Mal acabava de transpor a porta da igreja, no fim da missa do primeiro domingo da Quaresma, quando ouviu a voz do Abílio do Vale Perto a chamar padrinho.
Voltou-se, de imediato, o Ti’ João Pisco e, ao pedido da bênção, pelo afilhado, respondeu, como de costume: Deus te abençoe.
E dali seguiram, lado a lado, até à taberna de baixo, onde se acomodaram, na mesa do desvão da escada, a fim de terem uma prosa, como adiantou o Abílio.
O padrinho sabe que andam a cortar na minha do Vale da Cal; é o primeiro corte depois da morte do meu falecido pai e penso que os pinheiritos não foram mal vendidos.
São uns senhores do Vale de Mação que, além de sérios e cumpridores, têm cuidado com os estragos que fazem nas courela e, além do mais, nenhum outro se chegou ao que eles me deram.
Gostei dos homens e fechámos o negócio.
Ora o que lhe quero falar diz respeito aos três queimados que temos lá, na nossa estrema. O padrinho dirá, de sua justiça: ou se cortam e recebe a sua parte, ou se deixam ficar e continuam queimados.
Com certeza que fizeste as coisas pelo melhor, respondeu o Ti’João. Já agora, pode saber-se quanto recebeste por cada pinheiro?
Claro! Considero o meu padrinho como parte interessada no negócio: duas notas por cada pinheiro sangrado, salvo os três queimados, que ainda não foram entregues.
Queriam dar-me os cento e oitenta, mas a boa localização, praticamente dentro da estrada, e a certeza de que não os deixaria ir por menos um centavo, levou os homens a chegar-se à conta certa.
O Ti’João coçou a cabeça, por baixo da boina, revolveu o pauzito que apertava entre os dentes, fixou-se no afilhado e perguntou: então e a rama?
É claro que a pergunta não esperava resposta. Mas teve-a:
A rama de um pinheiro será para mim, a de outro, que cairá para dentro da sua, lá ficará. A do terceiro, que será derrubado sobre a estrema, será para os dois.
Gosto de ouvir-te, afilhado. És mesmo filho do teu pai, que Deus haja: sempre cuidadoso e cauteloso, prevendo tudo, preparando todas as coisas com cuidado!...Ah, como me lembro do compadre, embora nem sempre nos déssemos como Deus e os anjos; mas, verdade seja dita, mal, nunca nos demos.
Mas, além dos queimados, o padrinho pode querer vender todos os sangrados da sua courela. Isto é modo de falar, que nem ninguém me encomendou o sermão, nem eu o preguei.
E os homens lá do Mação estarão dispostos a dar-me as duas notas por cada um?
A isso não posso responder-lhe, padrinho. Eles, amanhã, estarão a cortar na minha; é questão do padrinho ir lá falar com eles. Pelo menos vai a saber com o que conta.
E tu, não queres estar presente? É que não me parece nada má essa tua ideia, além de que, até hoje, os meus pinheiros não ouviram mais de cento e oitenta e cinco mil réis, cada um.
Parabéns, afilhado, o meu compadre, e teu pai que Deus haja, há-de estar vaidoso de ti, pois estás a mostrar-te um verdadeiro filho de quem és.
Bondade sua, padrinho. Faz-se o que se pode; e se um homem não zelar pelo que é seu, levam-lhe coiro e cabelo e ainda ficam a rir-se nas suas costas.
Amanhã, ao sol-nado, encontramo-nos lá no Vale da Cal. Está bem, padrinho?
É melhor passares lá por minha casa; fica-te em caminho e, depois de matarmos o bicho, dividimos o caminho a meias, como costuma dizer-se; de prosa, até custa menos a chegar lá. Isto se não te importares e a companhia te agradar.
Ora essa, padrinho. Lá estarei e até amanhã. Recomendações à madrinha.
Igualmente para a tua mulher e vossos filhos, que estão a acabar a escola, não é?...
O Abílio deu voltas, na cama, para descobrir o que movia o padrinho na sua direcção; sempre fora arredio e sobranceiro e agora descia do pedestal?... Mas por que cargas de água?... E aquela dos miúdos a acabar a escola?...
O Ti’João andava, havia tempos, para se dirigir ao afilhado. Sabia que ele já fora ao Mação saber quanto custava o ensino no colégio que acabava de abrir, que já estivera na Queixoperra, em casa de um parente que trazia lá um filho havia um ano, e que até já apalavrara uma casa, na vila, para hospedar os filhos.
Aquela viagem caía como sopa no mel, para saber coisas e substituir-se ao genro, que não preparara nada: estava decidido que os seus netos também haviam de vir a ser muito mais do que ele e o dinheiro dos pinheiros do Vale da Cal iria ser reservado para esse fim.
Na viagem de ida e regresso o Ti’João confessou todo o seu interesse em saber coisas sobre o colégio e as possibilidades de mandar estudar os seus netos.
Agradeceu muito ao afilhado e pediu-lhe que fosse reservado sobre aquela prosa, pois queria saber até onde chegaria o seu genro. E, na altura própria, os netos do Ti’João foram para o colégio e, ainda em vida do avô, foram os dois primeiros a alcançarem uma formatura.
Desejamos que os muitos que se revêem nesta breve história, nunca tenham esquecido, ou renegado, os “Abílios” das nossas terras.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A azenha do Ti Lindo
Danado de ano em que tudo correu mal, cá em casa.
Com estas palavras de desalento despedia-se o compadre Lindo do Tio André que viera assistir e ajudar na matança e estava de partida, com a patroa, os dois filhos e a nora – a filha mais velha do ti Lindo que casara, havia dois anos, com o filho mais moço do moleiro André, nado e criado no Pisão Fundeiro e muito bem afreguesado ali na Serra –.
Queixava-se o Ti Lindo:
O ano começou com aquele tombo do carro dos bois em que o cabano acabou por me partir um corno e ainda andar uns meses com um aleijão na perna esquerda, de trás, de jeito que o outro tinha praticamente de puxar sozinho.
Pouco trabalhámos na primeira metade do ano.
Depois a cabrita mais nova não tomou barriga e sempre foram menos dois chibitos, que a malvada nunca deu menos.
A praga deu nas macieiras do vale de Incenso e foi uma guerra para conseguir avisar os fregueses habituais que as árvores não tinham dado nada e não podia levar as encomendas.
O maldito do pulgão não deixou escapar uma couvinha que fosse, lá no canteirito que sempre me rendia uns centos de mil réis nas praças de Mação e do Sardoal.
As videiras nem deram para bebermos na ceifa e na matança; a safra da azeitona está feita, como se pode ver: nem vai chegar para a apanha.
O porquito, a que veio ajudar, é o que resta dos três que todos os anos costumamos matar.
Mas, compadre, que tudo seja em desconto dos nossos pecados e, se Deus quiser, para o ano será melhor. Nunca podemos desanimar e temos de aceitar o que o destino nos dá, pois que se há-de fazer?!...
O moleiro, tomando habilmente a palavra, rematou:
É verdade, senhor compadre, que é uma dor de alma carregar para aqui tantos taleigos de farinha para os três porquitos – com sua licença – e as malvadas das febres levarem quase tudo.
Deixe lá, graças a Deus estamos todos bem de saúde e aquele negócio de que falámos ontem, há-de correr bem e virá dar uma boa ajuda ao arranjo da sua casa que, com todos esses contratempos, ainda dá e vende aos olhos de quem a inveja.
E agora, com vossa licença, vamos andando que já não chegamos a casa antes de sol-posto e há animais a tratar, águas a tapar, engenhos a ajeitar, que amanhã é outro dia, se Deus quiser. Dê cá um abraço e muito bem hajam os compadres que tão bem nos souberam e quiseram receber.
Fiquem com Deus, compadres.
Aquelas últimas palavras do moleiro acabaram por dar um alento novo ao Ti Lindo.
Foi dali pensar os animais, avisar o Manuel do Vale e o Courela que no dia seguinte continuava a surriba nos Brejos, passou pela taberna para saber as últimas e sentou-se à mesa, junto da lareira, para cear com a mulher – Ti Maria das Dores –.
Comeram os restos da couvada do jantar e no fim uma morcela de assar, bem puxada de cominhos e apontada de sal e quando o Ti Lindo se sentou à lareira, depois da reza habitual, chegaram as duas comadres que vinham ajudar no tratamento das carnes para os enchidos.
As três mulheres acenderam uma candeia de azeite e dirigiram-se, pela porta dos fundos, à despensa anexa, onde se tratavam os assuntos referentes a carnes e enchidos da matança.
O Ti Lindo, com a cabeça a pender, continuou a pensar no segredo que partilhara com o compadre moleiro de quem conseguira obter todos os pormenores que lhe seriam muito úteis na concretização da tarefa que havia muito tempo preparava.
Soube dos passos a dar junto da Senhora Câmara, dos serviços da hidráulica, dos favores a conseguir junto do guarda-rios e tomou até orientações da construção e dos apetrechos necessários à montagem da azenha, no cimo da horta da Renda.
Pelas suas contas, com uns vinte contos de réis preparava tudo e em cada ano, só para os animais, haveria de moer para cima de trezentos alqueires de milho e centeio.
Com maquia de um em dez que fosse, a azenha ganhava trinta ou mais alqueires de pão em cada ano. E se aparecesse alguém que tivesse pão para ocupar os tempos mortos, podia arranjar-se mais cinco ou dez alqueires de maquias.
Onde diabo iria arranjar-se uma courela, por vinte contos, que, sem trabalho, desse trinta ou quarenta alqueires de pão?!..
Quando a mulher o abanou, despertou, levantou-se e disse-lhe:
Acabamos de adquirir uma courela que dá trinta ou quarenta alqueires de pão por ano… sem trabalho nenhum.
Vamos dormir…
Com estas palavras de desalento despedia-se o compadre Lindo do Tio André que viera assistir e ajudar na matança e estava de partida, com a patroa, os dois filhos e a nora – a filha mais velha do ti Lindo que casara, havia dois anos, com o filho mais moço do moleiro André, nado e criado no Pisão Fundeiro e muito bem afreguesado ali na Serra –.
