sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O machacaz

Desde que me conheço que ajudo mulheres a parir, gritava a ti’Maria Rita lá do quarto dos fundos, mas esta está a dar-me água pela barba.

Tragam-me mais uma panela de água quente e umas toalhas para ver se a criança dá a volta completa e se se põe a jeito de vir cá para fora.

Enquanto berrava para as ajudantes que, atarantadas e tolhidas de medo, viam a velhota dar palmadas nas “nalgas” da Dionísia que se debatia com o nascimento do seu primeiro filho, a comadre ia aconchegando o ventre da parturiente, atenta a todos os movimentos da criança que parecia estar a orientar-se para a chegada a este mundo.

Abram o raio dessa janela que nos falta o ar aqui dentro.

E tu mulher, enche-te de coragem e morde, com quanta força puderes, essa toalha que tens na boca.

Vai custar mais um bocado, mas nunca nenhum me ficou lá dentro e vais ver a prenda que já começou a mostrar-me a cabeça.

São mais uns dez minutos; vais ver que mais ou menos ao meio-dia vai berrar aí que nem um desalmado; já que pela configuração e tamanho do que já posso ver me arrisco a dizer que é macho.

E assim foi: ainda o relógio não acabara de bater as doze badaladas e já um rapagão berrava com todas as forças, nas mãos da velhota que começava a limpá-lo e se preparava para tratar-lhe do cordão e colocá-lo, na cama, ao lado da mãe.

Parabéns rapariga, tens aqui um belo rapaz.

Mas olha que o machacaz deu-nos bem que fazer: a ti e a mim, que desde que me recordo foi dos mais difíceis. Estava lá bem, o finório. Não lhe faltava nada e sair de lá não parecia agradar-lhe, mas já acabou.

Chico cresceu, avantajado de corpo, meio desajeitado e, aos sete anos, quando entrou na escola, as carteiras da frente, destinadas aos da primeira classe, eram-lhe pequenas.

A Professora mandou sentá-lo na terceira fila e, mesmo assim, ainda era escasso o espaço para as pernas do rapaz.

Com os ombros largos, os braços passando-lhe um pouco abaixo dos joelhos, umas mãos grandes e a cabeça, meio disforme, mas grande e bem coberta de cabelos pretos, o Chico conseguiu fazer o exame da terceira classe, a custo.

Depois começou a guardar as cabras e ovelhas e a ajudar os pais nas lides do campo.

As tentativas de aprender as artes de carpinteiro e pedreiro, não resultaram.

Homem de poucas falas e olhar esquivo, tinha aversão às botas e raramente apertava todos os botões de calças e camisas.

Apurado de instintos, cuidava do que era seu e com a fisga nas mãos, armando costelas e boízes, no tempo delas, ou mesmo à unha, nunca se lhe acabava, em casa, caça, peixes e outros petiscos.

Saía sozinho, a todas as horas do dia e da noite, nunca mostrara medo, fosse do que fosse, e era encontrado onde menos se esperava.

Tinha um tratamento muito familiar com toda a bicharada e se pressentia alguém, no seu caminho, desviava-se para evitar encontros e conversas de que era pouco amigo.

Alguém reparou na expressão da comadre Maria Rita, ao dizer para a Dionísia que o “machacaz” lhes deu bem que fazer e, como nada cai em saco roto, foi-se generalizando a alcunha e quando o rapaz foi às sortes era, para todos, o “Machacaz”.

Ficou livre do serviço.

Um corpanzil daqueles, podia e devia alombar a servir a pátria. Mas, assim não acharam os entendidos e o Chico nada se incomodou, como se não incomodaria se o mandassem ir para algum lado.

Até aí catrapiscava a garota do ti’Cambado, do mesmo ano que ele, magricela, de poucas cores e olhitos azulados, herdados da mãe, que não resistiu ao parto e deixou órfã e viúvo lá na casa da ladeira, onde sempre viveram, só os dois.

A dispensa da tropa veio apressar as coisas e notaram, os mais observadores, que o Machacaz, à medida que se aproximava o casamento, ia mais pela taberna, chegava-se mais às conversas e tomava muita atenção a tudo o que dissesse respeito a relações entre homens e mulheres.

Começou a frequentar mais a missa dos domingos, tratou de tudo e ajudou na construção da casa nova, ao lado dos cómodos da ladeira.

A boda foi discreta e muito farta e, apesar do espírito reservado do Machacaz, todos ficaram admirados com a maneira como tratou todos os convidados e a forma como parecia outro homem.

Vieram três filhos, nos três primeiros anos e, depois, voltou a ser o mesmo Machacaz de sempre; sorumbático, esquivo e isolado.

Algum tempo depois começou a frequentar assiduamente a taberna, a beber até cair e a falar consigo próprio.

Os mais chegados metiam-se com ele. Porém, além de reagir mal, começou a mostrar sinais de agressividade e falta de tolerância, nas brincadeiras.

Um dia, ao ouvir as prosas do Longueiras, saiu abruptamente da taberna, dirigindo-se a casa, com passada aberta e rápida e, entrando no quarto, sorrateiramente, viu, nos fundos da cama, por baixo da coberta, os vultos de quatro pés.

Saiu, caminhou rapidamente até à taberna, onde bebeu, de enfiada, dois ou três copos de vinho.

De repente e inopinadamente, enfrentou os presentes e exclamou:
Estão lá quatro pés, sim senhor, mas dois são do Machacaz!...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O “Jerolminho”

A calma e quietude do Monte dos Ciprestes foram agitadas por um burburinho e estranho corrupio das três, ou quatro, mulheres que, nessa meia tarde, por ali estavam.

