Há coisas que vêm não se sabe de onde e acabam diluídas no tempo, sem perderem a força e todo o rigor simples e adequado, que os usos e costumes do povo lhe conferem. Estão, neste caso, as alcunhas, geralmente mal aceites, mas após a força da idade e o feitio do costume, passam a fazer parte integrante das personalidades que identificam e, na maior parte dos casos, acabam por assentar que nem luva.
Na escola da aldeia, a Senhora Professora não gostava de ouvir chamar ninguém pela alcunha e cansava-se a explicar que se puseram um nome às pessoas não era preciso, nem bonito, baptizá-las, outra vez. Porém, quando um dia estava a falar no assunto, o Alberto, a quem chamavam “o Rachado”, disse:
Senhora Professora, eu cá não me importo nada que me chamem “Rachado”; já o meu pai assim é conhecido e segundo me disseram também o meu avô e o seu pai e avô, assim eram chamados. Parece que quando havia discórdias, negócios empancados, discussões intermináveis e outras encrencas do género, lá eram chamados os “Rachados” para partir diferenças, pelo meio, e tudo acabava por se resolver. Acho que é prestigiante, Senhora Professora.
O “Carola”, que não gostava de ficar calado, levantou-se, na carteira, e sentenciou: eu acho que o “Rachado” tem razão, se for verdade o que ele diz. Mas, Senhora Professora, porque será que quando a senhora passa lá em frente da taberna os mais crescidos param e dizem: Que grande traço! Será esta a alcunha da nossa Professora? E, voltando-se para a classe, sobretudo para o lado dos mais velhitos, acrescentou, à guisa de resposta: a mim não me parece, pois traço é que ela não é; ainda se dissessem curva, ou mesmo curvas, eu percebia. Agora traço!...
A maior parte ficou impávida e serena, mas os mais atrevidotes faziam figas, às escondidas, para ouvirem as explicações da Professora, que não tardaram: O que referem não é uma alcunha; chama-se uma graçola, um piropo. Não se aceita como uma alcunha, mas recebe-se como um elogio e até se pode agradecer, se o ouvirmos. Não é mais que uma forma brejeira de dizer: que bonita, que jeitosa, que elegante, que bela!... Nunca ouvi; mas se ouvir, agradeço, delicadamente, a quem o disser! Mas vamos aproveitar a lição do que acabamos de ouvir:
As alcunhas sempre existiram e sempre hão-de existir. Normalmente, quanto mais as pessoas se arreliam, mais força elas têm, porque se ouvirmos e não ligarmos, esses nomes acabam por não pegar.
Há alcunhas que são maliciosas e ofensivas, como por exemplo quando referem defeitos físicos, incapacidades físicas ou mentais, comparações com animais; não devem ser, de forma alguma, usadas. Cada um é como é e tem de ser respeitado e ajudado e nunca ofendido.
Há alcunhas que são até muito honrosas; parece que “os Rachados”, por exemplo, só terão que se orgulhar do prestígio que foram tendo ao longo dos tempos. Não vos parece que alcunhar um de vocês de “príncipe”, “doutor”, “engenheiro”, “bate-solas”, “amassa massa”, “artista” e outros nomes que por aí são ditos na nossa terra, só honram e dignificam? Porém agora passamos a outras matérias e um dia destes continuamos. Cada um vai pensar no tema e até pode fazer uma lista com as alcunhas boas e outra com as que não se deverão chamar a ninguém.
Mas havia na sala, na 4ª classe, o “Mal-quadrado”, que ao contrário da maior parte dos colegas afinava, a sério, quando o chamavam por esse nome. É que, dizia ele, já lhe tinham dado mais de vinte explicações e nenhuma o convenceu de ser a origem da alcunha. Por isso, enquanto não lhe explicassem direitinho de onde provinha o nome, quem o usasse arriscava-se a ficar com algum olho negro, ou a ter de limpar o sangue do nariz, uma vez que o Abílio era o mais forte e corpulento da sala.
Mas, naquele dia o Abílio, fingindo não se incomodar com o tema da conversa, perguntou: Senhora Professora, chamam-me o “Mal-quadrado”, como, aliás, sempre chamaram ao meu pai. Ainda ninguém foi capaz de me explicar as origens de tal nome; o meu pai diz-me que não lhe adianta nem lhe atrasa, que aceita a ideia de a alcunha derivar de um avô antigo que cantava à desgarrada, de festa em festa e também nas feiras. Falava com muita propriedade e ligava mais importância ao que dizia do que à forma como o dizia. Parece que enquanto outros quadravam direitinho todos os versos e rimas, esse meu avô cantava e dizia em forma poética, mas “mal-quadrada”. Daí, o “Mal-quadrado”, ser anunciado, como um dos artistas desta ou daquela festa, ou feira, e até como atracção principal. Há lá, em minha casa, uma espécie de panfleto, com o programa de uma dessas desgarradas, que refere que a atracção do evento é o “incomparável Mal-quadrado” e, tanto quanto sei é esse o fundamento, mais aceitável, que meu pai encontrou para a alcunha.
Tenho também ouvido dizer que um nosso antepassado, militar muito importante numa guerra no tempo dos nossos reis, foi um dia derrotado, numa batalha, porque não preparou as tropas num quadrado perfeito, conforme as ordens do Rei. Acabou por ser condenado e, durante os anos que passou na prisão, tinha que desenhar um quadrado em cada dia. Quando à noite vinha o comandante para ver o desenho e via o quadrado mal feito, dizia: Só sairás no dia que fizeres um quadrado perfeito e a partir de agora passas a ser conhecido pelo “Mal-quadrado”. E assim ficou.
Poderá a Senhora Professora descobrir alguma coisa e na próxima aula, em que voltarmos a falar de alcunhas, esclarecer-me e explicar a todos os que pensam que eu me importo com o nome, o que ele quer de facto dizer? Se calhar vão ficar muito surpreendidos os que pensam que é uma alcunha de gente que não vale nada e acho muito bem que passem a ter inveja de não ter uma designação tão honrosa.
O João Alves, cuja alcunha era o “calça larga”, morava perto do Ti´Fastino, único homem da terra a usar umas lunetas redondas em riba do nariz, quando consultava uns rolos de papéis velhos que trouxera dos tempos em que andou na Marinha.
Se lhe falavam, respondia por meias palavras e raramente levantava os olhos dos livros. Pouco mais falava que quando dava a salvação a quem passava. Tinha fama de sábio e por isso o “calça larga”, aproximou-se do Abílio e perguntou-lhe porque não ia com ele, lá a casa do velho “Fastino”, perguntar-lhe se sabia alguma coisa sobre a origem da alcunha da família dos“Mal-quadrados”. E lá foram os dois.
O Abílio, depois de dizer quem era, explicou que a Senhora Professora tinha pedido que cada um soubesse o mais que pudesse sobre as alcunhas da terra e como lhe chamavam o “Mal-quadrado”, ia ali pedir à pessoa que devia saber mais dessas coisas antigas que o ajudasse.
O velho levantou os olhos, mostrou os livros que tinha numa prateleira logo depois da porta e disse aos dois rapazitos: muitos dizem que eu sou o “sábio”, outros chamam-me “coca-bichinhos”. Há ainda os que dizem outros nomes, como “maluco”, “apanhado dos climas”, e sei lá que mais. Isso nada me importa, pois só sei o que os muitos anos que já vivi, muitas terras que visitei, muitas pessoas com quem falei e, sobretudo, muitos livros que li, me ensinaram. Mas, sobre o nome “Mal-quadrado” nunca li nada em nenhum dos meus livros…
Porém, e como vejo pela vossa cara que merecem saber o que eu fui descobrir, vou dizer-vos o que se encontra nos livros dos registos da igreja, nos assentos dos livros de baptizados e casamentos, nas escrituras do notário e em papéis que fui juntando ao longo da minha vida. E, Abílio, não é esse o teu nome? Vais ficar muito orgulhoso, pois a tua família é, tanto quanto dizem os registos, uma das mais antigas da nossa terra. No princípio foi dona de muitas terras que chegavam daqui até ao rio Tejo, nas proximidades de Abrantes. O primeiro senhor destas terras chamava-se Abílio Mendes das Serras, morreu há mais de oitocentos anos, numa batalha, contra os mouros, nos arredores de Santarém, onde tinha ido, com os seus homens, ajudar o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques.
Depois, de documento, em documento, vai-se seguindo a família dos Mendes das Serras que foram recompensados com as terras destas zonas, que naqueles tempos estavam cobertas de grandes matagais e onde se apanhava ouro nas ribeiras. Numa carta de 1254 o rei D. Afonso III, agradeceu ao senhor das terras “de riba de Aurantes” o empenho que teve na defesa das mesmas e mandou recompensá-lo com quatrocentas moedas de prata para que reparasse as defesas do “quadrado” das suas terras. Foi a primeira vez que vi esta expressão, que nem sei se tem alguma coisa a ver com a vossa alcunha dos tempos modernos.
