terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os pinheiros e a vida


Ainda o sol não tinha aparecido sobre o cabeço do moinho, já o Ti Zé Lourinho trazia aberta a água do açude da Ribeira e regava as belgas de batatas, no chão do meio, da Cabeça Gorda. 

Água de partilhas é para abrir logo ao sol-nado, dizia o meu avô.

Se só se tiver meio-dia, também pode calhar ao sol-posto.

Sentiu uma restolhada, ali perto, e assomou-se, do meio da horta, para ver o que se passava. 

Era o Ti’Jorge, encarregado da Firma de madeiras Carvalhos & Aparício, de Alferrarede, que acabava de parar a bicicleta motorizada e se dirigia na direcção do meu avô.

Atravessou o chãozito de cima e deu a salvação, da ponta da parede: Bons dias, Ti’Zé Lourinho! Deus o guarde!

Depois de ouvir a salvação de resposta, o Ti Jorge foi dizendo que já tinha mandado recado e também já o procurara lá na taberna, mas ainda não tinha calhado encontrarem-se. 

Sabe, Ti’Zé Lourinho, é que vamos hoje começar a cortar o pinhal, ali na Travelinha, na do Zé Pardal e, ao lado, na do Augusto Marques. 

É pouca madeira para o que precisamos e pensei que seria boa altura para vender os seus, aqui destas cinco que me parece que estão todas ligadas e pegam com a área que vou cortar. 

Podemos juntar o Lavadouro, cabeço do Vale das Lousinhas, Lomba, Brejinhos e Brejos. O seu pinhal está em bom corte e talvez seja boa altura para vendê-lo.

Era sobre este assunto que queria dar-lhe umas palavritas. Se estiver vendedor e achar que é altura de falarmos. 

Ah! Quando dei parte ao "patrão velho - Sr. Aparício" que vinha procurá-lo, ele desfez-se em cumprimentos para o senhor e mandou dizer que um dia destes vem por cá ver se os seus chouriços ainda são dos melhor apaladados e na sua adega ainda há do bom, daquele que na última vez o deixou de gatas.

Obrigado, Ti’Jorge, por tudo: Dos pinheiros falaremos todos juntos, pois quero que o meu genro esteja presente; sabe, estas coisas já são mais com ele e até o meu neto mais velho, que agora está cá de férias do colégio, gosta de ouvir.

E não quer lá ver que o diabo do moço se péla por uma boa negociata.

É verdade que o Aparício é um velho amigo: amizades feitas e vindas das ceifas de Santa Eulália, onde andámos os dois.

Ele safou-se, tem uma bela firma, é um senhor! Mas merece tudo o que de bom possa ter e vir a alcançar!

Eu, para aqui fiquei, a regar estas batatas, arranjando para comer, para mim e para os meus. Um homem, aqui, nunca sai da cepa torta.

Sabe, é disto que quero desviar os meus netos; desta vida, mais ou menos desafogada, com um cento a mais, ou a menos, de contos de réis, e, no fim de contas, vendo só até onde os olhos alcançam. 

Os meus netos hão-de ir mais além; hão-de subir até onde os outros são capazes de ir e não hão-de gastar os dias, os meses e os anos, a regar batatas, a comprar mais uma, ou outra courela, e a vender por mais dez ou quinze tostões as bicas do pinhal, ou as árvores, para corte.

Da última vez que estive com o seu patrão, dei-lhe, num particular, conhecimento destas minhas ideias, que, cá na Terra, não são muito bem aceites pela maioria dos meus compadres, sobretudo os que com algum esforço, podiam até arranjar meios para mandarem estudar os filhos e os netos. 

Fiquei encantado com o que me disse e nunca mais poderei esquecer que até se prontificou a ajudar-me, se de ajuda vier a precisar.

Não esperava menos do velho amigo Aparício.

Veja se o traz cá um dia destes; é que têm andado para aí uns diabos, algures aí de cima, a falar com o meu Amorim, sobre o pinhal e, que fique bem claro: pelo mesmo dinheiro, quem os irá pagar é a firma Carvalhos & Aparício, mas, negócios são negócios e quem mais nos der, mais amigo é, como se costuma dizer, sem que isso venha alterar a nossa velha amizade.

Gosto muito de ouvi-lo; até dá gosto ouvir gente da sua idade falar como o senhor fala. Subiu muito na minha consideração, embora já o tivesse como homem honrado, inteligente e bom zelador, coisa que não fica mal a ninguém. 

Mas, o que aqui me traz, mesmo, são os seus pinheiros, que me parece rondarão o milheiro, nestas cinco courelas; as daqui e as outras, para lá da ponte.

Podíamos juntar-nos, hoje ao pôr-do-sol, lá em sua casa, ou na adega, como quiser e falávamos do assunto.

E quem sabe se não teremos uma surpresa?

A mim parece-me bem. Lá os esperaremos, cheios de coragem, porque os do Chão de Lopes não querem perder estes pinheiros e, segundo um zunzum que me chegou aos ouvidos, estão alguma coisa em riba dos que disse que vai começar a cortar hoje.

O meu Amorim ainda só ouviu, não pediu nada!

Eu já lhe tinha dito para ir procurá-lo, mas ele nem tem tempo para se coçar.

E, segundo me parece, o Jorge não tem andado por estas bandas.

Então, o mais tardar até mais logo, por volta do sol-posto. Vou ter que ir lá à Serra, à do Manel, falar para o escritório e, se por lá estiver o patrão, aproveito para falar com ele e chamá-lo, pois nestes negócios maiores gosto de tê-lo ao pé de mim.

E, tratando-se de velhos amigos, ainda mais razão para dar cá um salto, acompanhado pelo filho, patrão Zé, se não estiver fora.

Depois passo palavra, logo que saiba alguma coisa. Fique com Deus, Ti’Zé Lourinho!

Vá com Deus, Ti’Jorge! Até mais ver!

Logo que acabou de regar as batatas, foi, ribeira acima, ao encontro do genro, dar-lhe notícias da conversa e combinando a estratégia para a noite.

Estou convencido que o Aparício aparece mais o filho e talvez seja bom que venha.

Vê se sabes, ao certo, quanto é que eles deram ao Zé Pardal, ou ao compadre Marques e depois logo vemos que posição devemos tomar. 

Ah! Gostava que o Zé estivesse a presenciar o negócio; ele gosta e só lhe faz bem assistir a estas coisas.

Não é todos os dias, nem sequer todos os anos, que se vendem uns bons centos de pinheiros; acho que eles querem os das cinco lá da ribeira, ali das do Lavadouro, destas da Lomba e Brejinhos e da dos Brejos. 

Mas não metem o machado nos pinheiros do lado de baixo do caminho da Cabeça Gorda; aqueles hão-de estar ali para qualquer coisa de especial.

E, se não estão sangrados, não fazem parte. O negócio é pelos sangrados todos.

Está bem, parece-me boa ideia ir saber quanto deram pelos que andam já a cortar; já se houve para lá o barulho.

Depois talvez fosse bom dar um toque aos do Chão de Lopes, pedindo-lhes a última palavra, se quiserem dá-la; sempre é bom ficar a bem com todos.

Nunca se sabe quando precisaremos deles e até podem ajudar a meter-nos umas coroas bem boas no bolso.

O que vamos vender é todos os sangrados a varrer, alto e mau. Nem precisamos falar naqueles que disse, pois nunca nenhum lhe meteu ferro para resiná-los.

O meu pai, despachou-se e foi para casa, para procurar as informações.

Não precisou de ir muito longe, pois no caminho encontrou o compadre Marques que, sem grande dificuldade, lhe disse que pelos dele deram noventa mil réis cada um, mas que não fizesse uso, pois pensava que ao Zé Pardal não deram à conta certa.

Confirmavam-se, assim, as palavras que o Zé Pardal já dera ao tio João: acho que deram, ao meu sobrinho, oitenta e sete e meio por cada um, disse o vizinho João Pardal, tio e tutor do Zé.

Ao jantar o meu pai deu as notícias ao meu avô e sugeriu que tinham de começar na nota certa., para poder discutir até aos noventa e cinco, ou noventa e seis.

