Aquela haste de limoeiro a que ainda restavam as duas folhitas do olho e um bocado da serapilheira que envolvia restos da terra que tinha acompanhado a raiz desde que, para aí um mês antes, aquela planta saíra dos viveiros de Santa Cita, andava aos tombos, na caixa da furgoneta do Ti’André.
Meu pai chegou-se ao vendedor das plantas e apreçou o limoeiro: Então e aquele limoeiro, ou restos dele, quanto me vai custar? Mas olhe que se não vingar, depois terá que substituí-lo por outro. Fica combinado!...
Olhe Ti’Amorim, essa árvore foi-me encomendada na Carregueira e quando o freguês a viu, desfez tanto nela que mais me apeteceu parti-la, ou deitá-la fora. Para aí tem andado aos tombos, o que até me não importa, pois nas seis laranjeiras que lhe vendi já ficou bem pago.
Assim como assim, leve lá o limoeiro e, na primeira vez que lhe comprar os limões dele, descontamos os trinta mil réis que me havia de dar. Agora só paga um copo e, não se atrase a plantá-lo, que tem aí uma boa planta.
Dizia-me, o meu pai:
E foi assim que uma das melhores árvores dos Brejos, cá veio parar. Cumpriu-se o trato, dos trinta mil réis, menos de um ano depois de ter plantado o limoeiro e, já soma contos de réis o valor dos limões vendidos ao Ti’André, para além de gastos de casa, à farta, e serventia de três ou quatro comadres que aí vêm buscar as precisões. É uma árvore soberba; dá fruta todo o ano, sempre sumarenta, mesmo no pino do Verão. Nunca cresceu muito, mas chega o porte que tem.
Sem nada a apoquentá-lo, no centro da horta de cima, a uns três metros da levada e um pouco menos da parede de suporte, pouco ou nada se semeava debaixo dele e não faltavam as regas, sobretudo nas épocas de maior canícula.
A pedra, junto do tronco, tanto era degrau para colher os limões, como me servia de banco, nas longas horas de repouso e de leituras. Li, ali, muitos livros.
Cheguei a ter um radiozito, de pilhas, pendurado numa pernada, para me acompanhar nas leituras, ou no simples lazer e desfrute da natureza, tão pródiga, ali, naqueles tempos.
Aprendi a conhecer o canto dos pássaros, adivinhar os voos dos melros, o bulício das felosas, nas balças das represas, o trinado dos rouxinóis, escondidos nos vimeiros da horta de baixo e cheguei a sentir as toupeiras que naquela sombra sempre humedecida, dali se aproximavam, por baixo dos camalhões, caçando os vermes de que se sustentavam.
À medida que a canícula apertava, mais fresca era a sombra do limoeiro e a água do tanque de cima continuava sempre bem temperada, naturalmente fresca e saborosa. Bebia duas ou três canecas, de folhas de couve, por dia, e via chegar e partir muitos visitantes que desciam do caminho, para ali se irem dessedentar.
Pegavam no caneco da resina, que estava sempre por ali, agitavam a superfície da represa, para afastar as impurezas, enxaguavam a vasilha e serviam-se à vontade.
Quase todos davam a salvação, à chegada, e deixavam uma despedida, à abalada.
Ajudavam-me a passar o tempo e, às vezes, alimentavam uma prosa que sempre gostei muito de ter com aquela gente simples, lá da Serra, ou com alguns forasteiros que também ali saciavam a sede e, às vezes, aproveitavam para levar uma laranjita, um cacho de uvas, dois ou três figos, ou até um limão para chupar, quando não viam ninguém, por perto.
Debaixo daquele limoeiro tive horas de conversa com o meu pai; ouvi muitas histórias do Ti’João do Cerro, nas suas horas de sesta, quando ali trabalhava numa das três minas que abriu na nossa propriedade. Falei com muitas outras pessoas que nem cheguei a saber quem eram, mas que me referenciavam, perfeitamente, como o filho do Ti’Amorim, ou o neto do Ti’ José Lourinho, que andava a estudar, coisa que, ao tempo, era raro, por aquelas terras.
As mais gratas recordações eram as conversas com meu pai, às vezes acompanhado pelo meu avô, quando subiam das hortas da borda da ribeira, para o jantar.
Ali se tratavam muitas coisas da família – desde os meus dez, ou doze anos, passei a ser consultado, regularmente, quando alguma decisão de família, se aproximava –.
Os estudos dos meus irmãos, os preços da resina, as contas do que havia a receber pelas bicas, o cálculo dos juros de alguns pequenos empréstimos, outros assuntos referentes a sementeiras, surribas, tratamento de culturas. Ceifas, malhas, matança dos porcos…
Sentia-me muito orgulhoso da confiança que sempre em mim depositaram e, muitas vezes me interroguei por que me era outorgado aquele estatuto de liderança.
Durante toda a minha vida sempre me senti em frente duma escada, medindo bem os degraus e acumulando força para subi-los, a pulso, paulatina mas seguramente, aproveitando todos os espaços livres para colocar o meu pé… até chegar ao topo, de onde nunca desviei o olhar.
E, graças a eles e a mim, estive na liderança, ou perto dela, na maior parte das situações da minha vida.
A todos os que me foram mais chegados, ou comigo trabalharam, sempre motivei para olharem para cima, com empenho, vontade, lealdade e dedicação: Dizia eu, nas inúmeras sessões de formação que dirigi e orientei, que sempre procuramos quem queira subir acima do degrau onde tem os pés.
Numa dessas voltas da vida, um dia, o fogo passou por lá.
Nessa altura, ainda que muito abandonado e maltratado, já o limoeiro dos brejos e eu andávamos afastados.
Porém, ao chegar junto dele, ou do que dele restava, vi que nem todas as folhas sucumbiram às chamas e, ainda pendiam alguns limões, esperando que eu os fosse ver.
Pela minha parte, acabou, não quero voltar ao pé dele, embora tenha sido um fiel seguidor dos seus ensinamentos e me tenha aproveitado, toda a vida, dos ensinamentos que caldeei na sua sombra.
Mas tenho o meu orgulho e não quero chorar lágrimas por um limoeiro!...
segunda-feira, 2 de março de 2009
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A mina do Souto
Garantiam as vozes mais acreditadas que na mina do Souto, depois das hortas do Passeiro, a dois passos da cerejeira grande, não longe do caminho que da Serra se dirige até à Lameira, estava sentado um homem que, imóvel, fumava uma cigarrada, todas as tardes, antes do pôr do sol.
Homem de idade avançada, com a cabeleira farta e branca, os olhos encovados e o olhar fixo na boca da mina, permanece imóvel, se bem que abra e feche os olhos, de vez em quando.
A conversa que corria, em surdina, de boca em boca, chegou aos ouvidos do padre João, que, calmamente, se manteve tranquilo, esperando que mais vozes lhe trouxessem a notícia.
Quando lhe pareceu adequado falou e, com toda a serenidade do mundo, explicou os factos, tal qual eles se lhe apresentavam e, aproveitando, pedagogicamente, o incidente. Disse:
Começo por lhes dizer que, acompanhado por vários de entre vós, estive a observar a mina do Souto e a única coisa que adiantei, como aliás já esperava, foi beber uma boa barrigada de água e beneficiar da paz e sossego que, felizmente, reinam no local.
Todavia, deste lugar sagrado, quero tecer alguns comentários, pois está em causa a dignidade e respeito que devemos aos nossos mortos e, em caso algum, podemos tecer acusações e cair em falso testemunho.
Que descansem em paz!...
O Ti´Chico da Ladeira, que ainda conheci e, reconheço, não terá sido um exemplo de virtudes, fez das suas, como toda a gente sabe e alguns sofreram na pele.
Ao longo da estrada da Lameira ele e o seu bando não ajudaram ninguém e prejudicaram muita gente, sem, todavia, atentar contra vidas e molestar fisicamente.