Mais tarde, em carta de D. Gualdim Paes, mestre da Ordem dos Templários, que ao tempo era senhora de grande parte do centro de Portugal, é recomendado ao alcaide do castelo de Almourol que dê ajuda em mestres e valores ao senhor Mendes das Serras para que possa garantir a defesa do “quadrado” das suas terras, conforme vontade d’El-rei.
Na conquista de Ceuta, havia uma pequena falange de pessoas das terras do “quadrado do Senhor Mendes das Serras”. Como recompensa da bravura desses homens é dado ao senhor barão das Serras o morgadio de Belver e o direito de recrutar gente nessas terras, que passavam a fazer parte das terras do “Quadrado”.
Consta que o “senhor barão das Serras”, se sentia bem num pequeno requebro de uma das primeiras serras a norte do rio Tejo, nas terras de riba de Aurantes, porque
estava no centro, tinha comunicação visual com Aurantes, ajudava nas ligações com a Ordem em Tomar e via também as terras de Belver. Daqui, concluí eu, que poderia ser, por aqui, que estivesse a casa mãe do “barão Mendes das Serras” que vivia no meio do “quadrado das terras”.
Quanto ao “Mal-quadrado” vi pouca coisa, mas há uma referência a um casamento, nos registos da paróquia de Abobreira em que se diz que foram testemunhas um cavaleiro a que chamavam de “Mal-Quadrado” e outros homens de armas do senhor barão do “quadrado das terras”.
A partir da época dos descobrimentos não vi mais nenhuma referência ao barão, às terras, ou à família. Nos “Nobiliários e livros de linhagens não vi referência importantes”; porém, nas lutas liberais, aparece ao lado das forças leais a D. Pedro, um “senhor de abastadas terras, nas imediações do Tejo, a montante de Abrantes, com uma contribuição generosa para a causa liberal.” O referido senhor identificou-se como “senhor das terras dos Mendes das Serras”, definidas como “Mal-quadrado das terras”. Não pude averiguar porque aparece aqui o “Mal”.
Como vês, Abílio, talvez devessem alcunhar-te de barão, ou fidalgo, ou herói. Mas isso, nos nossos tempos pouco vale e vamos admitir uma de três coisas, se não te importares e a vossa Senhora Professora, concordar, também:
Ou a tua família é descendente da nobreza e “Mal-quadrado” pode ser um título e não uma alcunha, que alguns pensarão ser depreciativa. Cada um sentirá honra ou inveja de não ser ele o “Mal-quadrado”.
Ou, como tenho para aí nuns panfletos antigos, havia um trovador, poeta popular, contador de histórias e recitador de rimas que não quadrava muito bem as suas obras e acabou ficando conhecido pelo “Mal-quadrado”. Ser descendente de um artista, ainda que não rimasse lá muito bem, também não é desonra nenhuma. Verás que passas a ser mais invejado que gozado.
Ou, algum avoengo teu fez mal algum quadrado e isso implicou qualquer coisa que não conhecemos. Não haveria, por esta hipotética causa que fazer uma alcunha. Assim, os que estiverem neste grupo, não serão mais que ignorantes que não sabem o que dizem. A esses, desprezas.
Sendo assim, se não te importas, para mim passas a ser o “Mal-quadrado”, herdeiro digno de uma geração de homens valentes e destemidos que nos meus tempos de menino e moço ainda conheci. Esta revelação não vem nos livros, mas lembro-me de um teu tetravô, que um dia se recusou a fazer um trabalho porque na encomenda se dizia ser um quadrado e na verdade era um rectângulo. Uma coisa tenho a certeza: és descendente de homens muito direitos; parabéns!
Muitos anos mais tarde, nos anais das recordações da Senhora Professora, foi encontrada vasta matéria que, pelas coincidências, se deve basear em longas conversas com o velho “Fastino” das lunetas.
domingo, 31 de julho de 2011
Regresso às"historias de gente simples"
Caros seguidores do Blog e leitores das "Historias de gente simples"
Estou de volta após um interregno em que não deixei de escrever mas
andei ocupado com outras actividades.
Penso que a partir de agora, publicarei, mensalmente, três "histórias",
alternadas com outras
três "páginas soltas". Espero que continuem a enviar as vossas críticas,
que, desde já, agradeço, bem como os "e-mail".
Ah! Continuarei a escrever segundo a ortografia que aprendi e sempre ensinei.
Prof José Valente
Estou de volta após um interregno em que não deixei de escrever mas
andei ocupado com outras actividades.
Penso que a partir de agora, publicarei, mensalmente, três "histórias",
alternadas com outras
três "páginas soltas". Espero que continuem a enviar as vossas críticas,
que, desde já, agradeço, bem como os "e-mail".
Ah! Continuarei a escrever segundo a ortografia que aprendi e sempre ensinei.
Prof José Valente
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Por dois melões
E então o senhor da bata preta que está em riba do sobrado mais alto, atrás da mesa grande, onde bate com um martelo de madeira, para chamar as pessoas, deu duas porradas e mandou-me alevantar, para ouvir a tal de sentença, que, dito por outras palavras, foi isto o que acabei por ouvir:
O réu, Manuel Mendes de Oliveira, também conhecido pelo Manuel da Chêdea, vai condenado em três meses de cadeia, mas pode pagar e não ficar preso.
Tem, ainda, de pagar selos de justiça e uma indemnização ao queixoso, no valor de novecentos e vinte e quatro mil réis, por quase três meses que este esteve sem poder trabalhar.
Até que não me parecia muito, mas oiçam o que vem a seguir, que vale a pena, porque afinal eles são juízes porque estudaram e sabem ver e medir bem as coisas. Homens de valor! E continuou a ler o meu destino:
Mas, como nunca antes veio na justiça, tem bom comportamento e, se usou de força bruta a mais, foi também para se defender, a pena fica em suspenso por um ano. Tome bem atenção: se dentro do próximo ano, a contar de agora, for julgado e condenado, cumprirá a pena que lhe for aplicada, mais a que hoje fica suspensa. Depois fica outra vez limpo. Percebeu?
Se percebi, senhor juiz! Desta já me safei e, pode o diabo estar descansado, que noutra não me vai agarrar. Posso então ir-me embora para casa? E aqui estou!
A brincadeira acabou por me custar uns duzentos mil réis para o doutor advogado, coisa de um meio cento para os tais de selos, e à roda de trinta mil réis para umas latas de sardinha, casqueiros e vinhaça, para o pessoal do meu lado petiscar, à vontade, lá na do Ti’Bicha.
Há ainda os favores dos que perderam tempo a ir ser testemunhas e a esses não há dinheiro que lhes pague – podem contar com os fracos préstimos do Chêdea.
Mas, oh! Ti´Manel, dei-te lá uma rodada, em honra da minha pena suspensa. De tanto falar, até já tenho a garganta seca.
Também já pude saber que o Ti´Tonho já está bem da asa que teve derreada e, quero aproveitar para me acertar com ele. O que lá vai, lá vai e, no fim de contas quem ficou pior foi ele, que acabou desasado e, como eu disse ao juiz, nós é que somos, para aqui, às vezes, piores que as bestas; os homens não se fizeram para andar a bater uns nos outros.
Eu, verdade seja dita, fui lá, à dele, no Vale de Além, buscar dois melões e, é claro, apanhei os mais maduros e jeitosos que lá estavam.
Ele, ao toscar-me, veio para mim, com um estadulho do carro, e ainda me assentou uma ripada no costado. Nisto, apanhei o que tinha à mão e desfechei-lhe duas pauladas, com a moca do junco que costumo trazer para agarrar as reses que vou comprando. A primeira abriu-lhe um lanho na cabeça e a segunda deu-lhe cabo da espalda do braço direito.
Depois, quando vi o homem no chão, a sangrar da cabeça e a gemer, sem reacção no braço, fui em seu socorro e quer o senhor saber como me agradeceu? Deu-me um pontapé, espécie de coice de besta, nas partes baixas e mordeu-me numa perna, o desgraçado.
Se não tem chegado a mulher dele, tinha, pela certa, acontecido uma desgraça maior.
Sem a Ti’Maria a estas horas eu não estaria aqui a contar o sucedido, mas andaria por aí, nalguma prisão, a contar os dias até me vir embora e ele já estaria a fazer tijolo. Mas foi melhor assim, e ainda tenho esperanças de que poderemos entender-nos e voltar a ser, outra vez, amigos. O que lá vai, lá vai!
Eu também já estava, naquele dia, com um copito a mais, como acabaram por reconhecer as testemunhas. Nas palavras do juiz, e parece-me que ele é homem que sabe o que diz, fomos dois brutos a bater um no outro, com violência desnecessária.
Aqui ele não tem lá muita razão: o Ti’Tonho só me acertou de raspão com o estadulho da carroça e eu, que não gostei muito do gesto dele, afinfei-lhe em cheio, para o segurar.
Quando penso naquilo até me parece que o senhor juiz acabou por ser bom para mim! Mas de leis e de justiça saberá ele mais que nós!