Queixava-se o Ti Lindo:
O ano começou com aquele tombo do carro dos bois em que o cabano acabou por me partir um corno e ainda andar uns meses com um aleijão na perna esquerda, de trás, de jeito que o outro tinha praticamente de puxar sozinho.
Pouco trabalhámos na primeira metade do ano.
Depois a cabrita mais nova não tomou barriga e sempre foram menos dois chibitos, que a malvada nunca deu menos.
A praga deu nas macieiras do vale de Incenso e foi uma guerra para conseguir avisar os fregueses habituais que as árvores não tinham dado nada e não podia levar as encomendas.
O maldito do pulgão não deixou escapar uma couvinha que fosse, lá no canteirito que sempre me rendia uns centos de mil réis nas praças de Mação e do Sardoal.
As videiras nem deram para bebermos na ceifa e na matança; a safra da azeitona está feita, como se pode ver: nem vai chegar para a apanha.
O porquito, a que veio ajudar, é o que resta dos três que todos os anos costumamos matar.
Mas, compadre, que tudo seja em desconto dos nossos pecados e, se Deus quiser, para o ano será melhor. Nunca podemos desanimar e temos de aceitar o que o destino nos dá, pois que se há-de fazer?!...
O moleiro, tomando habilmente a palavra, rematou:
É verdade, senhor compadre, que é uma dor de alma carregar para aqui tantos taleigos de farinha para os três porquitos – com sua licença – e as malvadas das febres levarem quase tudo.
Deixe lá, graças a Deus estamos todos bem de saúde e aquele negócio de que falámos ontem, há-de correr bem e virá dar uma boa ajuda ao arranjo da sua casa que, com todos esses contratempos, ainda dá e vende aos olhos de quem a inveja.
E agora, com vossa licença, vamos andando que já não chegamos a casa antes de sol-posto e há animais a tratar, águas a tapar, engenhos a ajeitar, que amanhã é outro dia, se Deus quiser. Dê cá um abraço e muito bem hajam os compadres que tão bem nos souberam e quiseram receber.
Fiquem com Deus, compadres.
Aquelas últimas palavras do moleiro acabaram por dar um alento novo ao Ti Lindo.
Foi dali pensar os animais, avisar o Manuel do Vale e o Courela que no dia seguinte continuava a surriba nos Brejos, passou pela taberna para saber as últimas e sentou-se à mesa, junto da lareira, para cear com a mulher – Ti Maria das Dores –.
Comeram os restos da couvada do jantar e no fim uma morcela de assar, bem puxada de cominhos e apontada de sal e quando o Ti Lindo se sentou à lareira, depois da reza habitual, chegaram as duas comadres que vinham ajudar no tratamento das carnes para os enchidos.
As três mulheres acenderam uma candeia de azeite e dirigiram-se, pela porta dos fundos, à despensa anexa, onde se tratavam os assuntos referentes a carnes e enchidos da matança.
O Ti Lindo, com a cabeça a pender, continuou a pensar no segredo que partilhara com o compadre moleiro de quem conseguira obter todos os pormenores que lhe seriam muito úteis na concretização da tarefa que havia muito tempo preparava.
Soube dos passos a dar junto da Senhora Câmara, dos serviços da hidráulica, dos favores a conseguir junto do guarda-rios e tomou até orientações da construção e dos apetrechos necessários à montagem da azenha, no cimo da horta da Renda.
Pelas suas contas, com uns vinte contos de réis preparava tudo e em cada ano, só para os animais, haveria de moer para cima de trezentos alqueires de milho e centeio.
Com maquia de um em dez que fosse, a azenha ganhava trinta ou mais alqueires de pão em cada ano. E se aparecesse alguém que tivesse pão para ocupar os tempos mortos, podia arranjar-se mais cinco ou dez alqueires de maquias.
Onde diabo iria arranjar-se uma courela, por vinte contos, que, sem trabalho, desse trinta ou quarenta alqueires de pão?!..
Quando a mulher o abanou, despertou, levantou-se e disse-lhe:
Acabamos de adquirir uma courela que dá trinta ou quarenta alqueires de pão por ano… sem trabalho nenhum.
Vamos dormir…
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
O velho Faustino
Ninguém conhecera, não se lembrava ou, simplesmente não queria falar do Ti´Fastino, como se dizia no povo, enquanto rapaz.
Durante uns tempos, após o seu desaparecimento, falou-se dele como voluntário na guerra da França, embarcado na marinha mercante, zelador de um cemitério de mortos na guerra, algures na Bélgica, cativo dos indígenas de um país africano, deportado nas galés e rufia nas ruas da capital. Esqueceram-no, por fim.
Afastado da terra, e sem com ela comunicar, durante perto de setenta anos, regressou, num dia de cerrada maresia, dirigiu-se a casa dos parentes mais próximos, se bem que afastados, cumprimentou-os e manifestou a vontade de se fixar na Terra.
Queria uma casa, que estava disposto a comprar, e precisava de quem lhe tratasse da roupa e preparasse a comida.
Adiantou-se a Tia Ana Tomásia, prima ainda chegada, que ofereceu uma casa ao Ti´Fastino e se prontificou a tratar de roupas e limpezas da casa – sabe, primo, gostaria de lhe dar melhor, mas cá na terra é o que se pode arranjar; não levará a mal –.
O recém-chegado agradeceu e aceitou a oferta, dizendo que tinha toda a roupa que precisava e que arranjasse alguém para ajudá-la, sem olhar às despesas.
Passados poucos dias, dominava, perfeitamente, a aldeia, embora se mantivesse à margem e nunca adiantasse conversa quando era interpelado.
Agradecia tudo o que lhe faziam e era bastante generoso nas recompensas que dava.
Era homem de poucas falas, com dificuldades auditivas e usava óculos muito graduados. De aspecto limpo e cuidado, muito bem vestido, trouxera, consigo, apenas duas malas, no automóvel em que chegou ao Casal.
Na primeira volta pela aldeia deu a salvação aos que com ele se cruzaram, sendo desconhecido da maioria.
Alguns, porém, nem acreditaram no que estavam a ver.
Esperavam tudo, menos o velho “Fastino”, dado como morto, havia muito tempo.
Os dias passaram e no correio passou a chegar, todos os dias, “O Século” e, várias cartas, com carimbo de Lisboa, mas sem remetente.
Levantava-se cedo, demorava uma boa meia hora a fazer a higiene pessoal, recebia o barbeiro – curioso que aprendera a arte na tropa – para lhe fazer a barba e dava voltas pelos campos dos arredores, que parecia reconhecer.
Passava horas, sentado no meio dos pinheiros, com a cabeça entre as mãos, como que dormitando.
Todos os dias, depois da primeira volta pelo campo, mandava alguém ao Casal procurar o correio e almoçava. Dormia a sesta e, pela tardinha, saía para a segunda volta, de que regressava ao pôr-do-sol, passando pelas tabernas, onde convidava todos os presentes a beber um copo. Regressava a casa, comia um caldo, acompanhado de carne ou peixe e fruta da terra.
Uns dois meses depois do regresso do velho Faustino, chegou à aldeia um homem bem-posto, num carro de praça de Alferrarede, com uma pasta na mão, perguntando pelo senhor António Marques Faustino.
Dizia-se advogado e ter assuntos muito importantes e do interesse do senhor, a tratar com ele. Queria que o levassem a sua casa, pois sabia que morava na aldeia.
Enquanto entretiveram o homem, no largo das tabernas, alguém saiu, sub-repticiamente, dirigiu-se a casa do velho Faustino e, não o encontrando, foi procurá-lo no caminho da serra, no meio do pinhal. Ofegante, disse-lhe:
Deus o salve, Ti´Fastino!... Está lá em baixo, à porta da taberna, um senhor que chegou num carro de praça e que disse ter de falar com vomeçê, em pessoa, para seu interesse. Diz que é de leis. O que quer que se lhe diga? Ainda ninguém lhe disse nada, penso eu!...
Vai lá e traz o senhor a minha casa, mas sozinho, ouviste?!...
Numa correria desenfreada, partiu o Zé Miguel a caminho das tabernas e, poucos minutos depois já conduzia o homem para junto da casa do Ti´Fastino, ficando de atalaia, ao fundo da canada para que, como disse o velho, o homem fosse só e mais ninguém presenciasse, ou incomodasse, o que tivessem a resolver os dois.
Ficou, pois, para o que desse e viesse, discretamente vigilante, como que de guarda, ainda que ninguém lhe tivesse encomendado o sermão.
Uma boa hora depois saíram os dois, a conversar, a caminho das tabernas, tendo entrado numa delas para beber um copo, no que foram acompanhados pelos presentes, a convite do velho Fastino.
Foi o advogado a quebrar o silêncio, anunciando que não podia adiantar muito, pois teria que respeitar a vontade do seu cliente, ali presente, mas sempre disse que voltaria mais vezes à aldeia que, a partir daquele dia, poderia receber muitos e bons melhoramentos.
Queria ir a Penhascoso, falar com o senhor padre da freguesia, mas antes precisava dar uma palavrinha ao Cabo de Ordens da terra.
Veio o António do Vale e teve uma conversa com o advogado que, ao que mais tarde se soube, o encarregou de preparar uma comissão de melhoramentos e organizar as coisas para que quando o advogado voltasse, estivesse tudo pronto a avançar.
Tomou nota do nome do padre, despediu-se, do senhor Faustino, curvando-se, entrou no carro e deu ordens ao motorista para seguir até Penhascoso, onde devia dirigir-se a casa do senhor prior e aguardar.
A conversa, com o padre António, resumiu-se às explicações que o advogado entendeu dever dar sobre as intenções do seu cliente, a residir na Serra, sua aldeia natal.