Além de pequenos furtos e acções de amedrontamento, nunca exerceram violência gratuita sobre nenhum dos presentes, ao que julgo saber.
Deus é Pai e, como tal, profundamente tolerante. Nós, mortais, muitas vezes levianamente, acusamos esta ou aquela alma de sofrer o castigo de Deus e não contentes com o juízo, ditamos a sentença: penar na terra e expiar as faltas cometidas até poder entrar no reino dos céus.
Até, neste caso, condenamos o pobre Chico a estar ali dentro de uma mina.
É bem simples o que se observa na mina e são absolutamente naturais todas as reacções de cada um dos que afirmam ter visto isto, ou aquilo.
Ao fim da tarde, entra mais luz do sol pela boca da mina.
Esta luz, reflectida pela água, como se de um espelho se tratasse, dirige-se para dentro da mina.
A poucos metros de entrada, há várias raízes que na busca de água pendem do tecto e dos lados da mina.
Essas raízes tomam feitios caprichosos e projectam sombras, parecendo verdadeiras formas reais.
Por algumas dessas raízes escorrem fios de água, que ao cabo de muitos anos formam corpos sólidos, esbranquiçados ou avermelhados, permanentemente húmidos.
Quando um raio de sol, reflectido pela água da represa, acerta numa dessas estalactites ou estalagmites – estes são os nomes dessas formas calcárias que se formam –, parecem olhos a brilhar que, de repente, ou porque a água se moveu, ou porque o raio de sol foi interrompido, se apagam.
Nada mais que isto se passa na mina; podem beber descansados e aproveitem para ver com muita atenção tudo o que acabo de lhes descrever.
Mesmo quem nunca estudou estes efeitos dos fenómenos da Natureza pode compreendê-los se usar a inteligência e sobretudo souber ver com atenção o que tem diante dos olhos.
Vamos rezar para que as almas necessitadas, e não apenas a do Ti´Chico, alcancem a graça de Deus e descansem em paz.
Homem de idade avançada, com a cabeleira farta e branca, os olhos encovados e o olhar fixo na boca da mina, permanece imóvel, se bem que abra e feche os olhos, de vez em quando.
A conversa que corria, em surdina, de boca em boca, chegou aos ouvidos do padre João, que, calmamente, se manteve tranquilo, esperando que mais vozes lhe trouxessem a notícia.
Quando lhe pareceu adequado falou e, com toda a serenidade do mundo, explicou os factos, tal qual eles se lhe apresentavam e, aproveitando, pedagogicamente, o incidente. Disse:
Começo por lhes dizer que, acompanhado por vários de entre vós, estive a observar a mina do Souto e a única coisa que adiantei, como aliás já esperava, foi beber uma boa barrigada de água e beneficiar da paz e sossego que, felizmente, reinam no local.
Todavia, deste lugar sagrado, quero tecer alguns comentários, pois está em causa a dignidade e respeito que devemos aos nossos mortos e, em caso algum, podemos tecer acusações e cair em falso testemunho.
Que descansem em paz!...
O Ti´Chico da Ladeira, que ainda conheci e, reconheço, não terá sido um exemplo de virtudes, fez das suas, como toda a gente sabe e alguns sofreram na pele.
Ao longo da estrada da Lameira ele e o seu bando não ajudaram ninguém e prejudicaram muita gente, sem, todavia, atentar contra vidas e molestar fisicamente.
Além de pequenos furtos e acções de amedrontamento, nunca exerceram violência gratuita sobre nenhum dos presentes, ao que julgo saber.
Deus é Pai e, como tal, profundamente tolerante. Nós, mortais, muitas vezes levianamente, acusamos esta ou aquela alma de sofrer o castigo de Deus e não contentes com o juízo, ditamos a sentença: penar na terra e expiar as faltas cometidas até poder entrar no reino dos céus.
Até, neste caso, condenamos o pobre Chico a estar ali dentro de uma mina.
É bem simples o que se observa na mina e são absolutamente naturais todas as reacções de cada um dos que afirmam ter visto isto, ou aquilo.
Ao fim da tarde, entra mais luz do sol pela boca da mina.
Esta luz, reflectida pela água, como se de um espelho se tratasse, dirige-se para dentro da mina.
A poucos metros de entrada, há várias raízes que na busca de água pendem do tecto e dos lados da mina.
Essas raízes tomam feitios caprichosos e projectam sombras, parecendo verdadeiras formas reais.
Por algumas dessas raízes escorrem fios de água, que ao cabo de muitos anos formam corpos sólidos, esbranquiçados ou avermelhados, permanentemente húmidos.
Quando um raio de sol, reflectido pela água da represa, acerta numa dessas estalactites ou estalagmites – estes são os nomes dessas formas calcárias que se formam –, parecem olhos a brilhar que, de repente, ou porque a água se moveu, ou porque o raio de sol foi interrompido, se apagam.
Nada mais que isto se passa na mina; podem beber descansados e aproveitem para ver com muita atenção tudo o que acabo de lhes descrever.
Mesmo quem nunca estudou estes efeitos dos fenómenos da Natureza pode compreendê-los se usar a inteligência e sobretudo souber ver com atenção o que tem diante dos olhos.
Vamos rezar para que as almas necessitadas, e não apenas a do Ti´Chico, alcancem a graça de Deus e descansem em paz.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
O colégio
As primeiras décadas do século XX deixaram o País num estado de desenvolvimento muito longe do aceitável; não tivemos guerra dentro das nossas fronteiras mas sofremos as incidências dos grandes conflitos mundiais e demorámos demasiado tempo a livrar-nos das sequelas e das chagas sociais deles resultantes.
O nosso concelho, bem no centro de Portugal, era atravessado por duas estradas de macadame, que a certa altura se juntavam numa só, em forma de ípsilon.
Delas irradiavam os caminhos municipais, normalmente de terra batida e com as rodeiras, profundas, das rodas das carroças.
No verão montanhas de poeira e no Inverno charcos e lama, em abundância.
O sistema de ensino público era garantido, até à quarta classe, por escasso número de escolas, complementado com postos escolares que acabavam por cobrir quase todas as aldeias e mesmo lugarejos.
Porém as motivações para estudar eram praticamente nulas.
Nas aldeias raramente se via um automóvel, salvo o do médico, padre ou veterinário e os caminhos impediam, completamente, na época das chuvas, o acesso a muitas localidades.
Passavam as camionetas para retirar a madeira e a resina, mas carro ligeiro, que se aventurasse, era certo e sabido que teria que ser rebocado de algum atoleiro.
As bestas, com cangalhas, alforges ou carroças, eram, na prática, os mais fiáveis e comuns meios de comunicação.
O telefone e a electricidade eram bens raros.
A água corria nas fontes, de bica ou de mergulho e era muito generalizado o recurso aos poços de cada um.
Estas circunstâncias, acrescidas da falta de dinheiro em circulação, facilitavam a filosofia oficial do Governo que defendia a agricultura de subsistência, a instrução básica como suficiente para a generalidade dos homens, já que às mulheres se reservava o papel de mãe de família, sem necessidade de alfabetização, sem direito a voto e sem necessidade de trabalhar fora do lar.
Os trabalhos do campo, uns lugares na tropa, forças de polícia, empregados públicos dos graus inferiores e serventia, quer nas obras públicas, quer nas casas dos senhores, eram o destino de quem tinha padrinhos ou parentes a quem se ofereciam as primícias das colheitas, os cabritos, garrafões de azeite e presuntos.
Mesmo as casas abastadas das aldeias, com as arcas a abarrotar de cereais, as pipas cheias de vinho, as talhas repletas de azeite e de mel, não tinham dinheiro, nem informação, para quebrar a inércia.