Os nossos têm mais madeira, no geral, é claro, pois também há lá fracotes, estão muito bem situados e sem arrancar do mesmo sítio têm ali, à mão, mil, cento e cinquenta e quatro pinheiros. 

Já estive a ver, mais o Zé, e foi esse o número de sangrias que pagou o Manel Padre, na campanha da resina.

Pela nota certa, seriam cento e quinze contos e quatrocentos mil réis, mas podemos pedir, os cento e vinte contos.

Dá, por cada pinheiro, cento e nove escudos e nove tostões.

Depois podemos baixar à nota certa, mas vamos a ver o que dizem aqueles diabos lá do Chão de Lopes. 

O Zé vai ter no bolso um papelito com as contas já feitas e também papel e lápis, para fazer outras se for preciso. O que lhe parece?

Está tudo bem pensado; dá um jeito ali na casa da adega, para estar tudo preparado, se eles por aí aparecerem.

E não te esqueças de avisar o Zé, para estar por aí, preparado para o que der e vier.

O Ti Jorge, foi lá a casa, informar que falariam no dia seguinte, pois o patrão fazia questão de vir negociar com o velho amigo e, afinal, era o maior negócio na Serra, desde que se lembrava.

Mas hoje não podem vir; estarão cá, amanhã, antes do pôr-do-sol, se não virem inconveniente.

Antes de partir, molhou a garganta e despediu-se.

Meu pai chegou às falas com os homens do Chão de Lopes que disseram que estavam interessados em cinco ou seis centos de pinheiros e podiam mesmo comprar todos, mas neste caso cerca da metade só será cortada dentro de meio ano. 

A última oferta é de noventa e seis escudos cada, ou noventa e sete e meio, no caso de comprarem todos com o corte dentro de meio ano e pagamentos na altura dos cortes.

Foi, com base nestas ideias, que o meu avô, à ceia., disse para o meu pai: Ouve lá, Amorim, quanto é que se pode arranjar de juros? Na banca e aí aos habituais?

E se metêssemos em condições, ao Aparício, um prazo de pagamento, em três vezes?

Por exemplo: metade, agora, um quarto, em Setembro e o resto no Natal? Dá os cento e vinte contos e fazemos essas condições de pagamento.

Que te parece? Então e tu, Zé, não dizes nada?

Parece-me uma boa ideia. Se o dinheiro não é preciso já, pode-se valorizar no negócio.

Fazendo contas a juros de dez por cento, pagos aí por particulares, trinta contos em quatro meses e outros trinta em oito meses, dão três contos de juros. 

Ora, se em vez dos cento e quinze contos e quatrocentos, se fizer negócio por cento e vinte contos, há lucro de quatro contos e seiscentos.

É muito boa a ideia do avô, mas deve ser um trunfo que só se joga se for preciso e mesmo assim tem de se começar a pedir cento e vinte e cinco contos para poder vir a baixar alguma coisa, como vocês aqui dizem, quanto às palavras de rei e às rachadelas das diferenças.

Meu pai e meu avô olharam-se, sorriram e parece que muito mais importante que isso foi o bichinho que nunca mais me deixou e que, apesar de ter avançado para Professor, nunca mais perdi o interesse pelos negócios:

Ainda na Escola do Magistério, criei, organizei e dirigi a cantina e o serviço de folhas e fotocópias das lições.

Na escola da Costa do Castelo, fui Director e Secretário de Zona e impulsionador da cantina. Todos os anos se fazia o passeio da escola e outras actividades circum-escolares.

No serviço militar, na Guiné, como alferes miliciano mais antigo e comandante interino da Companhia, era o responsável pela cantina e gestão do rancho.

Depois de voltar ao meu lugar na escola, em Lisboa, comecei imediatamente a programar a aquisição da casa dos Olivais, a procurar alternativas a um curso académico, que apenas me faria passar ao ensino liceal e logo que apareceu uma boa hipótese, segui-a: 

Frequentei um curso, organizado pelo Grémio dos Industriais de Especialidades Farmacêuticas e fiquei muito bem classificado, sendo convidado, por diversos Laboratórios, como Delegado de Propaganda Médica. 

Escolhi um Laboratório com uma organização social exemplar e uma forte vertente comercial. Ao fim de dois anos fui convidado para organizar e supervisionar uma equipa de vendas, em farmácias, de especialidades farmacêuticas e produtos de venda no balcão.

Durante os sete anos seguintes, frequentei dez cursos de aperfeiçoamento e, já responsável de topo, fui para a área da Grande Distribuição, que ensaiava os primeiros passos em Portugal.

Estive, como director comercial numa pequena empresa, que, em sete anos, cresceu vários centos por cento, vindo a acabar por ingressar, de novo, na Indústria Farmacêutica, num dos maiores Grupos Farmacêuticos, onde assumi as funções de director comercial. 

Durante mais de vinte anos, trabalhei em íntima ligação com a Administração até que, aos sessenta e cinco anos de idade, me aposentei.

Visitei muitos clientes e fiz muitas vendas, acompanhei muitos profissionais, desde a selecção, preparação e reciclagem, à promoção. 

Nunca senti grande apetência para trabalhar por conta própria e nunca invejei os lucros que terei acumulado e ajudado a conseguir nas empresas onde trabalhei. 

Nunca senti a minha consciência violentada nos negócios em que participei e dirigi.

Da centena e meia de profissionais que comigo se iniciaram e sob meu comando e orientação actuaram, guardo muito mais recordações positivas que negativas.

Considero muito gratificante a ajuda que pude dar a quem começou nas lides, comigo, e acabou nos altos quadros de multinacionais de topo.

Nunca me senti diminuído pelos que, profissionalmente, subiram mais alto que eu.

Considero-os meus embaixadores e vejo-os com orgulho.

Anos mais tarde; muitos anos mesmo, já o meu avô e o senhor Aparício, nos tinham deixado, estivemos um dia, na adega lá da Serra, juntos com o senhor Zé Aparício e recordámos aquele negócio dos pinheiros da ribeira e a forma como o garoto, que andaria pelos doze anos, arquitectou aquele esquema e explicou aqueles juros de três meses, seis meses, etc., com uma desenvoltura que maravilhou os homens dos negócios.

Eu senti muita honra nos elogios que ouvi, porém, o prazer e sensação de vitória via-se, na cara de meu pai, já então com a visão diminuída e em silêncio. 

Estava ali personificada a vitória da sua vida, partilhada sempre com seu sogro e que ganhou forma e força desde o dia em que decidiram trocar as vidas dos três garotos, transformando gente condenada às condições que os campos podiam proporcionar, em homens cultos e senhores dos seus destinos.

E fazer nascer a esperança, sentir o valor da realização quando se sobem os degraus que a vida vai colocando à nossa frente, dar a mão aos que nos acompanham, sem reservas nem receios que eles venham a passar-nos à frente, é, não só gratificante, como a maneira mais segura de não ter insónias e olhar para trás, com satisfação, alegria e tranquilidade.





sexta-feira, 18 de novembro de 2011

“ Manel” de Alfama



Até ir às sortes, era um rapaz pacato, respeitador e muito metido consigo; lançava mão a qualquer trabalho, era possante e diligente, chegando mesmo a ser um dos jornaleiros preferidos e disputado por quem dava jornas.

Criado aos baldões, sempre foi comendo qualquer coisa e vestindo alguma roupa de lavado graças aos cuidados da tia Lurdes, que se substituiu à mãe, quando esta acabou por morrer na sequência do parto. O pai, madeireiro, ia para onde o serviço assim pedisse e pouca atenção dava ao garoto, mesmo quando estava por casa.

Dizia-se, na vizinhança, que lhe atribuía as culpas, pela morte da mãe, acusando-o de nascer grande de mais. Frequentador e freguês assíduo das tabernas, passava dias que nem via o filho.
Chegada a altura, o Manel lá foi à inspecção e, apurado para todo o serviço militar, apresentou-se no quartel de Abrantes, onde viria a completar a recruta, com elogios dos instrutores e louvor do comandante da Companhia.