Apresentou-se como advogado e administrador de fortunas e estava ali para pedir a colaboração do padre da freguesia para algumas acções que tinham a ver com a capela.
Pedia, ainda, que fosse respeitada a vontade do seu cliente e o senhor padre ajudasse a manter o povo informado e sem comentários, pois o senhor comendador António Marques Faustino não gostava que se falasse na vida dele.
Nos próximos dias chegariam novidades e a comissão que pediu que criassem na Serra, deveria incluir o senhor padre.
Disse, por fim, que seria informado sobre tudo o que acontecesse e despediu-se, agradecendo toda a colaboração que lhe fosse dispensada, quando solicitada. Entrou no carro e partiu, com um muito obrigado.
Na Serra, como seria de esperar, não se falou de outra coisa: o senhor Fastino, que, se não era, passou a ser, parente de toda a gente da terra, era homem de peso, diziam uns; tratava-se de um benemérito que fizera bem a muita gente e agora se lembrara da sua terra, adiantavam outros.
Houve, porém, os que se calaram e esperaram para ver, porque desconfiaram de tantos segredos e tanta fartura.
Quinze dias depois da visita do advogado, chegou a primeira carta, de Lisboa, com remetente igual às que chegavam para o senhor Faustino, como passou a ser tratado o velho.
Dirigida ao Cabo de Ordens, que depois de mandar lê-la, marcou uma reunião da comissão de melhoramentos, entretanto eleita.
Foi passada palavra e informado, pessoalmente, o senhor Faustino, que fora escolhido para presidente e declarou aceitar o cargo mas apenas como honorário, o que, como explicou, queria dizer que poderia ir às reuniões, participar e ajudar, mas não era obrigado a nada.
O presidente da comissão, Cabo de Ordens, e os restantes quatro membros, além do senhor Faustino e do senhor padre, tomaram lugar na mesa e foi começada a primeira reunião. Estavam presentes muitos populares que enchiam, a capela.
O senhor padre justificou a realização da reunião na capela como absolutamente normal e por ser a casa de todos e ser do interesse do povo o que se iria discutir.
Com a ajuda do padre procedeu-se à escolha dos membros, primeiro e segundo secretários e do tesoureiro e tesoureiro substituto. Foram explicados os procedimentos e a maneira de fazer as actas, que na primeira fase ficaram a cargo do padre.
O presidente honorário pediu a palavra para cumprimentar todos os presentes e pediu ao senhor padre para ler a carta que chegou de Lisboa, enviada pelo seu advogado, com que estava de acordo, pois já lera a cópia.
Resumidamente a carta explicava a situação do advogado e definia os princípios da vontade do senhor Comendador:
Desejava pagar os melhoramentos definidos e aprovados pela comissão.
Mandar instalar um telefone na aldeia.
Fazer todas as coisas necessárias para trazer luz eléctrica para a aldeia.
Reparar caminhos, fontes e capela.
Fazer casa da escola.
Fazer casa para a associação de melhoramentos.
Vinda de médico à aldeia, entre várias outras sugestões.
Para fundo de maneio recomendava a abertura de uma conta, na Caixa Geral de Depósitos, no valor de cem contos de réis, doado pelo senhor Comendador António Marques Faustino.
Durante a leitura, o senhor Faustino manteve-se impávido e sereno e todos os presentes ficaram tão espantados que apenas abriram a boca de admiração à medida que o senhor padre foi lendo.
No final, o senhor Faustino pediu licença para se retirar e recomendou ao senhor padre que explicasse tudo o que a carta dizia e o verdadeiro alcance dela.
Levantou-se e com um ‘Deus vos salve a todos’, saiu.
Durante o resto da manhã ninguém arredou pé, ouvindo as explicações do padre e perguntando o que não entendia.
No final, como resumo, o senhor padre disse:
Caros amigos o que se está a passar é uma verdadeira dádiva do Senhor. O nosso conterrâneo está disposto, e pode, gastar muito dinheiro em benefício desta nossa terra. Os bens dele suportam tudo o que aqui foi anunciado e muito mais, segundo sei. Mas oiçam bem e tenham sempre presente que o senhor Comendador não suporta várias coisas, de que destaco duas:
Não gosta que se metam na vida dele.
Não tolera que o enganem.
De tudo o que se fizer ficará relato nas actas e será dado conhecimento ao senhor doutor advogado.
Todas as acções e despesas serão discutidas e aprovadas pela comissão, antes de apresentadas ao doutor advogado que receberá as cópias das actas das sessões.
O livro de actas ficará à guarda do nosso secretário e poderá ser consultado por qualquer pessoa que o peça, apenas tendo que consultá-lo na presença e no local da comissão.
As ideias, sugestões, pedidos, etc., serão sempre apresentados por escrito e entregues a qualquer membro da comissão que o agendará na reunião seguinte.
O senhor Comendador, tal como o seu representante, não deve ser incomodado, pelo que será informado através das actas das sessões e, proponho que não tenha que se deslocar para as ler, mas receba uma cópia de todas as actas, em sua casa.
Nas décadas seguintes a aldeia progrediu mais que no milénio antecedente e, se não aproveitou melhor a benemerência do velho Fastino, foi por falta de ousadia das comissões e nunca por insuficiência de meios.
Durante uns tempos, após o seu desaparecimento, falou-se dele como voluntário na guerra da França, embarcado na marinha mercante, zelador de um cemitério de mortos na guerra, algures na Bélgica, cativo dos indígenas de um país africano, deportado nas galés e rufia nas ruas da capital. Esqueceram-no, por fim.
Afastado da terra, e sem com ela comunicar, durante perto de setenta anos, regressou, num dia de cerrada maresia, dirigiu-se a casa dos parentes mais próximos, se bem que afastados, cumprimentou-os e manifestou a vontade de se fixar na Terra.
Queria uma casa, que estava disposto a comprar, e precisava de quem lhe tratasse da roupa e preparasse a comida.
Adiantou-se a Tia Ana Tomásia, prima ainda chegada, que ofereceu uma casa ao Ti´Fastino e se prontificou a tratar de roupas e limpezas da casa – sabe, primo, gostaria de lhe dar melhor, mas cá na terra é o que se pode arranjar; não levará a mal –.
O recém-chegado agradeceu e aceitou a oferta, dizendo que tinha toda a roupa que precisava e que arranjasse alguém para ajudá-la, sem olhar às despesas.
Passados poucos dias, dominava, perfeitamente, a aldeia, embora se mantivesse à margem e nunca adiantasse conversa quando era interpelado.
Agradecia tudo o que lhe faziam e era bastante generoso nas recompensas que dava.
Era homem de poucas falas, com dificuldades auditivas e usava óculos muito graduados. De aspecto limpo e cuidado, muito bem vestido, trouxera, consigo, apenas duas malas, no automóvel em que chegou ao Casal.
Na primeira volta pela aldeia deu a salvação aos que com ele se cruzaram, sendo desconhecido da maioria.
Alguns, porém, nem acreditaram no que estavam a ver.
Esperavam tudo, menos o velho “Fastino”, dado como morto, havia muito tempo.
Os dias passaram e no correio passou a chegar, todos os dias, “O Século” e, várias cartas, com carimbo de Lisboa, mas sem remetente.
Levantava-se cedo, demorava uma boa meia hora a fazer a higiene pessoal, recebia o barbeiro – curioso que aprendera a arte na tropa – para lhe fazer a barba e dava voltas pelos campos dos arredores, que parecia reconhecer.
Passava horas, sentado no meio dos pinheiros, com a cabeça entre as mãos, como que dormitando.
Todos os dias, depois da primeira volta pelo campo, mandava alguém ao Casal procurar o correio e almoçava. Dormia a sesta e, pela tardinha, saía para a segunda volta, de que regressava ao pôr-do-sol, passando pelas tabernas, onde convidava todos os presentes a beber um copo. Regressava a casa, comia um caldo, acompanhado de carne ou peixe e fruta da terra.
Uns dois meses depois do regresso do velho Faustino, chegou à aldeia um homem bem-posto, num carro de praça de Alferrarede, com uma pasta na mão, perguntando pelo senhor António Marques Faustino.
Dizia-se advogado e ter assuntos muito importantes e do interesse do senhor, a tratar com ele. Queria que o levassem a sua casa, pois sabia que morava na aldeia.
Enquanto entretiveram o homem, no largo das tabernas, alguém saiu, sub-repticiamente, dirigiu-se a casa do velho Faustino e, não o encontrando, foi procurá-lo no caminho da serra, no meio do pinhal. Ofegante, disse-lhe:
Deus o salve, Ti´Fastino!... Está lá em baixo, à porta da taberna, um senhor que chegou num carro de praça e que disse ter de falar com vomeçê, em pessoa, para seu interesse. Diz que é de leis. O que quer que se lhe diga? Ainda ninguém lhe disse nada, penso eu!...
Vai lá e traz o senhor a minha casa, mas sozinho, ouviste?!...
Numa correria desenfreada, partiu o Zé Miguel a caminho das tabernas e, poucos minutos depois já conduzia o homem para junto da casa do Ti´Fastino, ficando de atalaia, ao fundo da canada para que, como disse o velho, o homem fosse só e mais ninguém presenciasse, ou incomodasse, o que tivessem a resolver os dois.
Ficou, pois, para o que desse e viesse, discretamente vigilante, como que de guarda, ainda que ninguém lhe tivesse encomendado o sermão.
Uma boa hora depois saíram os dois, a conversar, a caminho das tabernas, tendo entrado numa delas para beber um copo, no que foram acompanhados pelos presentes, a convite do velho Fastino.
Foi o advogado a quebrar o silêncio, anunciando que não podia adiantar muito, pois teria que respeitar a vontade do seu cliente, ali presente, mas sempre disse que voltaria mais vezes à aldeia que, a partir daquele dia, poderia receber muitos e bons melhoramentos.
Queria ir a Penhascoso, falar com o senhor padre da freguesia, mas antes precisava dar uma palavrinha ao Cabo de Ordens da terra.