Só os mais lúcidos, os que tinham quem os incentivasse, oferecendo-se para receber nas cidades os filhos de algum parente que quisesse seguir estudos, mandavam os filhos estudar.
Estas perspectivas não eram nada animadoras para a juventude dos anos quarenta e cinquenta; os liceus mais próximos ficavam nas sedes de distritos – Santarém, Leiria, Portalegre e Castelo Branco -, as escolas técnicas ainda não tinham aparecido e os poucos colégios eram distantes e caros.
Restava o recurso aos Seminários, quer diocesanos, quer das Ordens Religiosas e não esqueçamos a grande ajuda que deram a muita gente que sem esse recurso, nunca teria acesso à instrução e educação.
Foi nessa altura que apareceram os colégios particulares e com eles a grande democratização do ensino; quase todas as aldeias do concelho mandaram os primeiros estudantes para Mação, Sardoal, Mouriscas e Abrantes, entre outras localidades.
Porém, passados poucos anos, quando essa plêiade de jovens deveria continuar os estudos para níveis superiores, rebentam as guerrilhas nos territórios ultramarinos.
Ora a maioria dos jovens das classes mais baixas não dispunha de meios nem de influências para se safar das comissões no ultramar.
Por norma educados em ambientes conservadores, aderentes aos princípios do respeito pela família, pela hierarquia social e do culto pela Pátria, não fugiram às suas obrigações e pagaram-no bem caro.
Muitos interromperam cursos para não mais os terminar, outros morreram ou ficaram marcados pelas mais diversas deficiências e vidas com um rumo e expectativa social não raro foram orientadas para caminhos diferentes.
Não me parece pertinente a emissão de juízes de valor sobre a vida profissional do homem que veio para a nossa terra e nela fundou o colégio – o Prof. Anastácio Nogueira Lalanda –.
Sou um dos indefectíveis defensores da sua acção, em prol da juventude do meu tempo e relevo, facilmente, alguns métodos e meios que usava, quando os comparo com os benefícios que a sua acção trouxe a centenas de jovens, condenados à nascença a uma condição social anquilosante.
Em seis anos, nunca experimentei o peso físico e psicológico da régua ou das mãos do senhor Lalanda.
Mais tarde, já professor, falei várias vezes com o senhor Lalanda e confesso que são grandes, enormes mesmo, os créditos que lhe atribuo e socialmente notáveis as acções que desenvolveu na ajuda a muita gente.
Para mim, a sua figura destaca-se, claramente, como uma das mais marcantes do nosso concelho, no último século.
Homens desta estirpe, que cultivaram e desenvolveram a nossa matéria-prima mais valiosa –as pessoas –, merecem ter o seu nome perpetuado e a sua figura presente em qualquer lugar destacado do concelho.
O nosso concelho, bem no centro de Portugal, era atravessado por duas estradas de macadame, que a certa altura se juntavam numa só, em forma de ípsilon.
Delas irradiavam os caminhos municipais, normalmente de terra batida e com as rodeiras, profundas, das rodas das carroças.
No verão montanhas de poeira e no Inverno charcos e lama, em abundância.
O sistema de ensino público era garantido, até à quarta classe, por escasso número de escolas, complementado com postos escolares que acabavam por cobrir quase todas as aldeias e mesmo lugarejos.
Porém as motivações para estudar eram praticamente nulas.
Nas aldeias raramente se via um automóvel, salvo o do médico, padre ou veterinário e os caminhos impediam, completamente, na época das chuvas, o acesso a muitas localidades.
Passavam as camionetas para retirar a madeira e a resina, mas carro ligeiro, que se aventurasse, era certo e sabido que teria que ser rebocado de algum atoleiro.
As bestas, com cangalhas, alforges ou carroças, eram, na prática, os mais fiáveis e comuns meios de comunicação.
O telefone e a electricidade eram bens raros.
A água corria nas fontes, de bica ou de mergulho e era muito generalizado o recurso aos poços de cada um.
Estas circunstâncias, acrescidas da falta de dinheiro em circulação, facilitavam a filosofia oficial do Governo que defendia a agricultura de subsistência, a instrução básica como suficiente para a generalidade dos homens, já que às mulheres se reservava o papel de mãe de família, sem necessidade de alfabetização, sem direito a voto e sem necessidade de trabalhar fora do lar.
Os trabalhos do campo, uns lugares na tropa, forças de polícia, empregados públicos dos graus inferiores e serventia, quer nas obras públicas, quer nas casas dos senhores, eram o destino de quem tinha padrinhos ou parentes a quem se ofereciam as primícias das colheitas, os cabritos, garrafões de azeite e presuntos.
Mesmo as casas abastadas das aldeias, com as arcas a abarrotar de cereais, as pipas cheias de vinho, as talhas repletas de azeite e de mel, não tinham dinheiro, nem informação, para quebrar a inércia.
Só os mais lúcidos, os que tinham quem os incentivasse, oferecendo-se para receber nas cidades os filhos de algum parente que quisesse seguir estudos, mandavam os filhos estudar.
Estas perspectivas não eram nada animadoras para a juventude dos anos quarenta e cinquenta; os liceus mais próximos ficavam nas sedes de distritos – Santarém, Leiria, Portalegre e Castelo Branco -, as escolas técnicas ainda não tinham aparecido e os poucos colégios eram distantes e caros.
Restava o recurso aos Seminários, quer diocesanos, quer das Ordens Religiosas e não esqueçamos a grande ajuda que deram a muita gente que sem esse recurso, nunca teria acesso à instrução e educação.
Foi nessa altura que apareceram os colégios particulares e com eles a grande democratização do ensino; quase todas as aldeias do concelho mandaram os primeiros estudantes para Mação, Sardoal, Mouriscas e Abrantes, entre outras localidades.
Porém, passados poucos anos, quando essa plêiade de jovens deveria continuar os estudos para níveis superiores, rebentam as guerrilhas nos territórios ultramarinos.
Ora a maioria dos jovens das classes mais baixas não dispunha de meios nem de influências para se safar das comissões no ultramar.
Por norma educados em ambientes conservadores, aderentes aos princípios do respeito pela família, pela hierarquia social e do culto pela Pátria, não fugiram às suas obrigações e pagaram-no bem caro.
Muitos interromperam cursos para não mais os terminar, outros morreram ou ficaram marcados pelas mais diversas deficiências e vidas com um rumo e expectativa social não raro foram orientadas para caminhos diferentes.
Não me parece pertinente a emissão de juízes de valor sobre a vida profissional do homem que veio para a nossa terra e nela fundou o colégio – o Prof. Anastácio Nogueira Lalanda –.
Sou um dos indefectíveis defensores da sua acção, em prol da juventude do meu tempo e relevo, facilmente, alguns métodos e meios que usava, quando os comparo com os benefícios que a sua acção trouxe a centenas de jovens, condenados à nascença a uma condição social anquilosante.
Em seis anos, nunca experimentei o peso físico e psicológico da régua ou das mãos do senhor Lalanda.
Mais tarde, já professor, falei várias vezes com o senhor Lalanda e confesso que são grandes, enormes mesmo, os créditos que lhe atribuo e socialmente notáveis as acções que desenvolveu na ajuda a muita gente.
Para mim, a sua figura destaca-se, claramente, como uma das mais marcantes do nosso concelho, no último século.
Homens desta estirpe, que cultivaram e desenvolveram a nossa matéria-prima mais valiosa –as pessoas –, merecem ter o seu nome perpetuado e a sua figura presente em qualquer lugar destacado do concelho.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Escola Primária ti’Amélia
Passava na aldeia, pelos Santos e por alturas da Páscoa.
Chegado ao alto da Portela da Casinha, parava a bicicleta, apeava-se e tocava a buzina, apertando duas ou três vezes a pêra de borracha.