Transferido para Portalegre, por lá andou quase dois anos, sem voltar à Terra. Até que um pinheiro desgovernado, caiu para o lado contrário ao desejado e o pai do Manel Eugénio acabou esmagado, quando cortava árvores, no pinhal do Cabeço Pião, já a vistas da Aboboreira.

Passada parte ao Manel, então ainda em Portalegre, veio o rapaz no dia do enterro e, sem falar a ninguém, nem nunca levantar os olhos do chão, voltou do cemitério para casa, metendo-se na cama.

Ninguém mais o viu durante três dias e a Ti'Lurdes, irmã do pai do Manel, só a muito custo conseguiu que engolisse umas malgas de caldo e trincasse uns bocados de pão e queijo.

Chegou ao quartel um dia depois da data devida e acabou castigado com cinco dias de detenção. Além disso nada mais lhe foi apontado na caderneta militar que exibia, com grande satisfação, ao mostrar o louvor que lhe foi feito no final da instrução.

Licenciado ao fim de quase três anos de tropa, passou à disponibilidade, mas não foi para a Terra.

Arranjou amizade com um soldado de Lisboa e acabou convencido que lá é que valia a pena trabalhar e lá é que se podia ganhar e juntar algum dinheiro.

O amigo era natural de Alfama e ia contando ao Manel como eram as pequenas de lá, como o pai chegava a ganhar contos de réis por semana a carregar e descarregar barcos e até se podia aprender um ofício nas obras que naqueles tempos davam trabalho a todos os que quisessem.

Também podia concorrer para a Polícia, Guarda Republicana, Guarda Fiscal, empregar-se na Carris, nos Telefones... Era só escolher.

Mas, para isso tinha de ir para lá e, para os primeiros tempos arranjava-se, lá em casa dos pais, um colchão para dormir e alguém para lhe tratar da roupa.

Cheio de esperança e entusiasmo, o Manel acabou assim por ser devorado por tudo quanto lhe tinha sido dito pelo amigo, antes de abrir os olhos para tudo o que o rodeava e em nada se comparava com a vida calma, pacata e longe da gente ruim que abunda nas grandes cidades e, particularmente, nos meios para onde foi atirado.

O Alberto Costa, conhecido no meio e nas autoridades, por "Bebé", retornou à vida devassa e voltou a ser o meliante que um dia deixara o Bairro para ir cumprir o serviço militar. 

Passavam-se dias que não aparecia e quando o Manel mais precisava dele para o ajudar a procurar trabalho, acomodação e rumo de vida, aparecia a cair de bêbedo, ou quando ia para a cama. Passava as noites nos bares e tinha amigos que não valia sequer a pena conhecer; já no que se referia a amigas, andava sempre com o piorio.

Foi assim, farto das trapaças que tinha visto fazer ao ''Bebé'', que o Manel encontrou um dia, nas imediações do porto de Lisboa, ali por alturas da doca do Beato, uns homens da Carregueira, que se deram por conhecidos e se dispuseram a ouvir o rol de desgraças que o moço da Serra tinha para contar. 

Ouviram-no, compreenderam o caldinho que lhe estavam a arranjar e aconselharam-no a mudar-se o mais rápido possível para bem longe de todo aquele ambiente.

Ficou, logo ali, combinado, que iria viver com o pessoal lá da Terra, para os lados da Pontinha, onde se lhe arranjaria uma cama, lugar para guardar alguma coisa que tivesse, quem lhe cuidasse da roupa e comida. 

Passou a viver numa espécie de comunidade, onde, de facto, se sentia ao pé dos seus e era ajudado quando precisava e, sobretudo, orientado na procura de trabalho.

Não voltou a ver o "amigo" de Alfama e, dizia, com graça e mágoa, que se eram assim os amigos, era melhor conhecer só bichos.

Começou nas obras de um bairro que se andava a construir em Benfica. Trabalhava bem, fazia horas a mais, chegou a servir de guarda da obra e ao fim de meia dúzia de meses já tinha um pé-de-meia razoável.

Soube duma vaga na estiva e começou a ir ao conto e arranjar trabalho na carga e descarga de barcos.

O trabalho pesava, mas os proveitos aumentavam muito e depressa. Chegou a trabalhar dias inteiros, sem ir à cama e a ganhar doze contos numa semana. Para o tempo era muitíssimo dinheiro; um operário, nas obras, ganharia, com algumas horas extraordinárias, à volta de um conto de réis por mês.

Acabou estivador encartado e nunca foi recusado por qualquer chefe de grupo, ou capataz. Vá-se lá saber porquê; era chamado, no meio, pelo Manel de Alfama. 

Ao fim de dois anos de trabalho duro a que o Manel nunca virou a cara, os companheiros das barracas onde vivia, tentaram convencê-lo a ir à Terra por alturas das festas do Verão.

O Manel disse-lhes que nada o ligava já à Serra, praticamente não tinha lá ninguém, uma vez que a tia que lhe servira de mãe, já tinha morrido e os primos nada lhe diziam. Havia para lá uns casebres e uma tapada que deveriam ser dele, pois nunca teve notícia que o pai os tivesse vendido; Todavia, não queria voltar à Terra antes de ser rico e poder mostrar a quem um dia o deu como perdido, que afinal era gente, estava vivo e era, finalmente, um senhor.

Se perguntassem por ele, que arranjassem as desculpas que quisessem e dissessem que quando fosse oportuno ele lá iria, pois não devia nada a ninguém, e ainda não se tinha esquecido do caminho.

Nos dez anos seguintes, até aos trinta e cinco, andou, sabe Deus por onde: desde a pesca do bacalhau, a meses intermitentes na estiva, servente em navios de carga, emigrado em África, criado de gente rica na Argentina e garimpeiro no Brasil, são uma pequena amostra das aventuras que lhe aumentaram largamente a conta nos bancos e os modos e maneiras de se apresentar. 

Aos olhos de quem o viu aparecer lá pelas barracas dos lados da Pontinha onde tinha vivido, parecia aquele senhor que um dia afirmou esperar vir a ser. 

Mas, no fundo, para quem um dia lhe deu a mão, quando andou quase a perder o pé, lá pelas bandas de Alfama, continuou a ser o mesmo Manel da Serra. 

Petiscaram juntos, foram dar uma volta pela cidade, conversaram sobre os projectos e ideias do Manel e, à porta de uma tasca do Campo Pequeno, vendo o Coxo que continuava ali a vender jogo, cumprimentou-o, convidou-o para beber um copo. 

Perguntou-lhe se ainda tinha algum bilhete inteiro. O cauteleiro disse-lhe que nunca trazia bilhetes inteiros, pois raramente tinha fregueses com os duzentos mil réis para comprar um bilhete, mas era só meter-se no eléctrico e ir buscá-lo se ele quisesse. Tem algum número preferido, freguês? 

O Manel atirou-lhe, como quem não faz questão, com um encolher de ombros: a acabar em setecentos e catorze. Foi o número com que joguei nas rifas, lá em Alfama, e com dez tostões ganhei dez mil réis. Se me trouxer um número desses, inteiro, venha aqui à taberna, pois vamos petiscar por aqui e esperar que cheguem mais uns companheiros para batermos uma suecada, ou jogarmos o burro.

Ainda não tinham acabado de almoçar e já o Coxo entrava portas a dentro, com um envelope na mão, dizendo: aqui tem freguês, o número 28.714. Ainda havia o bilhete inteiro; trouxe-lhe as dez cautelas e, como se trata da lotaria de Santo António, são duzentos mil réis. Mas, se tiver aqui a taluda, como vim todo o caminho a pedir ao meu Santo António, ficará três vezes milionário. 

Nesta semana é a lotaria de Santo António. A taluda são três mil contos de réis; é dinheiro a mais para um homem só, mas Deus permita que não morra sem ver satisfeito este sonho que tenho desde garoto: vender um dia a taluda a um freguês, que depois me venha aqui ver e me dê cem ou duzentos mil réis para comprar um fatito e uns sapatitos.