Veio o António do Vale e teve uma conversa com o advogado que, ao que mais tarde se soube, o encarregou de preparar uma comissão de melhoramentos e organizar as coisas para que quando o advogado voltasse, estivesse tudo pronto a avançar.
Tomou nota do nome do padre, despediu-se, do senhor Faustino, curvando-se, entrou no carro e deu ordens ao motorista para seguir até Penhascoso, onde devia dirigir-se a casa do senhor prior e aguardar.
A conversa, com o padre António, resumiu-se às explicações que o advogado entendeu dever dar sobre as intenções do seu cliente, a residir na Serra, sua aldeia natal.
Apresentou-se como advogado e administrador de fortunas e estava ali para pedir a colaboração do padre da freguesia para algumas acções que tinham a ver com a capela.
Pedia, ainda, que fosse respeitada a vontade do seu cliente e o senhor padre ajudasse a manter o povo informado e sem comentários, pois o senhor comendador António Marques Faustino não gostava que se falasse na vida dele.
Nos próximos dias chegariam novidades e a comissão que pediu que criassem na Serra, deveria incluir o senhor padre.
Disse, por fim, que seria informado sobre tudo o que acontecesse e despediu-se, agradecendo toda a colaboração que lhe fosse dispensada, quando solicitada. Entrou no carro e partiu, com um muito obrigado.
Na Serra, como seria de esperar, não se falou de outra coisa: o senhor Fastino, que, se não era, passou a ser, parente de toda a gente da terra, era homem de peso, diziam uns; tratava-se de um benemérito que fizera bem a muita gente e agora se lembrara da sua terra, adiantavam outros.
Houve, porém, os que se calaram e esperaram para ver, porque desconfiaram de tantos segredos e tanta fartura.
Quinze dias depois da visita do advogado, chegou a primeira carta, de Lisboa, com remetente igual às que chegavam para o senhor Faustino, como passou a ser tratado o velho.
Dirigida ao Cabo de Ordens, que depois de mandar lê-la, marcou uma reunião da comissão de melhoramentos, entretanto eleita.
Foi passada palavra e informado, pessoalmente, o senhor Faustino, que fora escolhido para presidente e declarou aceitar o cargo mas apenas como honorário, o que, como explicou, queria dizer que poderia ir às reuniões, participar e ajudar, mas não era obrigado a nada.
O presidente da comissão, Cabo de Ordens, e os restantes quatro membros, além do senhor Faustino e do senhor padre, tomaram lugar na mesa e foi começada a primeira reunião. Estavam presentes muitos populares que enchiam, a capela.
O senhor padre justificou a realização da reunião na capela como absolutamente normal e por ser a casa de todos e ser do interesse do povo o que se iria discutir.
Com a ajuda do padre procedeu-se à escolha dos membros, primeiro e segundo secretários e do tesoureiro e tesoureiro substituto. Foram explicados os procedimentos e a maneira de fazer as actas, que na primeira fase ficaram a cargo do padre.
O presidente honorário pediu a palavra para cumprimentar todos os presentes e pediu ao senhor padre para ler a carta que chegou de Lisboa, enviada pelo seu advogado, com que estava de acordo, pois já lera a cópia.
Resumidamente a carta explicava a situação do advogado e definia os princípios da vontade do senhor Comendador:
Desejava pagar os melhoramentos definidos e aprovados pela comissão.
Mandar instalar um telefone na aldeia.
Fazer todas as coisas necessárias para trazer luz eléctrica para a aldeia.
Reparar caminhos, fontes e capela.
Fazer casa da escola.
Fazer casa para a associação de melhoramentos.
Vinda de médico à aldeia, entre várias outras sugestões.
Para fundo de maneio recomendava a abertura de uma conta, na Caixa Geral de Depósitos, no valor de cem contos de réis, doado pelo senhor Comendador António Marques Faustino.
Durante a leitura, o senhor Faustino manteve-se impávido e sereno e todos os presentes ficaram tão espantados que apenas abriram a boca de admiração à medida que o senhor padre foi lendo.
No final, o senhor Faustino pediu licença para se retirar e recomendou ao senhor padre que explicasse tudo o que a carta dizia e o verdadeiro alcance dela.
Levantou-se e com um ‘Deus vos salve a todos’, saiu.
Durante o resto da manhã ninguém arredou pé, ouvindo as explicações do padre e perguntando o que não entendia.
No final, como resumo, o senhor padre disse:
Caros amigos o que se está a passar é uma verdadeira dádiva do Senhor. O nosso conterrâneo está disposto, e pode, gastar muito dinheiro em benefício desta nossa terra. Os bens dele suportam tudo o que aqui foi anunciado e muito mais, segundo sei. Mas oiçam bem e tenham sempre presente que o senhor Comendador não suporta várias coisas, de que destaco duas:
Não gosta que se metam na vida dele.
Não tolera que o enganem.
De tudo o que se fizer ficará relato nas actas e será dado conhecimento ao senhor doutor advogado.
Todas as acções e despesas serão discutidas e aprovadas pela comissão, antes de apresentadas ao doutor advogado que receberá as cópias das actas das sessões.
O livro de actas ficará à guarda do nosso secretário e poderá ser consultado por qualquer pessoa que o peça, apenas tendo que consultá-lo na presença e no local da comissão.
As ideias, sugestões, pedidos, etc., serão sempre apresentados por escrito e entregues a qualquer membro da comissão que o agendará na reunião seguinte.
O senhor Comendador, tal como o seu representante, não deve ser incomodado, pelo que será informado através das actas das sessões e, proponho que não tenha que se deslocar para as ler, mas receba uma cópia de todas as actas, em sua casa.
Nas décadas seguintes a aldeia progrediu mais que no milénio antecedente e, se não aproveitou melhor a benemerência do velho Fastino, foi por falta de ousadia das comissões e nunca por insuficiência de meios.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Pena de Talião
Pelos anos cinquenta não era fácil a vida no centro do País; no campo era difícil – havia pouco dinheiro para pagar as jornas, a propriedade muito dividida era amanhada pelos proprietários e filhos e os trabalhos especiais (ceifas, mondas, malhas, azeitona, podas ou vindimas) eram sazonais e, por vezes, comunitárias.
Para se conseguir um lugarzito como factor da CP, guarda freios ou condutor na Carris, servente ou pedreiro, nas obras de Lisboa, e guarda na GNR ou PSP, era preciso bons empenhos, de alguém bem colocado, a troco de um bom cabrito ou de uns garrafões do bom azeite da região.
Numa dessas voltas da vida, o ti Manel Bento dirigiu-se a casa do doutor Martins – onde era jornaleiro, tal como fora seu pai –, para lhe pedir que arranjasse qualquer coisa para o filho Mário, que daí a dias seria licenciado da tropa e não tinha muita compleição física para cavar com ele no campo ou nos poços e minas.
Muito bem recebido pela Senhora, que chamou logo uma criada para guardar o recheio da cestinha do ti Manel Bento, constituído por um frasco de mel, um galo capão, ainda vivo, e duas garrafas de azeite. E, enquanto a criada não voltava com a cestita já vazia, lá foi assegurando ao jornaleiro, conhecido da casa havia muitos anos, que o seu compadre de Lisboa alguma coisa haveria de arranjar – recomendaria o rapaz para a GNR.
Foi assim que, daí a seis meses, depois de feita a preparação, o Mário Bento foi colocado, como guarda, no posto da GNR, da vila.
Na primeira patrulha que fez, passou pela sua aldeia, onde levantou vários autos – coisas comezinhas, como entulho deitado nos caminhos, caiação de casa sem licença, poço sem vedação e carroça mal arrumada, foram objecto da atenção do guarda Mário, que, passeando a sua farda nova, tomou a iniciativa de autuar o próprio pai, por uma transgressão de somenos importância.
O ti’Manel Bento, foi ao posto da GNR e ignorando a presença do filho quando por ele passou, dirigiu-se ao graduado de serviço – o sr. Cabo –, a quem apresentou a autuação e se prontificou a pagar a multa. Ao mesmo tempo tirou da algibeira das calças uma bolsita de trapos, onde guardava o dinheiro e, pegando nos vinte escudos, correspondentes à coima, entregou-os. Aceitou o recibo e saiu.
A coisa serenou: não havia que censurar o filho por cumprir o seu dever. Todavia, na cabeça do ti’ Manel continuava a interrogação sobre o que quereria o filho mostrar, com aquela atitude. Não encontrava resposta e custava-lhe mais conter-se, quando ouvia os comentários de vizinhos e amigos sobre o zelo do filho.
A mágoa no coração custou mais a passar; indo para lá do casamento do filho e baptizado dos netos, onde o ti’ Manel fingiu que não mais se lembrava da mágoa que sentiu, quando se viu autuado pelo seu próprio filho, no primeiro trabalho que fez na guarda.
Muitos anos depois, pelo Natal, o ti’ Manel chamou os seis filhos e, à volta do alguidar das filhós, de uma pratada de tremoços, uma bacia de azeitonas retalhadas, pão e queijo, regados com vinho da casa, todos comeram e beberam, à vontade.
Antes de partirem para suas casas, o velho pai puxou da mesma bolsita de pano que usara no posto da GNR, trinta e três anos antes, e tirando cinco notas de quinhentos escudos – quantia que nesse tempo correspondia a mais de dois meses de jornas –, deu uma a cada filho, menos ao Mário, ainda guarda da GNR.
Disse que queria deixar as coisas equilibradas; que aquelas notas não eram mais, nem menos, que os vinte mil réis que tinha pago de multa, trinta e três anos atrás, valorizados a um juro normal de dez por cento ao ano. Não havia mais nada a dizer e só queria acrescentar que já podia morrer descansado.
Cada um desapareceu para seu lado, rapidamente, só o Mário, junto do pai, o abraçou, sentidamente e em silêncio total. Não se sentiu injustiçado – recordou-se de qualquer coisa que lera, sobre a “pena de Talião”.