Não tardavam a deitar o nariz de fora das janelas e dos postigos, as mulheres que nos fins de manhã ultimavam os trabalhos na cozinha.
Entre elas, a ti Maria Rosa conhecia aquele toque melhor que ninguém: o ourives era uma das visitas que mais apreciava; conhecia o senhor Emílio desde que, ainda rapazote, vinha, lá de Cantanhede, ao lado do pai, ajudando no negócio.
Antes de dar a volta, embora fazendo-se anunciar, o ourives dirigia-se à taberna e, sobre o balcão, ou numa mesa metálica ali perto, comia, num prato de esmalte, uma lata de atum com rodelas de cebola – muita cebola –, meio pão de quilo e um queijo fresco, acompanhados de uma “sagres”.
Dali, aproveitando a hora de comer e depois, durante a sesta, passava em casa dos clientes, de que uma das principais era a ti Maria Rosa que nunca tivera filhos mas um rancho de afilhados, que gostava de obsequiar com medalhinhas, crucifixos, fios e brincos, de ouro e prata.
Para isso, comprava, nas duas passagens do ourives, uma ou duas dúzias de peças.
Como dizia a boa mulher: há sempre um baptizado, uns anos, um crisma ou um casamento e é preciso ter qualquer coisa preparada.
Muitas vezes era também solicitado para avaliar algumas peças; apenas, como dizia a ti Maria Rosa, por gostar de saber o que tinha em casa.
Pacientemente, o senhor Emílio ia correspondendo aos desejos da freguesa, sabendo que se tratava de concorrência, uma vez que havia ali caso de penhor, ou empréstimo, com garantia em ouro, de alguém mais necessitado – era a prestamista da terra –.
Dizia depois o protegido de santo Eloi: temos de ter muito cuidado; mandam avaliar a mesma peça a dois ou três ourives, perguntam a pureza do ouro, qual o preço do grama, se damos algum valor ao feitio, etc.
São pessoas que precisam de ter confiança em nós antes de comprarem.
Falámos algumas vezes com este homem de mala de lata – cheia de placas forradas com veludo, onde estavam fixados os objectos que vendia – fechada com cadeado, cuja chave, presa por corrente de prata, guardava no bolso das calças.
Numa dessas conversas veio à baila o caso da ti'Amélia, uma velhota que vivia num tugúrio, no termo de Mouriscas, sempre só, desde que morreram os pais e um irmão, ceifado pela pneumónica, antes de adulto.
A ti'Amélia, sempre andrajosamente vestida, vivia isolada do resto do mundo, tratando duas hortitas ao redor da choupana onde vivia.
Ausentava-se apenas para ir esmolar nas aldeias mais próximas e vendia os ovos das galinhas, alguma criação e uns cestos de maçãs.
A única coisa que comprava, que se soubesse, era uma ou outra peça de ouro, costume que herdara dos pais, cujo modo de vida fora bastante semelhante ao dela.
Quando saía de casa ia descontraída, não revelando qualquer receio de que lhe assaltassem a morada.
Era o melhor dos disfarces, dando a entender que o que tinha – e todos sabiam que devia ter – não estaria ali, no meio daquela miséria.
Um dia, certamente por falta de alimentação, adoeceu, de nada valendo os remédios que o médico lhe receitou, pois nunca chegou a comprá-los. Em poucos dias morreu.
Não houve grande consternação, nem apareceu ninguém a quem se pudesse assacar as despesas, sendo a Junta de Freguesia, na pessoa do Regedor, que se encarregou das exéquias e do enterro.
Apareceram uns parentes que apenas se encarregaram de revolver o local, em busca de qualquer coisa.
Nada foi encontrado, para além de uma pequena caixa redonda, de lata, com duas pequenas medalhas e um fiozito, sem grande valor.
Uns bons meses depois, o Regedor – ti Chico Alberto – aproveitando a passagem do ourives pela terra, mandou-o chamar a casa, para ter com ele um particular.
Convidou-o a entrar, ofereceu-lhe um cálice de vinho abafado e foi direito ao assunto: O senhor e antes de si seu pai, visitaram muitas vezes a cabana onde morava a velhota Amélia, lá para os lados da ribeira.
Depois da sua morte, nada se descobriu sobre o mistério do paradeiro do ouro que ela ia comprando e que, ao que se saiba, não dava a ninguém.
Deixe-me esclarecer que o que for encontrado, se alguma coisa for encontrada, reverterá a favor da Junta de Freguesia – uma vez que se há alguém com direitos, devia ter aparecido para o enterro –.
Convidado a ajudar, o ourives acompanhou o Regedor até ao local onde várias vezes se tinha encontrado com a velhota e feito alguns negócios.
Parecia que tinha havido ali um trabalho de escavações e pesquisas arqueológicas; estava tudo revolvido.
Todavia o ourives foi dizendo que a velhota vinha da cozinha, ou ia para lá, quando fazia negócios com ele, quer se tratasse de ir buscar dinheiro, quer fosse guardar o que acabara de comprar.
Pois vamos ver que diabo podemos encontrar lá, senhor Emílio. E foram até junto do local onde se fazia a fogueira e se guardava a lenha.
Olharam para todos os lados, bateram em todas as paredes que ainda restavam de pé e, nada....
Casualmente, junto de uns restos de cinza, ao bater numa das lajes, o ti Chico sentiu sinal de oco e voltou a insistir, chamando a atenção do ourives, que se baixou para ouvir.
Afastada a lenha, o Regedor passou os dedos ao redor da pedra e sentiu, num dos lados de trás, uma ranhura, onde conseguiu meter a mão.
Como que por encanto, a laje arredou-se e, por baixo, num buraco de mais de dois palmos de fundo, estava qualquer coisa envolvida num pano sujo.
O Regedor agarrou o achado e tirou-o para fora do buraco.
Ao abrir o pano, deparou-se com uma caixa rectangular, de lata, com mais de um palmo de lado. Abriu-a e nem queria acreditar no que os seus olhos contemplavam.
Olhou para o ourives e... atónitos, nem acreditavam no que estavam a ver: centenas de objectos de ouro e prata, alguns deles muito antigos.
Meteram tudo numa bolsa de trapos e foram à taberna pesar o achado – o ourives não tinha balança para tão grande quantidade –: sete quilos e trezentos gramas.
O ourives, fez as contas de cabeça e disse para o Regedor: uma pequena fortuna, senhor Francisco; aí uns duzentos e cinquenta contos – o grama era a trinta escudos –.
Durante três dias o senhor Emílio foi hóspede do Regedor, passando o tempo a analisar e descrever todos os objectos e avaliando-os.
No final, disse: há aqui peças de muito valor; se bem que o que conta é o peso do ouro; há peças com mais de cento e cinquenta anos, o que quer dizer que a “colecção” é obra de várias gerações; eu, até hoje, nunca vi nada igual, ou sequer parecido.
Terá de consultar uma casa especializada, para avaliar tudo isto; se quiser indico-lhe duas, ou três, dessas casas – antiquários do Porto, ou fabricantes de Gondomar –.
Com o produto da venda do espólio da ti Amélia, que rendeu duzentos e oitenta contos, o Regedor gratificou, generosamente o ourives, e fundou uma Associação de Melhoramentos, na Freguesia, cujas primeiras obras foram: construção da escola primária, arranjo exterior e interior da igreja, obras na casa paroquial, compra de paramentos e imagens para a igreja, arranjos de diversos caminhos, das fontes da Terra e comparticipação na ligação da rede de electricidade.
Nas ruínas da velha escola, hoje cobertas de mato e silvas, ainda se pode ler, numa das pedras da portada: Escola Primária ti’Amélia.
Chegado ao alto da Portela da Casinha, parava a bicicleta, apeava-se e tocava a buzina, apertando duas ou três vezes a pêra de borracha.
