O penedo das Taliscas, ou penedo rachado, tinha fama de tudo e proveito de nada.
Dominava o alto da Ladeira do Brejo e era formado por um aglomerado de grandes pedras que, se um dia tivessem sido objecto de estudo aprofundado, teriam, pela certa, sido sepultura de remotos antepassados.
E, com um pouco mais de boa vontade, ter-se-iam feito escavações para descobrir os fundamentos de um castro, encimando o vale exuberante e pródigo de verduras e águas potáveis…
Mas o que era, de facto, era um covil de lobos e raposas, no tempo em que uns e outras habitaram a região. Depois, com as desarborizações, as queimas e o retirar de pedras, nem coelhos, ou lebres, por lá andariam. Coisas dos tempos!...
Uns cem metros abaixo do penedo, já perto da ribeira, passava a rodeira, diariamente seguida pelo moleiro, quando se dirigia para a azenha do Vale do Corisco e, em sentido oposto, quando, já sobre a manhã, com os taleigos cheios de farinha, em vez de grão, subia, de regresso ao povoado, até às casas dos fregueses.
Na azenha não se acabava a aguardente, na cabaça, que levava um pouco mais de litro e meio e era comprada como tal, na voz do taberneiro que deixava sempre uma boca, cada vez maior, segunda queixa do moleiro.
Depois, de golo em golo, em menos de uma semana, ia-se a aguardente da cabaça e lá voltava o Ti’Manel a trazê-la, para fazer a recarga e voltar com ela para a azenha.
Não raras vezes, o excesso de pinga, trazia ideias brilhantes ao cérebro do Ti’Manel.
Iluminações essas que depois divulgava, na taberna, quando outras fontes, à base de vinho, espevitavam a criatividade e soltavam a língua do moleiro.
A maior parte já nem ligava ao que o moleiro ia contando.
Então, contava ele, que ainda há uns dias, aquilo, lá em riba, no penedo das Taliscas, foi o diabo: havia lume por todo o lado, berros e gritarias, pedras a rolar umas sobre as outras e, certamente, o Demónio que comandava toda aquela algazarra, largava pachouvadas pela boca fora, de fazer corar o menos santo dos ouvintes.
Até o macho, ajoujado sob a carga, parou, para presenciar aquelas cenas, enquanto o dono aproveitava uma barreirita do caminho, para se aliviar, lançando fora, uma espécie de revolta que lhe ia no estômago.
De repente acalmou-se tudo e só já deu pelo carriço a comer qualquer coisa aos seus pés.
Olhem, foi encolher os ombros, dar uma cacheirada no macho e arrancar ladeira a cima.
Aí, entrou o Ti’Diogo, que havia muitos anos, passava com regularidade na Terra, esmolando e chegando mesmo a dar umas jornas a quem lhe pedisse, antes de seguir o seu caminho para a aldeia seguinte.
Atrás dum copo, atirou ao moleiro:
Mas olhe cá, oh! Ti’Manel, não teria bebido umas goladas a mais, para esvaziar a cabacita e trazê-la para encher?
Não terá sido no dia da trovoada que esteve brava ali para os lados de Alcaravela e os relâmpagos, por trás do penedo, pareciam incendiar tudo?
Não terá mandado parar o macho, para se aliviar e lançar fora?
E o carriço, com a barriga a dar horas, não terá aproveitado o que o dono deitou fora, para comer qualquer coisa?
E, até podia esconder-se, lá no penedo alguma raposa, ou gato bravo que, no contra luar lançassem brilho dos olhos e lhe dessem, a vomeçê, visões?
Eh! Diabos!... O Ti’Diogo é capaz de ter toda a razão, disse o moleiro.
Pensando bem, só vejo essas coisas nos dias em que me distraio e abuso da cabacita.
É capaz de estar certo, homem de Deus, mas olhe que nunca ninguém me tinha explicado essas coisas, com tanta clareza.
E, fazia-me espécie por que raio o macho e o cão paravam sempre ali naquele sítio. Era afinal onde eu mandava, para fazermos um pequeno descanso e retomar forças para o resto do caminho.
Oh! Manel, deita lá mais uns copos, que o raio do homem bem os merece. Foi até hoje a única pessoa capaz de me abrir os olhos e explicar-me tudo.
E, não se esqueça, Ti’Diogo, de passar lá pela azenha, quando andar por aquelas bandas.
Poderemos subir lá a riba, ao penedo e, pela certa, junto a algum covil de coelhos, encontraremos as caganitas e pouco mais.
Apareça, homem!... Lá o espero!.....
terça-feira, 16 de junho de 2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
O Ti’Artur
Ao tempo, o ti’Artur era homem de trinta e poucos anos e vivia no Carvoeiro, onde sempre viveu, até que, prematuramente, traído pelo fígado, se foi embora.
Casou com a ti'Conceição, que namorou e conseguiu trazer dos lados de Proença, duma aldeia chamada Galisteu.
A regente escolar, deixou tudo para se dedicar ao marido e filhos, que começaram a surgir logo após o casamento.
Primeiro uma menina, a seguir o Manelito, que ainda estou a ver, muito ranhoso e choroso, atrás da mãe, que se desdobrava a tratar dele e a aviar os fregueses da loja, nos baixos da casa.
Homem de sete ofícios e amigo de toda a gente, podia amedrontar quem o não conhecesse.
Estava farto de perseguições de polícias e fiscais, que seguiam de perto o contrabando, em que se ocupava o ti’Artur.
Por trás de um imponente bigode, escondia-se um coração de enorme grandeza. No primeiro o ti’Artur tinha muito orgulho, no segundo, como aliás no resto do corpo, nem pensava.
Com o seu ar de “ciganão”, negociava em tudo. Não escondia de ninguém a sua atracção por tudo que cheirasse a risco e a aventura. Tinha enorme prazer em vender “à socapa” cortes de bombazina, garrafas de Domecq, perfumes Tabu e cartas espanholas. Também nunca faltavam caramelos de “nuestros hermanos”.
Era o taxista da terra e nunca recusava um serviço, salvo se estivesse ausente, ou tivesse abusado da bebida e já se encontrasse no seu “estado normal”. Tinha respeito pelos clientes – bêbedo, não conduzia o táxi -, mas nunca se coibia de andar de mota.
A “Triumph” era um dos seus encantos. Era uma das coisas que mais estimava. Fazia gala de percorrer a estrada, desde o Vale de Santiago até à Sanguinheira, quase todos os fins de tarde, com escape quase livre, camisa aberta e satisfação estampada no rosto.
Toda a gente abria caminho, à mota do Artur.
Nas várias férias que passei no Carvoeiro, tive o privilégio de ser mais um dos amigos do ti’Artur, como eu carinhosamente lhe chamava; ao que ele retribuía, apresentando-me como o “sobrinho Zeca”.
Demos muitos passeios, na mota, e nunca tivemos percalços, de maior. Com companhia, era cauteloso; para além de ser um excelente condutor.
A casa do velho Cavaco, onde eu ficava aboletado, era próxima da loja e um pouco ao lado da estação dos correios, onde a Zita – hóspede da casa do ti’Artur - era encarregada. O meu tempo dividia-se, entre a loja e os correios.
A respeito dos dois pólos de atracção dos meus dias, o velho Cavaco, que ganhara a vida de terra em terra, como capador, tinha as suas prosas e dava as suas recomendações:
Vais para casa do Artur namorar a filha do “Zaranza da Feteira”; é das coisas mais bonitas que por aí se encontram, mas tanto quanto sei, é dois ou três anos mais velha e sabe muito mais que tu - todo o cuidado é pouco!...
O Artur é um homem bom, muito habilidoso nos negócios, mas com a pinga, perde-se!...Isso é mau, além de que perde o respeito por si próprio e até pelos que lhe são mais chegados: mulher e filhos.
Vai com ele para onde quiseres; és bem formado e estou seguro que nada de mal te poderá acontecer. Porém, não andes com ele bêbedo em cima daquela mota e evita pegar em qualquer coisa de menos legal, que tenha em casa.
Sempre fez gala de brincar com os guardas e os fiscais, mas há-de queimar-se um dia – e nessa altura arrastará alguém -.
Na altura pareceram-me duros e até injustos, os conselhos do Ti’Cavaco; todavia, à distância dos anos e dos factos, é com o maior carinho e gratidão que relembro cada palavra, de sabedoria, dum velho amigo.