Quando viram o ganhão, que cuidava dos porcos, sair do celeiro, com qualquer coisa embrulhada numa saca, chamando pelo Ti’Chico, em altos gritos, e entrando na casa do capataz Manel Canhoto, gerou-se uma autêntica roda-viva.

As mulheres não pararam mais e, cada uma por seu lado, haviam de dar fé de tudo o que se passasse.

E foi assim que todos presenciaram o estranho achado do porqueiro.

A chorar, a bons pulmões, estava ali, nuzinho como nascera pouco tempo antes, um menino, abrindo a boquita e movendo a cabeça, procurando teta para mamar.

Olharam uns para os outros e foi a Zefa que saíu em passo apertado, na direcção da casa do maioral, chamando pela Amélia que tinha uma criança de leite e podia, por isso, valer ao anjinho que dava sinais de fome e frio.

Veio também a Ti’Rita Ramalheta, comadre de serviço nos partos lá do Monte.

Tratou da criança, lavando-a, verificando o aperto do baraço que apertava o cordão do umbigo e vestindo-lhe o casaquito que a Amélia acabava de trazer. Embrulhou o anjinho no xaile, que trazia nos ombros e deu-o à Amélia para que lhe desse o peito.

Veio, finalmente, o sossego; logo interrompido pelas perguntas do Ti’Manel Canhoto que, olhando em redor, encarou o ganhão dos porcos e quis saber as circunstâncias de tão estranho achado.

Muito simples, Ti’Manel; ouvi chorar lá para os fundos do celeiro e quando cheguei ao pé do monte das sacas de fava, vi esta encomendinha e trouxe-a.

Ainda olhei à volta, espreitei para todos os lados, escutei, perguntei se estava alguém e, nada.

E, algum dos presentes conhece o dono, ou dona, destes trapos que embrulham a criança? Perguntou, ainda, o Ti’Manel.

Porém, ninguém se acusou e, já na presença da mulher, Ti’Florinda, foram todos mandados para o que estavam a fazer, ficando a criança aos cuidados do capataz e da Amélia, que lhe daria mama.

Pelo fim da tarde, veio o senhor feitor, que se deslocara à vila, tratar de negócios.

Ao ser posto ao corrente do sucedido, chamou a sua casa o capataz e o ganhão e perguntou se sabiam quem poderia ser o pai, ou mãe da criança, ou se faziam alguma ideia por onde haviam de tentar descobrir.

Os dois disseram não saber de nada.

O feitor mandou-os em paz e recomendou ao ganhão que dissesse à sua Florinda que tratasse bem do achado. Quanto à criança, depois de consultar as autoridades, havia de se lhe dar um destino. Queria tudo bem legal e havia, primeiro, que descobrir quem abandonava assim um inocentezinho.

O Feitor deu voltas à cabeça e não chegou a qualquer conclusão.

Fez perguntas a todos e, inclusivamente, ofereceu e mandou oferecer, uma choruda recompensa a quem fosse capaz de indicar pai, ou mãe, que tivessem abandonado o infeliz.

Deu garantias de perdão a quem se acusasse e confessasse o seu acto, mas, nada.

Por sua conta, o feitor seguiu várias pistas: Os ciganos que por ali acamparam, uns pares de semanas, desapareceram naquela manhã. Porém nenhuma cigana foi vista de barriga e as feições do menino não apontavam nesse sentido.

A notícia da recompensa prometida pelo feitor, foi espalhada pelos ciganos e nunca ninguém foi reclamar nada.

Uma mulher, desconhecida nas redondezas, com uma barriga suspeita, mas não aparentando gravidez, foi vista perto do Monte e desapareceu, dois dias antes.

Veio notícia de outro Monte próximo que essa mulher, procurou trabalho e foi aceite lá.

Uma pastora, de meia-idade, que andou metida com o Chico das cabras, parecia mais gorda nos últimos tempos que por ali andou. Despediu-se e desapareceu.

Havia uns quinze dias que ninguém dera fé dela e o próprio Chico, apertado pelo feitor, não se desmanchou e jurou que ela tinha ido com um ambulante da feira.

E, que soubesse, não estava prenha, nem nunca estivera, depois que a conhecera.

Das mulheres do Monte, nenhuma apresentava barriga que justificasse parir, ou estar de esperanças, pelo que o Feitor, senhor Jerónimo, olhando a mulher, Emília do Ó, bem nos olhos, disse-lhe, ao serão:

Parece-me que não se vai desfazer o mistério; ninguém sabe nada, ou se sabe não quere dizer, porque se alguém soubesse e quisesse, já teria vindo reclamar os quinze contos de réis que prometi a quem desfaça a meada.

Mas o infeliz, não há-de crescer sem pai e mãe e temos aqui ocasião de aceitar do Destino o que a Natureza nunca nos quis dar. Se estiveres de acordo…

Oh! Homem, mas eu não penso noutra coisa desde que foi encontrada a criança. Até já fiz promessas se não se descobrir quem abandonou o menino. É claro que será “Jerolme”, como o pai e terá a mãe Emília do Ó.

Fala às autoridades e mete o dr. Angelino a mexer já os papéis para que tudo seja legal.

Terá de ser baptizado quanto antes, não vá o diabo tecê-las.

A conselho do dr. Angelino, foi feito o registo do menino a quem foi dado o nome de Jerónimo do Ó Ventinhas Pé-Curto.

Quanto ao local e data do nascimento, bem como filiação, o feitor deixou tudo aos cuidados do Advogado e Conservador, para que o menino passasse a ser, oficialmente, seu filho e da sua mulher Emília.