O Manel deu as duas notas ao cauteleiro, agradeceu-lhe o desejo e disse que na próxima semana ia para fora, por dois meses, mas quando voltasse havia de vir ali dar-lhe o prémio, se lhe tivesse vendido a taluda e não seriam os cem ou duzentos mil réis, mas cinco notas.

O Manel tinha segredado ao Elias da Carregueira que quando esteve na Argentina trabalhou para um intermediário na venda de carnes, por atacado. Vendia carne de bovinos, em carcaça ou como animais vivos.

No último barco em que supervisionou o arrebanhamento, contagem e embarque de duzentas toneladas de carcaças e trezentos animais vivos, ganhou trezentos contos de comissões. Era um negócio muito trabalhoso, com muitos intermediários pelo meio, mas, a calcular pelo que via, envolvia muitos dinheiros e grandes lucros.

Queria ver se fazia mais quatro ou cinco negócios e depois pensava vir para Portugal e comprar uma dúzia de andares para rendimento e, quem sabe, arranjar dois ou três sócios de confiança e começar a construir em Lisboa ou nos arredores. 

Era preciso ir pensando num engenheiro, num advogado, num bom guarda-livros e nuns dois encarregados de obras. O capital era com ele e estava disposto a dar sociedade aos cinco sócios, além de interesses sobre os resultados alcançados. Estava a pensar em ficar com 60% e dar 8% a cada um dos sócios.

Mas, Ti'Elias, o senhor é um destes cinco; os outros quatro ainda não faço ideia de quem sejam. Por enquanto não dirá nada disto a ninguém. Rigorosamente a ninguém! Vá pensando, mas não fale, nem com a sua mulher, neste assunto! 

Nessa altura, o Manel tinha em três bancos quase quatro mil contos e diversas acções e outros papéis de empresas no valor de compra de, aproximadamente, dois mil contos. O dinheiro rendia-lhe à volta de quarenta contos por mês e os papéis valorizavam-se outro tanto, pelo menos. 

Tinha três negócios de carnes em curso, entre Brasil, Uruguai, Argentina e a Manutenção Militar, cujos números poderiam, se tudo corresse bem, atingir lucros de dois mil contos. 

Para ultimar contactos com fornecedores partiria, na semana seguinte, para a América do Sul. E levaria consigo um advogado para o orientar nos contratos que iria ter de assinar. 

O doutor Mendes Baeta viria a ser o seu braço direito e parte interessada nos negócios futuros. Também o escritório do advogado, na zona das avenidas novas, seria a primeira morada referida junto dos parceiros de negócios e o primeiro escritório da Sociedade Ulissiponense de Carnes, Lda., cujas quotas eram divididas em duas partes: uma de noventa e cinco por cento, pertencente ao sócio Manuel da Silva Eugénio e outra, de cinco por cento, na posse de António Mendes Baeta. Era gerente da sociedade o sócio maioritário.

Enquanto se estabeleciam os contactos com os fornecedores pelas terras da América do Sul, o Coxo andava que nem um louco a procurar, na taberna do Campo Pequeno, aquele senhor que tinha estado lá com uns pedreiros no fim-de-semana e disse que na semana seguinte iria para o estrangeiro. 

Não revelava o assunto, arranjando algumas desculpas para encontrar o senhor, dizendo que se tinha enganado no troco e lhe tinha ficado com dinheiro a mais, que queria devolver. Deixou recado para que o avisassem, que logo que ali aparecesse, ou algum dos amigos dele, para falarem com o cauteleiro.

Até que, passados dois meses, quando o Manel voltou a Lisboa, foi um dia petiscar ali à taberna do costume e foi abordado pelo Coxo que, chamando-o de parte lhe disse: tenho andado louco para o encontrar. Já foi receber o dinheiro?

O Manel nem percebeu bem o que o homem queria dizer e disse: ainda não comprei, não; arranja-me aí meia dúzia de cautelas! Aí o Coxo, como que segredando-lhe, disse:

Então não se lembra daquele bilhete que lhe fui buscar à Baixa, no eléctrico, quando estava aqui com os seus amigos a jogar as cartas?

Olha, nem sei onde o pus, mas deve estar na Pensão onde moro, ali ao Saldanha. Porquê, homem? 

É que eu nunca quis dizer nada a ninguém mas, finalmente vendi uma vez na vida a taluda; o seu bilhete teve a sorte grande - três mil contos -. Já fui informar-me à Santa Casa e ainda não foi recebido o prémio. 

Como havia de ter sido se o senhor nem estava cá, em Portugal Acho bem que vá procurar as cautelas e vá com elas ao Largo da Trindade, ao serviço de lotarias, levantar o seu dinheiro; é que não sei bem mas há prazos para receber os prémios.

Quanto a mim, já posso morrer; já fiz alguém três vezes milionário. E que Deus lhe dê muita saúde e vida para gozar tão grande fortuna. Peço-lhe só que nunca se esqueça de quem é pobre!

O Manel parou, finalmente, para meditar um pouco, no que acabava de ouvir e, despedindo-se do cauteleiro disse que ia tratar disso, quando tivesse um bocadinho e que continuasse a parar ali pela taberna. 

Ia mandar chamá-lo num dos próximos dias, pois iria precisar muito de falar com ele. Meteu a mão ao bolso e deu-lhe cinquenta escudos para almoçar e beber um copo. E seguiu, avenida abaixo.

Foi à Pensão e lá estavam no envelope da Casa da Sorte as cautelas da lotaria de Santo António, que diziam na parte de trás que os prémios teriam um prazo de seis meses para serem recebidos.

Ainda faltava um mês. Mas, nessa altura pensou: será que o cauteleiro não está enganado? O melhor é telefonar para a Santa Casa a perguntar em que número saiu a taluda da lotaria de Santo António.

Pediu a chamada à recepção da Pensão e quando ouviu dizer o número 28.714 e o valor de três milhões de escudos, desceu à rua, meteu-se num táxi e dirigiu-se à Santa Casa, com as cautelas no bolso e um fervilhar de ideias na cabeça.

Bem, o cauteleiro seria empregado no escritório, talvez paquete, ou porteiro. Teria de saber se tinha casa e família, como viviam e quantos filhos tinha. Encarregaria a empregada do escritório de reunir todos esses dados e trataria depois de ajudá-los. Só poria uma condição: nunca ninguém devia saber nada do segredo que ficaria entre um cauteleiro e um freguês que um dia se encontraram.

Chegou ao seu destino sem dar por isso e, já num gabinete da Misericórdia, vieram dois senhores que observaram as cautelas e lhe perguntaram como queria o pagamento. Podiam passar-lhe imediatamente um cheque visado que ele depositaria, depois, onde desejasse. 

Faria apenas o favor de se identificar e aguardar o tempo suficiente para tratar do cheque, que como compreenderia teria de ser assinado pela Administração.

Mandaram servir-lhe, aperitivos e café e dispuseram um conjunto de jornais e revistas, para se entreter, ou, ir dar uma voltinha e regressar, dentro de uma hora, para receber o cheque. 

Aguardou. Vieram os mesmos dois funcionários e entregando-lhe o cheque, felicitaram-no e disseram-lhe que chegaram a recear o pior, pois já tardava a reclamação do prémio e tinham tido conhecimento que um cauteleiro, que vende lá para o Campo Pequeno, já tinha passado, duas ou três vezes, a saber se o prémio tinha sido levantado. Ao ser informado da não reclamação do prémio, mostrava grande inquietação e retirava-se.

Uma vez disse, desalentado: nunca tinha vendido um bilhete inteiro e nesta primeira vez foi calhar a alguém que nunca mais vi e ainda há-de acabar por perder o dinheiro, ou porque tenha deitado fora o jogo, ou porque se esqueceu, ou sei lá que mais poderá ter acontecido. 

Lembro-me só que ele me disse que eu havia de ter umas notitas de recompensa, mas isso é o que menos me interessa; de pobre não passo, mas a fortuna é do meu cliente e vou procurá-lo até o achar.

Passou no banco e depositou o prémio. Pediu uma entrevista com o gerente e um extracto de conta. Acabou por fazer uma transferência de outro banco da concorrência, para perfazer doze milhões de escudos e conseguiu, atendendo à quantia que ficava a prazo, com um pré-aviso de quinze dias, um juro de 1,5% acima da taxa máxima para os depósitos a prazo.

