domingo, 18 de setembro de 2011

Ladrão que rouba ladrão...


Olhe, senhor doutor juiz, quando vi o meu homem pular a cerca dos porcos, lá junto às canas de milho, e coser-se com os barrocos que dão para a da Ti’Teresa, má sombra me cobriu.

Com perdão de vocelência, alaguei-me de suores frios...

Terei pensado que nunca o meu Manel entrara, em nossa casa, daquela maneira e, se precisava ocultar-se assim, é porque haveria, pela certa, mouro na costa. 

Ou andava à coca de qualquer coisa, ou qualquer coisa andava à coca dele. 

Uma restolhada daquelas, aquela hora, não era normal; para mais que ainda estava longe a hora das pessoas se recolherem.

O meu Manel tinha saído, pouco depois do pôr-do-sol, com uma saca vazia ao ombro, e, sem água vai, lá foi na direcção da nossa da Quelha. 

Vai atrás de alguma lebre, pois as malvadas não deixam nada verdejar naquela santa horta. Logo vem e espero que mais bem-disposto que o que saiu, terei eu pensado, com os meus botões.

Mas o meu homem saía muito, ultimamente. E, ou não chegava a vir à cama, ou aparecia com o sol já alto. 

Até cheguei a desconfiar de qualquer servicito que tivesse lá para a raia – andava assanhado o negócio do volfrâmio -. 

Alguns carregos, ou coisas que o valham, pois andava muito ligado a um espanhol, que já tinha vindo à nossa terra e tinha fama de muito má rês.

E, como o meu Manel chegava a casa tão quebrado, tão sonolento, às vezes com bebida a mais, até cheguei a pensar que andasse, por ali, negócio de saias.

Falava-se, à boca pequena, que havia coisas lá por casa da viúva do moinho; Até me chegou aos ouvidos que o meu Manel também por lá se perdia, às vezes. 

Mas, como sempre pensei que só procura carne velha e magra, quem não tem, em casa, limpinha e boa, não me apoquentei com os mexericos.

Porém, os segredinhos à minha chegada, os silêncios quando eu aparecia e os meios olhares, começaram a fazer-me macaquinhos no sótão. 

O Manel não fazia muito gasto, ao que tinha em casa, mas como andava assoberbado com saídas e entradas, a qualquer hora do dia ou da noite, fiquei tranquila.

Trazia dinheiro para casa, pois, segundo me dizia, pagava-se bem, pelos serviços que fazia. 

Tanto quanto julgo saber, era um dos braços direitos do dono do negócio. Ele e mais outro, dos lados da raia, eram os responsáveis.

Pelo Natal, deu-me uma mão cheia de notas: compra roupas para os garotos, uma blusa fina e um xaile novo para ti e dá qualquer coisa aos teus pais. 

Para mim vou comprar um bom par de botas e um capote. E, como quem guarda dois, também guarda meia-dúzia, havemos de mercar mais quatro ou cinco ovelhas, com boas crias e que dêem bom leite. 
E, quem sabe, talvez me abalance a comprar aí um lameirinho.

O Manel sempre foi zeloso, nunca virou a cara ao trabalho e era teso nos carregos. Como alguns, que o procuravam em casa, até lhe chamavam chefe, não estranhei que começasse a andar sempre com os bolsos bem aviados: tinha pagamentos a fazer e seria mais bem pago, pensava eu.

Vozes daqui, vozes dali; o Manel da Laje para aqui, o Manel da Laje para acolá; olhares furtivos e meias palavras da vizinhança; coisas que acabavam por não me dizer muito, mas me iam moendo, inquietando e tirando o sono.

Para mais, se alguma coisa tentasse falar com o meu homem, ou estava dos avessos, ou dava-me troco avantajado, como ele dizia, para não voltar a meter-me onde não era chamada. 

Podia, ainda, sair porta fora e só voltar daí a dois ou três dias, com ar de gozo e mangação, negaceando e perguntando se já gostava de ter coisas boas, que nem todas poderiam ter.

Uma bela ocasião, entrou em casa a cair de bêbedo. Atirou-se, vestido, para cima da cama, e saltou-lhe do bolso das calças, um avultado maço de notas de dona Maria. 

Estariam ali para cima de cem contos de réis – uma fortuna, como o senhor doutor juiz sabe -. Meti-lhe as notas no bolso e, no outro dia, quando acordou, meteu a mão no bolso, para apalpar o dinheiro, olhou-me e não disse nada. 

Comeu uma boa malga de sopas de leite e, nos bolsos das calças, juntou um grande maço de notas, e disse-me:

Arranja uma caixa de lata, põe esse dinheiro lá dentro e esconde-a na corte do gado, à direita da manjedoura, enterrada, um bom palmo abaixo do estrume. 

Não sei quando vou precisar desse dinheiro, para fazer pagamentos, mas se alguém, seja quem for, te perguntar alguma coisa, nunca ouviste nada, não sabes de nada e nunca viste o teu homem esconder nada, em parte nenhuma. 

Percebeste tudo? Então estamos entendidos e, para algumas despesas, toma lá estes dez contos e até daqui a uns três ou quatro dias. 

Ah! Está uma carta junto do dinheiro. Só podes abri-la, se me acontecer alguma coisa e então farás o que lá está escrito. Mas não mostres a carta a ninguém.

Disse-me que tinha de ir terminar um negócio com uns espanhóis; Havia coisas para resolver e era preciso tomar decisões e fazer trabalhos. Que, agora tinha mais responsabilidades, porque o dono do negócio estava muito mal.

Oh! Homem, metes-me medo, acrescentei eu, a gaguejar. 

Fica descansado que farei tudo como me disseste. A encomenda ainda hoje vai ser posta lá na corte do gado. Quanto à carta, será como disseste, mas, se Deus quiser, não lhe hei-de mexer. Tu tratarás disso, quando quiseres, depois de voltar.

E saiu, porta fora, com a saca ao ombro, como de costume, mas reparei que ia a cantarolar. 

Já do meio da rua, voltou-se e disse-me: Não sei se terei tempo de vir cá dormir esta noite, mas não te preocupes que, o mais tardar esta semana, fecharei todos os negócios pendentes e, depois tiro umas férias.

Abeirou-se de mim e disse-me, baixinho: isto por cá já deu o que tinha a dar e são já muitos cães a um osso. Talvez pensemos em mudar de ares; não sei se a França, ou a Alemanha, mas tenho pensado na Suíça. Vai-te habituando à ideia, pois é capaz de não passar deste Verão, que vamos dar o salto. 

E, lá foi rua abaixo. 

Foram as últimas palavras que lhe ouvi e a última vez que o vi, com vida. 

Não sei mais nada, mas merecia melhor sorte; um homem na força da vida e com dois filhos pequenos para acabar de criar.

Depois, penso que o senhor doutor juiz estará mais informado que eu. 

Uns dias depois, apareceram-me, lá em casa, os Guardas, para me trazerem ao hospital.

Estavam lá três corpos, muito desfeitos, quase irreconhecíveis e pensavam que um dos três devia ser o meu homem.

Não me foi difícil reconhecê-lo: tinha no dedo a aliança com que nos casámos, o sinal atrás da aba esquerda da orelha e o dedo mais pequeno do pé esquerdo cortado. Era, sem qualquer dúvida, o corpo do meu Manel.

Dos outros dois, não reconheci nada. Só os dentes de um deles me fizeram lembrar o tal de espanhol que vi, uma vez, lá ao pé da nossa casa. Mas, se calhar eram só suposições. E, como ninguém me fez perguntas, nada disse.