Nunca me arrependi de ser amigo do Ti’Artur e das muitas horas de prosa que tive com a Maria Luísa, dos correios – a Zita -, mas nada posso criticar nas recomendações do meu velho hospedeiro.
Nos meses de Agosto, o Carvoeiro era um autêntico entreposto das mais variadas gentes, vindas de todos os pontos do mundo: do Brasil, Venezuela, América, África do Sul, Congo Belga, colónias e países da Europa.
Com enorme gosto e imensa curiosidade, escutava as histórias de cada um – aventuras e desventuras, sucessos e azares, verdades e mentiras-.
O ti’Artur reparou no interesse e sofreguidão com que eu escutava e perguntava tudo o que dissesse respeito ao longínquo, as considerações que fazia, baseado nos estudos da Geografia e a maneira como aguentava conversas com quem eu nunca vira, sobre ambientes onde nunca estivera.
Um dia convidou-me para uma pescaria, nuns pegos da ribeira do Aziral, no termo de Envendos, no limite do concelho de Proença.
Iríamos de mota até à Venda Nova e dali em diante, seguiríamos, a corta mato, até à ribeira. Saíamos ao romper da manhã e íamos encontrar o resto do grupo, ao nascer do sol.
Conhecia apenas o ti’Artur; fiquei a conhecer umas trinta e tantas pessoas, que faziam a sua vida em doze países diferentes.
Devo ter feito milhares de perguntas, posso ter sido muito maçador, não cheguei a lançar o anzol à água, mas comi muito peixe frito, grelhado e em caldeirada.
Ao anoitecer, voltámos até junto da mota e, quando chegámos ao Carvoeiro, o ti’Artur pôs-se na minha frente, e disse-me: Zeca, vê que hoje, ao contrário do habitual, não estou bêbedo.
Queria, melhor, fazia todo o empenho em arranjar uma coisa que lhe causasse o maior prazer. Sei que gosta de convívios, como o de hoje, e fiquei encantado com a maneira como se comportou no meio de tanta gente, de tão diferentes meios e com tantas coisas difíceis de aturar.
Agora quero ir consigo, junto do velho Cavaco, dar-lhe nota da maneira como o Zeca se tornou na atracção do convívio, o que muito me honrou; para além de poder mostrar-lhe que não estou sempre bêbedo.
Depois dessas férias, abracei o ti’Artur três ou quatro vezes; normalmente fazíamo-lo em silêncio e com grande cumplicidade.
Tive um choque enorme, quando soube que foi traído pelo fígado, embora não fosse, para mim, grande surpresa.
Depois da morte do ti’Artur, nunca mais senti interesse em voltar ao Carvoeiro.
Até sempre, velho amigo.
Casou com a ti'Conceição, que namorou e conseguiu trazer dos lados de Proença, duma aldeia chamada Galisteu.
A regente escolar, deixou tudo para se dedicar ao marido e filhos, que começaram a surgir logo após o casamento.
Primeiro uma menina, a seguir o Manelito, que ainda estou a ver, muito ranhoso e choroso, atrás da mãe, que se desdobrava a tratar dele e a aviar os fregueses da loja, nos baixos da casa.
Homem de sete ofícios e amigo de toda a gente, podia amedrontar quem o não conhecesse.
Estava farto de perseguições de polícias e fiscais, que seguiam de perto o contrabando, em que se ocupava o ti’Artur.
Por trás de um imponente bigode, escondia-se um coração de enorme grandeza. No primeiro o ti’Artur tinha muito orgulho, no segundo, como aliás no resto do corpo, nem pensava.
Com o seu ar de “ciganão”, negociava em tudo. Não escondia de ninguém a sua atracção por tudo que cheirasse a risco e a aventura. Tinha enorme prazer em vender “à socapa” cortes de bombazina, garrafas de Domecq, perfumes Tabu e cartas espanholas. Também nunca faltavam caramelos de “nuestros hermanos”.
Era o taxista da terra e nunca recusava um serviço, salvo se estivesse ausente, ou tivesse abusado da bebida e já se encontrasse no seu “estado normal”. Tinha respeito pelos clientes – bêbedo, não conduzia o táxi -, mas nunca se coibia de andar de mota.
A “Triumph” era um dos seus encantos. Era uma das coisas que mais estimava. Fazia gala de percorrer a estrada, desde o Vale de Santiago até à Sanguinheira, quase todos os fins de tarde, com escape quase livre, camisa aberta e satisfação estampada no rosto.
Toda a gente abria caminho, à mota do Artur.
Nas várias férias que passei no Carvoeiro, tive o privilégio de ser mais um dos amigos do ti’Artur, como eu carinhosamente lhe chamava; ao que ele retribuía, apresentando-me como o “sobrinho Zeca”.
Demos muitos passeios, na mota, e nunca tivemos percalços, de maior. Com companhia, era cauteloso; para além de ser um excelente condutor.
A casa do velho Cavaco, onde eu ficava aboletado, era próxima da loja e um pouco ao lado da estação dos correios, onde a Zita – hóspede da casa do ti’Artur - era encarregada. O meu tempo dividia-se, entre a loja e os correios.
A respeito dos dois pólos de atracção dos meus dias, o velho Cavaco, que ganhara a vida de terra em terra, como capador, tinha as suas prosas e dava as suas recomendações:
Vais para casa do Artur namorar a filha do “Zaranza da Feteira”; é das coisas mais bonitas que por aí se encontram, mas tanto quanto sei, é dois ou três anos mais velha e sabe muito mais que tu - todo o cuidado é pouco!...
O Artur é um homem bom, muito habilidoso nos negócios, mas com a pinga, perde-se!...Isso é mau, além de que perde o respeito por si próprio e até pelos que lhe são mais chegados: mulher e filhos.
Vai com ele para onde quiseres; és bem formado e estou seguro que nada de mal te poderá acontecer. Porém, não andes com ele bêbedo em cima daquela mota e evita pegar em qualquer coisa de menos legal, que tenha em casa.
Sempre fez gala de brincar com os guardas e os fiscais, mas há-de queimar-se um dia – e nessa altura arrastará alguém -.
Na altura pareceram-me duros e até injustos, os conselhos do Ti’Cavaco; todavia, à distância dos anos e dos factos, é com o maior carinho e gratidão que relembro cada palavra, de sabedoria, dum velho amigo.
Nunca me arrependi de ser amigo do Ti’Artur e das muitas horas de prosa que tive com a Maria Luísa, dos correios – a Zita -, mas nada posso criticar nas recomendações do meu velho hospedeiro.
Nos meses de Agosto, o Carvoeiro era um autêntico entreposto das mais variadas gentes, vindas de todos os pontos do mundo: do Brasil, Venezuela, América, África do Sul, Congo Belga, colónias e países da Europa.
Com enorme gosto e imensa curiosidade, escutava as histórias de cada um – aventuras e desventuras, sucessos e azares, verdades e mentiras-.
O ti’Artur reparou no interesse e sofreguidão com que eu escutava e perguntava tudo o que dissesse respeito ao longínquo, as considerações que fazia, baseado nos estudos da Geografia e a maneira como aguentava conversas com quem eu nunca vira, sobre ambientes onde nunca estivera.
Um dia convidou-me para uma pescaria, nuns pegos da ribeira do Aziral, no termo de Envendos, no limite do concelho de Proença.
Iríamos de mota até à Venda Nova e dali em diante, seguiríamos, a corta mato, até à ribeira. Saíamos ao romper da manhã e íamos encontrar o resto do grupo, ao nascer do sol.
Conhecia apenas o ti’Artur; fiquei a conhecer umas trinta e tantas pessoas, que faziam a sua vida em doze países diferentes.
Devo ter feito milhares de perguntas, posso ter sido muito maçador, não cheguei a lançar o anzol à água, mas comi muito peixe frito, grelhado e em caldeirada.
Ao anoitecer, voltámos até junto da mota e, quando chegámos ao Carvoeiro, o ti’Artur pôs-se na minha frente, e disse-me: Zeca, vê que hoje, ao contrário do habitual, não estou bêbedo.
Queria, melhor, fazia todo o empenho em arranjar uma coisa que lhe causasse o maior prazer. Sei que gosta de convívios, como o de hoje, e fiquei encantado com a maneira como se comportou no meio de tanta gente, de tão diferentes meios e com tantas coisas difíceis de aturar.
Agora quero ir consigo, junto do velho Cavaco, dar-lhe nota da maneira como o Zeca se tornou na atracção do convívio, o que muito me honrou; para além de poder mostrar-lhe que não estou sempre bêbedo.