E assim foi feito, em meados de Maio de trinta e dois, no Registo de Portel.

O “Jerolme” do Ó, cresceu, fez-se uma criança forte e saudável, distinguiu-se na escola como um dos melhores alunos do prof. Américo, aprendeu a andar a cavalo ainda menino e, querido de todos no Monde dos Ciprestes, já rapazote e depois estudante de Veterinária, em Lisboa, nunca deixou de passar férias no Monte.

Conhecia todos os trabalhadores e nunca deixava de salvar, quando era saudado.

Acabou por casar com a herdeira do Monte dos Ciprestes e sempre ali teve casa, mesmo depois de ter de mandar os cinco filhos, com a mãe, para Lisboa, onde podiam continuar os estudos.

Durante toda a vida, o Chico das cabras nunca deixou faltar em casa do senhor feitor, os bons cabritos, os melhores queijos e o melhor leite das redondezas, como ele não se cansava de dizer.

Várias vezes acompanhou o sr. dr. Veterinário nas vacinações do gado e seguiu, sempre, com orgulho e comoção as cavalgadas e torneios em que participava o menino Jerolminho, depois sr. doutor.

Até que um dia…chegou a notícia de que nos fundos do figueiral, nos confins da herdade de baixo, o Chico das cabras se pendurara numa corda.

O senhor feitor, sentiu um baque no coração e, já de avançada idade, pediu que o levassem ao local, pois queria ver e analisar o ocorrido, antes de avisar o dr. Jerónimo, já médico veterinário, pai dos seus netos e dono das herdades do Monte dos Ciprestes.

Mandou parar a charrete e apeou-se, junto do enforcado.

Abriu-lhe uma das mãos e retirou um papel pardo, enrolado, que meteu no bolso do colete.

Reparou que a outra mão do morto apontava para o chão, onde pôde observar os contornos de uma campa.

Baixou a cabeça, respeitosamente, e mandou que depois de seguidos os preceitos legais, uma vez que o Chico não podia ser enterrado em terra benzida, do cemitério, por ter posto fim à vida, devia ser enterrado ali, debaixo daquela figueira.

Depois, já em casa, leu o papel que alguém escreveu ao Chico das cabras:

Agradeço ao senhor “Jerolme” e sua defunta mulher, tudo o que fizeram pelo nosso menino; meu, porque o fiz e vosso porque o criaram, estimaram como filho e fizeram homem.

Peço perdão pelas juras falsas que lhe fiz quando me perguntou se sabia alguma coisa sobre a pastora dos patos – a mãe do nosso menino - que morreu ao parir e está enterrada aqui debaixo desta figueira.

O último favor é que me mande enterrar aqui junto da pastora e nunca revele ao nosso menino quem foram os pais que o geraram.

Ele, um dia há-de encontrar-nos para nos perdoar.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Os pinheiros do Vale da Cal

Mal acabava de transpor a porta da igreja, no fim da missa do primeiro domingo da Quaresma, quando ouviu a voz do Abílio do Vale Perto a chamar padrinho.

Voltou-se, de imediato, o Ti’ João Pisco e, ao pedido da bênção, pelo afilhado, respondeu, como de costume: Deus te abençoe.

E dali seguiram, lado a lado, até à taberna de baixo, onde se acomodaram, na mesa do desvão da escada, a fim de terem uma prosa, como adiantou o Abílio.

O padrinho sabe que andam a cortar na minha do Vale da Cal; é o primeiro corte depois da morte do meu falecido pai e penso que os pinheiritos não foram mal vendidos.

São uns senhores do Vale de Mação que, além de sérios e cumpridores, têm cuidado com os estragos que fazem nas courela e, além do mais, nenhum outro se chegou ao que eles me deram.

Gostei dos homens e fechámos o negócio.

Ora o que lhe quero falar diz respeito aos três queimados que temos lá, na nossa estrema. O padrinho dirá, de sua justiça: ou se cortam e recebe a sua parte, ou se deixam ficar e continuam queimados.

Com certeza que fizeste as coisas pelo melhor, respondeu o Ti’João. Já agora, pode saber-se quanto recebeste por cada pinheiro?

Claro! Considero o meu padrinho como parte interessada no negócio: duas notas por cada pinheiro sangrado, salvo os três queimados, que ainda não foram entregues.

Queriam dar-me os cento e oitenta, mas a boa localização, praticamente dentro da estrada, e a certeza de que não os deixaria ir por menos um centavo, levou os homens a chegar-se à conta certa.

O Ti’João coçou a cabeça, por baixo da boina, revolveu o pauzito que apertava entre os dentes, fixou-se no afilhado e perguntou: então e a rama?

É claro que a pergunta não esperava resposta. Mas teve-a:

A rama de um pinheiro será para mim, a de outro, que cairá para dentro da sua, lá ficará. A do terceiro, que será derrubado sobre a estrema, será para os dois.

Gosto de ouvir-te, afilhado. És mesmo filho do teu pai, que Deus haja: sempre cuidadoso e cauteloso, prevendo tudo, preparando todas as coisas com cuidado!...Ah, como me lembro do compadre, embora nem sempre nos déssemos como Deus e os anjos; mas, verdade seja dita, mal, nunca nos demos.

Mas, além dos queimados, o padrinho pode querer vender todos os sangrados da sua courela. Isto é modo de falar, que nem ninguém me encomendou o sermão, nem eu o preguei.

E os homens lá do Mação estarão dispostos a dar-me as duas notas por cada um?

