E então o senhor da bata preta que está em riba do sobrado mais alto, atrás da mesa grande, onde bate com um martelo de madeira, para chamar as pessoas, deu duas porradas e mandou-me alevantar, para ouvir a tal de sentença, que, dito por outras palavras, foi isto o que acabei por ouvir:
O réu, Manuel Mendes de Oliveira, também conhecido pelo Manuel da Chêdea, vai condenado em três meses de cadeia, mas pode pagar e não ficar preso.
Tem, ainda, de pagar selos de justiça e uma indemnização ao queixoso, no valor de novecentos e vinte e quatro mil réis, por quase três meses que este esteve sem poder trabalhar.
Até que não me parecia muito, mas oiçam o que vem a seguir, que vale a pena, porque afinal eles são juízes porque estudaram e sabem ver e medir bem as coisas. Homens de valor! E continuou a ler o meu destino:
Mas, como nunca antes veio na justiça, tem bom comportamento e, se usou de força bruta a mais, foi também para se defender, a pena fica em suspenso por um ano. Tome bem atenção: se dentro do próximo ano, a contar de agora, for julgado e condenado, cumprirá a pena que lhe for aplicada, mais a que hoje fica suspensa. Depois fica outra vez limpo. Percebeu?
Se percebi, senhor juiz! Desta já me safei e, pode o diabo estar descansado, que noutra não me vai agarrar. Posso então ir-me embora para casa? E aqui estou!
A brincadeira acabou por me custar uns duzentos mil réis para o doutor advogado, coisa de um meio cento para os tais de selos, e à roda de trinta mil réis para umas latas de sardinha, casqueiros e vinhaça, para o pessoal do meu lado petiscar, à vontade, lá na do Ti’Bicha.
Há ainda os favores dos que perderam tempo a ir ser testemunhas e a esses não há dinheiro que lhes pague – podem contar com os fracos préstimos do Chêdea.
Mas, oh! Ti´Manel, dei-te lá uma rodada, em honra da minha pena suspensa. De tanto falar, até já tenho a garganta seca.
Também já pude saber que o Ti´Tonho já está bem da asa que teve derreada e, quero aproveitar para me acertar com ele. O que lá vai, lá vai e, no fim de contas quem ficou pior foi ele, que acabou desasado e, como eu disse ao juiz, nós é que somos, para aqui, às vezes, piores que as bestas; os homens não se fizeram para andar a bater uns nos outros.
Eu, verdade seja dita, fui lá, à dele, no Vale de Além, buscar dois melões e, é claro, apanhei os mais maduros e jeitosos que lá estavam.
Ele, ao toscar-me, veio para mim, com um estadulho do carro, e ainda me assentou uma ripada no costado. Nisto, apanhei o que tinha à mão e desfechei-lhe duas pauladas, com a moca do junco que costumo trazer para agarrar as reses que vou comprando. A primeira abriu-lhe um lanho na cabeça e a segunda deu-lhe cabo da espalda do braço direito.
Depois, quando vi o homem no chão, a sangrar da cabeça e a gemer, sem reacção no braço, fui em seu socorro e quer o senhor saber como me agradeceu? Deu-me um pontapé, espécie de coice de besta, nas partes baixas e mordeu-me numa perna, o desgraçado.
Se não tem chegado a mulher dele, tinha, pela certa, acontecido uma desgraça maior.
Sem a Ti’Maria a estas horas eu não estaria aqui a contar o sucedido, mas andaria por aí, nalguma prisão, a contar os dias até me vir embora e ele já estaria a fazer tijolo. Mas foi melhor assim, e ainda tenho esperanças de que poderemos entender-nos e voltar a ser, outra vez, amigos. O que lá vai, lá vai!
Eu também já estava, naquele dia, com um copito a mais, como acabaram por reconhecer as testemunhas. Nas palavras do juiz, e parece-me que ele é homem que sabe o que diz, fomos dois brutos a bater um no outro, com violência desnecessária.
Aqui ele não tem lá muita razão: o Ti’Tonho só me acertou de raspão com o estadulho da carroça e eu, que não gostei muito do gesto dele, afinfei-lhe em cheio, para o segurar.
Quando penso naquilo até me parece que o senhor juiz acabou por ser bom para mim! Mas de leis e de justiça saberá ele mais que nós!
Também acabei por ter sorte com o senhor advogado, que percebeu bem o caso e me defendeu, com unhas e dentes. Às tantas, até parecia que eu é que tinha ficado pior na bordoada – é que foi ele o primeiro a levantar a mão e a mordidela que eu apanhei, ali por cima do artelho, foi dada com tal vontade que quase me cortava a perna.
O juiz até lhe perguntou se, dada a sua idade, tinha dentes postiços e, a sorte dele foi dizer que sim e mostrar a dentadura; se não, e calhando, ainda acabava condenado ele e não eu.
Tenho ouvido dizer que às vezes há dessas coisas, mas são lérias, pois o melhor é não ir a casas daquelas.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
As curvas da estrada
Teria os meus seis anos; a história ter-se-á passado há mais de sessenta anos.
Era a primeira vez que saía da aldeia, acompanhando o meu pai, na carroça, numa viagem de um dia inteiro, percorrendo os vinte quilómetros até Alferrarede, e outros tantos, no regresso, desde antes de nascida a estrela da manhã até pouco antes do sol se esconder.
E devia ter sido por alturas da Primavera, pois pelas imagens difusas que ficaram, cantavam muito os passaritos, estava tudo muito verde e corria muita água nos ribeiros e ribeiras que atravessámos.
O objectivo da viagem era a compra de oito sacos de adubo e dois sacos de nitrato nos armazéns da CUF e umas três arrobas de pedras de cal viva, no forno caleiro da Barca do Pego, pertinho da paragem anterior e a dois passos do grande rio Tejo, que pude ver, e admirar, pela primeira vez.
Até aí o maior que vira foi a ribeira que passa lá perto da nossa aldeia e, dizendo-me o meu pai que é filha deste grande rio, lembro-me de perguntar porque razão não se parecia mais com ele: tão grande e com tanta água.
Íamos tão longe, e numa tão esforçada jornada, para poupar algumas dezenas de escudos, pensaria eu? O dinheiro valeria assim tanto? A estas dúvidas respondiam-me as diversas práticas, lá de casa, que consistiam em gastar só quando e quanto fosse indispensável, para ter sempre que se precisasse.
Saíamos de casa ainda antes do Sete-estrelo começar a baixar, com a estrela boieira muito acima do horizonte, e ao romper da madrugada estávamos às vistas de Alcaravela.
Aos primeiros raios de sol estávamos no alto da serra de Santa Clara. Quando parámos no Valongo, na taberna do Costa, comemos um bocado de pão com queijo, a mula comeu uma gavela de pontas de milho e bebeu água e, com o sol a descobrir por sobre os pinheiros, lá fomos, estrada abaixo, rumo à próxima paragem no Olho-de-boi, já a ver as primeiras casas de Alferrarede.
Outra novidade: também nunca tinha visto uma terra tão grande; até passava o comboio no meio dela. E havia uma casa enorme, ao pé da casa onde parava o comboio, que vi pela primeira vez, muito comprido e a deitar muito fumo, puxando muitos carros atrás dele. A casa muito grande era o armazém da CUF, onde íamos fazer as compras.
Tudo na viagem fora muito bem programado e calculado: desde a diferença de preços entre os armazéns, em Alferrarede, os do grémio da Lavoura, em Mação e os do Ti’Zé Matias, lá na Serra. Tenho uma vaga ideia de o meu pai e o meu avô falarem sobre o assunto e o meu pai explicar: nesse péla-cães é quase o dobro; meto os pés ao caminho e ganha bem para as passadas.
Os tempos eram também estudados: saindo bem cedo, direito à Saramaga, Presa, Casal Pedro Maia e Santa Clara, chegava-se à estrada, onde, de noite, era preciso levar luz na carroça, já com sol e com tudo a correr normalmente, antes de o sol se pôr, deixávamos a estrada, mas agora na Lameira, ali às portas de casa, para que a besta não tivesse que puxar, com carga, pelos caminhos ruins, que atravessavam as aldeias de Alcaravela, por onde fomos na viagem da manhã.
Uma criança de hoje, com seis anos, já viu mais coisas, mesmo não tendo saído de casa, que muitas pessoas daquelas terras, naqueles tempos, veriam em toda uma vida de muitas dezenas de anos.
Lembro-me de conversar com muita gente da aldeia, anos depois, que nunca tinha ido além da vila, nunca tinha visto o mar, ou um simples rio, e nunca tinha visto o comboio. Uma velhota, das últimas que a minha memória alcançava, dizia que o mais longe que tinha ido era o cemitério, na freguesia, a acompanhar os mortos.
Os tempos e, principalmente, a televisão, mudaram tudo: para uns, o Mundo é muito maior; para outros, muito mais pequeno, como o meu pai sempre disse até se ir embora, aos seus 96 anos.
Voltemos, porém, à viagem: ainda antes de chegar a Alferrarede, meu pai mostrou-me, lá ao longe, no cimo da encosta, em frente, umas grandes paredes, com umas portas abertas no cimo e disse-me que eram as muralhas do castelo de Abrantes e que ele tinha morado lá dentro, quando esteve na tropa. Junto daquele castelo havia muitas casas e aquela terra chamava-se cidade de Abrantes.
Esclareceu as minhas dúvidas, explicando-me, como pôde, o que era uma cidade e o que havia lá dentro. Recordo que deu muito realce ao valor do castelo na defesa da cidade, se os inimigos atacassem.
Acho que, sendo eu muito curioso, meu pai gastou grande parte da viagem a dar respostas às minhas perguntas sobre as muitas novidades que íamos encontrando.
Depois de carregada e paga a cal branca, lá no forno da Barca do Pego, saímos por outra estrada, que rodeava as casas e fomos ter à estrada principal, já no Olho-de-boi, onde iniciámos a subida, de regresso a casa.
Devia ser pouco mais de meio-dia solar, pois parámos na fonte e o meu pai desengatou a besta da carroça e prendeu-a a uma oliveira.
Deu-lhe o almoço que meu pai chamou “rancho melhorado” porque era dia de bastante trabalho e nós comemos pão com chouriço cozido e queijo e umas maçãs.
O meu pai encostou-se em cima duma saca e penso que ainda fez uma pequena sesta.
Eu olhava, muito admirado, para os automóveis, camionetas, carros, como o nosso, bicicletas e outras coisas que passavam na estrada e fiquei muito admirado com tantos postes de ferro e tantos fios a sair dali, em todas as direcções – era a central eléctrica do Olho-de-boi, que recebia a electricidade vinda da barragem do Castelo de Bode e a enviava para as terras do centro do país.
Claro que devo ter perguntado muitas coisas sobre a barragem, que nunca tinha visto, e a electricidade, mas não recordo quaisquer respostas e duvido que o meu pai soubesse dar-mas.
Quando o meu pai acordou, voltou a engatar a mula, subimos os dois para a carroça e retomámos a estrada, na direcção do norte e só voltámos a apear-nos, num desvio que nunca mais esqueci, em frente do Sardoal, onde havia muitos carvalhos carregadinhos de bugalhas.
O meu pai apanhou umas quantas e cortou duas ou três canas no valado que dava para um grande olival, onde era habitual virem os homens e mulheres do rancho do Ti’Mendes lá da Serra, apanhar a azeitona, nos princípios do Inverno. Chegavam a fazer três semanas, pois as oliveiras iam quase dali até aos nateiros do Tejo, que já víamos, como uma grande cobra, lá em baixo. E recordo-me do meu pai me dizer que havia tantas oliveiras que até fizeram um lagar só para moer aquela azeitona toda.
Outra vez na carroça, lá íamos estrada acima. O meu pai abriu a navalha, que nunca deixava, e cortou um canudo de cana, fechado num dos lados e fez-lhe um pequeno buraquito. Depois com um pau afiado fez uma quantidade de furos numa bugalha das mais secas e, soprando na cana, pôs a bugalha na corrente de ar, sobre o furo, fazendo-a subir e baixar, em rotação constante e mantendo-a no ar a dançar. Eu lá consegui aprender e, nem dei por chegarmos ao alto da serra de Santa Clara, onde fizemos novo alto, para um pequeno descanso.