Depois dessas férias, abracei o ti’Artur três ou quatro vezes; normalmente fazíamo-lo em silêncio e com grande cumplicidade.
Tive um choque enorme, quando soube que foi traído pelo fígado, embora não fosse, para mim, grande surpresa.
Depois da morte do ti’Artur, nunca mais senti interesse em voltar ao Carvoeiro.
Até sempre, velho amigo.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Os “travancas”
O “Ti Manel Balejo” descia da aldeia até às azenhas do Vale do Corisco a qualquer hora do dia, ou da noite, durante todo o ano.
Medo era palavra que nunca conhecera, segunda a sua própria expressão.
Pouco mais fazia do que moer o pão da aldeia e beber copos de vinho, nas tabernas.
Não tinha, nem nunca procurara, fregueses de fora da terra, e ainda repartia o serviço com três moleiros que vinham buscar os taleigos dos fregueses; farinha mais fina, para uns bolos, ou uns caldos, para as filhós no Natal, ou para um casamento ou baptizado, não saía das mós das azenhas dele.
A alcunha vinha-lhe dos antepassados e aplicava-se só a três dos oito irmãos – nunca conseguimos apurar nada relacionado com tal designação -.
O sobrenome e apelido, verdadeiros, eram Marques Morcego.
Pela quantidade de vezes que dizia para o macho: anda lá, alma do diabo!... era conhecido pelo... alma do diabo!...
O animal, que transportava os taleigos, era, nas palavras do dono, mais manso e menos bruto que ele.
As raparigas, e muitas mulheres casadas, não passavam, junto do moleiro, sem uma chalaça: cortaste o cabelo para ficares mais bonita?!... “Atão” porque não ficaste?!... Tens dois filhos?!... “Atão” o teu “home” não é capaz de te fazer mais?!... E assim por diante, neste género de prosas, muitas vezes bastante inconvenientes.
Até já tinha experimentado, no focinho, as costas de muitas mãos, como comentavam as mulheres mais ousadas, na fonte, ou na lavagem da roupa.
Um dia, na taberna da terra, juntou-se com um caldeireiro que passava muitas vezes pela aldeia e, no meio de uns copos, entraram de chalaça.
Na conversa, o moleiro atirou ao Manel da Rosa: Olha lá, não passaste ali na ladeira das taliscas, a caminho de Alcaravela, na noite de anteontem?!...
Eu não, Ti Manel Balejo, não sou como os morcegos, nem como os moleiros; a essas horas estou na malhada, com a minha Rosa, a fazer o que não encomendo aos outros.
Pois olha que passaram, bem na minha frente, uns “travancas” que faziam uma restolhada dos diabos, cheiravam mal que tresandavam, ladravam como cães e iam com uma pressa maior que a que levam os condenados para o Inferno. Depois desapareceram, para os lados de Alcaravela e, lembrei-me de ti!....
Olhe, Ti Manel, sempre ouvi dizer que essas almas penadas são, normalmente de alguém que tem de prestar contas pelo que tirou aos fregueses; uns têm que amassar o pão ao Diabo, outros, têm de visitar sete vilas acasteladas, por noite, e outros, encarnam bichos malcheirosos e muito mal recebidos pelos cães das aldeias. Mas pode crer que nunca vi nada dessas coisas, nem acredito nelas.
Fazes bem, homem. Olha que se o meu macho falasse, poderia dizer que não é homem, nem animal manso, que aceita um diabo daqueles no corpo; aquilo é coisa do outro mundo, que nos deixa sem pinga de sangue, desaparece, tal como apareceu, e pronto!...
Olhe, Ti Manel. Os cães do Luís Matos e os do seu sobrinho, Joaquim, apareceram, ontem, junto de casa, logo pela manhã, todos mordidos e arranhados?!...
E o Augusto Macedo ao chegar à horta do Valdeira, deparou-se com um cenário dos diabos: o milho todo arrasado, a terra toda remexida e a própria represa furada!...
Não lhe foi muito difícil verificar que havia muitas pegadas de javardos e de cães e que ali houve luta da grossa. Pelas pegadas e estado das plantas, via-se, perfeitamente, que os estragos já datavam de algumas horas atrás!...
Aquilo, Ti Manel, era um tropel de cães, javardos e crias, que andavam todos engalfinhados e o lume que deixavam no ar, mais não era que o luzir dos olhos em plena escuridão.
Certamente o seu macho teve menos medo que “vomecê” e, também estava menos bêbedo, o que o terá ajudado a compreender que a luta não era dele.
A si, na altura, só lhe cheirou mal; ao macho foi o fedor que o ajudou a perceber o que se passava.
Bem, desta vez és capaz de ter razão.
Mas olha que uma noite, entraram-me pela porta da azenha, numa restolhada medonha: havia mesmo gritos e ais, no meio de grande alarido.
Pouco depois era lume por todo o lado e até conseguiram travar as pedras e pararem os engenhos, ao mesmo tempo que faziam desaparecer todo o cereal da maceira.
Coisa dos demónios; como tal nunca tinha visto e, de repente, tudo ficou calmo e voltou ao normal.
Oh! Ti Manel Balejo, sou caldeireiro e também me engrosso, às vezes. Mas olhe que nunca me esqueci de encher a maceira da azenha de grão, porque não tenho azenha, nem tenho grão.
Porém, não é o seu caso, Ti Manel.
Nessa noite, bebeu uns golitos a mais da pinga do cantil; encostou-se, no catre, sem encher a maceira de grão e acordou estremunhado, com as pedras a roçarem uma na outra, sem grão de permeio, a alta velocidade e faiscando, por todos os cantos e lados... teve sorte em não se lhe ter incendiado a manta com que se cobre.... Os “travancas”, estão, há muitos anos na sua cabeça; vêm das histórias da sua infância.
Já agora, o Ti Manel pague lá mais um copito e tenha cuidado quando descer hoje a ladeira das taliscas; choveu e o barro apegadiço está muito escorregadio, pelo que deve ter cuidado com o macho, não o carregando muito.
Passe pelas brasas, antes de se fazer ao caminho, pois se já tiver a coisa curtida, não vai encontrar travancas, nem bruxas, nem lobisomens, ou almas do outro mundo.
Faça o caminho, assobiando, acompanhado pelo seu Jeremias, que nada mais quer que caçar um ou outro coelho, mais desprevenido, ou alguma ratazana, lá nos contornos da azenha.
No outro dia, procurou o caldeireiro, para lhe agradecer os sonhos que tinha tido, no catre e dizer-lhe que os copitos do dia anterior foram bem empregados.
Mas o caldeireiro já partira, errando, de aldeia, em aldeia e bebendo aqui com uns, além com outros!...
Seguindo a vida!...
Medo era palavra que nunca conhecera, segunda a sua própria expressão.
Pouco mais fazia do que moer o pão da aldeia e beber copos de vinho, nas tabernas.
Não tinha, nem nunca procurara, fregueses de fora da terra, e ainda repartia o serviço com três moleiros que vinham buscar os taleigos dos fregueses; farinha mais fina, para uns bolos, ou uns caldos, para as filhós no Natal, ou para um casamento ou baptizado, não saía das mós das azenhas dele.
A alcunha vinha-lhe dos antepassados e aplicava-se só a três dos oito irmãos – nunca conseguimos apurar nada relacionado com tal designação -.
O sobrenome e apelido, verdadeiros, eram Marques Morcego.
Pela quantidade de vezes que dizia para o macho: anda lá, alma do diabo!... era conhecido pelo... alma do diabo!...
O animal, que transportava os taleigos, era, nas palavras do dono, mais manso e menos bruto que ele.
As raparigas, e muitas mulheres casadas, não passavam, junto do moleiro, sem uma chalaça: cortaste o cabelo para ficares mais bonita?!... “Atão” porque não ficaste?!... Tens dois filhos?!... “Atão” o teu “home” não é capaz de te fazer mais?!... E assim por diante, neste género de prosas, muitas vezes bastante inconvenientes.
Até já tinha experimentado, no focinho, as costas de muitas mãos, como comentavam as mulheres mais ousadas, na fonte, ou na lavagem da roupa.
Um dia, na taberna da terra, juntou-se com um caldeireiro que passava muitas vezes pela aldeia e, no meio de uns copos, entraram de chalaça.
Na conversa, o moleiro atirou ao Manel da Rosa: Olha lá, não passaste ali na ladeira das taliscas, a caminho de Alcaravela, na noite de anteontem?!...