A isso não posso responder-lhe, padrinho. Eles, amanhã, estarão a cortar na minha; é questão do padrinho ir lá falar com eles. Pelo menos vai a saber com o que conta.

E tu, não queres estar presente? É que não me parece nada má essa tua ideia, além de que, até hoje, os meus pinheiros não ouviram mais de cento e oitenta e cinco mil réis, cada um.

Parabéns, afilhado, o meu compadre, e teu pai que Deus haja, há-de estar vaidoso de ti, pois estás a mostrar-te um verdadeiro filho de quem és.

Bondade sua, padrinho. Faz-se o que se pode; e se um homem não zelar pelo que é seu, levam-lhe coiro e cabelo e ainda ficam a rir-se nas suas costas.

Amanhã, ao sol-nado, encontramo-nos lá no Vale da Cal. Está bem, padrinho?

É melhor passares lá por minha casa; fica-te em caminho e, depois de matarmos o bicho, dividimos o caminho a meias, como costuma dizer-se; de prosa, até custa menos a chegar lá. Isto se não te importares e a companhia te agradar.

Ora essa, padrinho. Lá estarei e até amanhã. Recomendações à madrinha.

Igualmente para a tua mulher e vossos filhos, que estão a acabar a escola, não é?...

O Abílio deu voltas, na cama, para descobrir o que movia o padrinho na sua direcção; sempre fora arredio e sobranceiro e agora descia do pedestal?... Mas por que cargas de água?... E aquela dos miúdos a acabar a escola?...

O Ti’João andava, havia tempos, para se dirigir ao afilhado. Sabia que ele já fora ao Mação saber quanto custava o ensino no colégio que acabava de abrir, que já estivera na Queixoperra, em casa de um parente que trazia lá um filho havia um ano, e que até já apalavrara uma casa, na vila, para hospedar os filhos.

Aquela viagem caía como sopa no mel, para saber coisas e substituir-se ao genro, que não preparara nada: estava decidido que os seus netos também haviam de vir a ser muito mais do que ele e o dinheiro dos pinheiros do Vale da Cal iria ser reservado para esse fim.

Na viagem de ida e regresso o Ti’João confessou todo o seu interesse em saber coisas sobre o colégio e as possibilidades de mandar estudar os seus netos.

Agradeceu muito ao afilhado e pediu-lhe que fosse reservado sobre aquela prosa, pois queria saber até onde chegaria o seu genro. E, na altura própria, os netos do Ti’João foram para o colégio e, ainda em vida do avô, foram os dois primeiros a alcançarem uma formatura.

Desejamos que os muitos que se revêem nesta breve história, nunca tenham esquecido, ou renegado, os “Abílios” das nossas terras.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A azenha do Ti Lindo

Danado de ano em que tudo correu mal, cá em casa.

Com estas palavras de desalento despedia-se o compadre Lindo do Tio André que viera assistir e ajudar na matança e estava de partida, com a patroa, os dois filhos e a nora – a filha mais velha do ti Lindo que casara, havia dois anos, com o filho mais moço do moleiro André, nado e criado no Pisão Fundeiro e muito bem afreguesado ali na Serra –.

Queixava-se o Ti Lindo:

O ano começou com aquele tombo do carro dos bois em que o cabano acabou por me partir um corno e ainda andar uns meses com um aleijão na perna esquerda, de trás, de jeito que o outro tinha praticamente de puxar sozinho.

Pouco trabalhámos na primeira metade do ano.

Depois a cabrita mais nova não tomou barriga e sempre foram menos dois chibitos, que a malvada nunca deu menos.

A praga deu nas macieiras do vale de Incenso e foi uma guerra para conseguir avisar os fregueses habituais que as árvores não tinham dado nada e não podia levar as encomendas.

O maldito do pulgão não deixou escapar uma couvinha que fosse, lá no canteirito que sempre me rendia uns centos de mil réis nas praças de Mação e do Sardoal.

As videiras nem deram para bebermos na ceifa e na matança; a safra da azeitona está feita, como se pode ver: nem vai chegar para a apanha.

O porquito, a que veio ajudar, é o que resta dos três que todos os anos costumamos matar.

Mas, compadre, que tudo seja em desconto dos nossos pecados e, se Deus quiser, para o ano será melhor. Nunca podemos desanimar e temos de aceitar o que o destino nos dá, pois que se há-de fazer?!...

O moleiro, tomando habilmente a palavra, rematou:

É verdade, senhor compadre, que é uma dor de alma carregar para aqui tantos taleigos de farinha para os três porquitos – com sua licença – e as malvadas das febres levarem quase tudo.

Deixe lá, graças a Deus estamos todos bem de saúde e aquele negócio de que falámos ontem, há-de correr bem e virá dar uma boa ajuda ao arranjo da sua casa que, com todos esses contratempos, ainda dá e vende aos olhos de quem a inveja.

E agora, com vossa licença, vamos andando que já não chegamos a casa antes de sol-posto e há animais a tratar, águas a tapar, engenhos a ajeitar, que amanhã é outro dia, se Deus quiser. Dê cá um abraço e muito bem hajam os compadres que tão bem nos souberam e quiseram receber.

Fiquem com Deus, compadres.

Aquelas últimas palavras do moleiro acabaram por dar um alento novo ao Ti Lindo.

Foi dali pensar os animais, avisar o Manuel do Vale e o Courela que no dia seguinte continuava a surriba nos Brejos, passou pela taberna para saber as últimas e sentou-se à mesa, junto da lareira, para cear com a mulher – Ti Maria das Dores –.