Diz-me agora o senhor doutor juiz que as investigações ainda estão no princípio, mas o meu marido fazia parte de um grupo de contrabandistas que virou quadrilha e se ocupava de roubos em grande escala. 

E que foram, ao que parece, ladrões contra ladrões que acabaram mortos pelos homens dos dois grupos, que depois de fazerem o trabalho, desapareceram sem deixar rasto, ou quaisquer sinais.

Quanto a essas vidas nada sei. Nunca pensei que o meu Manel fosse homem de tão grandes apertos, mas… no melhor pano, cai a nódoa. 

Se andava nisso, outros lucraram, pois o meu homem, pobre terá entrado e pobre terá acabado. Mas ele pagou o preço mais caro e os pobres meninos, que estão lá em casa, é que irão pagar, pelo que as más companhias terão feito ao pai. 

Gostava de ficar com a aliança, o fio e a medalhita, que ainda tem ao pescoço.

A justiça terá seguido os seus trâmites e depois dos exames e das autópsias, nunca mais ninguém me disse nada. Nem novas, nem mandados, e já lá iam doze anos desde que, no hospital, reconheci o corpo do meu homem. 

Com os garotos já homens, a vida ia correndo de feição. Um deles ia ser ordenado padre, num Seminário dos arredores de Braga e o mais novo, administrava as nossas terras e vivia bem. 

Eu fui um dia, à corte do gado, buscar a caixa de lata e contei o dinheiro que lá estava: Trezentos e oitenta contos de réis, em notas portuguesas de diferentes valores e novecentas mil pesetas, em notas espanholas. Tirei a carta e fui para casa. Fechei tudo e li-a.

Estava, ao cimo, o nome de um banco espanhol. O balcão era em Ciudad Rodrigo, para lá da fronteira de Vilar Formoso, uns trinta quilómetros. Por baixo o número de uma conta, em nome de Manuel do Carmo Viegas, ou Maria da Encarnação dos Reis, residentes em Cabreiros, no concelho da Guarda – Portugal. A conta estava a prazo e podia ser movimentada por qualquer dos titulares, no prazo do vencimento, com os juros capitalizados.

Apanhei o comboio para Ciudad Rodrigo e fui ao banco. 

Pedi a transferência do saldo total da conta para o Banco Nacional Ultramarino, na Guarda. O valor a transferir foi: quatro milhões e trezentos mil escudos, em moeda portuguesa. 

Depois fui comprar uns pães e uns caramelos e apanhei de novo o comboio até à estação de Vila Fernando, rumo a casa.

Com esse dinheiro, mais o que estava na caixa, que fui tirando aos poucos, eduquei os filhos e fui proporcionando ao mais novo tudo o que precisava para a agricultura. 

Mais tarde, reformulámos a casa toda, comprámos terras e, apesar de não faltarem os pretendentes, fiquei viúva o resto da vida.

Muitos anos mais tarde, já o meu David era padre, recebi um dia um aviso para ir ao Comando da polícia, da Guarda, tratar de assunto do meu interesse.

Muito secamente, perguntaram-me se era Maria da Encarnação dos Reis, viúva de Manuel do Carmo Viegas e leram-me o despacho em que se afirmava que das investigações sobre a morte do meu marido, nada se tinha apurado, pelo que o processo ia ser arquivado. Se nada tivesse a opor, assinava a comunicação e pronto. 

E assim se fez.

Ainda hoje continuo a pensar que talvez o meu Manel tenha roubado; não cai do céu todo o dinheiro que me deixou e nunca me constou que lhe tivesse saído a sorte grande.

Mas se o fez, não se apropriou de nada que fosse de gente séria. Escusava de ter pago um preço tão alto. Mas, fico-me na minha, e, por mim, já está perdoado:

Ladrão que rouba ladrão…tem cem anos de perdão!

domingo, 11 de setembro de 2011

Terras do Vale

O diferendo das terras do Vale de Baixo arrastava-se, pelo menos, ao que podiam saber os vivos, desde os tempos em que tudo aquilo era um souto de castanheiros, que começava às últimas casas da Aldeia e só acabava já nos confins do Chão de Burro, ainda no tempo de, pelo menos, três avôs do meu avô, que Deus haja. Nunca se resolveu e não sei se alguma vez se resolverá.

As castanhas daquela correnteza, de que veio a nascer, muitos anos mais tarde, a “Arrompida”, desde os baixos da ladeira do Pichelim até à Portela dos Carreiros, eram as melhores das redondezas e valiam mais uns vinténs cada alqueire. O gado perseguia-as e os amigos do alheio também.

Contam os mais velhos, dizia-me o meu avô, já na casa dos setenta, naqueles meados do século passado, que um tal “Rasga”, que era filhote da Aboboreira, ali veio, um dia – há dias bons e dias maus…- comprar umas terras, com o fim de nelas fazer um moinho de vento. 

A portela do Casalinho era, de facto, um local onde já noutros tempos tinha existido um moinho, como ainda se podia ver, pelos restos de parede, em redondo.

Era homem de poucos escrúpulos e, dando asas ao mau feitio, terá mandado, desta para melhor, um par de opositores no negócio, acabando por ficar com mais de metade daquelas terras. Umas compradas, outras roubadas – não se ensaiava nada em mudar um marco, umas chancas para dentro da do vizinho.

Numa dessas estremas começava o nosso Vale de Baixo. Ia desde o ribeirito que ainda por ali corre e estendia-se ao longo dele, desde a junta com o ribeiro que ia do Pichelim até ao ribeiro que vinha da Horta Velha e do Pardieiro. 

Ocupava toda aquela chapada, pelos lados do meio-dia e ainda passava para norte do ribeiro, na maior parte do seu percurso. Diga-se que no Inverno o ribeiro mete muita água, mas no Verão só uns pocecos aqui e além, principalmente onde fizemos as quatro represas que além de guardarem alguma água, serviam para fazer alagar as nossas terras mais baixas que gozavam com o chorume que aquelas águas arrastavam.

Nas primeiras fiadas, os castanheiros das terras mais baixas, eram bem mais frondosos, e mais altos, levando uns bons metros acima dos da encosta.

A pastagem dos nossos lameiros era bem mais abundante e saborosa para os gados que as pastagens dos lameiros do “Rasga”, onde não havia represa.

O “Rasga” queixava-se que as águas que escorriam dos nossos lameiros iam para as terras dele depois de terem deixado o proveito nas nossas. 

Nós nada tínhamos que dizer, ou fazer; estava por baixo e as águas não correriam para cima para voltarem ao ribeiro. O mais que poderia fazer era desviar as águas das suas terras para as mandar para o ribeiro lá no fundo das suas terras.

As nossas represas entestavam nos dois lados com o que era nosso e por isso ninguém tinha nada com o que fazíamos, ou deixávamos de fazer.

Vai daí, o “Rasga”, pela noite dentro, principalmente quando chovia mais e o escuro carregava mais, munia-se dum enxadão e cavava as represas, como se aquilo fosse dele. 

Segundo as palavras do meu avô, o seu pai era pacífico e teria chegado às falas com o vizinho, por duas ou três vezes. Desta vez não terá gostado da resposta do traste que se limitou a dizer que o ribeiro era público e ninguém tinha nada com o que lhe apetecesse fazer, dentro dele. 

Só que o meu pai e os seus quatro irmãos é que não gostaram do que o pai lhes disse e tomaram a seu cargo a guarda de terras e ribeiro, ficando de atalaia, três a três, munidos de bons cacetes, para o que desse e viesse.

