desde guardar o gado a começar a aprender a carpinteiro, nada o satisfaz; Há dias falou-me em ir para Lisboa, para casa do primo Chico. Por enquanto, pode empregar-se no comércio ou nas obras, mas perto da casa há escolas com aulas à noite e ele quer estudar a sério para fazer exames, antes de ir para a tropa. Se calhar, vou com o rapaz a Lisboa, ver o que se arranja. É que me começa a custar muito que o tempo passe...


Também acho isso boa ideia, deixa-me só comprar-lhe alguma roupita.


Não, mulher, arranjar-lhe algum dinheiro para as primeiras despesas com livros e estudos e deixar a roupa à vontade dele, parece-me melhor.


Daí a dias, pelos fins de Agosto, pai e filho saíram de manhã cedo, com uma malita e uma cesta de lembranças para o primo e, na camioneta dos Claras, foram, a Alferrarede, apanhar o comboio para Lisboa.


Era a primeira viagem do Tonho que pouco disse, durante todo o percurso. Não queria perder nada do que ia passando diante dos seus olhos.


Já na cidade grande, tudo o encantava: dos eléctricos aos centos de automóveis, das casas mais baixas às que tinham muitos andares, dos jardins às muitas árvores ao longo dos caminhos.


Ficou muito admirado com os polícias sinaleiros e gostou de ouvir dizer que os mais artistas eram uns Cigalhos de Alcaravela.


Até que lá chegaram a casa do primo; umas águas furtadas, perto do Jardim da Estrela.


Ainda nessa tarde, foram falar a um parente que tinha uma Drogaria em Campo de Ourique.


Logo ficou apalavrado o novo marçano/caixeiro. A loja fechava às sete horas e, aos sábados, à uma da tarde. Podia frequentar a escola ali perto, que dava aulas entre as sete e as onze da noite. Ficava, por isso, autorizado a sair às seis horas.


Iria começar a ganhar trezentos escudos e comida; pois o patrão morava no prédio do estabelecimento e queria ajudar o primo. No serviço de entregas, em casa dos fregueses também iria receber alguma coisa em gorjetas; isso dependia do serviço que fizesse e da simpatia que despertasse.


Estou de acordo, disse o Tonho: daqui até ir para a tropa quero ver se tiro o terceiro ano e depois logo se verá. Trabalhar não é problema, desde que possa estudar.


Nos três anos seguintes, o Tonho completou o quinto ano da escola industrial e depois, graças aos bons ofícios do primo e de uma cliente, esposa de um coronel, fez o serviço militar como amanuense, no Hospital Militar da Estrela.


Passou à disponibilidade dois meses antes de completar o sétimo ano e o exame de aptidão à Faculdade de Ciências, na rua da Escola Politécnica, onde iria fazer os três primeiros anos do Preparatório de Engenharia.


Depois do serviço militar, foi trabalhar nos escritórios de uma empresa de construções, onde fez um pouco de tudo, desde medidor/orçamentista, a desenhador, passando por encarregado de obras e fiscal de execução de projectos.


Finalmente, completados os Preparatórios, iniciou a última etapa da sua carreira académica no Instituto Superior Técnico, onde, aos vinte e seis anos, recebeu o diploma de Engenheiro Civil, com a classificação de 16 valores e uma mão cheia de ofertas de estágio, bem como um convite de um dos Professores, para Assistente no Instituto.


Mas o que o "Senhor Engenheiro" queria era trabalhar como engenheiro, no terreno, vendo crescer as obras.


Esteve uns doze anos sem ir à aldeia. Porém, os pais passavam grandes temporadas em casa do filho.


Mas não iria ficar por ali a vida do Eng. António Matos Mendes:


Trabalhou, já com funções directivas, numa das maiores empresas nacionais, até que foi convidado para tirar um curso nos Estados Unidos, seguido de estágio, ao mais alto nível.


Três anos depois, o Engenheiro Matos Mendes, considerado como um dos técnicos mais competentes da época, dava aulas no IST de Lisboa, onde tinha, sob sua orientação, uma larga equipa de colegas e técnicos auxiliares.


Os seus proventos mensais ultrapassavam todo o pecúlio que o avô materno terá poupado durante toda a sua vida.