Feitas as contas teria dali um rendimento de quase cento e cinquenta contos por mês. E, como é evidente, crédito alto, para movimentar os seus negócios, cá em Portugal e no estrangeiro.

A década de cinquenta correra de feição aos negócios das sociedades do Manuel e aqueles três mil contos do prémio da lotaria já nem tiveram o significado que seria de esperar; acabaram por ser mais uma ajuda na subida constante e quase vertiginosa na fortuna do já milionário.

Naqueles tempos o termo aplicava-se a quem tinha, pelo menos, mil contos.

Nos anos sessenta, abriu um escritório na Beira - segunda cidade de Moçambique e o maior porto daquela Província Ultramarina de Portugal. Tinha na cidade um entreposto, com câmaras frigoríficas e relacionava-se com as autoridades militares portuguesas. A maior parte da carne de vaca fornecida à Manutenção Militar, passava pelos seus armazéns. 

Discretamente, à medida que o tempo corria, não era insignificante o apoio que dava aos movimentos de libertação, para onde vendia, igualmente toneladas de carne. E este jogo duplo, trazendo-lhe avultados proveitos, não deixava de ter custos enormes, mas era muito positiva a actividade do Entreposto de Carnes, como denominou a Empresa. 

Movia-se muito bem em Moçambique e foi de lá que partiu para uma parceria com uma empresa dinamarquesa, vindo a tornar-se, anos mais tarde, numa das maiores distribuidoras de carne de ovinos, sobretudo borregos, na Europa e em alguns países de África. Outra parceria alargou esse negócio à Índia.

Nos meados dos anos setenta, o senhor Manuel da Silva Eugénio, de sessenta anos de idade, de nacionalidade portuguesa, solteiro e grande amigo de Moçambique, onde tinha prósperas empresas de negócios, foi condecorado, pelo governo de Maputo, com a Comenda de Mérito Industrial e foi-lhe concedida a nacionalidade moçambicana por serviços meritórios no País.

Do elogio ao agraciado, feito pelo seu sócio e companheiro de negócios, doutor advogado António Mendes Baeta, constava um rol de vinte e três empresas, comerciais, industriais, agrárias e de construção civil e dezenas de significativas ajudas a organizações e serviços de assistência social e humanitária, espalhados por todo o País.

Foi ainda revelado que muito proximamente o Senhor Comendador iria criar uma Fundação, com sede na cidade da Beira e escritórios em Lisboa e Luanda e visando, sobretudo, a educação de crianças órfãs e de famílias sem meios, para além dos filhos dos empregados das empresas do grupo. 

Nessa altura estudavam nos diversos graus de ensino, da escola primária às universidades, a expensas do senhor Comendador, quarenta e quatro filhos de empregados nas suas empresas. 

Os estudos eram custeados até à conclusão dos cursos e, no final, cada um podia candidatar-se aos quadros das empresas, ou ir fazer vida onde bem entendesse. 

Não havia quaisquer obrigações por parte dos beneficiados. 

O capital previsto para a futura Fundação Manuel da Silva Eugénio seria da ordem dos cem mil contos. E, no património da Instituição, figuravam dezenas de edifícios e a totalidade das participações sociais do Comendador nas empresas do grupo.

Por morte do fundador, a fundação era sua herdeira universal.

domingo, 13 de novembro de 2011

O moinho da estrema

Quem passava do lameiro dos Salgueirinhos para a Ribeira, atravessava, na portela da Chã, depois dos eucaliptos, o caminho que, vinha dos lados da estrada da Lameira e circundava a aldeia, dando a volta lá por baixo, pela Figueira Regal.

Era por este atalho que, mais adiante, pouco antes do Machoso, se chegava à descida da lajoeira até à ponte, onde, pouco depois, ou se seguia em frente, pelas Taliscas, para o Vale das Onegas, ou se metia pelo vale do Sinhal, para o Monte Cimeiro, ambas já terras de Alcaravela e, como tal, de Sardoal.

Estes caminhos ainda por lá estão; porém a estrada moderna e alcatroada, relegou-os para o desuso e aqueles trilhos que gente e bestas foram abrindo, desgastando saibros e lousinhas que depois as chuvas se encarregavam de drenar até às hortas, são agora, muitas vezes, quase irreconhecíveis. 

Na portelita, entre os eucaliptos do Ti'Manel da Chã e os pinheiros do Ti'Manel Rosa, num altinho quase imperceptível, as águas das chuvas tomavam dois rumos diferentes: as do lado norte, corriam na direcção da aldeia e as do lado sul iam para a ribeira.

Depois, pela chapada de seara, até ao moinho, a linha era mal demarcada, mas via-se a inclinação para os dois lados. 

Junto do carreirinho havia um marco grande, diferente das pedras que separam as hortas e courelas umas das outras, indicando as estremas do que a cada um pertence.

No moinho, lá no cimo do outeirito, estava outra daquelas pedras; bastante grandes, com o cimo muito quadradinho e os quatro lados muito lisinhos.

Eram blocos de cantaria, vindos de Penhascoso onde havia aquela rocha - granito - e tinham letras escritas, com tinta preta, normalmente em dois lados. 

Li, muitas vezes, aqueles dizeres para o meu avô, que depois me fazia as explicações do que aquilo queria dizer. E, analfabeto como era, explicava-me, rigorosamente, o que eram os concelhos, as freguesias e a importância que tinha a delimitação das terras.

No lado das casas, estavam dois números - 34, com algarismos maiores, por cima e 12, com algarismos mais pequenos, numa linha abaixo -; em seguida MAÇÃO e, por baixo, com letras menores, Penhascoso.

E lá vinham as explicações que, sempre com a máxima atenção, eu ouvi diversas vezes:

Estes marcos foram aqui metidos por uns homens das senhoras Câmaras do Mação e do Sardoal. Do outro lado, os números são diferentes e os dizeres das terras são SARDOAL e Alcaravela, não é verdade? O número com as "letras" maiores, é o que nos diz quantos marcos destes há, desde o começo do concelho até aqui. O outro, é o número de marcos desde o começo da freguesia até aqui. 

A palavra de cima, MAÇÃO é o nome do nosso concelho e a de baixo, Penhascoso é o nome da nossa freguesia.

Do lado de lá as coisas querem dizer o mesmo. Em todas as senhoras Câmaras há mapas com os lugares destes marcos e os dizeres deles que indicam, se for preciso, um lugar no terreno.

Mas para que se gastou tanto dinheiro a meter estes marcos todos e depois a escrever estas letras?

É muito importante que cada uma senhora Câmara saiba a terra que tem, para poder cobrar a décima, passar licenças para as obras, cuidar dos caminhos, entregar o correio e muitas outras coisas. 

Não te recordas de um homem de Alcaravela que vinha até aqui ao pé deste marco e esperava que o Ti'Zé Matias, que era sócio dele, viesse falar-lhe e combinar os negócios?

Oh! Avô, e porque diabo não ia o homem a casa dele, lá no Casal, ou à taberna e falavam mais à vontade?

Porque não podia; estava castigado, pelo doutor juiz do tribunal!

Não me diga, avô, que há alguém que castigue outro, obrigando-o a juntar-se debaixo duns pinheiros com quem quer falar!

O castigo não era esse; o tal homem estava proibido de sair do seu concelho, porque tinha estado preso e depois da prisão, dentro de uns tempos não podia ir para fora do limite do concelho. Se não cumprisse essa ordem podia ser apanhado e iria à cadeia fazer o resto do tempo de prisão.

Está bem! Mas, avô, e aquele sítio além chama-se moinho, porquê?

Certamente porque, em tempos, houve lá algum moinho. Eu não me lembro de nada disso, mas contava-me o meu pai, que Deus haja, que ali era o moinho da estrema.

Talvez porque lá houvesse algum moinho e estivesse, precisamente sobre a estrema dos dois concelhos: do lado de cá o de Mação e do lado de lá o de Sardoal. 