Eu não, Ti Manel Balejo, não sou como os morcegos, nem como os moleiros; a essas horas estou na malhada, com a minha Rosa, a fazer o que não encomendo aos outros.
Pois olha que passaram, bem na minha frente, uns “travancas” que faziam uma restolhada dos diabos, cheiravam mal que tresandavam, ladravam como cães e iam com uma pressa maior que a que levam os condenados para o Inferno. Depois desapareceram, para os lados de Alcaravela e, lembrei-me de ti!....
Olhe, Ti Manel, sempre ouvi dizer que essas almas penadas são, normalmente de alguém que tem de prestar contas pelo que tirou aos fregueses; uns têm que amassar o pão ao Diabo, outros, têm de visitar sete vilas acasteladas, por noite, e outros, encarnam bichos malcheirosos e muito mal recebidos pelos cães das aldeias. Mas pode crer que nunca vi nada dessas coisas, nem acredito nelas.
Fazes bem, homem. Olha que se o meu macho falasse, poderia dizer que não é homem, nem animal manso, que aceita um diabo daqueles no corpo; aquilo é coisa do outro mundo, que nos deixa sem pinga de sangue, desaparece, tal como apareceu, e pronto!...
Olhe, Ti Manel. Os cães do Luís Matos e os do seu sobrinho, Joaquim, apareceram, ontem, junto de casa, logo pela manhã, todos mordidos e arranhados?!...
E o Augusto Macedo ao chegar à horta do Valdeira, deparou-se com um cenário dos diabos: o milho todo arrasado, a terra toda remexida e a própria represa furada!...
Não lhe foi muito difícil verificar que havia muitas pegadas de javardos e de cães e que ali houve luta da grossa. Pelas pegadas e estado das plantas, via-se, perfeitamente, que os estragos já datavam de algumas horas atrás!...
Aquilo, Ti Manel, era um tropel de cães, javardos e crias, que andavam todos engalfinhados e o lume que deixavam no ar, mais não era que o luzir dos olhos em plena escuridão.
Certamente o seu macho teve menos medo que “vomecê” e, também estava menos bêbedo, o que o terá ajudado a compreender que a luta não era dele.
A si, na altura, só lhe cheirou mal; ao macho foi o fedor que o ajudou a perceber o que se passava.
Bem, desta vez és capaz de ter razão.
Mas olha que uma noite, entraram-me pela porta da azenha, numa restolhada medonha: havia mesmo gritos e ais, no meio de grande alarido.
Pouco depois era lume por todo o lado e até conseguiram travar as pedras e pararem os engenhos, ao mesmo tempo que faziam desaparecer todo o cereal da maceira.
Coisa dos demónios; como tal nunca tinha visto e, de repente, tudo ficou calmo e voltou ao normal.
Oh! Ti Manel Balejo, sou caldeireiro e também me engrosso, às vezes. Mas olhe que nunca me esqueci de encher a maceira da azenha de grão, porque não tenho azenha, nem tenho grão.
Porém, não é o seu caso, Ti Manel.
Nessa noite, bebeu uns golitos a mais da pinga do cantil; encostou-se, no catre, sem encher a maceira de grão e acordou estremunhado, com as pedras a roçarem uma na outra, sem grão de permeio, a alta velocidade e faiscando, por todos os cantos e lados... teve sorte em não se lhe ter incendiado a manta com que se cobre.... Os “travancas”, estão, há muitos anos na sua cabeça; vêm das histórias da sua infância.
Já agora, o Ti Manel pague lá mais um copito e tenha cuidado quando descer hoje a ladeira das taliscas; choveu e o barro apegadiço está muito escorregadio, pelo que deve ter cuidado com o macho, não o carregando muito.
Passe pelas brasas, antes de se fazer ao caminho, pois se já tiver a coisa curtida, não vai encontrar travancas, nem bruxas, nem lobisomens, ou almas do outro mundo.
Faça o caminho, assobiando, acompanhado pelo seu Jeremias, que nada mais quer que caçar um ou outro coelho, mais desprevenido, ou alguma ratazana, lá nos contornos da azenha.
No outro dia, procurou o caldeireiro, para lhe agradecer os sonhos que tinha tido, no catre e dizer-lhe que os copitos do dia anterior foram bem empregados.
Mas o caldeireiro já partira, errando, de aldeia, em aldeia e bebendo aqui com uns, além com outros!...
Seguindo a vida!...
terça-feira, 5 de maio de 2009
A tabuleta dos 35 padres
O Jerónimo nasceu nas barbas da Serra, e ali se criou, entre barrocos e giestas, até que, aos onze anos, depois de fazer, com distinção, o exame do 2º grau, foi para o Seminário.
Isso não o desgostou, todavia jamais perceberia bem, porquê.
Levava nos pés o par de botas que calçara, pela primeira vez, no dia do exame.
No enxoval, que o acompanhava, iam algumas peças de roupa nova e muitas outras, feitas com aproveitamentos das fatiotas dos irmãos mais velhos.
Deixava para trás o que nunca esqueceria: a guarda do gado, a apanha das batatas e das castanhas e os outros servicitos, com que ajudava a mãe, Narcisa do Vale, mulher piedosa e temente a Deus, que conseguia gerir, como ninguém, os parcos proventos, resultantes da venda dos ovos de meia dúzia de galinhas.
Dali tirava os tostões com que mercava, na “venda”, os quilitos de mercearia, as barras de sabão macaco, para a barrela da roupa, e uns metros de cotim ou de chita, com que fazia calças para os homens e saias, ou blusas, para ela.
O pai, homem de poucas palavras, trabalhava no campo, dando jornais às casas mais remediadas e cuidava de uma pequena leira, junto da ribeira, de onde vinham as batatas e os mimos da casa.
Tinha duas ou três cabeças de gado e uma vaquita que iam dando leite, para fazer uns queijos.
O irmão mais velho, já servente de pedreiro, andava a iniciar-se na arte e o outro, com mais dois anos que o Jerónimo, malhava ferro, no ferreiro da aldeia, que era exímio a calçar uma ferramenta, ou a tratar os cascos e ferrar uma besta.
Viria a ser o ferrador da terra; ofício com que ganharia bem, a vida.
No Seminário teve, desde o primeiro dia - que recordou sempre com muita saudade, como fazia questão de repetir -, um comportamento exemplar.
Estabeleceu três metas, em planos diferentes: educação, instrução e formação.
Estava disposto a ir o mais longe possível em cada um destes objectivos.
Bebeu, com a maior avidez, todos os princípios e boas-maneiras que caracterizam um homem de sociedade; estudou e aprendeu quanto pôde e as suas notas eram das melhores: “barra” em Matemática e Latim, muito interessado em História e Geografia e com alguma dificuldade na Língua Materna e Retórica.
No plano da formação pode dizer-se que, ao fim de cinco anos de Seminário, estava um homem – compenetrado das suas obrigações e dedicado a todos os que o contactavam.
Em férias, na aldeia, era respeitado e acarinhado por todos, que diziam estar ali um futuro padre; não como muitos que nem sempre põem os interesses dos semelhantes acima dos seus, mas o verdadeiro exemplo de pessoa bem formada e talhada para aquilo que se propunha.
Não passou despercebido à Maria Luísa, moçoila um ano mais velha, que desde os bancos da escola o olhava de maneira especial e diferente das outras colegas.
Lembrava o rosto cândido e sereno, que mostrava sinais de barba, embora mantivesse muita serenidade e paz de espírito.
Mas não via nele um padre...
Nunca se soube bem porquê, nem por que forças, encontraram-se, num dia de verão, à tardinha, junto à fonte.
Anos mais tarde, a Maria Luísa viria a confidenciar que se fazia encontrada, mas tinha sempre a sensação que o Jerónimo não estava para aí virado, nem entendia os seus propósitos.
Cruzaram olhares, trocaram duas ou três palavras de circunstância e separaram-se, em silêncio; mas ficaram, ambos, com uma mesma certeza: nem a moçoila ficaria solteira, nem o seminarista havia de ser padre.
Como dois vulcões, plenos de erupção, separaram-se no final das férias, indo o rapaz para o quinto ano, no Seminário, e a menina para a Escola do Magistério.
Passado um ano, de grandes e penosas lutas interiores, o Jerónimo completava o quinto ano e anunciava ao Vice-reitor que não transitaria para o Seminário Maior, pois, já acordara
com o seu director espiritual, não seria ordenado padre.