Não tardavam a deitar o nariz de fora das janelas e dos postigos, as mulheres que nos fins de manhã ultimavam os trabalhos na cozinha.
Entre elas, a ti Maria Rosa conhecia aquele toque melhor que ninguém: o ourives era uma das visitas que mais apreciava; conhecia o senhor Emílio desde que, ainda rapazote, vinha, lá de Cantanhede, ao lado do pai, ajudando no negócio.
Antes de dar a volta, embora fazendo-se anunciar, o ourives dirigia-se à taberna e, sobre o balcão, ou numa mesa metálica ali perto, comia, num prato de esmalte, uma lata de atum com rodelas de cebola – muita cebola –, meio pão de quilo e um queijo fresco, acompanhados de uma “sagres”.
Dali, aproveitando a hora de comer e depois, durante a sesta, passava em casa dos clientes, de que uma das principais era a ti Maria Rosa que nunca tivera filhos mas um rancho de afilhados, que gostava de obsequiar com medalhinhas, crucifixos, fios e brincos, de ouro e prata.
Para isso, comprava, nas duas passagens do ourives, uma ou duas dúzias de peças.
Como dizia a boa mulher: há sempre um baptizado, uns anos, um crisma ou um casamento e é preciso ter qualquer coisa preparada.
Muitas vezes era também solicitado para avaliar algumas peças; apenas, como dizia a ti Maria Rosa, por gostar de saber o que tinha em casa.
Pacientemente, o senhor Emílio ia correspondendo aos desejos da freguesa, sabendo que se tratava de concorrência, uma vez que havia ali caso de penhor, ou empréstimo, com garantia em ouro, de alguém mais necessitado – era a prestamista da terra –.
Dizia depois o protegido de santo Eloi: temos de ter muito cuidado; mandam avaliar a mesma peça a dois ou três ourives, perguntam a pureza do ouro, qual o preço do grama, se damos algum valor ao feitio, etc.
São pessoas que precisam de ter confiança em nós antes de comprarem.
Falámos algumas vezes com este homem de mala de lata – cheia de placas forradas com veludo, onde estavam fixados os objectos que vendia – fechada com cadeado, cuja chave, presa por corrente de prata, guardava no bolso das calças.
Numa dessas conversas veio à baila o caso da ti'Amélia, uma velhota que vivia num tugúrio, no termo de Mouriscas, sempre só, desde que morreram os pais e um irmão, ceifado pela pneumónica, antes de adulto.
A ti'Amélia, sempre andrajosamente vestida, vivia isolada do resto do mundo, tratando duas hortitas ao redor da choupana onde vivia.
Ausentava-se apenas para ir esmolar nas aldeias mais próximas e vendia os ovos das galinhas, alguma criação e uns cestos de maçãs.
A única coisa que comprava, que se soubesse, era uma ou outra peça de ouro, costume que herdara dos pais, cujo modo de vida fora bastante semelhante ao dela.
Quando saía de casa ia descontraída, não revelando qualquer receio de que lhe assaltassem a morada.
Era o melhor dos disfarces, dando a entender que o que tinha – e todos sabiam que devia ter – não estaria ali, no meio daquela miséria.
Um dia, certamente por falta de alimentação, adoeceu, de nada valendo os remédios que o médico lhe receitou, pois nunca chegou a comprá-los. Em poucos dias morreu.
Não houve grande consternação, nem apareceu ninguém a quem se pudesse assacar as despesas, sendo a Junta de Freguesia, na pessoa do Regedor, que se encarregou das exéquias e do enterro.
Apareceram uns parentes que apenas se encarregaram de revolver o local, em busca de qualquer coisa.
Nada foi encontrado, para além de uma pequena caixa redonda, de lata, com duas pequenas medalhas e um fiozito, sem grande valor.
Uns bons meses depois, o Regedor – ti Chico Alberto – aproveitando a passagem do ourives pela terra, mandou-o chamar a casa, para ter com ele um particular.
Convidou-o a entrar, ofereceu-lhe um cálice de vinho abafado e foi direito ao assunto: O senhor e antes de si seu pai, visitaram muitas vezes a cabana onde morava a velhota Amélia, lá para os lados da ribeira.
Depois da sua morte, nada se descobriu sobre o mistério do paradeiro do ouro que ela ia comprando e que, ao que se saiba, não dava a ninguém.
Deixe-me esclarecer que o que for encontrado, se alguma coisa for encontrada, reverterá a favor da Junta de Freguesia – uma vez que se há alguém com direitos, devia ter aparecido para o enterro –.
Convidado a ajudar, o ourives acompanhou o Regedor até ao local onde várias vezes se tinha encontrado com a velhota e feito alguns negócios.
Parecia que tinha havido ali um trabalho de escavações e pesquisas arqueológicas; estava tudo revolvido.
Todavia o ourives foi dizendo que a velhota vinha da cozinha, ou ia para lá, quando fazia negócios com ele, quer se tratasse de ir buscar dinheiro, quer fosse guardar o que acabara de comprar.
Pois vamos ver que diabo podemos encontrar lá, senhor Emílio. E foram até junto do local onde se fazia a fogueira e se guardava a lenha.
Olharam para todos os lados, bateram em todas as paredes que ainda restavam de pé e, nada....
Casualmente, junto de uns restos de cinza, ao bater numa das lajes, o ti Chico sentiu sinal de oco e voltou a insistir, chamando a atenção do ourives, que se baixou para ouvir.
Afastada a lenha, o Regedor passou os dedos ao redor da pedra e sentiu, num dos lados de trás, uma ranhura, onde conseguiu meter a mão.
Como que por encanto, a laje arredou-se e, por baixo, num buraco de mais de dois palmos de fundo, estava qualquer coisa envolvida num pano sujo.
O Regedor agarrou o achado e tirou-o para fora do buraco.
Ao abrir o pano, deparou-se com uma caixa rectangular, de lata, com mais de um palmo de lado. Abriu-a e nem queria acreditar no que os seus olhos contemplavam.
Olhou para o ourives e... atónitos, nem acreditavam no que estavam a ver: centenas de objectos de ouro e prata, alguns deles muito antigos.
Meteram tudo numa bolsa de trapos e foram à taberna pesar o achado – o ourives não tinha balança para tão grande quantidade –: sete quilos e trezentos gramas.
O ourives, fez as contas de cabeça e disse para o Regedor: uma pequena fortuna, senhor Francisco; aí uns duzentos e cinquenta contos – o grama era a trinta escudos –.
Durante três dias o senhor Emílio foi hóspede do Regedor, passando o tempo a analisar e descrever todos os objectos e avaliando-os.
No final, disse: há aqui peças de muito valor; se bem que o que conta é o peso do ouro; há peças com mais de cento e cinquenta anos, o que quer dizer que a “colecção” é obra de várias gerações; eu, até hoje, nunca vi nada igual, ou sequer parecido.
Terá de consultar uma casa especializada, para avaliar tudo isto; se quiser indico-lhe duas, ou três, dessas casas – antiquários do Porto, ou fabricantes de Gondomar –.
Com o produto da venda do espólio da ti Amélia, que rendeu duzentos e oitenta contos, o Regedor gratificou, generosamente o ourives, e fundou uma Associação de Melhoramentos, na Freguesia, cujas primeiras obras foram: construção da escola primária, arranjo exterior e interior da igreja, obras na casa paroquial, compra de paramentos e imagens para a igreja, arranjos de diversos caminhos, das fontes da Terra e comparticipação na ligação da rede de electricidade.
Nas ruínas da velha escola, hoje cobertas de mato e silvas, ainda se pode ler, numa das pedras da portada: Escola Primária ti’Amélia.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
O “Courela”
A dor no braço ainda não o apoquentara, naquele ano.
A ciática não o castigava muito, a pontos de ainda não ter perdido um dia de trabalho desde o último Inverno.
