sábado, 25 de outubro de 2014

O pobre da cabaça


Passava todos os meses, com o alforge ao ombro, um pau na mão direita e uma cabaça atada, com um nastro muito surrado, ao cordão que lhe servia de cinto e acertava as calças à cintura, muito subida. 

Não me lembro de vê-lo calçado e as calças, curtas, deixavam os pés, tornozelos e parte das canelas a descoberto. 

A jaqueta, desabotoada, destapava a camisa, bastante mais asseada que a da maioria dos pedintes que transitavam pela terra. 

Juntando este asseio, acima da média dos mendigos, ao cabelo curto e lavado e à barba, semanalmente cortada, estávamos na presença de alguém que destoava no seu meio.

As aldeias mais a poente do concelho de Mação, todo o norte das terras de Alcaravela e o termo de Vila de Rei, até ao Codes, eram percorridos, pelo Ti’Tonho, chamado, nos locais em que esmolava, por pobre da cabaça. 

Era estimado por uns e ignorado por outros; porém o seu modo de pedir esmola não deixava ninguém indiferente. 

Falava mansamente e sabia pôr sentimento no que dizia: invocava, invariavelmente, “as alminhas que lá tem”, “para desconto dos seus e nossos pecados”, e a terminar, um “pai nosso”… 

Com estes processos, repetidos anos a fio, era, de certeza, quem arrecadava as melhores esmolas, não se ficando pelo naco de pão, mão cheia de batatas, bocadito de toucinho, ou peça de fruta e passas de figo; recebia alguns enchidos, umas pingas de azeite, para a cabaça, e alguns cobres – desde um a cinco tostões. 

Comia, todos os dias, almoço, jantar e ceia, das panelas de determinadas casas, junto das malhadas onde pernoitava.

No alforge, estraçalhado sobre o ombro direito, guardava os víveres que ia recebendo. Como não cozinhava, quase tudo o que juntava era reduzido a dinheiro, nas tabernas das terras. 

Ao lado do bornal, numa pequena carteira de pele preta, muito polida, guardava um ou dois livros e uns papéis, que relia regularmente e de cuja leitura nada referia, mau grado os sinais, evidentes, de satisfação.

Corriam histórias, ditas em surdina, de boca em boca, sobre o pobre da cabaça, a sua vida afectiva, suas origens, percurso social e tudo acabava no conteúdo, desconhecido, dos papéis que guardava no bornal. 

Desde professor, caído em desgraça devido à paixão por uma aluna, a juiz expulso por erro grave num julgamento, passando por foragido e refractário ao serviço militar e ex-membro da legião estrangeira, nas guerras de Espanha, tudo era ligado à personagem.

Porém, uma coisa era certa: não havia quem lhe passasse o pé no jogo do pau. Todos os que se lhe tinham oposto acabaram cobertos de bordoadas e não voltaram a desafiá-lo.

Apareceu, um dia, outro pedinte, na taberna do Casal Velho, que, ao encarar o pobre da cabaça, ficou como que fulminado. 

Olharam-se os dois e, contrastando com a calma e serenidade do Ti’Tonho, o desconhecido entrou em transe e tremia, como varas verdes, segundo a expressão de quem assistiu. 

Após alguns momentos em silêncio o pobre da cabaça continuou sereno, fitando o homem que tinha na frente; em contrapartida, o outro pedinte parecia querer dizer qualquer coisa sem poder, sucediam-se-lhe, cada vez com mais frequência, os nós na garganta e as convulsões sacudiam-lhe todo o corpo. 

Pouco tempo depois, caiu de joelhos e ficou prostrado no sobrado da taberna; estava morto.

Disse ainda quem viu, que o pobre da cabaça, sereno, fleumático e calmo, ajoelhou junto do cadáver, fechou-lhe os olhos convulsionados e esbugalhados, levantou os olhos ao céu e, sem dizer palavra, pareceu fazer uma oração fúnebre, findo o que se retirou para a malhada, despedindo-se dos presentes, com as seguintes palavras: a justiça e misericórdia de Deus são implacáveis e insondáveis –  grande Juiz aquele que, para castigar, não precisa pau, nem pedra. E não há modo de fugir-lhe. 