A Maria Luísa ia para o segundo ano e concluiria o curso no final do ano.
Embora nada de concreto se tivesse passado, ou sido acertado entre ambos, queriam os dois o mesmo.
Nunca o manifestaram, sendo, com alguma surpresa, que a menina veio a saber, que o Jerónimo decidira abandonar o Seminário.
Quase a completar dezoito anos, o Jerónimo trabalhou na cidade, como marçano e ajudante de cartório, colaborando, activamente em todos os serviços da paróquia, quer acolitando o vigário, quer organizando cerimónias, mas sempre fiel ao rumo que traçara, antes de tomar a decisão, não muito bem aceite pelos pais, de abandonar a carreira eclesiástica e que consistia em fazer exames de equivalência para transição para o ensino oficial e matricular-se na Escola do Magistério.
Nas férias da Maria Luísa, dado que o Jerónimo já não tinha férias, apenas por duas ou três vezes se encontraram, lá na aldeia.
Num desses fortuitos encontros o rapaz manifestou os seus intentos de que se conjugassem para que fizessem projectos de vida. Propunha o namoro que os levasse, quando fosse altura disso, ao altar.
A menina agradeceu, ternamente, a primeira prenda do namorado, dizendo apenas que acabava de receber a maior alegria da sua vida. Não disse mais que uma frase: sempre te amei e iremos ser muito felizes, disso tenho a certeza; conta comigo!...
A vida ia correndo, de feição; durante o ano seguinte, o rapaz arranjou emprego na biblioteca pública e teve aulas, dadas, graciosamente, por um professor do liceu, com quem costumava trocar impressões e a quem fez seu confidente.
Candidatou-se, no ano seguinte, aos exames do segundo e quinto anos e, sem surpresa, viria a obter dispensa das provas orais, em ambos. Fez exame de admissão ao Magistério, vindo a ser, dois anos depois, professor.
A noiva já trabalhara, numa aldeia não distante da cidade, como professora agregada e começou a fazer parte dos planos a aproximação do futuro casal, mas o serviço militar reclamava a presença do Jerónimo.
Esteve em Tavira durante seis longos meses, onde teve a instrução de base e foi promovido a cabo miliciano, transitando em seguida para a sua cidade, onde cumpriria mais dois anos de serviço.
Liberto de obrigações militares, combinou-se o casamento, que viria a consistir numa cerimónia muito íntima e simples, na igreja da aldeia.
No Outubro seguinte eram ambos nomeados para escolas da terra, masculina e feminina, onde, ao abrigo da lei dos cônjuges, seriam colocados como efectivos.
Durante os oito anos seguintes, tiveram cinco rapazes e uma menina que era o desvelo de pais e irmãos; a Maria da Graça, que vinte e cinco anos mais tarde cursaria medicina e viria a ser uma distinta pediatra.
Três dos cinco irmãos foram padres, sem grande interferência do pai, como fazia questão de salientar o velho professor Jerónimo.
E acrescentava, com muito orgulho: são vinte e sete ex-alunos, só de minha parte, já que da Maria Luisa foram mais oito, que se ordenaram padres – missão cumprida!...
Ao longo de quarenta e cinco anos, de serviço efectivo, o casal de professores iniciaram a vida e a carreira de centenas de vultos das letras e da sociedade do País.
Para além dos trinta e cinco padres, que, salvo duas justificadas excepções, estiveram nas cerimónias fúnebres dos mestres, deixaram magistrados, médicos e professores, entre uma plêiade de gente grata, espalhada por quase todos os continentes.
Em sua memória numa pequena lápide, colocada junto da fonte, lá na aldeia, o povo escreveu: Homenagem aos Professores Jerónimo e Maria Luísa, que nasceram e viveram nesta terra, onde faleceram em 1968.
PS.: A lápide foi posteriormente completada, pelo desvelo e douto engenho de um Presidente da Junta de Freguesia: ...onde faleceram em 1968… “e foram pais de nada menos de trinta e cinco padres”.
É claro que o povo lhe passou a chamar a “tabuleta dos 35 padres”.
Isso não o desgostou, todavia jamais perceberia bem, porquê.
Levava nos pés o par de botas que calçara, pela primeira vez, no dia do exame.
No enxoval, que o acompanhava, iam algumas peças de roupa nova e muitas outras, feitas com aproveitamentos das fatiotas dos irmãos mais velhos.
Deixava para trás o que nunca esqueceria: a guarda do gado, a apanha das batatas e das castanhas e os outros servicitos, com que ajudava a mãe, Narcisa do Vale, mulher piedosa e temente a Deus, que conseguia gerir, como ninguém, os parcos proventos, resultantes da venda dos ovos de meia dúzia de galinhas.
Dali tirava os tostões com que mercava, na “venda”, os quilitos de mercearia, as barras de sabão macaco, para a barrela da roupa, e uns metros de cotim ou de chita, com que fazia calças para os homens e saias, ou blusas, para ela.
O pai, homem de poucas palavras, trabalhava no campo, dando jornais às casas mais remediadas e cuidava de uma pequena leira, junto da ribeira, de onde vinham as batatas e os mimos da casa.
Tinha duas ou três cabeças de gado e uma vaquita que iam dando leite, para fazer uns queijos.
O irmão mais velho, já servente de pedreiro, andava a iniciar-se na arte e o outro, com mais dois anos que o Jerónimo, malhava ferro, no ferreiro da aldeia, que era exímio a calçar uma ferramenta, ou a tratar os cascos e ferrar uma besta.
Viria a ser o ferrador da terra; ofício com que ganharia bem, a vida.
No Seminário teve, desde o primeiro dia - que recordou sempre com muita saudade, como fazia questão de repetir -, um comportamento exemplar.
Estabeleceu três metas, em planos diferentes: educação, instrução e formação.
Estava disposto a ir o mais longe possível em cada um destes objectivos.
Bebeu, com a maior avidez, todos os princípios e boas-maneiras que caracterizam um homem de sociedade; estudou e aprendeu quanto pôde e as suas notas eram das melhores: “barra” em Matemática e Latim, muito interessado em História e Geografia e com alguma dificuldade na Língua Materna e Retórica.
No plano da formação pode dizer-se que, ao fim de cinco anos de Seminário, estava um homem – compenetrado das suas obrigações e dedicado a todos os que o contactavam.
Em férias, na aldeia, era respeitado e acarinhado por todos, que diziam estar ali um futuro padre; não como muitos que nem sempre põem os interesses dos semelhantes acima dos seus, mas o verdadeiro exemplo de pessoa bem formada e talhada para aquilo que se propunha.
Não passou despercebido à Maria Luísa, moçoila um ano mais velha, que desde os bancos da escola o olhava de maneira especial e diferente das outras colegas.
Lembrava o rosto cândido e sereno, que mostrava sinais de barba, embora mantivesse muita serenidade e paz de espírito.
Mas não via nele um padre...
Nunca se soube bem porquê, nem por que forças, encontraram-se, num dia de verão, à tardinha, junto à fonte.
Anos mais tarde, a Maria Luísa viria a confidenciar que se fazia encontrada, mas tinha sempre a sensação que o Jerónimo não estava para aí virado, nem entendia os seus propósitos.
Cruzaram olhares, trocaram duas ou três palavras de circunstância e separaram-se, em silêncio; mas ficaram, ambos, com uma mesma certeza: nem a moçoila ficaria solteira, nem o seminarista havia de ser padre.
Como dois vulcões, plenos de erupção, separaram-se no final das férias, indo o rapaz para o quinto ano, no Seminário, e a menina para a Escola do Magistério.
Passado um ano, de grandes e penosas lutas interiores, o Jerónimo completava o quinto ano e anunciava ao Vice-reitor que não transitaria para o Seminário Maior, pois, já acordara
com o seu director espiritual, não seria ordenado padre.
A Maria Luísa ia para o segundo ano e concluiria o curso no final do ano.
Embora nada de concreto se tivesse passado, ou sido acertado entre ambos, queriam os dois o mesmo.
Nunca o manifestaram, sendo, com alguma surpresa, que a menina veio a saber, que o Jerónimo decidira abandonar o Seminário.
Quase a completar dezoito anos, o Jerónimo trabalhou na cidade, como marçano e ajudante de cartório, colaborando, activamente em todos os serviços da paróquia, quer acolitando o vigário, quer organizando cerimónias, mas sempre fiel ao rumo que traçara, antes de tomar a decisão, não muito bem aceite pelos pais, de abandonar a carreira eclesiástica e que consistia em fazer exames de equivalência para transição para o ensino oficial e matricular-se na Escola do Magistério.