Comeram os restos da couvada do jantar e no fim uma morcela de assar, bem puxada de cominhos e apontada de sal e quando o Ti Lindo se sentou à lareira, depois da reza habitual, chegaram as duas comadres que vinham ajudar no tratamento das carnes para os enchidos.

As três mulheres acenderam uma candeia de azeite e dirigiram-se, pela porta dos fundos, à despensa anexa, onde se tratavam os assuntos referentes a carnes e enchidos da matança.

O Ti Lindo, com a cabeça a pender, continuou a pensar no segredo que partilhara com o compadre moleiro de quem conseguira obter todos os pormenores que lhe seriam muito úteis na concretização da tarefa que havia muito tempo preparava.

Soube dos passos a dar junto da Senhora Câmara, dos serviços da hidráulica, dos favores a conseguir junto do guarda-rios e tomou até orientações da construção e dos apetrechos necessários à montagem da azenha, no cimo da horta da Renda.

Pelas suas contas, com uns vinte contos de réis preparava tudo e em cada ano, só para os animais, haveria de moer para cima de trezentos alqueires de milho e centeio.

Com maquia de um em dez que fosse, a azenha ganhava trinta ou mais alqueires de pão em cada ano. E se aparecesse alguém que tivesse pão para ocupar os tempos mortos, podia arranjar-se mais cinco ou dez alqueires de maquias.

Onde diabo iria arranjar-se uma courela, por vinte contos, que, sem trabalho, desse trinta ou quarenta alqueires de pão?!..

Quando a mulher o abanou, despertou, levantou-se e disse-lhe:

Acabamos de adquirir uma courela que dá trinta ou quarenta alqueires de pão por ano… sem trabalho nenhum.

Vamos dormir…

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O velho Faustino

Ninguém conhecera, não se lembrava ou, simplesmente não queria falar do Ti´Fastino, como se dizia no povo, enquanto rapaz.

Durante uns tempos, após o seu desaparecimento, falou-se dele como voluntário na guerra da França, embarcado na marinha mercante, zelador de um cemitério de mortos na guerra, algures na Bélgica, cativo dos indígenas de um país africano, deportado nas galés e rufia nas ruas da capital. Esqueceram-no, por fim.

Afastado da terra, e sem com ela comunicar, durante perto de setenta anos, regressou, num dia de cerrada maresia, dirigiu-se a casa dos parentes mais próximos, se bem que afastados, cumprimentou-os e manifestou a vontade de se fixar na Terra.

Queria uma casa, que estava disposto a comprar, e precisava de quem lhe tratasse da roupa e preparasse a comida.

Adiantou-se a Tia Ana Tomásia, prima ainda chegada, que ofereceu uma casa ao Ti´Fastino e se prontificou a tratar de roupas e limpezas da casa – sabe, primo, gostaria de lhe dar melhor, mas cá na terra é o que se pode arranjar; não levará a mal –.

O recém-chegado agradeceu e aceitou a oferta, dizendo que tinha toda a roupa que precisava e que arranjasse alguém para ajudá-la, sem olhar às despesas.

Passados poucos dias, dominava, perfeitamente, a aldeia, embora se mantivesse à margem e nunca adiantasse conversa quando era interpelado.

Agradecia tudo o que lhe faziam e era bastante generoso nas recompensas que dava.

Era homem de poucas falas, com dificuldades auditivas e usava óculos muito graduados. De aspecto limpo e cuidado, muito bem vestido, trouxera, consigo, apenas duas malas, no automóvel em que chegou ao Casal.

Na primeira volta pela aldeia deu a salvação aos que com ele se cruzaram, sendo desconhecido da maioria.

Alguns, porém, nem acreditaram no que estavam a ver.

Esperavam tudo, menos o velho “Fastino”, dado como morto, havia muito tempo.

Os dias passaram e no correio passou a chegar, todos os dias, “O Século” e, várias cartas, com carimbo de Lisboa, mas sem remetente.

Levantava-se cedo, demorava uma boa meia hora a fazer a higiene pessoal, recebia o barbeiro – curioso que aprendera a arte na tropa – para lhe fazer a barba e dava voltas pelos campos dos arredores, que parecia reconhecer.

Passava horas, sentado no meio dos pinheiros, com a cabeça entre as mãos, como que dormitando.

Todos os dias, depois da primeira volta pelo campo, mandava alguém ao Casal procurar o correio e almoçava. Dormia a sesta e, pela tardinha, saía para a segunda volta, de que regressava ao pôr-do-sol, passando pelas tabernas, onde convidava todos os presentes a beber um copo. Regressava a casa, comia um caldo, acompanhado de carne ou peixe e fruta da terra.

Uns dois meses depois do regresso do velho Faustino, chegou à aldeia um homem bem-posto, num carro de praça de Alferrarede, com uma pasta na mão, perguntando pelo senhor António Marques Faustino.

Dizia-se advogado e ter assuntos muito importantes e do interesse do senhor, a tratar com ele. Queria que o levassem a sua casa, pois sabia que morava na aldeia.

Enquanto entretiveram o homem, no largo das tabernas, alguém saiu, sub-repticiamente, dirigiu-se a casa do velho Faustino e, não o encontrando, foi procurá-lo no caminho da serra, no meio do pinhal. Ofegante, disse-lhe:

Deus o salve, Ti´Fastino!... Está lá em baixo, à porta da taberna, um senhor que chegou num carro de praça e que disse ter de falar com vomeçê, em pessoa, para seu interesse. Diz que é de leis. O que quer que se lhe diga? Ainda ninguém lhe disse nada, penso eu!...

Vai lá e traz o senhor a minha casa, mas sozinho, ouviste?!...