Vista do cimo da serra, a estrada que seguia para norte, por entre a mancha de pinhal que ali tem início, parecia uma grande cobra que se estendia a perder de vista, contornando os pequenos outeiros. O meu pai explicou-me, mais ou menos, onde ficava a Serra e disse-me que não íamos atravessar as terras de Alcaravela, mas seguiríamos sempre estrada a cima, pois íamos carregados e surdia mais o andar no caminho melhor.
Achei estranho que os homens tivessem feito tantas curvas. Havia sítios em que cortar uma pequena barreira evitaria ir à volta e teria poupado muitos metros de estrada. Perguntei ao meu pai porquê? Porque tinham desenhado assim a estrada, se podiam fazê-la muito mais direita?
Sem fugir à pergunta o meu pai disse-me que quem mandava nas obras das estradas eram uns senhores que se chamavam engenheiros; que vinham com muitos aparelhos ver as terras e depois desenhavam os sítios por onde os homens deviam cavar.
Mas sempre recordo que me disse que havia muita gente para trabalhar e houve até uma altura em que esses engenheiros ganhavam ao metro e quanto maior fosse a estrada mais recebiam pelo trabalho. Assim os homens podiam trabalhar e ganhar dinheiro, como aqueles que costumavam andar lá na nossa casa.
Não percebi a explicação mas…continuámos.
O meu pai explicou-me também os marcos ao longo da estrada: os mais pequenos, de cem em cem metros; depois de cada nove pequenos vinha um maior e ao cabo de quatro desses maiores vinha um ainda maior e de outro feitio. Rematou a conversa dizendo-me que da passagem da Lameira, onde havíamos de deixar a estrada para apanhar o caminho para a Serra, até Alferrarede, havia quatro marcos dos maiores.
E é natural que meu pai tivesse sentido algum alívio, pois durante bastante tempo entretivemo-nos a contar marcos e a descobrir quando viria um dos maiores e depois os grandalhões.
Os pinheiros e algumas outras árvores, que tinham uma espécie de cinto pintado de branco e se estendiam ao longo de toda a estrada, foram também objecto de longa conversa.
Perguntei de quem eram tantos pinheiros e logo os mais grossos de todos, que estavam todos nas barreiras aos lados da estrada.
Mais uma vez meu pai, pacientemente, me explicou que a Sra Junta Autónoma das Estradas, era dona daquelas terras das barreiras das estradas e todas as árvores que lá nasciam eram dela. Explicou-me ainda que eram os cantoneiros que pintavam o branco e que tratavam aquelas árvores todas, ao longo de todas as estradas.
Quando encontrássemos um cantoneiro havíamos de perguntar para que queria a Sra Junta tantos pinheiros e se era assim tão rica que nem mandava resiná-los?
Não me lembro de ter encontrado mais cantoneiros e penso que ainda antes de chegar à saída para a Serra terei adormecido e o meu pai descansado um pouco, pois as minhas perguntas seguiam-se, ininterruptamente.
Muitos anos mais tarde tive resposta a estas dúvidas quando o meu pai me disse que quando eu fui à minha vida, para o colégio, sentiu muito a falta das minhas perguntas.
Que se lembrava de uma que o tinha atrapalhado muito: Porque tinha a estrada tantas curvas? E que durante muito tempo andou a pensar nisso, sem obter resposta, pensando que talvez fosse altura de ser eu a explicar-lhe.
Era a primeira vez que saía da aldeia, acompanhando o meu pai, na carroça, numa viagem de um dia inteiro, percorrendo os vinte quilómetros até Alferrarede, e outros tantos, no regresso, desde antes de nascida a estrela da manhã até pouco antes do sol se esconder.
E devia ter sido por alturas da Primavera, pois pelas imagens difusas que ficaram, cantavam muito os passaritos, estava tudo muito verde e corria muita água nos ribeiros e ribeiras que atravessámos.
O objectivo da viagem era a compra de oito sacos de adubo e dois sacos de nitrato nos armazéns da CUF e umas três arrobas de pedras de cal viva, no forno caleiro da Barca do Pego, pertinho da paragem anterior e a dois passos do grande rio Tejo, que pude ver, e admirar, pela primeira vez.
Até aí o maior que vira foi a ribeira que passa lá perto da nossa aldeia e, dizendo-me o meu pai que é filha deste grande rio, lembro-me de perguntar porque razão não se parecia mais com ele: tão grande e com tanta água.
Íamos tão longe, e numa tão esforçada jornada, para poupar algumas dezenas de escudos, pensaria eu? O dinheiro valeria assim tanto? A estas dúvidas respondiam-me as diversas práticas, lá de casa, que consistiam em gastar só quando e quanto fosse indispensável, para ter sempre que se precisasse.
Saíamos de casa ainda antes do Sete-estrelo começar a baixar, com a estrela boieira muito acima do horizonte, e ao romper da madrugada estávamos às vistas de Alcaravela.
Aos primeiros raios de sol estávamos no alto da serra de Santa Clara. Quando parámos no Valongo, na taberna do Costa, comemos um bocado de pão com queijo, a mula comeu uma gavela de pontas de milho e bebeu água e, com o sol a descobrir por sobre os pinheiros, lá fomos, estrada abaixo, rumo à próxima paragem no Olho-de-boi, já a ver as primeiras casas de Alferrarede.
Outra novidade: também nunca tinha visto uma terra tão grande; até passava o comboio no meio dela. E havia uma casa enorme, ao pé da casa onde parava o comboio, que vi pela primeira vez, muito comprido e a deitar muito fumo, puxando muitos carros atrás dele. A casa muito grande era o armazém da CUF, onde íamos fazer as compras.
Tudo na viagem fora muito bem programado e calculado: desde a diferença de preços entre os armazéns, em Alferrarede, os do grémio da Lavoura, em Mação e os do Ti’Zé Matias, lá na Serra. Tenho uma vaga ideia de o meu pai e o meu avô falarem sobre o assunto e o meu pai explicar: nesse péla-cães é quase o dobro; meto os pés ao caminho e ganha bem para as passadas.
Os tempos eram também estudados: saindo bem cedo, direito à Saramaga, Presa, Casal Pedro Maia e Santa Clara, chegava-se à estrada, onde, de noite, era preciso levar luz na carroça, já com sol e com tudo a correr normalmente, antes de o sol se pôr, deixávamos a estrada, mas agora na Lameira, ali às portas de casa, para que a besta não tivesse que puxar, com carga, pelos caminhos ruins, que atravessavam as aldeias de Alcaravela, por onde fomos na viagem da manhã.
Uma criança de hoje, com seis anos, já viu mais coisas, mesmo não tendo saído de casa, que muitas pessoas daquelas terras, naqueles tempos, veriam em toda uma vida de muitas dezenas de anos.
Lembro-me de conversar com muita gente da aldeia, anos depois, que nunca tinha ido além da vila, nunca tinha visto o mar, ou um simples rio, e nunca tinha visto o comboio. Uma velhota, das últimas que a minha memória alcançava, dizia que o mais longe que tinha ido era o cemitério, na freguesia, a acompanhar os mortos.
Os tempos e, principalmente, a televisão, mudaram tudo: para uns, o Mundo é muito maior; para outros, muito mais pequeno, como o meu pai sempre disse até se ir embora, aos seus 96 anos.
Voltemos, porém, à viagem: ainda antes de chegar a Alferrarede, meu pai mostrou-me, lá ao longe, no cimo da encosta, em frente, umas grandes paredes, com umas portas abertas no cimo e disse-me que eram as muralhas do castelo de Abrantes e que ele tinha morado lá dentro, quando esteve na tropa. Junto daquele castelo havia muitas casas e aquela terra chamava-se cidade de Abrantes.
Esclareceu as minhas dúvidas, explicando-me, como pôde, o que era uma cidade e o que havia lá dentro. Recordo que deu muito realce ao valor do castelo na defesa da cidade, se os inimigos atacassem.
Acho que, sendo eu muito curioso, meu pai gastou grande parte da viagem a dar respostas às minhas perguntas sobre as muitas novidades que íamos encontrando.
Depois de carregada e paga a cal branca, lá no forno da Barca do Pego, saímos por outra estrada, que rodeava as casas e fomos ter à estrada principal, já no Olho-de-boi, onde iniciámos a subida, de regresso a casa.
Devia ser pouco mais de meio-dia solar, pois parámos na fonte e o meu pai desengatou a besta da carroça e prendeu-a a uma oliveira.
Deu-lhe o almoço que meu pai chamou “rancho melhorado” porque era dia de bastante trabalho e nós comemos pão com chouriço cozido e queijo e umas maçãs.
O meu pai encostou-se em cima duma saca e penso que ainda fez uma pequena sesta.
Eu olhava, muito admirado, para os automóveis, camionetas, carros, como o nosso, bicicletas e outras coisas que passavam na estrada e fiquei muito admirado com tantos postes de ferro e tantos fios a sair dali, em todas as direcções – era a central eléctrica do Olho-de-boi, que recebia a electricidade vinda da barragem do Castelo de Bode e a enviava para as terras do centro do país.
Claro que devo ter perguntado muitas coisas sobre a barragem, que nunca tinha visto, e a electricidade, mas não recordo quaisquer respostas e duvido que o meu pai soubesse dar-mas.
Quando o meu pai acordou, voltou a engatar a mula, subimos os dois para a carroça e retomámos a estrada, na direcção do norte e só voltámos a apear-nos, num desvio que nunca mais esqueci, em frente do Sardoal, onde havia muitos carvalhos carregadinhos de bugalhas.
O meu pai apanhou umas quantas e cortou duas ou três canas no valado que dava para um grande olival, onde era habitual virem os homens e mulheres do rancho do Ti’Mendes lá da Serra, apanhar a azeitona, nos princípios do Inverno. Chegavam a fazer três semanas, pois as oliveiras iam quase dali até aos nateiros do Tejo, que já víamos, como uma grande cobra, lá em baixo. E recordo-me do meu pai me dizer que havia tantas oliveiras que até fizeram um lagar só para moer aquela azeitona toda.
Outra vez na carroça, lá íamos estrada acima. O meu pai abriu a navalha, que nunca deixava, e cortou um canudo de cana, fechado num dos lados e fez-lhe um pequeno buraquito. Depois com um pau afiado fez uma quantidade de furos numa bugalha das mais secas e, soprando na cana, pôs a bugalha na corrente de ar, sobre o furo, fazendo-a subir e baixar, em rotação constante e mantendo-a no ar a dançar. Eu lá consegui aprender e, nem dei por chegarmos ao alto da serra de Santa Clara, onde fizemos novo alto, para um pequeno descanso.
Vista do cimo da serra, a estrada que seguia para norte, por entre a mancha de pinhal que ali tem início, parecia uma grande cobra que se estendia a perder de vista, contornando os pequenos outeiros. O meu pai explicou-me, mais ou menos, onde ficava a Serra e disse-me que não íamos atravessar as terras de Alcaravela, mas seguiríamos sempre estrada a cima, pois íamos carregados e surdia mais o andar no caminho melhor.
Achei estranho que os homens tivessem feito tantas curvas. Havia sítios em que cortar uma pequena barreira evitaria ir à volta e teria poupado muitos metros de estrada. Perguntei ao meu pai porquê? Porque tinham desenhado assim a estrada, se podiam fazê-la muito mais direita?
Sem fugir à pergunta o meu pai disse-me que quem mandava nas obras das estradas eram uns senhores que se chamavam engenheiros; que vinham com muitos aparelhos ver as terras e depois desenhavam os sítios por onde os homens deviam cavar.
Mas sempre recordo que me disse que havia muita gente para trabalhar e houve até uma altura em que esses engenheiros ganhavam ao metro e quanto maior fosse a estrada mais recebiam pelo trabalho. Assim os homens podiam trabalhar e ganhar dinheiro, como aqueles que costumavam andar lá na nossa casa.
Não percebi a explicação mas…continuámos.
O meu pai explicou-me também os marcos ao longo da estrada: os mais pequenos, de cem em cem metros; depois de cada nove pequenos vinha um maior e ao cabo de quatro desses maiores vinha um ainda maior e de outro feitio. Rematou a conversa dizendo-me que da passagem da Lameira, onde havíamos de deixar a estrada para apanhar o caminho para a Serra, até Alferrarede, havia quatro marcos dos maiores.
E é natural que meu pai tivesse sentido algum alívio, pois durante bastante tempo entretivemo-nos a contar marcos e a descobrir quando viria um dos maiores e depois os grandalhões.