As ovelhitas e a cabra tinham tomado barriga e dado boas crias.
Não podia queixar-se o Hermínio da Silva – vulgo Armindo Courela –, quando meditava na vida, baixado na latrina, atrás da pocilga do porco, no quintalzito de pouco mais de cem metros quadrados, lá ao fundo da nossa tapada, onde se dirigia todas as manhãs, logo que se levantava, depois de enrolar um paivante e dar as primeiras fumaças do dia.
Dali subiria a casa, meteria qualquer coisa na boca e dois dedais de aguardente, antes de enrolar mais um cigarro.
Pegaria no enxadão ou na picareta, na saca com a bolsita do farnel e tomaria o rumo do poço ou da surriba, onde na altura, dava os dias.
O Ti ´´Armindo Courela``, assim conhecido porque o seu verdadeiro nome era invulgar e a alcunha o identificava com um avô conhecido por esse nome, era homem de fraca estatura física, mas rijo no trabalho.
Não ficava atrás dos corpulentos camaradas com quem muitas vezes emparelhava e gabava-se de ninguém lhe pôr o pé adiante, a podar uma árvore, a plantar uma vinha, ou a orientar um tiro, no fundo de um poço.
Lá em casa, era um dos jornaleiros preferidos, ainda que, na opinião do meu avô, acigarrasse demais, acendendo uns cigarros com os outros e fosse mais cego por aguardente que o Diabo por almas.
Depois, era homem que se podia deixar sozinho; tanto trabalhava ao lado do patrão como longe dele.
Desde que, ainda garoto, fez as ceifas, no Alentejo e Espanha, andou nas “alimpas” dos laranjais de Setúbal, nas podas das vinhas do Ribatejo e dos olivais do Pouchão, fez de tudo e tinha já mais de cem poços abertos na aldeia e povoações vizinhas.
Das andanças por esse mundo além, contava histórias sem fim, normalmente romanceadas e sempre com o seu quê de interesse e espírito construtivo; defendia a honra e a dignidade acima de tudo e, como dizia bastas vezes, todas as profissões são importantes e dignas e honram quem as desempenha bem.
Porém, não se cansava de repetir, uma das suas histórias: a daquele grupo de gajos que, numa noite fria de Inverno, nos olivais do casal do Pouchão, onde o frio parece cortar a pele das orelhas e do nariz, o mandou pegar num saco grande – o maior que encontrasse no rancho – e os acompanhasse na caça aos gambozinos que, naquela noite sem luar, deviam andar saídos.
O trabalho dele não era complicado: abria a boca do saco o mais que pudesse, num cruzamento de carreiros e esperava que os gambozinos, que os outros iam bater, para lá se dirigissem e entrassem no saco.
Uma condição: não podia fumar ou fazer o mais pequeno barulho, se não espantava a caça e estragava tudo.
Aguentaria até que eles voltassem para recolher a caça, que depois seria para fazer uma jantarada.
Depois de ter deixado de ouvir os batedores, cada vez mais longe, fez-se silêncio total, apenas cortado pelos noitibós, aves nocturnas e coaxar de rãs, nos charcos próximos.
De vez em quando, espreitava para dentro do saco e só via escuridão; tomava o peso ao saco e parecia-lhe vazio, mas… havia que esperar.
Até que, umas horas depois, com o sol já a anunciar-se na aurora, vieram os farsolas, embrulhados em mantas, depois de um sono bem dormido, buscar caçador e caça.
E, com o ar mais inocente deste mundo, lastimaram que não tivesse apanhado nada, porque os gambozinos, naquela noite, tinham ido enganar outro pató ….
A ciática não o castigava muito, a pontos de ainda não ter perdido um dia de trabalho desde o último Inverno.
As ovelhitas e a cabra tinham tomado barriga e dado boas crias.
Não podia queixar-se o Hermínio da Silva – vulgo Armindo Courela –, quando meditava na vida, baixado na latrina, atrás da pocilga do porco, no quintalzito de pouco mais de cem metros quadrados, lá ao fundo da nossa tapada, onde se dirigia todas as manhãs, logo que se levantava, depois de enrolar um paivante e dar as primeiras fumaças do dia.
Dali subiria a casa, meteria qualquer coisa na boca e dois dedais de aguardente, antes de enrolar mais um cigarro.
Pegaria no enxadão ou na picareta, na saca com a bolsita do farnel e tomaria o rumo do poço ou da surriba, onde na altura, dava os dias.
O Ti ´´Armindo Courela``, assim conhecido porque o seu verdadeiro nome era invulgar e a alcunha o identificava com um avô conhecido por esse nome, era homem de fraca estatura física, mas rijo no trabalho.
Não ficava atrás dos corpulentos camaradas com quem muitas vezes emparelhava e gabava-se de ninguém lhe pôr o pé adiante, a podar uma árvore, a plantar uma vinha, ou a orientar um tiro, no fundo de um poço.
Lá em casa, era um dos jornaleiros preferidos, ainda que, na opinião do meu avô, acigarrasse demais, acendendo uns cigarros com os outros e fosse mais cego por aguardente que o Diabo por almas.
Depois, era homem que se podia deixar sozinho; tanto trabalhava ao lado do patrão como longe dele.
Desde que, ainda garoto, fez as ceifas, no Alentejo e Espanha, andou nas “alimpas” dos laranjais de Setúbal, nas podas das vinhas do Ribatejo e dos olivais do Pouchão, fez de tudo e tinha já mais de cem poços abertos na aldeia e povoações vizinhas.
Das andanças por esse mundo além, contava histórias sem fim, normalmente romanceadas e sempre com o seu quê de interesse e espírito construtivo; defendia a honra e a dignidade acima de tudo e, como dizia bastas vezes, todas as profissões são importantes e dignas e honram quem as desempenha bem.
Porém, não se cansava de repetir, uma das suas histórias: a daquele grupo de gajos que, numa noite fria de Inverno, nos olivais do casal do Pouchão, onde o frio parece cortar a pele das orelhas e do nariz, o mandou pegar num saco grande – o maior que encontrasse no rancho – e os acompanhasse na caça aos gambozinos que, naquela noite sem luar, deviam andar saídos.
O trabalho dele não era complicado: abria a boca do saco o mais que pudesse, num cruzamento de carreiros e esperava que os gambozinos, que os outros iam bater, para lá se dirigissem e entrassem no saco.
Uma condição: não podia fumar ou fazer o mais pequeno barulho, se não espantava a caça e estragava tudo.
Aguentaria até que eles voltassem para recolher a caça, que depois seria para fazer uma jantarada.
Depois de ter deixado de ouvir os batedores, cada vez mais longe, fez-se silêncio total, apenas cortado pelos noitibós, aves nocturnas e coaxar de rãs, nos charcos próximos.
De vez em quando, espreitava para dentro do saco e só via escuridão; tomava o peso ao saco e parecia-lhe vazio, mas… havia que esperar.
Até que, umas horas depois, com o sol já a anunciar-se na aurora, vieram os farsolas, embrulhados em mantas, depois de um sono bem dormido, buscar caçador e caça.
E, com o ar mais inocente deste mundo, lastimaram que não tivesse apanhado nada, porque os gambozinos, naquela noite, tinham ido enganar outro pató ….
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
O “minhoto”
Tinha altura abaixo de mediana, cabelos muito pretos e fartos, ombros anormalmente largos e rosto comprido, de que sobressaía o nariz, muito afiado.
Os olhos, muito negros e de expressão mais melancólica que triste, brilhavam por cima de uma barba negra e farta, mal cuidada e confundindo-se com a cabeleira.
O mais notório, todavia, era o tamanho dos pés – grandes e largos, com sinais de há muito não conhecerem calçado e encardidos pela sujidade acumulada –.
Caminhava com passo curto e apressado e não se misturava com os outros pedintes.