Numa correria desenfreada, partiu o Zé Miguel a caminho das tabernas e, poucos minutos depois já conduzia o homem para junto da casa do Ti´Fastino, ficando de atalaia, ao fundo da canada para que, como disse o velho, o homem fosse só e mais ninguém presenciasse, ou incomodasse, o que tivessem a resolver os dois.

Ficou, pois, para o que desse e viesse, discretamente vigilante, como que de guarda, ainda que ninguém lhe tivesse encomendado o sermão.

Uma boa hora depois saíram os dois, a conversar, a caminho das tabernas, tendo entrado numa delas para beber um copo, no que foram acompanhados pelos presentes, a convite do velho Fastino.

Foi o advogado a quebrar o silêncio, anunciando que não podia adiantar muito, pois teria que respeitar a vontade do seu cliente, ali presente, mas sempre disse que voltaria mais vezes à aldeia que, a partir daquele dia, poderia receber muitos e bons melhoramentos.

Queria ir a Penhascoso, falar com o senhor padre da freguesia, mas antes precisava dar uma palavrinha ao Cabo de Ordens da terra.

Veio o António do Vale e teve uma conversa com o advogado que, ao que mais tarde se soube, o encarregou de preparar uma comissão de melhoramentos e organizar as coisas para que quando o advogado voltasse, estivesse tudo pronto a avançar.

Tomou nota do nome do padre, despediu-se, do senhor Faustino, curvando-se, entrou no carro e deu ordens ao motorista para seguir até Penhascoso, onde devia dirigir-se a casa do senhor prior e aguardar.

A conversa, com o padre António, resumiu-se às explicações que o advogado entendeu dever dar sobre as intenções do seu cliente, a residir na Serra, sua aldeia natal.

Apresentou-se como advogado e administrador de fortunas e estava ali para pedir a colaboração do padre da freguesia para algumas acções que tinham a ver com a capela.

Pedia, ainda, que fosse respeitada a vontade do seu cliente e o senhor padre ajudasse a manter o povo informado e sem comentários, pois o senhor comendador António Marques Faustino não gostava que se falasse na vida dele.

Nos próximos dias chegariam novidades e a comissão que pediu que criassem na Serra, deveria incluir o senhor padre.

Disse, por fim, que seria informado sobre tudo o que acontecesse e despediu-se, agradecendo toda a colaboração que lhe fosse dispensada, quando solicitada. Entrou no carro e partiu, com um muito obrigado.

Na Serra, como seria de esperar, não se falou de outra coisa: o senhor Fastino, que, se não era, passou a ser, parente de toda a gente da terra, era homem de peso, diziam uns; tratava-se de um benemérito que fizera bem a muita gente e agora se lembrara da sua terra, adiantavam outros.

Houve, porém, os que se calaram e esperaram para ver, porque desconfiaram de tantos segredos e tanta fartura.

Quinze dias depois da visita do advogado, chegou a primeira carta, de Lisboa, com remetente igual às que chegavam para o senhor Faustino, como passou a ser tratado o velho.

Dirigida ao Cabo de Ordens, que depois de mandar lê-la, marcou uma reunião da comissão de melhoramentos, entretanto eleita.

Foi passada palavra e informado, pessoalmente, o senhor Faustino, que fora escolhido para presidente e declarou aceitar o cargo mas apenas como honorário, o que, como explicou, queria dizer que poderia ir às reuniões, participar e ajudar, mas não era obrigado a nada.

O presidente da comissão, Cabo de Ordens, e os restantes quatro membros, além do senhor Faustino e do senhor padre, tomaram lugar na mesa e foi começada a primeira reunião. Estavam presentes muitos populares que enchiam, a capela.

O senhor padre justificou a realização da reunião na capela como absolutamente normal e por ser a casa de todos e ser do interesse do povo o que se iria discutir.

Com a ajuda do padre procedeu-se à escolha dos membros, primeiro e segundo secretários e do tesoureiro e tesoureiro substituto. Foram explicados os procedimentos e a maneira de fazer as actas, que na primeira fase ficaram a cargo do padre.

O presidente honorário pediu a palavra para cumprimentar todos os presentes e pediu ao senhor padre para ler a carta que chegou de Lisboa, enviada pelo seu advogado, com que estava de acordo, pois já lera a cópia.

Resumidamente a carta explicava a situação do advogado e definia os princípios da vontade do senhor Comendador:

Desejava pagar os melhoramentos definidos e aprovados pela comissão.
Mandar instalar um telefone na aldeia.
Fazer todas as coisas necessárias para trazer luz eléctrica para a aldeia.
Reparar caminhos, fontes e capela.
Fazer casa da escola.
Fazer casa para a associação de melhoramentos.
Vinda de médico à aldeia, entre várias outras sugestões.

Para fundo de maneio recomendava a abertura de uma conta, na Caixa Geral de Depósitos, no valor de cem contos de réis, doado pelo senhor Comendador António Marques Faustino.

Durante a leitura, o senhor Faustino manteve-se impávido e sereno e todos os presentes ficaram tão espantados que apenas abriram a boca de admiração à medida que o senhor padre foi lendo.

No final, o senhor Faustino pediu licença para se retirar e recomendou ao senhor padre que explicasse tudo o que a carta dizia e o verdadeiro alcance dela.

Levantou-se e com um ‘Deus vos salve a todos’, saiu.

Durante o resto da manhã ninguém arredou pé, ouvindo as explicações do padre e perguntando o que não entendia.