Ora o meu avô, que se chamava Manuel Lourinho, tinha vindo das Hortas, lá para onde hoje é Alferrarede e, trabalhando lá por casa do dono daquelas terras, acabou por casar-se com a filha única do dono daquele souto – um verdadeiro casal ali mesmo à entrada da aldeia -. 

E aqui começou a questão que opunha o “Rasga” ao meu avô. É que a minha avó recusou o pedido de namoro do “Rasga”, dado o seu feitio, quezilento e desordeiro e acabou por trocá-lo por um forasteiro, quase desconhecido na terra.

A animosidade continuava: só que o traste, mediu mal as coisas, e em vez de afrontar o antigo rival, encontrou pela frente uns matulões, com menos trinta ou quarenta anos que ele e dispostos a vingar muitos vizinhos que dariam tudo para ver o “Rasga” pagar, pelo que tinha feito na terra.

Um tio meu, que se chamava Francisco, adiantou-se aos irmãos e disse: ele é que ainda não sabe com quantos paus se faz uma canoa! Mas quando as sentir no lombo, vai saber com quem se meteu. Eu e os meus irmãos, se quiserem acompanhar-me, vamos mostrar-lhe que não se mexe no que não nos pertence, e se quiser resolver as coisas como sempre tem feito, encontra, finalmente, quem lhe mostra como as coisas são tratadas. 

Assim o pai me dê carta-branca para meter o tratante na ordem. E, se nenhum dos meus irmãos quiser acompanhar-me, sozinho chego muito bem para ele. 

Porém, o seguro morreu de velho e, por isso, alguém, de fora da família, há-de estar em condições de testemunhar tudo o que possa acontecer.

E o meu tio Francisco, continuou: Então vem lá da Aboboreira, mostrando libras a torto e a direito, sem que ninguém saiba onde as arranjou, e pensa que isto aqui é tudo dele! 

Não! Bateu, pelo menos desta vez, à porta errada. Há-de receber, depois de dar, que eu não sou parvo. Mas, esteja descansado que não terá tempo para dar a segunda e há-de haver quem esteja nas redondezas, para ir, onde for preciso, dizer quem provocou e que bonita prenda esta terra tem.

Então, quem vem comigo? Tu, João, ficarás por perto, assim como o Tonho. Mantenham-se escondidos. Só se for preciso é que aparecem. Tenham a certeza que eu chego bem para ele e irei provocá-lo, para que, se for homem, as peça! 

Depois vou dar-lhe uma boa sova, de forma que mostre a todos que encontrou quem chega para ele e que, nesta terra, não se mexe no que não nos pertence. E hei-de fazê-lo jurar que não volta a pisar o que é nosso, nem a mexer nas nossas represas que não lhe devem nada.

O meu avô concordou, mas pediu que fossem os três e usassem o mínimo de violência possível, tomando cuidado com a rês: Ele tem fama de traiçoeiro; Usa uma navalha! 

O meu tio e os irmãos concordaram e apenas disseram: se pegar em faca, partimos-lhe esse braço; se a agarrar com a outra mão, partimos-lhe o outro, e tudo será feito à vista das testemunhas, que já apalavrámos.

Às primeiras chuvas lá saiu o “Rasga”, com a saca às costas, a caminho do Vale. Os meus tios, João e Tonho, já estavam nos postos, escondidos dentro do ribeiro. O Francisco seguiu-o de perto, também com uma saca ao ombro e dentro dela um bom cacete, com uma moca e uns oitenta centímetros. 

Chegaram ao ribeiro, junto da estrema, uns metros a jusante da primeira represa, quase ao mesmo tempo. O “Rasga”, com ar provocatório, disse: 

Vens arranjar as represas? Não te canses muito, rapaz. A chuva parece vir aí forte e não vai haver represa que lhe resista. Mas, se a chuva precisar de ajuda, cá estou eu para lhe dar um jeito! Ou és homem para me estorvar?

Não se esqueça que mais um passo que dê e está no que é meu, sem ser convidado. Se que saber se o estorvo ou não, terá que experimentar! 

E o meu tio foi sentar-se no cômoro, junto da represa, ajeitando umas leivas que estavam descompostas e mirando, pelo canto do olho, os movimentos do vizinho.

Num salto, o “Rasga” com um pau erguido, precipita-se na direcção do meu tio, que, furtando-se e pondo-se em guarda, recebeu o golpe do agressor e deixou que ele se projectasse, de barriga para baixo, dentro da represa. 

Num ápice, levantou o pau e aplicou-lhe um golpe entre as espáduas, um pouco abaixo do pescoço, sobre a espádua esquerda, que provocou um grito de dor ao “Rasga”. 

Com um esforço e gemidos de dor, voltou-se, sobre o lado esquerdo, meteu a mão no bolso das calças e, tirou uma navalha espanhola, de ponta e mola. 

Foi a vez de o meu tio aplicar o pau, pela segunda vez, acertando no antebraço do inimigo, que, com gritos de dor e raiva, ainda tentou agarrar a navalha com a mão esquerda. 

Já o meu tio se preparava para lhe aplicar nova paulada, desta vez sobre o braço esquerdo, quando o Tonho, a correr, o agarrou, ficando o “Rasga” com a omoplata, do lado esquerdo, partida e o ombro do mesmo lado, desconjuntado. O braço direito, partido, entre o cotovelo e a mão, com fractura exposta, deixava a mão pendurada. E, se tinha ainda o braço esquerdo inteiro, embora inanimado, ao Tonho o devia. Mas, não iria agradecer-lhe.

Vieram buscá-lo e levaram-no para casa, onde o trataram. Durante mais de seis meses, quase não saiu de casa e nem parecia o mesmo fanfarrão de sempre. Porém, sempre ia dizendo: Se não me tivesse apanhado à traição, teria sabido como elas lhe mordiam!

Da parte dos Lourinhos, só chegou um recado: ou prometia, publicamente, que nunca mais mexeria nas terras dos Lourinhos, ou, quando estivesse em condições, havia de ir dizer ao juiz porque é que tinha partido a omoplata e o braço e porque foi, de má fé, armado de cacete e navalha de ponta e mola, para as terras do Vale. 

Podia escolher, entre reconhecer-se culpado, ou ir uns meses, ou anos, para a cadeia.

O “Rasga” sabia que havia muitas testemunhas a favor da razão. Que fora o primeiro a atacar o moço, que se não fosse o irmão teria os dois braços partidos e, sabia Deus que mais. 

Por isso, um dia, na presença do Cabo de Ordens da terra e de quem mais quis ouvir, reconhecia que os Lourinhos tinham razão e pedia desculpa a todas as pessoas que, por culpa do seu mau feitio, tinha ofendido.

O “Rasga” ainda durou vários anos, mas nunca mais foi o mesmo homem. O seu braço direito nunca mais teve força e as costas nunca deixaram de ter dores. Muitas vezes nem uma saca vazia aguentava sobre o ombro, dizia ele.

O meu avô dizia, meio a sério, meio a brincar: nunca fui homem de brigas, mas há por aí certos trastes que só com uma boa sova é que aprendem. E, uma boa sova é aquela que o tio Francisco Lourinho aplicou ao “Rasga”: não é preciso bater muito; Massacrar o inimigo para quê? 

Dar, quando se tem que dar! E só na medida do preciso: O meu tio aproveitou a fúria do inimigo para o deixar cair de bruços, dentro da represa. Aplicou a primeira paulada para tirar força aos braços do adversário; a segunda para evitar que a mão pegasse na navalha. Preparava a terceira para segurar a outra mão…

E aí está um fanfarrão que toda a vida fez gato-sapato de quem quis, a rastejar, como um porco, prometendo respeitar o que é de cada um e jurando não voltar a mexer nas nossas terras.