E, sempre ouvi dizer que o moleiro não era flor que se cheirasse; era grande como não havia outro homem nas redondezas e pelo lado da velhacaria, também valia bem por meia dúzia. 

Parece que não pagava décima a nenhuma das senhoras Câmaras: aos do Mação dizia que era de outra terra, pois pertencia ao Sardoal e mostrava uns papéis antigos, que nunca ninguém soube o que diziam e onde apenas se lia, por fora, Sardoal.

Quando vinham os do Sardoal dizia que não tinham nada com ele, que pertencia ao concelho de Mação e mostrava uns papéis que não dava para as mãos de ninguém, ficando-se pelas letras grandes de fora: Mação. 

Diz-se que nunca casou, não cumpriu a tropa e, quando morreu, nem uns nem outros o queriam enterrar; mas também há os que dizem que acabou desaparecido.

Eu acho que isso são histórias que o povo vai contando e ainda hoje vão dando para alguns ditos.

Em tempos houve lá qualquer coisa; eu penso que terão sido casas de gente muito antiga, de há muitos anos atrás; há por lá pedras que parecem indicar que ali viveu alguém e até que por lá terá sido enterrada gente.

É um lugar pouco simpático e nunca se ouviu dizer que os pobres ali tenham feito malhada, ou que alguém pensasse aproveitar o lugar. 

Quem o quisesse fazer tinha de se desviar para o lado de cá, para não ficar a morar numa terra onde todos pertencem a um concelho menos uma casa que fizesse parte de outro. Estás a ver aqui um inconveniente dos tais marcos. 

Diz-se que uma vez um moleiro restaurou ali um moinho e na primeira noite em que encheu as velas, veio tamanho "pojino" que não só desfez completamente velas e cobertura, como espalhou as pedras das paredes por muitos metros à roda.

Diz a lenda que uma das mós foi encontrada no meio do mato, no fundo da Pedreguina e a outra - a de cima - nunca foi encontrada. 

À boca pequena, muitos dizem "moinho excomungado", mas assim em público pegou o nome de moinho da estrema e é como tal que sempre foi conhecido.

Mas isso são lendas, que depois se transformam em ditos, para mais tarde passarem a histórias e acabarem, por chegar ao lugar onde pertencem: esquecimento. 

Há uma outra coisa que gostaria de te dizer a respeito dos marcos: entre nós, depois de matar um homem, uma das maiores ofensas que se podem fazer é mudar um marco.

Aliás uma das causas mais vezes verificada em contendas e até mortes de homem é a muda de marcos entre as propriedades.

Cá nos nossos códigos de honra, aquelas pedras toscas, em forma de laje, enterradas, com duas, ou três mais pequenas ao lado, representam como que homens vivos, que só podem ser mexidos na presença de todas as partes interessadas. 

E só se muda um marco em casos muito especiais. Quando desaparecem devem ser repostos, mas nunca só por uma das partes e, de preferência, na presença de testemunhas.

Ora aqui os marcos que separam as freguesias, fazem-no também para os concelhos. Mas aqui limitam também duas províncias: para sul é o Ribatejo e aqui para norte a Beira Baixa. O nosso concelho de Mação é o único do distrito de Santarém que pertence à Beira Baixa. 

Depois, certamente, hás-de estudar essas coisas e ainda me hás-de ensiná-las quando fores professor, como eu gostava que fosses.

E, nos últimos sete anos de vida, teve esse gosto, o meu Avô:

Homem menos que meão, de estatura; mas enorme, de cabeça, coração e alma.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os "velhos do Restelo”



Lá em casa não havia livros; também não eram precisos, pois, se os houvesse, ninguém saberia lê-los.

Meus avós nunca aprenderam a ler e meus pais, cada um por seu lado, seguiram-lhes o exemplo. Não havia escolas nas aldeias daqueles princípios do século passado e poucos tinham acesso ao ensino.

As raparigas mais prendadas aprendiam costura, nas mestras, e os rapazes aprendiam um ofício, ou partiam; para a cidade grande - Lisboa - e para o Brasil, ou África - por norma o Congo Belga -. 

Os outros, que eram a quase totalidade, ficavam-se pela agricultura - ao tempo já definida como “a arte de empobrecer alegremente” - e à espreita de um bom casamento, com algum bom partido, ou de alguma herança familiar. 

Os mais pobres esmolavam, dia a dia, uma jorna, em casa de alguém mais abastado, para ganharem para a bucha e para mulher e filhos, normalmente em número avantajado.

Na casa de meus avós havia umas folhas - poucas, ao que recordo – ainda cozidas, mas muito ratadas nas pontas, com umas figuras todas pretas e outras meio acinzentadas.

Penso que seria o que restava de uma Cartilha Maternal que a minha tia trouxera de Lisboa, onde estivera internada no Hospital de Dª Estefânia, até pouco antes de morrer, ainda jovem. 

Havia trabalho todos os dias e quase sempre andavam trabalhadores de fora a ajudar meu avô e meu pai, que nunca precisaram de dar dias fora de casa.

O destino das crianças, meu e de meus irmãos, seria o trabalho no campo, com o objectivo de manter e aumentar o património herdado, fazer bons casamentos e ter filhos para continuarem o ciclo daquele tipo de vida que se mantinha e renovava desde os tempos mais remotos. 

Tudo muito semelhante ao quadro rural que mais tarde vim a aprender com os estudos da História da Idade Média - os servos da gleba, mantiveram-se, afinal, durante séculos.

Porém, num dia, que o meu avô dizia que não mais esqueceria, quando roçava mato na encosta da serra do Corvo, acompanhado pelo meu pai e pelo Ti' Amorim Maia, apareceu o compadre Armindo Pereira, da Queixoperra - aldeia de onde era natural meu pai -, que por ali passou na renova do pinhal e, encostando-se a um pinheiro, nos convidou - a mim e a teu pai - para uma conversa que havia tempos preparava, mas ainda não calhara vir a propósito.

Pois eu queria ver se os compadres pensam em mandar estudar os garotos; o Ti'Zé não tem outros netos e parece-me homem para querer dar aos seus o melhor. Ora aqui, eles não irão muito além disto que temos nas mãos: do ferro da resina, do enxadão, da picareta, ou da roçadoira. 

Abriu o colégio, no Mação, e o meu já lá anda há dois ou três anos e estou muito satisfeito. 

Porque não manda o compadre o seu Amorim lá a minha casa que eu lhe explico tudo, desde custos a outras coisas que vale a pena ouvir de quem já passou por elas?

O meu avô acrescentava, então: 

Eu cheguei-me mais ao compadre Armindo e, com ares de quem ainda deseja manter segredo, disse-lhe que, depois de falar com o Amorim, o mandaria a casa dele. Para já ficava a conversa por ali e ficávamos muito agradecidos, pois foram das melhores palavras que se lembrava de ter ouvido, alguma vez na vida.

Já antes falara com o compadre Jesuvino, teu padrinho, sobre o assunto e quase me arrependi de o ter feito: o homem parecia o diabo, em figura de gente; parecia que eu estava a dizer a maior barbaridade que um homem pode imaginar.

Então o compadre quer mandar estudar quem tem tanto de seu para se entreter e vir a ser dos maiores proprietários cá da terra! E morgadas bem remediadas ainda juntarão muita coisa para fazer umas casonas, onde nada faltará! Deixe-se disso, compadre! Porque hão-de os seus netos vir a ser mais que seus pais e avós? Não lhes tem comprado muitas coisas, além das que herdou? Ensine-os mas é a trabalhar!.. Olhe o meu afilhado, tem sempre a minha porta aberta e parece que não iria ficar mal: aprenderia um bom ofício e sabe-se lá o que o destino tem reservado para ele!...

Mais tarde, ao estudar o episódio do “velho do Restelo”, quase o aprendi de cor e não conseguia abstrair-me da figura do meu padrinho, que, mentalmente, ficou na minha memória como ilustradora esta personagem fatídica dos Lusíadas.

Mas o coro dos que criticaram o meu avô e meu pai por andarem a dar aos seus o que eles nunca tiveram e a querer fazer deles o que eles nunca tinham sido, não acabava ali.