Nas férias da Maria Luísa, dado que o Jerónimo já não tinha férias, apenas por duas ou três vezes se encontraram, lá na aldeia.
Num desses fortuitos encontros o rapaz manifestou os seus intentos de que se conjugassem para que fizessem projectos de vida. Propunha o namoro que os levasse, quando fosse altura disso, ao altar.
A menina agradeceu, ternamente, a primeira prenda do namorado, dizendo apenas que acabava de receber a maior alegria da sua vida. Não disse mais que uma frase: sempre te amei e iremos ser muito felizes, disso tenho a certeza; conta comigo!...
A vida ia correndo, de feição; durante o ano seguinte, o rapaz arranjou emprego na biblioteca pública e teve aulas, dadas, graciosamente, por um professor do liceu, com quem costumava trocar impressões e a quem fez seu confidente.
Candidatou-se, no ano seguinte, aos exames do segundo e quinto anos e, sem surpresa, viria a obter dispensa das provas orais, em ambos. Fez exame de admissão ao Magistério, vindo a ser, dois anos depois, professor.
A noiva já trabalhara, numa aldeia não distante da cidade, como professora agregada e começou a fazer parte dos planos a aproximação do futuro casal, mas o serviço militar reclamava a presença do Jerónimo.
Esteve em Tavira durante seis longos meses, onde teve a instrução de base e foi promovido a cabo miliciano, transitando em seguida para a sua cidade, onde cumpriria mais dois anos de serviço.
Liberto de obrigações militares, combinou-se o casamento, que viria a consistir numa cerimónia muito íntima e simples, na igreja da aldeia.
No Outubro seguinte eram ambos nomeados para escolas da terra, masculina e feminina, onde, ao abrigo da lei dos cônjuges, seriam colocados como efectivos.
Durante os oito anos seguintes, tiveram cinco rapazes e uma menina que era o desvelo de pais e irmãos; a Maria da Graça, que vinte e cinco anos mais tarde cursaria medicina e viria a ser uma distinta pediatra.
Três dos cinco irmãos foram padres, sem grande interferência do pai, como fazia questão de salientar o velho professor Jerónimo.
E acrescentava, com muito orgulho: são vinte e sete ex-alunos, só de minha parte, já que da Maria Luisa foram mais oito, que se ordenaram padres – missão cumprida!...
Ao longo de quarenta e cinco anos, de serviço efectivo, o casal de professores iniciaram a vida e a carreira de centenas de vultos das letras e da sociedade do País.
Para além dos trinta e cinco padres, que, salvo duas justificadas excepções, estiveram nas cerimónias fúnebres dos mestres, deixaram magistrados, médicos e professores, entre uma plêiade de gente grata, espalhada por quase todos os continentes.
Em sua memória numa pequena lápide, colocada junto da fonte, lá na aldeia, o povo escreveu: Homenagem aos Professores Jerónimo e Maria Luísa, que nasceram e viveram nesta terra, onde faleceram em 1968.
PS.: A lápide foi posteriormente completada, pelo desvelo e douto engenho de um Presidente da Junta de Freguesia: ...onde faleceram em 1968… “e foram pais de nada menos de trinta e cinco padres”.
É claro que o povo lhe passou a chamar a “tabuleta dos 35 padres”.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
O Galamas
Num beco dum recanto da Praça do Quevedo, quase paredes-meias com a passagem de nível, do centro da cidade de Setúbal, viveu toda a vida a Ti’Guilhermina, levantando e baixando bandeiras, à passagem dos comboios.
Por companhia certa tinha o filho; acidentalmente o Galamas pernoitava também nas modestas instalações da guarda da CP. Nunca se casaram mas eram, de facto, como agora se diz, um casal. Tinham um moço – o Carlos –.
O Galamas vivia de expedientes: ia ao mar quando o chamavam, embarcava na campanha do bacalhau, fazia estiva no porto e, sem que ninguém soubesse dele, ausentava-se meses a fio, acabando por voltar, roto, faminto e bêbedo.
O moço, finório, aprendeu tudo o que as docas ensinam.
Empurrado pela mãe, seguia os pescadores que transportavam as canastras do peixe para a lota e, com outros ganapos, disputava as sardinhas e carapaus que iam caiando ao chão.
Do que conseguia apanhar dependia a fartura ou míngua que tinha em casa para ir comendo.
O garoto foi crescendo ao Deus dará: criado sem pai e a mãe sempre dependente da passagem dos comboios.
Vivia-se, por ali, em total desgoverno.
A escola foi coisa que nunca o cativou, com bastante pena da professora: à parte uma voz fanhosa, tinha uma boa memória, escrevia com facilidade e na matemática era mesmo bom.
Ainda menino começou a fumar as beatas e a escorropichar os restos dos copos de vinho, na taberna do Ti’Ambrósio, duas ruas atrás da sua casa.
O velho dava-lhe umas côdeas de pão, sopas de vinho, sardinhas assadas e, todos os dias, sopa fresca.
Em troca o moço fazia os recados e, sempre que podia, pedia à porta da igreja.
Acabava por passar dias seguidos sem aparecer à mãe que já nem o procurava.
Depois de uns anos desaparecido da cidade, em que entretanto morreu a Ti’Guilhermina, o Galamas apareceu, um dia, lá pelos casebres do Quevedo e por ali se foi demorando.
Tábua aqui e acolá; mais chapa e porta remendada e, pelo menos, deixou de chover lá dentro.
Embebedava-se todos os dias na tasca do Ti’Ambrósio e ouvia, os ralhetes do velhote com a maior das paciências deste mundo, como dizia.
Um dia, o Ti’Ambrósio, chamou o Galamas e disse-lhe, com ar solene e como que fazendo-lhe o seu testamento:
Olha homem, nem para ti és bom; podias hoje ser dono desta casa, mas nunca tiveste cabeça.
Embebedas-te todos os dias e já nem te lembras que ainda tens aqui vinte paus no livro dos calotes.
Bem Ti’Ambrósio, vamos lá a pôr os pontos nos is:
O senhor tem sido, para mim, aquilo que realmente me parece que é, mas vamos esquecer isso.
Não é verdade que me embebedo todos os dias; como podia isso ser se nem tenho tempo de curtir a que apanhei já nem me lembro quando.
Quanto aos vinte paus que o senhor diz que tenho aí, esteja descansado, quando precisar deles venho cá buscá-los.
E, voltando costas, seguiu, rua abaixo, em direcção ao porto, para não mais ser visto em Setúbal.
Até que uns dez anos depois, morreu o velho taberneiro e corridos os trâmites legais, foi considerado herdeiro do negócio, da casa e de outros bens móveis e imóveis do velho Ambrósio.
Rezava o edital, afixado, em Setúbal:
Procura-se e convoca-se Carlos António Galamas, residente em parte incerta, perfilhado por Ambrósio de Matos Marcelino e considerado seu herdeiro universal.
Por companhia certa tinha o filho; acidentalmente o Galamas pernoitava também nas modestas instalações da guarda da CP. Nunca se casaram mas eram, de facto, como agora se diz, um casal. Tinham um moço – o Carlos –.
O Galamas vivia de expedientes: ia ao mar quando o chamavam, embarcava na campanha do bacalhau, fazia estiva no porto e, sem que ninguém soubesse dele, ausentava-se meses a fio, acabando por voltar, roto, faminto e bêbedo.
O moço, finório, aprendeu tudo o que as docas ensinam.
Empurrado pela mãe, seguia os pescadores que transportavam as canastras do peixe para a lota e, com outros ganapos, disputava as sardinhas e carapaus que iam caiando ao chão.
Do que conseguia apanhar dependia a fartura ou míngua que tinha em casa para ir comendo.
O garoto foi crescendo ao Deus dará: criado sem pai e a mãe sempre dependente da passagem dos comboios.
Vivia-se, por ali, em total desgoverno.
A escola foi coisa que nunca o cativou, com bastante pena da professora: à parte uma voz fanhosa, tinha uma boa memória, escrevia com facilidade e na matemática era mesmo bom.
Ainda menino começou a fumar as beatas e a escorropichar os restos dos copos de vinho, na taberna do Ti’Ambrósio, duas ruas atrás da sua casa.
O velho dava-lhe umas côdeas de pão, sopas de vinho, sardinhas assadas e, todos os dias, sopa fresca.