Estava completado o ciclo que enchera, um dia, a capacidade limitada da cabeça do pai, que a doença teimava em reter num leito de hospital, mas vivo o tempo suficiente para ver um percurso brilhante de um Engenheiro com o seu nome.


Faltava-lhe uma coisa, dizia o velho, não tanto pelos anos mas pela doença: assistir ao casamento do filho e conhecer os seus netos. A compensação por todas as angústias que lhe roeram a alma, vinha aos poucos e todas as vezes que alguém lhe perguntava pelo Senhor Engenheiro, especialmente os que, em tempos, lhe chamavam "engenheiro", a mãe, lamentava-se pela saúde do marido e só dizia que tinha muita pena de não poder gozar, com o seu homem, todas as coisas boas que o filho lhes punha à disposição.


Mas a hora chegou; no dia do casamento, o Senhor Engenheiro, já perto dos quarenta anos, encontrou-se finalmente na encruzilhada da vida: o pai, com a plenitude dos seus desejos satisfeitos e, principalmente, vendo realizados os sonhos do filho, partiu, na maior das serenidades.


Foi muito comentado o aspecto tranquilo, sereno e feliz, do rosto de quem tanto sofreu e se transfigurou, completamente, quando chegou a sua realização e soou a sua hora.


Não chegou a poder ver na placa toponímica do bairro construído no seu concelho o nome de Joaquim Mendes, que o Senhor Engenheiro mandou colocar no lugar que, por direito próprio, estava destinado ao seu próprio nome.


Não viu também o seu neto que recebeu o nome de Joaquim.


Estes foram os homens que, na maior parte das vezes, contra tudo e contra todos, ousaram um dia desafiar o destino e cometer o sacrilégio de contrariar a vontade dos deuses, arrancando os filhos à vida dura, ingrata e desumana, que os manteria na mediocridade, incultura e pobreza, que os recursos das terras das nossas províncias, proporcionavam nos meados do séc. XX.


Nós, os filhos destes homens, ainda não conseguimos elevar as nossas terras ao nível que eles sonharam: que as suas terras fossem prósperas, as pessoas cultas e livres, os seus recursos pródigos e abundantes e as suas gentes cordatas e felizes.


E, se há falhas irreversíveis, esta é uma delas; não se afigura que os que depois de nós hão-de vir, já sem o fermento que nos levedou e fez crescer, suprimam as nossas faltas e compensem as nossas omissões.


Ter-se-á perdido a oportunidade.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O "cornel" Isidoro


Era finório, o Isidoro! 

Não havia, nas redondezas, quem se lhe comparasse a imitar um casal de perdizes, na altura do acasalamento, ou uma lebre, nas ocasiões do cio. Apanhava pássaros, à mão, e pescava sem rede nem anzol. 

Órfão de mãe e sem pai conhecido, vivia com o avô, nos casebres das azenhas da ribeira do Verdigal, já a caminho de Mouriscas.

Era companhia desejada por todos os caçadores. 

A bater mato e a descobrir tocas, ninguém o batia e a seguir pistas, tinha mais faro que qualquer cão bem dotado. 

Sempre que podia fugia ao avô e aparecia, depois, com três ou quatro peças de caça, ou um junco, da ribeira, cheio de peixes.

Nascido e criado lá nos casebres das azenhas do avô, nunca soube fazer muito mais que abrir e fechar águas, remendar buracos nos açudes e cômoros das levadas, ligar e desligar rodízios e, embora pouco sabendo de contas, fazia, rigorosamente, as maquias dos taleigos. 

Tinha uma sensibilidade muito especial, segundo as palavras do avô, para picar as pedras das azenhas. Desde pequeno que o rapaz tratava das pedras da farinha triga e todas as freguesas gabavam a farinha moída por elas.

Completava o grupo um velho burrito - o cornel -, que distribuía os taleigos de farinha e transportava, no retorno à azenha, as sacas de grão para moer. 

Fazia cinco voltas por semana, habitualmente acompanhado pelo Isidoro, pois o velho Severino raras vezes saía dos limites dos moinhos. 

Eram, assim, poucos os dias em que o cornel não tinha de alombar com os taleigos e, escarrapachado sobre eles, o matulão do dono novo, que em termos de mimos era muito mais pródigo que o velho moleiro. 