Até que o meu pai depois de ouvir o compadre da Queixoperra que trazia o único filho que tinha no colégio, depois de perguntar na Carregueira e até em Mação, um dia aconselhou-se com o padre. 

Depois da missa, pediu-lhe uns minutos em particular e manifestou a sua incompreensão por tão grande número de pessoas, algumas delas até de posses, que se manifestavam, aberta e fortemente, contra a ida dos filhos para o colégio.

O senhor prior, confessava o meu avô, ouviu serenamente e disse: olhe senhor Amorim, vozes de burro não chegam ao céu e também não nos devem incomodar, porque somos mais inteligentes que os que as pronunciam. 

Não é um conselho que lhes dou, a si e ao seu sogro: é uma ordem! Não mandar estudar os filhos e netos, podendo fazê-lo, é uma falta grave; é, digo mesmo, um pecado, que só tem desculpa para os ignorantes, que já vi que não é o vosso caso. 

Se precisarem de mim para qualquer coisa, estou à vossa disposição e, se quer que lhe diga, ainda muitos lhes hão-de agradecer o exemplo que vocês serão, para esta e outras terras. Deus os ajude a conseguir dar aquilo que desejam aos pequenos e lhes mantenha a saúde e qualidades para subirem alto na vida.

O meu avô sempre aceitou as opiniões de quase todos e, disfarçadamente, sentia-se muito orgulhoso quando outros, com tantas ou mais posses que ele, torciam a orelha, como ele dizia, acrescentando: 

Agora torcem a orelha, mas ainda lhes dói mais, porque não deita sangue. 

Morreu feliz, porque viveu o suficiente para ouvir, um dia, um telefonema a dizer que o seu neto era professor - o primeiro, da aldeia, a completar o curso. E comentava: 

Quase todos já me deram os parabéns. Mas há dois ou três que não o fizeram nem nunca o farão. Felizmente houve quem falasse mais alto que eles e espero que os beneficiados venham a ter orgulho de ter servido de exemplo para muitos outros, cujos pais se aconselharam connosco, sobre o colégio.

Quanto ao meu padrinho, nunca consegui compreender o que pensava, no fundo, este homem que sabia ouvir, raciocinava com facilidade e uma relativa elegância sobre diversos temas, mas ao tocar-lhe nos assuntos relativos a estudos, conhecimentos e evolução social, tornava-se reservado e agressivo.

Será que era um homem de complexos recalcados, uma mente inaproveitada e desajustada da vida que pôde ter? Teriam os reflexos dessas situações levado à rejeição de ir mais longe e aprovar que os outros fossem?

No próximo ano de 2012, completam-se os cem anos do meu padrinho e também o meu pai seria centenário se aos noventa e seis anos não tivesse partido. A minha homenagem, para ambos, e a minha confissão e penitência por nunca ter compreendido, nem sequer percebido, claramente, este "velho do Restelo", como muitos outros que poderíamos referenciar por essas aldeias fora.

Porque é que estes homens, com cultura mais que mediana para o seu meio, encapsularam e hostilizaram o progresso? 

Atavismo? Imobilismo? Crença? 

Ou, simplesmente, ignorância.

Fica o desafio aos sociólogos, para que possam esclarecer este fenómeno que, pelos vistos, é muito vulgar e afectou, transversalmente, muitos estratos da nossa sociedade, nos idos de meados do século passado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O negócio do Vale


A par dos casamentos, das matanças e das malhas, os negócios eram pontos altos na vida calma e rotineira das famílias rurais, nos meados do séc. XX.

Os casamentos, normalmente realizados aos sábados, pelo fim da tarde, antecediam as bodas, que constavam de três dias de comida e bebida, para dezenas de convidados, entre familiares e amigos.

As bodas eram feitas, em separado, na casa dos pais de cada um dos noivos. Em cada um dos lados abancavam os respectivos convidados e os noivos iam, alternadamente, a um e outro lado.

Geralmente jantavam em casa dos pais do noivo no dia do casamento e iam almoçar, no dia seguinte, a casa dos pais da noiva.

Depois do jantar a totalidade dos convidados, o resto do povo, sobretudo os solteiros e os mais jovens, bem como a rapaziada de aldeias vizinhas, confluíam para o local do descante, onde um acordeonista, escolhido a preceito, abrilhantaria o baile, que só acabaria alta madrugada de domingo.

Mas, pela tarde adiante, recomeçaria, até alta madrugada e, igualmente, na noite de segunda-feira.

Em cada descante começaram a desenhar-se muitas outras bodas.

A matança dos porcos - quase todas as casas matavam mais de um animal – que foram sendo alimentados com os restos das viandas da panela e com a farinha do milho cultivado nas hortas, era uma festa mais restrita.

Convidavam-se os filhos já casados, os irmãos e família e os compadres, para ajudarem aos preparativos e nos serviços da matança, que tinha lugar, normalmente, numa segunda-feira, e na desmancha que acontecia no dia seguinte.

Antes do acto em si, já estava preparado o banco de castanho ou azinho, formado por uma grande prancha, com quatro pés, também de madeira, o alguidar para recolher o sangue, os molhos de carquejas para queimar sobre a pele, o chambaril para enfiar nos tendões das patas de trás e suportar o porco, pendurado de um barrote da despensa, para escorrer e secar, até ao dia seguinte.

Antes, após a passagem com carquejas a arder e raspagem e limpeza da pele, abria-se o porco e retiravam-se as vísceras, separando-se, de seguida, as tripas para os tabuleiros de madeira, que, à cabeça das mulheres, eram conduzidos para a ribeira, onde, com água corrente e sumo de laranja, eram lavadas e preparadas para nelas serem cheias as morcelas, os chouriços, as mouras, os paios, as paiolas e os buchos.

A primeira coisa a encher eram as morcelas de assar, apontadas de sal, bem apuradinhas de cominhos, eram assadas, na lareira, ao serão do dia da matança.
Pelas duas da tarde, na hora oficial, como se dizia, jantava-se. Um farto cozido à portuguesa, já com umas abas de toucinho novo, couves e batatas da horta, e enchidos ainda do ano anterior.

Vinho da casa e pão de trigo cozido no forno de lenha. A cozedura do pão tinha lugar na quinta, ou sexta-feira, sendo os pães guardados na arca do cereal, embrulhados em pano de linho.

Como é gratificante recordar todos estes rituais e iguarias e saborear todos aqueles aromas e sabores que mais de meio século não foi capaz de apagar na nossa memória! Com mais de meio mundo percorrido, é formidável a força das pequenas grandes coisas que nos aconteceram, naturalmente, e acabaram por deixar marcas tão indeléveis que hão-de resistir a tudo e todas as sensações posteriores, por mais fortes que tenham sido.

A malha tinha, também, o seu quê de peculiar, pela envolvência de preparos e pelo que implicava de esforço humano, ou até, em boa verdade, sobre-humano.

Desde a sementeira, monda, ceifa, transporte para a eira, marcação de vez para fazer a malha, combinação com os malhadores e demais gente auxiliar, tudo o que tinha de conjugar-se constituía um ritual, sempre repetido e novo a cada ano, que transformava o dia da malha numa festa, marcante da vida rural.

Os negócios eram outro dos acontecimentos de maior relevância na vida das famílias, nos longínquos anos cinquenta. Quer se tratasse de vender, quer fosse uma aquisição para o património da casa, era ponto de honra dos homens daqueles tempos.

E não eram necessários contratos nem escrituras para substituir a palavra.
Nunca mais esqueci a máxima do meu avô: os homens inventaram o papel selado quando aprenderam a mentir; aqui para nós ainda não é preciso e mesmo as testemunhas são também dispensadas quando há honra que chegue. Pode beber-se um copo, para selar, ou comemorar, ou o que se queira; mas homem que é homem não volta com a palavra atrás. 

É por isso que eu, às vezes, na horta, penso que gostava que fosses advogado, mas, por mim, não te governavas; talvez professor me calhasse melhor: deve ser bonito ensinar uma criatura a ser alguém; mostrar-lhe aquilo que deve perseguir na vida e, o que é mais importante e nós nunca tivemos, dar-lhe ferramentas para fazer a obra: livros, lápis e canetas, em vez de enxadões, picaretas e marrões.