Em troca o moço fazia os recados e, sempre que podia, pedia à porta da igreja.
Acabava por passar dias seguidos sem aparecer à mãe que já nem o procurava.
Depois de uns anos desaparecido da cidade, em que entretanto morreu a Ti’Guilhermina, o Galamas apareceu, um dia, lá pelos casebres do Quevedo e por ali se foi demorando.
Tábua aqui e acolá; mais chapa e porta remendada e, pelo menos, deixou de chover lá dentro.
Embebedava-se todos os dias na tasca do Ti’Ambrósio e ouvia, os ralhetes do velhote com a maior das paciências deste mundo, como dizia.
Um dia, o Ti’Ambrósio, chamou o Galamas e disse-lhe, com ar solene e como que fazendo-lhe o seu testamento:
Olha homem, nem para ti és bom; podias hoje ser dono desta casa, mas nunca tiveste cabeça.
Embebedas-te todos os dias e já nem te lembras que ainda tens aqui vinte paus no livro dos calotes.
Bem Ti’Ambrósio, vamos lá a pôr os pontos nos is:
O senhor tem sido, para mim, aquilo que realmente me parece que é, mas vamos esquecer isso.
Não é verdade que me embebedo todos os dias; como podia isso ser se nem tenho tempo de curtir a que apanhei já nem me lembro quando.
Quanto aos vinte paus que o senhor diz que tenho aí, esteja descansado, quando precisar deles venho cá buscá-los.
E, voltando costas, seguiu, rua abaixo, em direcção ao porto, para não mais ser visto em Setúbal.
Até que uns dez anos depois, morreu o velho taberneiro e corridos os trâmites legais, foi considerado herdeiro do negócio, da casa e de outros bens móveis e imóveis do velho Ambrósio.
Rezava o edital, afixado, em Setúbal:
Procura-se e convoca-se Carlos António Galamas, residente em parte incerta, perfilhado por Ambrósio de Matos Marcelino e considerado seu herdeiro universal.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
O moinho da Maxieira
No alto da Horta Velha, encimando o Vale de Incenso e coroando a chapada do Pardieiro, emerge, de um pequeno planalto, um maciço rochoso que serviu de base a um moinho de vento, há muitos anos desaparecido, sem deixar rasto ou vestígios.
Esse local, ainda hoje se chama moinho da Maxieira.
Do alto do moinho, que servia também de habitação ao moleiro Ricardo, desfrutava-se um panorama imponente: na linha do horizonte, os cumes da serra dos Bandos a nascente, as terras de Vila de Rei a norte e poente e o vale do Tejo a sul, com o morro e a cidade de Abrantes a sobressair dos nateiros ribeirinhos e a marcar o início das planuras do Alto Alentejo.
O morro, demarcando a linha de águas entre a Serra e a Aboboreira, terá servido de atalaia e posto de vigia, recebendo e transmitindo, para Abrantes, os sinais luminosos, indicativos da aproximação de tropas hostis, em marcha sobre o vale do Tejo, a caminho de Lisboa.
Também os Templários terão usado o local para ligações, à vista, entre o Alentejo e Tomar, através da ligação com a serra da Melriça, centro geodésico de Portugal.
No sopé, a sul e oeste do pequeno maciço, havia um souto que dava as melhores castanhas da região.
Entre os castanheiros florescia uma pequena horta, regada por uma represa que recolhia as águas de uma nascente que aflorava poucos metros abaixo da porta do moinho.
Entre a horta e o moinho, havia um palheiro, residência do velho burrito, e uns cortelhos, para a cabrita e o porco.
Completava o cenário o velho moleiro, de nome Ricardo, como o pai e avô, e de que mais nada se conhece.
As pedras do moinho da Maxieira, onde hoje está um talefe dos serviços de cadastro geodésico, desapareceram; toda a gente se empenhou em recolher e guardar algumas relíquias do local.
Diz a lenda que casa onde fosse colocada uma simples pedra do velho moinho não ardia, não seria assaltada, nem nela entraria mau-olhado ou quebranto. Também os animais da família seriam protegidos de maleitas e doenças.
Ao tio Ricardo, que não se sabe ao certo quem foi, nem de onde era filhote – todas as aldeias, em redor, reclamam a sua naturalidade -, são atribuídos dotes de santidade e a sua memória foi, muitas vezes, invocada como milagrosa, segundo referência dos mais velhos, quando relembram as palavras de outros mais velhos.
A fama dos poderes do velho moleiro Ricardo, da farinha moída no seu moinho, das águas da sua represa e das castanhas do castanheiro em cuja sombra o moleiro dormia a sesta e o sono de muitas noites, persistiram muito para cá do desaparecimento de todo o cenário.
A procura das pedras do moinho, de rebentos de sobreiro para plantar e de tudo que se referisse ao local, acabou por não deixar pedra sobre pedra e originar as mais variadas lendas e crendices.
Garantem os mais velhos que nunca se soube, ao certo, onde foi enterrado o velho Ricardo; há até quem sugira, embora cheio de receio, que nunca houve Ricardo, nem moinho na Maxieira. Porém, os exageros não ajudam, em nada, a chegar à verdade, nem é esse o nosso objectivo.
Por respeito e por tudo o que mais se admita, todos preferem calar-se; ninguém quer ficar sujeito ao que de mal lhe possa acontecer e, como é costume, no povo, não se acredita nem deixa de se acreditar – respeita-se a tradição –.
Todavia sempre se aumentam ou diminuem os tons das histórias, que, de boca em boca, passam, transversalmente, de geração em geração.
Mas olhe que é verdade que já muitos foram os que se viram em aflições, com lobos, visões e coisas esquisitas, bem como com doenças e complicações e se apegaram ao velho Ricardo, que Deus haja. Passaram, imediatamente, por cima de tudo.
Foram estas as últimas palavras que ouvi, bastantes anos atrás, sobre o assunto.
Esse local, ainda hoje se chama moinho da Maxieira.
Do alto do moinho, que servia também de habitação ao moleiro Ricardo, desfrutava-se um panorama imponente: na linha do horizonte, os cumes da serra dos Bandos a nascente, as terras de Vila de Rei a norte e poente e o vale do Tejo a sul, com o morro e a cidade de Abrantes a sobressair dos nateiros ribeirinhos e a marcar o início das planuras do Alto Alentejo.
O morro, demarcando a linha de águas entre a Serra e a Aboboreira, terá servido de atalaia e posto de vigia, recebendo e transmitindo, para Abrantes, os sinais luminosos, indicativos da aproximação de tropas hostis, em marcha sobre o vale do Tejo, a caminho de Lisboa.
Também os Templários terão usado o local para ligações, à vista, entre o Alentejo e Tomar, através da ligação com a serra da Melriça, centro geodésico de Portugal.
No sopé, a sul e oeste do pequeno maciço, havia um souto que dava as melhores castanhas da região.
Entre os castanheiros florescia uma pequena horta, regada por uma represa que recolhia as águas de uma nascente que aflorava poucos metros abaixo da porta do moinho.
Entre a horta e o moinho, havia um palheiro, residência do velho burrito, e uns cortelhos, para a cabrita e o porco.
Completava o cenário o velho moleiro, de nome Ricardo, como o pai e avô, e de que mais nada se conhece.
As pedras do moinho da Maxieira, onde hoje está um talefe dos serviços de cadastro geodésico, desapareceram; toda a gente se empenhou em recolher e guardar algumas relíquias do local.
Diz a lenda que casa onde fosse colocada uma simples pedra do velho moinho não ardia, não seria assaltada, nem nela entraria mau-olhado ou quebranto. Também os animais da família seriam protegidos de maleitas e doenças.
Ao tio Ricardo, que não se sabe ao certo quem foi, nem de onde era filhote – todas as aldeias, em redor, reclamam a sua naturalidade -, são atribuídos dotes de santidade e a sua memória foi, muitas vezes, invocada como milagrosa, segundo referência dos mais velhos, quando relembram as palavras de outros mais velhos.
A fama dos poderes do velho moleiro Ricardo, da farinha moída no seu moinho, das águas da sua represa e das castanhas do castanheiro em cuja sombra o moleiro dormia a sesta e o sono de muitas noites, persistiram muito para cá do desaparecimento de todo o cenário.
A procura das pedras do moinho, de rebentos de sobreiro para plantar e de tudo que se referisse ao local, acabou por não deixar pedra sobre pedra e originar as mais variadas lendas e crendices.