No final, como resumo, o senhor padre disse:
Caros amigos o que se está a passar é uma verdadeira dádiva do Senhor. O nosso conterrâneo está disposto, e pode, gastar muito dinheiro em benefício desta nossa terra. Os bens dele suportam tudo o que aqui foi anunciado e muito mais, segundo sei. Mas oiçam bem e tenham sempre presente que o senhor Comendador não suporta várias coisas, de que destaco duas:

Não gosta que se metam na vida dele.

Não tolera que o enganem.

De tudo o que se fizer ficará relato nas actas e será dado conhecimento ao senhor doutor advogado.

Todas as acções e despesas serão discutidas e aprovadas pela comissão, antes de apresentadas ao doutor advogado que receberá as cópias das actas das sessões.

O livro de actas ficará à guarda do nosso secretário e poderá ser consultado por qualquer pessoa que o peça, apenas tendo que consultá-lo na presença e no local da comissão.

As ideias, sugestões, pedidos, etc., serão sempre apresentados por escrito e entregues a qualquer membro da comissão que o agendará na reunião seguinte.

O senhor Comendador, tal como o seu representante, não deve ser incomodado, pelo que será informado através das actas das sessões e, proponho que não tenha que se deslocar para as ler, mas receba uma cópia de todas as actas, em sua casa.

Nas décadas seguintes a aldeia progrediu mais que no milénio antecedente e, se não aproveitou melhor a benemerência do velho Fastino, foi por falta de ousadia das comissões e nunca por insuficiência de meios.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Pena de Talião

Pelos anos cinquenta não era fácil a vida no centro do País; no campo era difícil – havia pouco dinheiro para pagar as jornas, a propriedade muito dividida era amanhada pelos proprietários e filhos e os trabalhos especiais (ceifas, mondas, malhas, azeitona, podas ou vindimas) eram sazonais e, por vezes, comunitárias.

Para se conseguir um lugarzito como factor da CP, guarda freios ou condutor na Carris, servente ou pedreiro, nas obras de Lisboa, e guarda na GNR ou PSP, era preciso bons empenhos, de alguém bem colocado, a troco de um bom cabrito ou de uns garrafões do bom azeite da região.

Numa dessas voltas da vida, o ti Manel Bento dirigiu-se a casa do doutor Martins – onde era jornaleiro, tal como fora seu pai –, para lhe pedir que arranjasse qualquer coisa para o filho Mário, que daí a dias seria licenciado da tropa e não tinha muita compleição física para cavar com ele no campo ou nos poços e minas.

Muito bem recebido pela Senhora, que chamou logo uma criada para guardar o recheio da cestinha do ti Manel Bento, constituído por um frasco de mel, um galo capão, ainda vivo, e duas garrafas de azeite. E, enquanto a criada não voltava com a cestita já vazia, lá foi assegurando ao jornaleiro, conhecido da casa havia muitos anos, que o seu compadre de Lisboa alguma coisa haveria de arranjar – recomendaria o rapaz para a GNR.

Foi assim que, daí a seis meses, depois de feita a preparação, o Mário Bento foi colocado, como guarda, no posto da GNR, da vila.

Na primeira patrulha que fez, passou pela sua aldeia, onde levantou vários autos – coisas comezinhas, como entulho deitado nos caminhos, caiação de casa sem licença, poço sem vedação e carroça mal arrumada, foram objecto da atenção do guarda Mário, que, passeando a sua farda nova, tomou a iniciativa de autuar o próprio pai, por uma transgressão de somenos importância.

O ti’Manel Bento, foi ao posto da GNR e ignorando a presença do filho quando por ele passou, dirigiu-se ao graduado de serviço – o sr. Cabo –, a quem apresentou a autuação e se prontificou a pagar a multa. Ao mesmo tempo tirou da algibeira das calças uma bolsita de trapos, onde guardava o dinheiro e, pegando nos vinte escudos, correspondentes à coima, entregou-os. Aceitou o recibo e saiu.

A coisa serenou: não havia que censurar o filho por cumprir o seu dever. Todavia, na cabeça do ti’ Manel continuava a interrogação sobre o que quereria o filho mostrar, com aquela atitude. Não encontrava resposta e custava-lhe mais conter-se, quando ouvia os comentários de vizinhos e amigos sobre o zelo do filho.

A mágoa no coração custou mais a passar; indo para lá do casamento do filho e baptizado dos netos, onde o ti’ Manel fingiu que não mais se lembrava da mágoa que sentiu, quando se viu autuado pelo seu próprio filho, no primeiro trabalho que fez na guarda.

Muitos anos depois, pelo Natal, o ti’ Manel chamou os seis filhos e, à volta do alguidar das filhós, de uma pratada de tremoços, uma bacia de azeitonas retalhadas, pão e queijo, regados com vinho da casa, todos comeram e beberam, à vontade.

Antes de partirem para suas casas, o velho pai puxou da mesma bolsita de pano que usara no posto da GNR, trinta e três anos antes, e tirando cinco notas de quinhentos escudos – quantia que nesse tempo correspondia a mais de dois meses de jornas –, deu uma a cada filho, menos ao Mário, ainda guarda da GNR.

Disse que queria deixar as coisas equilibradas; que aquelas notas não eram mais, nem menos, que os vinte mil réis que tinha pago de multa, trinta e três anos atrás, valorizados a um juro normal de dez por cento ao ano. Não havia mais nada a dizer e só queria acrescentar que já podia morrer descansado.