Vinha à aldeia todos os meses, visitando todas as casas como esmolante e, com algum laconismo, apelava à caridade alheia.
Terminada a volta, sentava-se na taberna e ia descarregando, da esmoleira para cima da balança, os nacos de pão, as batatas e cebolas, uma ou outra peça de fruta e uns pedaços de toucinho.
O azeite era pago à parte e, se aparecia algum enchido, diferente de farinheira, era retirado do conjunto da venda.
O Ti Manel, taberneiro e merceeiro, pagava tudo ao mesmo preço: quase sem olhar para a balança, abria a gaveta do dinheiro e retirava duas ou três moedas, que dariam para duas ou três “metades” de vinho. E ia logo enchendo o primeiro copo que, ainda antes de ser lavado, havia de servir para a segunda e terceira doses.
Aí pelas duas horas, havia sempre uma ou outra alma caridosa que vinha trazer a melhor esmola: uma malga de caldo quente.
Depois disso “o minhoto” falava, ralhava consigo próprio, interrogava-se e acabava por cair em sonolência, até que, pouco depois do pôr-do-sol, se recolhia à “malhada”.
No outro dia, ao romper do sol, já andava a dar a volta noutra aldeia.
Dizia-se, desta personagem enigmática, que tinha sido homem de letras, transtornado por algo, muitos anos antes.
Teria à volta de sessenta anos – para mais – e, quando sóbrio, o que era raro, ainda acertava no que dizia e discorria, com os estudantes da terra, sobre Geografia, História e Ciências; deixava escapar conhecimentos de francês, espanhol e inglês, até que...
Calava-se, de repente, quando se apercebia que estava a falar de mais.
Corriam mais de uma dúzia de histórias sobre a “biografia do minhoto”: que era casado e tinha filhos; que a mulher o tentara envenenar e expulsara de casa; que uma fraqueza das ideias o fizera “variar” e abandonar tudo; que era senhor de meios de fortuna, mas preferia a vida de ermitão e pedinte; etc., etc., etc.
A verdade, porém, é que ninguém ousava interpelá-lo, sobre a sua identidade ou vida.
Se era apanhado pela guarda, fazia-se de parvo e apoucado e, ainda antes que conspurcasse e infestasse os calabouços, era posto em liberdade.
Quando não reagia violentamente a uma ou outra pergunta, respondia: sou o minhoto, não tenho terra, nem família, nem sei mais nada a meu respeito... ponto final!...
Um dia, já com mais copos que o normal, outro mendigo ameaçou-o de dizer tudo a respeito dele.
Conheço-te, bem sabes, a ti e a tua família; não és do Minho...
Não disse mais nada, pois uma paulada bem assente, imobilizou e calou de vez o atrevido pedinte, que, a tremer de medo, se escapuliu, sem um simples ai.
Presente ao cabo-de-ordens da aldeia, o minhoto, manso como um cordeiro, entregou o cajado e aguardou.
Depois de passar o raspanete do costume, o ti Manel Mendes, mandou “o minhoto” em paz e avisou que não se metessem com ele, pois em mais de vinte ou trinta anos que passava pela aldeia, nunca provocou desacatos.
Daí em diante, todos os que tentassem, ou simplesmente ameaçassem, identificá-lo, eram avisados que não deveriam fazê-lo, uma vez que, a partir daí, tudo poderia acontecer-lhes... ponto final!....Não gostava que falassem da vida dele.
Correram os anos e “o minhoto” foi passando, tal como tantos outros mendigos, pela aldeia. Um dia, porém, chegou a notícia:
O “pobre”, a que sempre chamaram “o minhoto”, morreu, lá para os lados do Codes. O nome verdadeiro – José de Sousa – foi encontrado entre os trastes que guardava no sarrão das esmolas.
Foi professor e viveu bem, numa aldeia dos contrafortes da Serra da Estrela. Esteve emigrado, na Europa e ganhou muito dinheiro na candonga e no volfrâmio.
Foi atraiçoado pela mulher, conluiada com um sócio dele, acabando os dois por desaparecer, misteriosamente.
Trabalhou nas minas da Panasqueira, tendo desaparecido após uma pequena derrocada numa das galerias.
Não mais foi referenciado e, não se sabe bem porquê, não consta que tivesse sido procurado.
Serão dignos de crédito estes elementos referentes “ao minhoto”, ou continuarão a ser peças de uma existência obscura, que nunca conheceremos e que o próprio guardou, até ao fim dos seus dias?
Os olhos, muito negros e de expressão mais melancólica que triste, brilhavam por cima de uma barba negra e farta, mal cuidada e confundindo-se com a cabeleira.
O mais notório, todavia, era o tamanho dos pés – grandes e largos, com sinais de há muito não conhecerem calçado e encardidos pela sujidade acumulada –.
Caminhava com passo curto e apressado e não se misturava com os outros pedintes.
Vinha à aldeia todos os meses, visitando todas as casas como esmolante e, com algum laconismo, apelava à caridade alheia.
Terminada a volta, sentava-se na taberna e ia descarregando, da esmoleira para cima da balança, os nacos de pão, as batatas e cebolas, uma ou outra peça de fruta e uns pedaços de toucinho.
O azeite era pago à parte e, se aparecia algum enchido, diferente de farinheira, era retirado do conjunto da venda.
O Ti Manel, taberneiro e merceeiro, pagava tudo ao mesmo preço: quase sem olhar para a balança, abria a gaveta do dinheiro e retirava duas ou três moedas, que dariam para duas ou três “metades” de vinho. E ia logo enchendo o primeiro copo que, ainda antes de ser lavado, havia de servir para a segunda e terceira doses.
Aí pelas duas horas, havia sempre uma ou outra alma caridosa que vinha trazer a melhor esmola: uma malga de caldo quente.
Depois disso “o minhoto” falava, ralhava consigo próprio, interrogava-se e acabava por cair em sonolência, até que, pouco depois do pôr-do-sol, se recolhia à “malhada”.
No outro dia, ao romper do sol, já andava a dar a volta noutra aldeia.
Dizia-se, desta personagem enigmática, que tinha sido homem de letras, transtornado por algo, muitos anos antes.
Teria à volta de sessenta anos – para mais – e, quando sóbrio, o que era raro, ainda acertava no que dizia e discorria, com os estudantes da terra, sobre Geografia, História e Ciências; deixava escapar conhecimentos de francês, espanhol e inglês, até que...
Calava-se, de repente, quando se apercebia que estava a falar de mais.
Corriam mais de uma dúzia de histórias sobre a “biografia do minhoto”: que era casado e tinha filhos; que a mulher o tentara envenenar e expulsara de casa; que uma fraqueza das ideias o fizera “variar” e abandonar tudo; que era senhor de meios de fortuna, mas preferia a vida de ermitão e pedinte; etc., etc., etc.
A verdade, porém, é que ninguém ousava interpelá-lo, sobre a sua identidade ou vida.
Se era apanhado pela guarda, fazia-se de parvo e apoucado e, ainda antes que conspurcasse e infestasse os calabouços, era posto em liberdade.
Quando não reagia violentamente a uma ou outra pergunta, respondia: sou o minhoto, não tenho terra, nem família, nem sei mais nada a meu respeito... ponto final!...
Um dia, já com mais copos que o normal, outro mendigo ameaçou-o de dizer tudo a respeito dele.
Conheço-te, bem sabes, a ti e a tua família; não és do Minho...
Não disse mais nada, pois uma paulada bem assente, imobilizou e calou de vez o atrevido pedinte, que, a tremer de medo, se escapuliu, sem um simples ai.
Presente ao cabo-de-ordens da aldeia, o minhoto, manso como um cordeiro, entregou o cajado e aguardou.