Garantem os mais velhos que nunca se soube, ao certo, onde foi enterrado o velho Ricardo; há até quem sugira, embora cheio de receio, que nunca houve Ricardo, nem moinho na Maxieira. Porém, os exageros não ajudam, em nada, a chegar à verdade, nem é esse o nosso objectivo.
Por respeito e por tudo o que mais se admita, todos preferem calar-se; ninguém quer ficar sujeito ao que de mal lhe possa acontecer e, como é costume, no povo, não se acredita nem deixa de se acreditar – respeita-se a tradição –.
Todavia sempre se aumentam ou diminuem os tons das histórias, que, de boca em boca, passam, transversalmente, de geração em geração.
Mas olhe que é verdade que já muitos foram os que se viram em aflições, com lobos, visões e coisas esquisitas, bem como com doenças e complicações e se apegaram ao velho Ricardo, que Deus haja. Passaram, imediatamente, por cima de tudo.
Foram estas as últimas palavras que ouvi, bastantes anos atrás, sobre o assunto.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Os lobos do Ti’Balejo
O Luís era o segundo de cinco irmãos e duas irmãs, nascidos e criados lá na Serra.
O mais velho, o Manel, moleiro toda a vida e amigo de mandar as suas pachouvadas; nunca foi capaz de se impor aos três ou quatro moleiros, de fora, que semanalmente batiam a aldeia, ainda que dispusesse de um moinho de vento, duas azenhas e, mais tarde, uma moagem mecânica.
O segundo na escala de idades, o Luís, foi toda a vida marchante; mas, do que ele gostava mesmo era de vinho, embora, com copos ou sem eles, fizesse, na mesma, os negócios.
Seguia-se o José, na terra conhecido por José Matias e fora dela pelo Moucho, sem dúvida, um dos homens mais influentes nas transformações que a aldeia sofreu, nos meados do século passado.
O Augusto vinha a seguir e foi sempre ganhando uns dinheirinhos nos negócios da resina e dos pinheiros para madeira.
O benjamim, o Narciso, foi sempre uma figura apagada, bastante míope, sem nunca ter tido filhos. Viveu e desempenhou um papel interessante como encarregado de animais e hortas do Seminário do Fundão, onde, com a mulher, ainda hoje são lembrados e muito queridos.
Das raparigas, a Maria, a mais velha casou para a Queixoperra e foi mãe de um dos primeiros licenciados da aldeia.
A Emília desempenhou, sem nada a referir, o papel de esposa e mãe, lá na Serra, no Melhim, junto dos pais, que ainda recordo, vagamente.
Num pequeno casebre, paredes meias com as casas de dois filhos, a Emília e o Augusto, depois de passar o ribeiro do Freixo, a caminho da Chã, sentado numa tripeça e com uns óculos muito redondinhos, estava, invariavelmente, o Ti João do Melhim, pai da família, a ler não sei o que, nem onde, mas…a ler.
E, não se julgue que esta afirmação é descabida. Sê-lo-ia, por ventura, se não se tratasse da primeira vez que vi óculos e uma pessoa a ler.
Nos meus quatro ou cinco anos, interrogava-me: para que serviam as rodas de arame que o velho tinha em riba do nariz.
É meu propósito contar, hoje, uma pequena história que ouvi ao Ti’Luís, o segundo na escala dos irmãos, a respeito das suas idas frequentes para as terras da área de Vila de Rei, passando pela Louriceira, de onde regressava, sempre bêbedo e a desoras e, normalmente, sem perder o gado comprado.
Tinha um bom anjo da guarda que, a brincar, se dizia que eram os lobos.
Ele, ainda sério, ou já bem aviado, contava, então:
Um dia, os lobos de Vila de Rei, quiseram reunir-se com os de Mação, para discutirem quem governava aqui na nossa zona.
Quando os de lá falaram na Lousa, logo os de cá responderam que nem pensassem: que escolha a vossa; a terra onde o vento berra e a fome pousa?!...
Pois que seja na Alcaravela, disseram os nossos.
Que é lá isso, amigos: lá nem homem sério, nem mulher bela; bebem por qualquer púcaro e comem de qualquer panela.
Foram nomeando as terras umas atrás das outras e nunca chegavam a acordo, até que eu ia a passar e disse aos lobos:
“Deixem-me falar com o povo da Serra e arranjaremos tudo. Penso que podemos arranjar um sítio neutro, onde um esteja no Mação, outro no Sardoal e outro, em Vila de Rei. Ainda assim um terá um ajudante no Penhascoso, outro em Alcaravela e outro no Milreu. A testemunha pode estar na Aboboreira. Todos em território seguro e uns em frente dos outros. Até lá, quero guarda de honra…”
Ainda não voltaram a procurar-me, para dizerem o que decidiram!...
Continuam a fazer-me guarda de honra.
Devem andar a discutir!...
O mais velho, o Manel, moleiro toda a vida e amigo de mandar as suas pachouvadas; nunca foi capaz de se impor aos três ou quatro moleiros, de fora, que semanalmente batiam a aldeia, ainda que dispusesse de um moinho de vento, duas azenhas e, mais tarde, uma moagem mecânica.
O segundo na escala de idades, o Luís, foi toda a vida marchante; mas, do que ele gostava mesmo era de vinho, embora, com copos ou sem eles, fizesse, na mesma, os negócios.
Seguia-se o José, na terra conhecido por José Matias e fora dela pelo Moucho, sem dúvida, um dos homens mais influentes nas transformações que a aldeia sofreu, nos meados do século passado.
O Augusto vinha a seguir e foi sempre ganhando uns dinheirinhos nos negócios da resina e dos pinheiros para madeira.
O benjamim, o Narciso, foi sempre uma figura apagada, bastante míope, sem nunca ter tido filhos. Viveu e desempenhou um papel interessante como encarregado de animais e hortas do Seminário do Fundão, onde, com a mulher, ainda hoje são lembrados e muito queridos.
Das raparigas, a Maria, a mais velha casou para a Queixoperra e foi mãe de um dos primeiros licenciados da aldeia.
A Emília desempenhou, sem nada a referir, o papel de esposa e mãe, lá na Serra, no Melhim, junto dos pais, que ainda recordo, vagamente.
Num pequeno casebre, paredes meias com as casas de dois filhos, a Emília e o Augusto, depois de passar o ribeiro do Freixo, a caminho da Chã, sentado numa tripeça e com uns óculos muito redondinhos, estava, invariavelmente, o Ti João do Melhim, pai da família, a ler não sei o que, nem onde, mas…a ler.
E, não se julgue que esta afirmação é descabida. Sê-lo-ia, por ventura, se não se tratasse da primeira vez que vi óculos e uma pessoa a ler.
Nos meus quatro ou cinco anos, interrogava-me: para que serviam as rodas de arame que o velho tinha em riba do nariz.
É meu propósito contar, hoje, uma pequena história que ouvi ao Ti’Luís, o segundo na escala dos irmãos, a respeito das suas idas frequentes para as terras da área de Vila de Rei, passando pela Louriceira, de onde regressava, sempre bêbedo e a desoras e, normalmente, sem perder o gado comprado.
Tinha um bom anjo da guarda que, a brincar, se dizia que eram os lobos.
Ele, ainda sério, ou já bem aviado, contava, então:
Um dia, os lobos de Vila de Rei, quiseram reunir-se com os de Mação, para discutirem quem governava aqui na nossa zona.
Quando os de lá falaram na Lousa, logo os de cá responderam que nem pensassem: que escolha a vossa; a terra onde o vento berra e a fome pousa?!...
Pois que seja na Alcaravela, disseram os nossos.
Que é lá isso, amigos: lá nem homem sério, nem mulher bela; bebem por qualquer púcaro e comem de qualquer panela.
Foram nomeando as terras umas atrás das outras e nunca chegavam a acordo, até que eu ia a passar e disse aos lobos:
“Deixem-me falar com o povo da Serra e arranjaremos tudo. Penso que podemos arranjar um sítio neutro, onde um esteja no Mação, outro no Sardoal e outro, em Vila de Rei. Ainda assim um terá um ajudante no Penhascoso, outro em Alcaravela e outro no Milreu. A testemunha pode estar na Aboboreira. Todos em território seguro e uns em frente dos outros. Até lá, quero guarda de honra…”
Ainda não voltaram a procurar-me, para dizerem o que decidiram!...
Continuam a fazer-me guarda de honra.
Devem andar a discutir!...
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