E, o velho Lourinho, apenas dizia: 

Assim vale a pena aprender a mexer um pau; E eu que nem sabia destas artes do meu Francisco!...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Barqueiro "Lérias"

O António da Costa, mais - e quase só - conhecido pelo "Lérias", tal como seu pai e avô já tinham sido, nasceu e cresceu nas margens do Tejo, entre os Engarnais e o Pego, nuns casebres, onde vivia com os seus e não longe do seu barco que transportou de tudo, desde pessoas a animais, passando por todo o género de artigos, entre as duas margens do grande rio Tejo.

Desde que se conhecia, há perto de sessenta anos, sempre fora barqueiro e, a qualquer hora do dia ou da noite, chovesse ou trovejasse, não se lembrava de alguma vez ter recusado um frete a qualquer pessoa que lho pedisse. 

Bastavam dois assobios para que nos minutos seguintes aparecesse o ''Lérias'', muitas vezes ainda a apertar as ceroulas, que depois aforraria, e, logo a seguir, desamarrasse o barco e o trouxesse para junto do pequeno cais de pedras. 

Limpava a água que estivesse no chão, carregava mercadorias e animais e ajudava pessoas a acomodar-se a bordo. 

Pegava depois nos remos, ou na vara, com que dirigia e empurrava o barco, avançava contra a corrente até tomar o ponto de onde mais facilmente chegaria ao outro lado, cerca de quatro minutos depois. 

Ajudava a descarregar. Sentava-se no poial que seus antepassados ali tinham preparado, acabava de fumar a cigarrada e iniciava a viagem de regresso. 

Não havia horas; estava sempre de serviço; dois assobios e começava o trabalho, de acordo com o local onde estivesse o cliente que chamava. 

O único vício que se lhe conhecia e que não fazia qualquer esforço para abandonar, era o tabaquito. Não se lembrava de alguma vez ter ido ao lado do Pego, buscar ou levar alguém, sem fazer um paivante, sentado no poial de pedras, antes de iniciar o regresso.

Dizia, com a laracha que caracterizava as suas saídas, que quando levasse alguém sem a sua cigarrada, esse, nunca mais lhe daria trabalho. E, muito sério, acrescentava: "palavras do meu avô que Deus tem". 

Uma das melhores prendas que se podiam oferecer ao "Lérias" era uma onça de tabaco "Superior", mas sem livro de mortalhas; essas vinham de Espanha. Desde que usava aquelas mortalhas, nunca a tosse o apoquentou, dizia ele. 

Cada pitilho, formado por uma pitada de tabaco, tirado da onça com uma pinça feita pelo polegar e indicador da mão direita, enrolada na mortalha espanhola, e colada com o cuspo da ponta da língua, dava para três ou quatro fumaças. Vício de boca, pois nunca engoli o fumo, como o ''Lérias'' repetia, vezes sem conta. 

Até no dia em que fui levar a "patroa", já em trabalho de parto, para ser conduzida ao hospital, enquanto a aconchegavam no barco, preparei a cigarrada e puxei-lhe fogo. 

Talvez por isso, o meu filho, a quem pus o nome "Tejo", acabou por me nascer para lá do meio do rio. Histórias!. ..

E lá vinham as prosas que umas vezes entretinham, outras distraiam e, até cansariam alguns fregueses. O "Lérias" contava as histórias conforme a cara dos passageiros, mas também sabia ouvir e apreciava uma boa passagem; minava-se por galgas bem metidas. 

Deliciava-se com a inocência de certas pessoas, mas nunca faltava ao respeito a ninguém e dentro do seu barco, onde era capitão e autoridade suprema, como ele orgulhosamente se intitulava, não permitia espertezas saloias, nem desrespeito pelos mais humildes. 

Contava ele, então: Um belo dia, tinha no cais a senhora professora dos Casais e um conhecido doutor advogado, de Abrantes, para serem transportados para o outro lado. Depois do paivante da ordem, ajudei a senhora a subir e a acomodar-se no barco; o doutor sentou-se em frente da professora. 

Não sei porquê, naquele dia não me estava a apetecer fazer jus ao meu nome - lérias - e mais cabisbaixo que o costume, lá ia manejando remos e vara, sem me meter com ninguém. 

Nisto, o espevitado do doutor, com ares de sabichão, atirou, à queima-roupa: Oh! "Lérias", você sabe alguma coisa de leis? 

Eu, senhor doutor advogado, como houvera de saber! Nunca as estudei, nem, precisei delas para nada!... 

Não é isso, homem! É que você acabou por perder metade da sua vida!... 

Eu, encolhi os ombros e continuei a remar. Mas a seguir, dando uma de finória, disse-me a professora:

Oh, senhor "Lérias", você nunca foi à escola, pois não? 

É verdade, senhora professora! Desde que me conheço a minha escola é esta: o rio, o meu barco, o meu serviço e a minha família. De resto ... 

Então não sabe ler nem escrever!? 

Pois não, minha senhora! Mas, graças a Deus, o meu barco não deixa de andar por falta disso!... 

A verdade é que perdeu, sem proveito, metade da sua vida!... 

Aí por alturas do meio do rio, onde a água faz uma pequena gola e corre mais forte, penso que por terem feito uma descarga na barragem, veio uma onda, maior que o normal, e o barco virou-se, caindo os passageiros para a água, ficando agarrados a uns juncos, não longe do barco. Ao ver a professora e o advogado, esbracejando no meio da água, perguntei: 

Vocês sabem nadar?

Não! Responderam os dois; Tire-nos daqui, homem de Deus, senão ainda morremos para aqui afogados! 

Aí, cá o "Lérias", percebendo que o perigo era nulo e tudo não passaria de roupa molhada e um pequeno susto, voltou-se para "ambos os dois"e disse: 

Que pena, acabariam perdendo a vida os dois, por nunca terem aprendido a nadar! Isto, se aqui o morto que nada conhece de leis, nem nunca aprendeu a ler e escrever, não ressuscitasse para vos salvar! E, já de novo dentro do barco, ao chegar ao local de descida, ainda o "Lérias", que aqui vêm e a terra há-de comer, acrescentou: 

Cada um é para o que nasce e tem, no seu campo, tanto ou mais valor que qualquer outro terá no seu meio. Não se deve discriminar ninguém. Saber mais ou saber menos, não deve servir para diminuir ninguém. E, lembro-me dos ensinamentos do meu avô: 

Os que mais sabem, são, na maior parte das vezes, os que menos dizem. Pelo contrário, o fala-barato, que nunca se cala, fá-lo para esconder o que não sabe.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Senhora da Piedade

Em “história” anterior, falámos sobre o “bispo das Corgas”. 

Porém, tratando-se de uma personagem tão rica e tão marcadamente influente das gentes daquelas terras da Beira, cuja mulher, em nada ajudava na boa disposição e permanente disponibilidade para tudo o que acontecesse lá nas Corgas e terras das redondezas, voltamos com novo episódio. 

Ao contrário da boa disposição do senhor António de Brito – mais conhecido pelo “bispo das Corgas”- a mulher passava os dias a contar desgraças, ou, se não as tinha à mão, a presumir mortes, misérias, calamidades, doenças e outras coisas. Mas, todas elas, tristes. Por isso lhe ficou aquele nome de Ana do Tristão. 

Na festa em honra da Nossa Senhora da Piedade, o Tó Esquinado, já bem bebido, teimava em levar o andor da santa, porque, dizia ele, tinha feito uma promessa e queria cumpri-la. 

Os mordomos, por sua vez, não o queriam no grupo que levaria, em ombros, durante a procissão, o andor da santa. 