Os pinheiros e algumas outras árvores, que tinham uma espécie de cinto pintado de branco e se estendiam ao longo de toda a estrada, foram também objecto de longa conversa.
Perguntei de quem eram tantos pinheiros e logo os mais grossos de todos, que estavam todos nas barreiras aos lados da estrada.
Mais uma vez meu pai, pacientemente, me explicou que a Sra Junta Autónoma das Estradas, era dona daquelas terras das barreiras das estradas e todas as árvores que lá nasciam eram dela. Explicou-me ainda que eram os cantoneiros que pintavam o branco e que tratavam aquelas árvores todas, ao longo de todas as estradas.
Quando encontrássemos um cantoneiro havíamos de perguntar para que queria a Sra Junta tantos pinheiros e se era assim tão rica que nem mandava resiná-los?
Não me lembro de ter encontrado mais cantoneiros e penso que ainda antes de chegar à saída para a Serra terei adormecido e o meu pai descansado um pouco, pois as minhas perguntas seguiam-se, ininterruptamente.
Muitos anos mais tarde tive resposta a estas dúvidas quando o meu pai me disse que quando eu fui à minha vida, para o colégio, sentiu muito a falta das minhas perguntas.
Que se lembrava de uma que o tinha atrapalhado muito: Porque tinha a estrada tantas curvas? E que durante muito tempo andou a pensar nisso, sem obter resposta, pensando que talvez fosse altura de ser eu a explicar-lhe.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Honra e preconceito
Na noite de Inverno, o vento e a chuva calaram-se pouco depois do pôr-do-sol; só os cães, as aves nocturnas e os balidos e chocalhos dos rebanhos, nas cortes, quebravam o silêncio que se abatera sobre o povoado.
A quietude e a escuridão adensavam de tal forma a atmosfera que não havia nariz que ousasse arriscar-se fora das portas.
Até as tabernas da terra fecharam, bem cedo, as portas, pondo na rua os últimos bêbedos que podiam pedir ainda mais um copito e embrulhar um paivante, aumentando o rol.
Umas duas, ou três horas depois de se recolher, o Zé da Ti’Ana, já com a carraspana meio curtida, precisou de sair para se ir baixar junto da parede do quintal, debaixo da videira que trepava na figueira despidas de folhas.
Ao olhar para os lados da Estrela, arrepiou-se todo; não havia qualquer clarão de luar e em vez de reflexo e vento, a serra mandava camadas sucessivas de borrasca e um frio de cortar à faca.
Não se enxergava, através do nevoeiro, mais de meia dúzia de metros; nem sequer se via até à outra parede do quintalzito.
Os paus das árvores pingavam e as pedras que procurou, aos apalpões, para se limpar, estavam geladas e molhadas.
Não chovia, mas a humidade era tanta que atravessava a roupa e enregelava até os ossos mais escondidos do corpo.
Voltou a entrar em casa e deitou-se.
Ao clarear do dia pouco mais luz se fez; o nevoeiro e a humidade, ajudados pelo frio, não deixaram nascer o sol.
O Zé levantou-se e foi pensar o burrito e as duas cabras, trazendo, numa malga encardida, uma pequena quantidade de leite que bebeu, ainda quente, dum trago. Acompanhou com uma côdea de pão espanhol e duas dentadas do queijo amarelo, que davam na sacristia.
Quando corria a tranqueta da porta, o Zé da Ti’Ana pensou na caminhada que teria de fazer, até aos barrocais, lá em baixo, a meio caminho da ribeira.
Talvez estivesse menos frio nas grutas do barroco maior do que ali em casa, onde a telha vã não vedava frio nem humidade e só a poder do peso da roupa, na cama, se arranjava algum calor; já que o da fogueira das giestas, se tinha acabado umas horas antes, engolido pela invernia.
Mas, ainda faltava algum tempo para a hora a que teria de ir cumprir a promessa que fizera a si próprio e ficou-se, um pouco mais, debaixo de telha.
Espreitou, pela janelita, e não viu vivalma.
Pouco depois, saiu de casa, canada fora, rumo aos barrocais.
Esticou o passo e só se deteve às vistas da ribeira, junto ao amontoado de barrocos, que tão bem conhecia, a meias com cães, gatos-bravos, raposas e lobos.
Entrou, procurou o esconderijo onde guardava as escopetas e o fuzil e partiu dali em direcção à casa do Manel Caldeireiro, onde, em permanência, só estava a Rita, filha do Manel que ganhava a vida de terra em terra e fazia ausências de semanas.
A moçoila, na casa dos trinta, de compleição física avantajada, olhos grandes, cabelos pretos e pele morena, recebia os seus amigos, ao que se dizia; todavia, ninguém jamais ousou apontar-lhe fosse o que fosse, mais com receio do mau feitio do caldeireiro que com respeito pela cachopa.
Havia fanfarrões que se gabavam, à boca pequena, disto e daquilo e nunca tinham, sequer, chegado perto da rapariga.
O Zé da Ti’Ana, mais entradote, vivia só, desde que perdera a mãe e sofria, cada vez que as línguas, soltas pelo vinho, se referiam à Rita, ocultando o seu nome, mas sendo suficientemente denunciadores, para cantar façanhas.
De todas as vezes que chegara às falas com a rapariga sempre esbarrara com uma resistência inultrapassável.
Das espreitas e investigações que lhe levaram noites a fio, nada resultou em desabono.
Tomou a decisão de pedir a rapariga em casamento, perguntando-lhe, apenas, se, a partir daquele dia, poderia obrigar, ainda que a poder de sangue, quem dissesse fosse o que fosse, a prová-lo.
A Rita olhou-o nos olhos e jurou total inocência, porque tudo o que pudessem dizer dela ela mentira.
Com a confirmação da rapariga, o Zé passou nas tabernas e disse que se casaria com a Rita.
Jurou que, a partir de então, quem acusasse a sua noiva fosse do que fosse, ou provava, ou morria.
A quietude e a escuridão adensavam de tal forma a atmosfera que não havia nariz que ousasse arriscar-se fora das portas.
Até as tabernas da terra fecharam, bem cedo, as portas, pondo na rua os últimos bêbedos que podiam pedir ainda mais um copito e embrulhar um paivante, aumentando o rol.
Umas duas, ou três horas depois de se recolher, o Zé da Ti’Ana, já com a carraspana meio curtida, precisou de sair para se ir baixar junto da parede do quintal, debaixo da videira que trepava na figueira despidas de folhas.
Ao olhar para os lados da Estrela, arrepiou-se todo; não havia qualquer clarão de luar e em vez de reflexo e vento, a serra mandava camadas sucessivas de borrasca e um frio de cortar à faca.
Não se enxergava, através do nevoeiro, mais de meia dúzia de metros; nem sequer se via até à outra parede do quintalzito.
Os paus das árvores pingavam e as pedras que procurou, aos apalpões, para se limpar, estavam geladas e molhadas.
Não chovia, mas a humidade era tanta que atravessava a roupa e enregelava até os ossos mais escondidos do corpo.
Voltou a entrar em casa e deitou-se.
Ao clarear do dia pouco mais luz se fez; o nevoeiro e a humidade, ajudados pelo frio, não deixaram nascer o sol.
O Zé levantou-se e foi pensar o burrito e as duas cabras, trazendo, numa malga encardida, uma pequena quantidade de leite que bebeu, ainda quente, dum trago. Acompanhou com uma côdea de pão espanhol e duas dentadas do queijo amarelo, que davam na sacristia.
Quando corria a tranqueta da porta, o Zé da Ti’Ana pensou na caminhada que teria de fazer, até aos barrocais, lá em baixo, a meio caminho da ribeira.
Talvez estivesse menos frio nas grutas do barroco maior do que ali em casa, onde a telha vã não vedava frio nem humidade e só a poder do peso da roupa, na cama, se arranjava algum calor; já que o da fogueira das giestas, se tinha acabado umas horas antes, engolido pela invernia.
Mas, ainda faltava algum tempo para a hora a que teria de ir cumprir a promessa que fizera a si próprio e ficou-se, um pouco mais, debaixo de telha.
Espreitou, pela janelita, e não viu vivalma.
Pouco depois, saiu de casa, canada fora, rumo aos barrocais.
Esticou o passo e só se deteve às vistas da ribeira, junto ao amontoado de barrocos, que tão bem conhecia, a meias com cães, gatos-bravos, raposas e lobos.
Entrou, procurou o esconderijo onde guardava as escopetas e o fuzil e partiu dali em direcção à casa do Manel Caldeireiro, onde, em permanência, só estava a Rita, filha do Manel que ganhava a vida de terra em terra e fazia ausências de semanas.
A moçoila, na casa dos trinta, de compleição física avantajada, olhos grandes, cabelos pretos e pele morena, recebia os seus amigos, ao que se dizia; todavia, ninguém jamais ousou apontar-lhe fosse o que fosse, mais com receio do mau feitio do caldeireiro que com respeito pela cachopa.
Havia fanfarrões que se gabavam, à boca pequena, disto e daquilo e nunca tinham, sequer, chegado perto da rapariga.
O Zé da Ti’Ana, mais entradote, vivia só, desde que perdera a mãe e sofria, cada vez que as línguas, soltas pelo vinho, se referiam à Rita, ocultando o seu nome, mas sendo suficientemente denunciadores, para cantar façanhas.
De todas as vezes que chegara às falas com a rapariga sempre esbarrara com uma resistência inultrapassável.
Das espreitas e investigações que lhe levaram noites a fio, nada resultou em desabono.
Tomou a decisão de pedir a rapariga em casamento, perguntando-lhe, apenas, se, a partir daquele dia, poderia obrigar, ainda que a poder de sangue, quem dissesse fosse o que fosse, a prová-lo.
A Rita olhou-o nos olhos e jurou total inocência, porque tudo o que pudessem dizer dela ela mentira.
Com a confirmação da rapariga, o Zé passou nas tabernas e disse que se casaria com a Rita.
Jurou que, a partir de então, quem acusasse a sua noiva fosse do que fosse, ou provava, ou morria.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Nunca o diabo mais nos leve
Os pinheiros da Caldeirinha andam a comer de três concelhos; não admira, pois, que aqueles sapeirões gozem mais que os dos vizinhos que, naquela pissara, pouco mais têm que terra para sobreviverem.
Cada uma daquelas árvores vale por uma boa meia dúzia das da courela vizinha.
Só mete ali o ferro quem pagar bem.
Com estas afirmações, o Ti’Alberto entrava na taberna seguido pelo Bento, comprador de resinas por conta das fábricas de Leiria. E, já ao pé do balcão, acenou ao Manuel que deitasse uns copos de vinho, convidando o Chico Alfaiate, resineiro da terra, a beber com eles e a dizer se havia em toda a área das redondezas pinheiros mais leiteiros que os da sua,da Caldeirinha.
O resineiro confirmou que, de facto, não conhecia árvores que melhor fundissem do que um bom magote lá da Caldeirinha, embora também lá houvesse alguns mais fracotes.
Dava gosto passar a mudar os canecos duas ou três vezes, em cada colha. São árvores desenxovalhadas; deviam espalhar-se os pinhões delas por mais lados…
Aqui, entrou o Ti’Alberto: E a terra também a espalhavam, ora não?!...
O Bento que sabia ser verdade tudo o que acabava de ouvir, embora não lhe conviesse a conversa, acercou-se do Ti’Alberto, estendeu a mão e disse-lhe, em surdina: não se fala mais nisso; são os dez mil réis por cada bica da Caldeirinha e pelos seus restantes, o preço de toda a área: seis mil réis.
Está feito?!... O Ti’Alberto acenou ao taberneiro que deitasse mais uns copos e disse: Está feito, homem… mais um ano em que me enganas, mas… nunca o diabo mais nos leve!...
Ao recordar estas cenas, repassadas de uma simplicidade tão pungente e enternecedora, em que em frente do balcão da taberna se faziam os negócios, repletos de arte e manha, mas envolvidos numa ingenuidade pura e sã, não podemos esquecer as premonições da última frase do Ti’Alberto: … nunca o diabo mais nos leve!...
É que, desde aqueles anos sessenta em que muitos de nós, então jovens adolescentes, estudámos fora das nossas aldeias e por esse país além alcançámos lugares nunca pensados pelos nossos avós, à custa daqueles pinheiros que dando mais ou menos resina rendiam os cobres com que os nossos pais pagavam estudos, aboletamento e confortos que nunca tinham experimentado, tudo mudou…
E, infelizmente, tudo o diabo lhes levou!...