Cada um desapareceu para seu lado, rapidamente, só o Mário, junto do pai, o abraçou, sentidamente e em silêncio total. Não se sentiu injustiçado – recordou-se de qualquer coisa que lera, sobre a “pena de Talião”.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Don Pepe & Doña Maria

A festa de Alcaravela, que, em cada ano, tinha lugar num fim-de-semana de Agosto, era um dos pontos altos na vida da aldeia, sobretudo entre as gentes mais jovens.

De cariz, genuinamente, popular, tinha início no sábado, com os encontros entre familiares e amigos. Continuava, com uma forte "alvorada", de foguetes e morteiros, ao pôr-do-sol e, depois, à chegada do conjunto musical que, se revezava com o acordeonista, começava o baile.

No domingo, durante a manhã, percorriam-se as ruas, ao som da banda de Sardoal, fazendo o peditório, para a igreja. Seguia-se a missa, na igreja matriz de Santa Clara, apinhada de gente.

Terminada a procissão, que se seguia à missa, fazia-se o leilão das fogaças e comiam-se as merendas, para o que cada grupo de romeiros escolhia uma sombra.

Da Serra ia sempre uma grande comitiva: uns com destino à missa e procissão, outros para encontrar familiares e amigos, beberem uns copos e falarem de negócios. Os mais jovens esperavam, com impaciência, a animação e o baile, que durariam toda a noite.

Os rapazes compravam os bilhetes para as séries de três danças, tomavam lugar junto ao estrado e logo que se iniciava a música convidavam, por sinais, ou de viva voz, as raparigas que mais lhes interessavam.

Quando se notava insistência na escolha de um par, os outros afastavam-se, discretamente.

Nas mesas, à volta do "dancing", as mães, tias, mirones e raparigas não convidadas, nessa dança, seguiam, atentamente, tudo o que se passava e iam coscuvilhando.

Os homens bebiam cervejas e copos de vinho, enquanto conversavam com os amigos.

Alta madrugada, organizavam-se os grupos, de regresso às aldeias: os "moços soltos", os "casalinhos apalavrados" e os que aproveitavam a calada da noite para "pedidos de namoro".

Num dos regressos das festas de Alcaravela, um par de namorados – a Maria do Cimo da Eira e o Zé, da Tojeira –, afastaram-se do grupo, para irem à vontade.

No Vale das Onegas, os rapazes deram pela falta do “casalinho”, mas não ligaram ao assunto; a terra havia de dá-los. Porém, à chegada à Serra, não apareceram.

De manhã, espalhou-se a notícia na aldeia: a Maria do Cimo da Eira não voltara para casa.

Vieram, mais tarde, notícias da Tojeira que confirmavam a falta do Zé.

Ao fim de uma semana, o padrasto da rapariga comunicou na GNR o desaparecimento da enteada, que tinha sido vista, pela última vez, no regresso das festas de Alcaravela, na companhia do namorado, um rapaz da Tojeira, que também estava desaparecido.

Passaram anos sem sinais dos desaparecidos. Acabaram por cair no esquecimento.

Vinte e cinco anos depois, apareceu, na festa de Alcaravela, um casal de meia-idade, num imponente automóvel de matrícula estrangeira e sinais ostensivos de luxo: anéis, pulseiras, relógios, cordões, brincos e correntes de ouro.

Todos olhavam, deslumbrados e interrogavam-se: Quem serão? De onde virão? O que os traz até aqui?

Por entre a agitação e falatório, um irmão da Maria do Cimo da Eira olhou a estrangeira de frente e exclamou: Por onde tens andado, Maria?!... Afinal, és tu e estás viva!... Dá cá um abraço, mulher!...

Espalhou-se a notícia, juntou-se o povo e todos afirmavam ter já desconfiado que se tratava do Zé da Tojeira e da Maria do Cimo da Eira; os desaparecidos de há vinte e cinco anos.

Os forasteiros, entre beijos e abraços, explicaram que acabavam de chegar, da Argentina, onde estavam há mais de vinte e três anos. Lá, no outro lado do Mundo, Don Pepe & Doña Maria – como eram conhecidos –, tinham mais terra que toda a freguesia de Alcaravela, mais de três mil cabeças de gado e uma "finca" nos arredores de Córdoba, no centro do país.

Nunca tiveram filhos e resolveram vir agora a Portugal, agradecer a Santa Clara, de Alcaravela, e ao Senhor dos Aflitos, da Serra, que muito lhes valeram, nas horas mais difíceis.

Nos dois meses de férias, que repartiram entre as aldeias da sua naturalidade e diversos passeios pelo país, fizeram bem a muita gente.

Regressaram à Argentina sem falar no seu desaparecimento. Levaram dois sobrinhos que iriam preparar para lhes suceder na administração da firma de Import & Export, Pepe & Maria , S.A., nos arredores de Córdoba, na Argentina.

Antes de partir, deram meios e instruções ao irmão da Maria do Cimo da Eira para que mandasse construir uma imponente vivenda, na Serra, onde pensavam voltar para passar o resto dos seus dias.

Muitos anos mais tarde, foi encontrado, nas ruínas da casa, um caderno de duas linhas, com uma série impressionante de nomes de localidades, de diversos países, contas de transportes e até uma caixa, de lata, com um rolo de notas de dólares e pesos argentinos, que havia ali ficado por esquecimento.

Os apontamentos acabaram por desaparecer e as notas extraviaram-se, pois, um pedreiro, que trabalhava em Lisboa, levou-as para tentar cambiá-las no Banco de Portugal e não deu mais conta delas.

Exibiu um recibo, dizendo que se tratava de notas sem curso legal e já sem qualquer valor.

Ninguém mais se interessou pelo caso, não passando, hoje, de uma história que todos vão esquecendo.