A cacheira trabalhava muito mais, o tempo para ir tosando umas ervas era encurtado e, se o dono se lembrasse de ir até à ribeira pescar ou nadar, acabava por ficar carregado, preso a um pinheiro, muitas vezes ao sol, até que o soltassem para continuar caminho, até ao seu destino. 

Sorte de burro, pensaria resignado o cornel, na esperança que, um dia, a vida pudesse mudar. Às vezes suspirava pelo patrão velho, mas que havia de fazer!...

O cornel era manso como as pedras do chão, dizia o velho Severino. 

Porém era melhor guardar-lhe a traseira; pois se pressentisse algo ao seu alcance, por trás da rabada, mesmo carregado, levantava as traseiras e lá vai disto: coice que acertasse era para fazer mossa! 

Mas, para mim, que me lembre, nunca levantou uma pata, sentenciava o velho moleiro.

A lei entre moço e cornel era bem clara: se se portasse às direitas, como lhe dizia o dono, comia, bebia água, levava uma ou outra cacheirada, mas muito raramente e tudo ia correndo bem. 

Se se armasse em vivo, se levantasse as patas para o dono, se mostrasse os dentes, ou se tentasse despejar a carga, era bordoada que fervia, sem dó nem piedade, ficando muitas vezes as marcas bem à vista, na cabeça, especialmente junto dos olhos.

Até as freguesas diziam: Ah! Isidoro, que se um dia o cornel te puder ser bom, vais pagá-las todas juntas! Podias tratar um pouco melhor o pobre animal! Mas espera-lhe pela pancada e talvez ainda venhas a ver a falta que te faz se um dia o não tiveres!

Ora, o burro é ele e quando se arma em esperto tem de saber por onde elas lhe doem, respondia, quando estava para aí virado, o Isidoro.

Um dia de fins de inverno, depois de semanas de chuva, com os caminhos para os engenhos cheios de lama e algumas barreiras caídas, impedindo a passagem nas zonas mais estreitas, o Isidoro, a pé, atrás do animal, reparou que tinha carregado de mais para as condições do caminho, mas que aguentasse e, lá ia desfechando umas cacheiradas sobre o lombo do cornel.

Numa passagem mais estreita do caminho, ao desviar-se de umas pedras caídas, o animal colocou uma pata em falso e caiu para um barranco, espalhando os taleigos e não conseguindo libertar-se a ponto de sair do buraco. 

Os puxões pela arreata e as ajudas do rapaz, foram insuficientes para fazer voltar o cornel ao caminho. 

Mais não restou ao Isidoro que ir chamar o avô a ver o que poderiam fazer, para salvar taleigos e burro.

Chegados ao local, encontraram os taleigos todos espalhados pelo chão, restos da albarda e do cabresto, mas do burro, nem sinais. 

Procuraram nas imediações, seguiram pistas de pegadas, olharam em redor, até onde podiam alcançar e nada. 

Foram até ao povo e perguntaram a quem encontraram e tudo em vão. Ninguém dera pelo burro nem vira quaisquer sinais dele. 

Regressaram às azenhas, ainda com alguma esperança de que o animal se tivesse libertado e puxasse à malhada, mas não havia mais nada a fazer senão ir pedir uma besta emprestada, recolher os taleigos e começar na distribuição, até que o tempo se encarregasse de fazer aparecer o cornel, ou alguém desse notícias dele. 

Foram passando os tempos; o Ti'Severino comprou outro burro a que acabou por pôr o nome de "major" até que fizesse o tempo suficiente para ser cornel se merecesse ser promovido. 

O avô mandou o Isidoro às feiras de gados das redondezas, acercar-se e revistar acampamentos de ciganos, e chamando, disfarçadamente, o nome "cornel" quando passava por algum burro, mas tudo tempo perdido. Do burrito, nem novas, nem mandados.

Até que um dia, um pedinte que passava habitualmente pela aldeia, e sabia do desaparecimento do burrito, foi procurar o moleiro e disse-lhe que na feira de Santa Cita, a muitos quilómetros dali, lá para os lados de Tomar, ouviu um cigano a vender um burro, que disse ter encontrado para os lados de Alcaravela, sem arreios nem cabresto, mas manso como as pedras do chão. 