As transformações políticas, primeiro; os incêndios, depois, reduziram a nada aquela exploração de uma matéria-prima que, como nos ensinaram na escola, dava origem a uma farta gama de produtos, desde farmacêuticos a químicos e cosméticos e constituía uma riqueza nacional.
Nunca compreendemos como foi possível tal estado de coisas e é com muita mágoa que só na lembrança restam aqueles pinhais, de árvores esbeltas, que, generosamente, vertiam nos canecos a resina que escorria das suas sangrias.
Não se mataram apenas os pinheiros; foram, com eles, muitas gotas de sangue das gentes que viram o diabo levar-lhes tudo, quer ele vestisse a pele dos políticos, quer fosse um qualquer incendiário.
Aquelas gentes, que passaram a depender das esmolas dos poderes públicos, podem até viver melhor, ter melhores acessos e comunicações, desfrutar de alguns confortos das sociedades modernas, mas não são felizes… nunca aprenderam, nem se conformaram, a viver de esmolas; nunca comeram nada que não soubessem como lhes chegava às mãos e sempre se consideraram senhores de si próprios; nunca perceberam as razões dos que, alto e bom som, dizem que lhes vão fechar o hospital, a escola ou o posto médico; nunca aceitaram os que querem proibi-los de beber a água dos seus poços, comer a carne dos seus porcos e a desfrutar da floresta que, impunemente, alguns teimam em queimar-lhes.
Gentes de tanto querer, almas de tanta fé e vontades tão indómitas, deram lugar a populações descrentes, almas sem esperança e velhos resignados; todos sem alegria e esperando, pacientemente, o resto dos seus dias.
Cada uma daquelas árvores vale por uma boa meia dúzia das da courela vizinha.
Só mete ali o ferro quem pagar bem.
Com estas afirmações, o Ti’Alberto entrava na taberna seguido pelo Bento, comprador de resinas por conta das fábricas de Leiria. E, já ao pé do balcão, acenou ao Manuel que deitasse uns copos de vinho, convidando o Chico Alfaiate, resineiro da terra, a beber com eles e a dizer se havia em toda a área das redondezas pinheiros mais leiteiros que os da sua,da Caldeirinha.
O resineiro confirmou que, de facto, não conhecia árvores que melhor fundissem do que um bom magote lá da Caldeirinha, embora também lá houvesse alguns mais fracotes.
Dava gosto passar a mudar os canecos duas ou três vezes, em cada colha. São árvores desenxovalhadas; deviam espalhar-se os pinhões delas por mais lados…
Aqui, entrou o Ti’Alberto: E a terra também a espalhavam, ora não?!...
O Bento que sabia ser verdade tudo o que acabava de ouvir, embora não lhe conviesse a conversa, acercou-se do Ti’Alberto, estendeu a mão e disse-lhe, em surdina: não se fala mais nisso; são os dez mil réis por cada bica da Caldeirinha e pelos seus restantes, o preço de toda a área: seis mil réis.
Está feito?!... O Ti’Alberto acenou ao taberneiro que deitasse mais uns copos e disse: Está feito, homem… mais um ano em que me enganas, mas… nunca o diabo mais nos leve!...
Ao recordar estas cenas, repassadas de uma simplicidade tão pungente e enternecedora, em que em frente do balcão da taberna se faziam os negócios, repletos de arte e manha, mas envolvidos numa ingenuidade pura e sã, não podemos esquecer as premonições da última frase do Ti’Alberto: … nunca o diabo mais nos leve!...
É que, desde aqueles anos sessenta em que muitos de nós, então jovens adolescentes, estudámos fora das nossas aldeias e por esse país além alcançámos lugares nunca pensados pelos nossos avós, à custa daqueles pinheiros que dando mais ou menos resina rendiam os cobres com que os nossos pais pagavam estudos, aboletamento e confortos que nunca tinham experimentado, tudo mudou…
E, infelizmente, tudo o diabo lhes levou!...
As transformações políticas, primeiro; os incêndios, depois, reduziram a nada aquela exploração de uma matéria-prima que, como nos ensinaram na escola, dava origem a uma farta gama de produtos, desde farmacêuticos a químicos e cosméticos e constituía uma riqueza nacional.
Nunca compreendemos como foi possível tal estado de coisas e é com muita mágoa que só na lembrança restam aqueles pinhais, de árvores esbeltas, que, generosamente, vertiam nos canecos a resina que escorria das suas sangrias.
Não se mataram apenas os pinheiros; foram, com eles, muitas gotas de sangue das gentes que viram o diabo levar-lhes tudo, quer ele vestisse a pele dos políticos, quer fosse um qualquer incendiário.
Aquelas gentes, que passaram a depender das esmolas dos poderes públicos, podem até viver melhor, ter melhores acessos e comunicações, desfrutar de alguns confortos das sociedades modernas, mas não são felizes… nunca aprenderam, nem se conformaram, a viver de esmolas; nunca comeram nada que não soubessem como lhes chegava às mãos e sempre se consideraram senhores de si próprios; nunca perceberam as razões dos que, alto e bom som, dizem que lhes vão fechar o hospital, a escola ou o posto médico; nunca aceitaram os que querem proibi-los de beber a água dos seus poços, comer a carne dos seus porcos e a desfrutar da floresta que, impunemente, alguns teimam em queimar-lhes.
Gentes de tanto querer, almas de tanta fé e vontades tão indómitas, deram lugar a populações descrentes, almas sem esperança e velhos resignados; todos sem alegria e esperando, pacientemente, o resto dos seus dias.
sábado, 30 de outubro de 2010
A Ti’Coluna
No cimo do esconso da rua de S. Pedro, onde acabava a calçada de pedras reboludas e escorregadias e começavam os degraus das escadas que iriam terminar frente ao portão do colégio, as casas, de um lado e do outro, eram as do Ferreira Mesquita e da sogra.
Por ali andavam sempre os garotos, ranhosos e reveladores de falta de cuidados, à mistura com galinhas, gatos e um cãozito, pouco agressivo para os passantes e com as carraças nas orelhas, bem visíveis.
Uns metros mais abaixo, à direita de quem descia, numa casita térrea, com frente de uma porta e uma janela, telhado de uma só água, a correr para a rua e com um quintalito nas traseiras, morava a Ti’Coluna, mais conhecida por “comadre Coluna”, devido aos inúmeros nascimentos a que havia já assistido.
Mulher corpulenta, de idade bastante avançada, capaz de satisfazer as suas necessidades, passava os dias à janela, a ver os estudantes, e uma vez por dia, descia até à praça, com a alcofa das compras.
Parava, normalmente, ao cimo do primeiro lance de escadas e sentava-se num pequeno patamar à porta da casa do sr Luís Catarino, a seguir à torre do relógio.
Descansava, ouvia e dava as notícias, tomava fôlego e lá arrancava, rua acima até chegar a sua casa.
Quando calhava dar-lhe uma ajudinha no transporte da alcofa, quer fosse o António Agostinho, filho da Ti’Mari’Bela, quer fosse um dos seus hóspedes, entre os quais eu me incluía, havia sempre uma pequena história e duas ou três ervilhanas, um rebuçadito, ou uma bolacha que já estava preparada junto da porta de casa, numa pequena terrina, sobre a mesa da salita.
Quando descia, voltava a parar na torre do relógio, cumprimentava os que passavam, pois era conhecida d os estudantes, que subiam e desciam, duas ou quatro vezes por dia, a rua mais inclinada da vila, no dizer da Ti’Coluna.
As histórias da velhota prendiam-se com as três gerações que compunham a sua vida, como dizia. Reportavam aos tempos da Monarquia e aos anos que se lhe seguiram, nos atribulados primeiros percalços da República.
Falava das saudades do rei D. Carlos que tivera oportunidade de ver, em Lisboa, das dificuldades que a velhice lhe revelou: mãe de vários filhos, nunca quis encostar-se a nenhum, apesar de todos viverem bem.
Mas, sozinha, vivia contente por ver tanta gente nova a fazer pela vida, subindo e descendo a ladeira de S. Pedro que, durante décadas foi rua pacata e morta, onde raramente passava alguém e agora fervia de gente e vida.
Desde que veio o colégio, foi uma alegria, um rejuvenescer para as gentes daquela rua cuja vida corria toda no sentida da praça e agora era ao contrário.
Mulher devota e cumpridora dos seus deveres de cristã, ajudava nos arranjos das igrejas e não faltava às principais cerimónias religiosas.
Era especialista na assistência a partos e tratava, como ninguém, um doente acamado. Ajudava, sempre que sentia necessidades e até onde as forças lhe permitiam.
Nunca consegui saber a idade da Ti’Coluna, mas parece-me que seria quase centenária.
Na base das suas opiniões, as coisas não acontecem por acaso e ia explicando o que a vida lhe ensinara:
- Estás a ver esta ladeira, a maior da vila, que todos os dias tens de subir para chegares ao colégio? E, depois, quando chegas lá ao cimo, tens a vila a teus pés, olhas e vês lá longe as terras de Gavião, ou se olhares para o outro lado, as serras do Bando e, mais longe, os montes já da Beira Baixa quase toda!
Na vida, os caminhos mais difíceis levam-nos às coisas melhores.
Quantos há que nunca subiram a ladeira da rua de S. Pedro, porque só havia lá eucaliptos e para chegar ao Calvário iam dar uma volta.
E que bom teria sido, se tivessem subido a rua, para o colégio: teriam hoje melhor emprego, teriam sido alguém diferente do que são, poderiam chegar mais alto.
Não achas que vale a pena subir a rua?
Até eu, que sou muito mais velha, gosto de morar cá em cima: vejo mais longe!... Já aprendeste o que é o horizonte? Gostas de estudar Geografia?...
Mas, cuidado: é preciso força e determinação.
Vês os do Ferreira Mesquita, não sobem até ao cimo da rua, espalham-se por ela abaixo à espera que lhe dêem alguma coisa para comer.
Também não têm quem os mande estudar, mas isso não é o caso dos meninos a quem os pais não querem que nada falte. A esses ninguém perdoaria que não aproveitassem bem as oportunidades que lhes estendem à frente.
Lembrem-se, pois, que há que subir e descer a rua, tantas vezes quantas for preciso e quanto mais depressa deixarem de subir, porque chegaram ao cimo, melhor. Uma coisa é certa, desistir, nunca!...;
É para os fracos e dos fracos não reza a História.
Porém, cá a velhota quer deixar-te um último aviso: quando se chega ao cimo das ladeiras temos de continuar a andar; o mundo não para e a vida não se esgota ali.
Atrás duma subida vem sempre outra e, por vezes, até mais íngreme; porém as forças aumentam com o exercício e as dificuldades diminuem com a força da nossa vontade.
Lembrem-se do que lhes diz a velha Coluna e, se puderem, cheguem à minha idade, rijos como eu; a vida deixar-se-á dominar e as coisas boas vão fazer-vos esquecer o que parece mais difícil e complicado, em cada dia que passa.
Vou pedir a Deus que vos satisfaça todos os vossos desejos, mas não se esqueçam de ajudar sempre a consegui-los!... A vossa ajuda é para lá de meio caminho andado!...
Por ali andavam sempre os garotos, ranhosos e reveladores de falta de cuidados, à mistura com galinhas, gatos e um cãozito, pouco agressivo para os passantes e com as carraças nas orelhas, bem visíveis.
Uns metros mais abaixo, à direita de quem descia, numa casita térrea, com frente de uma porta e uma janela, telhado de uma só água, a correr para a rua e com um quintalito nas traseiras, morava a Ti’Coluna, mais conhecida por “comadre Coluna”, devido aos inúmeros nascimentos a que havia já assistido.
Mulher corpulenta, de idade bastante avançada, capaz de satisfazer as suas necessidades, passava os dias à janela, a ver os estudantes, e uma vez por dia, descia até à praça, com a alcofa das compras.
Parava, normalmente, ao cimo do primeiro lance de escadas e sentava-se num pequeno patamar à porta da casa do sr Luís Catarino, a seguir à torre do relógio.
Descansava, ouvia e dava as notícias, tomava fôlego e lá arrancava, rua acima até chegar a sua casa.