Também acabei por ter sorte com o senhor advogado, que percebeu bem o caso e me defendeu, com unhas e dentes. Às tantas, até parecia que eu é que tinha ficado pior na bordoada – é que foi ele o primeiro a levantar a mão e a mordidela que eu apanhei, ali por cima do artelho, foi dada com tal vontade que quase me cortava a perna.
O juiz até lhe perguntou se, dada a sua idade, tinha dentes postiços e, a sorte dele foi dizer que sim e mostrar a dentadura; se não, e calhando, ainda acabava condenado ele e não eu.
Tenho ouvido dizer que às vezes há dessas coisas, mas são lérias, pois o melhor é não ir a casas daquelas.
O réu, Manuel Mendes de Oliveira, também conhecido pelo Manuel da Chêdea, vai condenado em três meses de cadeia, mas pode pagar e não ficar preso.
Tem, ainda, de pagar selos de justiça e uma indemnização ao queixoso, no valor de novecentos e vinte e quatro mil réis, por quase três meses que este esteve sem poder trabalhar.
Até que não me parecia muito, mas oiçam o que vem a seguir, que vale a pena, porque afinal eles são juízes porque estudaram e sabem ver e medir bem as coisas. Homens de valor! E continuou a ler o meu destino:
Mas, como nunca antes veio na justiça, tem bom comportamento e, se usou de força bruta a mais, foi também para se defender, a pena fica em suspenso por um ano. Tome bem atenção: se dentro do próximo ano, a contar de agora, for julgado e condenado, cumprirá a pena que lhe for aplicada, mais a que hoje fica suspensa. Depois fica outra vez limpo. Percebeu?
Se percebi, senhor juiz! Desta já me safei e, pode o diabo estar descansado, que noutra não me vai agarrar. Posso então ir-me embora para casa? E aqui estou!
A brincadeira acabou por me custar uns duzentos mil réis para o doutor advogado, coisa de um meio cento para os tais de selos, e à roda de trinta mil réis para umas latas de sardinha, casqueiros e vinhaça, para o pessoal do meu lado petiscar, à vontade, lá na do Ti’Bicha.
Há ainda os favores dos que perderam tempo a ir ser testemunhas e a esses não há dinheiro que lhes pague – podem contar com os fracos préstimos do Chêdea.
Mas, oh! Ti´Manel, dei-te lá uma rodada, em honra da minha pena suspensa. De tanto falar, até já tenho a garganta seca.
Também já pude saber que o Ti´Tonho já está bem da asa que teve derreada e, quero aproveitar para me acertar com ele. O que lá vai, lá vai e, no fim de contas quem ficou pior foi ele, que acabou desasado e, como eu disse ao juiz, nós é que somos, para aqui, às vezes, piores que as bestas; os homens não se fizeram para andar a bater uns nos outros.
Eu, verdade seja dita, fui lá, à dele, no Vale de Além, buscar dois melões e, é claro, apanhei os mais maduros e jeitosos que lá estavam.
Ele, ao toscar-me, veio para mim, com um estadulho do carro, e ainda me assentou uma ripada no costado. Nisto, apanhei o que tinha à mão e desfechei-lhe duas pauladas, com a moca do junco que costumo trazer para agarrar as reses que vou comprando. A primeira abriu-lhe um lanho na cabeça e a segunda deu-lhe cabo da espalda do braço direito.
Depois, quando vi o homem no chão, a sangrar da cabeça e a gemer, sem reacção no braço, fui em seu socorro e quer o senhor saber como me agradeceu? Deu-me um pontapé, espécie de coice de besta, nas partes baixas e mordeu-me numa perna, o desgraçado.
Se não tem chegado a mulher dele, tinha, pela certa, acontecido uma desgraça maior.
Sem a Ti’Maria a estas horas eu não estaria aqui a contar o sucedido, mas andaria por aí, nalguma prisão, a contar os dias até me vir embora e ele já estaria a fazer tijolo. Mas foi melhor assim, e ainda tenho esperanças de que poderemos entender-nos e voltar a ser, outra vez, amigos. O que lá vai, lá vai!
Eu também já estava, naquele dia, com um copito a mais, como acabaram por reconhecer as testemunhas. Nas palavras do juiz, e parece-me que ele é homem que sabe o que diz, fomos dois brutos a bater um no outro, com violência desnecessária.
Aqui ele não tem lá muita razão: o Ti’Tonho só me acertou de raspão com o estadulho da carroça e eu, que não gostei muito do gesto dele, afinfei-lhe em cheio, para o segurar.
Quando penso naquilo até me parece que o senhor juiz acabou por ser bom para mim! Mas de leis e de justiça saberá ele mais que nós!
Também acabei por ter sorte com o senhor advogado, que percebeu bem o caso e me defendeu, com unhas e dentes. Às tantas, até parecia que eu é que tinha ficado pior na bordoada – é que foi ele o primeiro a levantar a mão e a mordidela que eu apanhei, ali por cima do artelho, foi dada com tal vontade que quase me cortava a perna.
O juiz até lhe perguntou se, dada a sua idade, tinha dentes postiços e, a sorte dele foi dizer que sim e mostrar a dentadura; se não, e calhando, ainda acabava condenado ele e não eu.
Tenho ouvido dizer que às vezes há dessas coisas, mas são lérias, pois o melhor é não ir a casas daquelas.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
As curvas da estrada
Teria os meus seis anos; a história ter-se-á passado há mais de sessenta anos.
Era a primeira vez que saía da aldeia, acompanhando o meu pai, na carroça, numa viagem de um dia inteiro, percorrendo os vinte quilómetros até Alferrarede, e outros tantos, no regresso, desde antes de nascida a estrela da manhã até pouco antes do sol se esconder.
E devia ter sido por alturas da Primavera, pois pelas imagens difusas que ficaram, cantavam muito os passaritos, estava tudo muito verde e corria muita água nos ribeiros e ribeiras que atravessámos.
O objectivo da viagem era a compra de oito sacos de adubo e dois sacos de nitrato nos armazéns da CUF e umas três arrobas de pedras de cal viva, no forno caleiro da Barca do Pego, pertinho da paragem anterior e a dois passos do grande rio Tejo, que pude ver, e admirar, pela primeira vez.
Até aí o maior que vira foi a ribeira que passa lá perto da nossa aldeia e, dizendo-me o meu pai que é filha deste grande rio, lembro-me de perguntar porque razão não se parecia mais com ele: tão grande e com tanta água.
Íamos tão longe, e numa tão esforçada jornada, para poupar algumas dezenas de escudos, pensaria eu? O dinheiro valeria assim tanto? A estas dúvidas respondiam-me as diversas práticas, lá de casa, que consistiam em gastar só quando e quanto fosse indispensável, para ter sempre que se precisasse.
Saíamos de casa ainda antes do Sete-estrelo começar a baixar, com a estrela boieira muito acima do horizonte, e ao romper da madrugada estávamos às vistas de Alcaravela.
Aos primeiros raios de sol estávamos no alto da serra de Santa Clara. Quando parámos no Valongo, na taberna do Costa, comemos um bocado de pão com queijo, a mula comeu uma gavela de pontas de milho e bebeu água e, com o sol a descobrir por sobre os pinheiros, lá fomos, estrada abaixo, rumo à próxima paragem no Olho-de-boi, já a ver as primeiras casas de Alferrarede.
Outra novidade: também nunca tinha visto uma terra tão grande; até passava o comboio no meio dela. E havia uma casa enorme, ao pé da casa onde parava o comboio, que vi pela primeira vez, muito comprido e a deitar muito fumo, puxando muitos carros atrás dele. A casa muito grande era o armazém da CUF, onde íamos fazer as compras.
Tudo na viagem fora muito bem programado e calculado: desde a diferença de preços entre os armazéns, em Alferrarede, os do grémio da Lavoura, em Mação e os do Ti’Zé Matias, lá na Serra. Tenho uma vaga ideia de o meu pai e o meu avô falarem sobre o assunto e o meu pai explicar: nesse péla-cães é quase o dobro; meto os pés ao caminho e ganha bem para as passadas.
Os tempos eram também estudados: saindo bem cedo, direito à Saramaga, Presa, Casal Pedro Maia e Santa Clara, chegava-se à estrada, onde, de noite, era preciso levar luz na carroça, já com sol e com tudo a correr normalmente, antes de o sol se pôr, deixávamos a estrada, mas agora na Lameira, ali às portas de casa, para que a besta não tivesse que puxar, com carga, pelos caminhos ruins, que atravessavam as aldeias de Alcaravela, por onde fomos na viagem da manhã.
Uma criança de hoje, com seis anos, já viu mais coisas, mesmo não tendo saído de casa, que muitas pessoas daquelas terras, naqueles tempos, veriam em toda uma vida de muitas dezenas de anos.
Lembro-me de conversar com muita gente da aldeia, anos depois, que nunca tinha ido além da vila, nunca tinha visto o mar, ou um simples rio, e nunca tinha visto o comboio. Uma velhota, das últimas que a minha memória alcançava, dizia que o mais longe que tinha ido era o cemitério, na freguesia, a acompanhar os mortos.