Conversa e mais conversa e não havia meio de começar a procissão; não saía a santa, que todos ansiosamente esperavam ver na porta da capela. 

Veio o senhor padre de Sandomil, juntou-se-lhe o de Vila Cova e, também, o sacristão de Valezim – compadre do Esquinado – e bem se esforçaram por convencer o Tó a não levar a santa, pois punha em perigo uma coisa sagrada. 

Gerou-se um grande impasse, pois nem o problema se resolvia, nem a procissão saía. E o povo, não sabendo ao certo o que se passava, começava a impacientar-se, aparecendo já voluntários para dar uma ou duas cacheiradas no bêbedo e pô-lo a dormir. 

Porém logo outro adiantava: Então se o homem tem uma promessa, porque não há-de cumpri-la? 

Como sempre, sem se dar por ele, apareceu o senhor António de Brito e, dirigindo-se ao senhor padre de Sandomil, na condição de presidente da cerimónia religiosa, convidou-o a levar o Tó à sacristia e dispensá-lo da obrigação de cumprir a promessa. 

Poucos momentos depois, o Esquinado saía, cabisbaixo e pronto a fazer todo o percurso da procissão na companhia do “bispo”, na maior ordem e respeito. Mas  o Tó não deixou de mirar, de esguelha, o “Folgas” que tinha levado a vara do andor, onde ele queria ter ido. 

Vindo lá de cima, dos lados de Gouveia, do lugar onde se diz que Viriato descansou entre duas batalhas, para tomar um fôlegosinho, o Américo era um homem de estatura avantajada, largo de ombros e quase com um palmo acima do comum dos homens das Corgas. 

Era, lá na aldeia, conhecido pelo “Folgas”, não apenas por ter vindo lá de Folgosinho, mas também, porque, sempre que podia, descansava enquanto andava nos trabalhos; fazia folgas. 

O Tó, podia continuar com o grão na asa, mas via, perfeitamente, que o “Folgas” desequilibrava o andor todo e a santa só não caía, porque estava aparafusada. Algumas flores que decoravam o andor, estavam mesmo em vias de se desprenderem. E ia fazendo figas para que a coisa desse para o torto e continuava à espera da recolha do andor à capela, pois, ou o “Folgas” se baixava muito, ou a santa havia de bater na porta. 

E, assim foi: ao entrar na capela, o “Folgas” não se baixou o suficiente e a santa bateu na padieira da porta, partindo a ponta do nariz, que havia muito tempo ameaçava soltar-se. Os mordomos apanharam o bocado quebrado, puseram-no sobre o andor e deixaram-no junto da imagem, na capela. 

Na altura ninguém avançou qualquer presságio, mas à boca pequena todos sugeriam que se tivesse sido o Tó a levar a santa, tudo teria corrido bem. Assim… 

Quem não deu o caso por encerrado foi o “bispo”. Dirigiu-se, discretamente, a casa da senhora Mariana, zeladora da capela e pediu a chave, pois queria ver o que se podia fazer com o nariz da imagem da santa. 

Recomendou que não fizesse uso, pois não queria que ninguém soubesse de nada, uma vez que nem ele sabia o que poderia ser feito. Logo lhe daria a chave, quando não precisasse dela. 

Da sua oficina de tamancos, onde ganhava a vida, levou madeira, colas, limas, pregos, parafusos, lacas, tintas e uma caixa de ferramentas para trabalhar madeira. 

Correu para a capela todos os dias de uma semana, conseguindo não ser visto, nem ouvido durante os trabalhos de restauro. 

Finalmente, dado o trabalho por terminado, entregou as chaves à zeladora e, dias depois, não se falava de outra coisa na terra; tinha havido um milagre e a santa voltava a ter o nariz perfeito! 

O padre foi vistoriar a imagem e, considerou o trabalho tão bem feito que não quis interferir nos ditos que corriam. 

Porém ao ver que a coisa tomava dimensões desmesuradas e incontroladas; já havia visitas à capela, por peregrinos vindos de fora, para ver o nariz de Nª Sr.ª da Piedade, interpelou o senhor António de Brito sobre o que teria acontecido e, pedindo-lhe uma explicação, pois…

Talvez um “bispo” tenha mais explicações que um padre! 

Nisto, o “bispo”, sem se desmanchar, acrescentou: Olhe, sr. Padre Francisco, uns dizem que veio aí um santeiro, de Braga, e compôs a nossa santinha. Eu, ainda não vi o trabalho, mas já me foi gabado. 

Outros, talvez mais crentes, ou não, dizem que foi milagre; afiançam que moram lá para os lados da capela e não deram por ninguém a entrar ou a sair e garantem que não ouviram barulho de quaisquer trabalhos. 

Eu, estou confuso e não tenho opinião. Que Deus me perdoe, mas não dei fé de ninguém de fora, cá na aldeia. E, que a santinha tenha feito um milagre, também me custa a engolir. Mas o caso resolveu-se! Se calhar é melhor deixar as coisas como estão e que cada um acredite naquilo que quiser. 

Assim, como assim, é capaz de ter razão, senhor António de Brito. Daqui não virá mal ao mundo e, quem sabe se a Sr.ª da Piedade vem, a partir de agora, a ter mais importância e as devoções, que sempre mereceu, mas muitos sempre esqueceram. 

Porém, deixe-me que lhe diga, aqui para nós, que ninguém nos ouve, e com a vénia que se deve falar a um “bispo”: Os meus parabéns, senhor António de Brito, está um trabalho perfeito! E, com um sorriso, foi-se para dentro da capela.

sábado, 6 de agosto de 2011

O “bispo” das Corgas

Quando o último dos três irmãos, baptizado de Alva, acordou, já os irmãos rumorejavam para os lados do Nascente. 

Desprendeu-se da mãe – lá nas alturas da Serra Grande, aos 1400 metros de altitude, onde a lagoa Comprida lhe deu os primeiros alentos – e, sem grandes forças, deixou-se escorregar por ali abaixo, de fraga em fraga, até ao sopé, onde, finalmente, pôde sentir-se em paz e tomar a sua marcha lenta, por entre uma feérica moldura de campos verdes e floridos. 

Deixemo-lo descansar lá por Vila Cova e Sandomil, enquanto vamos ver o que sucedeu aos dois irmãos mais velhos.

O Mondego nasceu mais forte e fez-se ao caminho, em direcção à cidade grande. 

Porém, a Guarda, bem segura e alcandorada lá nas alturas, não o deixou rumar a Espanha. 

Iniciou, então, uma grande volta, virou costas a nascente, dirigindo-se para poente, em procura das terras baixas que ainda chegara a ver lá dos píncaros em que viera ao mundo. 

Foi, por ali abaixo, até às vistas de Coimbra. Dali em diante, velho e refeito das suas bazófias, espraiou-se e entregou-se, finalmente, ao oceano, junto da Figueira da Foz, deixando, como testemunhos e guardiões, o Cabo Mondego e a Serra da Boa Viagem.

O segundo, que lá nas alturas da Estrela recebeu o nome de Zêzere, começou por acompanhar de perto o irmão. Mas não resistiu aos encantos da Cova da Beira e, ao contrário do irmão mais velho que entretanto já perdera de vista, virou para sul. 

Cresceu, protegido pela Estrela, sua mãe natural, e pela Gardunha, que observara, verde e bela, mal acabara de nascer. Mais alentado, resolveu atacar as serras a ocidente, já que outro caminho lhe não restava. 