Quando calhava dar-lhe uma ajudinha no transporte da alcofa, quer fosse o António Agostinho, filho da Ti’Mari’Bela, quer fosse um dos seus hóspedes, entre os quais eu me incluía, havia sempre uma pequena história e duas ou três ervilhanas, um rebuçadito, ou uma bolacha que já estava preparada junto da porta de casa, numa pequena terrina, sobre a mesa da salita.
Quando descia, voltava a parar na torre do relógio, cumprimentava os que passavam, pois era conhecida d os estudantes, que subiam e desciam, duas ou quatro vezes por dia, a rua mais inclinada da vila, no dizer da Ti’Coluna.
As histórias da velhota prendiam-se com as três gerações que compunham a sua vida, como dizia. Reportavam aos tempos da Monarquia e aos anos que se lhe seguiram, nos atribulados primeiros percalços da República.
Falava das saudades do rei D. Carlos que tivera oportunidade de ver, em Lisboa, das dificuldades que a velhice lhe revelou: mãe de vários filhos, nunca quis encostar-se a nenhum, apesar de todos viverem bem.
Mas, sozinha, vivia contente por ver tanta gente nova a fazer pela vida, subindo e descendo a ladeira de S. Pedro que, durante décadas foi rua pacata e morta, onde raramente passava alguém e agora fervia de gente e vida.
Desde que veio o colégio, foi uma alegria, um rejuvenescer para as gentes daquela rua cuja vida corria toda no sentida da praça e agora era ao contrário.
Mulher devota e cumpridora dos seus deveres de cristã, ajudava nos arranjos das igrejas e não faltava às principais cerimónias religiosas.
Era especialista na assistência a partos e tratava, como ninguém, um doente acamado. Ajudava, sempre que sentia necessidades e até onde as forças lhe permitiam.
Nunca consegui saber a idade da Ti’Coluna, mas parece-me que seria quase centenária.
Na base das suas opiniões, as coisas não acontecem por acaso e ia explicando o que a vida lhe ensinara:
- Estás a ver esta ladeira, a maior da vila, que todos os dias tens de subir para chegares ao colégio? E, depois, quando chegas lá ao cimo, tens a vila a teus pés, olhas e vês lá longe as terras de Gavião, ou se olhares para o outro lado, as serras do Bando e, mais longe, os montes já da Beira Baixa quase toda!
Na vida, os caminhos mais difíceis levam-nos às coisas melhores.
Quantos há que nunca subiram a ladeira da rua de S. Pedro, porque só havia lá eucaliptos e para chegar ao Calvário iam dar uma volta.
E que bom teria sido, se tivessem subido a rua, para o colégio: teriam hoje melhor emprego, teriam sido alguém diferente do que são, poderiam chegar mais alto.
Não achas que vale a pena subir a rua?
Até eu, que sou muito mais velha, gosto de morar cá em cima: vejo mais longe!... Já aprendeste o que é o horizonte? Gostas de estudar Geografia?...
Mas, cuidado: é preciso força e determinação.
Vês os do Ferreira Mesquita, não sobem até ao cimo da rua, espalham-se por ela abaixo à espera que lhe dêem alguma coisa para comer.
Também não têm quem os mande estudar, mas isso não é o caso dos meninos a quem os pais não querem que nada falte. A esses ninguém perdoaria que não aproveitassem bem as oportunidades que lhes estendem à frente.
Lembrem-se, pois, que há que subir e descer a rua, tantas vezes quantas for preciso e quanto mais depressa deixarem de subir, porque chegaram ao cimo, melhor. Uma coisa é certa, desistir, nunca!...;
É para os fracos e dos fracos não reza a História.
Porém, cá a velhota quer deixar-te um último aviso: quando se chega ao cimo das ladeiras temos de continuar a andar; o mundo não para e a vida não se esgota ali.
Atrás duma subida vem sempre outra e, por vezes, até mais íngreme; porém as forças aumentam com o exercício e as dificuldades diminuem com a força da nossa vontade.
Lembrem-se do que lhes diz a velha Coluna e, se puderem, cheguem à minha idade, rijos como eu; a vida deixar-se-á dominar e as coisas boas vão fazer-vos esquecer o que parece mais difícil e complicado, em cada dia que passa.
Vou pedir a Deus que vos satisfaça todos os vossos desejos, mas não se esqueçam de ajudar sempre a consegui-los!... A vossa ajuda é para lá de meio caminho andado!...
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
As onze casas
Quando a menina ainda mal sabia contar, contou, um dia, aquelas casas e encontrou onze.
Nunca mais esqueceu que algures, num lugar que muito pouca gente conhecia – o que achava uma pena – havia onze casas, onde tinham nascido, crescido e morrido muitas pessoas. Gente tão engraçada e importante, ainda que a maior parte deles nunca de lá tivesse saído e bastasse o nome de baptismo, ou uma alcunha, para a sua identificação.
A casa do Ti’Serafim, imponente, resistindo de pé e mostrando a sua varanda de madeira, sobre os cómodos dos animais; a da Ti’Deolinda, onde ainda restavam os alegretes e restos de cravinas brancas que tantas vezes alegraram os altares da capela; a da Rosita, reduzida a um monte de pedras, onde a parede da janelita – a da Rosita – se mantinha de pé, por entre as silvas e ramos de um sabugueiro que ali medrava; a da Ti’Perpétua, que só a memória podia imaginar; lá no cimo da cumeada, a da Ti’Leonor, decepada pelo alargamento da estrada e, virada a poente, a da Tia Carmina, de onde tantas vezes a menina tinha visto descer o sol abaixo do horizonte.
A da madrinha, Tia Maximina, donde trazia cotos de velas retirados da igreja, para prolongar as leituras nos longos serões de inverno, às escondidas da mãe; a da Ti’Augusta, limpinha e a cheirar a lavado e a qualquer coisa exótica que ainda hoje excita o olfacto da menina; pelo contrário, a da Ti’Rosa, baixinha, de telha vã e com algumas telhas levantadas, por cima da lareira para deixar sair a fumarada que dava um ar sombrio, pesado e bafiento, na cozinha; e a da Ti’Ana, que um dia voltou, lá de S. Simão, para os lados de Litém, onde sempre fizera vida, com a madrinha, criada de padre.
Finalmente a casa da Boxa, onde estavam as raízes da menina, e marco de várias gerações de gente especial, que apesar da exiguidade de meios e estímulos, sempre soube olhar para cima, cultivar o espírito ao lado das terras e servir de pólo de muitas das actividades da terra. Desde as festas e acontecimentos na eira, à casa da escola, onde aprenderam as primeiras letras muitas crianças, passando pelos bailes e festanças, quer por ocasião de ceifas, malhas, recolhas de milho, feijão, chícharos e outras novidades… gente diferente, voltada para coisas diferentes das do dia-a-dia da terra.
Falta referir as de Lisboa, onde morou o Ti’Manel e por onde passou a menina, quando foi em busca de mais saber, maiores horizontes, melhores meios e mais, muito mais discernimento e cultura, de que trazia o gérmen lá da casa da Boxa e dos seus avoengos directos e colaterais.
As casas não eram as únicas da Terra.
Havia outras sem ninguém especial para a pequenita. E havia também casas de ninguém, que já tinham sido lares de alguém, assim como outras que ainda podiam ser ocupadas e algumas de que restavam sinais de terem sido. Era confuso de mais e por isso a menina iria ficar-se por aquelas onze, cujas pessoas, simples, lhe diziam mais.
As ligações entre as casas e os nomes que de lá respondiam, resumiam a história da terra e das gentes que, em cada época, foram o povo do lugar.
As casas eram o bilhete de identidade de quem lá vivia, ou lá tinha vivido.
As pedras de xisto, lousinhas muito bem arrumadas no barro que as une, as padieiras das portas e janelas, as lajes mais compridas e meticulosamente travadas, resistiram a intempéries, mexidas da Terra e agressões naturais, mantendo os cunhais perpendiculares e as traves e barrotes, mais velhas que todos os do local, conservavam os telhados todos alinhados. As soleiras das portas e os parapeitos das janelas, ouviam ainda o ranger dos gonzos ferrugentos e das taramelas há muito cerradas.
Por trás de portas e janelas as trancas fechavam o que, de um modo geral, se mantinha aberto; os da terra não mexeriam no alheio e qualquer estranho era imediatamente referenciado e vigiado, tornando assim dispensáveis as chaves e fechaduras.
Até os cães tinham o registo olfactivo e visual de toda a gente da terra e evidenciavam logo, a qualquer forasteiro, o seu estado de alerta, mostrando os dentes, com ar de desprezo e mirando, pelo canto do olho.
As pernadas mais direitas de castanho, eram utilizadas para barrotes e traves dos telhados. As madeiras melhores e mais grossas, serradas nas burras e cavaletes, aplicavam-se nos sobrados, nas arcas de cerejeira, laranjeira ou nogueira, nos estrados das camas de ferro e nas cómodas, das casas mais abastadas, que ostentavam, na parte superior, um oratório.
Na cozinha, os cântaros e outros utensílios de barro vermelho, estavam arrumados na cantareira e, num dos lados, debaixo da chaminé, que se elevava acima do fumeiro, estava a lareira, onde sobre as trempes ferviam as panelas de ferro, de arco ou de três pés, as caldeiras de cobre e os tachos de folha.
As talhas do azeite, do mel e das azeitonas curtidas, bem como a salgadeira, guardavam-se na despensa.
A cozinha era a principal divisão da casa. Ali se comia, guardava a lenha, no respectivo canto, se guardava a masseira com a farinha para preparar o pão que, semanalmente, se cozia no forno da casa, ou, no comunitário, usado por toda a aldeia. Estava ainda a francela dos queijos e suspensa dos barrotes do telhado a tábua onde, depois de feitos, os queijos faziam a primeira seca, antes de serem vendidos, ou guardados em azeite, para conduto de todo o ano.
Na casa “grande”, também dita “de fora” estavam os pertences para a higiene das visitas: lavatório, com bacia, jarro da água e toalha de linho. Duas ou três arcas com roupas, ou cereais, onde se guardava o pão cozido, bolos, algumas frutas e não raro a bolsita do dinheiro para mercearia, peixe e farrapos que os tendeiros iam vender, de porta em porta.
Muitas vezes, na cabana anexa, havia uma lareira que poupava a da casa e lá se passavam os serões das longas noites de inverno.
O pucarinho sobre o asado, que ocupava a prateleira inferior da cantareira, juntamente com o cântaro, estava sempre preparado para dessedentar quem precisasse.
Sob o sobrado viajavam os gatos, que mantinham o espaço livre de ratos e outros hóspedes indesejáveis e para lá se esgueiravam pela gateira, aberta junto da porta e acabando por sair do lado oposto, junto ao canto da lenha.
Os campos, as hortas e o aproveitamento de tudo o que fosse terra arável e possível de ser regada pelas levadas feitas e conservadas a preceito, bem como as cortes de animais, as estrumeiras nas ruas das testadas das casas, onde se preparava o esterco com que se adubavam as terras menos férteis, eram outra parte dos rituais da vida rural das aldeias.
A iluminação por candeias e lanternas de azeite e, mais tarde, pelos candeeiros de petróleo, viria, muitos anos mais tarde, a ser substituída pela electricidade que a menina conheceu, pela primeira vez, quando foi à vila e utilizou, anos depois, quando foi para a cidade grande, para casa dos tios, à procura de mais vida, que só poderia encontrar em salas maiores que a da casa da Boxa, onde o pai ensinava os meninos e meninas da terra.
Porém, quanto mais ia compreendendo que afinal o mundo já era diferente e que todos os dias caminhava para coisas mais sofisticadas, mais os olhitos se encantavam com o bucolismo dos campos, a serenidade das gentes, a simplicidade daquelas casas, a beleza dos campos, o chilrear dos passaritos nas árvores dos quintais e das tapadas.
Depois, o balido dos cordeirinhos, os chocalhos e o chiar das rodas das carroças, davam lugar ao pesado silêncio que, com o escuro, se abatia sobre as casas da aldeia. Só o ladrar dos cães quebrava o encanto, a serenidade e o misticismo da noite que voltaria a despertar o carinho e apreço por aquelas gentes que elevavam tão alto o espírito ao falarem com Deus, não para se lamentarem, mas para agradecerem.
Anos depois, já no bulício da grande metrópole, com a influência de muitas leituras e tendo contacto com todo um manancial de recursos que a vida lhe não mostrou logo ao acordar para ela, as reminiscências da infância seriam capazes de descrever pedra por pedra, planta por planta e até latido por latido, tudo o que deixara entre aquelas onze casas, que continuavam a ser um mundo, independente de todos os mundos que viessem a cruzar-se na sua vida.