Não sabia como se chamava mas só o venderia a quem fosse de terras de sentido contrário, como medida de segurança. O que queria era negociá-lo para bem longe e tinha pressa no negócio, pelo que aceitava vinte notas e não se falava mais nisso. Jurava, à fé de quem era, que o burro não fora roubado.

Numa feira de Abrantes, o Isidoro, já homem e dono dos engenhos - o velho avô já o tinha deixado -, viu um burrito e, de repente, alguma coisa lhe fez lembrar o cornel. 

Só que o achava mais novo; mas os ciganos fazem do velho novo e também o contrário, quando lhes convém e foi chamar um parente para o ajudar nos entretantos de um possível negócio. 

Começaram por qualidades, defeitos, força, idade, enfim tudo o normal para avaliar uma besta. Quando o Manel lhe garantiu que o burro tinha entre doze e quinze anos, o Isidoro que pouco conhecia de números e contas pensou: 

Então se tem entre doze e quinze e o cornel desapareceu vai para cinco e já tinha mais de vinte e cinco em nossa casa, não é possível que seja ele.

Ao perceber aqueles pensamentos do parente, o Manel disse-lhe: mesmo que encontrasses agora o teu burro não te serviria para nada: se estiver vivo há-de ter mais de trinta e cinco anos - para que quererias um animal tão velho; para teres, daqui a alguns dias, o trabalho de enterrá-lo?

O que te dói, sei eu: tratava-lo mal, mas ainda foi o melhor que tiveste e como castigo nunca conseguiste livrar-te das culpas do seu desaparecimento. Deixa lá que com o tempo tudo passa e hás-de deixar de pensar no pobre burro.

Das três alcunhas que mimoseavam o moleiro, uma só o incomodava e tirava do sério, sempre que lhe chegava aos ouvidos: "cornel Isidoro". 

Muitas das mágoas que afogava nas tabernas das terras por onde ia entregando os taleigos eram mais penosas quando alguém lhe tocava no assunto. 

Acabou por ser encontrado, sem vida, sobre o catre onde passava as noites, com os restos do cabresto do velho burrito, à cabeceira.

domingo, 25 de setembro de 2011

O pobre do Malhadal

Até ao dia de hoje, todos os que caçoaram de mim ficaram a saber quem é cá o Zé do Malhadal.

Todos, menos o Ti'Tonho do Sobraínho dos Gaios; com esse empatei, nas duas vezes que lutámos.

Ele é rápido de pau; penso mesmo que não há quem o apanhe desprevenido; eu não dou os meus braços a ninguém e pescoço que eu aperte, fica a doer por muito tempo. De golpes baixos também não deixo os créditos por mãos alheias e, à falsa fé, já tenho deixado mal, muitos mais valentes que eu. É que, senhor doutor juiz, à traição, um gato dá cabo de um cão.

A sala estava bem composta de gente da terra e era muito maior que o normal o número de gente que fazia da pobreza meio de vida e andava de terra em terra, esmolando e pedindo, por amor de Deus e pelas intenções de cada um, uma côdea de pão, uma peça de fruta, ou algum conduto para enganar a fome.

Naqueles tempos, havia muita gente que caía na indigência e se dedicava à mendicidade.

Havia, nesse meio, figuras típicas que, passando regularmente pelas aldeias, eram conhecidas, toleradas e assimiladas pelo povo, com quem bebiam nas tabernas, trocavam notícias sobre terras visitadas e compunham o naipe populacional das populações rurais.

Os casos começavam quando os juízes, para averiguarem sobre uma queixa, ou para identificarem algum réu, não dispunham de quaisquer documentos, nem historial, para além das informações prestadas pelos próprios.

A idade, nome, naturalidade e outros dados eram fornecidos, verbalmente pelos inquiridos e, não raro, um réu que dois anos atrás se chamava Francisco da Costa, declarou, na mesma sala de tribunal, ser António Mendes.

A maior parte não tinha documentos de identificação e não estava, minimamente interessado em dizer quem era, de facto, pois, por norma fazia vida o mais afastado possível da sua terra e escondido de ligações às origens.

Eles, pelo menos a grande maioria, sabiam bem quem eram, mas duvidamos que poucos ficassem a saber quem eles eram de facto. A maior parte assumia um corte radical com família, amigos e conhecidos.

Porém, naquela vez e dado um conjunto de circunstâncias, o juiz tomou a peito os factos de que o réu ia acusado e, antes de mais, quis saber, efectivamente, quem tinha na sua frente.