E, por entre montes e vales de rara beleza, avançou resoluto deixando encostas de arvoredos intermináveis e alturas cobertas de enormes penedias, até encontrar, atravessado no seu caminho, o grande Tejo que o recebeu, como filho, no termo de Constância. 

A partir dali, mais fortes e triunfantes, restava-lhes rumar a Lisboa, a capital digna do seu prestígio e grandeza, não se esquecendo de espalhar benesses e riquezas pelas terras ribatejanas, que percorreram, sem grande pressa.

Pareceria, à primeira vista, que o Alva estava contente e satisfeito, nos campos verdejantes e calmos de Sandomil, mas a chegada de algumas ribeiras e a força do destino, apontaram o caminho do oeste. 

Fortalecido e encorajado, lá seguiu, por entre montes e vales, serpenteando e recebendo todas as ajudas que chegavam, até se encontrar, ao cabo de mais de cem quilómetros de voltas e mais voltas, com o Mondego; o irmão mais velho que não chegara a conhecer lá nas alturas da Estrela. 

Mas, nunca esqueceu o paraíso que deixou nos baixos da serra-mãe. Cada vale, cada outeiro, cada requebro, serve de assento a belas aldeias, como verdadeiros presépios. E a calma e serenidade, recortadas pelos trinados dos inúmeros passarinhos, que dividem com rebanhos e outros vivos, todas as maravilhas dos arredores, desde os baixos das hortas aos primeiros cumes das encostas. 

Sandomil, outrora senhorial, é, ainda hoje a verdadeira sala de visitas do concelho de Seia. 

Mais além, as Corgas, uma das últimas aldeias das terras da Guarda. Tudo ali é autêntico, do casario às pessoas, das vertentes cobertas de vegetação às aflorações rochosas, quais guardiões invencíveis, espreitando nos altos. 

Realizam-se, anualmente, as festas de Nossa Senhora da Piedade (12 de Agosto), as de Nossa Senhora da Espectação (16 de  Dezembro) e as do Sagrado Coração de Jesus. Joga-se ao chinquilho e à malha. Celebra-se a “Amenta das almas”. 

Os homens destas terras viram, desde que nasceram, o vivo, esmifrando as touças mais tenras e verdinhas, num qualquer recanto de lameiro, ou os ramos apetitosos e oferecidos, nos requebros das penedias. E, se a sede apertava, água era coisa que não faltava; era ver, gente e bichos, dessedentar-se, mergulhando numa qualquer fonte natural.

As gentes dali não se intimidavam, nem se sentiam prisioneiras de toda aquela cerca de penedias, parecendo despegar-se da serra mãe e rolar por ali abaixo. Viam-nas como a força da sua identidade e o fermento que os haveria de levar a adultos. Nunca viam até aquela portela, olhavam sempre para o que estava para lá dela.

Os homens destas terras da Beira, cruzam montes e vales, ribeiras e torrentes, cavalgando as poldras, ao ritmo dos relâmpagos ou do ribombar das trovoadas. Nunca se dobraram a uma qualquer tempestade e sempre seguiram o seu caminho. Corre-lhe, nas veias, o sangue quente de Viriato e não dobram ante as maiores vicissitudes. Quer estejam na sua terra natal, quer mourejem pelos Congos ou outras Áfricas, ainda que naveguem em mares desconhecidos, ou ambientes hostis, os beirões sabem sempre quem são, de onde vieram e para onde querem ir.

Na sua estatura meã e debaixo da tez morena, que deixa sair as marcas das maresias de fim de verão secas pelos raios tórridos na encosta da serra e os tarós dos invernos que, queimando a pele como as praias do mar, espalham seus brilhos, quentes no parecer, mas gélidos nas entranhas. Nada que afecte a alma das gentes. 

Lá nas Corgas, ficou na memória do povo uma figura popular a quem todos conheciam pelo “bispo”. Era um homem muito versátil, amigo do seu amigo, um verdadeiro líder, quer se tratasse de animar um descante, organizar um bailarico, fazer parte de qualquer comissão para benefícios na terra, ou orientar umas averiguações. 

Estava em todas, sem ser visto nem achado, e bastava a sua presença para resolver questões, intermediar brigas e sentenciar querelas.

À boa maneira de Viriato - avoengo mais destacado que por aquelas terras andou - era um líder. Era vê-lo, tocando a concertina, no largo da escola, uma vez que no adro da igreja era proibido cantar e bailar, mandando o baile e animando a festança.

Porém, nos seus sete ofícios, vamos encontrá-lo na sua oficina de fazer tamancos, onde muitas vezes esperava pelo filho “Vítaro” que se escapulia para os ninhos e se minava por uma boa chinchada, logo que as novidades despontavam nas árvores de fruto. 

Até engordava, o desgovernado, como os gatos e os cães, com os cachos e figos, dizia, em ar de resignação o senhor António de Brito, isto é, “o bispo”.

Quando os gritos de chamamento ecoavam sobre toda a aldeia – Oh! Vítaro!... Oh! Vítaro!... Oh! Vítaro!... – era certo e sabido que o senhor António de Brito estava sozinho na oficina. E o Victor que se fosse preparando para o que desse e viesse.

Era “um bom vivant”, este homem simples, que fazia gala em porteirar, aos sete ventos, o nome do filho e ajudante. 

Nunca apurámos porque lhe chamavam “bispo”, pois santo, não seria, e sabia, como ninguém, retirar os seus dividendos da sua presença em tudo o que se passava na terra. 

Mas, nem tudo na vida lhe corria bem. Viu partir, ainda novos, os três filhos: dois rapazes e uma rapariga (o mais velho, o Vítaro, nosso conhecido de ninhos e chinchadas, a Lucília, que a leucemia não poupou e, o mais novo, o Custódio que também não teve tempo de chegar a velho). 

Apesar disso, sempre deu tudo por um bom baile mandado, ao som da sua concertina e do seu comando: 
“Homens ao meio!” – “Mulheres ao centro!” – “Troca o par!” – “Outra vez!” – “Não está mal!” - “Ajeita-te, Rosa!” - “Puxa-a, Chico!”

Mau grado o seu feitio, não se lhe conheceram grandes aventuras. Para além de uma cunhada, que se casou a destempo e gritava, lá de casa, quando ele lhe ia bater à porta: 

Já estou metida na cama, não posso atendê-lo!... E acrescentava, em surdina: A porta está no trinco, entre!... 

Eram estas, e outras, as causas dos lamentos do senhor António de Brito, que com ar galhofeiro e o maior dos à-vontades, dizia: Já um homem não pode fazer as obras da Misericórdia; a minha cunhada Maria do Céu, nem se levanta para me atender e quando o faz, ainda me pergunta se venho pelo que disse o senhor doutor: A Lucília pode comer “capioca”; leve uma malguinha, dela, para a pequena.

Amigo do seu amigo, teso nas enrascadas em que participava com os rapazes da terra e senhor de mais amigos que inimigos, todos gostavam de acamaradar com ele, ou tê-lo por perto. 

Era uma daquelas figuras populares que não precisam falar muito, nem muito alto, para serem ouvidos; que dizem o que querem sem molestar e, raramente, são apanhados em encrencas. 

Disfarçam, quanto baste, e dirigem e comandam quem os rodeiam, suprimindo-lhes a capacidade de oposição, ou reacção, antes mesmo que aflorem. Um verdadeiro líder.

Um dia, dois forasteiros, desconhecidos por aquelas paragens, desceram às Corgas e entretiveram-se, pela taberna, jogando à malha e ao chinquilho. Perderam, pagaram as rodadas da praxe, e, quando já se ouviam as vozes da “Amenta das almas”, tomaram atitudes pouco respeitadoras de uma das tradições mais antigas da terra. 