Para se conseguir um lugarzito como factor da CP, guarda freios ou condutor na Carris, servente ou pedreiro, nas obras de Lisboa, e guarda na GNR ou PSP, era preciso bons empenhos, de alguém bem colocado, a troco de um bom cabrito ou de uns garrafões do bom azeite da região.
Numa dessas voltas da vida, o ti Manel Bento dirigiu-se a casa do doutor Martins – onde era jornaleiro, tal como fora seu pai –, para lhe pedir que arranjasse qualquer coisa para o filho Mário, que daí a dias seria licenciado da tropa e não tinha muita compleição física para cavar com ele no campo ou nos poços e minas.
Muito bem recebido pela Senhora, que chamou logo uma criada para guardar o recheio da cestinha do ti Manel Bento, constituído por um frasco de mel, um galo capão, ainda vivo, e duas garrafas de azeite. E, enquanto a criada não voltava com a cestita já vazia, lá foi assegurando ao jornaleiro, conhecido da casa havia muitos anos, que o seu compadre de Lisboa alguma coisa haveria de arranjar – recomendaria o rapaz para a GNR.
Foi assim que, daí a seis meses, depois de feita a preparação, o Mário Bento foi colocado, como guarda, no posto da GNR, da vila.
Na primeira patrulha que fez, passou pela sua aldeia, onde levantou vários autos – coisas comezinhas, como entulho deitado nos caminhos, caiação de casa sem licença, poço sem vedação e carroça mal arrumada, foram objecto da atenção do guarda Mário, que, passeando a sua farda nova, tomou a iniciativa de autuar o próprio pai, por uma transgressão de somenos importância.
O ti’Manel Bento, foi ao posto da GNR e ignorando a presença do filho quando por ele passou, dirigiu-se ao graduado de serviço – o sr. Cabo –, a quem apresentou a autuação e se prontificou a pagar a multa. Ao mesmo tempo tirou da algibeira das calças uma bolsita de trapos, onde guardava o dinheiro e, pegando nos vinte escudos, correspondentes à coima, entregou-os. Aceitou o recibo e saiu.
A coisa serenou: não havia que censurar o filho por cumprir o seu dever. Todavia, na cabeça do ti’ Manel continuava a interrogação sobre o que quereria o filho mostrar, com aquela atitude. Não encontrava resposta e custava-lhe mais conter-se, quando ouvia os comentários de vizinhos e amigos sobre o zelo do filho.
A mágoa no coração custou mais a passar; indo para lá do casamento do filho e baptizado dos netos, onde o ti’ Manel fingiu que não mais se lembrava da mágoa que sentiu, quando se viu autuado pelo seu próprio filho, no primeiro trabalho que fez na guarda.
Muitos anos depois, pelo Natal, o ti’ Manel chamou os seis filhos e, à volta do alguidar das filhós, de uma pratada de tremoços, uma bacia de azeitonas retalhadas, pão e queijo, regados com vinho da casa, todos comeram e beberam, à vontade.
Antes de partirem para suas casas, o velho pai puxou da mesma bolsita de pano que usara no posto da GNR, trinta e três anos antes, e tirando cinco notas de quinhentos escudos – quantia que nesse tempo correspondia a mais de dois meses de jornas –, deu uma a cada filho, menos ao Mário, ainda guarda da GNR.
Disse que queria deixar as coisas equilibradas; que aquelas notas não eram mais, nem menos, que os vinte mil réis que tinha pago de multa, trinta e três anos atrás, valorizados a um juro normal de dez por cento ao ano. Não havia mais nada a dizer e só queria acrescentar que já podia morrer descansado.
Cada um desapareceu para seu lado, rapidamente, só o Mário, junto do pai, o abraçou, sentidamente e em silêncio total. Não se sentiu injustiçado – recordou-se de qualquer coisa que lera, sobre a “pena de Talião”.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Don Pepe & Doña Maria
A festa de Alcaravela, que, em cada ano, tinha lugar num fim-de-semana de Agosto, era um dos pontos altos na vida da aldeia, sobretudo entre as gentes mais jovens.
De cariz, genuinamente, popular, tinha início no sábado, com os encontros entre familiares e amigos. Continuava, com uma forte "alvorada", de foguetes e morteiros, ao pôr-do-sol e, depois, à chegada do conjunto musical que, se revezava com o acordeonista, começava o baile.
No domingo, durante a manhã, percorriam-se as ruas, ao som da banda de Sardoal, fazendo o peditório, para a igreja. Seguia-se a missa, na igreja matriz de Santa Clara, apinhada de gente.
Terminada a procissão, que se seguia à missa, fazia-se o leilão das fogaças e comiam-se as merendas, para o que cada grupo de romeiros escolhia uma sombra.
Da Serra ia sempre uma grande comitiva: uns com destino à missa e procissão, outros para encontrar familiares e amigos, beberem uns copos e falarem de negócios. Os mais jovens esperavam, com impaciência, a animação e o baile, que durariam toda a noite.
Os rapazes compravam os bilhetes para as séries de três danças, tomavam lugar junto ao estrado e logo que se iniciava a música convidavam, por sinais, ou de viva voz, as raparigas que mais lhes interessavam.
Quando se notava insistência na escolha de um par, os outros afastavam-se, discretamente.
Nas mesas, à volta do "dancing", as mães, tias, mirones e raparigas não convidadas, nessa dança, seguiam, atentamente, tudo o que se passava e iam coscuvilhando.
Os homens bebiam cervejas e copos de vinho, enquanto conversavam com os amigos.
Alta madrugada, organizavam-se os grupos, de regresso às aldeias: os "moços soltos", os "casalinhos apalavrados" e os que aproveitavam a calada da noite para "pedidos de namoro".
Num dos regressos das festas de Alcaravela, um par de namorados – a Maria do Cimo da Eira e o Zé, da Tojeira –, afastaram-se do grupo, para irem à vontade.
No Vale das Onegas, os rapazes deram pela falta do “casalinho”, mas não ligaram ao assunto; a terra havia de dá-los. Porém, à chegada à Serra, não apareceram.
De manhã, espalhou-se a notícia na aldeia: a Maria do Cimo da Eira não voltara para casa.
Vieram, mais tarde, notícias da Tojeira que confirmavam a falta do Zé.
Ao fim de uma semana, o padrasto da rapariga comunicou na GNR o desaparecimento da enteada, que tinha sido vista, pela última vez, no regresso das festas de Alcaravela, na companhia do namorado, um rapaz da Tojeira, que também estava desaparecido.
Passaram anos sem sinais dos desaparecidos. Acabaram por cair no esquecimento.
Vinte e cinco anos depois, apareceu, na festa de Alcaravela, um casal de meia-idade, num imponente automóvel de matrícula estrangeira e sinais ostensivos de luxo: anéis, pulseiras, relógios, cordões, brincos e correntes de ouro.
Todos olhavam, deslumbrados e interrogavam-se: Quem serão? De onde virão? O que os traz até aqui?
Por entre a agitação e falatório, um irmão da Maria do Cimo da Eira olhou a estrangeira de frente e exclamou: Por onde tens andado, Maria?!... Afinal, és tu e estás viva!... Dá cá um abraço, mulher!...
Espalhou-se a notícia, juntou-se o povo e todos afirmavam ter já desconfiado que se tratava do Zé da Tojeira e da Maria do Cimo da Eira; os desaparecidos de há vinte e cinco anos.
Os forasteiros, entre beijos e abraços, explicaram que acabavam de chegar, da Argentina, onde estavam há mais de vinte e três anos. Lá, no outro lado do Mundo, Don Pepe & Doña Maria – como eram conhecidos –, tinham mais terra que toda a freguesia de Alcaravela, mais de três mil cabeças de gado e uma "finca" nos arredores de Córdoba, no centro do país.
Nunca tiveram filhos e resolveram vir agora a Portugal, agradecer a Santa Clara, de Alcaravela, e ao Senhor dos Aflitos, da Serra, que muito lhes valeram, nas horas mais difíceis.
Nos dois meses de férias, que repartiram entre as aldeias da sua naturalidade e diversos passeios pelo país, fizeram bem a muita gente.
Regressaram à Argentina sem falar no seu desaparecimento. Levaram dois sobrinhos que iriam preparar para lhes suceder na administração da firma de Import & Export, Pepe & Maria , S.A., nos arredores de Córdoba, na Argentina.
Antes de partir, deram meios e instruções ao irmão da Maria do Cimo da Eira para que mandasse construir uma imponente vivenda, na Serra, onde pensavam voltar para passar o resto dos seus dias.
Muitos anos mais tarde, foi encontrado, nas ruínas da casa, um caderno de duas linhas, com uma série impressionante de nomes de localidades, de diversos países, contas de transportes e até uma caixa, de lata, com um rolo de notas de dólares e pesos argentinos, que havia ali ficado por esquecimento.
Os apontamentos acabaram por desaparecer e as notas extraviaram-se, pois, um pedreiro, que trabalhava em Lisboa, levou-as para tentar cambiá-las no Banco de Portugal e não deu mais conta delas.
Exibiu um recibo, dizendo que se tratava de notas sem curso legal e já sem qualquer valor.
Ninguém mais se interessou pelo caso, não passando, hoje, de uma história que todos vão esquecendo.
De cariz, genuinamente, popular, tinha início no sábado, com os encontros entre familiares e amigos. Continuava, com uma forte "alvorada", de foguetes e morteiros, ao pôr-do-sol e, depois, à chegada do conjunto musical que, se revezava com o acordeonista, começava o baile.
No domingo, durante a manhã, percorriam-se as ruas, ao som da banda de Sardoal, fazendo o peditório, para a igreja. Seguia-se a missa, na igreja matriz de Santa Clara, apinhada de gente.
Terminada a procissão, que se seguia à missa, fazia-se o leilão das fogaças e comiam-se as merendas, para o que cada grupo de romeiros escolhia uma sombra.