Havia qualquer coisa que indiciava que a identidade do homem presente a tribunal, era completamente diversa da de um plausível José de Matos Eugénio, de cinquenta e sete anos de idade, filho de pais incógnitos, natural de Tinalhas, concelho de Castelo Branco, solteiro e sem residência fixa.

Conhecido por Zé do Malhadal, fazia, ao tempo, voltas pelos concelhos de Mação e Sardoal, em substituição das terras de Proença, onde já fora condenado, em tribunal, por pequeno furto e desobediência às autoridades.

Havia doze anos, num tribunal em que participou o juiz actual, eram outros os dados de uma personagem que, ou era irmão gémeo, ou sósia, do réu.

A suspeição do juiz foi mandada verificar e com os dados fotográficos registados durante a prisão anterior, foi confirmada a falsa identidade agora declarada ao tribunal. E, nestes casos, era preciso agir com muita habilidade, pois o que menos importava a muitos pedintes era irem para a prisão.

Havia que pedir os dados da identificação feita na altura da prisão anterior e confrontar o réu com esses dados. Tentar, inclusivamente, qualquer testemunho de outro pedinte para tentar obrigar o réu a reconhecer que não estava a dizer a verdade.

O juiz pediu fotografias e elementos de identificação ao tribunal de Proença e à cadeia de Castelo Branco e, à queima-roupa, perguntou ao réu se conhecia aquela pessoa, cujo retrato lhe apresentava.

A resposta foi conclusiva:

Senhor doutor, disse o réu, pregando os olhos no chão, eu também não tenho o nome que acabou por ficar registado na prisão e no tribunal.

Aqui está a minha Cédula. Manuel Antunes do Rosário, nascido a 5 de Fevereiro de 1927, na freguesia de Caria, Concelho de Belmonte, filho de Heitor do Rosário e de Maria Teresa Antunes, eram os dados constantes de uma velha caderneta, de capa preta, bastante amarrotada, com a indicação de Cédula Pessoal, ao alto da primeira página, que foi tirada de dentro do forro de um velho casaco e entregue ao juiz.

Confrontado com esses factos, o juiz pensou que era fundamental confirmar os dados agora apresentados, pois a Cédula não tinha foto, e podia, inclusivamente não ser do próprio.

Mandou que o réu recolhesse à cadeia até que pudesse ser averiguado se a Cédula era autêntica e se alguém poderia reconhecer o réu. Ficava marcada nova audiência para trinta dias depois.

Porém, os factos despoletaram um conjunto de circunstâncias que nem o próprio juiz teria admitido: a naturalidade do dr. José Bentes de Figueiredo, juiz de direito, era, precisamente Caria e a sua data de nascimento, o ano de 1928.

Como a cara do réu não lhe dizia nada, pensou em ir à sua terra e tirar a limpo não apenas a autenticidade da Cédula, como levar algumas fotos do réu e tentar obter um reconhecimento no local, por pessoas que bem conhecia de longa data.

Depois de algumas hesitações, ficou com a confirmação de que aquela Cédula pertencia a alguém da terra, mas ninguém pôde dar sinais desse alguém ou referenciar a sua presença há muitos anos.

Desde referências a morte, a emigração para as Áfricas, ou notícias de condenações, ouviu de tudo um pouco. Mas uma coisa era segura, o Manuel Antunes do Rosário, era filhote de Caria, ali viveu até à ida para o serviço militar e depois disso, portanto nos últimos quinze, ou vinte anos, ninguém sabia nada dele.

Os parentes mais próximos, há muito o tinham dado como morto e inclusivamente a mãe dele, pôs luto pelo filho quando lhe anunciaram a morte, durante uma rixa, nas minas de ouro, junto de Pedras Salgadas, lá para Trás-os-Montes.

Nunca teve irmãos e os familiares afastados não se mostraram, minimamente interessados em saber dele.

Reaberta a audiência o juiz voltou a perguntar o nome, idade, filiação e naturalidade do réu, que disse tudo como constava da Cédula Pessoal.

Confirmados os factos de que ia acusado, descritos pelas autoridades que o prenderam, em flagrante delito, junto do cadáver de um outro pedinte que apresentava a cabeça aberta e sinais evidentes de fortes pancadas, foi o réu condenado a dezasseis anos de prisão.