Os tempos e, principalmente, a televisão, mudaram tudo: para uns, o Mundo é muito maior; para outros, muito mais pequeno, como o meu pai sempre disse até se ir embora, aos seus 96 anos.
Voltemos, porém, à viagem: ainda antes de chegar a Alferrarede, meu pai mostrou-me, lá ao longe, no cimo da encosta, em frente, umas grandes paredes, com umas portas abertas no cimo e disse-me que eram as muralhas do castelo de Abrantes e que ele tinha morado lá dentro, quando esteve na tropa. Junto daquele castelo havia muitas casas e aquela terra chamava-se cidade de Abrantes.
Esclareceu as minhas dúvidas, explicando-me, como pôde, o que era uma cidade e o que havia lá dentro. Recordo que deu muito realce ao valor do castelo na defesa da cidade, se os inimigos atacassem.
Acho que, sendo eu muito curioso, meu pai gastou grande parte da viagem a dar respostas às minhas perguntas sobre as muitas novidades que íamos encontrando.
Depois de carregada e paga a cal branca, lá no forno da Barca do Pego, saímos por outra estrada, que rodeava as casas e fomos ter à estrada principal, já no Olho-de-boi, onde iniciámos a subida, de regresso a casa.
Devia ser pouco mais de meio-dia solar, pois parámos na fonte e o meu pai desengatou a besta da carroça e prendeu-a a uma oliveira.
Deu-lhe o almoço que meu pai chamou “rancho melhorado” porque era dia de bastante trabalho e nós comemos pão com chouriço cozido e queijo e umas maçãs.
O meu pai encostou-se em cima duma saca e penso que ainda fez uma pequena sesta.
Eu olhava, muito admirado, para os automóveis, camionetas, carros, como o nosso, bicicletas e outras coisas que passavam na estrada e fiquei muito admirado com tantos postes de ferro e tantos fios a sair dali, em todas as direcções – era a central eléctrica do Olho-de-boi, que recebia a electricidade vinda da barragem do Castelo de Bode e a enviava para as terras do centro do país.
Claro que devo ter perguntado muitas coisas sobre a barragem, que nunca tinha visto, e a electricidade, mas não recordo quaisquer respostas e duvido que o meu pai soubesse dar-mas.
Quando o meu pai acordou, voltou a engatar a mula, subimos os dois para a carroça e retomámos a estrada, na direcção do norte e só voltámos a apear-nos, num desvio que nunca mais esqueci, em frente do Sardoal, onde havia muitos carvalhos carregadinhos de bugalhas.
O meu pai apanhou umas quantas e cortou duas ou três canas no valado que dava para um grande olival, onde era habitual virem os homens e mulheres do rancho do Ti’Mendes lá da Serra, apanhar a azeitona, nos princípios do Inverno. Chegavam a fazer três semanas, pois as oliveiras iam quase dali até aos nateiros do Tejo, que já víamos, como uma grande cobra, lá em baixo. E recordo-me do meu pai me dizer que havia tantas oliveiras que até fizeram um lagar só para moer aquela azeitona toda.
Outra vez na carroça, lá íamos estrada acima. O meu pai abriu a navalha, que nunca deixava, e cortou um canudo de cana, fechado num dos lados e fez-lhe um pequeno buraquito. Depois com um pau afiado fez uma quantidade de furos numa bugalha das mais secas e, soprando na cana, pôs a bugalha na corrente de ar, sobre o furo, fazendo-a subir e baixar, em rotação constante e mantendo-a no ar a dançar. Eu lá consegui aprender e, nem dei por chegarmos ao alto da serra de Santa Clara, onde fizemos novo alto, para um pequeno descanso.
Vista do cimo da serra, a estrada que seguia para norte, por entre a mancha de pinhal que ali tem início, parecia uma grande cobra que se estendia a perder de vista, contornando os pequenos outeiros. O meu pai explicou-me, mais ou menos, onde ficava a Serra e disse-me que não íamos atravessar as terras de Alcaravela, mas seguiríamos sempre estrada a cima, pois íamos carregados e surdia mais o andar no caminho melhor.
Achei estranho que os homens tivessem feito tantas curvas. Havia sítios em que cortar uma pequena barreira evitaria ir à volta e teria poupado muitos metros de estrada. Perguntei ao meu pai porquê? Porque tinham desenhado assim a estrada, se podiam fazê-la muito mais direita?
Sem fugir à pergunta o meu pai disse-me que quem mandava nas obras das estradas eram uns senhores que se chamavam engenheiros; que vinham com muitos aparelhos ver as terras e depois desenhavam os sítios por onde os homens deviam cavar.
Mas sempre recordo que me disse que havia muita gente para trabalhar e houve até uma altura em que esses engenheiros ganhavam ao metro e quanto maior fosse a estrada mais recebiam pelo trabalho. Assim os homens podiam trabalhar e ganhar dinheiro, como aqueles que costumavam andar lá na nossa casa.
Não percebi a explicação mas…continuámos.
O meu pai explicou-me também os marcos ao longo da estrada: os mais pequenos, de cem em cem metros; depois de cada nove pequenos vinha um maior e ao cabo de quatro desses maiores vinha um ainda maior e de outro feitio. Rematou a conversa dizendo-me que da passagem da Lameira, onde havíamos de deixar a estrada para apanhar o caminho para a Serra, até Alferrarede, havia quatro marcos dos maiores.
E é natural que meu pai tivesse sentido algum alívio, pois durante bastante tempo entretivemo-nos a contar marcos e a descobrir quando viria um dos maiores e depois os grandalhões.
Os pinheiros e algumas outras árvores, que tinham uma espécie de cinto pintado de branco e se estendiam ao longo de toda a estrada, foram também objecto de longa conversa.
Perguntei de quem eram tantos pinheiros e logo os mais grossos de todos, que estavam todos nas barreiras aos lados da estrada.
Mais uma vez meu pai, pacientemente, me explicou que a Sra Junta Autónoma das Estradas, era dona daquelas terras das barreiras das estradas e todas as árvores que lá nasciam eram dela. Explicou-me ainda que eram os cantoneiros que pintavam o branco e que tratavam aquelas árvores todas, ao longo de todas as estradas.
Quando encontrássemos um cantoneiro havíamos de perguntar para que queria a Sra Junta tantos pinheiros e se era assim tão rica que nem mandava resiná-los?
Não me lembro de ter encontrado mais cantoneiros e penso que ainda antes de chegar à saída para a Serra terei adormecido e o meu pai descansado um pouco, pois as minhas perguntas seguiam-se, ininterruptamente.
Muitos anos mais tarde tive resposta a estas dúvidas quando o meu pai me disse que quando eu fui à minha vida, para o colégio, sentiu muito a falta das minhas perguntas.
Que se lembrava de uma que o tinha atrapalhado muito: Porque tinha a estrada tantas curvas? E que durante muito tempo andou a pensar nisso, sem obter resposta, pensando que talvez fosse altura de ser eu a explicar-lhe.
Era a primeira vez que saía da aldeia, acompanhando o meu pai, na carroça, numa viagem de um dia inteiro, percorrendo os vinte quilómetros até Alferrarede, e outros tantos, no regresso, desde antes de nascida a estrela da manhã até pouco antes do sol se esconder.
E devia ter sido por alturas da Primavera, pois pelas imagens difusas que ficaram, cantavam muito os passaritos, estava tudo muito verde e corria muita água nos ribeiros e ribeiras que atravessámos.
O objectivo da viagem era a compra de oito sacos de adubo e dois sacos de nitrato nos armazéns da CUF e umas três arrobas de pedras de cal viva, no forno caleiro da Barca do Pego, pertinho da paragem anterior e a dois passos do grande rio Tejo, que pude ver, e admirar, pela primeira vez.
Até aí o maior que vira foi a ribeira que passa lá perto da nossa aldeia e, dizendo-me o meu pai que é filha deste grande rio, lembro-me de perguntar porque razão não se parecia mais com ele: tão grande e com tanta água.
Íamos tão longe, e numa tão esforçada jornada, para poupar algumas dezenas de escudos, pensaria eu? O dinheiro valeria assim tanto? A estas dúvidas respondiam-me as diversas práticas, lá de casa, que consistiam em gastar só quando e quanto fosse indispensável, para ter sempre que se precisasse.
Saíamos de casa ainda antes do Sete-estrelo começar a baixar, com a estrela boieira muito acima do horizonte, e ao romper da madrugada estávamos às vistas de Alcaravela.
Aos primeiros raios de sol estávamos no alto da serra de Santa Clara. Quando parámos no Valongo, na taberna do Costa, comemos um bocado de pão com queijo, a mula comeu uma gavela de pontas de milho e bebeu água e, com o sol a descobrir por sobre os pinheiros, lá fomos, estrada abaixo, rumo à próxima paragem no Olho-de-boi, já a ver as primeiras casas de Alferrarede.
Outra novidade: também nunca tinha visto uma terra tão grande; até passava o comboio no meio dela. E havia uma casa enorme, ao pé da casa onde parava o comboio, que vi pela primeira vez, muito comprido e a deitar muito fumo, puxando muitos carros atrás dele. A casa muito grande era o armazém da CUF, onde íamos fazer as compras.