Da Serra ia sempre uma grande comitiva: uns com destino à missa e procissão, outros para encontrar familiares e amigos, beberem uns copos e falarem de negócios. Os mais jovens esperavam, com impaciência, a animação e o baile, que durariam toda a noite.
Os rapazes compravam os bilhetes para as séries de três danças, tomavam lugar junto ao estrado e logo que se iniciava a música convidavam, por sinais, ou de viva voz, as raparigas que mais lhes interessavam.
Quando se notava insistência na escolha de um par, os outros afastavam-se, discretamente.
Nas mesas, à volta do "dancing", as mães, tias, mirones e raparigas não convidadas, nessa dança, seguiam, atentamente, tudo o que se passava e iam coscuvilhando.
Os homens bebiam cervejas e copos de vinho, enquanto conversavam com os amigos.
Alta madrugada, organizavam-se os grupos, de regresso às aldeias: os "moços soltos", os "casalinhos apalavrados" e os que aproveitavam a calada da noite para "pedidos de namoro".
Num dos regressos das festas de Alcaravela, um par de namorados – a Maria do Cimo da Eira e o Zé, da Tojeira –, afastaram-se do grupo, para irem à vontade.
No Vale das Onegas, os rapazes deram pela falta do “casalinho”, mas não ligaram ao assunto; a terra havia de dá-los. Porém, à chegada à Serra, não apareceram.
De manhã, espalhou-se a notícia na aldeia: a Maria do Cimo da Eira não voltara para casa.
Vieram, mais tarde, notícias da Tojeira que confirmavam a falta do Zé.
Ao fim de uma semana, o padrasto da rapariga comunicou na GNR o desaparecimento da enteada, que tinha sido vista, pela última vez, no regresso das festas de Alcaravela, na companhia do namorado, um rapaz da Tojeira, que também estava desaparecido.
Passaram anos sem sinais dos desaparecidos. Acabaram por cair no esquecimento.
Vinte e cinco anos depois, apareceu, na festa de Alcaravela, um casal de meia-idade, num imponente automóvel de matrícula estrangeira e sinais ostensivos de luxo: anéis, pulseiras, relógios, cordões, brincos e correntes de ouro.
Todos olhavam, deslumbrados e interrogavam-se: Quem serão? De onde virão? O que os traz até aqui?
Por entre a agitação e falatório, um irmão da Maria do Cimo da Eira olhou a estrangeira de frente e exclamou: Por onde tens andado, Maria?!... Afinal, és tu e estás viva!... Dá cá um abraço, mulher!...
Espalhou-se a notícia, juntou-se o povo e todos afirmavam ter já desconfiado que se tratava do Zé da Tojeira e da Maria do Cimo da Eira; os desaparecidos de há vinte e cinco anos.
Os forasteiros, entre beijos e abraços, explicaram que acabavam de chegar, da Argentina, onde estavam há mais de vinte e três anos. Lá, no outro lado do Mundo, Don Pepe & Doña Maria – como eram conhecidos –, tinham mais terra que toda a freguesia de Alcaravela, mais de três mil cabeças de gado e uma "finca" nos arredores de Córdoba, no centro do país.
Nunca tiveram filhos e resolveram vir agora a Portugal, agradecer a Santa Clara, de Alcaravela, e ao Senhor dos Aflitos, da Serra, que muito lhes valeram, nas horas mais difíceis.
Nos dois meses de férias, que repartiram entre as aldeias da sua naturalidade e diversos passeios pelo país, fizeram bem a muita gente.
Regressaram à Argentina sem falar no seu desaparecimento. Levaram dois sobrinhos que iriam preparar para lhes suceder na administração da firma de Import & Export, Pepe & Maria , S.A., nos arredores de Córdoba, na Argentina.
Antes de partir, deram meios e instruções ao irmão da Maria do Cimo da Eira para que mandasse construir uma imponente vivenda, na Serra, onde pensavam voltar para passar o resto dos seus dias.
Muitos anos mais tarde, foi encontrado, nas ruínas da casa, um caderno de duas linhas, com uma série impressionante de nomes de localidades, de diversos países, contas de transportes e até uma caixa, de lata, com um rolo de notas de dólares e pesos argentinos, que havia ali ficado por esquecimento.
Os apontamentos acabaram por desaparecer e as notas extraviaram-se, pois, um pedreiro, que trabalhava em Lisboa, levou-as para tentar cambiá-las no Banco de Portugal e não deu mais conta delas.
Exibiu um recibo, dizendo que se tratava de notas sem curso legal e já sem qualquer valor.
Ninguém mais se interessou pelo caso, não passando, hoje, de uma história que todos vão esquecendo.
terça-feira, 21 de julho de 2009
O mestre-escola
Nos meados do século passado, a figura de Professor Primário, como a de Padre e as autoridades da terra e do concelho, estavam acima dos outros mortais.
Havia respeito total, absoluto e incondicional e quando os pais iam levar os filhos, pela primeira vez, à escola, recomendavam e pediam: Senhor Professor ou, o mais vulgar, Senhora Professora, chegue-lhe, se precisar! Nunca lhe doam as mãos, pois só se perdem as que caem no chão! Faça dele um homem – ou uma mulher – que nós saberemos agradecer-lhe!
Em casa da Professora não faltava nada; era um corrupio a levar os mimos e as primícias das colheitas, passando pelos queijos, ovos e consumos do dia a dia, até ao pão, acabado de cozer.
Uma vez por mês, ia à vila, receber os seiscentos mil réis de ordenado de Regente do Posto Escolar, ou o conto e duzentos, de Professor e aproveitava para dar um jeito no cabelo, visitar uma ou outra loja de roupas e sapatos e nunca regressava à aldeia sem passar pela farmácia, onde deixava uma parte dos seus parcos proventos, em troca dos comprimidos para as dores de cabeça, flatulência, vesícula, dores reumáticas.
Para uso próprio e para dispensar aos aflitos, na aldeia.
Visitava, normalmente, o Senhor Delegado Escolar e o Senhor Vigário, com quem combinava a participação nas cerimónias religiosas e de quem recebia orientação e documentação para promover as vocações, organizar os peditórios para a Paróquia, os Seminários e as Missões. Organizava-se, também, a Cruzada e a Catequese.
Nas aldeias, a Professora passava o dia na escola; ia a casa, para tomar as refeições, ensinar a coser e bordar as raparigas casadoiras e ler uns livritos da Biblioteca.
As aulas, na Escola, ou Posto Escolar, com duas ou três dezenas de alunos, das quatro classes – iam das nove às dezoito horas – decorriam na mais rígida ordem e disciplina e, por vezes, os mais adiantados ensinavam os mais novos a fazer contas, estudar a tabuada, ou ler no livro de leituras.
No fim de cada ano, os alunos dos Postos Escolares, iam prestar provas de passagem de classe à escola mais próxima, ou fazer exame da quarta classe à sede do concelho, onde, não raras vezes, eram aprovados com distinção.
É da mais elementar justiça reconhecer o trabalho destas senhoras – havia muito poucos Regentes Escolares do sexo masculino – que ensinaram até onde tinham aprendido e desenvolveram em muitas crianças, por essas aldeias fora, hábitos de trabalho e estudo, a par de uma formação moral baseada em sólidos princípios de cidadania e amor pelo próximo, que serviram de orientação a muito boa gente.
É de lamentar que a reorganização social, que tantos benefícios trouxe, tenha enjeitado muitas dessas bases, sem acautelar o culto do civismo, do amor e respeito pelo semelhante, do valor da pessoa, no seu todo, e das instituições que a servem.
Por mim, não quero esquecer as primeiras Regentes Escolares, que tive por professoras; elas ensinaram-me muitas coisas que me tenho recusado a abandonar e continuo a seguir, como capítulos do mais belo tratado que um homem pode escrever – a vida –.
Foram elas, que me motivaram a ser Professor.
Embora tenha, mais tarde, abandonado a profissão, sempre me orgulhei de dar um carácter didáctico ao meu trabalho e nunca me esquivei a ensinar aos outros, até onde pude e soube!...
Tenho sempre presentes os meus alunos, os muitos amigos... e todos quantos se iniciaram comigo, nas artes das Vendas e das Técnicas de Marketing, em que tenho desenvolvido a minha actividade profissional.
Havia respeito total, absoluto e incondicional e quando os pais iam levar os filhos, pela primeira vez, à escola, recomendavam e pediam: Senhor Professor ou, o mais vulgar, Senhora Professora, chegue-lhe, se precisar! Nunca lhe doam as mãos, pois só se perdem as que caem no chão! Faça dele um homem – ou uma mulher – que nós saberemos agradecer-lhe!
Em casa da Professora não faltava nada; era um corrupio a levar os mimos e as primícias das colheitas, passando pelos queijos, ovos e consumos do dia a dia, até ao pão, acabado de cozer.
Uma vez por mês, ia à vila, receber os seiscentos mil réis de ordenado de Regente do Posto Escolar, ou o conto e duzentos, de Professor e aproveitava para dar um jeito no cabelo, visitar uma ou outra loja de roupas e sapatos e nunca regressava à aldeia sem passar pela farmácia, onde deixava uma parte dos seus parcos proventos, em troca dos comprimidos para as dores de cabeça, flatulência, vesícula, dores reumáticas.
Para uso próprio e para dispensar aos aflitos, na aldeia.
Visitava, normalmente, o Senhor Delegado Escolar e o Senhor Vigário, com quem combinava a participação nas cerimónias religiosas e de quem recebia orientação e documentação para promover as vocações, organizar os peditórios para a Paróquia, os Seminários e as Missões. Organizava-se, também, a Cruzada e a Catequese.
Nas aldeias, a Professora passava o dia na escola; ia a casa, para tomar as refeições, ensinar a coser e bordar as raparigas casadoiras e ler uns livritos da Biblioteca.
As aulas, na Escola, ou Posto Escolar, com duas ou três dezenas de alunos, das quatro classes – iam das nove às dezoito horas – decorriam na mais rígida ordem e disciplina e, por vezes, os mais adiantados ensinavam os mais novos a fazer contas, estudar a tabuada, ou ler no livro de leituras.