Questionado por populares, autoridades e outros pedintes, o pobre da cabaça não acrescentou nada. 

Apenas se remeteu ao silêncio sobre aquele estranho caso. 

Informou que eram conhecidos, da vida que ambos levavam, e havia muito que se não viam.

Todos afirmaram que ninguém tocou no homem, ou lhe disse qualquer coisa. 

O cadáver, considerado desconhecido, foi mandado enterrar pela Junta de Freguesia, no cemitério de Alcaravela. 

E o mistério… virou lenda.

domingo, 12 de outubro de 2014

O Tonho Rosa


Amante da água, minava-se por chapinhar nas levadas das regas, no Verão, e nas valetas dos caminhos, no tempo das chuvas. 

Sempre descalço, as calças pelo meio da barriga das pernas e amarradas na cintura por um cordel, tapava o tronco com o que restava de uma camisa e por cima farrapos de um velho casaco de serrobeco amarelado. 

Na cabeça, a carapuça de sempre; melhor dizendo, os restos de um barrete preto que apanhou algures e não mais lhe tiraram. 

Era o filho mais novo de uma irmandade de quatro rapazes e três raparigas, e o único com fraqueza de cabeça e poucochinho, como dizia a mãe, quando lhe notava uma grande tristeza no olhar e o via ficar quieto até que o importunassem.

Desde pequeno que manifestou atrasos: custou-lhe a falar e nunca o fez perfeitamente – emitia uns sons, perceptíveis para quem estava habituado, mas indecifráveis para os estranhos –. 

Nunca aprendeu a ler nem escrever, não fazia com a perfeição mínima qualquer trabalho, não dava conta de um recado e seguia sempre à frente, dos pais e irmãos, quando ia para as hortas.

Convivia bem com qualquer animal e afastava-se das pessoas: já tinha apanhado coices de bestas, mordidelas de cães, arranhadelas de gatos, socos e pontapés dos irmãos e de outros garotos e continuava sem medo de nada. 

As feridas cicatrizavam com muita facilidade e, embora deixasse cortar o cabelo, nunca ninguém foi capaz de lhe cortar as unhas das mãos, já que as dos pés andavam gastas pelas pedras e serviam de protecção natural.

A muito custo lá o levaram às sortes.

No entanto entrou primeiro que todos os outros e foi logo dispensado; era evidente a sua indisponibilidade para o serviço militar, na opinião do médico que o viu e mandou em paz e isento de taxa militar. 

Era um incapacitado por deficiência mental evidente.

Assim vivia lá na Terra; esperando, sentado na beira das hortas, enquanto irmãos e pais trabalhavam, até que chegasse a hora das refeições. 

Comia sempre com as mãos e era muito amigo de pão e fruta, de toda a espécie, que tanto colhia nas árvores das hortas da família, como nas que estivessem mais à mão. Gostava de queijo e mamava nas cabras, à mistura com os cabritos.

Tinha boa saúde, se bem que fraca compleição física. 

Aí pelos treze ou catorze anos notaram-lhe as primeiras perturbações que a mãe chamava “acidentes”

Entrava em transe, esbugalhava os olhos, espumava pela boca, rangia os dentes e contorcia-se espojado no chão. 

Sinais evidentes de epilepsia, que o acompanhou por toda a vida. 

Quando lhe davam os “acidentes”, era esperar que passassem, deixá-lo tranquilizar e descansar. 

Nada mais, como dizia a mãe, conformada com a desgraça. Quando recuperava, dava sinais de muito cansaço e adormecia.

Houve uma altura em que deram pela falta do Tonho; teria ele à volta de vinte e cinco anos. 

Procuraram por todos os recantos em volta da aldeia e nem sinais do moço. 