Tudo na viagem fora muito bem programado e calculado: desde a diferença de preços entre os armazéns, em Alferrarede, os do grémio da Lavoura, em Mação e os do Ti’Zé Matias, lá na Serra. Tenho uma vaga ideia de o meu pai e o meu avô falarem sobre o assunto e o meu pai explicar: nesse péla-cães é quase o dobro; meto os pés ao caminho e ganha bem para as passadas.
Os tempos eram também estudados: saindo bem cedo, direito à Saramaga, Presa, Casal Pedro Maia e Santa Clara, chegava-se à estrada, onde, de noite, era preciso levar luz na carroça, já com sol e com tudo a correr normalmente, antes de o sol se pôr, deixávamos a estrada, mas agora na Lameira, ali às portas de casa, para que a besta não tivesse que puxar, com carga, pelos caminhos ruins, que atravessavam as aldeias de Alcaravela, por onde fomos na viagem da manhã.
Uma criança de hoje, com seis anos, já viu mais coisas, mesmo não tendo saído de casa, que muitas pessoas daquelas terras, naqueles tempos, veriam em toda uma vida de muitas dezenas de anos.
Lembro-me de conversar com muita gente da aldeia, anos depois, que nunca tinha ido além da vila, nunca tinha visto o mar, ou um simples rio, e nunca tinha visto o comboio. Uma velhota, das últimas que a minha memória alcançava, dizia que o mais longe que tinha ido era o cemitério, na freguesia, a acompanhar os mortos.
Os tempos e, principalmente, a televisão, mudaram tudo: para uns, o Mundo é muito maior; para outros, muito mais pequeno, como o meu pai sempre disse até se ir embora, aos seus 96 anos.
Voltemos, porém, à viagem: ainda antes de chegar a Alferrarede, meu pai mostrou-me, lá ao longe, no cimo da encosta, em frente, umas grandes paredes, com umas portas abertas no cimo e disse-me que eram as muralhas do castelo de Abrantes e que ele tinha morado lá dentro, quando esteve na tropa. Junto daquele castelo havia muitas casas e aquela terra chamava-se cidade de Abrantes.
Esclareceu as minhas dúvidas, explicando-me, como pôde, o que era uma cidade e o que havia lá dentro. Recordo que deu muito realce ao valor do castelo na defesa da cidade, se os inimigos atacassem.
Acho que, sendo eu muito curioso, meu pai gastou grande parte da viagem a dar respostas às minhas perguntas sobre as muitas novidades que íamos encontrando.
Depois de carregada e paga a cal branca, lá no forno da Barca do Pego, saímos por outra estrada, que rodeava as casas e fomos ter à estrada principal, já no Olho-de-boi, onde iniciámos a subida, de regresso a casa.
Devia ser pouco mais de meio-dia solar, pois parámos na fonte e o meu pai desengatou a besta da carroça e prendeu-a a uma oliveira.
Deu-lhe o almoço que meu pai chamou “rancho melhorado” porque era dia de bastante trabalho e nós comemos pão com chouriço cozido e queijo e umas maçãs.
O meu pai encostou-se em cima duma saca e penso que ainda fez uma pequena sesta.
Eu olhava, muito admirado, para os automóveis, camionetas, carros, como o nosso, bicicletas e outras coisas que passavam na estrada e fiquei muito admirado com tantos postes de ferro e tantos fios a sair dali, em todas as direcções – era a central eléctrica do Olho-de-boi, que recebia a electricidade vinda da barragem do Castelo de Bode e a enviava para as terras do centro do país.
Claro que devo ter perguntado muitas coisas sobre a barragem, que nunca tinha visto, e a electricidade, mas não recordo quaisquer respostas e duvido que o meu pai soubesse dar-mas.
Quando o meu pai acordou, voltou a engatar a mula, subimos os dois para a carroça e retomámos a estrada, na direcção do norte e só voltámos a apear-nos, num desvio que nunca mais esqueci, em frente do Sardoal, onde havia muitos carvalhos carregadinhos de bugalhas.
O meu pai apanhou umas quantas e cortou duas ou três canas no valado que dava para um grande olival, onde era habitual virem os homens e mulheres do rancho do Ti’Mendes lá da Serra, apanhar a azeitona, nos princípios do Inverno. Chegavam a fazer três semanas, pois as oliveiras iam quase dali até aos nateiros do Tejo, que já víamos, como uma grande cobra, lá em baixo. E recordo-me do meu pai me dizer que havia tantas oliveiras que até fizeram um lagar só para moer aquela azeitona toda.
Outra vez na carroça, lá íamos estrada acima. O meu pai abriu a navalha, que nunca deixava, e cortou um canudo de cana, fechado num dos lados e fez-lhe um pequeno buraquito. Depois com um pau afiado fez uma quantidade de furos numa bugalha das mais secas e, soprando na cana, pôs a bugalha na corrente de ar, sobre o furo, fazendo-a subir e baixar, em rotação constante e mantendo-a no ar a dançar. Eu lá consegui aprender e, nem dei por chegarmos ao alto da serra de Santa Clara, onde fizemos novo alto, para um pequeno descanso.
Vista do cimo da serra, a estrada que seguia para norte, por entre a mancha de pinhal que ali tem início, parecia uma grande cobra que se estendia a perder de vista, contornando os pequenos outeiros. O meu pai explicou-me, mais ou menos, onde ficava a Serra e disse-me que não íamos atravessar as terras de Alcaravela, mas seguiríamos sempre estrada a cima, pois íamos carregados e surdia mais o andar no caminho melhor.
Achei estranho que os homens tivessem feito tantas curvas. Havia sítios em que cortar uma pequena barreira evitaria ir à volta e teria poupado muitos metros de estrada. Perguntei ao meu pai porquê? Porque tinham desenhado assim a estrada, se podiam fazê-la muito mais direita?
Sem fugir à pergunta o meu pai disse-me que quem mandava nas obras das estradas eram uns senhores que se chamavam engenheiros; que vinham com muitos aparelhos ver as terras e depois desenhavam os sítios por onde os homens deviam cavar.
Mas sempre recordo que me disse que havia muita gente para trabalhar e houve até uma altura em que esses engenheiros ganhavam ao metro e quanto maior fosse a estrada mais recebiam pelo trabalho. Assim os homens podiam trabalhar e ganhar dinheiro, como aqueles que costumavam andar lá na nossa casa.
Não percebi a explicação mas…continuámos.
O meu pai explicou-me também os marcos ao longo da estrada: os mais pequenos, de cem em cem metros; depois de cada nove pequenos vinha um maior e ao cabo de quatro desses maiores vinha um ainda maior e de outro feitio. Rematou a conversa dizendo-me que da passagem da Lameira, onde havíamos de deixar a estrada para apanhar o caminho para a Serra, até Alferrarede, havia quatro marcos dos maiores.
E é natural que meu pai tivesse sentido algum alívio, pois durante bastante tempo entretivemo-nos a contar marcos e a descobrir quando viria um dos maiores e depois os grandalhões.
Os pinheiros e algumas outras árvores, que tinham uma espécie de cinto pintado de branco e se estendiam ao longo de toda a estrada, foram também objecto de longa conversa.
Perguntei de quem eram tantos pinheiros e logo os mais grossos de todos, que estavam todos nas barreiras aos lados da estrada.
Mais uma vez meu pai, pacientemente, me explicou que a Sra Junta Autónoma das Estradas, era dona daquelas terras das barreiras das estradas e todas as árvores que lá nasciam eram dela. Explicou-me ainda que eram os cantoneiros que pintavam o branco e que tratavam aquelas árvores todas, ao longo de todas as estradas.
Quando encontrássemos um cantoneiro havíamos de perguntar para que queria a Sra Junta tantos pinheiros e se era assim tão rica que nem mandava resiná-los?
Não me lembro de ter encontrado mais cantoneiros e penso que ainda antes de chegar à saída para a Serra terei adormecido e o meu pai descansado um pouco, pois as minhas perguntas seguiam-se, ininterruptamente.
Muitos anos mais tarde tive resposta a estas dúvidas quando o meu pai me disse que quando eu fui à minha vida, para o colégio, sentiu muito a falta das minhas perguntas.
Que se lembrava de uma que o tinha atrapalhado muito: Porque tinha a estrada tantas curvas? E que durante muito tempo andou a pensar nisso, sem obter resposta, pensando que talvez fosse altura de ser eu a explicar-lhe.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Honra e preconceito
Na noite de Inverno, o vento e a chuva calaram-se pouco depois do pôr-do-sol; só os cães, as aves nocturnas e os balidos e chocalhos dos rebanhos, nas cortes, quebravam o silêncio que se abatera sobre o povoado.
A quietude e a escuridão adensavam de tal forma a atmosfera que não havia nariz que ousasse arriscar-se fora das portas.
Até as tabernas da terra fecharam, bem cedo, as portas, pondo na rua os últimos bêbedos que podiam pedir ainda mais um copito e embrulhar um paivante, aumentando o rol.