Um negócio era um ritual fantástico: ou porque se tivesse alguma coisa para vender e se esperasse, com isso, um lucro e beneficio, ou, sendo comprador, se tinha oportunidade de bem valorizar o que tanto trabalho tinha dado a juntar – o dinheiro -.

A relação com o dinheiro era completamente diferente da actual; por diversas razões: dinheiro era sinal de poder, sossego e desafogo de vida e, até sensação de respeito e subserviência pelos que o não tinham. 

Havia muito pouco dinheiro a circular: interessava um certo controlo sobre o hermetismo social, o peso das superstições, o desconhecimento do mundo e da civilização.

O conceito de quanto mais estúpidos e ignorantes melhor os dominamos, atribuído a quem encarnava o atraso e o obscurantismo, estava arreigado na sociedade.

Muitas famílias tinham as arcas cheias de milho e feijão, os sobrados e as lojas cobertas de batatas e não lhes faltava mel, azeite e vinho nos tonéis, mas não havia quem comprasse, nem quem vendesse e acabavam por se nivelar com aqueles que viviam do pouco que podiam ganhar, implorando as jornas que ninguém pagava e muito menos a preço compensador. 

O que resultava deste estado de coisas? Os mais abastados iam acumulando pecúlio, paulatinamente, mas em constância, pois não gastavam.

Todos os anos, ou porque tivessem alguma coisa no meio das suas courelas, ou porque o preço fosse muito tentador, ou porque dinheiro parado, apesar de pouco, era perigo de roubo, de fogo, de desvalorização, iam comprando mais uma leira, uma vinha, uma courela.

Terra, sempre terra, que deixava de pertencer aqueles que menos tinham. Isto apegava os filhos à terra, enterrava os que dela viviam, diminuía os horizontes.

Foi, num dia em que meu avô foi visitado por um homenzito da Aboboreira, oferecendo uma hortita, com abundância de água, boa de mimos da casa e com uma courelita de pinheiros, que o ouvi dizer-me: estás a ver, o teu pai nem cá está e eu não costumo fazer nada sem o consultar, mas pelo que o homem conta, aquilo é dado. E, se não for para nós, será para outro. Só os pinheiros que tem em riba valem metade daquilo que o homem pede ...

Cinco contos de réis é o que lhe posso oferecer, se tudo for como me disse. Amanhã, ao nascer do sol, o meu genro, estará lá no local, com um conto de réis de sinal e se for como você disse, compramos a hortita. Não precisamos dela, não temos nada para aqueles lados, mas não quero deixar de agradecer-lhe as passadas até nossa casa. A escritura poderá ser quando quiser e na altura receberá o resto. Pense bem, mas os sete contos que pede, não lhe vamos dar! 

Fale depois com o meu Amorim, sabe quem é, não sabe?

Sei, perfeitamente e vomecês também me conhecem; lá a vizinha de baixo, a sua comadre Joaquina Estrega, deu-me as melhores referências a vosso respeito. E o seu nome, Ti Zé Lourinho, chega para honrar o que me acaba de dizer.

Se resolver qualquer coisa, em contrário, passo palavra antes do pôr-do-sol; se nada disser, até à noite, lá me encontrarei com o seu genro, amanhã, de manhã. E espero que ele vá mais animado que o que me disseram as suas palavras.

Lá na Aboboreira não temos palavra de rei; espero que cá na Serra seja da mesma maneira. Então até amanhã, Ti’Zé; isto fica entre nós, entendidos! Até mais ver e obrigado por tudo.

Na manhã seguinte lá estava o meu pai, antes de nascer o sol.

Pelas indicações conseguiu localizar, facilmente, a propriedade e ficou admirado com o que viu: uma boa nascente de água, na represa, umas duas dúzias de pinheiros sangrados, atravessada pelo caminho que liga Aboboreira à estrada nacional e uma hortita bem tratada. Podia avançar até aos seis contos, conforme combinado com meu avô, mas era preciso negociar. E, por isso, ali estava. 

Pouco depois chegou o vendedor e logo foram direitos ao assunto: meu pai lá foi dizendo que terras tinham até demais e gente para trabalhar seria, ao que parecia, cada vez menos. Os rapazes já estavam no colégio e a menina, se Deus quisesse havia de ir, também. Mas o sogro lá sabia e era ele quem dirigia; estava ali para resolverem o assunto. Já dera por ali uma voltita e se não estivesse enganado nas estremas, estava tudo como dissera ao seu sogro. 

Assim é, senhor Amorim; vendo porque tive aí uma necessidade inesperada, por causa duma enrascada em que me meteram e preciso, urgentemente de algum dinheiro.

Sei que talvez pudesse receber mais alguma coisa, mas preciso negociar com quem tenha poder para me pagar depressa o que me parece ser o caso, segundo me disse o Ti’Zé Lourinho, seu sogro.

Eu peço os sete contos de réis e parece-me que está aqui bem à vista o valor; espero que venha mais animado que as palavras que me disse o seu sogro.

Olhe, senhor António, por mim já não comprava mais nada: os investimentos, agora são outros. Olhe que três filhos a estudar, custam os olhos da cara e o que estamos a oferecer-lhes é bem mais valioso que todas estas courelas até ao cimo do vale.

Seja ou não, foi o caminho que escolhemos para os meus filhos e, quer eu, quer o meu sogro e avô deles, iremos até onde eles forem capazes. Por isso, meu amigo, já está a ver o meu interesse.

Deus ajude pais e avós que tão bem sabem e podem dirigir o futuro dos seus. Mas isto aqui é um bom investimento; daqui a meia dúzia de anos mesmo que corte agora os sangrados, dá corte que vale a meia dúzia de contos da compra. 

Bem, o que está dito, está dito! Pelos cinco contos é nossa!

Espere, Ti’Amorim, vomecês têm palavra de rei? Vá lá, pelos seis e meio!

Por mim ficava onde estamos mas, vá lá, damos mais quinhentos mil réis.

Ti’Amorim, acabemos com isto: racha-se ao meio e pronto. São os seis contos de réis e não se fala mais nisso. Ela já ouviu mais, mas o comprador só podia pagar-me daqui a um ano e, como eu tenho compromissos urgentes, fecho os olhos.

Vou marcar a escritura. Agora dá-me um conto de sinal, pois preciso desse dinheiro dentro de três dias, e o resto será no acto da escritura.

Meu pai, estendeu a mão e disse: fechado! Vamos a casa da comadre Joaquina, para lhe passar o sinal, na frente de testemunhas.

Não Ti’Amorim; trago um papel, assinado também pela minha mulher, Maria Rosa. Só falta pôr o valor da venda. O resto é o combinado, no acto da escritura.

O meu pai, não se desmanchou. Olhou o documento e sem que pudesse lê-lo, pois não sabia fazê-lo, aceitou a palavra do homem e, logo que chegou à Serra foi a casa do compadre Jesuvino, mandar ler o documento, que dizia: António Mendes Moleiro e mulher, Maria Rosa Palhota, casados, moradores em Aboboreira, declaram que vendem ao senhor José Lourinho, da Serra, a sua propriedade no cimo do vale, confrontando a poente e a nascente com Adriano Guilherme dos Reis, pelo valor de seis contos de réis.

Declaram que receberam, de sinal, um conto de réis e o resto será pago no acto da escritura. Aboboreira, 12 de Setembro 1957. Ass.: António Mendes Moleiro e por Joaquim Mendes Passarão, a rogo da Maria Rosa por esta não saber assinar. 

Este papel foi guardado pelo meu avô enquanto foi vivo e, mais tarde, pelo meu pai, como lembrança da última compra de propriedades.

Dali em diante todos os rendimentos da nossa casa foram canalizados para três estudantes que foram na vida até onde seus pais e avós nunca puderam subir, dando-lhes a satisfação de terem feito tudo o que puderam e esquecendo todas as censuras a que foram sujeitos pelos seus amigos daquela aldeia recôndita, onde nasceram e se criaram.