Chegaram mesmo a procurar em poços e nos pegos da ribeira, dada a atracção que ele sentia pela água. 

Ao fim de uma semana, foram participar o desaparecimento na Guarda Republicana do concelho, mas nem uma fotografia havia e os sinais comunicados eram comuns a muitos pedintes que ao tempo enxameavam pelas aldeias. 

Um mês passado e nem sinais de morte, ou vida, do rapaz. Num raio de muitos quilómetros todas as Terras fizeram buscas, em vão.

Quase três meses passados, sobre a madrugada, o pai do Tonho saiu à tapada para as necessidades e, encontra o moço sentado nas guardas da eira. 

Estava acordado, com a cabeça entre as mãos e olhando para o pai, cheio de medo, esperando a sova que pensava lhe iria cair em cima. 

Metia dó ver aquele homem feito, tal e qual um animalzinho indefeso, à espera de um pontapé, dizia, comovido até às lágrimas, o Ti Adriano Marques, que acrescentava: 

Chamei-o, encostei-o a mim, acarinhei-o e perguntei-lhe: onde te meteste, Tonho? Tens fome? Anda, vai para o palheiro dormir, que amanhã dizes-me tudo, está bem? 

Nunca mais vou esquecer a cara do rapaz, como um menino, quando percebeu que lhe dava carinho e não porrada, acrescentava o pobre pai.

A todas as perguntas encolheu os ombros e parecia não perceber o que lhe perguntavam, porque não mostrava lembrar-se de nada. 

Estive a dormir lá na pedra do meio dos pinheiros; não fiz mal a ninguém, não vi ninguém e andei por muito longe, dentro de uma camioneta de pinheiros. E mais não disse.

Passados muitos meses, um dia no largo da taberna, apareceu um pedinte, nunca antes visto por ali e que tinha acabado de dar a volta ao povo. 

Interrogado, por uns homens que ali estavam, sobre a sua proveniência, porque nunca por ali tinha aparecido e outros assuntos de circunstância, acabaram bebendo um copo e em conversa fiada. 

Nisto…

Chega à porta da taberna o Tonho Rosa e mal fitou o pedinte, desatou numa corrida, só parando lá em casa, escondido no palheiro onde sempre dormia.

O esmolante parecia ter visto um fantasma; fechou os olhos, abanou a cabeça, como que procurando acordar dum sonho e perguntou: conhecem aquele homem que aqui esteve há momentos? É que andou comigo e mais uns colegas meus, lá pela Isna, nas terras de Oleiros e encostas do Moradal.

Nunca pediu, acompanhava-nos, como que maravilhado, e ia comendo o que lhe dávamos. Ele tem uns ataques de vez em quando, não tem? 

Só sei que disse que se chama Tonho e que foi posto fora de casa pelos pais. 

Até que um dia, estávamos todos bêbedos, na malhada, adormecemos e, de manhã o Tonho tinha desaparecido, sem levar nada e sem deixar rasto.

Pois não restam dúvidas sobre as suas palavras; o rapaz é filhote daqui, nunca fez mal a ninguém, mas é apoucado e tem “acidentes”, de vez em quando. 

De facto, aqui há meses esteve desaparecido uns tempos e nunca conseguimos saber onde esteve, ou por onde andou. 

Não se importa que mandemos chamar a família, pois vão querer falar consigo, apenas para ficarem a saber o que tem a dizer-lhes? 

Por mim estou às ordens e tenho todo o tempo do mundo para ajudar, se puder ser útil para esclarecer qualquer coisa sobre o rapaz. Tenho muito boa ideia dele.

Veio o Ti’Adriano e acabaram por estar de prosa um bom par de horas. Depois acabou por convidar o pedinte para a ceia e para um encontro com o Tonho, mas teria que primeiro ir preparar as coisas, para o rapaz não desaparecer. 

Que ficasse ali, na taberna, que depois mandaria chamá-lo, quando tudo estivesse preparado.