Umas duas, ou três horas depois de se recolher, o Zé da Ti’Ana, já com a carraspana meio curtida, precisou de sair para se ir baixar junto da parede do quintal, debaixo da videira que trepava na figueira despidas de folhas.
Ao olhar para os lados da Estrela, arrepiou-se todo; não havia qualquer clarão de luar e em vez de reflexo e vento, a serra mandava camadas sucessivas de borrasca e um frio de cortar à faca.
Não se enxergava, através do nevoeiro, mais de meia dúzia de metros; nem sequer se via até à outra parede do quintalzito.
Os paus das árvores pingavam e as pedras que procurou, aos apalpões, para se limpar, estavam geladas e molhadas.
Não chovia, mas a humidade era tanta que atravessava a roupa e enregelava até os ossos mais escondidos do corpo.
Voltou a entrar em casa e deitou-se.
Ao clarear do dia pouco mais luz se fez; o nevoeiro e a humidade, ajudados pelo frio, não deixaram nascer o sol.
O Zé levantou-se e foi pensar o burrito e as duas cabras, trazendo, numa malga encardida, uma pequena quantidade de leite que bebeu, ainda quente, dum trago. Acompanhou com uma côdea de pão espanhol e duas dentadas do queijo amarelo, que davam na sacristia.
Quando corria a tranqueta da porta, o Zé da Ti’Ana pensou na caminhada que teria de fazer, até aos barrocais, lá em baixo, a meio caminho da ribeira.
Talvez estivesse menos frio nas grutas do barroco maior do que ali em casa, onde a telha vã não vedava frio nem humidade e só a poder do peso da roupa, na cama, se arranjava algum calor; já que o da fogueira das giestas, se tinha acabado umas horas antes, engolido pela invernia.
Mas, ainda faltava algum tempo para a hora a que teria de ir cumprir a promessa que fizera a si próprio e ficou-se, um pouco mais, debaixo de telha.
Espreitou, pela janelita, e não viu vivalma.
Pouco depois, saiu de casa, canada fora, rumo aos barrocais.
Esticou o passo e só se deteve às vistas da ribeira, junto ao amontoado de barrocos, que tão bem conhecia, a meias com cães, gatos-bravos, raposas e lobos.
Entrou, procurou o esconderijo onde guardava as escopetas e o fuzil e partiu dali em direcção à casa do Manel Caldeireiro, onde, em permanência, só estava a Rita, filha do Manel que ganhava a vida de terra em terra e fazia ausências de semanas.
A moçoila, na casa dos trinta, de compleição física avantajada, olhos grandes, cabelos pretos e pele morena, recebia os seus amigos, ao que se dizia; todavia, ninguém jamais ousou apontar-lhe fosse o que fosse, mais com receio do mau feitio do caldeireiro que com respeito pela cachopa.
Havia fanfarrões que se gabavam, à boca pequena, disto e daquilo e nunca tinham, sequer, chegado perto da rapariga.
O Zé da Ti’Ana, mais entradote, vivia só, desde que perdera a mãe e sofria, cada vez que as línguas, soltas pelo vinho, se referiam à Rita, ocultando o seu nome, mas sendo suficientemente denunciadores, para cantar façanhas.
De todas as vezes que chegara às falas com a rapariga sempre esbarrara com uma resistência inultrapassável.
Das espreitas e investigações que lhe levaram noites a fio, nada resultou em desabono.
Tomou a decisão de pedir a rapariga em casamento, perguntando-lhe, apenas, se, a partir daquele dia, poderia obrigar, ainda que a poder de sangue, quem dissesse fosse o que fosse, a prová-lo.
A Rita olhou-o nos olhos e jurou total inocência, porque tudo o que pudessem dizer dela ela mentira.
Com a confirmação da rapariga, o Zé passou nas tabernas e disse que se casaria com a Rita.
Jurou que, a partir de então, quem acusasse a sua noiva fosse do que fosse, ou provava, ou morria.
A quietude e a escuridão adensavam de tal forma a atmosfera que não havia nariz que ousasse arriscar-se fora das portas.
Até as tabernas da terra fecharam, bem cedo, as portas, pondo na rua os últimos bêbedos que podiam pedir ainda mais um copito e embrulhar um paivante, aumentando o rol.
Umas duas, ou três horas depois de se recolher, o Zé da Ti’Ana, já com a carraspana meio curtida, precisou de sair para se ir baixar junto da parede do quintal, debaixo da videira que trepava na figueira despidas de folhas.
Ao olhar para os lados da Estrela, arrepiou-se todo; não havia qualquer clarão de luar e em vez de reflexo e vento, a serra mandava camadas sucessivas de borrasca e um frio de cortar à faca.
Não se enxergava, através do nevoeiro, mais de meia dúzia de metros; nem sequer se via até à outra parede do quintalzito.
Os paus das árvores pingavam e as pedras que procurou, aos apalpões, para se limpar, estavam geladas e molhadas.
Não chovia, mas a humidade era tanta que atravessava a roupa e enregelava até os ossos mais escondidos do corpo.
Voltou a entrar em casa e deitou-se.
Ao clarear do dia pouco mais luz se fez; o nevoeiro e a humidade, ajudados pelo frio, não deixaram nascer o sol.
O Zé levantou-se e foi pensar o burrito e as duas cabras, trazendo, numa malga encardida, uma pequena quantidade de leite que bebeu, ainda quente, dum trago. Acompanhou com uma côdea de pão espanhol e duas dentadas do queijo amarelo, que davam na sacristia.
Quando corria a tranqueta da porta, o Zé da Ti’Ana pensou na caminhada que teria de fazer, até aos barrocais, lá em baixo, a meio caminho da ribeira.
Talvez estivesse menos frio nas grutas do barroco maior do que ali em casa, onde a telha vã não vedava frio nem humidade e só a poder do peso da roupa, na cama, se arranjava algum calor; já que o da fogueira das giestas, se tinha acabado umas horas antes, engolido pela invernia.
Mas, ainda faltava algum tempo para a hora a que teria de ir cumprir a promessa que fizera a si próprio e ficou-se, um pouco mais, debaixo de telha.
Espreitou, pela janelita, e não viu vivalma.
Pouco depois, saiu de casa, canada fora, rumo aos barrocais.
Esticou o passo e só se deteve às vistas da ribeira, junto ao amontoado de barrocos, que tão bem conhecia, a meias com cães, gatos-bravos, raposas e lobos.
Entrou, procurou o esconderijo onde guardava as escopetas e o fuzil e partiu dali em direcção à casa do Manel Caldeireiro, onde, em permanência, só estava a Rita, filha do Manel que ganhava a vida de terra em terra e fazia ausências de semanas.
A moçoila, na casa dos trinta, de compleição física avantajada, olhos grandes, cabelos pretos e pele morena, recebia os seus amigos, ao que se dizia; todavia, ninguém jamais ousou apontar-lhe fosse o que fosse, mais com receio do mau feitio do caldeireiro que com respeito pela cachopa.
Havia fanfarrões que se gabavam, à boca pequena, disto e daquilo e nunca tinham, sequer, chegado perto da rapariga.
O Zé da Ti’Ana, mais entradote, vivia só, desde que perdera a mãe e sofria, cada vez que as línguas, soltas pelo vinho, se referiam à Rita, ocultando o seu nome, mas sendo suficientemente denunciadores, para cantar façanhas.
De todas as vezes que chegara às falas com a rapariga sempre esbarrara com uma resistência inultrapassável.
Das espreitas e investigações que lhe levaram noites a fio, nada resultou em desabono.
Tomou a decisão de pedir a rapariga em casamento, perguntando-lhe, apenas, se, a partir daquele dia, poderia obrigar, ainda que a poder de sangue, quem dissesse fosse o que fosse, a prová-lo.
A Rita olhou-o nos olhos e jurou total inocência, porque tudo o que pudessem dizer dela ela mentira.
Com a confirmação da rapariga, o Zé passou nas tabernas e disse que se casaria com a Rita.
Jurou que, a partir de então, quem acusasse a sua noiva fosse do que fosse, ou provava, ou morria.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Nunca o diabo mais nos leve
Os pinheiros da Caldeirinha andam a comer de três concelhos; não admira, pois, que aqueles sapeirões gozem mais que os dos vizinhos que, naquela pissara, pouco mais têm que terra para sobreviverem.
Cada uma daquelas árvores vale por uma boa meia dúzia das da courela vizinha.
Só mete ali o ferro quem pagar bem.
Com estas afirmações, o Ti’Alberto entrava na taberna seguido pelo Bento, comprador de resinas por conta das fábricas de Leiria. E, já ao pé do balcão, acenou ao Manuel que deitasse uns copos de vinho, convidando o Chico Alfaiate, resineiro da terra, a beber com eles e a dizer se havia em toda a área das redondezas pinheiros mais leiteiros que os da sua,da Caldeirinha.
O resineiro confirmou que, de facto, não conhecia árvores que melhor fundissem do que um bom magote lá da Caldeirinha, embora também lá houvesse alguns mais fracotes.