Foram crescendo os desmandos, até que, vindo não se sabe de onde, entra em cena o senhor António de Brito, que, sem dizer uma única palavra, encarou os dois rapazolas, estendendo o braço e apontando a porta de saída. 

Depois, já na rua, repetiu o gesto, apontando a saída da aldeia.

Vendo os homens que se foram chegando e faziam as costas do senhor “bispo”, os mariolas, mudos e cabisbaixos, meteram os rabinhos entre as pernas e desapareceram, para não mais ser vistos nas redondezas. 

Quanto ao senhor António de Brito, retirou-se, sorrateiramente, com as boas-noites e um bem-hajam. 

Alguém, disfarçadamente, terá dito: vai a casa da cunhada Maria do Céu, certamente para as obras da Misericórdia. Vá com Deus!... 

Aqui já mostrou como se manda, sem ordenar, e dando bofetada com luva de “bispo”.

Foi muito comentada, nos dias seguintes, a atitude do senhor António de Brito. 

Porém, quando lhe perguntavam qualquer coisa, respondia: 

Cobardes!... Parece que lá em Vila Cova se meteram em desordem, que também já tinham provocado na Lapa dos Dinheiros. Esta gente procura a violência, mas esquece-se que a calma é mais forte que a força, quando bem utilizada!...

Também todos vós sabeis; e estes que aqui estiveram não seriam mais estúpidos, pois reconheceram que um “bispo” tem, sempre, um grande rebanho de fiéis atrás dele!... 

E rematava com duas ou três gargalhadas, bem ao gosto das gentes das nossas terras, e lhe assentavam que nem luva, acabando por dizer:

Ah! Querem saber o meu segredo?... Pois aí vai:

O meu segredo? É muito simples! 

Olho, a todos, bem no fundo dos olhos, e vejo-os, com o coração…

domingo, 31 de julho de 2011

O “Mal-quadrado”

Há coisas que vêm não se sabe de onde e acabam diluídas no tempo, sem perderem a força e todo o rigor simples e adequado, que os usos e costumes do povo lhe conferem. Estão, neste caso, as alcunhas, geralmente mal aceites, mas após a força da idade e o feitio do costume, passam a fazer parte integrante das personalidades que identificam e, na maior parte dos casos, acabam por assentar que nem luva.

Na escola da aldeia, a Senhora Professora não gostava de ouvir chamar ninguém pela alcunha e cansava-se a explicar que se puseram um nome às pessoas não era preciso, nem bonito, baptizá-las, outra vez. Porém, quando um dia estava a falar no assunto, o Alberto, a quem chamavam “o Rachado”, disse:

Senhora Professora, eu cá não me importo nada que me chamem “Rachado”; já o meu pai assim é conhecido e segundo me disseram também o meu avô e o seu pai e avô, assim eram chamados. Parece que quando havia discórdias, negócios empancados, discussões intermináveis e outras encrencas do género, lá eram chamados os “Rachados” para partir diferenças, pelo meio, e tudo acabava por se resolver. Acho que é prestigiante, Senhora Professora.

O “Carola”, que não gostava de ficar calado, levantou-se, na carteira, e sentenciou: eu acho que o “Rachado” tem razão, se for verdade o que ele diz. Mas, Senhora Professora, porque será que quando a senhora passa lá em frente da taberna os mais crescidos param e dizem: Que grande traço! Será esta a alcunha da nossa Professora? E, voltando-se para a classe, sobretudo para o lado dos mais velhitos, acrescentou, à guisa de resposta: a mim não me parece, pois traço é que ela não é; ainda se dissessem curva, ou mesmo curvas, eu percebia. Agora traço!...

A maior parte ficou impávida e serena, mas os mais atrevidotes faziam figas, às escondidas, para ouvirem as explicações da Professora, que não tardaram: O que referem não é uma alcunha; chama-se uma graçola, um piropo. Não se aceita como uma alcunha, mas recebe-se como um elogio e até se pode agradecer, se o ouvirmos. Não é mais que uma forma brejeira de dizer: que bonita, que jeitosa, que elegante, que bela!... Nunca ouvi; mas se ouvir, agradeço, delicadamente, a quem o disser! Mas vamos aproveitar a lição do que acabamos de ouvir:

As alcunhas sempre existiram e sempre hão-de existir. Normalmente, quanto mais as pessoas se arreliam, mais força elas têm, porque se ouvirmos e não ligarmos, esses nomes acabam por não pegar.
Há alcunhas que são maliciosas e ofensivas, como por exemplo quando referem defeitos físicos, incapacidades físicas ou mentais, comparações com animais; não devem ser, de forma alguma, usadas. Cada um é como é e tem de ser respeitado e ajudado e nunca ofendido.

Há alcunhas que são até muito honrosas; parece que “os Rachados”, por exemplo, só terão que se orgulhar do prestígio que foram tendo ao longo dos tempos. Não vos parece que alcunhar um de vocês de “príncipe”, “doutor”, “engenheiro”, “bate-solas”, “amassa massa”, “artista” e outros nomes que por aí são ditos na nossa terra, só honram e dignificam? Porém agora passamos a outras matérias e um dia destes continuamos. Cada um vai pensar no tema e até pode fazer uma lista com as alcunhas boas e outra com as que não se deverão chamar a ninguém.

Mas havia na sala, na 4ª classe, o “Mal-quadrado”, que ao contrário da maior parte dos colegas afinava, a sério, quando o chamavam por esse nome. É que, dizia ele, já lhe tinham dado mais de vinte explicações e nenhuma o convenceu de ser a origem da alcunha. Por isso, enquanto não lhe explicassem direitinho de onde provinha o nome, quem o usasse arriscava-se a ficar com algum olho negro, ou a ter de limpar o sangue do nariz, uma vez que o Abílio era o mais forte e corpulento da sala.

Mas, naquele dia o Abílio, fingindo não se incomodar com o tema da conversa, perguntou: Senhora Professora, chamam-me o “Mal-quadrado”, como, aliás, sempre chamaram ao meu pai. Ainda ninguém foi capaz de me explicar as origens de tal nome; o meu pai diz-me que não lhe adianta nem lhe atrasa, que aceita a ideia de a alcunha derivar de um avô antigo que cantava à desgarrada, de festa em festa e também nas feiras. Falava com muita propriedade e ligava mais importância ao que dizia do que à forma como o dizia. Parece que enquanto outros quadravam direitinho todos os versos e rimas, esse meu avô cantava e dizia em forma poética, mas “mal-quadrada”. Daí, o “Mal-quadrado”, ser anunciado, como um dos artistas desta ou daquela festa, ou feira, e até como atracção principal. Há lá, em minha casa, uma espécie de panfleto, com o programa de uma dessas desgarradas, que refere que a atracção do evento é o “incomparável Mal-quadrado” e, tanto quanto sei é esse o fundamento, mais aceitável, que meu pai encontrou para a alcunha.

Tenho também ouvido dizer que um nosso antepassado, militar muito importante numa guerra no tempo dos nossos reis, foi um dia derrotado, numa batalha, porque não preparou as tropas num quadrado perfeito, conforme as ordens do Rei. Acabou por ser condenado e, durante os anos que passou na prisão, tinha que desenhar um quadrado em cada dia. Quando à noite vinha o comandante para ver o desenho e via o quadrado mal feito, dizia: Só sairás no dia que fizeres um quadrado perfeito e a partir de agora passas a ser conhecido pelo “Mal-quadrado”. E assim ficou.