E, não raro, relembrava tudo o que temporariamente deixara para trás, no tempo, mas mantinha bem presente na sua memória. Na cidade tinha pouca Natureza para sentir e amar, mas a sua imaginação substituía-se à realidade e cada vez eram mais fortes os sentimentos de apego às realidades que lhe eram queridas e recordava com tantas saudades..
As casas, que não eram estendidas e encaixadas nos desvãos das terras, mas todas encostadas umas às outras, como cogumelos de favos de colmeias, com imensas janelas de vidro, casas de banho, luz eléctrica, telefone, rádios e, pouco depois, televisão, não fizeram esquecer as da terra. Eram mais feias.
Ao contornar o jardim dos animais, para apanhar o eléctrico até à escola que lá em Benfica, ali nas barbas da mata de Monsanto, se erguia, imponente sobre as terras da quinta, onde ainda pastavam as vacas, minoravam, em silêncio, as carências de tudo o que de bom deixou para trás.
Respirava o cheiro dos bichos lá no jardim, ouvia os gritos das aves de rapina e outras vozes familiares, deleitava-se com o rebanho que nas terras da Estrada da Luz aparecia, aos fins de tarde, nos baldios onde ainda não tinham feito casas.
Na mata de Benfica, à sombra de árvores seculares, onde esvoaçavam pássaros, cujos trinados levavam a menina para os contrafortes da serra, sentada num banco de ferro, iludiu, muitas vezes, as saudades das onze casas e, fechando os olhos, deixava-se transportar até ao pé da ribeira onde a azenha rodopiava e de onde sairia o moleiro, empurrando o burrito, ladeira acima, levando os taleigos de farinha.
Até que foi morar mesmo ali para ao pé da mata; e, já havia um espaço para jardim, um cãozito para guardar a casa e um maior espaço para flores. O sol entrava dentro de casa que ainda cheirava a nova. A figueira e o limoeiro eram um faz de conta de pomar e quando se regavam as flores já se sentia o cheiro, tão característico e chamativo, de terra regada.
Para ir para a escola não era preciso ir “a cavalo” nos transportes e ao atravessar as ruas de vivendas até chegar junta da estação de comboio de Benfica ia contemplando as casas e os jardins que ainda no começo faziam adivinhar agradáveis vistas no futuro.
Nos dias de folga podia ir à mata de S. Domingos de Benfica, ali nas abas da Serra de Monsanto e, no primeiro Natal que passou no Bairro, lembra-se de um lindo presépio, à maneira da sua infância, feito com belos tufos de musgo da mata de S. Domingos.
Quando caminhava pelas ruas da cidade, não esquecia os regatos que atravessavam as ruas da aldeia, das manhãs de inverno em que o taró soprava cortante e o codo espalhava um lençol branco e quebradiço, sobre todas as terras.
Sentia a falta do brilho, do calor e do crepitar da lareira; estranhava a iluminação nocturna e o ruído dos motores dos carros e fazia-lhe falta o barulho dos cães para lhe trazer o sono.
Numa palavra o bulício do dia-a-dia da cidade provocava-lhe nostalgia e solidão. E, quem olhasse direito para aqueles olhos acabaria por ver neles uma ligação ao imaginário da arte, da contemplação e da distância que a menina associa e, talvez com fundamento, às suas ancestrais raízes da casa da Boxa.
As idas às onze casas são cada vez mais espaçadas. E são bem visíveis as mudanças que, conformados, aceitamos como sinais dos tempos. As transformações, porque as pedras se desagregassem e os telhados acabassem reduzidos a um montão de barrotes podres e telhas partidas; porque o progresso implica alargamento de ruas e acessos e leva na voragem as recordações e relíquias; porque um estrangeirado, ignorando a sensibilidade, da menina das onze casas, e de todos os espíritos que por lá pairam, passou um dia, por lá, e decidiu restaurar uma daquelas casas para passar o resto dos seus dias; ou, ainda, porque alguém a que o povo chama “cão do hortelão”, significando o que não come nem deixa comer, não repara, nem deixa reparar e não vende, não troca nem dá, como que perpetuando recordações que talvez não lhe sejam muito gratas, mas em que estão envolvidos os seus avós.
Nessas idas, as onze vão sendo dez, depois serão nove e, quem sabe, até quando haverá alguns vestígios do que foi ninho de amor, de sofrimento e também última morada, de muita gente que durante séculos e séculos foram os expoentes da massa anónima de onde brotaram e sobressaíram as elites que construíram a cultura e identidade de um País, com dez séculos de história.
Restarão, pelo menos enquanto a nossa geração sentir o apelo das raízes mais profundas da cultura e vivência que nos viram crescer, umas quantas casas da Boxa, que, sejamos razoáveis, hão-de ser cada vez menos, pois, parafraseando o nosso estimado poeta A. Aleixo…
Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado.
O ribeirinho não morre
Vai correr para outro lado.
E, nada melhor que contar, ainda que sem a arte e engenho necessários, um pouco da sua história e das suas raízes, para homenagear aquela gente simples que, como a menina da casa da Boxa, viram aquilo que somos e o que podemos ser, embora sabendo, como o poeta, que a vida não vai mais parar… o ribeirinho, da vida, não morre.
Nunca mais esqueceu que algures, num lugar que muito pouca gente conhecia – o que achava uma pena – havia onze casas, onde tinham nascido, crescido e morrido muitas pessoas. Gente tão engraçada e importante, ainda que a maior parte deles nunca de lá tivesse saído e bastasse o nome de baptismo, ou uma alcunha, para a sua identificação.
A casa do Ti’Serafim, imponente, resistindo de pé e mostrando a sua varanda de madeira, sobre os cómodos dos animais; a da Ti’Deolinda, onde ainda restavam os alegretes e restos de cravinas brancas que tantas vezes alegraram os altares da capela; a da Rosita, reduzida a um monte de pedras, onde a parede da janelita – a da Rosita – se mantinha de pé, por entre as silvas e ramos de um sabugueiro que ali medrava; a da Ti’Perpétua, que só a memória podia imaginar; lá no cimo da cumeada, a da Ti’Leonor, decepada pelo alargamento da estrada e, virada a poente, a da Tia Carmina, de onde tantas vezes a menina tinha visto descer o sol abaixo do horizonte.
A da madrinha, Tia Maximina, donde trazia cotos de velas retirados da igreja, para prolongar as leituras nos longos serões de inverno, às escondidas da mãe; a da Ti’Augusta, limpinha e a cheirar a lavado e a qualquer coisa exótica que ainda hoje excita o olfacto da menina; pelo contrário, a da Ti’Rosa, baixinha, de telha vã e com algumas telhas levantadas, por cima da lareira para deixar sair a fumarada que dava um ar sombrio, pesado e bafiento, na cozinha; e a da Ti’Ana, que um dia voltou, lá de S. Simão, para os lados de Litém, onde sempre fizera vida, com a madrinha, criada de padre.
Finalmente a casa da Boxa, onde estavam as raízes da menina, e marco de várias gerações de gente especial, que apesar da exiguidade de meios e estímulos, sempre soube olhar para cima, cultivar o espírito ao lado das terras e servir de pólo de muitas das actividades da terra. Desde as festas e acontecimentos na eira, à casa da escola, onde aprenderam as primeiras letras muitas crianças, passando pelos bailes e festanças, quer por ocasião de ceifas, malhas, recolhas de milho, feijão, chícharos e outras novidades… gente diferente, voltada para coisas diferentes das do dia-a-dia da terra.
Falta referir as de Lisboa, onde morou o Ti’Manel e por onde passou a menina, quando foi em busca de mais saber, maiores horizontes, melhores meios e mais, muito mais discernimento e cultura, de que trazia o gérmen lá da casa da Boxa e dos seus avoengos directos e colaterais.
As casas não eram as únicas da Terra.
Havia outras sem ninguém especial para a pequenita. E havia também casas de ninguém, que já tinham sido lares de alguém, assim como outras que ainda podiam ser ocupadas e algumas de que restavam sinais de terem sido. Era confuso de mais e por isso a menina iria ficar-se por aquelas onze, cujas pessoas, simples, lhe diziam mais.
As ligações entre as casas e os nomes que de lá respondiam, resumiam a história da terra e das gentes que, em cada época, foram o povo do lugar.
As casas eram o bilhete de identidade de quem lá vivia, ou lá tinha vivido.
As pedras de xisto, lousinhas muito bem arrumadas no barro que as une, as padieiras das portas e janelas, as lajes mais compridas e meticulosamente travadas, resistiram a intempéries, mexidas da Terra e agressões naturais, mantendo os cunhais perpendiculares e as traves e barrotes, mais velhas que todos os do local, conservavam os telhados todos alinhados. As soleiras das portas e os parapeitos das janelas, ouviam ainda o ranger dos gonzos ferrugentos e das taramelas há muito cerradas.
Por trás de portas e janelas as trancas fechavam o que, de um modo geral, se mantinha aberto; os da terra não mexeriam no alheio e qualquer estranho era imediatamente referenciado e vigiado, tornando assim dispensáveis as chaves e fechaduras.
Até os cães tinham o registo olfactivo e visual de toda a gente da terra e evidenciavam logo, a qualquer forasteiro, o seu estado de alerta, mostrando os dentes, com ar de desprezo e mirando, pelo canto do olho.
As pernadas mais direitas de castanho, eram utilizadas para barrotes e traves dos telhados. As madeiras melhores e mais grossas, serradas nas burras e cavaletes, aplicavam-se nos sobrados, nas arcas de cerejeira, laranjeira ou nogueira, nos estrados das camas de ferro e nas cómodas, das casas mais abastadas, que ostentavam, na parte superior, um oratório.
Na cozinha, os cântaros e outros utensílios de barro vermelho, estavam arrumados na cantareira e, num dos lados, debaixo da chaminé, que se elevava acima do fumeiro, estava a lareira, onde sobre as trempes ferviam as panelas de ferro, de arco ou de três pés, as caldeiras de cobre e os tachos de folha.
As talhas do azeite, do mel e das azeitonas curtidas, bem como a salgadeira, guardavam-se na despensa.
A cozinha era a principal divisão da casa. Ali se comia, guardava a lenha, no respectivo canto, se guardava a masseira com a farinha para preparar o pão que, semanalmente, se cozia no forno da casa, ou, no comunitário, usado por toda a aldeia. Estava ainda a francela dos queijos e suspensa dos barrotes do telhado a tábua onde, depois de feitos, os queijos faziam a primeira seca, antes de serem vendidos, ou guardados em azeite, para conduto de todo o ano.
Na casa “grande”, também dita “de fora” estavam os pertences para a higiene das visitas: lavatório, com bacia, jarro da água e toalha de linho. Duas ou três arcas com roupas, ou cereais, onde se guardava o pão cozido, bolos, algumas frutas e não raro a bolsita do dinheiro para mercearia, peixe e farrapos que os tendeiros iam vender, de porta em porta.
Muitas vezes, na cabana anexa, havia uma lareira que poupava a da casa e lá se passavam os serões das longas noites de inverno.
O pucarinho sobre o asado, que ocupava a prateleira inferior da cantareira, juntamente com o cântaro, estava sempre preparado para dessedentar quem precisasse.
Sob o sobrado viajavam os gatos, que mantinham o espaço livre de ratos e outros hóspedes indesejáveis e para lá se esgueiravam pela gateira, aberta junto da porta e acabando por sair do lado oposto, junto ao canto da lenha.
Os campos, as hortas e o aproveitamento de tudo o que fosse terra arável e possível de ser regada pelas levadas feitas e conservadas a preceito, bem como as cortes de animais, as estrumeiras nas ruas das testadas das casas, onde se preparava o esterco com que se adubavam as terras menos férteis, eram outra parte dos rituais da vida rural das aldeias.
A iluminação por candeias e lanternas de azeite e, mais tarde, pelos candeeiros de petróleo, viria, muitos anos mais tarde, a ser substituída pela electricidade que a menina conheceu, pela primeira vez, quando foi à vila e utilizou, anos depois, quando foi para a cidade grande, para casa dos tios, à procura de mais vida, que só poderia encontrar em salas maiores que a da casa da Boxa, onde o pai ensinava os meninos e meninas da terra.