Dava gosto passar a mudar os canecos duas ou três vezes, em cada colha. São árvores desenxovalhadas; deviam espalhar-se os pinhões delas por mais lados…
Aqui, entrou o Ti’Alberto: E a terra também a espalhavam, ora não?!...
O Bento que sabia ser verdade tudo o que acabava de ouvir, embora não lhe conviesse a conversa, acercou-se do Ti’Alberto, estendeu a mão e disse-lhe, em surdina: não se fala mais nisso; são os dez mil réis por cada bica da Caldeirinha e pelos seus restantes, o preço de toda a área: seis mil réis.
Está feito?!... O Ti’Alberto acenou ao taberneiro que deitasse mais uns copos e disse: Está feito, homem… mais um ano em que me enganas, mas… nunca o diabo mais nos leve!...
Ao recordar estas cenas, repassadas de uma simplicidade tão pungente e enternecedora, em que em frente do balcão da taberna se faziam os negócios, repletos de arte e manha, mas envolvidos numa ingenuidade pura e sã, não podemos esquecer as premonições da última frase do Ti’Alberto: … nunca o diabo mais nos leve!...
É que, desde aqueles anos sessenta em que muitos de nós, então jovens adolescentes, estudámos fora das nossas aldeias e por esse país além alcançámos lugares nunca pensados pelos nossos avós, à custa daqueles pinheiros que dando mais ou menos resina rendiam os cobres com que os nossos pais pagavam estudos, aboletamento e confortos que nunca tinham experimentado, tudo mudou…
E, infelizmente, tudo o diabo lhes levou!...
As transformações políticas, primeiro; os incêndios, depois, reduziram a nada aquela exploração de uma matéria-prima que, como nos ensinaram na escola, dava origem a uma farta gama de produtos, desde farmacêuticos a químicos e cosméticos e constituía uma riqueza nacional.
Nunca compreendemos como foi possível tal estado de coisas e é com muita mágoa que só na lembrança restam aqueles pinhais, de árvores esbeltas, que, generosamente, vertiam nos canecos a resina que escorria das suas sangrias.
Não se mataram apenas os pinheiros; foram, com eles, muitas gotas de sangue das gentes que viram o diabo levar-lhes tudo, quer ele vestisse a pele dos políticos, quer fosse um qualquer incendiário.
Aquelas gentes, que passaram a depender das esmolas dos poderes públicos, podem até viver melhor, ter melhores acessos e comunicações, desfrutar de alguns confortos das sociedades modernas, mas não são felizes… nunca aprenderam, nem se conformaram, a viver de esmolas; nunca comeram nada que não soubessem como lhes chegava às mãos e sempre se consideraram senhores de si próprios; nunca perceberam as razões dos que, alto e bom som, dizem que lhes vão fechar o hospital, a escola ou o posto médico; nunca aceitaram os que querem proibi-los de beber a água dos seus poços, comer a carne dos seus porcos e a desfrutar da floresta que, impunemente, alguns teimam em queimar-lhes.
Gentes de tanto querer, almas de tanta fé e vontades tão indómitas, deram lugar a populações descrentes, almas sem esperança e velhos resignados; todos sem alegria e esperando, pacientemente, o resto dos seus dias.
Cada uma daquelas árvores vale por uma boa meia dúzia das da courela vizinha.
Só mete ali o ferro quem pagar bem.
Com estas afirmações, o Ti’Alberto entrava na taberna seguido pelo Bento, comprador de resinas por conta das fábricas de Leiria. E, já ao pé do balcão, acenou ao Manuel que deitasse uns copos de vinho, convidando o Chico Alfaiate, resineiro da terra, a beber com eles e a dizer se havia em toda a área das redondezas pinheiros mais leiteiros que os da sua,da Caldeirinha.
O resineiro confirmou que, de facto, não conhecia árvores que melhor fundissem do que um bom magote lá da Caldeirinha, embora também lá houvesse alguns mais fracotes.
Dava gosto passar a mudar os canecos duas ou três vezes, em cada colha. São árvores desenxovalhadas; deviam espalhar-se os pinhões delas por mais lados…
Aqui, entrou o Ti’Alberto: E a terra também a espalhavam, ora não?!...
O Bento que sabia ser verdade tudo o que acabava de ouvir, embora não lhe conviesse a conversa, acercou-se do Ti’Alberto, estendeu a mão e disse-lhe, em surdina: não se fala mais nisso; são os dez mil réis por cada bica da Caldeirinha e pelos seus restantes, o preço de toda a área: seis mil réis.
Está feito?!... O Ti’Alberto acenou ao taberneiro que deitasse mais uns copos e disse: Está feito, homem… mais um ano em que me enganas, mas… nunca o diabo mais nos leve!...
Ao recordar estas cenas, repassadas de uma simplicidade tão pungente e enternecedora, em que em frente do balcão da taberna se faziam os negócios, repletos de arte e manha, mas envolvidos numa ingenuidade pura e sã, não podemos esquecer as premonições da última frase do Ti’Alberto: … nunca o diabo mais nos leve!...
É que, desde aqueles anos sessenta em que muitos de nós, então jovens adolescentes, estudámos fora das nossas aldeias e por esse país além alcançámos lugares nunca pensados pelos nossos avós, à custa daqueles pinheiros que dando mais ou menos resina rendiam os cobres com que os nossos pais pagavam estudos, aboletamento e confortos que nunca tinham experimentado, tudo mudou…
E, infelizmente, tudo o diabo lhes levou!...
As transformações políticas, primeiro; os incêndios, depois, reduziram a nada aquela exploração de uma matéria-prima que, como nos ensinaram na escola, dava origem a uma farta gama de produtos, desde farmacêuticos a químicos e cosméticos e constituía uma riqueza nacional.
Nunca compreendemos como foi possível tal estado de coisas e é com muita mágoa que só na lembrança restam aqueles pinhais, de árvores esbeltas, que, generosamente, vertiam nos canecos a resina que escorria das suas sangrias.
Não se mataram apenas os pinheiros; foram, com eles, muitas gotas de sangue das gentes que viram o diabo levar-lhes tudo, quer ele vestisse a pele dos políticos, quer fosse um qualquer incendiário.
Aquelas gentes, que passaram a depender das esmolas dos poderes públicos, podem até viver melhor, ter melhores acessos e comunicações, desfrutar de alguns confortos das sociedades modernas, mas não são felizes… nunca aprenderam, nem se conformaram, a viver de esmolas; nunca comeram nada que não soubessem como lhes chegava às mãos e sempre se consideraram senhores de si próprios; nunca perceberam as razões dos que, alto e bom som, dizem que lhes vão fechar o hospital, a escola ou o posto médico; nunca aceitaram os que querem proibi-los de beber a água dos seus poços, comer a carne dos seus porcos e a desfrutar da floresta que, impunemente, alguns teimam em queimar-lhes.
Gentes de tanto querer, almas de tanta fé e vontades tão indómitas, deram lugar a populações descrentes, almas sem esperança e velhos resignados; todos sem alegria e esperando, pacientemente, o resto dos seus dias.
sábado, 30 de outubro de 2010
A Ti’Coluna
No cimo do esconso da rua de S. Pedro, onde acabava a calçada de pedras reboludas e escorregadias e começavam os degraus das escadas que iriam terminar frente ao portão do colégio, as casas, de um lado e do outro, eram as do Ferreira Mesquita e da sogra.
Por ali andavam sempre os garotos, ranhosos e reveladores de falta de cuidados, à mistura com galinhas, gatos e um cãozito, pouco agressivo para os passantes e com as carraças nas orelhas, bem visíveis.
Uns metros mais abaixo, à direita de quem descia, numa casita térrea, com frente de uma porta e uma janela, telhado de uma só água, a correr para a rua e com um quintalito nas traseiras, morava a Ti’Coluna, mais conhecida por “comadre Coluna”, devido aos inúmeros nascimentos a que havia já assistido.
Mulher corpulenta, de idade bastante avançada, capaz de satisfazer as suas necessidades, passava os dias à janela, a ver os estudantes, e uma vez por dia, descia até à praça, com a alcofa das compras.
Parava, normalmente, ao cimo do primeiro lance de escadas e sentava-se num pequeno patamar à porta da casa do sr Luís Catarino, a seguir à torre do relógio.
Descansava, ouvia e dava as notícias, tomava fôlego e lá arrancava, rua acima até chegar a sua casa.
Quando calhava dar-lhe uma ajudinha no transporte da alcofa, quer fosse o António Agostinho, filho da Ti’Mari’Bela, quer fosse um dos seus hóspedes, entre os quais eu me incluía, havia sempre uma pequena história e duas ou três ervilhanas, um rebuçadito, ou uma bolacha que já estava preparada junto da porta de casa, numa pequena terrina, sobre a mesa da salita.
Quando descia, voltava a parar na torre do relógio, cumprimentava os que passavam, pois era conhecida d os estudantes, que subiam e desciam, duas ou quatro vezes por dia, a rua mais inclinada da vila, no dizer da Ti’Coluna.