No fim de cada ano, os alunos dos Postos Escolares, iam prestar provas de passagem de classe à escola mais próxima, ou fazer exame da quarta classe à sede do concelho, onde, não raras vezes, eram aprovados com distinção.
É da mais elementar justiça reconhecer o trabalho destas senhoras – havia muito poucos Regentes Escolares do sexo masculino – que ensinaram até onde tinham aprendido e desenvolveram em muitas crianças, por essas aldeias fora, hábitos de trabalho e estudo, a par de uma formação moral baseada em sólidos princípios de cidadania e amor pelo próximo, que serviram de orientação a muito boa gente.
É de lamentar que a reorganização social, que tantos benefícios trouxe, tenha enjeitado muitas dessas bases, sem acautelar o culto do civismo, do amor e respeito pelo semelhante, do valor da pessoa, no seu todo, e das instituições que a servem.
Por mim, não quero esquecer as primeiras Regentes Escolares, que tive por professoras; elas ensinaram-me muitas coisas que me tenho recusado a abandonar e continuo a seguir, como capítulos do mais belo tratado que um homem pode escrever – a vida –.
Foram elas, que me motivaram a ser Professor.
Embora tenha, mais tarde, abandonado a profissão, sempre me orgulhei de dar um carácter didáctico ao meu trabalho e nunca me esquivei a ensinar aos outros, até onde pude e soube!...
Tenho sempre presentes os meus alunos, os muitos amigos... e todos quantos se iniciaram comigo, nas artes das Vendas e das Técnicas de Marketing, em que tenho desenvolvido a minha actividade profissional.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
A Senhora Professora
O “Manuel do Vale” tinha uma força de mãos verdadeiramente anormal; coisa a que lançasse a fateixa, não largava mais.
Era o único homem da aldeia com tez encarniçada, tipo “viking”, com olhos claros – muito claros mesmo – e mais sardas que o habitual nos sardentos.
Na escola nunca foi brilhante; era o bombo da festa, onde a Dª Benilde descarregava as iras – e tantas elas eram: por ser solteirona e sempre mal amada, por ser feia e juntar a isso alguma falta de cuidado na aparência e na própria higiene pessoal, por viver isolada do Mundo e da Sociedade e pelos achaques que a aproximação dos quarenta anos lhe causavam.
Depois do exame o Manel cresceu e fez-se homem, mas nunca esqueceu os puxões de orelhas, as varadas quando estava no quadro preto a fazer as contas, as reguadas com que era mimado quando não acertava os problemas, ou tinha mais de três erros no ditado e as orelhadas quando não sabia as capitais dos países, ou o cognome dos nossos reis.
Um parente do Manel, que embarcara para as Africas, havia mais de vinte anos, antes, portanto, de a Dª Benilde ir para a aldeia, viria de férias e, segundo fez constar, para procurar noiva e casar-se.
O cenário, de aparência muito simples, pôs em alvoroço a cabeça do Manel, que, de si para si, ia pensando: o meu primo quer casar-se e uma das primeiras hipóteses vai ser a Professora. Eu queria muito que ele me levasse com ele, no regresso ao Congo. Será que irei conseguir esquecer tudo o que aquela bruxa me fez passar durante os cinco anos em que foi minha professora? E como será ela como minha prima e mulher do meu futuro patrão? Que tipo de sentimentos terá ela, agora, por mim?
Nos últimos dez anos – o Manel estava então com vinte e quatro –, apenas uma, ou duas vezes, falara com a Dª Benilde e continuavam bem presentes as “simpatias” com que o “mimara”, em cinco anos de escola. Mas o que lá vai, lá vai, e se não fosse ela, se calhar, nunca teria sido o homem que era! Havia de ser o que Deus quisesse, pensava o Manel!...
A notícia sobre a vinda próxima do Artur foi-se espalhando na aldeia e havia muita gente interessada no bom partido que se aproximava.
A Professora não era excepção; embora se mostrasse alheia e desinteressada, foi-se inteirando de tudo: quem era o Artur? Que idade tinha? Que namoradas tinha tido na terra, ou nas redondezas? Que pessoas podiam ter mais influência sobre ele?
Ao chegar aqui, às influências, as informações iam todas para a mãe do Manel do Vale, que fora seu aluno e pouco lhe falava. Ouviu dizer que o rapaz, já homem, pensava ir com o primo, para as Africas.
A ti Maria Albertina não tinha a mesma impressão que o filho Manel, acerca da Professora; eras um grande calaceiro e foi ela que te obrigou a estudar e te deu as bases que fizeram de ti o homem que hoje és. Se não fossem os cuidados da Sra. Professora, nem o exame tinhas feito; se te deu, nesse corpo, fez o que eu lhe pedi, não te partiu nada e só se perderam as que caíram no chão. E repetia, vezes sem conta, esta ladainha, que o Manel já sabia de cor.
Quanto ao sobrinho Artur, a melhor solução seria mesmo a Professora, pensava, secretamente a tia Maria Albertina.
Começou por espalhar, devagarinho, a ideia de que o homem, na casa dos quarenta e cinco anos quererá uma senhora educada, sem namorados conhecidos e respeitadora. E, sempre que lhe parecia que a ideia poderia chegar até ao sobrinho, ia falando na Senhora Professora.
Uma senhora, perto dos cinquenta, talvez já não dê filhos. O Artur deverá ser levado a aceitar isso, como uma vantagem. Essa ideia batia forte na cabeça da tia Maria Albertina e tinha o seu fundamento: se o seu Manel fosse com o primo e a Professora e o casal já não tivesse filhos, podia ser que…, quem sabe se viria a herdar a fortuna do primo, ou a substituí-lo nos negócios, para que ele pudesse gozar melhor a vida.
A primeira coisa a fazer era aproximar o filho da Professora, para que pudesse facilitar a vida do primo, quando ele chegasse.
Mandou o filho falar, oficialmente, sobre a vinda do primo e matava, assim, dois coelhos com uma só cajadada: aproximava o filho de uma pessoa que poderia ser decisiva na escolha que o sobrinho Artur fizesse, quanto ao rapaz a levar com ele, para África, e dava a entender à Professora que contasse com ela para facilitar as coisas, quanto às tendências do sobrinho e à sua decisão, na escolha de noiva.
Foi, assim, que o Manel subiu um dia até ao cimo do casal, à casa das oliveiras da vinha, onde habitava a senhora Professora.
Era fim de tarde e a chegada dos dois, foi quase coincidente. A Senhora acabava de descer da escola, situada uns cinquenta metros acima.
Depois de um breve cumprimento, expresso num simples olá Manuel!... Então como estás e que fazes na vida, homem?!... Não há quem te veja?!... Mas, vamos entrando...; lá dentro estamos melhor e mais à vontade!...
Obrigado, senhora Professora; estou bem e faço pela vida, que graças ao que a senhora me ensinou e me fez aprender, me vai correndo menos-mal. E seguiu atrás da senhora, que via agora com olhos diferentes dos de há dez anos.
Reparou na figura da bela mulher, que certamente agradaria ao primo Artur.
Dirigiram-se à sala de costura, onde muitos fins de tarde o Manel tinha estado, de castigo, a recitar os rios e as cidades, a conjugar os verbos e a escrever as palavras que errara no ditado, cem vezes cada uma.
Mas, isso ia longe… e, ambos estavam agora absortos por outros pensamentos:
A Professora tinha diante de si o homem que imaginara, dez anos atrás – másculo, cerrado de barba, olho muito claro, avantajado de estatura e envergonhado, como noutros tempos. Mantinha o ar exótico, mais delicioso e misterioso que bonito, mas um homem … e que homem!...
O Manel olhava a mulher, madura, de formas perfeitas, cabelos apanhados, com uma saia um pouco acima do joelho… a Senhora que sempre vira como Professora, era agora olhada como mulher.
Foi o Manel que quebrou o silêncio, dizendo: Tenho um primo, chamado Artur, que foi para o Congo, há muitos anos. Mandou dizer que virá a Portugal, rever a família, procurar noiva, casar, e escolher um parente para levar, como ajudante, nos negócios.
Nos três ou quatro meses que estará, por cá, de férias, quer resolver tudo isso. Achámos, que a Senhora gostaria de saber, pois é alguém à altura de falar com o meu primo e que poderá ajudá-lo naquilo que ele necessitar; esperamos que ele fique hospedado em nossa casa.
Pois bem, Manel, agradece a tua mãe as atenções e cuidados e diz-lhe que podem contar comigo para tudo o que eu possa fazer, para ajudar a tornar o mais agradável possível a estadia do teu primo, cá na terra e na vossa casa, como é vosso desejo.
Quanto a ti, homem, gostei muito de te ver. Não quero que te vás embora sem me prometeres que me vais dando notícias e que me vens ver, mais vezes. Dá cumprimentos a tua mãe e agradece-lhe.
O Manel saiu e foi descendo, sem pressas, o caminho que bordejava as oliveiras. A Professora, espreitando por uma frincha da janela, despia, com os olhos, o homem que se afastava, enquanto, com a imaginação, se extasiava, vendo o homem másculo, de ombros largos, cabelos um tudo-nada ruivos, olhos muito claros, barba cerrada, boca sensual, mãos fortes, mas anormalmente delicadas, para uma pessoa do campo, e....
Sem dar pelo desaparecimento do Manel, na curva do caminho, ao pé da fonte, deixou-se cair no canapé, onde passava grande parte do seu tempo e até dormitava, por vezes, antes de ir para a cama.
Foi tacteando o seu próprio corpo que se sentiu ruborizada, quando uma onda de calor, avassaladora, vinda do mais íntimo de si e parecendo que o sangue lhe fervia nas veias, a invadiu, completamente.