Depois de passar o raspanete do costume, o ti Manel Mendes, mandou “o minhoto” em paz e avisou que não se metessem com ele, pois em mais de vinte ou trinta anos que passava pela aldeia, nunca provocou desacatos.
Daí em diante, todos os que tentassem, ou simplesmente ameaçassem, identificá-lo, eram avisados que não deveriam fazê-lo, uma vez que, a partir daí, tudo poderia acontecer-lhes... ponto final!....Não gostava que falassem da vida dele.
Correram os anos e “o minhoto” foi passando, tal como tantos outros mendigos, pela aldeia. Um dia, porém, chegou a notícia:
O “pobre”, a que sempre chamaram “o minhoto”, morreu, lá para os lados do Codes. O nome verdadeiro – José de Sousa – foi encontrado entre os trastes que guardava no sarrão das esmolas.
Foi professor e viveu bem, numa aldeia dos contrafortes da Serra da Estrela. Esteve emigrado, na Europa e ganhou muito dinheiro na candonga e no volfrâmio.
Foi atraiçoado pela mulher, conluiada com um sócio dele, acabando os dois por desaparecer, misteriosamente.
Trabalhou nas minas da Panasqueira, tendo desaparecido após uma pequena derrocada numa das galerias.
Não mais foi referenciado e, não se sabe bem porquê, não consta que tivesse sido procurado.
Serão dignos de crédito estes elementos referentes “ao minhoto”, ou continuarão a ser peças de uma existência obscura, que nunca conheceremos e que o próprio guardou, até ao fim dos seus dias?
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
A comadre Luísa
Os cavacos iam ardendo debaixo da panela de ferro, o gato ronronava ao canto da lareira e a candeia bruxuleava no prego do fumeiro, enquanto o farrusco enroscado junto às brasas, sobre as botas do Ti´Manel, que pendia, com o paivante ao canto da boca e a pobre mulher, passando as contas do rosário, quando na porta da rua a aldrava bateu várias vezes, em tom de aflição e já entrava alguém, de rompante, em direcção à cozinha.
Era a Ti´Ana do Vale, ofegante, que se atirou para cima da tripeça de cortiça e lá conseguiu dizer que era muito importante que fosse já, a Ti´Luísa, pois a sua nora estava há mais de dois dias para parir a criança e acabaria por se esvair em sangue, se não lhe acudisse já.
O Ti´Manel, despertou e, dando um pontapé no cachorro, deparou com aquele aparato todo, sem lhe passar despercebido todo o ar de aflição da comadre Ana do Vale.
Ergueu-se de um salto e berrou, para a mulher que ainda por ali andava, com ar atarantado:
Por que esperas, alma do demo? Corre que não há tempo a perder!...
Com a admiração estampada no rosto, a velhota dirigiu-se à pilheira do canto da lenha, pegou uma pequena maleta que a acompanhava sempre que ia fazer nascer alguém, apressou-se em direcção à porta da rua e, seguida da Ti´Ana, tomou o caminho da Horta Velha, até à casa onde agonizava a Zefa.
Entrou na alcofa onde jazia a parturiente, pediu um alguidar com água quente, um cobertor para agasalhar e aquecer bem a doente e abrindo a maleta tirou um instrumento ainda luzidio, se bem que bastante velho e preparou-se para tirar, rapidamente, a criança.
Menos de meia hora depois, toda a gente podia ver um belo moço, robusto e bem parecido, como o avô, que exuberante o exibia aos parentes e curiosos que entretanto ali se juntaram.
A comadre Luísa, ainda confusa com a atitude do marido, saiu discreta e ansiosa por chegar junto do homem para poder saber qual o motivo por que foi tão solícito a mandá-la socorrer a filha do seu maior inimigo.
O Manel, ainda ao canto da lareira, ergueu os olhos, quando a mulher entrou, e perguntou como tinham corrido as coisas.
A mulher, benzendo-se, deu graças a Deus por tudo ter corrido bem.
Todavia ficou espantada ao ver o homem erguer-se e começar a rezar, com ela, o Pai nosso…
Ele que parecia de pedra e nem sequer podia ouvir falar naquela família, a rezar … Não, não estava em si, pensou a Ti´Luísa.
De súbito, o Ti´Manel encarou a mulher e disse-lhe que não ia muitas vezes à igreja, não andava sempre a bater no peito, mas sabia ver as coisas e, no fim de contas, as zangas entre as famílias não passavam de mal entendidos que, de pais para filhos e netos, iam criando inimizades e falsas zangas que nunca podiam levar a lado nenhum.
Rematou, dizendo que a partir daquele dia podia morrer descansado; já não tinha inimigos.
No domingo seguinte, à saída da missa, o Ti´Manel foi abordado pelo Ti´Zé da Horta Velha, acompanhado da mulher, que lhe estendia os braços e lhe oferecia toda a sua amizade.
Naquele abraço enterraram anos de discórdias e celebraram o nascimento de mais uma criança que, por desejo do avô, se iria chamar Manuel.
Era a Ti´Ana do Vale, ofegante, que se atirou para cima da tripeça de cortiça e lá conseguiu dizer que era muito importante que fosse já, a Ti´Luísa, pois a sua nora estava há mais de dois dias para parir a criança e acabaria por se esvair em sangue, se não lhe acudisse já.
O Ti´Manel, despertou e, dando um pontapé no cachorro, deparou com aquele aparato todo, sem lhe passar despercebido todo o ar de aflição da comadre Ana do Vale.
Ergueu-se de um salto e berrou, para a mulher que ainda por ali andava, com ar atarantado:
Por que esperas, alma do demo? Corre que não há tempo a perder!...
Com a admiração estampada no rosto, a velhota dirigiu-se à pilheira do canto da lenha, pegou uma pequena maleta que a acompanhava sempre que ia fazer nascer alguém, apressou-se em direcção à porta da rua e, seguida da Ti´Ana, tomou o caminho da Horta Velha, até à casa onde agonizava a Zefa.
Entrou na alcofa onde jazia a parturiente, pediu um alguidar com água quente, um cobertor para agasalhar e aquecer bem a doente e abrindo a maleta tirou um instrumento ainda luzidio, se bem que bastante velho e preparou-se para tirar, rapidamente, a criança.
Menos de meia hora depois, toda a gente podia ver um belo moço, robusto e bem parecido, como o avô, que exuberante o exibia aos parentes e curiosos que entretanto ali se juntaram.
A comadre Luísa, ainda confusa com a atitude do marido, saiu discreta e ansiosa por chegar junto do homem para poder saber qual o motivo por que foi tão solícito a mandá-la socorrer a filha do seu maior inimigo.
O Manel, ainda ao canto da lareira, ergueu os olhos, quando a mulher entrou, e perguntou como tinham corrido as coisas.
A mulher, benzendo-se, deu graças a Deus por tudo ter corrido bem.
Todavia ficou espantada ao ver o homem erguer-se e começar a rezar, com ela, o Pai nosso…
Ele que parecia de pedra e nem sequer podia ouvir falar naquela família, a rezar … Não, não estava em si, pensou a Ti´Luísa.
De súbito, o Ti´Manel encarou a mulher e disse-lhe que não ia muitas vezes à igreja, não andava sempre a bater no peito, mas sabia ver as coisas e, no fim de contas, as zangas entre as famílias não passavam de mal entendidos que, de pais para filhos e netos, iam criando inimizades e falsas zangas que nunca podiam levar a lado nenhum.
Rematou, dizendo que a partir daquele dia podia morrer descansado; já não tinha inimigos.
No domingo seguinte, à saída da missa, o Ti´Manel foi abordado pelo Ti´Zé da Horta Velha, acompanhado da mulher, que lhe estendia os braços e lhe oferecia toda a sua amizade.
Naquele abraço enterraram anos de discórdias e celebraram o nascimento de mais uma criança que, por desejo do avô, se iria chamar Manuel.
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