Lá em casa, o Tonho, cabisbaixo e muito tímido, andava por ali, cheio de medo e, quando viu o pai chegar, percebeu que ele lhe queria falar e foi ter com ele. Cabeça no chão, chegou-se ao pai, como a pedir protecção e ali ficou quieto.

Quando o pai lhe levantou a cabeça e a olhar bem fixo para ele lhe disse que já sabia por onde ele tinha andado, com quem tinha acompanhado e ficou muito contente quando soube que sempre se tinha portado bem, não tinha roubado nada e que quando quis voltar para casa, voltou e pronto. 

Mas os amigos dele ficaram tristes e preocupados quando viram desaparecer o colega e fartaram-se de procurá-lo sem conseguirem encontrá-lo. 

Dizem que sempre te trataram bem; É verdade? E, quando o Tonho acenou com a cabeça que sim, o pai disse-lhe: 

É que aquele pobre que tu viste lá na taberna do Manel é um desses teus colegas, não é? Então porque fugiste? Não queres conversar com ele? Perguntar pelos outros amigos?

O Tonho, mais confiante e percebendo que afinal o pai, não lhe ia bater, sorriu, o que era raro nele, e abanou a cabeça em sinal de aprovação e contentamento.

O pai fez sinal ao irmão mais velho e disse-lhe que fosse à taberna e trouxesse o pedinte que lá estava, mandando adiantar a ceia pois o pobre cearia com eles e, se estivesse de acordo, dormiria no palheiro, ao pé dos rapazes. 

O Tonho ouviu o recado e mais uma vez riu. Estava contente!

Chegou o homem e aproximando-se do Tonho, abraçou-o e disse-lhe: Sabes que a rapaziada tem sentido muito a tua falta, lá por cima. Eu, achei que queria conhecer outras terras e estendi-me até aqui. Não estou arrependido; há aqui gente muito boa e amiga dos pobres. E a melhor surpresa: encontrei um amigo, não é verdade?!...

O Tonho ia olhando para ele, baixando os olhos, voltando a olhar e parecia estar até a gostar. Mas quando o pedinte lhe perguntou porque se tinha ido embora, agitou-se e abanou a cabeça em sinal de desagrado, balbuciando: senti que ia ter um “acidente” e fugi. 

Estive escondido numa buraca lá na serra até passarem os sinais e depois meti-me numa camioneta que estava lá e vim ali para a nossa estrada. 

Ninguém me fez mal; eu gostava muito da malta, mas agora quero ficar aqui e, olhando para o pai, calou-se. 

Ficou cabisbaixo e deixou que os outros continuassem a falar. 

Só se levantou quando viu que o colega estava a comer pouco para se chegar junto dele e fazer gestos para que comesse muito, pois não queria que ficasse com fome.

Ao outro dia o mendigo seguiu o seu caminho e o Tonho continuou no dia-a-dia de todos os dias, acompanhando os pais e irmãos para as hortas. 

O pedinte voltou a passar mais vezes e sempre ceava lá em casa e dormia no palheiro, com os rapazes.

Com o passar dos anos, a doença do Tonho foi-se agravando, os ataques vinham mais amiúde e provocavam mais incómodos, antes e depois de acontecerem. 

Quando os pressentia o Tonho ficava aflito, inquieto e com sinais de ansiedade e sofrimento, até que numa dessas vezes, desatou a fugir e foi-se esconder numa gruta do penedo da ladeira dos brejos. 

Quando foram no seu encalço, eram já abundantes os sinais de sangue na entrada da caverna e, lá dentro, estava deformado e com aspecto de grande sofrimento, depois de lutar contra a morte, o cadáver do Tonho Rosa.

O pedinte dos lados lá de cima, como ficou conhecido na terra, continuou a passar e a cear na casa dos pais do Tonho, indo de seguida dormir no palheiro. 

Porém, nunca saía de ao pé da mesa sem pedir um Padre-nosso, pela alma daquele inocente que, segundo as suas próprias palavras, Deus já Lá tinha….