Antes de ser levado pelo carcereiro para a cela da prisão, o condenado pediu, olhos nos olhos, ao juiz que lhe desse licença para ficar sozinho com ele e, com os guardas por perto, mas a sós com o juiz, o Manuel Antunes do Rosário disse:

Eu andava lá na escola de Caria e chegava muitas vezes com os olhos todos negros pelos mimos que o meu padrasto me fazia. Vocês todos me chamavam o "caldeireiro", por ser esse o trabalho do meu "tio". Quando saía da escola ia pedir e se chegava a casa com menos que ele queria, levava tareias que nem a um animal se dão.Penso que nunca chegámos a andar na mesma classe; o senhor era menino de gente rica e eu o caldeireiro.

Mas lembro-me bem de o ver chegar, lá da Universidade de Coimbra, onde andava a estudar para advogado.

Nessa altura o meu padrasto já o tinha levado o diabo e eu trabalhava para arranjar qualquer coisa para a minha velhota.

Fui assentar praça a Castelo Branco e, um dia, com mais dois, assaltámos uma casa nas Tinalhas e fomos condenados a oito anos na prisão de Penamacor.

Fugi passados poucos meses e andei por todo o lado, trabalhando no duro, desde embarcado na marinha mercante, até à pesca do bacalhau.

Um dia, numa zaragata, em Lisboa, matei um outro, que me acompanhava em assaltos e consegui fugir, disfarçando-me de pedinte.

E cá tenho andado nesta vida, à espera que a morte me leve, ou alguém se encarregue de me despachar desta para melhor.

Nunca tive família nem a mais pequena intimidade com ninguém do meio. Não são mentirosos os que dizem não me conhecer.

Nunca ninguém me viu sem este ar e com o cabelo cortado ou a barba feita; não estava interessado em que ninguém me conhecesse.

Mas, quando vi que o meu juiz ia ser o menino Zezinho, do senhor Paulo Figueiredo, tive uma grande luta comigo mesmo e acabei por lhe mostrar uma coisa que andou no forro dos meus últimos sete casacos.

Mas resolvi não lhe dizer mais nada, no entanto quero acrescentar que quando souber a prisão para onde vou e depois de estar apresentável e com a higiene feita, gostaria de poder dar-lhe um grande abraço e agradecer-lhe.

O senhor acaba sendo a pessoa que mais me ajudou na vida: finalmente vou poder dormir descansado, chamarem-me pelo meu nome e pensar um pouco na minha vida, que até hoje tem ido sempre à minha frente, não parando nunca para que eu pudesse apanhá-la. Que Deus o abençoe.

O preso foi enviado para a Penitenciária, de Lisboa, e o dr. juiz acabou colocado no palácio da justiça, paredes meias com o estabelecimento penal.

Durante muito tempo o preso não recebeu visitas de ninguém, mas todas as semanas recebia tabaco e uma caixa de fruta deixada por um senhor, ou por um motorista.

O juiz acompanhou sempre o percurso do preso e inteirou-se do seu comportamento exemplar.

Passados oito anos, o preso foi visitado por um advogado que lhe disse ter instruções para fazer tudo o que pudesse para pedir a liberdade condicional e a saída do recluso. Isto, se ele estivesse de acordo.

O preso 224 pediu ao advogado que lhe dissesse quem, era o seu benfeitor, pois queria agradecer-lhe e, agora, com quase sessenta anos, nada mais queria que continuar ali, em paz e sossego, até ao fim dos seus dias.

Dois dias depois apareceu o juiz, em pessoa, acompanhado do advogado e com toda a papelada pronta para pedir a liberdade. Acrescentou que morava nos arredores de Lisboa e a vivenda tinha um jardim e uma pequena quintinha anexa que andavam muito mal arranjadas.

Se o Manuel quisesse teria cama, mesa e roupa lavada e algum dinheiro para gastos. Em troca ia tratar as flores e as hortaliças que, certamente lhe proporcionariam tanto sossego como o que tinha na cadeia e uma coisa que pela primeira vez iria saborear: a liberdade.

Ainda viveu doze anos, mas quando viu um dia partir o amigo senhor doutor, não ficou mais de oito dias, porque o coração sucumbiu.

Teve, finalmente, PAZ.