Porém, quanto mais ia compreendendo que afinal o mundo já era diferente e que todos os dias caminhava para coisas mais sofisticadas, mais os olhitos se encantavam com o bucolismo dos campos, a serenidade das gentes, a simplicidade daquelas casas, a beleza dos campos, o chilrear dos passaritos nas árvores dos quintais e das tapadas.
Depois, o balido dos cordeirinhos, os chocalhos e o chiar das rodas das carroças, davam lugar ao pesado silêncio que, com o escuro, se abatia sobre as casas da aldeia. Só o ladrar dos cães quebrava o encanto, a serenidade e o misticismo da noite que voltaria a despertar o carinho e apreço por aquelas gentes que elevavam tão alto o espírito ao falarem com Deus, não para se lamentarem, mas para agradecerem.
Anos depois, já no bulício da grande metrópole, com a influência de muitas leituras e tendo contacto com todo um manancial de recursos que a vida lhe não mostrou logo ao acordar para ela, as reminiscências da infância seriam capazes de descrever pedra por pedra, planta por planta e até latido por latido, tudo o que deixara entre aquelas onze casas, que continuavam a ser um mundo, independente de todos os mundos que viessem a cruzar-se na sua vida.
E, não raro, relembrava tudo o que temporariamente deixara para trás, no tempo, mas mantinha bem presente na sua memória. Na cidade tinha pouca Natureza para sentir e amar, mas a sua imaginação substituía-se à realidade e cada vez eram mais fortes os sentimentos de apego às realidades que lhe eram queridas e recordava com tantas saudades..
As casas, que não eram estendidas e encaixadas nos desvãos das terras, mas todas encostadas umas às outras, como cogumelos de favos de colmeias, com imensas janelas de vidro, casas de banho, luz eléctrica, telefone, rádios e, pouco depois, televisão, não fizeram esquecer as da terra. Eram mais feias.
Ao contornar o jardim dos animais, para apanhar o eléctrico até à escola que lá em Benfica, ali nas barbas da mata de Monsanto, se erguia, imponente sobre as terras da quinta, onde ainda pastavam as vacas, minoravam, em silêncio, as carências de tudo o que de bom deixou para trás.
Respirava o cheiro dos bichos lá no jardim, ouvia os gritos das aves de rapina e outras vozes familiares, deleitava-se com o rebanho que nas terras da Estrada da Luz aparecia, aos fins de tarde, nos baldios onde ainda não tinham feito casas.
Na mata de Benfica, à sombra de árvores seculares, onde esvoaçavam pássaros, cujos trinados levavam a menina para os contrafortes da serra, sentada num banco de ferro, iludiu, muitas vezes, as saudades das onze casas e, fechando os olhos, deixava-se transportar até ao pé da ribeira onde a azenha rodopiava e de onde sairia o moleiro, empurrando o burrito, ladeira acima, levando os taleigos de farinha.
Até que foi morar mesmo ali para ao pé da mata; e, já havia um espaço para jardim, um cãozito para guardar a casa e um maior espaço para flores. O sol entrava dentro de casa que ainda cheirava a nova. A figueira e o limoeiro eram um faz de conta de pomar e quando se regavam as flores já se sentia o cheiro, tão característico e chamativo, de terra regada.
Para ir para a escola não era preciso ir “a cavalo” nos transportes e ao atravessar as ruas de vivendas até chegar junta da estação de comboio de Benfica ia contemplando as casas e os jardins que ainda no começo faziam adivinhar agradáveis vistas no futuro.
Nos dias de folga podia ir à mata de S. Domingos de Benfica, ali nas abas da Serra de Monsanto e, no primeiro Natal que passou no Bairro, lembra-se de um lindo presépio, à maneira da sua infância, feito com belos tufos de musgo da mata de S. Domingos.
Quando caminhava pelas ruas da cidade, não esquecia os regatos que atravessavam as ruas da aldeia, das manhãs de inverno em que o taró soprava cortante e o codo espalhava um lençol branco e quebradiço, sobre todas as terras.
Sentia a falta do brilho, do calor e do crepitar da lareira; estranhava a iluminação nocturna e o ruído dos motores dos carros e fazia-lhe falta o barulho dos cães para lhe trazer o sono.
Numa palavra o bulício do dia-a-dia da cidade provocava-lhe nostalgia e solidão. E, quem olhasse direito para aqueles olhos acabaria por ver neles uma ligação ao imaginário da arte, da contemplação e da distância que a menina associa e, talvez com fundamento, às suas ancestrais raízes da casa da Boxa.
As idas às onze casas são cada vez mais espaçadas. E são bem visíveis as mudanças que, conformados, aceitamos como sinais dos tempos. As transformações, porque as pedras se desagregassem e os telhados acabassem reduzidos a um montão de barrotes podres e telhas partidas; porque o progresso implica alargamento de ruas e acessos e leva na voragem as recordações e relíquias; porque um estrangeirado, ignorando a sensibilidade, da menina das onze casas, e de todos os espíritos que por lá pairam, passou um dia, por lá, e decidiu restaurar uma daquelas casas para passar o resto dos seus dias; ou, ainda, porque alguém a que o povo chama “cão do hortelão”, significando o que não come nem deixa comer, não repara, nem deixa reparar e não vende, não troca nem dá, como que perpetuando recordações que talvez não lhe sejam muito gratas, mas em que estão envolvidos os seus avós.
Nessas idas, as onze vão sendo dez, depois serão nove e, quem sabe, até quando haverá alguns vestígios do que foi ninho de amor, de sofrimento e também última morada, de muita gente que durante séculos e séculos foram os expoentes da massa anónima de onde brotaram e sobressaíram as elites que construíram a cultura e identidade de um País, com dez séculos de história.
Restarão, pelo menos enquanto a nossa geração sentir o apelo das raízes mais profundas da cultura e vivência que nos viram crescer, umas quantas casas da Boxa, que, sejamos razoáveis, hão-de ser cada vez menos, pois, parafraseando o nosso estimado poeta A. Aleixo…
Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado.
O ribeirinho não morre
Vai correr para outro lado.
E, nada melhor que contar, ainda que sem a arte e engenho necessários, um pouco da sua história e das suas raízes, para homenagear aquela gente simples que, como a menina da casa da Boxa, viram aquilo que somos e o que podemos ser, embora sabendo, como o poeta, que a vida não vai mais parar… o ribeirinho, da vida, não morre.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
O “drama”no Rochoso
Assisti, na aldeia da minha mulher, na Beira Alta, entre a Guarda e Vilar Formoso, a um espectáculo inédito, para mim, mas com profundas tradições na região e representativo e mobilizador das gentes daquelas paragens.
Foi anunciado, à boa maneira dos antigos arautos e pregoeiros, um “drama” que teria lugar na sala da casa paroquial, no sábado seguinte, uma hora depois das trindades, logo a seguir à reza do terço na igreja da terra.
Eram convidadas todas as pessoas da aldeia e amigos, para assistir ao “drama – Dª Inês de Castro”, representado pelas pessoas da terra e ensaiado pelo senhor Antoninho, como habitualmente.
Os “dramas” representados na terra, tinham tradição: contavam os mais velhos que desde que se lembravam e segundo o que sempre ouviram, eram muitíssimo antigas aquelas representações lá na aldeia.
Visavam histórias e cenas do tempo dos Romanos, autos de Gil Vicente e outros autores portugueses, especialmente Almeida Garrett e, quer se tratasse de tragédias, comédias, ou histórias de final feliz, eram sempre “dramas” para o povo.
Nos tempos mais remotos da memória dos mais idosos, eram, invariavelmente, representados no cabanal do senhor vigário, ao tempo Cónego Domingos, tendo daí passado para a casa das almas, quando deixou de funcionar lá a escola primária e, mais tarde, para a casa paroquial.
Havia, ainda, vários ensaiadores vivos, embora, nos últimos anos, fosse o senhor Antoninho o mestre de serviço, recebendo, todavia, uma mãozinha, muito útil, da irmã Ritinha que, ao tempo, estava no colégio da Cerdeira.
Os actores, cujas idades variavam entre a meia dúzia e as muitas dezenas de anos, incluíam estudantes, funcionários, emigrantes, gente da terra e outros de boa vontade, como costumava dizer o ensaiador.
Os textos eram levados a preceito e passados, à mão, pelo senhor Antoninho que os distribuía aos “actores” a quem dava os seus conselhos e orientações e depois ia corrigindo nos ensaios, de modo que no dia (15 de Agosto) tudo estivesse afinado para que ninguém fizesse figuras tristes.
Ah!... É bom não esquecer que antes da representação pública e quando tudo já estava mais ou menos apresentável, era feita uma sessão, à porta fechada, para que o senhor Cónego Domingos pudesse aferir o conteúdo dos textos e a moralidade dos desempenhos dos actores, censurando o que, do seu ponto de vista, devia ser retirado e tudo o que ofendesse a moral e os bons costumes.
Poucas vergonhas, não!... Gritava o senhor Cónego; pelo menos enquanto eu por aqui estiver e for responsável por vós. E tu, Antoninho, vem aqui para ao pé de mim e toma bem nota:
A Inês e as suas damas de companhia serão representadas por rapazes que, com a tua habilidade não será difícil caracterizar. Não são necessárias cenas que envolvam e impliquem contactos físicos entre as pessoas. Os senhores Conselheiros serão pessoas de bem e, em respeito pela nossa História, não são religiosos, nem nas outras cenas há padres e freiras, que nunca se misturaram naquelas tristes andanças.
Os filhos de Inês não precisam estar presentes no drama. E agora vê lá o que tens de corrigir e prepara tudo como acabo de te dizer. Verás que não ficarás mal e toda a gente perceberá o drama e não verá imoralidades.
Bem, o senhor Antoninho nem queria acreditar no que acabava de ouvir: O que o senhor Cónego queria mudava quase todos os actores, alterava muitos papéis que tinham de voltar a ser escritos e acabava por falsear a verdade histórica.
Ainda pensou em mandar recolher os prospectos que tinha mandado afixar nas aldeias das redondezas, mas também não era com ele dar parte de fraco e optou por meter mãos à obra e fazer as alterações exigidas por quem, afinal de contas, sempre saberia mais que ele.
Começou pelas personagens: Dª Inês, que estava a ser ensaiada pela Dulce, passaria para o Acácio; D. Pedro continuava a ser representado pelo Ti’ Alberto Martins, as aias também não eram muito importantes e, se fossem rapazes bem vestidos de mulher, também haveriam de guardar as distâncias e evitar as brejeirices que não podiam aparecer no drama.
Afinal tudo se havia de arranjar e ele passava agora a ter de desempenhar um papel muito importante: convencer que as novas personagens estavam mais conformes com a verdade da História. Por isso, as meninas iam ser trocadas. Pareceu-lhe, todavia, que as açafatas mais velhas, que serviam no paço, poderiam ser representadas por mulheres idosas e respeitáveis e, para isso, acabou por ter a anuência do senhor Cónego Domingos. E atirou-se ao trabalho.
Num dos ensaios em que a Dª Inês apareceu sem ser caracterizada, a irmã Ritinha que tinha vindo ajudar, sorriu-se ao ver o Acácio. Porém, vendo o bom desempenho e enlevo com que o rapaz assumia a personagem, dirigiu-se ao senhor Antoninho e, com um sorriso nos lábios, disse-lhe:
Deixe lá, tudo há-de correr bem e acabaremos por fazer o que pode não ser o mais correcto, mas, pelo menos, respeitamos a vontade do senhor Cónego.
Do Jornal “A Guarda”: A representação do “drama”, na casa paroquial do Rochoso, foi um dos momentos em que a cultura do povo se elevou a tal nível, que temos dificuldade em classificar este espectáculo tão autêntico e genuíno, pois ele, por si só, já conquistou a nota máxima.
O senhor Antonino foi um homem de grande influência na terra, onde controlava a maior parte do que se passava e ia pautando o pulsar da vida e vivência no povoado.
Homem de teres e haveres, acumulava a função de guarda-rios com a gestão dos negócios que iam da taberna à recolha e venda do leite da maioria dos proprietários de vacas, e à arrebanha e venda, para Lisboa, de muitas arrobas de batatas produzidas no Rochoso e anexas.
Homem de fino faro por tudo o que se passasse na terra, conhecia e geria muitos interesses de gentes que a ele recorriam, para um bom conselho ou intermediação numa demanda. Movia influências de paz e concertação entre desavindos; sabia fechar os olhos ao que lhe convinha e ser duro e rigoroso, quando era conveniente. Usava o bom senso e dava-se ao respeito; coisas que muito agradavam às gentes dos meios rurais.