As histórias da velhota prendiam-se com as três gerações que compunham a sua vida, como dizia. Reportavam aos tempos da Monarquia e aos anos que se lhe seguiram, nos atribulados primeiros percalços da República.
Falava das saudades do rei D. Carlos que tivera oportunidade de ver, em Lisboa, das dificuldades que a velhice lhe revelou: mãe de vários filhos, nunca quis encostar-se a nenhum, apesar de todos viverem bem.
Mas, sozinha, vivia contente por ver tanta gente nova a fazer pela vida, subindo e descendo a ladeira de S. Pedro que, durante décadas foi rua pacata e morta, onde raramente passava alguém e agora fervia de gente e vida.
Desde que veio o colégio, foi uma alegria, um rejuvenescer para as gentes daquela rua cuja vida corria toda no sentida da praça e agora era ao contrário.
Mulher devota e cumpridora dos seus deveres de cristã, ajudava nos arranjos das igrejas e não faltava às principais cerimónias religiosas.
Era especialista na assistência a partos e tratava, como ninguém, um doente acamado. Ajudava, sempre que sentia necessidades e até onde as forças lhe permitiam.
Nunca consegui saber a idade da Ti’Coluna, mas parece-me que seria quase centenária.
Na base das suas opiniões, as coisas não acontecem por acaso e ia explicando o que a vida lhe ensinara:
- Estás a ver esta ladeira, a maior da vila, que todos os dias tens de subir para chegares ao colégio? E, depois, quando chegas lá ao cimo, tens a vila a teus pés, olhas e vês lá longe as terras de Gavião, ou se olhares para o outro lado, as serras do Bando e, mais longe, os montes já da Beira Baixa quase toda!
Na vida, os caminhos mais difíceis levam-nos às coisas melhores.
Quantos há que nunca subiram a ladeira da rua de S. Pedro, porque só havia lá eucaliptos e para chegar ao Calvário iam dar uma volta.
E que bom teria sido, se tivessem subido a rua, para o colégio: teriam hoje melhor emprego, teriam sido alguém diferente do que são, poderiam chegar mais alto.
Não achas que vale a pena subir a rua?
Até eu, que sou muito mais velha, gosto de morar cá em cima: vejo mais longe!... Já aprendeste o que é o horizonte? Gostas de estudar Geografia?...
Mas, cuidado: é preciso força e determinação.
Vês os do Ferreira Mesquita, não sobem até ao cimo da rua, espalham-se por ela abaixo à espera que lhe dêem alguma coisa para comer.
Também não têm quem os mande estudar, mas isso não é o caso dos meninos a quem os pais não querem que nada falte. A esses ninguém perdoaria que não aproveitassem bem as oportunidades que lhes estendem à frente.
Lembrem-se, pois, que há que subir e descer a rua, tantas vezes quantas for preciso e quanto mais depressa deixarem de subir, porque chegaram ao cimo, melhor. Uma coisa é certa, desistir, nunca!...;
É para os fracos e dos fracos não reza a História.
Porém, cá a velhota quer deixar-te um último aviso: quando se chega ao cimo das ladeiras temos de continuar a andar; o mundo não para e a vida não se esgota ali.
Atrás duma subida vem sempre outra e, por vezes, até mais íngreme; porém as forças aumentam com o exercício e as dificuldades diminuem com a força da nossa vontade.
Lembrem-se do que lhes diz a velha Coluna e, se puderem, cheguem à minha idade, rijos como eu; a vida deixar-se-á dominar e as coisas boas vão fazer-vos esquecer o que parece mais difícil e complicado, em cada dia que passa.
Vou pedir a Deus que vos satisfaça todos os vossos desejos, mas não se esqueçam de ajudar sempre a consegui-los!... A vossa ajuda é para lá de meio caminho andado!...
Por ali andavam sempre os garotos, ranhosos e reveladores de falta de cuidados, à mistura com galinhas, gatos e um cãozito, pouco agressivo para os passantes e com as carraças nas orelhas, bem visíveis.
Uns metros mais abaixo, à direita de quem descia, numa casita térrea, com frente de uma porta e uma janela, telhado de uma só água, a correr para a rua e com um quintalito nas traseiras, morava a Ti’Coluna, mais conhecida por “comadre Coluna”, devido aos inúmeros nascimentos a que havia já assistido.
Mulher corpulenta, de idade bastante avançada, capaz de satisfazer as suas necessidades, passava os dias à janela, a ver os estudantes, e uma vez por dia, descia até à praça, com a alcofa das compras.
Parava, normalmente, ao cimo do primeiro lance de escadas e sentava-se num pequeno patamar à porta da casa do sr Luís Catarino, a seguir à torre do relógio.
Descansava, ouvia e dava as notícias, tomava fôlego e lá arrancava, rua acima até chegar a sua casa.
Quando calhava dar-lhe uma ajudinha no transporte da alcofa, quer fosse o António Agostinho, filho da Ti’Mari’Bela, quer fosse um dos seus hóspedes, entre os quais eu me incluía, havia sempre uma pequena história e duas ou três ervilhanas, um rebuçadito, ou uma bolacha que já estava preparada junto da porta de casa, numa pequena terrina, sobre a mesa da salita.
Quando descia, voltava a parar na torre do relógio, cumprimentava os que passavam, pois era conhecida d os estudantes, que subiam e desciam, duas ou quatro vezes por dia, a rua mais inclinada da vila, no dizer da Ti’Coluna.
As histórias da velhota prendiam-se com as três gerações que compunham a sua vida, como dizia. Reportavam aos tempos da Monarquia e aos anos que se lhe seguiram, nos atribulados primeiros percalços da República.
Falava das saudades do rei D. Carlos que tivera oportunidade de ver, em Lisboa, das dificuldades que a velhice lhe revelou: mãe de vários filhos, nunca quis encostar-se a nenhum, apesar de todos viverem bem.
Mas, sozinha, vivia contente por ver tanta gente nova a fazer pela vida, subindo e descendo a ladeira de S. Pedro que, durante décadas foi rua pacata e morta, onde raramente passava alguém e agora fervia de gente e vida.
Desde que veio o colégio, foi uma alegria, um rejuvenescer para as gentes daquela rua cuja vida corria toda no sentida da praça e agora era ao contrário.
Mulher devota e cumpridora dos seus deveres de cristã, ajudava nos arranjos das igrejas e não faltava às principais cerimónias religiosas.
Era especialista na assistência a partos e tratava, como ninguém, um doente acamado. Ajudava, sempre que sentia necessidades e até onde as forças lhe permitiam.
Nunca consegui saber a idade da Ti’Coluna, mas parece-me que seria quase centenária.
Na base das suas opiniões, as coisas não acontecem por acaso e ia explicando o que a vida lhe ensinara:
- Estás a ver esta ladeira, a maior da vila, que todos os dias tens de subir para chegares ao colégio? E, depois, quando chegas lá ao cimo, tens a vila a teus pés, olhas e vês lá longe as terras de Gavião, ou se olhares para o outro lado, as serras do Bando e, mais longe, os montes já da Beira Baixa quase toda!
Na vida, os caminhos mais difíceis levam-nos às coisas melhores.
Quantos há que nunca subiram a ladeira da rua de S. Pedro, porque só havia lá eucaliptos e para chegar ao Calvário iam dar uma volta.
E que bom teria sido, se tivessem subido a rua, para o colégio: teriam hoje melhor emprego, teriam sido alguém diferente do que são, poderiam chegar mais alto.
Não achas que vale a pena subir a rua?
Até eu, que sou muito mais velha, gosto de morar cá em cima: vejo mais longe!... Já aprendeste o que é o horizonte? Gostas de estudar Geografia?...
Mas, cuidado: é preciso força e determinação.
Vês os do Ferreira Mesquita, não sobem até ao cimo da rua, espalham-se por ela abaixo à espera que lhe dêem alguma coisa para comer.
Também não têm quem os mande estudar, mas isso não é o caso dos meninos a quem os pais não querem que nada falte. A esses ninguém perdoaria que não aproveitassem bem as oportunidades que lhes estendem à frente.
Lembrem-se, pois, que há que subir e descer a rua, tantas vezes quantas for preciso e quanto mais depressa deixarem de subir, porque chegaram ao cimo, melhor. Uma coisa é certa, desistir, nunca!...;
É para os fracos e dos fracos não reza a História.
Porém, cá a velhota quer deixar-te um último aviso: quando se chega ao cimo das ladeiras temos de continuar a andar; o mundo não para e a vida não se esgota ali.
Atrás duma subida vem sempre outra e, por vezes, até mais íngreme; porém as forças aumentam com o exercício e as dificuldades diminuem com a força da nossa vontade.
Lembrem-se do que lhes diz a velha Coluna e, se puderem, cheguem à minha idade, rijos como eu; a vida deixar-se-á dominar e as coisas boas vão fazer-vos esquecer o que parece mais difícil e complicado, em cada dia que passa.
Vou pedir a Deus que vos satisfaça todos os vossos desejos, mas não se esqueçam de ajudar sempre a consegui-los!... A vossa ajuda é para lá de meio caminho andado!...
Subscrever:
Mensagens (Atom)