Nunca sentira nada assim. Porém, num ápice, todo o corpo, do mais ínfimo e íntimo, ao mais volumoso e saliente, ficava duro, alvoroçava-se, contorcia-se e, como que vindo de um vulcão, cujo epicentro ela localizava, perfeitamente, sentiu um jorro de lava, incandescente, queimar-lhe as entranhas, para, logo em seguida, lhe provocar uma calma e serenidade, certamente raras, no comum dos mortais.
Inundada por uma maravilhosa paz interior, adormeceu, profundamente. Durante os sonhos, voltou a ser menina, viu-se a entrar na igreja e a realizar sonhos que andavam já arredados dos seus projectos mais vulgares.
Quatro meses depois, na altura das vindimas, a Senhora Professora, Dª Benilde, embarcava com o marido Artur Marques Lopes, “o Brasileiro”, com destino ao Congo Belga.
Levavam muita bagagem e acompanhava-os o primo Manuel Marques Mendes, o Manel do Vale.
Havemos de encontrá-los, uns anos mais tarde, no Congo... mas isso é outra história.
Era o único homem da aldeia com tez encarniçada, tipo “viking”, com olhos claros – muito claros mesmo – e mais sardas que o habitual nos sardentos.
Na escola nunca foi brilhante; era o bombo da festa, onde a Dª Benilde descarregava as iras – e tantas elas eram: por ser solteirona e sempre mal amada, por ser feia e juntar a isso alguma falta de cuidado na aparência e na própria higiene pessoal, por viver isolada do Mundo e da Sociedade e pelos achaques que a aproximação dos quarenta anos lhe causavam.
Depois do exame o Manel cresceu e fez-se homem, mas nunca esqueceu os puxões de orelhas, as varadas quando estava no quadro preto a fazer as contas, as reguadas com que era mimado quando não acertava os problemas, ou tinha mais de três erros no ditado e as orelhadas quando não sabia as capitais dos países, ou o cognome dos nossos reis.
Um parente do Manel, que embarcara para as Africas, havia mais de vinte anos, antes, portanto, de a Dª Benilde ir para a aldeia, viria de férias e, segundo fez constar, para procurar noiva e casar-se.
O cenário, de aparência muito simples, pôs em alvoroço a cabeça do Manel, que, de si para si, ia pensando: o meu primo quer casar-se e uma das primeiras hipóteses vai ser a Professora. Eu queria muito que ele me levasse com ele, no regresso ao Congo. Será que irei conseguir esquecer tudo o que aquela bruxa me fez passar durante os cinco anos em que foi minha professora? E como será ela como minha prima e mulher do meu futuro patrão? Que tipo de sentimentos terá ela, agora, por mim?
Nos últimos dez anos – o Manel estava então com vinte e quatro –, apenas uma, ou duas vezes, falara com a Dª Benilde e continuavam bem presentes as “simpatias” com que o “mimara”, em cinco anos de escola. Mas o que lá vai, lá vai, e se não fosse ela, se calhar, nunca teria sido o homem que era! Havia de ser o que Deus quisesse, pensava o Manel!...
A notícia sobre a vinda próxima do Artur foi-se espalhando na aldeia e havia muita gente interessada no bom partido que se aproximava.
A Professora não era excepção; embora se mostrasse alheia e desinteressada, foi-se inteirando de tudo: quem era o Artur? Que idade tinha? Que namoradas tinha tido na terra, ou nas redondezas? Que pessoas podiam ter mais influência sobre ele?
Ao chegar aqui, às influências, as informações iam todas para a mãe do Manel do Vale, que fora seu aluno e pouco lhe falava. Ouviu dizer que o rapaz, já homem, pensava ir com o primo, para as Africas.
A ti Maria Albertina não tinha a mesma impressão que o filho Manel, acerca da Professora; eras um grande calaceiro e foi ela que te obrigou a estudar e te deu as bases que fizeram de ti o homem que hoje és. Se não fossem os cuidados da Sra. Professora, nem o exame tinhas feito; se te deu, nesse corpo, fez o que eu lhe pedi, não te partiu nada e só se perderam as que caíram no chão. E repetia, vezes sem conta, esta ladainha, que o Manel já sabia de cor.
Quanto ao sobrinho Artur, a melhor solução seria mesmo a Professora, pensava, secretamente a tia Maria Albertina.
Começou por espalhar, devagarinho, a ideia de que o homem, na casa dos quarenta e cinco anos quererá uma senhora educada, sem namorados conhecidos e respeitadora. E, sempre que lhe parecia que a ideia poderia chegar até ao sobrinho, ia falando na Senhora Professora.
Uma senhora, perto dos cinquenta, talvez já não dê filhos. O Artur deverá ser levado a aceitar isso, como uma vantagem. Essa ideia batia forte na cabeça da tia Maria Albertina e tinha o seu fundamento: se o seu Manel fosse com o primo e a Professora e o casal já não tivesse filhos, podia ser que…, quem sabe se viria a herdar a fortuna do primo, ou a substituí-lo nos negócios, para que ele pudesse gozar melhor a vida.
A primeira coisa a fazer era aproximar o filho da Professora, para que pudesse facilitar a vida do primo, quando ele chegasse.
Mandou o filho falar, oficialmente, sobre a vinda do primo e matava, assim, dois coelhos com uma só cajadada: aproximava o filho de uma pessoa que poderia ser decisiva na escolha que o sobrinho Artur fizesse, quanto ao rapaz a levar com ele, para África, e dava a entender à Professora que contasse com ela para facilitar as coisas, quanto às tendências do sobrinho e à sua decisão, na escolha de noiva.
Foi, assim, que o Manel subiu um dia até ao cimo do casal, à casa das oliveiras da vinha, onde habitava a senhora Professora.
Era fim de tarde e a chegada dos dois, foi quase coincidente. A Senhora acabava de descer da escola, situada uns cinquenta metros acima.
Depois de um breve cumprimento, expresso num simples olá Manuel!... Então como estás e que fazes na vida, homem?!... Não há quem te veja?!... Mas, vamos entrando...; lá dentro estamos melhor e mais à vontade!...
Obrigado, senhora Professora; estou bem e faço pela vida, que graças ao que a senhora me ensinou e me fez aprender, me vai correndo menos-mal. E seguiu atrás da senhora, que via agora com olhos diferentes dos de há dez anos.
Reparou na figura da bela mulher, que certamente agradaria ao primo Artur.
Dirigiram-se à sala de costura, onde muitos fins de tarde o Manel tinha estado, de castigo, a recitar os rios e as cidades, a conjugar os verbos e a escrever as palavras que errara no ditado, cem vezes cada uma.
Mas, isso ia longe… e, ambos estavam agora absortos por outros pensamentos:
A Professora tinha diante de si o homem que imaginara, dez anos atrás – másculo, cerrado de barba, olho muito claro, avantajado de estatura e envergonhado, como noutros tempos. Mantinha o ar exótico, mais delicioso e misterioso que bonito, mas um homem … e que homem!...
O Manel olhava a mulher, madura, de formas perfeitas, cabelos apanhados, com uma saia um pouco acima do joelho… a Senhora que sempre vira como Professora, era agora olhada como mulher.
Foi o Manel que quebrou o silêncio, dizendo: Tenho um primo, chamado Artur, que foi para o Congo, há muitos anos. Mandou dizer que virá a Portugal, rever a família, procurar noiva, casar, e escolher um parente para levar, como ajudante, nos negócios.
Nos três ou quatro meses que estará, por cá, de férias, quer resolver tudo isso. Achámos, que a Senhora gostaria de saber, pois é alguém à altura de falar com o meu primo e que poderá ajudá-lo naquilo que ele necessitar; esperamos que ele fique hospedado em nossa casa.
Pois bem, Manel, agradece a tua mãe as atenções e cuidados e diz-lhe que podem contar comigo para tudo o que eu possa fazer, para ajudar a tornar o mais agradável possível a estadia do teu primo, cá na terra e na vossa casa, como é vosso desejo.
Quanto a ti, homem, gostei muito de te ver. Não quero que te vás embora sem me prometeres que me vais dando notícias e que me vens ver, mais vezes. Dá cumprimentos a tua mãe e agradece-lhe.
O Manel saiu e foi descendo, sem pressas, o caminho que bordejava as oliveiras. A Professora, espreitando por uma frincha da janela, despia, com os olhos, o homem que se afastava, enquanto, com a imaginação, se extasiava, vendo o homem másculo, de ombros largos, cabelos um tudo-nada ruivos, olhos muito claros, barba cerrada, boca sensual, mãos fortes, mas anormalmente delicadas, para uma pessoa do campo, e....
Sem dar pelo desaparecimento do Manel, na curva do caminho, ao pé da fonte, deixou-se cair no canapé, onde passava grande parte do seu tempo e até dormitava, por vezes, antes de ir para a cama.
Foi tacteando o seu próprio corpo que se sentiu ruborizada, quando uma onda de calor, avassaladora, vinda do mais íntimo de si e parecendo que o sangue lhe fervia nas veias, a invadiu, completamente.
Nunca sentira nada assim. Porém, num ápice, todo o corpo, do mais ínfimo e íntimo, ao mais volumoso e saliente, ficava duro, alvoroçava-se, contorcia-se e, como que vindo de um vulcão, cujo epicentro ela localizava, perfeitamente, sentiu um jorro de lava, incandescente, queimar-lhe as entranhas, para, logo em seguida, lhe provocar uma calma e serenidade, certamente raras, no comum dos mortais.
Inundada por uma maravilhosa paz interior, adormeceu, profundamente. Durante os sonhos, voltou a ser menina, viu-se a entrar na igreja e a realizar sonhos que andavam já arredados dos seus projectos mais vulgares.
Quatro meses depois, na altura das vindimas, a Senhora Professora, Dª Benilde, embarcava com o marido Artur Marques Lopes, “o Brasileiro”, com destino ao Congo Belga.
Levavam muita bagagem e acompanhava-os o primo Manuel Marques Mendes, o Manel do Vale.
Havemos de encontrá-los, uns anos mais tarde, no Congo... mas isso é outra história.
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