Era intransigente na defesa dos interesses da família e sempre colocou numa das suas primeiras prioridades a educação e instrução dos quatro filhos.
Quando foi arrastado para a esfera do genro, difícil de conciliar com a sua experiência e nível de instrução, conduziu-se com habilidade e perícia, usando cautelas e ousadias, retirando os dividendos possíveis para a família, mas preservando o núcleo duro dos interesses e património da casa.
Navegou à vista e aproveitou o que as circunstâncias lhe permitiram; soube, no entanto, ficar imune a tudo o que interpretou, correctamente, como contrário aos princípios e ofensivo daquilo que considerava sagrado: o seu bom nome e o bem-estar e segurança da família e do seu património.
Tive o privilégio de conviver com o “padrinho Antoninho” e muito aprender com ele, sobre os usos, costumes, hábitos e maneiras de ser das gentes daquelas terras.
Sempre apreciei a sua inteligência prática e objectiva e sempre o vi como indefectível zelador dos seus interesses e dos dos seus. Essas eram as motivações básicas da sua conduta, pondo a família acima de tudo.
Nos tempos conturbados dos anos setenta e oitenta, esperou, deixou assentar a poeira, tirou os azimutes e pairou. Soube estar por dentro, sem se comprometer e sacudir o pó, sem se enxovalhar. Mais uma vez foi exímio na defesa dos seus familiares e até dos interesses da sua terra.
Esteve sempre bem com gregos e troianos, nunca se comprometeu abertamente, comungou das mesas de fartura e benesses, mas como as enguias da ribeira, quanto mais escorregadio mais desejado.
Parecia movimentar-se, qual actor, num “drama”: pode correr melhor ou pior; o que importa é que na memória das pessoas fique o final e, esse sim, deve ser, invariavelmente, feliz.
E fez isso e foi assim sem nunca ter ocupado cargos políticos; movia-se melhor na sombra.
Mas porque realço desta forma a personagem que ensaiava os dramas? Então o sucesso, ou insucesso, resultam mais do desempenho dos intérpretes ou do trabalho do ensaiador, por natureza débil e difícil?
Por duas razões: porque me parece justa esta singela homenagem e porque, sem ele, muita coisa que se fez teria ficado por fazer. A maior parte dos textos acabava por ter a sua intervenção, pois sabia suprir as carências académicas com a sua experiência e o sentido censório do senhor Cónego.
Dizia-me, quando lhe espicaçava a memória e me sentia verdadeiramente interessado em conhecer e compreender as verdadeiras motivações que o levavam a pôr de pé realizações culturais dignas de qualquer compêndio de Cultura e Arte Popular Portuguesas:
Os maiores dramas, cujo autor (senhor Cónego) dificultava mais o meu trabalho que os escritores que tinham os nomes nos livros, eram os que faziam cabelos brancos.
Sabe lá, afilhado, o que era aquele senhor Cónego Domingos!.. Era capaz de tudo o que possa pensar!... Chamava, do púlpito, os homens que tinham ficado fora da porta da igreja!.. Mas, tinha razão nalgumas coisas!... Deus lhe tenha a alma!... Bem-haja pelo que me ajudou e ensinou!...
Foi anunciado, à boa maneira dos antigos arautos e pregoeiros, um “drama” que teria lugar na sala da casa paroquial, no sábado seguinte, uma hora depois das trindades, logo a seguir à reza do terço na igreja da terra.
Eram convidadas todas as pessoas da aldeia e amigos, para assistir ao “drama – Dª Inês de Castro”, representado pelas pessoas da terra e ensaiado pelo senhor Antoninho, como habitualmente.
Os “dramas” representados na terra, tinham tradição: contavam os mais velhos que desde que se lembravam e segundo o que sempre ouviram, eram muitíssimo antigas aquelas representações lá na aldeia.
Visavam histórias e cenas do tempo dos Romanos, autos de Gil Vicente e outros autores portugueses, especialmente Almeida Garrett e, quer se tratasse de tragédias, comédias, ou histórias de final feliz, eram sempre “dramas” para o povo.
Nos tempos mais remotos da memória dos mais idosos, eram, invariavelmente, representados no cabanal do senhor vigário, ao tempo Cónego Domingos, tendo daí passado para a casa das almas, quando deixou de funcionar lá a escola primária e, mais tarde, para a casa paroquial.
Havia, ainda, vários ensaiadores vivos, embora, nos últimos anos, fosse o senhor Antoninho o mestre de serviço, recebendo, todavia, uma mãozinha, muito útil, da irmã Ritinha que, ao tempo, estava no colégio da Cerdeira.
Os actores, cujas idades variavam entre a meia dúzia e as muitas dezenas de anos, incluíam estudantes, funcionários, emigrantes, gente da terra e outros de boa vontade, como costumava dizer o ensaiador.
Os textos eram levados a preceito e passados, à mão, pelo senhor Antoninho que os distribuía aos “actores” a quem dava os seus conselhos e orientações e depois ia corrigindo nos ensaios, de modo que no dia (15 de Agosto) tudo estivesse afinado para que ninguém fizesse figuras tristes.
Ah!... É bom não esquecer que antes da representação pública e quando tudo já estava mais ou menos apresentável, era feita uma sessão, à porta fechada, para que o senhor Cónego Domingos pudesse aferir o conteúdo dos textos e a moralidade dos desempenhos dos actores, censurando o que, do seu ponto de vista, devia ser retirado e tudo o que ofendesse a moral e os bons costumes.
Poucas vergonhas, não!... Gritava o senhor Cónego; pelo menos enquanto eu por aqui estiver e for responsável por vós. E tu, Antoninho, vem aqui para ao pé de mim e toma bem nota:
A Inês e as suas damas de companhia serão representadas por rapazes que, com a tua habilidade não será difícil caracterizar. Não são necessárias cenas que envolvam e impliquem contactos físicos entre as pessoas. Os senhores Conselheiros serão pessoas de bem e, em respeito pela nossa História, não são religiosos, nem nas outras cenas há padres e freiras, que nunca se misturaram naquelas tristes andanças.
Os filhos de Inês não precisam estar presentes no drama. E agora vê lá o que tens de corrigir e prepara tudo como acabo de te dizer. Verás que não ficarás mal e toda a gente perceberá o drama e não verá imoralidades.
Bem, o senhor Antoninho nem queria acreditar no que acabava de ouvir: O que o senhor Cónego queria mudava quase todos os actores, alterava muitos papéis que tinham de voltar a ser escritos e acabava por falsear a verdade histórica.
Ainda pensou em mandar recolher os prospectos que tinha mandado afixar nas aldeias das redondezas, mas também não era com ele dar parte de fraco e optou por meter mãos à obra e fazer as alterações exigidas por quem, afinal de contas, sempre saberia mais que ele.
Começou pelas personagens: Dª Inês, que estava a ser ensaiada pela Dulce, passaria para o Acácio; D. Pedro continuava a ser representado pelo Ti’ Alberto Martins, as aias também não eram muito importantes e, se fossem rapazes bem vestidos de mulher, também haveriam de guardar as distâncias e evitar as brejeirices que não podiam aparecer no drama.
Afinal tudo se havia de arranjar e ele passava agora a ter de desempenhar um papel muito importante: convencer que as novas personagens estavam mais conformes com a verdade da História. Por isso, as meninas iam ser trocadas. Pareceu-lhe, todavia, que as açafatas mais velhas, que serviam no paço, poderiam ser representadas por mulheres idosas e respeitáveis e, para isso, acabou por ter a anuência do senhor Cónego Domingos. E atirou-se ao trabalho.
Num dos ensaios em que a Dª Inês apareceu sem ser caracterizada, a irmã Ritinha que tinha vindo ajudar, sorriu-se ao ver o Acácio. Porém, vendo o bom desempenho e enlevo com que o rapaz assumia a personagem, dirigiu-se ao senhor Antoninho e, com um sorriso nos lábios, disse-lhe:
Deixe lá, tudo há-de correr bem e acabaremos por fazer o que pode não ser o mais correcto, mas, pelo menos, respeitamos a vontade do senhor Cónego.
Do Jornal “A Guarda”: A representação do “drama”, na casa paroquial do Rochoso, foi um dos momentos em que a cultura do povo se elevou a tal nível, que temos dificuldade em classificar este espectáculo tão autêntico e genuíno, pois ele, por si só, já conquistou a nota máxima.
O senhor Antonino foi um homem de grande influência na terra, onde controlava a maior parte do que se passava e ia pautando o pulsar da vida e vivência no povoado.
Homem de teres e haveres, acumulava a função de guarda-rios com a gestão dos negócios que iam da taberna à recolha e venda do leite da maioria dos proprietários de vacas, e à arrebanha e venda, para Lisboa, de muitas arrobas de batatas produzidas no Rochoso e anexas.
Homem de fino faro por tudo o que se passasse na terra, conhecia e geria muitos interesses de gentes que a ele recorriam, para um bom conselho ou intermediação numa demanda. Movia influências de paz e concertação entre desavindos; sabia fechar os olhos ao que lhe convinha e ser duro e rigoroso, quando era conveniente. Usava o bom senso e dava-se ao respeito; coisas que muito agradavam às gentes dos meios rurais.
Era intransigente na defesa dos interesses da família e sempre colocou numa das suas primeiras prioridades a educação e instrução dos quatro filhos.
Quando foi arrastado para a esfera do genro, difícil de conciliar com a sua experiência e nível de instrução, conduziu-se com habilidade e perícia, usando cautelas e ousadias, retirando os dividendos possíveis para a família, mas preservando o núcleo duro dos interesses e património da casa.
Navegou à vista e aproveitou o que as circunstâncias lhe permitiram; soube, no entanto, ficar imune a tudo o que interpretou, correctamente, como contrário aos princípios e ofensivo daquilo que considerava sagrado: o seu bom nome e o bem-estar e segurança da família e do seu património.
Tive o privilégio de conviver com o “padrinho Antoninho” e muito aprender com ele, sobre os usos, costumes, hábitos e maneiras de ser das gentes daquelas terras.
Sempre apreciei a sua inteligência prática e objectiva e sempre o vi como indefectível zelador dos seus interesses e dos dos seus. Essas eram as motivações básicas da sua conduta, pondo a família acima de tudo.
Nos tempos conturbados dos anos setenta e oitenta, esperou, deixou assentar a poeira, tirou os azimutes e pairou. Soube estar por dentro, sem se comprometer e sacudir o pó, sem se enxovalhar. Mais uma vez foi exímio na defesa dos seus familiares e até dos interesses da sua terra.
Esteve sempre bem com gregos e troianos, nunca se comprometeu abertamente, comungou das mesas de fartura e benesses, mas como as enguias da ribeira, quanto mais escorregadio mais desejado.
Parecia movimentar-se, qual actor, num “drama”: pode correr melhor ou pior; o que importa é que na memória das pessoas fique o final e, esse sim, deve ser, invariavelmente, feliz.
E fez isso e foi assim sem nunca ter ocupado cargos políticos; movia-se melhor na sombra.
Mas porque realço desta forma a personagem que ensaiava os dramas? Então o sucesso, ou insucesso, resultam mais do desempenho dos intérpretes ou do trabalho do ensaiador, por natureza débil e difícil?
Por duas razões: porque me parece justa esta singela homenagem e porque, sem ele, muita coisa que se fez teria ficado por fazer. A maior parte dos textos acabava por ter a sua intervenção, pois sabia suprir as carências académicas com a sua experiência e o sentido censório do senhor Cónego.
Dizia-me, quando lhe espicaçava a memória e me sentia verdadeiramente interessado em conhecer e compreender as verdadeiras motivações que o levavam a pôr de pé realizações culturais dignas de qualquer compêndio de Cultura e Arte Popular Portuguesas:
Os maiores dramas, cujo autor (senhor Cónego) dificultava mais o meu trabalho que os escritores que tinham os nomes nos livros, eram os que faziam cabelos brancos.
Sabe lá, afilhado, o que era aquele senhor Cónego Domingos!.. Era capaz de tudo o que possa pensar!... Chamava, do púlpito, os homens que tinham ficado fora da porta da igreja!.. Mas, tinha razão nalgumas coisas!... Deus lhe tenha a alma!... Bem-haja pelo que me ajudou e ensinou!...
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