Poderá a Senhora Professora descobrir alguma coisa e na próxima aula, em que voltarmos a falar de alcunhas, esclarecer-me e explicar a todos os que pensam que eu me importo com o nome, o que ele quer de facto dizer? Se calhar vão ficar muito surpreendidos os que pensam que é uma alcunha de gente que não vale nada e acho muito bem que passem a ter inveja de não ter uma designação tão honrosa.

O João Alves, cuja alcunha era o “calça larga”, morava perto do Ti´Fastino, único homem da terra a usar umas lunetas redondas em riba do nariz, quando consultava uns rolos de papéis velhos que trouxera dos tempos em que andou na Marinha.
Se lhe falavam, respondia por meias palavras e raramente levantava os olhos dos livros. Pouco mais falava que quando dava a salvação a quem passava. Tinha fama de sábio e por isso o “calça larga”, aproximou-se do Abílio e perguntou-lhe porque não ia com ele, lá a casa do velho “Fastino”, perguntar-lhe se sabia alguma coisa sobre a origem da alcunha da família dos“Mal-quadrados”. E lá foram os dois.

O Abílio, depois de dizer quem era, explicou que a Senhora Professora tinha pedido que cada um soubesse o mais que pudesse sobre as alcunhas da terra e como lhe chamavam o “Mal-quadrado”, ia ali pedir à pessoa que devia saber mais dessas coisas antigas que o ajudasse.

O velho levantou os olhos, mostrou os livros que tinha numa prateleira logo depois da porta e disse aos dois rapazitos: muitos dizem que eu sou o “sábio”, outros chamam-me “coca-bichinhos”. Há ainda os que dizem outros nomes, como “maluco”, “apanhado dos climas”, e sei lá que mais. Isso nada me importa, pois só sei o que os muitos anos que já vivi, muitas terras que visitei, muitas pessoas com quem falei e, sobretudo, muitos livros que li, me ensinaram. Mas, sobre o nome “Mal-quadrado” nunca li nada em nenhum dos meus livros…

Porém, e como vejo pela vossa cara que merecem saber o que eu fui descobrir, vou dizer-vos o que se encontra nos livros dos registos da igreja, nos assentos dos livros de baptizados e casamentos, nas escrituras do notário e em papéis que fui juntando ao longo da minha vida. E, Abílio, não é esse o teu nome? Vais ficar muito orgulhoso, pois a tua família é, tanto quanto dizem os registos, uma das mais antigas da nossa terra. No princípio foi dona de muitas terras que chegavam daqui até ao rio Tejo, nas proximidades de Abrantes. O primeiro senhor destas terras chamava-se Abílio Mendes das Serras, morreu há mais de oitocentos anos, numa batalha, contra os mouros, nos arredores de Santarém, onde tinha ido, com os seus homens, ajudar o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques.

Depois, de documento, em documento, vai-se seguindo a família dos Mendes das Serras que foram recompensados com as terras destas zonas, que naqueles tempos estavam cobertas de grandes matagais e onde se apanhava ouro nas ribeiras. Numa carta de 1254 o rei D. Afonso III, agradeceu ao senhor das terras “de riba de Aurantes” o empenho que teve na defesa das mesmas e mandou recompensá-lo com quatrocentas moedas de prata para que reparasse as defesas do “quadrado” das suas terras. Foi a primeira vez que vi esta expressão, que nem sei se tem alguma coisa a ver com a vossa alcunha dos tempos modernos.

Mais tarde, em carta de D. Gualdim Paes, mestre da Ordem dos Templários, que ao tempo era senhora de grande parte do centro de Portugal, é recomendado ao alcaide do castelo de Almourol que dê ajuda em mestres e valores ao senhor Mendes das Serras para que possa garantir a defesa do “quadrado” das suas terras, conforme vontade d’El-rei.

Na conquista de Ceuta, havia uma pequena falange de pessoas das terras do “quadrado do Senhor Mendes das Serras”. Como recompensa da bravura desses homens é dado ao senhor barão das Serras o morgadio de Belver e o direito de recrutar gente nessas terras, que passavam a fazer parte das terras do “Quadrado”.

Consta que o “senhor barão das Serras”, se sentia bem num pequeno requebro de uma das primeiras serras a norte do rio Tejo, nas terras de riba de Aurantes, porque

estava no centro, tinha comunicação visual com Aurantes, ajudava nas ligações com a Ordem em Tomar e via também as terras de Belver. Daqui, concluí eu, que poderia ser, por aqui, que estivesse a casa mãe do “barão Mendes das Serras” que vivia no meio do “quadrado das terras”.

Quanto ao “Mal-quadrado” vi pouca coisa, mas há uma referência a um casamento, nos registos da paróquia de Abobreira em que se diz que foram testemunhas um cavaleiro a que chamavam de “Mal-Quadrado” e outros homens de armas do senhor barão do “quadrado das terras”.

A partir da época dos descobrimentos não vi mais nenhuma referência ao barão, às terras, ou à família. Nos “Nobiliários e livros de linhagens não vi referência importantes”; porém, nas lutas liberais, aparece ao lado das forças leais a D. Pedro, um “senhor de abastadas terras, nas imediações do Tejo, a montante de Abrantes, com uma contribuição generosa para a causa liberal.” O referido senhor identificou-se como “senhor das terras dos Mendes das Serras”, definidas como “Mal-quadrado das terras”. Não pude averiguar porque aparece aqui o “Mal”.

Como vês, Abílio, talvez devessem alcunhar-te de barão, ou fidalgo, ou herói. Mas isso, nos nossos tempos pouco vale e vamos admitir uma de três coisas, se não te importares e a vossa Senhora Professora, concordar, também:

Ou a tua família é descendente da nobreza e “Mal-quadrado” pode ser um título e não uma alcunha, que alguns pensarão ser depreciativa. Cada um sentirá honra ou inveja de não ser ele o “Mal-quadrado”.

Ou, como tenho para aí nuns panfletos antigos, havia um trovador, poeta popular, contador de histórias e recitador de rimas que não quadrava muito bem as suas obras e acabou ficando conhecido pelo “Mal-quadrado”. Ser descendente de um artista, ainda que não rimasse lá muito bem, também não é desonra nenhuma. Verás que passas a ser mais invejado que gozado.

Ou, algum avoengo teu fez mal algum quadrado e isso implicou qualquer coisa que não conhecemos. Não haveria, por esta hipotética causa que fazer uma alcunha. Assim, os que estiverem neste grupo, não serão mais que ignorantes que não sabem o que dizem. A esses, desprezas.

Sendo assim, se não te importas, para mim passas a ser o “Mal-quadrado”, herdeiro digno de uma geração de homens valentes e destemidos que nos meus tempos de menino e moço ainda conheci. Esta revelação não vem nos livros, mas lembro-me de um teu tetravô, que um dia se recusou a fazer um trabalho porque na encomenda se dizia ser um quadrado e na verdade era um rectângulo. Uma coisa tenho a certeza: és descendente de homens muito direitos; parabéns!

Muitos anos mais tarde, nos anais das recordações da Senhora Professora, foi encontrada vasta matéria que, pelas coincidências, se deve basear em longas conversas com o velho “Fastino” das lunetas.

Regresso às"historias de gente simples"

Caros seguidores do Blog e leitores das "Historias de gente simples"

Estou de volta após um interregno em que não deixei de escrever mas

andei ocupado com outras actividades.

Penso que a partir de agora, publicarei, mensalmente, três "histórias",

alternadas com outras

três "páginas soltas". Espero que continuem a enviar as vossas críticas,

que, desde já, agradeço, bem como os "e-mail".

Ah! Continuarei a escrever segundo a ortografia que aprendi e sempre ensinei.

Prof José Valente